Percursos de um arte-educador: a arte de se constituir educador nas práticas de ensino de teatro com crianças

Prefácio

Inicio este texto numa página em branco. Adiei bastante esta escrita, porque não queria que fosse um arremedo de outros textos ou comentários já feitos durante o processo de orientação a Francisco ou de excertos não publicados de artigos que escrevemos em coautoria nos últimos anos. Sei que este texto precisa ser inédito, merece ser feito com carinho e atenção, um novo olhar e uma nova escuta sobre o que Francisco pesquisou, sobre quem ele é ou se tornou ao longo do processo. Pode ser também sobre algo que eu tenha compreendido durante a orientação ou a partir dela. Agora ocupo outros espaços e tempos como professora também na educação básica – o que durante o processo de orientação não acontecia – e se expandem ainda mais minha admiração e meu respeito por Francisco e todas as pessoas que atuam na educação básica e desejam pesquisar e se aperfeiçoar em estudos no âmbito acadêmico. Esse passo faz que elas exijam de si mesmas o rigor em registrar acontecimentos cotidianos na arte-educação e, muitas vezes, de ter de circular por várias turmas, interagindo com várias crianças, em instituições diferentes. No caso de Francisco, foi uma miríade de acontecimentos, uma complexa teia de percepções, descobertas, desafios a ser registrados e comunicados para outrem, além da necessidade de explicitar contextos e socializar leituras e pontos de vista. Como professora, agora me dou mais conta do que foi ou devem ter sido a vontade férrea, a autodisciplina e a disposição afetiva e corporal do Francisco para que a pesquisa de mestrado fosse realizada tão a contento que valeu a pena reconstruí-la e submetê-la para publicação.

Longe de crer e de apoiar uma narrativa meritocrática e nos colocarmos como herói e heroína, vale mencionar que o mestrado em Artes no Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) foi desenvolvida sem que Francisco recebesse bolsa ou qualquer outra ajuda de custos. Como orientadora voluntária, também vivi e testemunhei as dificuldades e os desafios para realizar uma pesquisa de qualidade apesar e diante da precariedade institucional na qual as universidades públicas paulistas, e especialmente o Instituto de Artes da Unesp, vivem neste momento. Se o estudo tivesse recebido apoio financeiro e condições de trabalho para orientando e orientadora, não temos dúvida de que sua contribuição e difusão poderiam ser ainda maiores. Longe de crer em uma narrativa envergonhada ou um “pedido de desculpas”, vale mencionar que não nos vemos nem nos sentimos “culpados” pelo resultado supostamente pouco contributivo da investigação. Poucas produções derivadas de dissertação foram submetidas a periódicos científicos e publicadas em periódicos indexados Qualis A1 (Cabrera; Silva, 2021) e A2 (Revista Pós da UFMG) na área de Artes pela classificação Capes de periódicos no quadriênio 2013-2016. O processo de escrita de Francisco se deu por capítulos (Silva, 2020a; 2021) e resultou neste livro, reconhecimento do valor contributivo da pesquisa, que merece ser difundida para um público mais amplo.

Longe de crer e de apoiar uma narrativa que enfatize nosso hercúleo processo de investigação, vale mencionar que fomos, ambos, forjados na resiliência, na crença no poder criativo e comunal como maior força de resistência à decadência de valores humanos, políticos, ideológicos, educacionais, culturais e artísticos. Como ambos fomos estudantes de baixa renda da escolas públicas de educação básica em regiões periféricas de grandes cidades no estado de São Paulo, militamos como estudantes e pesquisadores na universidade pública e somos atualmente professores em escolas e universidades públicas, é impossível não mencionar e refletir sobre a problematização que Francisco traz nas próximas páginas: “Como comparar o desempenho acadêmico entre indivíduos pertencentes a classes sociais diferentes, e consequentemente com trajetória de estudos e formação permeadas por uma série de condições que não estiveram presentes – ou não foram tão intensamente vividas – devido a contextos marcados por desigualdade de condições?” Acrescido à essas condições sociais e educacionais, soma-se o fato de que, ainda que eu seja branca e mulher cisgênero heterossexual, sofro e sofri os embates por igualdade de condições na divisão de trabalhos domésticos e cuidados com a filha num contexto social de cunho marcadamente patriarcal, machista e que invisibiliza e menospreza a importância das maternidades ativas na constituição de uma sociedade mais democrática, justa e saudável.

Longe de crer e de apoiar uma narrativa que queira suprimir ou transcender magicamente os contextos marcados pelas desigualdades vivenciadas por orientadora e orientando, interessa-nos compartilhar nossos contributos de pesquisa e de ensino-aprendizagem marcados pelo nosso engajamento existencial e ético e por essas diferenças, explicitando-as sem, no entanto, nos vitimizar. Em meio ao início da pandemia de Covid-19 em 2020, seguir pesquisando, registrando a pesquisa e buscando formas de difundi-la nos manteve vivos, alertas, criativos e unidos; foi uma questão de sobrevivência psíquica, existencial e ideológica. Sabíamos que, como privilegiados que estivemos, poupados de maiores riscos à saúde por termos podido nos resguardar na relativa segurança do trabalho remoto emergencial, tínhamos o dever de devolver à sociedade e aos nossos mestres e mestras pelo menos um pouco de todo o investimento que fora feito. Para isso, engajamo-nos o quanto podíamos para emanar vibrações positivas ao mundo por meio de ações pacíficas, afetivas e criativas em meio a tanto negacionismo, hostilidade, ignorância, barbárie. Sob pressão extrema, mostramos neste livro o que pudemos criar e compreender durante a pesquisa, sem ocultar as dificuldades, resistências e a opacidade do mundo diante de nossos desejos e aspirações.

De fato, é relendo a primeira parte deste texto que se seguirá – que se refere às memórias de experiências que cultivaram a sensibilidade de Francisco desde cedo, levando-o a trilhar sua iniciação artística – é que compreendo outra vez, ou pela primeira vez, de onde pode ser que lhe venha toda essa garra e resiliência. Francisco fala de fé, de orgulho, do senso de pertencimento, de executar diferentes funções dentro dos ritos, de aproximar-se “por dentro” de espaços e tempos de sacralização e performance; da compreensão de que toda a preparação para o rito envolvia o convívio numa comunidade; seu total engajamento numa manifestação cuja expressão estética estava tão intimamente ligada a um chamado de presença integral, de aprimoramento existencial, ético e estético. Nessas primeiras experiências na infância, como coroinha, como participante de ritos católicos apostólicos romanos e, em seguida, como participante de grupos de jovens ligados à Pastoral da Juventude e a Teologia da Libertação, germinou em Francisco qualidades que lhe serviriam como sociólogo, artista, educador – ou professor-artista, como ele se autonomeia.

Em nossos encontros de orientação, ou como prefiro chamar, de (des)orientação, muitas vezes não se tratava de inventar ou reproduzir estratégias para que Francisco, como professor-artista, operasse na lógica do acúmulo de habilidades, porém na “eliminação dos bloqueios” (Grotowski et al., 2010, p.106) daquilo que seu saber poderia desvendar de si diante de outros e na relação com outros. Nesse sentido, acredito que, sem palavras e sem termos pretendido traçar verbo-racionalmente estratégias, ambos operamos na lógica antimercantilista, contracultural, de encontros liminares; agimos no âmbito das antiestruturas, em que as condições para participação exigiram o desprendimento de status, de hierarquia preestabelecida, em que fomos remodelados como pessoas, adquirindo cada um à sua maneira novas capacidades para enfrentar as funestas condições precarizadas de emprego e de pesquisa.

Um relativo autodidatismo se revela em Francisco pelo fato de ele ter o privilégio de primeiro experimentar, vivenciar em seu corpo e pela via afetiva, uma série de iniciações vívidas que só mais tarde, na universidade, reconheceria ligadas a ideias e princípios de trabalho de autores consagrados, de referências importantes no campo das ciências sociais, da arte e da educação. Francisco pôde experimentar na prática premissas professadas por Paulo Freire, Augusto Boal ou Grotowski, desejando saber mais por meio de livros e da inteligência verbo-racional aquilo que vivera com o corpo de maneira integral. De fato, essa oportunidade de Francisco primeiro ter experiências ritualísticas, místicas, comunitárias, sensíveis e também experiências como artista e professor sem tanta teorização a priori o ajudam imensamente a lidar com tempestades, a atravessar “pororocas de memórias”, a enfrentar a “ressaca de pensamentos”, a manejar seu barco de acordo com a maré e as condições climáticas. Ainda assim, ele buscou intensamente ler, estudar, pesquisar com rigor segundo os parâmetros acadêmicos, fazendo uso de forma brilhante e comprometida de sua experiência como estudante, pesquisador e professor das ciências sociais.

Nas páginas seguintes, Francisco nos conta que, como coordenador da Pastoral da Juventude há vários anos, organizava “encontros que eram marcados por muito simbolismo e expressão” e preparava “o espaço e as condições para que fossem desenvolvidas ações e produções coletivas, sem muita interferência”. Nesses momentos, já existia uma preocupação em “não oferecer fórmulas prontas de representação, mas que os jovens conseguissem demonstrar como pensavam e sentiam suas relações com o sagrado, bem como com as temáticas sociais relacionadas a desigualdade e injustiças”. É com essa mesma intencionalidade que Francisco buscou, durante a investigação, “proporcionar o contato das crianças com fazeres artísticos, com formas de expressar o que sentem e pensam sobre o mundo, seja ele próximo ou mais longínquo”, evitando “ter fórmulas prontas de representar o mundo”, mas oportunizando “maneiras de expressar o sentimento, bem como de apreender e interpretar a realidade”. Também possibilitou “maneiras de desbloquear […] percepções, e assim […] incitar a descoberta e o desenvolvimento de capacidades e habilidades”, tendo como objetivo o “autoconhecimento e o encontro com os outros”. Sua investigação se situa de forma bastante pertinente no campo da arte-educação em âmbito escolar, sem pretensões precipitadamente estetizantes, tecnicizantes, adultocêntricas, porém bastante engajada na autoexpressão espontânea das crianças sem se atrelar a um espontaneísmo irresponsável ou à “livre expressão condicionada por estereótipos” (Lopes, 2017).

As escolhas por um viés autopoiético, autoetnográfico e cartográfico foram de Francisco, condizem com seu percurso precedente à investigação no mestrado. Ele chegou para a entrevista do processo seletivo do mestrado profissional em 2018 já com sua sensibilidade e seu imaginário bastante cultivados e com preciosas ligações entre uma linguagem analógica e relacional em relativa harmonia com o discurso verbo-racional, com a precisão e o rigor que são desejáveis para um trabalho acadêmico. Percebi que seria uma parceria boa para ambos: orientadora iniciante e orientando experiente. No decorrer do percurso, esses papéis não se confundiram a ponto de se inverterem, o que considero um mérito dele, que manteve respeito e deferência à professora, muito raros atualmente. Francisco inicialmente me chamava de “Senhora” e não fui nem sou digna, por enquanto, de tal pronome de tratamento, não consigo ainda ser senhora de mim mesma. Contudo, a cada vez que ele insistia em me chamar assim, entendia como um chamado para que eu tentasse fazer jus à alcunha e correspondesse a essa verticalidade que Francisco merecia e talvez necessitasse. Sinto que se me tratam como alguém que sabe e conhece, devo fazer-me digna dessa confiança, devo corresponder a esse papel vertical. Porém, muitas vezes essa relação foi bastante além do papel de orientadora e orientando, pois somos ambos artistas, educadores, pessoas…

Fui orientada por pessoas incríveis que sempre foram, e ainda são, referência da constituição do humano no humano, exemplos de coerência e autogestão, bem como do esforço contínuo de desenvolvimento do potencial humano, sempre levando em conta seu inacabamento e sua capacidade de autodestinação e recriação. Sentia-me e sinto-me no dever de ser veículo para que essa transmissão aconteça para outras pessoas através de mim, que eu seja instrumento de uma cadeia de conhecimento sensível que me antecede, precisa me ultrapassar e, de forma despretensiosa e transpessoal, seguir adiante. Compreendo que, para preservar uma tradição viva é preciso acrescentar o meu “quinhão”, retribuindo a meus mestres e mestras forjando uma pesquisa singular na qual referências pregressas e influências de discípulos estejam sempre em profícuo diálogo. Na convivência com Francisco como orientando experiente, sinto que pude cultivar essa retribuição à atenção dedicada a mim por meus mestres e mestras, iniciando-me eu mesma na mestria. Para Francisco, a iniciação talvez tenha sido de dar-se conta de suas inseguranças, de expô-las, de confiar nas crianças e nos processos artístico-pedagógicos que foram lhe ensinando a jogar enquanto jogava, a conduzir sendo conduzido por sua sensibilidade e intuição.

Mais do que ensinar algo, talvez a contribuição como artistas-professores seja doar-se, doar o que se é, quem se é diante daquilo se apresenta a cada instante, e não em resposta a um contexto “idealizado”. Durante a pesquisa que resultou neste livro, houve momentos em que Francisco esperava que eu soubesse o que dizer ou como encaminhar a metodologia, e foi preciso decepcioná-lo, reconhecendo que não saberia o que fazer no lugar dele, que seria a sua sensibilidade que o guiaria, nem mesmo os autores que vinha lendo por minha recomendação dariam uma “receita pronta”. Houve momentos em que me excedi com palavras, explicações, exigências acadêmicas, eu mesma sem confiança de que seriam as crianças a indicar a Francisco quais caminhos metodológicos poderia percorrer na condução das práticas artístico-pedagógicas. Em outros, fiquei sabendo da interioridade de Francisco, revelada em meio à escrita acadêmica, sua vida íntima, que não poderia ser nem foi suprimida no processo de investigação autopoiética e autoetnográfica. Quando nossos encontros de (des)orientação tiveram de deixar de ser presenciais e passaram a ser por videochamada, e em muitas mensagens de áudio trocadas por WhatsApp em função da necessidade de isolamento social durante a pandemia de Covid-19, a partir de março de 2020, foram muitos os momentos de proximidade, de confiança mútua, de parceria genuína e horizontal, de duas pessoas da mesma idade e em situações humanas, sanitárias e afetivas similares, tentando sobreviver interiormente, não esmorecer na pesquisa e seguir cocriando um texto que não pôde deixar de ser impactado por inúmeras mortes interiores e urgentes necessidades de renascimento e superação. Seguir (des)orientando Francisco foi fundamental para minha saúde psíquica, um tempo-espaço de criação, cálido, gentil, fonte de força e resiliência.

Com a arguição final e a publicação da dissertação, a parceria poderia ter esfriado, porém não foram apenas as relações institucionais que nos ligaram, a colaboração seguiu (e espero que siga!) por afinidade. Este livro é um resultado provisório, parcial, uma tentativa de registro de um processo que talvez já tenha sido em parte “superado” ou “transcendido” por Francisco, que segue atuando como professor-artista e sendo atravessado por outras influências e experiências. Mesmo assim, talvez ainda valha a pena ser lido, pelo fato de que sua abordagem fenomenológica, sensível, autopoiética, autoetnográfica e cartográfica difere e diverge de uma educação de cunho escolarizante iluminista, protestante, aristotélico-cartesiana, eurocêntrica, adultocêntrica, colonizadora, opressora, massificante.

De alguém que começou em 2017 tendo um “tremendo choque” e não se “via como professor para crianças”, Francisco passou a se interessar mais e mais sobre as infâncias, sobre arte feita por e com crianças, e ampliou bastante sua percepção sobre elas, mas principalmente sobre as condições singulares em que as encontrou: em contextos sociais, étnico-raciais, educacionais e existenciais específicos nas escolas em que trabalhou. Se Francisco temia em 2017 aquela “criança genérica”, em 2020, relatava uma transformação perceptiva, sensível e humana na forma como passou a fazer a documentação pedagógica, o registro das falas e dos gestos das crianças, as surpresas dele diante da sagacidade das crianças. Esse encontro transformado com a infância o surpreendeu e reanimou, deu-lhe fôlego para seguir em processos cocriativos na instituição escolar, algumas vezes apoiado por ela, em outras, apesar dela.

Durante a pesquisa, Francisco foi sendo moldado por suas experiências de encontro com a arte com crianças, que estavam longe de ser e fazer aquilo que ele previa e cujas ações superavam suas expectativas iniciais. Na descrição de suas práticas, no registro de suas percepções e no desenvolvimento de reflexões a partir delas, ele foi aos poucos revelando que seu trabalho pode contribuir no campo da arte-educação, delineando ferramentas para que o aluno tenha a “possibilidade de romper as formas de pensar a realidade e a si mesmo, ou de confirmar que as maneiras como se pensa e age são realmente verdadeiras ou significativas”. Nesses encontros com a arte, Francisco cultivou uma intencionalidade artístico-pedagógica que fosse além da reprodução de exercícios e jogos dramáticos ou teatrais de forma estetizante ou escolarizante: ele passa a perceber e fazer uso do “jogo de improviso […] como ferramenta para alargar a experiência de vida, desenvolver a percepção, a sensibilidade, a inteligência e a capacidade criadora”. Para ele, “Trata-se de um movimento de aguçar as percepções, estimular ações, motivar o encontro com os outros e com um mundo aparentemente ‘fora da realidade’ imediata, porém, que está no interior da realidade objetiva. Na desconstrução do espaço artístico consagrado, convencional, podem-se abrir as fronteiras já delimitadas e distinguir-se dois lugares: a realidade e um ‘outro lugar’ – a liminaridade. Nessa confluência, convivem os cidadãos cotidianos e seres novos, que existem no curto espaço de tempo do jogo”.

Os jogos de improviso propostos por Francisco e as propostas das crianças acolhidas por ele desencadearam “cenas de preconceito” que oportunizaram “espaço da problematização”, nos quais “as crianças relacionaram a dimensão estética da vida com as dimensões social e política, demonstrando seus posicionamentos diante da realidade e criando formas de intervir nas situações”. Tomando como ponto de partida tanto experiências próximas como aquelas do repertório familiar, escolar e de outros sujeitos históricos, bem como de desenhos animados, séries e filmes consumidos pelas crianças, Francisco percebeu, registrou, problematizou e refletiu sobre as “impressões e posições [das crianças] sobre as temáticas improvisadas”. Nas rodas de conversas após os jogos, ele notou que as crianças expressavam tanto “uma preocupação social com questões como preconceito, quanto uma preocupação estética no que diz respeito a representação cênica”. Segundo Francisco, “para muitas crianças, era essencial que o teatro provocasse a conscientização nos espectadores sobre os assuntos abordados”.

Neste livro, o leitor verá que o Francisco sociólogo se encontra e se harmoniza com o Francisco professor-artista, pois as percepções das crianças provinham de um fazer cênico improvisado e não de ideias dadas a priori e induzidas pelo olhar adulto; foram compreensões obtidas por uma práxis fomentada por Francisco, de ação na reflexão e reflexão na ação, “de reflexão ativa e de uma ação reflexiva” (Ferreira-Santos, 2005, p.77) na qual a intuição, as inteligências cinética, analógica, relacional, simbólica das crianças e de Francisco foram arduamente exercitadas e exercidas.

Sobre a metodologia do registro das práticas e a tessitura da composição narrativa, cabe aqui mencionar o meu direcionamento como orientadora para que Francisco compartilhasse os registros de acontecimentos em sala de aula, que continham ainda o “ardor do campo”, entremeado por trechos de memórias, percepções posteriores e reflexões já influenciadas por estudos bibliográficos. Nesse ponto, talvez, a “minha mão” como orientadora tenha mais pesado – já que coloquei como premissa que cada momento da pesquisa é vivenciada por um “eu” diferente da pessoa que pesquisa e que essa heteronímia precisa ser explicitada para não dar a quem lê a ilusão de que se trata de um indivíduo estável, coerente e coeso. É necessário revelar a complexidade de camadas narrativas para expor também a complexidade e o embate de forças internas e externas de quem pesquisa, bem como se sua posição diante da opacidade do mundo, da matéria que resiste e que molda o artífice, em vez de ser por ele inteiramente moldada. É na relação dialógica que cada sujeito se define, mas principalmente se redefine, a partir das reações do outro.

Nessa iniciação à mestria, buscando criar e recriar procedimentos e estratégias experimentais de ensino-aprendizagem, Francisco buscou “oferecer referências e criar estratégias que valorizem os saberes trazidos por elas [crianças]”, o que “oportunizou aos educandos e ao educador lerem seus mundos e também, em menor medida e mais modesta envergadura, recriar e criar nossos mundos”. Isso o ajudou a “olhar como as crianças apresentam suas leituras sobre o mundo e nesse movimento dialético […] perceber e conhecer melhor quem eu era como educador e como poderia desenhar aquele educador que almejo ser”.

Para além da descoberta de estratégias, o livro registra e relata os modos de ser e estar como professor-artista encontrados por Francisco num determinado tempo e espaço, sem, no entanto, pretender ser prescritivo ou servir de parâmetro a ser multiplicado em incontáveis reproduções. Fazendo uso do recurso autobiográfico, autopoiético e de uma escrita espontânea em primeira pessoa que conservasse o quanto possível o “ardor do campo”, Francisco, com humildade e modéstia, narra suas percepções como ser sensível e professor-artista. Essa prática é assaz significativa e coerente com uma epistemologia decolonial, uma práxis mestiça e compromissada com uma postura de pesquisador que ensina enquanto aprende e aprende enquanto ensina, que busca abrir-se para a criança em sua singularidade, para as múltiplas e diversas infâncias em seus mais variados contextos.

Interessa-nos como educadores, como artistas e pesquisadores nos engajar e consentir que flua nas nossas relações com os

educandos uma 1 educação como poíesis , “tempo de criatividade e de criação” (Skliar, 2010, p.154), e não sucumba facilmente a ser usada como manual ou reproduzida de forma acrítica e descontextualizada, convertendo-se em fabricação cultural (Coelho, 1997; 1999) ou em receitas “requentadas” a partir de ingredientes “não tão frescos”. Interessa-nos que o livro seja saboreado por sua incompletude e imperfeição técnica, absorvendo-se sua doçura e sua acidez, como as de um iogurte ou kefir caseiro. Esperamos que ele possa ser encarado como uma contribuição singela de um projectum maior em que a arte-educação possa ser sistematizada, porém sem um cunho escolarizante, num processo multidirecional, complexo, que não pode ser “isolado” de outros contextos e paradigmas educativos. Um projectum em arte-educação que não pretenda ser reproduzido em larga escala ou multiplicado, mas sim ser “democratizado” em incontáveis reproduções que se se circunscrevam a uma cultura de iogurte (Brook, 1999). (Quem já teve a oportunidade de fazer iogurte caseiro poderá me entender: um pouquinho de kefir no leite produz iogurte; o kefir continua se reproduzindo enquanto estiver no leite; muito kefir no leite torna o iogurte extremamente ácido e intragável, é preciso tirá-lo “no ponto certo”. Mas se ele ficar fora do leite, morre. Então ou se faz mais iogurte em quantidades exponencialmente enormes ou se partilha o bacilo com outras pessoas, que, por sua vez, terão também que partilhá-lo. É assim, anonimamente, de forma transpessoal e com gratuidade, numa ação cotidiana e singela, sem pretensão de reprodução em larga escala que se pode produzir uma rede de trocas e partilhas, uma cultura de iogurte.)

Theda Cabrera, outono de 2022

 

Referências BROOK, P. A porta aberta: reflexões sobre a interpretação e o teatro. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.

CABRERA, T.; FERREIRA-SANTOS, M. Educação como poíesis. São Paulo: FEUSP, 2021. Disponível em:

http://www.livrosabertos.sibi.usp.br/portaldelivrosUSP/catalog/view/6

56/583/2195-1. Acesso em: 29 maio 2022.

CABRERA, T.; SILVA, F. S. da. As reverberações de Pega Teatro, de Joana Lopes: contribuições para uma pesquisa em teatro educação. Urdimento – Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v.2, n.41, set. 2021. Disponível em:

https://www.revistas.udesc.br/index.php/urdimento/article/view/1980

6. Acesso em: 30 maio 2022.

COELHO, T. Dicionário crítico de política cultural. São Paulo: Iluminuras, 1997.

COELHO, T. O que é ação cultural. São Paulo: Brasiliense, 1999.

FERREIRA-SANTOS, M. Crepusculário: conferências sobre mito-hermenêutica & educação em Euskadi. 2. ed. São Paulo: Editora Zouk, 2005.

GROTOWSKI J. et al. O teatro laboratório de Jerzy Grotowski 1959-1969. São Paulo; Pontedera: Perspectiva; Edições Sesc SP; Fondazione Pontedera Teatro, 2010.

LOPES, J. Pega teatro. 3. ed. Bragança Paulista: Urutau, 2017.

Disponível em: https://www.joanabizzottolopes.com/copia-ficha-

tecnica. Acesso em: 29 maio 2022.

SILVA, F. S. da. Jogo dramático, drama ou improvisações? Construindo propostas de processos de aprendizagem de teatro-educação em uma perspectiva do desenvolvimento da autonomia. In: DICKMAMM, I. (org.). Educar é um ato político. Veranópolis: Diálogo Freiriano, 2020a. p.375-96.

SILVA, F. S. da. Percursos de um arte-educador: a arte de se constituir educador nas práticas de ensino de teatro com crianças. 199 f. 2020. Dissertação (Mestrado profissional em Artes) – Instituto de Artes, Universidade Estadual Paulista, São Paulo, 2020b.

Disponível em: http://hdl.handle.net/11449/194262. Acesso em: 30 maio 2022.

SILVA, F. S. da. Jogar, expressar, aprender e ensinar: construindo processos de aprendizagem nos anos iniciais do ensino fundamental. In: CRUVINEL, T.; STRAZZACAPPA, M.; MENEGAZ, W. (orgs.). Pedagogia das artes cênicas: (re)existências plurais. Belo Horizonte: Tiago Cruvinel, 2021. p.161-74.

SKLIAR, Carlos Alberto. Entre a diferença e os diferentes: retorno do outro ou poética de um Eu que hospeda? In: FERREIRA-SANTOS, M.; GOMES, E. S. L. (orgs.). Educação & Religiosidade: imaginários da diferença. João Pessoa: Editora Universitária UFPB, 2010.