Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira

Introdução

 

Este livro trata de Oswaldo Cruz. Não é uma biografia, porém parte de biografias e de uma extensa bibliografia às quais pode-se imputar a construção de uma imagem pública de Oswaldo Cruz. Assim, importa menos o homem do que o lugar que ele ocupa no

imaginário coletivo 1.

Esta literatura, a qual intitulei de hagiografia oswaldiana, tem origem no círculo médico próximo de Oswaldo Cruz. Produzida após a sua morte, em 1917, constitui um conjunto significativo de testemunhos que, ao lado de festividades organizadas com o propósito de marcar a sua presença e eternizá-la, contribuiu para cristalizar determinadas imagens às quais associa-se a figura mitificada de Oswaldo Cruz, conhecida até hoje.

Oswaldo Cruz é um mito porque retratado não apenas como um herói da nacionalidade, o bandeirante que fincou os alicerces da Nação, mas em quem vislumbram-se qualidades divinas e sagradas, sendo reconhecido entre outras metáforas como o salvador, o apóstolo da ciência.

A heroificação de que Oswaldo Cruz foi objeto consiste num processo iniciado com a sua morte e imediatamente associado ao movimento sanitarista representado pela criação da Liga Pró-Saneamento do Brasil em 1918, difundindo-se a partir de então de forma difusa, mas não menos significativa.

De fato, o movimento sanitarista foi um veículo poderoso de que não se pode dissociar o mito. Médicos e higienistas – como eram denominados os sanitaristas na época – constituem desde então a base social de sustentação de um discurso cujo atributo principal é o de conferir legitimidade às suas ações e interesses científico-políticos.

O tema da legitimidade científica foi obscurecido pela literatura que trata as relações entre medicina e sociedade no Brasil no século XIX e no início do XX. Predominou nestes trabalhos uma tendência a caracterizar a medicina como poder disciplinar, e os médicos como formuladores de uma estratégia de medicalização destinada a preparar e organizar as populações urbanas para as novas relações sociais decorrentes do sistema capitalista.

Esta concepção, apresentada de forma pioneira pelo estudo de Roberto Machado (Machado et al., 1978) sobre o tema, ao lado de outros trabalhos que seguem a mesma abordagem (Luz, 1979; Costa, 1979), instituiu um paradigma que marcou as análises posteriores a respeito da medicina social e das políticas de saúde

no Brasil2.

Por outro lado, no campo da história da ciência no Brasil, o tema da legitimidade aparece como uma questão subjacente às ações da comunidade científica que, ante as oscilações do ambiente social nem sempre favorável ao florescimento científico – característica dos países subdesenvolvidos –, cumpre um papel essencial no

processo de institucionalização de suas atividades 3.

Mais próximo da orientação que imprimi a este trabalho, o tema da legitimação é tratado na reflexão sobre os mitos da ciência desenvolvida por Schwartzman (1981). Neste trabalho a questão é identificada com a ideologia cientificista que proclama a utilidade social da ciência – o mito do progresso social –, a qual representa um ingrediente indispensável à cultura de todas as sociedades em que a ciência surgiu como atividade significativa. O mito do progresso social é uma crença constitutiva da institucionalização da atividade científica, pois gera valores positivos e justificativas necessárias à sua aceitação e ao apoio que a ciência exige para implantar-se e desenvolver-se.

A esta sugestão de tratar a legitimidade como uma ideologia, acrescentou-se a análise sobre a construção do mito de Oswaldo Cruz na perspectiva introduzida por Pierre Bourdieu ao tratar do campo científico, na qual ela aparece como uma questão própria à dinâmica das relações sociais do campo. Conforme o autor, o campo científico caracteriza-se pela luta concorrencial travada entre os pares, a qual visa à posse do capital científico, isto é, a autoridade científica sobre uma área de conhecimento ou disciplina. Esta autoridade, outorgada socialmente a um agente determinado, significa simultaneamente capacidade técnica e poder social, conferindo-lhe a possibilidade de falar e agir legitimamente (isto é, de maneira autorizada e com autoridade) (Cf. Bourdieu, 1983:24, 122).

Trata-se então de uma luta simbólica em que está em jogo a conquista ou a defesa do monopólio do exercício legítimo de uma atividade científica e do poder de conferir ou recusar a legitimidade às atividades concorrentes. Ou seja, para Bourdieu a noção de legitimidade científica é indissociada da luta simbólica que envolve grupos de status com idéias e interesses diferentes, e que corresponde a situações divergentes na hierarquia dos graus de consagração do campo.

Em outras palavras, a legitimidade implica o reconhecimento da diferença, num ato de distinção que é subjacente às relações entre os cientistas, e que diz respeito à identidade cultural de um grupo (Cf. Bourdieu, 1983:168-171).

Desse modo, é possível relativizar e estabelecer algumas diferenças em relação às perspectivas acima mencionadas, no que diz respeito, sobretudo, à visão adotada aqui sobre os médicos. Primeiro, em vez de definir o seu papel social numa relação de exterioridade com suas concepções, interesses e práticas, consideramos que suas ações e pensamento devem ser remetidas prioritariamente ao lugar que ocupam na hierarquia social do campo médico, sendo considerados, portanto, como agentes de seus próprios interesses.

Embora concorde com a sugestão de Bourdieu, de que os interesses dos cientistas se constituem na luta concorrencial no campo, isto não significa imputar a estes interesses um grau de impermeabilidade absoluto, sendo possível verificar, no caso que analiso, a confluência de projetos dos médicos e de outros setores sociais, assim como a sua abertura aos apelos do mundo da política.

Em segundo lugar, contradizendo a noção difundida pela literatura a que me referi acima, de que os médicos formavam um corpo homogêneo e orgânico devotado à causa normalizadora, considero que a tônica das relações internas ao campo era dada por conflitos que inviabilizavam a sua organização corporativa e política.

Assim, analiso a construção do mito de Oswaldo Cruz como uma estratégia de legitimação da prática médico-científica, identificada institucionalmente com o Instituto Oswaldo Cruz, que visava à superação das dissenções que entrecortavam o campo, dividido entre as diferentes práticas representadas pela clínica, higiene e medicina experimental. Como veremos adiante, o grau de conflito existente entre os médicos inviabilizava a organização de qualquer movimento com pretensões de natureza política que precisaria obter uma base de apoio a mais ampla possível para realizá-las, representando parte significativa, senão todas as principais instituições científicas do campo médico.

A unificação de certos setores da categoria médica em torno da idéia do saneamento rural e da relevância científica das doenças endêmicas possibilitou a organização do movimento sanitarista, representado pela criação da Liga Pró-Saneamento do Brasil em 1918.

Nesse sentido, é surpreendente a amplitude das adesões obtidas por este movimento fora e dentro do círculo médico. Como se pode observar na ata de fundação da Liga Pró-Saneamento, constam as assinaturas de eminentes políticos da época, como o presidente Venceslau Brás, os senadores Paulo de Frontin, Epitácio Pessoa e Afrânio de Melo Franco, e de altas patentes militares como o marechal Rondon e os generais Ismael da Rocha e Lauro Muller, além de outras figuras notáveis.

No entanto, o maior número de simpatizantes é constituído por médicos e higienistas, em que figuravam nomes dos mais representativos da categoria como, por exemplo, o do presidente da Academia Nacional de Medicina, Miguel Couto, ou o do higienista, escritor e professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, Afrânio Peixoto.

A lista de nomes ilustres e o escopo das adesões sugere-nos que o movimento alcançou um alto índice de credibilidade entre a categoria, mas também um consenso igualmente elevado em torno de suas principais bandeiras: o combate às endemias rurais e a defesa da centralização dos serviços de saúde.

Tanto mais notável o fato quanto verifica-se a heterogeneidade da composição do agrupamento formado, seja do ponto de vista dos interesses profissionais como dos vínculos institucionais.

O estudo da Liga Pró-Saneamento revela um outro fato surpreendente: a preocupação em construir a história do movimento.

Esta preocupação explicitada pelos articulistas da revista Saúde, periódico da Liga publicado durante 1918 e 1919, resultou no estabelecimento de uma ordenação cronológica e na concatenação de determinados fatos e eventos que tornassem legível a origem e a história da idéia do saneamento rural no Brasil.

A narrativa sobre o passado constrói uma periodização que identifica o saneamento com a trajetória institucional do Instituto Oswaldo Cruz. Distinguem-se, então, duas fases: a primeira denominada de científica, e a segunda, de patriótica. Em relação à primeira fase, embora se reconhecesse que as endemias rurais não constituíam uma prerrogativa das pesquisas do Instituto – registrando-se o envolvimento de outros médicos e instituições, como a Fundação Rockefeller, interessada no combate à ancilostomose –, destacava-se o seu papel. Assinalava-se o conjunto de pesquisas desencadeadas pelas “viagens científicas” em várias regiões do interior do país transcorridos entre 1911 e 1913, que foram consideradas os pilares científicos sobre os quais ergueu-se a campanha do saneamento.

Segundo o médico e higienista Belisário Pena, presidente da Liga Pró-Saneamento, o retrato do Brasil captado pelos cientistas de Manguinhos teria revelado a verdade dos fatos, traduzível em dados estatísticos inquestionáveis: “a população brasileira, sobretudo a rural, está inutilizada por doenças endêmicas evitáveis em 50% do seu total, e seriamente prejudicada, horrivelmente degradada em 50%” (Pena, 1919:218).

Não havia exagero na revelação da realidade e tampouco qualquer pessimismo, na medida em que a ciência poderia solucionar os problemas denunciados. De fato, nisso residia a virtude dos que lutavam pela política sanitária, movidos por “desassombrado patriotismo”, e tendo como meta “a conscientização do país” a respeito de seus problemas e soluções (Pena, 1919:222).

De acordo com a periodização proposta, a fase patriótica correspondia ao presente, tendo como marco a criação da Liga Pró-Saneamento e a estruturação da campanha pelo saneamento rural. Note-se, porém, que um fato anterior é enaltecido como um antecedente fundamental: o pronunciamento de Miguel Pereira, um dos mais notórios catedráticos da Faculdade de Medicina, durante um jantar de homenagem ao cientista Carlos Chagas em 1916, quando se referiu de forma metafórica às condições de saúde do país: “O Brasil é um imenso hospital”. O discurso foi tomado como um sinal de adesão de Miguel Pereira à causa do saneamento rural e a frase tornou-se emblemática do movimento.

Segundo Belisário Pena, o discurso o sensibilizara para a idéia de organizar uma campanha pública pelo saneamento rural, sendo responsável também por sua filiação a várias entidades nacionalistas da época, como a Liga de Defesa Nacional, a Liga contra o Analfabetismo e a Sociedade de Eugenia de São Paulo. Belisário Pena relata que a partir daquele momento passa a escrever artigos em jornais e a realizar conferências a fim de divulgar a sua experiência como participante das via-gens científicas realizadas pelo Instituto Oswaldo Cruz, nas quais adquirira consciência das condições de vida da “população do trabalho (...)

apalpando a miséria e a doença” (Pena, 1919:225)4.

Saneamento do Brasil, livro em que Belisário Pena sintetizou as principais concepções e propostas de reforma na saúde pública, foi lançado em janeiro de 1918, e segundo o autor representava a pedra fundamental da Liga Pós-Saneamento, fundada um mês após.

Assim, a narrativa histórica sobre o surgimento do saneamento rural organiza uma sucessão de eventos e ressalta a participação de pessoas e instituições: inicia-se com o Instituto Oswaldo Cruz, passa pelos médicos da Faculdade de Medicina (em destaque, Miguel Pereira), chegando a Belisário Pena. Tudo se passa como se houvesse uma relação necessária e inevitável entre todos estes fatos, que somente reunidos adquirem um sentido e uma finalidade.

Aliás, intencionalidade é o que não falta a esta narrativa, que pode ser considerada como uma espécie de memória coletiva referida à

história vivida 5. O cuidado em descrever uma linha de continuidade entre passado e presente constitui um artifício engenhoso a fim de justificar as ações atuais.

Ao caracterizar a trajetória profissional de seus integrantes num destino comum e compartilhado, sobressai também a intenção de estabelecer e sedimentar laços de identidade entre todos aqueles

médicos que advogavam a causa do saneamento rural6.

Um dos aspectos mais reveladores dos interesses e dos objetivos que motivavam a ação dos integrantes do movimento é a surpreendente manipulação de uma linguagem rica em símbolos e metáforas que conduz a narrativa à sua articulação central: o mito de origem do saneamento rural é identificado com Oswaldo Cruz e com a criação de seu instituto de pesquisas, visto como o umbral da medicina científica no país.

Nesse sentido, verificamos uma representação primordial da qual decorrem todas as demais: Oswaldo Cruz, escolhido patrono da Liga, é reconhecido como o fundador da higiene científica e o criador de uma escola de onde surgiram mestres abalizados que “levam a todos os pontos do país a verdade, destruindo a rotina e o empirismo”.

Oswaldo Cruz é objeto de uma profusão de imagens que põem em evidência tanto a idealização do cientista como a valorização de seus herdeiros ou discípulos. Nesse sentido, a ciência constitui, simultaneamente, um elemento justificador da campanha do saneamento rural e na definição da auto-imagem do grupo.

Os argumentos que servem à justificação das propostas da Liga organizam-se a partir de uma representação da ciência, que a toma como uma atividade útil à sociedade e, mais do que isso, como a alavanca primordial de seu futuro desenvolvimento. Esta posição está manifesta nas palavras inflamadas do presidente da Liga-Pró-Saneamento:

Daí a fundação da Liga Pró-Saneamento do Brasil, sob a

proteção da memória de Oswaldo Cruz, o clarividente patriota

precursor do saneamento do Brasil; quem fundou o Instituto de

Patologia Experimental, que recebeu o seu nome glorioso e

imortal, e onde se construíram os sólidos alicerces da santa

cruzada, e se preparam os obreiros destemidos desta obra

colossal de salvação de um povo, de regeneração de uma raça

(Pena, 1919:230).

Pretendo neste estudo demonstrar que o movimento pelo saneamento rural organizou o consenso necessário para a ação política, usando para isso a imagem de Oswaldo Cruz. Este, após a morte, em fevereiro de 1917, tornou-se objeto de um processo de heroificação que visava legitimar o movimento e, ao mesmo tempo, pacificar as dissenções do Instituto Oswaldo Cruz, agravadas com a perda de sua principal liderança e que ameaçavam a sua estabilidade. Como poderia o movimento organizar-se sem o consenso necessário para a ação política? Como conquistar apoios sem legitimidade social?

Do meu ponto de vista, estes foram os principais dilemas enfrentados pelos médicos e sanitaristas, de dentro e de fora do Instituto Oswaldo Cruz, cujo projeto político e científico se viu ameaçado com o desaparecimento de sua mais importante fonte de legitimidade.

Médicos e higienistas, a fim de organizarem-se e concorrerem no terreno político-ideológico com outras forças sociais, lançaram mão de um poderoso instrumento simbólico: a figura idealizada de Oswaldo Cruz, que, morto, converteu-se num símbolo capaz de catalisar e aglutinar o movimento sanitarista.

A constatação da perenidade do mito de Oswaldo Cruz na atualidade, a evocação de seu nome em solenidades cívicas ou em movimentos políticos por reformas na saúde brasileira constituíram

um bom motivo para o desenvolvimento deste estudo 7.

Tal importância social contrasta com um certo descaso acadêmico pelo assunto. Salvo engano, não há referências na literatura especializada sobre a ciência e a saúde no Brasil; no máximo, registra-se o fato, e, via de regra, refere-se ao mito como uma decorrência da realidade empírica, isto é, identifica-se a heroificação com o reconhecimento social obtido por Oswaldo Cruz a partir do sucesso de suas campanhas sanitárias na cidade do Rio de Janeiro.

Em outras palavras, o mito seria decorrente de um julgamento público favorável às suas ações e a determinados empreendimentos científicos de seu instituto de pesquisas. Desse modo, incorre-se num tipo de naturalização, como se a biografia consistisse em uma dimensão suficiente que contivesse elementos plausíveis para a explicação do fenômeno.

A relação entre história e mito constitui um desafio à reconstrução histórica e à análise sociológica, pois significa enfrentar um fenômeno cuja maior propriedade seja, talvez, a de embaralhar estas dimensões.

Muitos estudiosos têm se dedicado ao tema. Entre estes, vali-me dos trabalhos de Raoul Girardet (1987) e José Murilo de Carvalho (1990) sobre mitos políticos, que ofereceram contribuições valiosas para a interpretação que elaborei sobre o mito de Oswaldo Cruz.

Em primeiro lugar, é preciso referir que os autores consideram impossível traçar uma linha de demarcação precisa entre a fabulação legendária e o relato de ordem histórica. Porém, ambos assinalam que as construções mitológicas, quando relativas a pessoas humanas, guardam de alguma forma a marca da história.

Assim, para Girardet, diferentemente dos grandes heróis imaginários como Édipo, Fausto ou Don Juan – figuras desenraizadas de qualquer contexto, e por isso sujeitas a sucessivas interpretações –, o processo de heroificação de “um ser de carne e osso, historicamente definível, não poderia fazer esquecer os traços particulares que são os de uma personalidade e de um destino” (Girardet, 1990:81).

Nestes casos, o mito não pode deixar de conservar a marca do personagem em torno do qual ele se constrói, e, tampouco, das circunstâncias historicamente delimitadas nas quais é elaborado, isto porque ele pode constituir-se de um ato voluntário, mas jamais de forma arbitrária.

Carvalho acentua este aspecto, chamando a atenção para o fato de que a heroificação de uma pessoa real pode falhar se o personagem não se prestar a esta transformação. Nesse sentido, é necessário ocorrer uma “transmutação da figura real, a fim de torná-la arquétipo de valores e aspirações coletivas” (Carvalho, 1990:14).

Em outras palavras, embora um símbolo possa se estabelecer a partir de um ato de vontade, jamais se impõe de forma arbitrária. Sua aceitação e eficácia política depende de uma crença comum enraizada no imaginário preexistente ou presente em aspirações e projetos futuros. Se isso não ocorre, “a relação de significado não se estabelece e o símbolo cai no vazio, se não no ridículo” (Carvalho, 1990:13).

Os autores assinalam o caráter coletivo destas construções simbólicas, devendo ser compreendidas como a projeção de ideais e aspirações de determinados grupos sociais, que, por isso, revelam sempre mais sobre a sociedade do que sobre o indivíduo em questão (Cf. Carvalho, 1990:14).

Por ser fruto de uma construção coletiva, o mito é uma espécie de revelador ideológico, o reflexo de um sistema de valores ou de um tipo de mentalidade (Cf. Girardet, 1987:83).

As observações dos autores quanto à versão mitificada de persona-gens reais sugerem que esta é uma complexa operação, que prevê a existência de um delicado equilíbrio entre o real e o imaginário. A narrativa legendária caracteriza-se por uma certa ambigüidade ao demarcar tenuemente as fronteiras entre estas dimensões, exigindo, contudo, a adequação entre o herói e as necessidades de uma sociedade em um dado momento histórico.

Em segundo lugar, ambos chamam a atenção para outro traço significativo das construções mitológicas: a presença visível de certa manipulação voluntária, fato que testemunha um desígnio organizado de fabricação deste tipo de discurso.

Quanto a este aspecto, Girardet comenta que apesar da marca de identificação de um símbolo a um grupo social, é possível que ao longo do tempo ele ganhe uma certa amplitude coletiva, combinando vários sistemas de representações e imagens e constituindo assim uma espécie de encruzilhada do imaginário, onde cruzam-se aspirações e exigências diversas, que são, por vezes, contraditórias (Cf. Girardet, 1987:72-73).

Apesar dos autores assinalarem a complexidade envolvida na relação entre mito e história, consideram essencial nesse tipo de fenômeno compreender como se opera a passagem do histórico ao mítico, ou seja, o processo de heroificação de que resulta a modificação do real e em que ocorre sua absorção pelo imaginário social.

Esta também foi a orientação que imprimi a este trabalho, no qual são visíveis as marcas das reflexões dos autores citados, que auxiliaram a interpretação que construí para o mito de Oswaldo

Cruz8.

Assim, ao contrário da opinião corrente, não acredito que o recurso à biografia de Oswaldo Cruz constitua evidência suficiente para explicar a sua elevação à condição de personagem emblemático da ciência brasileira. Em minha opinião, o mito de Oswaldo Cruz é fruto da fabricação de um discurso cujo atributo essencial é o entrelaçamento de realidade e idealização.

A relação entre estas dimensões é marcada pela tensão; a superposição do real e imaginário constitui, talvez, o mistério e o fascínio destes fenômenos sociais que, assim como a lenda, ocultam o quanto de real e de invenção contêm. Como é possível uma reconstrução histórica da vida e da obra de Oswaldo Cruz que estabeleça uma distinção entre o indivíduo histórico e a figura mítica? Como reconhecer Oswaldo Cruz sem as qualificações que o distinguem como o maior expoente da ciência brasileira? É possível distinguir uma figura histórica real não contaminada pelo discurso mítico?

Desvendar no discurso mitológico o quanto de verdade ou de fantasia contém parece-me uma tentativa vã, posto que qualquer interpretação histórica é constituída de representações. Desse modo, não importa aqui contrapor a história verdadeira à narrativa não-verdadeira, Oswaldo Cruz real em oposição ao idealizado. Mas sim a realidade do mito, ou seja, o processo de uma construção simbólica que atuou positivamente sobre a realidade.

Assim, procurei mostrar como o mito constitui um instrumento poderoso para a superação dos conflitos que impediam a ação coletiva da comunidade de médicos e sanitaristas pertencentes ao Instituto Oswaldo Cruz e às demais instituições de saúde, no período que antecede e sucede à sua morte em 1917.

Enquanto um instrumento de luta política, a mitificação de Oswaldo Cruz viabilizou a ação coletiva em torno de um projeto inovador na época, de mudanças na saúde pública brasileira que, entre outros objetivos, visava combater as doenças endêmicas, como a malária e a doença de Chagas. Além disso, contribuiu para a legitimação do Instituto de Manguinhos, projetando-o de forma ímpar na história das ciências biomédicas em nosso país.

Embora este estudo possa ser remetido às reflexões no campo da historiografia sobre memória coletiva, acredito poder contribuir de modo particular para os debates travados no campo de estudos sociais da ciência, assinalando a importância dos aspectos políticos e das crenças, integrantes da ação e do comportamento dos agentes, no processo de institucionalização da ciência no Brasil.

É necessário à compreensão dos propósitos deste trabalho esclarecer que a periodização estabelecida toma como marco desta construção simbólica a morte de Oswaldo Cruz em 1917, estendendo a análise das fontes até 1974, ano em que vieram à luz publicações comemorativas do centenário de seu nascimento, em 1972, fato coincidente com o sesquicentenário da Independência, que ocorreu nesta data.

Embora tenha privilegiado os textos escritos sobre Oswaldo Cruz entre 1917 e 1922, em que se constroem e se consolidam elementos fundamentais do mito, considerei importante verificar se estes elementos tinham sido atualizados e até quando poderia rastrear a sua presença. Uma orientação inicial e que acabou por prevalecer durante a árdua tarefa de exploração das fontes foi a de rastrear a literatura produzida em função de efemérides nacionais e ligadas a eventos promovidos pelo Instituto Oswaldo Cruz.

De forma alguma pretendi esgotar as referências sobre Oswaldo Cruz, e tampouco consegui abranger a totalidade da literatura produzida pelos médicos e sanitaristas, à qual foi circunscrita a pesquisa, vez que os considerei como os principais construtores do discurso mitológico.

No levantamento e na análise das fontes selecionadas não pretendi constatar graus – crescentes e decrescentes – de mitificação ao longo do tempo. Este tipo de questionamento exigiria uma investigação mais ampla e aprofundada que permitisse verificar se ocorreu um esvaecimento do mito à medida que nos distanciamos do período inicial de sua construção. Observei, no entanto, a perenidade de certas imagens que compõem a figura mitificada de Oswaldo Cruz, não raro evocada até os dias atuais.

Um histórico sucinto da organização e das propostas da Liga Pró-Saneamento, bem como o processo de reconhecimento de Oswaldo Cruz durante seu período de vida, será focalizado no primeiro capítulo. O processo de reconhecimento – que qualifiquei de “conversão” – foi responsável pela organização de um certo consenso a respeito da legitimidade da prática médico-científica de Manguinhos, pilar sobre o qual o movimento sanitarista assentaria suas pretensões de intervir no debate político da época.

No segundo capítulo apresento uma breve narrativa acerca da enfermidade de Oswaldo Cruz e da repercussão de sua morte em fevereiro de 1917. O tema do terceiro capítulo versa sobre as conseqüências do desaparecimento do cientista para a sobrevivência de sua instituição, conseqüências cuja dramaticidade foi exacerbada pelos conflitos internos que dividiam a instituição e ameaçavam a escolha do cientista Carlos Chagas para ocupar o cargo de direção.

No último capítulo abordo a construção do discurso mítico sobre Oswaldo Cruz, fenômeno desencadeado após seu falecimento e vinculado, inicialmente, à organização da Liga Pró-Saneamento do Brasil.

 

1 Este trabalho foi originalmente apresentado como dissertação de mestrado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciência Humanas (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em março de 1992. Sua elaboração dependeu fundamentalmente de seu acolhimento por parte de Paulo Gadelha, diretor da Casa de Oswaldo Cruz, e da condução firme e benevolente de Luiz Antonio Machado, que fez de sua orientação não apenas um meio de troca intelectual, mas um espaço para a construção de uma amizade duradoura.

2 Pelo menos até meados dos anos 80, predominou esta concepção em diversos trabalhos sobre a organização da saúde pública nas três primeiras décadas republicanas. Associa-se a lógica restritiva da ação estatal sobre certas doenças em detrimento de outras, o modelo campanhista, à lógica capitalista de manutenção da força de trabalho e de expansão das atividades econômicas (Costa, 1986; Labra, 1985; Campos, 1986). Para uma revisão crítica de aspectos desenvolvidos nesta literatura, ver Carvalho & Lima, 1992).

3 Os trabalhos pioneiros de Schwartzman (1979) e Stepan (1976) constituem uma referência importante desse tipo de interpretação e, de certo modo, instituem um paradigma de análise que predominou na maioria dos estudos sobre a institucionalização da ciência no Brasil. Nessa perspectiva, a origem e desenvolvimento da chamada medicina experimental – isto é, a pesquisa de laboratório na área biomédica – é interpretada como uma conseqüência do ambiente social satisfatório à ciência no início do século. Diz-se que, sob a ameaça constante de surtos epidêmicos que incidiam sobre os principais centros do país, o Estado teria tomado iniciativas que vieram beneficiar a atividade científica e o desenvolvimento de instituições de pesquisa no país, como demonstra o caso de institucionalização bemsucedida do Instituto Oswaldo Cruz.

4 Belisário Pena participou em diferentes ocasiões das experiências que o Instituto Oswaldo Cruz realizou: em 1907, com Carlos Chagas ao norte de Minas Gerais na profilaxia da malária junto aos trabalhos de prolongamento da Estrada de Ferro Central do Brasil; em julho de 1910 acompanhou Oswaldo Cruz à Amazônia a serviço da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré para elaborar um plano de profilaxia da malária; e em 1912 acompanhou o cientista Artur Neiva numa das maiores expedições científicas realizadas pelo Instituto, que percorreu as regiões Nordeste e Centro-Oeste do país.

5 A distinção entre história e memória coletiva segue aqui a orientação dada por Maurice Halbwachs, que diferencia o passado vivido do passado aprendido pela história, o qual serve de suporte àquela (Halbwachs, 1990:71).

6 A tendência atual dos estudos sobre memória coletiva é explorar os processos e os atores que intervêm em sua constituição e formalização. Autores como Michel Pollack e Jacques Le Goff adotam esta perspectiva e enfatizam a existência de uma multiplicidade de memórias em concorrência, pondo em evidência o caráter construtivo, oscilante e político de uma operação que é sempre coletiva e visa salvaguardar acontecimentos pela reinterpretação constante do passado diante dos combates do presente e do futuro. Nesse sentido, o trabalho de enquadramento da memória traduz-se em tentativas mais ou menos conscientes de definir e reforçar sentimentos de pertencimento e fronteiras sociais entre os grupos (Cf. Pollack, 1989:9, Le Goff, 1990:476).

7 A obra biográfica de cunho ficcional recentemente escrita pelo romancista e médico (sanitarista) Moacyr Scliar demonstra a vitalidade do assunto e o interesse que ainda desperta. Ver Scliar, 1992.

8 O trabalho do historiador Peter Burke sobre Luís XIV, publicado em 1994, segue abordagem semelhante à dos autores mencionados, não tendo sido consultado visto que sua elaboração foi contemporânea a este estudo.