Participação e responsabilidade no jornalismo público

Daniele Ferreira Seridório e Danilo Rothberg · Capítulo 6 de 7

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Participação e responsabilidade no jornalismo público

Conclusões

 

Este livro contribuiu para a construção teórica e a compreensão empírica da porosidade, que prevê a constituição de emissoras públicas de televisão mais sensíveis às demandas do público.

As exigências advindas do papel da radiodifusão pública nas democracias contemporâneas impõem ao jornalismo o desafio de abrir-se ao escrutínio do público para sobreviver no cenário da desinformação que se aprofunda no início do século XXI. Sustentamos que essa abertura pode ocorrer pela adoção de mecanismos de porosidade, que estabelecem relacionamentos baseados em dimensões de participação e responsabilização sob diferentes arranjos e complexidades. Em estudo empírico, caracterizamos os mecanismos de porosidade que 27 emissoras públicas do Brasil e do Reino Unido têm adotado para estabelecer relacionamentos com seus públicos, baseados em estratégias de responsabilidade social, credibilidade e inovação.

Os resultados revelaram a existência de 255 mecanismos, organizados em práticas, canais e dispositivos. As práticas de porosidade dão transparência a aspectos editoriais e de gestão das emissoras, fornecendo as bases para processos de crítica proveniente do público e fiscalização interna. Os canais são meios de interação que podem se estender em participação pela mídia, participação na mídia e espaços de coprodução de conteúdo. Os dispositivos dialogam com a concepção de media accountability systems em instâncias organizacionais e, na programação jornalística, incorporam formas de participação incentivando o engajamento político. Argumentamos que, quando uma emissora explora e mantém uma variedade de mecanismos de porosidade, há mais possibilidades de dinamização do relacionamento com o público.

O ranking de desempenho das emissoras que construímos sugeriu que aspectos da porosidade são sustentados e promovidos pelo contexto de regulação e pela estruturação organizacional das emissoras. Os resultados foram analisados em duas chaves de interpretação. Conforme a primeira, a regulação favorece a adoção e manutenção de mecanismos adequados de porosidade e inovação. Conforme a segunda, há um papel preponderante da autorregulação na promoção da porosidade em contextos em que não há regulação favorável à sustentabilidade de emissoras públicas e atuação de agência reguladora.

Concluímos que um arcabouço legal sólido, com atuação de agência reguladora, em conjunto com práticas de autorregulação e reconhecimento profissional da porosidade constroem um escopo favorável a relacionamentos ampliados entre emissoras e públicos. Esse contexto facilita a adoção de instâncias organizacionais e externas de responsabilização e coloca parâmetros para a participação do público em programas jornalísticos, revigorando a credibilidade do jornalismo diante do cenário da proliferação da desinformação e exigindo a formulação de processos e produtos inovadores.

As entrevistas que conduzimos com jornalistas e produtores descortinaram as relações entre porosidade e estratégias de responsabilidade social da mídia, credibilidade e inovação que constroem e fortalecem os argumentos deste livro. Entre as estratégias identificadas e analisadas por suas dimensões de porosidade e pela percepção dos profissionais, aquelas ligadas à responsabilidade social são as que mais potencialmente impactaram o desempenho das emissoras estudadas. Dispositivos de autorregulação, como ouvidoria e agência reguladora, compõem espaços de fiscalização do cumprimento das práticas de porosidade.

Nossa pesquisa sugere que estratégias de credibilidade que impactam e são impactadas pela porosidade estão amparadas em concepções de jornalismo que ligam práticas institucionalizadas, como objetividade e equilíbrio, a formatos e processos de participação inovadores.

A porosidade pode ser compreendida em dois eixos. O primeiro trata da construção de um escopo favorável à promoção e à sustentabilidade da porosidade e constitui-se pela elaboração de um arcabouço regulatório que atenda aos critérios da comunicação pública. Os aspectos que impulsionam a porosidade são regulação, atuação de agência reguladora e autorregulação. Enquanto a autorregulação incorpora o compromisso com a porosidade nas emissoras, a regulação dá sustentabilidade a mecanismos participativos e de responsabilização.

O segundo eixo foca especificamente conexões ao jornalismo. Argumentamos que estratégias de credibilidade jornalística fundamentadas em porosidade subsidiam meios alternativos de credibilidade, por combinarem estratégias institucionalizadas e processos participativos que delineiam formatos inovadores. Sustentamos que o jornalismo público deve ter porosidade às demandas do cidadão, mas ainda há entre os profissionais uma visão limitada dos potenciais a serem explorados nessa direção.

Em resumo, sugerimos que diretrizes de porosidade devem estar articuladas em aspectos organizacionais e de conteúdo, e que regulação e autorregulação desempenham papel preponderante. As diretrizes que propomos indicam inciativas que podem ser adotadas no âmbito das organizações independentemente do contexto externo, mas sustentamos que elas podem ser ampliadas sob políticas públicas de comunicação, situando o poder público como agente regulatório.

Neste livro, construímos a compreensão teórica e empírica da porosidade a partir do estudo do contexto regulatório e da experiência de emissoras brasileiras e inglesas. Nesse sentido, entendemos que certos limites foram impostos por decisões metodológicas. Recomendamos que pesquisas avancem a fim de superá-los, estudando diferentes países, para verificar as relações estabelecidas entre regulação, autorregulação e desempenho da porosidade em diferentes contextos.

Além disso, reconhecemos que o estudo da porosidade no contexto brasileiro também tem espaço para avançar. A divisão do sistema de radiodifusão pública em emissoras de diferentes arranjos organizacionais levanta questões sobre a porosidade em organizações administradas por universidades, fundações de direito privado e empresas públicas. Ainda que tenhamos estudado essas emissoras, a metodologia utilizada não atentou às diferenciações entre os modelos administrativos e as suas relações com a porosidade, tarefa aberta a pesquisas futuras.