Pai Rico, Pai Pobre
Capítulo um · Pai rico, Pai pobre
por Robert Kiyosaki
Tive dois pais, um rico e outro pobre. Um era muito instruído e inteligente; tinha o Ph.D. e fizera um curso universitário de graduação, com duração de quatro anos, em menos de dois. Foi então para a Universidade de Stanford, para a Universidade de Chicago e para a Northwestern University, sempre com bolsa de estudos. O outro pai nunca concluiu o segundo grau.
Ambos foram homens bem-sucedidos em suas carreiras e trabalharam arduamente durante toda a vida. Ambos auferiam rendas consideráveis. Contudo, um sempre enfrentou dificuldades financeiras. O outro se tornou o homem mais rico do Havaí. Um morreu deixando milhões de dólares para sua família, para instituições de caridade e para sua igreja. O outro deixou contas a pagar.
Ambos eram homens fortes, carismáticos e influentes. Ambos me ofereceram conselhos, mas não aconselharam as mesmas coisas. Ambos acreditavam firmemente na instrução mas não sugeriram os mesmos estudos.
Se eu tivesse tido um único pai, teria tido que aceitar ou rejeitar seus conselhos. Tendo dois, tive a escolha entre pontos de vista contrastantes; a visão de um homem rico e a visão de um homem pobre.
Em vez de aceitar ou rejeitar simplesmente um desses pontos de vista, me descobri pensando mais, comparando-os e escolhendo por mim mesmo.
O problema é que o homem rico ainda não era rico e o homem pobre ainda não era pobre. Ambos estavam no início de suas carreiras e lutavam por dinheiro e família. Mas eles tinham idéias muito diferentes sobre o dinheiro.
Por exemplo, um dos pais dizia: "O amor ao dinheiro é a raiz de todo mal." O outro: "A falta de dinheiro é a raiz de todo mal."
Quando garoto, a influência de dois pais, ambos homens fortes, era uma situação complicada. Eu queria ser um bom filho e ouvia, mas os dois pais não falavam a mesma língua. O contraste entre suas idéias, especialmente no que se referia ao dinheiro, era tão extremo que eu ficava curioso e intrigado. Comecei a pensar profundamente sobre o que cada um deles dizia.
Muito do meu tempo era gasto refletindo, fazendo-me perguntas como "Por que ele fala isso?", a respeito das afirmações dos pais. Teria sido muito mais simples falar "Sim, ele está certo. Concordo com isso". Ou simplesmente rejeitar o ponto de vista dizendo "O velho não sabe do que está falando". Porém, tendo dois pais que eu amava, fui forçado a pensar e a escolher um dos caminhos por mim mesmo. Esse processo de escolher por mim mesmo se mostrou muito valioso no longo prazo, não se tratou simplesmente da aceitação ou da rejeição de um único ponto de vista.
Uma das razões pelas quais os ricos ficam mais ricos, os pobres, mais pobres e a classe média luta com as dívidas é que o assunto dinheiro não é ensinado nem em casa nem na escola. Muitos de nós aprendemos sobre o dinheiro com nossos pais. O que pode dizer um pai pobre a respeito do dinheiro para seu filho? Ele diz simplesmente: "Fique na escola e estude muito." O filho pode se formar com ótimas notas; mas com uma programação financeira e uma mentalidade de pessoa pobre. Isso foi aprendido pelo filho em sua tenra idade.
O dinheiro não é ensinado nas escolas. As escolas se concentram nas habilidades acadêmicas e profissionais mas não nas habilidades financeiras. Isso explica por que médicos, gerentes de banco e contadores inteligentes que tiveram ótimas notas quando estudantes terão problemas financeiros durante toda sua vida. Nossa impressionante dívida nacional se deve em boa medida a políticos e funcionários públicos muito instruídos que tomam decisões financeiras com pouco ou nenhum treinamento na área do dinheiro.
Muitas vezes penso no novo milênio e imagino o que acontecerá quando houver milhões de pessoas precisando de assistência financeira e médica. Eles se tornarão dependentes do apoio financeiro de suas famílias ou do governo. O que acontecerá quando o Medicare e a Seguridade Social ficarem sem dinheiro? Como uma nação sobreviverá se ensinar sobre dinheiro continuar sendo tarefa dos pais - cuja maioria será ou já é pobre?
Como tive dois pais a me influenciar, aprendi com ambos. Tive que refletir sobre os conselhos de cada um deles e ao fazê-lo percebi o poder e o impacto dos nossos pensamentos sobre nossa própria vida. Por exemplo, um pai costumava falar "Não dá para comprar isso". O outro proibia o uso dessas palavras. Insistia em que eu falasse: "O que posso fazer para comprar isso?" Num caso temos uma afirmação, no outro uma pergunta. Um deixa você sem alternativa, o outro obriga você a refletir. Meu pai-que-logo-ficaria-rico explicava que ao falar automaticamente "Não dá para comprar isso" seu cérebro pára de trabalhar. Ao perguntar "O que posso fazer para comprar isso?", você põe seu cérebro trabalhando. Ele não estava dizendo que comprasse tudo o que desejasse. Ele incentivava fanaticamente que exercitasse minha mente, o computador mais poderoso do mundo. "Meu cérebro fica mais forte a cada dia porque eu o exercito. Quanto mais forte fica, mais dinheiro ganho." Ele acreditava que repetir mecanicamente "Não dá para comprar isso" era um sinal de preguiça mental.
Embora ambos os pais trabalhassem com afinco, observei que um deles tinha o hábito de pôr seu cérebro a dormir quando o assunto era dinheiro e o outro tinha o costume de exercitar seu cérebro. O resultado era que, ao longo do tempo, um dos pais ficava mais forte financeiramente, e o outro enfraquecia. Isso não é muito diferente do que ocorre quando uma pessoa faz exercícios físicos regulares enquanto a outra senta no sofá e fica assistindo à televisão. O exercício físico adequado aumenta suas chances de ter boa saúde, e o exercício mental adequado aumenta suas chances de ficar rico. A preguiça reduz tanto a saúde quanto a riqueza.
Meus dois pais tinham atitudes mentais diferentes. Um acreditava que os ricos deviam pagar mais impostos para atender os menos afortunados. O outro dizia: "Os impostos punem os que produzem e recompensam os que não produzem."
Um dos pais recomendava: "Estude arduamente para poder trabalhar em uma boa empresa." O outro falava: "Estude arduamente para poder comprar uma boa empresa."
Um dos pais dizia: "Não sou rico porque tenho filhos." O outro: "Tenho que ser rico por causa de vocês, meus filhos."
Um incentivava as conversas sobre dinheiro e negócios na hora do jantar. O outro proibia que se falasse do assunto durante as refeições.
Um dizia: "Em questões de dinheiro seja cuidadoso, não se arrisque." O outro: "Aprenda a administrar o risco."
Um recomendava: "Nossa casa é nosso maior investimento e nosso maior patrimônio." O outro: "Minha casa é uma dívida e se sua casa for seu maior investimento, você terá problemas."
Ambos os pais pagavam suas contas no prazo, mas um deles pagava suas contas em primeiro lugar enquanto o outro as deixava para a última hora.
Um deles acreditava que a empresa ou o governo deveria cuidar de você e de suas necessidades. Estava sempre preocupado com aumentos salariais, planos de aposentadoria, benefícios médicos, licenças de saúde, férias e outros benefícios. Ele ficava impressionado com dois de seus tios que foram para o exército e se aposentaram com vários benefícios após vinte anos de serviço ativo. Ele adorava a idéia de assistência médica e serviços de reembolso de alimentos que os militares ofereciam a seus aposentados. Ele também se empolgava com as cátedras vitalícias do sistema universitário. A idéia de estabilidade no emprego e benefícios trabalhistas lhe parecia às vezes mais importante do que o próprio emprego. Dizia freqüentemente: "Trabalhei muito para o governo, mereço essas mordomias."
O outro pai acreditava na total auto-suficiência financeira. Ele sempre se manifestava contra a mentalidade dos "direitos" e falava que isso estava criando pessoas fracas e financeiramente necessitadas. Ele dava muita ênfase à competência financeira.
Um dos pais lutava para poupar alguns poucos dólares. O outro simplesmente criava investimentos.
Um pai me ensinou a escrever um currículo impressionante para que eu pudesse encontrar um bom emprego. O outro me ensinou a fazer sólidos planos financeiros e de negócios de modo que eu pudesse criar empregos.
Ter dois pais fortes me proporcionou o luxo de observar o impacto de diferentes formas de pensar sobre a própria vida. Observei que as pessoas moldam suas vidas por meio de seus pensamentos.
Por exemplo, meu pai pobre sempre me dizia: "Nunca vou ficar rico." E isso acabou acontecendo. Meu pai rico, por outro lado, sempre se referia a si próprio como sendo rico. Ele dizia coisas como: "Sou um homem rico e pessoas ricas não fazem isto." Mesmo que estivesse totalmente quebrado após um revés financeiro, ele continuava a se considerar um homem rico. Ele se justificava dizendo: "Há uma diferença entre ser pobre e estar quebrado. Estar quebrado é algo temporário, ser pobre é algo eterno."
Meu pai pobre dizia, "Não ligo para dinheiro" ou "O dinheiro não é importante." Meu pai rico sempre dizia, "Dinheiro é poder".
O poder de nossos pensamentos nunca poderá ser medido ou avaliado, mas desde jovem se tornou óbvio para mim a tomada de consciência de meus pensamentos e da forma como me expressava. Observei que meu pai pobre não era pobre por causa do dinheiro que ganhava, que era bastante, mas por causa de seus pensamentos e ações. Quando garoto, tendo dois pais, me tornei consciente de que deveria ser cuidadoso com os pensamentos que decidisse adotar como meus. A quem ouviria - a meu pai rico ou a meu pai pobre?
Embora ambos tivessem um enorme respeito pela educação e pelo aprendizado, eles discordavam quanto ao que era importante aprender. Um queria que eu estudasse arduamente, me formasse e conseguisse um bom emprego para trabalhar pelo dinheiro. Ele queria que eu estudasse para me tornar um profissional, um advogado ou um contador, ou que fosse a uma escola de negócios para obter um MBA. O outro me incentivava a estudar para ficar rico, para entender como funciona o dinheiro e para aprender como fazê-lo trabalhar para mim. "Não trabalho por dinheiro", costumava repetir uma e outra vez. "O dinheiro trabalha para mim."
Com nove anos de idade resolvi ouvir e aprender com meu pai rico tudo sobre dinheiro. Optei por não dar ouvidos a meu pai pobre, mesmo que fosse ele quem possuísse todos os títulos universitários.
Uma lição de Robert Frost
Robert Frost é meu poeta favorito. Embora goste de muitas de suas poesias, a minha preferida é The Road Not Taken. Quase todos os dias recorro a suas lições:
The road not taken
Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;
Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,
And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads onto way,
I doubted if I should ever come back.
I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence;
Two roads diverged in a wood, and I
I took the one less traveled by,
And that hás made all the difference.
ROBERT FROST, 1916
O caminho não escolhido
Num bosque amarelo dois caminhos se separavam, / E lamentando não poder seguir os dois / E sendo apenas um viajante, fiquei muito tempo parado / E olhei para um deles tão distante quanto pude / Até que se perdia na mata; / Então segui o outro, como sendo mais merecedor, / E vendo talvez melhor direito, / Porque coberto de mato e querendo uso / Embora os que por lá passaram / Os tenham realmente percorrido de igual forma, / E ambos ficaram essa manhã / Com folhas que passo nenhum pisou. / Oh, guardei o primeiro para outro dia! / Embora sabendo como um caminho leva para longe, / Duvidasse que algum dia voltasse novamente. / Direi isto suspirando / Em algum lugar, daqui a muito e muito tempo: / Dois caminhos se separaram em um bosque e eu... / Eu escolhi o menos percorrido / E isso fez toda a diferença. / Robert Frost, 1916
E isso fez toda a diferença.
No correr dos anos pensei muitas vezes no poema de Robert Frost. Ao escolher não dar atenção aos conselhos e atitudes quanto a dinheiro de meu pai muito instruído, tomei uma decisão dolorosa, mas foi uma decisão que determinou o resto de minha vida.
Com a decisão de quanto a quem dar ouvidos, teve início minha educação sobre dinheiro. Meu pai rico me deu lições ao longo de um período de trinta anos, até que cheguei aos 39 anos de idade. Suas lições pararam quando ele percebeu que eu conhecia e entendia plenamente o que ele estava tentando martelar na minha cabeça, às vezes, bastante dura.
O dinheiro é uma forma de poder. Mais poderosa ainda, entretanto, é a instrução financeira. O dinheiro vem e vai, mas se você tiver sido educado quanto ao funcionamento do dinheiro, você adquire poder sobre ele e pode começar a construir riqueza. O motivo pelo qual o simples pensamento positivo não funciona é porque a maioria das pessoas foi à escola e nunca aprendeu como o dinheiro funciona, e assim passam suas vidas trabalhando pelo dinheiro.
Como comecei com apenas nove anos, as lições que meu pai rico me ensinou foram simples. E quando tudo foi dito e tudo foi feito, encontramos apenas seis lições, repetidas ao longo de trinta anos. Este livro trata dessas seis lições, expostas da maneira mais simples possível, da forma como meu pai rico as passou para mim. Estas lições não pretendem ser respostas e sim marcos. Marcos que o ajudarão, a você e a seus filhos, a se tornar mais rico, não importa o que aconteça em um mundo de crescente mudança e incerteza.
Lição l: Os ricos não trabalham pelo dinheiro
Lição 2: Para que alfabetização financeira?
Lição 3: Cuide de seus negócios
Lição 4: A história dos impostos e o poder da sociedade anônima Lição 5: Os ricos inventam dinheiro
Lição 6: Trabalhe para aprender - não trabalhe pelo dinheiro
CAPÍTULO DOIS
Lição l: Os ricos não trabalham pelo dinheiro
- Pai, como é que a gente fica rico?
Meu pai largou o jornal.
- Por que você quer ficar rico, filho?
- Porque a mãe do Jimmy chegou hoje num Cadela novo e eles iam passar o fim de semana na praia. Ele chamou três amiguinhos, mas o Mike e eu não fomos convidados. Eles disseram que não chamavam a gente porque éramos "garotos pobres".
- Falaram isso mesmo? - perguntou meu pai, incrédulo.
- Falaram mesmo - respondi magoado.
Meu pai balançou a cabeça em silêncio, ajeitou os óculos e voltou para a leitura do jornal. Fiquei esperando a resposta.
Era o ano de 1956. Eu tinha nove anos. Por algum golpe de sorte, eu freqüentava a mesma escola pública onde estudavam os filhos dos ricos. A cidade vivia especialmente em função das usinas de açúcar. Os gerentes das usinas e outras pessoas influentes da cidade, como médicos, proprietários de estabelecimentos comerciais e gerentes de bancos, matriculavam seus filhos nessa escola. Terminado o primeiro grau, estes iam em geral para colégios particulares. Eu fazia parte desta escola porque minha família morava num lado da rua. Se morasse do outro lado, eu teria ido para uma escola diferente e meus colegas seriam de famílias mais parecidas com a minha. Concluído o primeiro grau, estes garotos e eu faríamos o segundo grau também em escolas públicas. Não havia colégios particulares para eles ou para mim.
Meu pai finalmente largou o jornal. Senti que estava pensando.
- Filho - começou lentamente. - Se você quiser ficar rico, você tem que aprender a ganhar dinheiro.
- E como ganho dinheiro? - perguntei.
- Use sua cabeça, filho - respondeu sorrindo. O que na verdade queria dizer: "Isso é tudo o que vou lhe dizer" ou "Não sei a resposta, de modo que não me perturbe".
Forma-se uma parceria
Na manhã seguinte, contei para meu melhor amigo, Mike, o que meu pai tinha falado. Tenho a impressão de que Mike e eu éramos os únicos garotos pobres da escola. Também Mike estava nessa escola por um golpe de sorte. Alguém tinha traçado aleatoriamente a linha divisória dos distritos escolares e nós acabamos na escola dos garotos ricos. Não éramos pobres de verdade, mas sentíamos como se fôssemos porque os demais garotos tinham luvas de beisebol novas, bicicletas novas, tudo novo.
Mãe e pai nos davam o básico, comida, teto, roupa. Mas isso era tudo. Meu pai costumava falar: "Se você quiser alguma coisa, trabalhe para obtê-la." Queríamos muitas coisas, mas não havia muito trabalho disponível para garotos de nove anos.
- E então como ganhamos dinheiro? - perguntou Mike.
- Não sei - respondi. - Mas você quer ser meu sócio?
Ele concordou e, naquele sábado de manhã, Mike se tornou meu primeiro sócio nos negócios. Gastamos toda a manhã imaginando formas de ganhar dinheiro. De vez em quando falávamos dos "caras legais" que estavam se divertindo na casa de praia de Jimmy. Sentíamos uma certa mágoa, mas era uma mágoa boa, pois nos inspirou a ficar pensando em como ganhar dinheiro. Finalmente, nessa tarde, um lampejo surgiu em nossas mentes. Era uma idéia que Mike havia tirado de um livro de ciências que lera. Empolgados, demos um aperto de mão e a sociedade agora tinha um objetivo.
Durante as semanas seguintes, Mike e eu percorremos a vizinhança pedindo aos vizinhos que guardassem para nós os tubos vazios de pasta de dentes. Intrigados, muitos adultos concordavam sorrindo. Alguns perguntavam o que estávamos fazendo. Respondíamos: "Não dá para contar, é um segredo de negócios."
Conforme as semanas passavam, mamãe ficava nervosa. Tínhamos escolhido um lugar perto da máquina de lavar roupas para estocar nossa matéria-prima. Numa caixa de papelão, que contivera vidros de molho de tomate, acumulava-se nossa pilha de tubos de pasta de dentes usados.
Finalmente, mamãe deu uma bronca. Não agüentava mais ver aquele monte de tubos espremidos na maior confusão.
- O que vocês estão fazendo, garotos? - perguntou. - E não me venham novamente com a desculpa de que é um segredo de negócios. Dêem um jeito nesta bagunça ou jogo tudo fora.
Mike e eu argumentamos, explicamos que em breve teríamos o suficiente para começar a produção. Dissemos que estávamos esperando que alguns vizinhos acabassem de usar suas pastas para que pudéssemos recolher os tubos. Mamãe nos deu uma semana de prazo.
Antecipamos a data do início da produção. A pressão aumentava. Minha primeira sociedade já estava sendo ameaçada por uma notificação de despejo do nosso armazém, feita por minha própria mãe. Mike se encarregou de apressar o consumo das pastas, informando que os dentistas recomendavam escovação mais freqüente dos dentes. Comecei a instalar a linha de produção.
Um dia meu pai chegou em casa com um amigo para mostrar como "os garotos" operavam a linha de produção a todo vapor, perto da garagem. Por todo o lugar havia uma fina poeira branca. Numa mesa comprida se alinhavam embalagens de leite trazidas da escola e no forno japonês da família as brasas do carvão brilhavam gerando o máximo de calor.
Papai caminhava com cuidado, o carro fora estacionado próximo ao portão da rua porque a linha de produção estava na frente da porta da garagem. Quando ele e seu amigo se aproximaram, viram uma vasilha de aço em cima das brasas, e dentro dela os tubos de pasta de dentes derretiam. Naquela época não havia tubos de pasta de dentes de plástico, eles eram de chumbo. Por isso, depois que a pintura queimava, os tubos dentro da vasilha derretiam até ficarem líquidos. Com a ajuda do pegador de panela da mamãe, nós despejávamos o chumbo derretido através de um pequeno furo nas embalagens de leite, que estavam recheadas de gesso.
O pó branco do gesso que ainda não fora misturado à água estava por toda parte. Com a pressa tínhamos derrubado o saco de gesso e parecia que toda a área fora atingida por uma nevasca. As embalagens de leite vazias serviam para fazer moldes de gesso. Meu pai e seu amigo nos observavam enquanto vertíamos o chumbo derretido num pequeno buraco no topo de um cubo de gesso.
- Cuidado - disse meu pai.
Fiz que sim com a cabeça, sem olhar para cima.
Quando terminei de colocar o chumbo derretido, larguei a vasilha e sorri para meu pai.
- O que vocês estão fazendo? - perguntou com um sorriso cauteloso.
- Estamos fazendo o que você me mandou fazer. Estamos nos tornando ricos - respondi.
- Somos sócios - disse Mike sorrindo e balançando a cabeça.
- E o que há nesses moldes de gesso? - perguntou papai.
- Veja - falei. - Esta vai ser uma boa fornada.
Com um pequeno martelo, bati no selo que dividia o cubo em dois. Com cuidado, puxei a parte de cima do molde de gesso e uma moedinha de chumbo caiu.
- Minha nossa! - falou papai. - Vocês estão cunhando moedinhas de chumbo!
- Certo - falou Mike. - Estamos fazendo o que o senhor disse. Estamos fazendo* dinheiro.
O amigo de meu pai se virou e caiu na gargalhada. Meu pai sorriu e balançou a cabeça. À sua frente estavam, além do fogo e da caixa de tubos de pasta de dentes vazios, dois garotos cobertos por uma poeira branca rindo de orelha a orelha.
Meu pai pediu que largássemos tudo e nos sentássemos com ele no degrau da frente de casa. Sorrindo nos explicou carinhosamente o que significava a palavra "falsificação".
Nossos sonhos estavam desfeitos.
- Você quer dizer que isto é ilegal? - perguntou Mike com um soluço na voz.
- Deixe eles - disse o amigo do meu pai. - Eles podem estar desenvolvendo um talento natural.
Meu pai olhou para ele, furioso.
- Sim, é ilegal - falou papai calmamente. - Mas vocês demonstraram muita criatividade e idéias originais. Continuem, estou orgulhoso de vocês!
Desapontados, Mike e eu ficamos sentados uns vinte minutos antes de começarmos a arrumar a bagunça. O negócio fora encerrado no próprio dia da inauguração. Varrendo a poeira, olhei para Mike e falei:
- Acho que Jimmy e os amigos dele estavam certos. Somos pobres. Quando falei isso meu pai já estava saindo.
- Garotos - falou -, vocês só serão pobres se desistirem. O mais importante é que fizeram alguma coisa. Muitas pessoas falam e sonham em ficar ricas. Vocês fizeram alguma coisa. Estou muito orgulhoso de vocês. Repito. Continuem. Não desistam.
Mike e eu ficamos quietos, calados. Eram palavras simpáticas, mas nós ainda não sabíamos o que fazer.
- Então por que você não é rico, papai? - perguntei.
- Porque resolvi ser professor. Os professores não estão muito preocupados em ficar ricos. Nós gostamos de ensinar. Gostaria de poder ajudar vocês, mas na verdade não sei como ganhar dinheiro.
Em inglês usa-se a mesma expressão para significar fazer e ganhar dinheiro, make money. (N. T.)
Mike e eu voltamos à arrumação.
- E - falou meu pai -, se vocês querem aprender como enriquecer, não perguntem para mim. Falem com seu pai, Mike.
- Meu pai? - perguntou Mike surpreso.
- Sim, seu pai - repetiu papai com um sorriso. - Seu pai e eu temos conta no mesmo banco e o gerente está encantado com seu pai. Ele me disse várias vezes que seu pai é brilhante quando se trata de ganhar dinheiro.
- Meu pai? - repetiu Mike, incrédulo. - Então por que não temos uma casa bonita, um carrão como os garotos ricos da escola?
- Um carrão e uma casa bonita não querem necessariamente dizer que você é rico ou que tem muito dinheiro - respondeu papai. - O pai do Jimmy trabalha na usina. Ele não é muito diferente de mim. Ele trabalha para uma empresa e eu trabalho para o governo. A empresa compra o carro para ele. Se a usina tiver problemas financeiros, o pai do Jimmy pode acabar sem nada. Seu pai é diferente, Mike. Ele parece estar construindo um império e desconfio que em alguns anos ele será um homem muito rico.
Ao ouvir isso, Mike e eu nos empolgamos novamente. Mais dispostos, limpamos a confusão provocada por nosso defunto negócio. Enquanto limpávamos, fazíamos planos sobre quando e onde falar com o pai de Mike. O problema é que o pai de Mike trabalhava muito e, às vezes, chegava muito tarde em casa. Ele era dono de armazéns, de uma empresa de construção, de uma cadeia de lojas e de três restaurantes. Eram os restaurantes que o faziam voltar para casa tarde.
Acabada a limpeza, Mike se despediu. Ele iria falar com seu pai à noite e perguntar se este queria nos ensinar a ficar ricos. Mike prometeu me ligar assim que tivesse uma resposta, mesmo que fosse tarde.
Às 20:30 tocou o telefone.
- OK - falei. - Sábado que vem - e desliguei. O pai de Mike concordara em conversar conosco.
Às 7:30 de sábado, peguei o ônibus para o lado pobre da cidade.
Começam as lições
"Vou pagar a vocês 10 centavos por hora".
Mesmo pêlos padrões de remuneração vigentes em 1956, era pouco. Michael e eu encontramos seu pai às 8:00 daquela manhã. Ele estava ocupado e trabalhando há mais de uma hora. Seu supervisor de construções Já estava saindo na caminhonete quando entrei naquele lar simples, pequeno, arrumado. Mike me esperava na porta.
- Papai está no telefone, e ele falou para esperar na varanda dos fundos - disse Mike ao abrir a porta.
O antigo assoalho de madeira chiou quando passei pela soleira da velha casa. Do lado de fora havia um capacho simples escondendo os muitos anos de uso e os incontáveis passos que suportara. Apesar de limpo, precisava ser substituído.
Quando entrei na sala estreita senti claustrofobia. O cômodo estava mobiliado com móveis que hoje seriam objeto de colecionadores. Duas mulheres estavam sentadas no sofá, eram um pouco mais velhas do que a minha mãe. Em frente às mulheres estava um homem em trajes de trabalhador. Ele vestia calça e camisa caquis, bem passados mas não engomados, e calçava botas de trabalho bem engraxadas. Deveria ser uns dez anos mais velho que papai; diria que tinha uns 45 anos. Eles sorriram quando Mike e eu passamos em direção à cozinha, de onde se saía para um pátio nos fundos. Timidamente devolvi o sorriso.
- Quem são eles? - perguntei.
- Ah, eles trabalham para papai. O mais velho dirige seus armazéns e as mulheres são gerentes dos restaurantes. E você já viu o supervisor das construções, que está trabalhando em um projeto rodoviário, a uns 80 quilômetros daqui. O outro supervisor, que cuida da construção das casas, saiu antes de você chegar.
- Isso acontece o tempo todo? - perguntei.
- Nem sempre mas muitas vezes - disse Mike sorrindo enquanto puxava uma cadeira para sentar perto de mim. - Perguntei ao papai se ele vai nos ensinar a ganhar dinheiro - disse Mike.
- E o que ele respondeu? - perguntei com cautelosa curiosidade.
- Bom, primeiro me encarou com uma expressão engraçada, e então falou que iria nos fazer uma oferta.
- Oh - respondi balançado a cadeira para trás em direção à parede; a cadeira em que sentava se sustentava nos pés de trás. Mike fazia o mesmo.
- Você sabe o que ele vai nos oferecer? - perguntei.
- Não, mas a gente já vai descobrir.
De repente o pai de Mike passou pela porta de tela e pisou no alpendre. Mike e eu pulamos, ficando em pé não por respeito mas pelo susto que levamos.
- Prontos garotos? - perguntou o pai de Mike, puxando uma cadeira para sentar perto de nós.
Fizemos que sim com a cabeça e aproximamos as cadeiras. Ele era um homem grande, com cerca de 1,80 metro e 100 quilos. Meu pai era mais alto, pesava mais ou menos o mesmo e era cinco anos mais velho que o pai de Mike. Eles eram de certo modo parecidos, embora de origens étnicas diferentes. Talvez tivessem energias semelhantes.
- Mike falou que você quer aprender a ganhar dinheiro? E isso mesmo, Robert?
Rapidamente assenti com a cabeça, não sem uma pequena sensação de intimidação. Senti muito poder por trás de suas palavras e de seu sorriso.
- Muito bem, eis a minha oferta. Vou ensinar a vocês, mas não como em uma sala de aula. Vocês trabalham para mim, eu ensino a vocês. Vocês não trabalham para mim, eu não ensino a vocês. Posso ensinar mais rápido se trabalharem, e não fico perdendo tempo se só ficarem sentados escutando, como fazem na escola. Esta é minha oferta. E pegar ou largar.
- Posso fazer uma pergunta ... antes? - falei.
- Não. É pegar ou largar. Tenho trabalho demais para perder tempo. De qualquer modo, se você não puder se decidir logo, não vai aprender nunca a ganhar dinheiro. As oportunidades vêm e vão. Ser capaz de tomar decisões rápidas é uma habilidade importante. Você tem uma oportunidade que pediu. As aulas começam em dez segundos - respondeu o pai de Mike com um sorriso incentivador.
- Topo - respondi.
- Topo - respondeu Mike.
- Bom - falou o pai de Mike -, a senhora Martin vai chegar daqui a dez minutos. Depois que eu conversar com ela, vocês a acompanham até minha lojinha e já podem começar. Vou lhes pagar 10 centavos por hora e vocês terão que trabalhar três horas todo sábado.
- Mas hoje tenho jogo de beisebol - falei.
O pai de Mike abaixou a voz e falou com seriedade.
- E pegar ou largar - disse.
- Topo - respondi, decidindo trabalhar em lugar de jogar beisebol.
30 centavos depois
As 9:00 de uma bela manhã de sábado, Mike e eu estávamos trabalhando para a senhora Martin. Ela era uma mulher bondosa e paciente. Sempre dizia que eu e Mike a lembrávamos de seus dois filhos que já estavam crescidos e não moravam com ela. Apesar de bondosa, ela acreditava no trabalho árduo e nos fazia trabalhar. Era uma chefe rigorosa. Passávamos três horas pegando latas das prateleiras e espanando-as para depois recolocá-las no lugar. Era uma tarefa incrivelmente monótona.
O pai de Mike, que eu chamo de meu pai rico, era dono de nove dessas lojinhas com amplos estacionamentos. Eram as primeiras versões das lojas de conveniência. Nesses pequenos armazéns de bairro as pessoas compravam artigos como leite, pão, manteiga e cigarros. O problema é que no Havaí, e isto aconteceu antes do ar-condicionado, não se podia fechar a porta das lojas por causa do calor. Nestas havia duas amplas portas que davam para a rua e para o estacionamento. Cada vez que um carro passava ou estacionava, levantava poeira que se acumulava nas prateleiras.
Portanto, tínhamos um emprego que duraria enquanto não houvesse ar condicionado.
Durante três semanas Mike e eu comparecemos aos sábados à loja da senhora Martin e trabalhamos durante três horas. Ao meio-dia terminava nosso trabalho e ela nos dava três pratinhas de 10 centavos. Mas nem aos nove anos, em meados da década de 1950, 30 centavos eram algo muito empolgante. Na época um gibi custava 10 centavos, de modo que em geral eu gastava meu dinheiro com revistas em quadrinhos e voltava para casa.
Na quarta-feira da quarta semana, eu já estava a fim de largar. Tinha concordado em trabalhar só porque eu queria aprender a ganhar dinheiro com o pai do Mike, mas agora era um escravo por 10 centavos a hora. E, ainda por cima, não tinha voltado a ver o pai do Mike desde aquele sábado.
- Desisto - falei para Mike na hora do almoço. O almoço da escola era horrível. A escola era monótona e agora já nem podia esperar pêlos sábados. Mas o que estava me perturbando eram os 30 centavos.
Desta vez Mike sorriu.
- De que é que você está rindo? - perguntei zangado e frustrado.
- Papai falou que isso ia acontecer. Ele disse para você procurá-lo quando estivesse a fim de largar.
- O quê? - disse indignado. - Ele está esperando que eu fique saturado?
- Por aí - falou Mike. - O papai é meio diferente, ele ensina de modo diferente do seu pai. Seu pai e sua mãe falam muito. Meu pai é tranqüilo e caladão. Espere até sábado. Vou falar para ele que você está a fim de largar.
- Você está dizendo que eu fui enrolado?
- Não, não é isso, mas pode ser. Papai vai explicar no sábado.
Fazendo fila no sábado
Estava pronto e preparado para enfrentá-lo. Até meu pai de verdade estava furioso com ele. Meu verdadeiro pai, aquele que chamo de pai pobre, pensou que meu pai rico estava infringindo a legislação sobre trabalho de menores e deveria ser investigado.
Meu instruído pai pobre me falou que eu deveria exigir o que merecia. Pelo menos 25 centavos por hora. Falou ainda que se não conseguisse o aumento deveria me demitir imediatamente.
- De qualquer maneira você não precisa dessa droga de emprego falou meu
pai pobre indignado.
Às 8:00 da manhã de sábado eu estava entrando pela velha porta da casa de Mike.
- Sente e espere na fila falou o pai do Mike quando entrei. Ele então se
virou e foi para o pequeno escritório que ficava junto de um quarto de dormir.
Olhei em volta e não vi Mike em lugar algum. Achando tudo meio esquisito, sentei perto daquelas duas mulheres, as mesmas que lá estavam três semanas antes. Elas sorriram e me deram um lugar no sofá.
Passaram-se 45 minutos e eu estava possesso. As duas mulheres já tinham falado com ele e saído há meia hora. Um senhor mais velho ficou lá vinte minutos e foi embora.
A casa estava vazia e eu sentado na sala antiquada, escura, numa bela manhã do Havaí, esperando para falar com um avarento explorador de menores. Podia ouvi-lo se movimentando no escritório, falando ao telefone e me ignorando. Queria sair dali, mas por alguma razão fiquei.
Finalmente, quinze minutos depois, exatamente às 9:00, o pai rico apareceu sem dizer palavra e me fez sinal com a mão para entrar no modesto escritório.
- Parece que você está querendo um aumento ou vai largar - falou pai rico rodando a cadeira giratória.
- Bem, o senhor não está cumprindo sua parte do acordo - falei quase em prantos. Para um garoto de nove anos era de fato apavorante confrontar um adulto. - O senhor falou que, se eu trabalhasse para o senhor, o senhor ia me ensinar. Eu trabalhei. Dei duro. Larguei meus jogos de beisebol para trabalhar. E o senhor não cumpriu sua palavra. Não me ensinou nada. O senhor é um desonesto, como todo o mundo fala. O senhor é ganancioso. O senhor só quer todo o dinheiro e não se preocupa com seus empregados. O senhor me deixou esperando e não me respeita. Eu sou apenas um garoto e mereço ser tratado melhor.
De sua cadeira giratória, as mãos no queixo, o pai rico me fitava. Parecia que estava me estudando.
- E, nada mau - falou. - Em menos de um mês você já se parece com a maioria dos meus empregados.
- O quê? - exclamei. Como não entendia o que ele estava falando continuei reclamando. - Pensei que o senhor ia cumprir sua parte do acordo e me ensinar. Em lugar disso o senhor quer me torturar? Isso é cruel. Muito cruel.
- Estou lhe ensinando - falou calmamente o pai rico.
- O que o senhor me ensinou? Nada! - repliquei furioso. - Nem falou comigo depois que eu aceitei trabalhar por uma merreca. Dez centavos por hora. Eu devia denunciar o senhor ao governo. Existem leis sobre o trabalho infantil, o senhor sabe disso. Meu pai trabalha para o governo.
- Uau! - disse pai rico. - Agora você parece com a maioria das pessoas que trabalharam para mim. Pessoas que eu mandei embora ou que se demitiram.
- O que o senhor tem a me dizer? - questionei, sentindo-me muito corajoso para um moleque. - O senhor mentiu para mim. Trabalhei e o senhor não manteve sua palavra. Não me ensinou nada.
- E como você sabe que não lhe ensinei nada? - perguntou calmamente pai rico.
- Bom, o senhor nunca falou comigo. Trabalhei três semanas e o senhor não me ensinou nada - disse com cara de zangado.
- Ensinar quer dizer falar ou dar uma aula? - perguntou pai rico.
- Sim, lógico - respondi.
- É assim que a escola ensina - ele disse sorrindo. - Mas não é assim que a vida ensina você e eu diria que a vida é o melhor dos mestres. Na maioria das vezes a vida não fala com você. E mais como se ela lhe desse um empurrão. Cada empurrão é a vida dizendo "Acorde. Quero que aprenda alguma coisa".
"Do que este cara está falando?", pensei com meus botões. "A vida me empurrando era a vida falando comigo?" Agora tinha certeza de que deveria largar o emprego. Eu estava falando com alguém que não regulava bem.
- Se você aprender as lições da vida, você vai se dar bem. Se não, a vida vai continuar dando trancos em você. Alguns apenas deixam a vida continuar batendo neles. Outros ficam zangados e batem de volta. Mas eles batem no patrão ou no emprego, no marido ou na mulher. Eles não sabem que é a vida que está batendo.
Eu não tinha a menor idéia do que ele estava falando.
- A vida bate em todos nós. Alguns desistem. Outros lutam. Alguns aprendem a lição e seguem em frente. Eles recebem satisfeitos os trancos da vida. Para estes, isso quer dizer que precisam e querem aprender alguma coisa. Eles aprendem e prosseguem em frente. A maioria desiste e uns poucos, como você, lutam.
Pai rico ficou em pé e fechou a velha janela de madeira que precisava de conserto. Continuou: - Se você aprender esta lição, você se tornará um jovem sábio, rico e feliz. Se você não aprender, passará a vida culpando um emprego, um baixo salário ou seu chefe pêlos seus problemas. Passará sua vida esperando por um golpe de sorte que resolva seus problemas de dinheiro.
Pai rico olhou para mim a fim de verificar se eu ainda estava ouvindo. Seus olhos encontraram os meus. Estabeleceu-se uma comunicação entre nossos olhares. Finalmente, me afastei ao perceber que tinha assimilado esta última mensagem. Sabia que ele estava certo. Eu o estava culpando e eu tinha pedido para aprender. Eu estava lutando.
Pai rico continuou:
- Se for o tipo de pessoa que não tem garra, desistirá toda vez que a vida bater em você. Se for uma pessoa assim, passará sua vida buscando segurança, fazendo as coisas certas, esperando por algo que nunca vai acontecer. E, então, morrerá como um velho rabugento. Terá um monte de amigos que gostam de você, porque é um cara trabalhador. Você passa a vida na rotina, fazendo as coisas certas. Mas a verdade é que a vida o leva à submissão. No fundo, no fundo, você tem pavor de se arriscar. Queria, na verdade, vencer, mas o medo de perder é maior do que o entusiasmo da vitória. No íntimo, só você saberá que não foi atrás disso. Você escolheu a segurança.
Nossos olhos voltaram a se encontrar. Por dez segundos ficamos nos encarando e só depois que a mensagem foi recebida nossos olhos se afastaram.
- O senhor estava "me empurrando"? - perguntei.
- Algumas pessoas achariam isso - sorriu pai rico. - Eu diria que apenas lhe mostrei o gostinho da vida.
- Que gostinho da vida? - respondi ainda zangado, mas agora curioso. Pronto, até, para aprender.
- Vocês dois, garotos, foram as primeiras pessoas na vida que me pediram para lhes ensinar a ganhar dinheiro. Tenho mais de 150 empregados e nenhum deles me perguntou o que eu sei sobre dinheiro. Eles me pedem um emprego e um salário, mas nunca que lhes ensine sobre o dinheiro. De modo que a maioria deles passará os melhores anos de suas vidas trabalhando pelo dinheiro, sem entender realmente para que é que eles estão trabalhando.
Eu estava ouvindo atentamente.
- Assim, quando Mike falou que você queria aprender como ganhar dinheiro, resolvi planejar um curso que se aproximasse da vida real. Eu poderia falar horas, mas você não escutaria nada. Portanto resolvi deixar que a vida batesse um pouco em você para que pudesse me escutar. E por isso que só pago 10 centavos.
- E qual é a lição que aprendi trabalhando por apenas 10 centavos a hora? - perguntei. - Que você é mesquinho e explora seus empregados?
Pai rico se inclinou para trás e soltou uma gargalhada. Finalmente, quando parou de rir, falou:
- E melhor que você mude seu ponto de vista. Pare de culpar-me pensando que eu sou o problema. Se você pensa que eu sou o problema, então terá
que me modificar. Se perceber que você é o problema, então poderá modificar a si mesmo, aprender alguma coisa e tornar-se mais sábio. A maioria das pessoas quer que todos no mundo mudem, menos elas próprias. Mas eu lhe digo: é mais fácil mudar a si próprio que a todos os demais.
- Não entendo - falei.
- Não me culpe por seus problemas - falou pai rico dando sinais de impaciência.
- Mas o senhor só me paga 10 centavos.
- E então, o que você está aprendendo? - perguntou pai rico com um sorriso.
- Que o senhor é mesquinho - respondi com uma risadinha.
- Está vendo, você acha que eu sou o problema - retrucou pai rico.
- Mas o senhor é.
- Bem, continue assim e você não aprenderá nada. Pense que sou o problema, então quais são suas escolhas?
- Bem, se o senhor não me pagar mais ou não me respeitar mais e me ensinar, eu largo tudo.
- Muito bem - disse pai rico. - E isso é exatamente o que faz a maioria das pessoas. Elas se demitem e começam a procurar outro emprego, uma oportunidade melhor e um salário mais alto, pensando que um novo emprego ou um salário mais alto resolverão o problema. Não é o que acontece na maioria dos casos.
- Então, o que resolve o problema? - perguntei. - Pegar esses miseráveis 10 centavos por hora e sorrir? Pai rico sorriu. - Isso é o que fazem as outras pessoas. Apenas aceitam o pagamento sabendo que eles e suas famílias lutarão com dificuldades financeiras. Mas é tudo o que fazem, esperando um aumento na ilusão de que mais dinheiro resolverá o problema. A maioria se conforma e alguns procuram um segundo emprego, trabalhando mais, mas continuam aceitando um contracheque ínfimo.
Fiquei olhando para o chão, começando a entender a lição que pai rico estava apresentando. Podia sentir que tinha um gosto de vida. Finalmente, olhei para cima e repeti a pergunta:
- Então, o que é que resolve o problema?
- Isto - disse ele dando-me um ligeiro tapinha na cabeça. - Essa coisa que está entre suas orelhas.
Foi nesse momento que pai rico me mostrou o ponto de vista central que o separava de seus empregados e de meu pai pobre - e que mais tarde o levou a tornar-se um dos homens mais ricos do Havaí, enquanto meu pai, muito instruído mas pobre, lutou com problemas financeiros durante toda sua vida. Era um ponto de vista singular que fez toda a diferença durante uma vida inteira.
Pai rico repetia de vez em quando esse ponto de vista que eu chamo a Lição l.
"Os pobres e a classe média trabalham pelo dinheiro. Os ricos fazem o dinheiro trabalhar para eles."
Naquela bela manhã de sábado eu estava aprendendo um ponto de vista diferente daquele que meu pai pobre me ensinara. Aos nove anos de idade eu percebia que ambos os pais queriam que eu aprendesse. Ambos me incentivavam a estudar... mas não as mesmas coisas.
Meu pai muito instruído recomendava que fizesse o que ele fizera: "Filho quero que você estude muito, que tenha boas notas, para que você possa conseguir um bom emprego, seguro, em uma grande empresa, que lhe traga grandes benefícios". Meu pai rico queria que eu aprendesse como funciona o dinheiro para que eu pudesse colocá-lo a trabalhar para mim. Essas lições eu aprenderia ao longo da vida, sob sua orientação e não na sala de aula.
Meu pai rico continuou a primeira lição:
- Fico contente em ver que você se enfureceu por trabalhar por 10 centavos a hora. Se não tivesse se zangado e tivesse aceitado isso satisfeito, teria que lhe dizer que não poderia ensinar nada. Veja, aprender de verdade exige energia, paixão e um desejo ardente. A raiva é uma grande parte desta fórmula, pois a paixão é uma combinação de raiva e amor. No caso do dinheiro, a maioria das pessoas prefere não arriscar e se sentir seguras. Ou seja, não são conduzidas pela paixão, são conduzidas pelo medo.
- E por isso que elas aceitam um emprego com salário baixo? - perguntei.
- Sim - respondeu pai rico. - Algumas pessoas dizem que eu exploro os empregados porque não pago tanto quanto a usina de açúcar ou o governo. Eu digo que as pessoas se exploram a elas mesmas. O medo é delas, não meu.
- Mas o senhor não acha que deveria pagar mais para elas? - indaguei.
- Não tenho que fazê-lo. E, além disso, mais dinheiro não vai resolver o problema. Veja seu pai. Ele ganha bastante dinheiro e ainda assim não dá conta das despesas. A maioria das pessoas, se receber mais dinheiro, apenas passará a se endividar mais.
- Daí os 10 centavos por hora - eu disse rindo. - E parte da lição.
- Certo - sorriu pai rico. - Você vê, seu pai estudou muito de modo que conseguiu um salário alto. Mas ele ainda tem problemas financeiros porque nunca aprendeu nada sobre dinheiro na escola. E ainda por cima, ele acredita em trabalhar pelo dinheiro.
- E o senhor não acredita? - perguntei.
- Não, de verdade não - disse pai rico. - Se você quiser aprender a trabalhar pelo dinheiro então fique na escola. E um bom lugar para aprender isso. Mas se você quer aprender como fazer o dinheiro trabalhar para você, então vou lhe ensinar como fazer. Mas só se você quiser aprender.
- E todo o mundo não quer aprender isso? - indaguei.
- Não - respondeu pai rico. - Simplesmente porque é mais fácil aprender a trabalhar pelo dinheiro, em especial se o medo é a principal emoção quando se trata de discutir dinheiro.
- Não estou entendendo - retruquei franzindo as sobrancelhas.
- Não se preocupe com isso, por enquanto. Saiba apenas que é o medo que faz a maioria das pessoas trabalhar num emprego. O medo de não pagar as contas. O medo de ser mandado embora. O medo de não ter dinheiro suficiente. O medo de começar de novo. Esse é o preço de aprender uma profissão ou habilidade e então trabalhar pelo dinheiro. A maioria das pessoas se torna escrava do dinheiro... e fica zangada com o patrão.
- Aprender a pôr o dinheiro a trabalhar para a gente é um tipo de estudo totalmente diferente? - perguntei.
- Sem dúvida, sem dúvida - respondeu pai rico.
Ficamos sentados em silêncio contemplando a bela manhã. Meus amigos deviam estar começando seu jogo de beisebol infantil. E, por alguma razão, agora eu estava feliz de ter decidido trabalhar por 10 centavos a hora. Sentia que estava a ponto de aprender alguma coisa que meus colegas não aprenderiam na escola.
- Pronto para aprender? - perguntou pai rico.
- Sem dúvida - respondi com um risinho.
- Estou cumprindo minha promessa. Estive ensinando a você de longe - falou pai rico. - Aos nove anos de idade você teve um gostinho do que é trabalhar pelo dinheiro. Multiplique seu mês passado por quinze anos e você terá uma idéia do que muitas pessoas passam a vida fazendo.
- Não entendo - falei.
- Como você se sentiu esperando na fila para falar comigo? Uma vez para ser contratado e outra para pedir um aumento?
- Péssimo - disse.
- Quando se opta por trabalhar pelo dinheiro, essa é a vida que levam muitas pessoas - disse pai rico. - E como se sentiu quando a senhora Martin pôs na sua mão 30 centavos por três horas de trabalho?
- Achei que não era suficiente. Parecia que não valia nada. Fiquei desapontado - respondi.
- E assim que a maioria dos empregados se sente quando recebe seus contracheques. Especialmente com todos os descontos de impostos e outros itens. Pelo menos você recebeu 100%.
- O senhor está dizendo que a maioria dos empregados não recebe tudo? - perguntei espantado.
- Claro que não! - disse pai rico. - O governo sempre tira sua parte antes.
- E como é que ele faz? - perguntei.
- Impostos - disse pai rico. - Você paga impostos quando ganha. Você paga impostos quando gasta. Você paga impostos quando poupa. Você paga impostos quando morre. - Por que é que as pessoas deixam que o governo faça isso com elas?
- Os ricos não deixam - disse pai rico com um sorriso. - Os pobres e a classe média deixam. Aposto que ganho mais que seu pai e contudo ele paga mais impostos.
- E como pode ser? - perguntei. Aos nove anos de idade isso não fazia sentido para mim. - Por que alguém deixaria o governo fazer isso com ele?
Pai rico ficou sentado em silêncio. Acho que ele queria que eu ouvisse, em lugar de ficar falando besteira.
Finalmente me acalmei. Não tinha gostado do que ouvira. Sabia que meu pai vivia reclamando dos impostos que pagava, mas na verdade não tomava nenhuma atitude quanto a isso. A vida estaria batendo nele?
Pai rico se balançava em sua cadeira tranqüilamente enquanto olhava para mim.
- Pronto para aprender? - perguntou. Fiz que sim com a cabeça, lentamente.
- Como já falei, há muito a aprender. E aprender como se faz o dinheiro trabalhar para a gente é estudo para uma vida inteira. A maioria das pessoas fica quatro anos numa faculdade e aí termina os estudos. Eu sei que meu estudo sobre o dinheiro vai continuar toda minha vida, simplesmente por que quanto mais sei, mais descubro que tenho que aprender ainda. As pessoas em geral nunca estudam o assunto. Trabalha-se, recebe-se o salário, confere-se os canhotos do talão de cheques e isso é tudo. E ainda se espantam porque têm problemas de dinheiro. Então pensam que mais dinheiro vai resolver a situação. Poucos percebem que lhes falta instrução financeira.
- Então papai tem dificuldade com os impostos porque ele não entende de dinheiro? - perguntei confuso.
- Olha - disse pai rico. - Os impostos são apenas uma pequena parte do aprendizado para fazer o dinheiro trabalhar para você. Hoje, eu só queria descobrir se você ainda tem a paixão de aprender sobre dinheiro. A maioria das pessoas não tem. Elas querem ir para a escola, aprender uma profissão, divertir-se no trabalho e ganhar rios de dinheiro. Um dia acordam com sérios problemas financeiros e então não podem parar de trabalhar. Esse é o preço de só saber como trabalhar pelo dinheiro em lugar de estudar para saber como pôr o dinheiro a trabalhar para você. E então, você continua apaixonado por aprender? - perguntou pai rico. Acenei afirmativamente com a cabeça.
- Bom - disse pai rico. - Agora de volta ao trabalho. Desta vez não vou lhe pagar nada.
- O quê? - perguntei espantado.
- Você ouviu. Nada. Trabalhará as mesmas três horas no sábado, mas desta vez não receberá os l O centavos por hora. Você disse que queria aprender a não trabalhar pelo dinheiro, sendo assim não vou pagar nada.
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo.
- Já tive esta conversa com o Mike. Ele já está trabalhando, tirando a poeira e arrumando as latas para mim. Melhor você se apressar e correr para lá.
- Não é justo - gritei. - O senhor tem que pagar alguma coisa.
- Você disse que queria aprender. Se não aprender isso agora, será como aquelas duas mulheres e o homem que estavam sentados na minha sala: trabalham pelo dinheiro e esperam que eu não os mande embora. Ou como seu pai, ganhando rios de dinheiro apenas para ficar endividado até o pescoço e esperando que mais dinheiro resolva o problema. Se for isso o que você quer, então volte para aqueles 10 centavos a hora. Ou você pode ainda fazer aquilo que muitas pessoas acabam fazendo: reclamar que o salário não é suficiente, demitir-se e procurar outro emprego.
- Que é que eu faço? - perguntei.
Pai rico deu um tapinha em minha cabeça.
- Use isto - falou. - Se você usar bem, logo estará me agradecendo por ter-lhe dado uma oportunidade de se tornar um homem rico.
Fiquei parado, sem acreditar que eu estivesse embarcando nessa canoa. Queria conseguir um aumento e acabei sendo convencido a trabalhar de graça.
Pai rico voltou a dar um tapinha na minha cabeça e disse:
- Use isto. Agora fora daqui, de volta ao trabalho.
LIÇÃO l: Os ricos não trabalham pelo dinheiro
Não contei para meu pai pobre que não estava mais sendo pago. Ele não teria entendido e eu não queria tentar explicar algo que eu próprio ainda não estava entendendo.
Durante três semanas, Mike e eu trabalhamos três horas, todo sábado, sem ganhar nada. O trabalho não me preocupava, e a rotina se tornou mais fácil. O que me deixava danado era perder os jogos de beisebol e não poder comprar os gibis.
Na terceira semana, por volta do meio-dia, apareceu pai rico. Ouvimos seu caminhão chegar ao estacionamento e fazer um barulhão quando o motor foi desligado. Ele entrou na loja e cumprimentou a senhora Martin com um abraço. Depois de verificar como a loja estava indo, ele abriu o freezer dos sorvetes, pegou dois picolés, pagou e chamou a mim e a Mike.
- Vamos dar uma voltinha, moçada.
Atravessamos a rua e fomos para um amplo gramado onde alguns adultos estavam jogando beisebol. Sentando em uma mesa de piquenique afastada, ele deu os picolés para mim e para o Mike.
- Como as coisas estão indo, garotos?
- OK - respondeu Mike. Concordei com ele.
- Aprenderam alguma coisa? - perguntou pai rico. Mike e eu olhamos um para o outro, levantamos os ombros e balançamos a cabeça em uníssono.
Evitando uma das maiores armadilhas da vida
- Bom, garotos, precisam começar a pensar. Vocês estão observando uma das maiores lições da vida. Se aprenderem a lição, terão uma vida de grande liberdade e segurança. Se não aprenderem, acabarão como a senhora Martin e a maioria das pessoas que jogam beisebol aqui no parque. Elas trabalham muito, por um salário baixo, agarrando-se à ilusão da segurança no emprego, esperando pelas três semanas de férias anuais e pela reduzida aposentadoria depois de 45 anos de trabalho. Se isso os empolga, vou dar-lhes um aumento para 25 centavos a hora.
- Mas estas pessoas são boas e trabalhadoras. Por que o senhor está debochando delas? - indaguei. Pai rico abriu um sorriso.
- A senhora Martin é como uma mãe para mim. Nunca seria tão cruel. Pode parecer que estou sendo desalmado porque estou tentado chamar a atenção de vocês dois para um fato que a maioria das pessoas não consegue ter a felicidade de enxergar. Graças a uma visão muito estreita, as pessoas não percebem em que armadilha caíram.
Mike e eu ficamos sentados sem captar totalmente a mensagem. Ele parecia cruel, contudo sentíamos que ele desejava desesperadamente que percebêssemos algo.
Sorrindo, pai rico continuou: - Não estão gostando desses 25 centavos a hora? O coração de vocês não bate um pouquinho mais rápido.
Fiz um "não" com a cabeça, mas na realidade meu coração batia mais rápido. Para mim 25 centavos a hora representava uma fortuna.
- OK, vou pagar l dólar a hora - prosseguiu pai rico, com um sorriso malicioso.
Agora meu coração acelerou de verdade. Meu cérebro gritava "Topa, Topa". Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Ainda assim, fiquei calado.
- OK, 2 dólares a hora.
Meu pequeno cérebro e meu pequeno coração de nove anos quase explodiram. Afinal, estávamos em 1956 e receber 2 dólares a hora teria me tornado o garoto mais rico do mundo. Não me podia imaginar ganhando esse dinheiro todo. Eu queria dizer "sim". Eu queria fechar o negócio. E podia ver a bicicleta nova, a luva de beisebol nova e a adoração de meus colegas quando eu mostrasse algum dinheiro. E, ainda por cima, Jimmy e seus amigos ricos nunca poderiam voltar a me chamar de pobre. Mas consegui me manter em silêncio.
Quem sabe tivesse torrado os miolos e queimado um fusível.' Mas no fundo do coração eu queria loucamente esses 2 dólares a hora. O sorvete estava se derretendo e escorregando pela minha mão. As formigas se deliciavam com a pasta melada de baunilha e chocolate. Pai rico olhava para dois garotos que o olhavam de volta embasbacados. Ele sabia que estava nos testando e ele sabia que parte de nossas emoções queria topar a parada. Sabia que todo ser humano tem uma parte fraca e necessitada de suas almas que pode ser comprada. E sabia que todo ser humano também tinha uma parte da alma que era forte e que jamais se deixaria comprar. A questão era saber qual prevaleceria. Ele tinha testado milhares de almas ao longo de sua vida. Ele testava almas toda vez que entrevistava um candidato a emprego.
- OK, 5 dólares a hora.
De repente fez-se um silêncio dentro de mim. Alguma coisa tinha mudado. A oferta era grande demais e se tornara ridícula. Nem muitos adultos ganhavam 5 dólares por hora em 1956. A tentação se esvaiu e a calma se instalou. Lentamente me virei para a esquerda para olhar Mike. Ele devolveu meu olhar. A parte de minha alma que era fraca e necessitada estava silenciada. A parte que não se vendia estava à frente. Então uma calma e uma certeza sobre o dinheiro invadiram meu cérebro e minha alma. Sabia que Mike também chegara a esse ponto.
- Muito bem - disse pai rico suavemente. - A maioria das pessoas cem um preço. E tem um preço por causa de duas emoções humanas, o medo e a ambição. Primeiro, o medo de não ter dinheiro as leva a trabalhar arduamente e, quando recebem o contracheque, a ambição ou o desejo as levam a pensar nas coisas maravilhosas que podem ser compradas. Então se define o padrão.
- Que padrão? - perguntei.
- Acordar, ir para o trabalho, pagar contas, acordar, ir para o trabalho, pagar contas... Suas vidas então são conduzidas sempre por duas emoções:
medo e ambição. Ofereça-lhes mais dinheiro e elas continuarão o ciclo, aumentando também as despesas. É isso que chamo de "Corrida dos Ratos".
- E há outro jeito? - perguntou Mike.
- Sim - disse pai rico. - Mas só poucas pessoas o descobrem.
- E qual é esse jeito? - perguntou Mike.
- É o que espero que vocês descubram enquanto trabalham e estudam comigo. É por isso que acabei com todas as formas de pagamento.
- Alguma dica? - perguntou Mike. - Estamos um pouco cansados de trabalhar muito, especialmente sem receber.
- Bem, o primeiro passo é falar a verdade - disse pai rico.
- Nós não mentimos - falei.
- Não disse que estavam mentindo. Disse para falar a verdade - retrucou pai rico.
- A verdade sobre o quê? - perguntei.
- Sobre como estão se sentindo - respondeu pai rico. - Vocês não precisam falar para mais ninguém. Só para vocês mesmos.
- O senhor está dizendo que as pessoas que estão no parque, as pessoas que trabalham para o senhor, a senhora Martin não fazem isso? - perguntei.
- Duvido - disse pai rico. - Elas têm medo de ficar sem dinheiro. Em lugar de enfrentar o medo, elas reagem em vez de pensar. Elas reagem emocionalmente em lugar de usar suas cabeças - disse pai rico batendo nas nossas cabeças.
-Então, elas se vêem com alguns dólares na mão e novamente as emoções da alegria e do desejo e da ambição se apossam delas e novamente reagem em vez de pensar. - São suas emoções que pensam por elas - falou Mike.
- Certo - falou pai rico. - Em vez de falar a verdade sobre como se sentem, elas reagem a seus sentimentos, e não pensam. Elas sentem o medo, vão para o trabalho esperando que o trabalho acalme esse medo, mas não é isso que acontece. Esse medo antigo as assombra, e elas voltam ao trabalho esperando novamente que o dinheiro acalme seu medo e, novamente, nada. O medo as leva a essa armadilha de trabalhar, ganhar dinheiro, trabalhar, ganhar dinheiro, esperando que o medo vá embora. Mas a cada dia elas acordam, e o velho medo acorda com elas. Para milhões de pessoas, esse velho medo as mantém acordadas de noite, perturbando-as com ansiedade e preocupação. De modo que se levantam e vão para o trabalho esperando que o contracheque mate esse medo que lhes rói a alma. O dinheiro conduz suas vidas e elas se recusam a aceitar essa verdade. O dinheiro controla suas emoções e, conseqüentemente suas almas.
Pai rico ficou sentado, quieto, deixando que assimilássemos suas palavras. Mike e eu havíamos escutado o que ele disse, mas na verdade não entendemos o que ele falou. Eu só sabia que muitas vezes ficava pensando em por que os adultos corriam para o trabalho. Não parecia ser algo muito divertido e eles não aparentavam estar muito felizes, mas alguma coisa os impelia a correr para o trabalho.
Percebendo que tínhamos absorvido o que era possível de suas palavras, pai rico falou:
- E quero que vocês, garotos, evitem essa armadilha. É isso que quero ensinar a vocês. Não apenas a ser rico, porque ser rico não resolve o problema.
- Não resolve? - perguntei surpreso.
- Não, não resolve. Deixem-me falar desta outra emoção, que é o desejo. Alguns a chamam de ganância mas eu prefiro desejo. É perfeitamente normal querer coisas melhores, mais bonitas, mais divertidas ou empolgantes. Portanto, as pessoas também trabalham por dinheiro por causa do desejo. Elas desejam o dinheiro pela alegria que, acreditam, o dinheiro pode comprar. Mas a alegria que o dinheiro traz muitas vezes tem curta duração e é preciso mais dinheiro para adquirir mais alegria, mais satisfação, mais conforto, mais segurança. Assim, continua-se trabalhando, pensando que o dinheiro um dia acalmará suas almas perturbadas pelo medo e pelo desejo. Mas o dinheiro não pode fazer isso.
- Mesmo para as pessoas ricas? - perguntou Mike.
- Incluindo os ricos - respondeu pai rico. - De fato, a razão pela qual muitas pessoas são ricas não é o desejo mas o medo. Elas pensam que o dinheiro pode acabar com seu medo de ficar sem dinheiro, de serem pobres, de modo que acumulam fortunas apenas para descobrir que o medo fica pior. Agora elas receiam perdê-lo. Tenho amigos que continuam trabalhando mesmo quando já têm muito. Sei de pessoas que têm milhões e estão mais apavoradas do que quando eram pobres. Estão aterrorizadas com a possibilidade de perder todo o seu dinheiro. Os medos que as levaram a se tornarem ricas ficam maiores. Essa parte fraca e necessitada de suas almas na verdade grita ainda mais forte. Não querem perder suas mansões, seus carros, a vida de luxo que o dinheiro pode comprar. Preocupam-se com o que seus amigos dirão se perderem todo o seu dinheiro.
.Muitos estão emocionalmente desesperados e neuróticos embora pareçam ricos e tenham grandes fortunas.
- Então a pessoa pobre é mais feliz? - perguntei.
- Não, não acho - replicou pai rico. - Evitar o dinheiro é tão neurótico quanto ser apegado ao dinheiro.
Como se isso tivesse sido uma deixa, o mendigo da cidade passou perto de nossa mesa, parou junto ao cesto de lixo e começou a vasculhar. Nós três observamos com grande interesse, talvez antes o tivéssemos ignorado.
Pai rico tirou da carteira uma nota de l dólar e fez um gesto para o velho. Este ao ver o dinheiro se aproximou imediatamente, pegou a nota, agradeceu profusamente e saiu encantado com sua boa sorte.
- Ele não é muito diferente da maioria dos meus empregados - disse pai rico. - Já encontrei tanta gente que fala, "Ah, não estou interessado no dinheiro". Contudo, eles trabalham oito horas por dia nos seus empregos. Isso é uma negação da verdade. Se não estão interessados no dinheiro, então por que é que trabalham? Esse tipo de pensamento é possivelmente mais neurótico do que o de uma pessoa que entesoura dinheiro.
Enquanto eu estava ali sentado, ouvindo meu pai rico, minha mente recordava as inúmeras vezes em que meu próprio pai dizia: "Não estou interessado no dinheiro." Ele falava isso freqüentemente. Também se justificava dizendo sempre: "Trabalho porque gosto do que faço."
- Então o que temos que fazer? - perguntei. - Não trabalhar pelo dinheiro até perder todos os resquícios de medo e ganância?
- Não, isso seria uma perda de tempo - falou pai rico. - As emoções são o que nos torna humanos. Nos tornam reais. A palavra "emoção" representa energia em movimento. Seja sincero a respeito de suas emoções e use sua mente e suas emoções a seu favor, não contra você.
- Nossa! - exclamou Mike.
- Não se preocupe com o que acabei de falar. Daqui a alguns anos você entenderá melhor. Observe suas emoções, não reaja a elas. A maioria das pessoas não percebe que está pensando com suas emoções. Suas emoções são suas emoções, mas você precisa aprender a pensar por si próprio.
- O senhor poderia dar um exemplo? - pedi.
- Lógico - retrucou pai rico. - Quando uma pessoa fala. "Preciso procurar um emprego", o mais provável é que esteja pensando com uma emoção. O medo de não ter dinheiro é que gera esse pensamento.
- Mas as pessoas precisam de dinheiro se têm contas a pagar - falei.
- Sem dúvida - disse pai rico sorrindo. - Tudo o que estou dizendo é que na maioria das vezes são as emoções que comandam o pensamento.
- Não estou entendendo - disse Mike.
- Por exemplo - continuou pai rico -, se existe o medo de não ter dinheiro suficiente, em vez de sair correndo para procurar um emprego a fim de ganhar algum, as pessoas poderiam se perguntar: "Um emprego seria, no longo prazo, a melhor solução para este medo?" Na minha opinião a resposta é "Não". Especialmente se levarmos em conta a duração da vida da pessoa. Um emprego é na verdade uma solução de curto prazo para um problema de longo prazo.
- Mas meu pai sempre fala, "vá para a escola, tire notas boas para que possa conseguir um emprego bom e seguro" - disse eu, um pouco confuso.
- Sim, entendo o que ele diz - afirmou pai rico sorrindo. - A maioria das pessoas aconselha isso e costuma considerar uma boa idéia. Mas, em geral, é o medo que leva as pessoas a dar esse conselho.
- O senhor quer dizer que meu pai fala isso porque tem medo?
- Sim - respondeu pai rico. - Seu pai está apavorado com a possibilidade de você não ser capaz de ganhar dinheiro e enquadrar-se na sociedade. Não me entenda mal. Ele o ama e quer o melhor para seu filho. E eu acho que seu receio se justifica. Instrução e emprego são coisas importantes. Mas elas não resolvem a questão do medo. Veja, é esse mesmo medo que o faz levantar todas as manhãs para ganhar alguns dólares e o que o leva a preocupar-se tanto com que você vá para a escola.
- E o senhor, aconselha o quê? - perguntei. - Quero ensinar a vocês o domínio sobre o poder do dinheiro. A não ter medo dele. E isso não é ensinado na escola. Se não aprenderem isso, se tornarão escravos do dinheiro.
Começava, finalmente, a fazer sentido. Ele queria abrir nossos horizontes. Mostrar-nos o que a senhora Martin não via, o que seus empregados não viam, ou, por falar nisso, o que meu pai não via. Naquele dia minha visão se ampliou e comecei a vislumbrar a armadilha que aguardava tanta gente.
- Vejam, em última análise, somos todos empregados. Só que trabalhamos em níveis diferentes - disse pai rico. - Eu só quero que vocês tenham a chance de escapar da armadilha. A armadilha criada por essas duas emoções, o medo e o desejo. Usem-nas a seu favor, não contra. Isso é o que quero ensinar a vocês. Não estou interessado em ensinar apenas a ganhar rios de dinheiro. Isso não vai cuidar do medo e do desejo. Se, primeiramente, vocês não cuidarem do medo e do desejo, e ficarem ricos, vocês serão apenas escravos bem pagos.
- E como escapar da armadilha? - perguntei.
- A causa principal da pobreza ou das dificuldades financeiras está no medo e na ignorância, não na economia, ou no governo ou nos ricos. E o medo que instalamos em nós mesmos e a ignorância que mantêm as pessoas presas na armadilha. Então vocês, garotos, vão para a escola e se formem. Eu lhes ensinarei como não cair na armadilha.
As peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar. Meu pai instruído tinha ótima formação e uma ótima carreira. Mas a escola nunca lhe tinha dito como lidar com o dinheiro ou com seus medos. Tornava-se claro que eu poderia aprender coisas diferentes e importantes com dois pais.
- O senhor está falando do medo de não ter dinheiro. Como o desejo por dinheiro afeta nosso pensamento? - perguntou Mike.
- Como você se sentiu quando eu o tentei com um aumento no pagamento? Você notou que seu desejo crescia? Balançamos a cabeça afirmativamente.
- Ao não ceder a suas emoções, vocês foram capazes de adiar suas reações e pensar. Isso é o mais importante. Sempre sentiremos emoções de medo e ambição. Daqui para frente, o mais importante será que vocês usem essas emoções a seu favor e a longo prazo e não apenas deixem que elas os conduzam e controlem seus pensamentos. A maioria das pessoas usa o medo e a ambição contra si mesmas. Isso é o começo da ignorância. Grande parte das pessoas passa a vida atrás de contracheques, aumentos salariais e segurança no emprego por causa dessas emoções de desejo e medo, sem se questionar realmente para onde esses pensamentos conduzidos pela emoção as estão levando. É como a história do burro que movimenta o carro enquanto seu dono fica balançando uma cenoura à frente de seu nariz. O dono do burro pode estar indo aonde deseja ir, mas o burro está correndo atrás de uma ilusão. Amanhã só haverá outra cenoura para o burro.
- O senhor quer dizer que no momento em que eu imaginei a nova luva de beisebol, os doces e os brinquedos, isso era como a cenoura para o burro? - perguntou Mike.
- Isso mesmo! E quando você crescer os brinquedos serão mais caros.Um carro novo, uma lancha e uma casa grande para impressionar seus amigos - disse pai rico com um sorriso. - O medo empurra para fora da porta e o desejo o atrai, fazendo com que vocês vão de encontro ao rochedo. Esta é a armadilha.
- E qual é a resposta? - perguntou Mike.
- O que aumenta o medo e o desejo é a ignorância. E por isso que pessoas ricas com muito dinheiro muitas vezes têm mais medo à medida que ficam mais ricas. O dinheiro é a cenoura, a ilusão. Se o burro pudesse entender todo o contexto, ele poderia pensar duas vezes antes de sair correndo atrás da cenoura.
Pai rico passou a explicar que a vida humana é uma luta entre a ignorância e o esclarecimento. Explicou que ao deixarmos de buscar informação e conhecimento sobre nós mesmos, instala-se a ignorância. A luta é uma decisão feita momento a momento - de aprender a abrir ou fechar a própria mente.
-Veja, a escola é muito, muito importante. Vocês vão à escola para aprender uma habilidade ou uma profissão e poder se tornar um membro útil das sociedade. Cada cultura necessita de professores, médicos, artistas, cozinheiros, homens de negócios, policiais, bombeiros, soldados. A escola os :reina de modo que nossa cultura possa florescer - disse pai rico. - Infelizmente para muita gente a escola é o fim e não o início.
Fez-se um longo silêncio. Pai rico sorria. Não entendi tudo o que ele disse naquele dia. Mas como ocorre com a maioria dos grandes mestres, cujas palavras continuam repercutindo por muitos anos, muitas vezes até depois que se foram, suas palavras estão comigo até hoje.
- Hoje me mostrei um pouco cruel - disse pai rico. - Cruel por um motivo. Queria que vocês sempre se lembrassem desta conversa. Quero que pensem sempre na senhora Martin. Quero que pensem sempre no burro. Não esqueçam nunca, porque as duas emoções, medo e desejo, podem levá-los à maior armadilha da vida, se não tiverem consciência de que elas estão controlando seu pensamento. Passar a vida com medo, não explorando jamais seus sonhos, é cruel. Trabalhar arduamente por dinheiro, pensando que este comprará aquilo que lhes trará felicidade é também cruel. Acordar no meio da noite apavorado com as contas a pagar é uma forma de vida horrível.
Viver uma vida determinada pelo montante de seu contracheque não é realmente viver. Pensar que um emprego os fará sentir-se seguros é mentir para
vocês mesmos. É cruel e é a armadilha que quero que evitem, se possível. Vi como o dinheiro conduz a vida das pessoas. Não deixem que isso aconteça com vocês. Por favor, não deixem o dinheiro dominar suas vidas.
Uma bola de beisebol rolou para nossa mesa. Pai rico a pegou e a lançou de volta.
- O que a ignorância tem a ver com a ambição e o medo? - perguntei.
- E a ignorância sobre o dinheiro que causa tanta ambição e tanto medo - disse pai rico. - Vou dar alguns exemplos. Um médico, querendo mais dinheiro para sustentar melhor sua família, aumenta o preço de suas consultas. Isso prejudica principalmente os mais pobres, de modo que estes têm saúde pior do que aqueles que têm dinheiro. E continuou:
- Como os médicos aumentam suas consultas, os advogados também aumentam sua remuneração. Como a remuneração dos advogados aumentou, os professores querem um aumento, o que provoca um aumento dos impostos e assim por diante. Logo, logo, a disparidade entre ricos e pobres será tão grande que surgirá o caos e outra civilização entrará em colapso. As grandes civilizações entraram em colapso porque a distância entre os que têm e os que não têm era grande demais. Os EUA estão seguindo o mesmo caminho, provando mais uma vez que a história se repete, porque não aprendemos com ela. Só decoramos mecanicamente datas e nomes e não a lição.
- E os preços não aumentam? - perguntei.
- Não numa sociedade instruída, com um bom governo. Os preços na verdade deveriam cair. Naturalmente, isso às vezes só é verdadeiro na teoria. Os preços sobem devido ao medo e à ambição gerados pela ignorância. Se as escolas ensinassem às pessoas sobre o dinheiro, haveria mais dinheiro e preços mais baixos, mas as escolas estão preocupadas em ensinar as pessoas a trabalhar pelo dinheiro e não a controlar o poder do dinheiro.
- Mas não existem escolas de negócios? - perguntou Mike. - O senhor não está incentivando que eu vá fazer meu mestrado em uma escola de negócios?
- Sim - falou pai rico. - Mas na maioria das vezes as escolas de negócios treinam empregados que são contadores sofisticados. Que os céus não permitam que um contador domine uma empresa! Tudo o que eles fazem é olhar para os números, demitir gente e aniquilar o negócio. Sei disso porque contrato contadores. Tudo o que eles pensam é cortar custos e aumentar preços, o que causa mais problemas. A contabilidade é importante. Gostaria que mais gente a conhecesse, mas, ao mesmo tempo, ela não mostra tudo - acrescentou pai rico furioso.
- Há uma solução? - perguntou Mike.
- Sim - disse pai rico. - Aprenda a usar suas emoções para pensar e não pensar com suas emoções. Quando vocês, garotos, dominaram suas emoções, concordando em trabalhar de graça para mim, sabia que havia esperança. Quando novamente vocês resistiram a suas emoções quando os tentei com mais dinheiro, vocês estavam novamente aprendendo a pensar em vez se renderem às emoções. Este é o primeiro passo.
- Por que esse primeiro passo é tão importante? - perguntei.
- Isso vocês terão de descobrir. Quero que vocês aprendam. Vou levá-los pelo caminho dos espinhos. É um lugar que quase todos evitam. Vou levá-los a esse lugar aonde a maioria das pessoas tem medo de ir. Se forem comigo, abandonarão a idéia de trabalhar por dinheiro e aprenderão a fazer o dinheiro trabalhar para vocês.
- E o que receberemos se formos com o senhor? O que acontecerá se concordamos em aprender com o senhor? O que obteremos? - perguntei.
- O mesmo que Irmão Coelho obteve - disse pai rico. - Libertação da Boneca de Piche.*
- Há um caminho de espinhos? - perguntei.
*referencias a personagens de uma conhecida história infantil passada no sul dos EUA, Uncle Reunis , de Jod c. Harris. Com base nela, Disney criou cm 1946 o filme A Canção do Sul/. A boneca de Piche é usada pela raposa como isca para pegar e livrar-se de seu inimigo, o coelho. (N. T.)
- Sim - assentiu pai rico. - O caminho de espinhos é nosso medo e nossa ambição. A saída está em pôr de lado o medo e confrontar nossa ambição, nossas fraquezas, nossa carência. E a saída também está na mente, na escolha de nossos pensamentos.
- Escolher nossos pensamentos? - perguntou Mike intrigado.
- Sim. Escolher o que pensamos em lugar de reagir a nossas emoções, em lugar de levantar da cama e ir para o trabalho para resolver os problemas, porque estamos assombrados pelo medo de não ter dinheiro para pagar nossas contas. O pensamento o levaria a dedicar tempo a colocar-se a si mesmo a pergunta. Uma pergunta como: "Trabalhar com mais afinco seria a melhor solução para este problema?" A maioria das pessoas está tão apavorada por não encarar a verdade - o medo está controlando-as - que não podem pensar e assim correm para sair de casa. A Boneca de Piche está no controle. Isto é o que quero dizer quando falo em escolher os pensamentos.
- E como fazemos isso? - perguntou Mike.
- Isso é o que vou ensinar a vocês. Vou lhes ensinar como escolher seus pensamentos, em lugar de reagir apavorados, tomando o café da manhã afobadamente e disparando porta afora.
- Lembrem-se do que disse antes: um emprego é apenas uma solução de curto prazo para um problema de longo prazo. A maioria das pessoas só tem um problema em mente e é de curto prazo. São as contas do fim do mês, a Boneca de Piche. O dinheiro passa a conduzir suas vidas. Ou melhor dizendo, o medo e a ignorância em relação ao dinheiro. Da mesma forma que faziam seus pais, elas acordam toda manhã e vão trabalhar por dinheiro. Não têm tempo de se perguntar se há outra maneira. Suas emoções estão no controle de seu pensamento, não suas cabeças.
- O senhor pode distinguir o pensar com as emoções do pensar com a cabeça? - perguntou Mike.
- Sim, eu ouço isso o tempo todo - respondeu pai rico. - Ouço coisas como "Bem, todo o mundo tem que trabalhar". Ou "Os ricos são desonestos". Ou "Vou procurar outro emprego. Mereço esse aumento. Eles não vão me passar para trás". Ou "Gosto deste emprego porque ele é seguro". Em lugar de perguntas como "O que é que eu estou perdendo aqui?", o que interromperia o pensamento emocional e daria tempo de pensar com clareza.
Devo admitir que estava recebendo uma grande lição: saber quando alguém estava falando a partir de suas emoções ou de um pensamento claro. Era uma lição que me prestou bons serviços a vida toda. Especialmente quando era eu que estava falando a partir de uma reação e não de um pensamento claro.
Enquanto caminhávamos de volta à loja, pai rico explicou que os ricos realmente "faziam dinheiro". Eles não trabalhavam por ele. Ele continuou explicando que quando Mike e eu estávamos cunhando pratinhas de 5 centavos com o chumbo, pensando que estávamos fazendo dinheiro, nós estávamos pensando quase como os ricos. O problema é que nós estávamos praticando um ato ilegal. Era legal quando o governo e os bancos faziam isso, mas não quando nós o fazíamos. Ele explicou que havia formas legais de fazer dinheiro e formas ilegais.
Pai rico continuou explicando que os ricos sabiam que o dinheiro era uma ilusão, como a cenoura para o burro. E em virtude do medo e da ambição que milhões de pessoas aceitam a ilusão de que o dinheiro é real. O dinheiro é uma ficção. Somente a ilusão de confiança e a ignorância das massas permite que o castelo de cartas fique em pé. "De fato" disse ele, "de várias maneiras a cenoura do burro é mais valiosa do que o dinheiro."
Ele falou do padrão ouro que vigorava nos EUA e que na verdade cada nota de dólar era um certificado de prata. O que o preocupava é que algum dia o país pudesse abandonar o padrão ouro e os dólares deixassem de ser certificados de prata.
- O que aconteceria, garotos, seria uma grande confusão. Os pobres, a classe média e os ignorantes teriam suas vidas arruinadas simplesmente porque continuariam acreditando que o dinheiro é real e que a empresa para a qual trabalham, ou o governo, cuidaria deles.
Naquele dia não entendemos do que ele estava falando, mas com o correr dos anos isso passou a fazer cada vez mais sentido.
Vendo o que os outros não vêem
Ao entrar em sua caminhonete, no estacionamento da pequena loja de conveniência, ele disse:
- Continuem trabalhando, garotos, mas quanto mais cedo vocês se esquecerem de que precisam de um contracheque, mais fácil se tornará sua vida adulta. Continuem usando seu cérebro, trabalhem de graça e logo sua mente lhes mostrará formas de ganhar muito mais dinheiro do que eu poderia lhes pagar. Vocês verão o que outras pessoas nunca percebem. Oportunidades que estão à frente de seu nariz. A maioria jamais enxerga essas oportunidades porque estão atrás de dinheiro e segurança, e é isso que elas recebem. No momento em que vislumbrarem uma oportunidade, vocês a reconhecerão pelo resto de suas vidas. Quando conseguirem isso, vou lhes ensinar outra coisa. Aprendam essa lição e evitarão uma das maiores armadilhas da vida. Vocês não tocarão, nunca, jamais, nessa Boneca de Piche.*
A boneca de piche da história é totalmente pegajosa, daí a dificuldade de se livrar dela e dos problemas que ela provoca. (N. T.)
Mike e eu pegamos nossas coisas na loja e nos despedimos da senhora Martin. Voltamos ao parque, ao mesmo banco da área de piquenique, e passamos várias horas pensando e conversando.
Passamos a semana seguinte na escola, pensando e conversando. Durante outras duas semanas, pensamos, conversamos e trabalhamos de graça.
No fim do segundo sábado, estava eu, outra vez, me despedindo da senhora Martin e atirando um olhar sonhador para a estante das revistas em quadrinhos. O duro de não ganhar nem mesmo 30 centavos aos sábados era que eu não tinha dinheiro para comprar gibis. De repente, enquanto a senhora Martin se despedia de Mike e de mim, vi que ela estava fazendo algo que eu nunca a vira fazer antes. Ou melhor, vira, mas nunca prestara atenção.
A senhora Martin estava arrancando a metade superior da capa do gibi. Ela guardava essa metade e jogava, numa caixa de papelão, o resto da revistinha. Quando perguntei o que estava fazendo com as revistinhas, ela falou; "Estou jogando fora. Devolvo a parte de cima da capa para o distribuidor das revistas que me dá um crédito quando traz os novos gibis. Ele vai chegar daqui a uma hora."
Mike e eu esperamos uma hora. Quando ele chegou perguntei se podíamos ficar com os gibis velhos. Ele respondeu: "Vocês podem ficar se vocês trabalharem nesta loja e não os revenderem."
Nossa parceria ressuscitou. A mãe de Mike tinha um quarto vazio no porão da casa. Nós o limpamos e começamos a empilhar ali centenas de gibis. Em pouco tempo, nossa biblioteca de gibis estava aberta ao público. Contratamos a irmã caçula de Mike, que adorava estudar, para ser a bibliotecária. Ela cobrava de cada criança um ingresso de 10 centavos e a biblioteca permanecia aberta, depois das aulas, das 14:30 às 16:30, todos os dias. Os freqüentadores, as crianças da vizinhança, podiam ler quantos gibis conseguissem nessas duas horas. Era uma pechincha pois cada gibi custava 10 centavos e podiam-se ler cinco ou seis nessas duas horas.
A irmã de Mike controlava a saída da garotada para assegurar-se de que ninguém estivesse levando uma revista emprestada. Ela também controlava os livros, registrava quantas crianças compareciam diariamente, quem eram elas e os comentários que faziam. Recebia l dólar por semana e deixávamos que lesse de graça quantos gibis desejasse, o que ela fazia raramente porque estava sempre estudando.
Mike e eu mantivemos o acordo de trabalhar todo sábado na loja e arrecadávamos os gibis descartados. Mantivemos nosso acordo com o distribuidor pois não revendíamos nenhum gibi. Quando eles ficavam muito rasgados, os queimávamos. Tentamos abrir uma filial, mas nunca encontramos alguém tão dedicado e confiável quanto a irmã do Mike para cuidar dela.
Nessa idade precoce descobrimos como era difícil conseguir bons funcionários.
Três meses depois da inauguração da biblioteca, houve uma briga na sala. Alguns garotos de outro bairro a invadiram e começaram a confusão. O pai de Mike sugeriu que fechássemos o negócio. Nossa biblioteca deixou de existir e paramos de trabalhar aos sábados na loja de conveniência. De qualquer forma, pai rico estava entusiasmado e queria nos ensinar mais. Ele estava feliz porque tivemos muito êxito na primeira lição. Aprendemos a fazer o dinheiro trabalhar para nós. Como não tínhamos recebido pagamento pelo trabalho na loja, forçamos nossa imaginação identificando uma oportunidade de ganhar dinheiro. Ao começar nosso próprio negócio, a biblioteca de gibis, estávamos controlando nossas próprias finanças e não dependendo de um empregador. A melhor parte é que nosso negócio rendia dinheiro para nós, mesmo que nós não estivéssemos fisicamente presentes. Nosso dinheiro trabalhava para nós. Em lugar de nos pagar em dinheiro, pai rico tinha nos dado muito mais.