Pai Rico, Pai Pobre

Robert T. Kiyosaki e Sharon L. Lechter · Capítulo 4 de 15

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Pai Rico, Pai Pobre

Este é o fluxo de caixa de uma pessoa rica

Todos esses diagramas estão obviamente bastante simplificados. Todos têm despesas de subsistência, necessidade de alimentação, moradia e vestimentas.

Os diagramas mostram o fluxo de caixa na vida de pessoas pobres, da classe média ou ricas. E esse fluxo de caixa que conta a história. É a história de como a pessoa lida com o dinheiro e o que faz depois que tem o dinheiro em mãos.

Comecei apresentando a história dos homens mais ricos dos EUA porque quis lustrar a falha no pensamento de tantas pessoas. A falha é considerar que o dinheiro resolverá todos os problemas. É por isso que me arrepio quando ouço as pessoas perguntando como ficar ricas rapidamente. Ou por onde começar. Muitas vezes ouço "Estou endividado, por isso preciso ganhar mais dinheiro".

Porém, mais dinheiro nem sempre resolve o problema; de fato, pode até aumentá-lo. O dinheiro muitas vezes põe a nu nossas trágicas falhas humanas, é como um holofote sobre o que não sabemos. É por isso que, com muita freqüência, uma pessoa que tem um ganho súbito de dinheiro uma herança,

um aumento salarial ou um prêmio na loteria - volta rapidamente ao mesmo ponto, ou até pior, ao caos financeiro em que se encontrava antes de receber esse dinheiro. O dinheiro só acentua o padrão de fluxo de caixa que está na sua mente. Se seu padrão for gastar tudo o que ganha, o mais provável é que um aumento de dinheiro disponível apenas resulte em um aumento de despesas. Como se diz popularmente: "Um louco e seu dinheiro fazem uma grande festa."

Repeti inúmeras vezes que vamos à escola para adquirir habilidades acadêmicas e profissionais, ambas muito importantes. Na década de 1970, quando eu freqüentava o segundo grau, se alguém fosse bem-sucedido academicamente, quase imediatamente imaginava-se que esse estudante brilhante se tornaria um médico. Muitas vezes nem se perguntava se o jovem desejava ser médico. Era uma pressuposição. Era a profissão que prometia a maior recompensa financeira.

Hoje, os médicos enfrentam dificuldades financeiras que não desejaria a meus piores inimigos: seguradoras controlando os negócios, cuidados de saúde administrados, intervenção governamental e processos por erro médico, para mencionar algumas. E a garotada quer ser estrela do basquete, jogador de golfe como Tiger Woods, gênio da computação, estrela do cinema, roqueiro, rainha de beleza ou corretor de Wall Street. Isso ocorre, simplesmente, porque é aí que estão a fama, o dinheiro e o prestígio. Eis o motivo por que é tão difícil motivar a garotada na escola. Eles sabem que o sucesso profissional já não depende apenas do sucesso acadêmico como em outros tempos.

Como os estudantes deixam a escola sem habilidades financeiras, milhões de pessoas instruídas obtêm sucesso em suas profissões mas depois se deparam com dificuldades financeiras. Trabalham muito, mas não progridem. O que falta em sua educação não é saber como ganhar dinheiro, mas como gastá-lo - o que fazer com ele depois de tê-lo ganho. E o que se chama aptidão financeira - o que você faz com o dinheiro depois que o ganhou, como evitar que as pessoas lhe tirem o dinheiro, quanto tempo você o conserva e o quanto esse dinheiro trabalha para você. A maioria das pessoas não descobre o motivo de suas dificuldades financeiras porque não entende os fluxos de caixa. Uma pessoa pode ser muito instruída, bem-sucedida profissionalmente e ser analfabeta do ponto de vista financeiro. Essas pessoas muitas vezes trabalham mais do que seria necessário porque aprenderam a trabalhar arduamente mas não como fazer o dinheiro trabalhar para elas.

 

A história de como a conquista de um sonho financeiro se transforma em um pesadelo financeiro

A visão cinematográfica de pessoas trabalhadoras tem um padrão definido. Recém-casados, jovens altamente instruídos, felizes, mudam-se para um de seus pequenos apartamentos alugados. Imediatamente percebem que estão poupando dinheiro, porque dois podem viver com a mesma despesa de um.

O problema é que o apartamento é apertado. Decidem então poupar para comprar a casa de seus sonhos e ter filhos. Eles têm duas rendas e se concentram em suas carreiras.

Suas rendas começam a aumentar.

E a aumentar...

E suas despesas também.

 

 

A despesa n° l, para a maioria, são os impostos. Muitas pessoas pensam que se trata do imposto de renda, mas para grande parte dos americanos o que pesa mais é a Seguridade Social. Para o empregado parece que a contribuição para a Seguridade Social combinada com a do Medicare é de cerca de 7,5%, mas na verdade é de 15%, porque o empregador deve dar uma contrapartida do mesmo montante. Essencialmente, esse é um dinheiro que o empregador não pode pagar a você. Além disso, você ainda paga imposto de renda sobre a quantia deduzida de seus salários para a Seguridade Social,* renda essa que você nunca recebeu porque foi transferida na fonte para a Seguridade Social.

 

E seu passivo também aumenta.

 

No caso brasileiro, as contribuições para a Previdência Social são deduzidas do salário antes do calculo do imposto de renda. (N. T.)

 

Isso é visto mais claramente se voltarmos ao caso do jovem casal. Em conseqüência do aumento de suas rendas, eles resolvem comprar a casa de seus sonhos. Uma vez adquirida, eles pagam um novo imposto, o chamado imposto de propriedade. Então, eles compram um carro novo, novos móveis e novos eletrodomésticos para montar o novo lar. E de repente acordam e a coluna do passivo está atulhada de dívidas hipotecárias e do cartão de crédito.

Agora eles estão aprisionados na Corrida dos Ratos. Chega o primeiro filho. Eles trabalham ainda mais. Mais dinheiro e mais impostos, a chamada escalada da alíquota. Um cartão de crédito chega pelo correio. Eles o usam. Mais despesa. Uma financeira telefona e diz que seu maior "ativo", sua casa, teve seu valor aumentado. A empresa oferece um empréstimo de "consolidação", porque sua ficha é tão boa, e lhes diz que o mais inteligente a fazer é zerar os altos juros ao consumidor liquidando seu débito junto ao cartão de crédito. E, além de tudo, os juros pagos sobre a hipoteca imobiliária podem ser deduzidos do imposto de renda. Eles aceitam e zeram os débitos de seus cartões de crédito onerados pêlos elevados juros ao consumidor. Eles suspiram aliviados. A dívida com o cartão de crédito está encerrada.

Agora suas dívidas de consumo estão somadas à hipoteca imobiliária de sua casa própria. As prestações mensais são reduzidas porque ampliaram o financiamento para trinta anos. E atitude muito inteligente.

O vizinho os convida para irem às compras - afinal está começando a liquidação do Memorial Day.*

* Importante feriado americano em que se homenageia os mortos nas guerras. Comemorado na última segunda-feira de maio. (N. T.)

Uma chance de poupar algum dinheiro. Eles se dizem: "Não vamos comprar nada. Só vamos olhar." Mas, para a eventualidade de achar uma boa oferta, põem aquele novo cartão de crédito na carteira.

Encontro este jovem casal a toda hora. Seus nomes mudam, mas seu dilema financeiro é o mesmo. Eles vêm a minhas palestras para ouvir o que eu tenho a dizer. Perguntam-me: "O senhor pode nos dizer como ganhar mais dinheiro?" Seus hábitos de compra os levam a buscar mais renda.

Eles nem sabem que o problema está na forma que escolheram para gastar o dinheiro que têm. São provocados por seu analfabetismo financeiro e por não entenderem a diferença entre um ativo e um passivo.

Raramente os problemas de dinheiro das pessoas são resolvidos com mais dinheiro. A inteligência resolve os problemas. Um amigo meu costuma repetir uma frase para as pessoas endividadas.

"Se você descobre que se enterrou num buraco... pare de cavar."

Quando criança, meu pai dizia freqüentemente que os japoneses conheciam três poderes: "O poder da espada, o poder da jóia e o poder do espelho."

A espada simboliza o poder das armas. Os EUA têm gastado trilhões de dólares em armamento e, por isso, é a presença militar suprema do mundo.

A jóia representa o poder do dinheiro. Há uma certa verdade no dito: "Lembre-se da regra de ouro. Quem tem o ouro faz as regras."

O espelho significa o poder do autoconhecimento. Esse autoconhecimento, de acordo com a lenda japonesa, era o mais apreciado dos três.

Os pobres e a classe média muitas vezes permitem que o poder do dinheiro os controle. Ao simplesmente acordar e trabalhar mais arduamente, deixando de perguntar-se a si mesmos se o que fazem tem sentido, eles dão um tiro no próprio pé na hora em que saem de casa todos os dias. Por não entendê-lo plenamente, a vasta maioria das pessoas permite que o formidável poder do dinheiro exerça o controle sobre elas. Contudo, o poder do dinheiro é usado contra elas.

Se usassem o poder do espelho, teriam se perguntado: "Isto tem sentido?" Com muita freqüência, em vez de confiar em sua sabedoria íntima, a maioria das pessoas acompanha a multidão. Fazem apenas o que todo mundo faz. Conformam-se em vez de questionar. Muitas vezes, repetem sem pensar o que lhes foi dito. Idéias como "diversifique" ou "sua casa é um ativo". "Sua casa é o maior investimento." "Você terá uma redução nos impostos endividando-se mais." "Consiga um emprego seguro." "Não assuma riscos."

Diz-se que, para muitas pessoas, o medo de falar em público é maior do que o medo da morte. De acordo com psiquiatras, o medo de falar em público é provocado pelo medo do ostracismo, o medo de aparecer, o medo das críticas, o medo do ridículo, o medo de se tornar um pária. O medo de ser diferente impede que muitas pessoas busquem novas formas de resolver seus problemas.

E por isso que meu pai instruído dizia que os japoneses davam o maior valor ao poder do espelho, porque somente quando nós, como seres humanos, nos olhamos no espelho, encontramos a verdade. E a principal razão pela qual as pessoas dizem "Procure segurança" é o medo. Isso vale para tudo, esporte, relacionamentos, carreira ou dinheiro.

E esse mesmo medo, o medo do ostracismo, que leva as pessoas a se conformarem e a não questionarem opiniões aceitas ou tendências generalizadas."Sua casa é um ativo." "Faça um empréstimo consolidando suas dívidas e livre-se delas." "Trabalhe com mais afinco." "E uma promoção."

"Algum dia chego a vice-presidente." "Poupe." "Quando tiver um aumento, vou comprar uma casa maior." "Fundos mútuos são seguros." "Bonecas Tickle Me Elmo estão em falta, mas ainda tenho uma reservada para um cliente que não apareceu."

Muitos dos grandes problemas financeiros são causados pelo desejo de se acompanhar a maioria e não querer ficar atrás do vizinho. Ocasionalmente, todos nós precisamos nos olhar no espelho e seguir nossa sabedoria interior e não nossos medos.

Quando Mike e eu estávamos com uns dezesseis anos, começamos a ter problemas na escola. Não éramos maus garotos. Apenas começamos a nos distanciar da maioria. Trabalhávamos para o pai do Mike depois das aulas e nos fins de semana. Muitas vezes, Mike e eu passávamos horas depois do trabalho sentados junto do seu pai enquanto este se reunia com diretores de banco, advogados, contadores, corretores, investidores, gerentes e empregados. Ele era um homem que deixara a escola aos treze anos, e agora dirigia, instruía, comandava e questionava pessoas com alto nível de escolaridade. Elas acorriam a seu chamado e se preocupavam quando ele não as aprovava.

Esse era um homem que não tinha acompanhado a multidão, um homem que pensava por si próprio e detestava as palavras "Temos que fazer assim, porque todos fazem assim". Ele também odiava ouvir "Não é possível". Se você quisesse levá-lo a fazer alguma coisa bastava dizer "Acho que o senhor não consegue isso".

Mike e eu aprendemos mais assistindo a essas reuniões do que em anos de escola, incluindo a faculdade. O pai de Mike não tinha uma instrução formal, mas tinha conhecimentos financeiros e, em conseqüência, era bem-sucedido. Ele costumava repetir para nós: "Uma pessoa inteligente contrata pessoas mais inteligentes do que ela mesma." Portanto, Mike e eu tínhamos o privilégio de passar horas ouvindo e, no processo, aprendendo com pessoas inteligentes.

Mas, por causa disso, Mike e eu não podíamos acomodar-nos ao dogma padrão que nossos professores pregavam. E isso criava problemas. Sempre que um professor falava "Se vocês não tirarem boas notas, vocês não se sairão bem no mundo real", Mike e eu franzíamos as sobrancelhas. Quando nos diziam para seguir as normas e não nos desviarmos das regras, víamos por que esse processo de ensino desestimulava de fato a criatividade. Começamos a entender porque pai rico nos dizia que as escolas se destinavam a formar bons empregados em lugar de bons empregadores.

De vez em quando, Mike e eu perguntávamos a nossos professores como se aplicava na prática o que estávamos estudando, ou por que não estudávamos o dinheiro e como ele funcionava. Esta última pergunta era muitas vezes respondida com a afirmação de que o dinheiro não era importante, que se nós tivéssemos uma educação excelente, o dinheiro viria atrás.

Quanto mais sabíamos sobre o poder do dinheiro, mais nos distanciávamos de nossos mestres e colegas.

Meu pai instruído nunca me pressionava em relação às notas. Muitas vezes me perguntei por quê. Ele, porém, começou a discutir sobre dinheiro. Com dezesseis anos, já tinha provavelmente uma base de conhecimentos sobre dinheiro melhor do que minha mãe e meu pai. Eu sabia escriturar livros contábeis, ouvia especialistas em tributação, advogados especializados em questões empresariais, gerentes de banco, corretores imobiliários e investidores. Meu pai falava com professores.

Certo dia meu pai falou que nossa casa era seu maior investimento. Uma discussão um tanto desagradável teve início quando eu lhe mostrei por que não achava que uma casa fosse um bom investimento.

O diagrama a seguir ilustra a diferença na percepção de meu pai rico e de meu pai pobre no que se referia a casas. Um pensava que sua casa era um ativo, o outro que era um passivo.

 

Lembro que tracei o diagrama a seguir para mostrar a meu pai a direção dos fluxos de caixa. Também lhe mostrei as despesas que acompanhavam a posse de uma casa. Uma casa maior representa despesas maiores e o fluxo de caixa sai pela coluna das despesas.