Persuasão
Anexos: Duas Novelas de Jane Austen
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Minha idade e m inha saúde cada vez m ais depauperada m e levam a desej ar ardentem ente vê-lo com a vida arrum ada, m eu querido Reginald. Minha fortuna pessoal m e tornará indiferente quanto à da sua esposa; m as a fam ília e o caráter dela devem ser am bos irrepreensíveis. Quando sua escolha houver sido estabelecida de m odo que nenhum a obj eção possa ser feita a qualquer desses dois aspectos, posso lhe prom eter um a aprovação im ediata e feliz; m as é m eu dever m e opor a um enlace que som ente um profundo ardil pode tornar provável e deve, no final das contas, se tornar insuportável.
É possível que o com portam ento de Lady Susan se deva som ente à vaidade ou ao desej o de conquistar a adm iração de um hom em que ela deve im aginar particularm ente m al-influenciado em relação a si; o m ais provável, contudo, é que seus obj etivos sej am m ais am biciosos. Ela é pobre e talvez estej a naturalm ente buscando um a união que possa lhe ser vantaj osa. Você conhece os próprios direitos e sabe que não tenho poder para im pedir que venha a herdar a propriedade da fam ília. Minha capacidade de infernizá-lo enquanto ainda estiver vivo seria um a espécie de vingança à qual eu não iria m e rebaixar, fossem quais fossem as circunstâncias. Estou lhe com unicando honestam ente m eus sentim entos e m inhas intenções. Não desej o atiçar seus tem ores, apenas m obilizar seu bom -senso e seu afeto. Saber que você está casado com Lady Susan Vernon destruiria todo o m eu bem -estar na vida. Isso representaria a m orte do honesto orgulho com o qual até então considerei m eu filho, e eu m e constrangeria ao encontrá-lo, ao ouvir m encionar seu nom e ou m esm o a pensar nele.
Talvez eu não consiga produzir com esta carta qualquer bem que não sej a o de aliviar m inha própria m ente; m as sinto que é m eu dever inform á-lo de que sua parcialidade em relação a Lady Susan não é nenhum segredo para os seus am igos, e alertá-lo contra ela. Gostaria de ouvir seus m otivos para desacreditar as inform ações do sr. Sm ith; um m ês atrás, você não tinha qualquer dúvida quanto à sua autenticidade.
Se puder m e garantir que não tem qualquer desígnio em m ente a não ser gozar durante um curto período das conversas de um a m ulher inteligente, e que nutre adm iração apenas por sua beleza e habilidades sem que estas o tornem cego para seus defeitos, poderá resgatar m inha felicidade; caso contrário, porém , explique-m e ao m enos o que ocasionou tam anha m udança em seu j uízo a respeito dela.
Subscrevo-m e etc.,
Reginald de Courcy
CARTA 13
DE LADY DE COURCY PARA A SRA. VERNON
Parklands
Minha querida Catherine,
Infelizm ente, quando sua últim a carta chegou, eu estava confinada no quarto por um resfriado que afetou m inha vista a ponto de im pedir que eu a lesse sozinha, de m odo que não pude recusar quando seu pai se ofereceu para lê-la para m im , e graças a isso, para m inha forte contrariedade, ele se inteirou de todos os seus tem ores com relação ao seu irm ão. Pretendia escrever eu própria para Reginald assim que m inha vista o perm itisse, para apontar da m elhor form a que pudesse o perigo para um rapaz de sua idade e com suas altas expectativas de um a relação íntim a com um a m ulher tão ardilosa quanto Lady Susan. Pretendia, além disso, lem brar a ele que nós agora estam os sozinhos, e que precisam os m uito dele para m anter nosso ânim o durante as longas noites de inverno. Agora j am ais saberei se isso teria surtido algum efeito; m as estou im ensam ente contrariada pelo fato de Sir Reginald ter ficado sabendo de um assunto que, com o nós havíam os previsto, deixou-o tão aflito. Ele entendeu todos os seus tem ores assim que leu a carta, e estou certa que desde então não tirou o assunto da cabeça; rem eteu para Reginald pelo m esm o correio um a carta longa, falando de tudo e pedindo particularm ente um a explicação quanto ao que ele pode ter ouvido de Lady Susan para contradizer os chocantes relatos recebidos ultim am ente. A resposta chegou hoj e de m anhã e vou anexá-la para você, um a vez que acho que gostará de vê-la; queria que tivesse sido m ais satisfatória, m as parece escrita com tam anha determ inação de ter Lady Susan em alta conta que as garantias dele em relação ao casam ento etc. não tranquilizaram m eu coração. Mesm o assim , digo tudo que posso para acalm ar seu pai, e ele com certeza está m enos aflito desde a carta de Reginald. Que exasperante, m inha querida Catherine, que essa sua hóspede indesej ada não apenas nos im peça de nos ver neste Natal, m as tam bém sej a m otivo de tanta contrariedade e perturbação. Beij e as queridas crianças por m im . Sua m ãe afetuosa.
C. de Courcy
CARTA 14
DO SR. DE COURCY PARA SIR REGINALD
Churchill
Meu caro senhor,
Recebi neste instante a sua carta, que m e causou m ais espanto do que j am ais senti na vida. Im agino que deva agradecer à m inha irm ã por ter m e retratado por um ângulo capaz de prej udicar sua opinião a m eu respeito e deixá-lo tão alarm ado. Não sei o que a levou a causar tam anha aflição em si e na fam ília tem endo um acontecim ento que ninguém senão ela, posso afirm ar, j am ais teria considerado possível. Supor que Lady Susan tenha tais obj etivos seria privá-la de qualquer direito à excelente inteligência que seus m ais ferozes inim igos j am ais lhe negaram ; e m inhas pretensões ao bom -senso tam bém devem ruir caso se desconfie que m eu com portam ento para com ela tenha algum a consideração m atrim onial. Nossa diferença de idade é um obstáculo intransponível, e eu lhe rogo, m eu caro senhor, que fique tranquilo e não m ais alim ente um a desconfiança que não poderia ser m ais prej udicial à sua paz de espírito do que à nossa relação.
Meu obj etivo ao perm anecer tanto tem po com Lady Susan não pode ser outro senão gozar, por um tem po curto (com o o senhor m esm o disse), das conversas de um a m ulher de grande poder intelectual. Se a sra. Vernon atribuísse a duração de m inha visita em parte ao afeto que tenho por ela e pelo m arido, estaria fazendo m ais j ustiça a nós todos; m inha irm ã, contudo, está m alsugestionada em relação a Lady Susan de um j eito que não se pode rem ediar. Por causa de um a afeição ao m arido que por si só j á faz honra a am bos, ela não consegue perdoar as tentativas de im pedir sua união que foram atribuídas ao egoísm o de Lady Susan. Nesse caso, porém , assim com o em m uitos outros, o m undo com eteu um a grande inj ustiça com essa dam a ao supor o pior quando os m otivos de sua conduta não estavam claros.
Lady Susan havia ficado sabendo de algo que constituía um a desvantagem tão m aterial em relação à m inha irm ã a ponto de convencê-la de que a felicidade do sr. Vernon, a quem ela sem pre foi m uito ligada, seria totalm ente destruída pelo casam ento. E essa circunstância, ao m esm o tem po em que explica o verdadeiro m otivo da conduta de Lady Susan e elim ina toda a culpa que lhe foi im putada com tam anha liberalidade, talvez tam bém nos convença de quão pouco crédito se deve dar a relatos genéricos sobre quem quer que sej a, um a vez que nenhum caráter, por m ais reto que sej a, logra escapar da m alevolência da calúnia. Se m inha irm ã, na segurança de seu isolam ento, com tão pouca oportunidade quanto inclinação para fazer o m al, não pôde evitar a censura, não devem os condenar precipitadam ente aqueles que, vivendo no m undo cercados por tentações, porventura forem acusados de erros que se sabe terem o poder de com eter.
Eu m e culpo severam ente por ter acreditado com tam anha facilidade nas histórias escandalosas inventadas por Charles Sm ith para prej udicar Lady Susan, um a vez que agora estou convencido do quanto estas a caluniaram . Os ciúm es da sra. Manwaring foram inteiram ente inventados por ele; e o seu relato de que ela seduziu o pretendente da srta. Manwaring tam pouco tinha fundam ento. Sir Jam es Martin havia sido atraído por essa j ovem para lhe dem onstrar algum a atenção, e com o é um hom em de fortuna, era fácil ver que as intenções dela se estendiam ao casam ento. É fato notório que a srta. Manwaring está correndo atrás de um m arido, e sendo assim ninguém pode sentir pena dela por ter perdido, graças aos atrativos superiores de outra m ulher, a oportunidade de poder tornar um hom em digno totalm ente infeliz. Lady Susan de form a algum a pretendia realizar tal conquista e, ao descobrir com o a srta. Manwaring se ressentia da deserção de seu pretendente, decidiu se afastar da fam ília, apesar dos apelos ansiosos do sr. e da sra. Manwaring. Tenho m otivos para im aginar que Sir Jam es com efeito lhe fez propostas sérias, m as o fato de ela ter ido em bora de Langford im ediatam ente após se inteirar do afeto dele deve isentá-la de qualquer culpa no assunto j unto a qualquer intelecto m inim am ente sagaz. Tenho certeza, m eu caro senhor, de que verá a verdade desse raciocínio e, portanto, aprenderá a fazer j ustiça ao caráter de um a m ulher m uito difam ada.
Sei que a vinda de Lady Susan para Churchill foi provocada apenas pelas intenções m ais honradas e am igáveis. Sua prudência e econom ia são exem plares, sua consideração pelo sr. Vernon faz frente até m esm o ao m érito dele e seu desej o de conquistar o apreço de m inha irm ã m erece um a retribuição m elhor do que vem recebendo. Com o m ãe, é irrepreensível. O sólido afeto que nutre pela filha é dem onstrado pelo fato de a ter confiado a cuidados que irão garantir um a atenção adequada à sua educação; no entanto, com o não tem a parcialidade cega e fraca da m aioria das m ães, acusam -na de ser desprovida de carinho m aterno. Qualquer pessoa sensata, contudo, saberá valorizar e elogiar seu bem -direcionado afeto e unir-se-á a m im no desej o de que Frederica Vernon possa se m ostrar m ais m erecedora do afetuoso cuidado da m ãe do que vem se m ostrando até agora.
Escrevi aqui, m eu caro senhor, m eus verdadeiros sentim entos em relação a Lady Susan; o senhor saberá por esta carta o quanto adm iro suas habilidades, o quanto estim o seu caráter; m as, se não ficar igualm ente convencido por m inha plena e solene garantia de que seus tem ores não têm qualquer fundam ento, irá m e deixar profundam ente m ortificado e triste. Subscrevo-m e etc.
R. de Courcy
CARTA 15
DA SRA. VERNON PARA LADY DE COURCY
Churchill
Minha querida m ãe,
Devolvo-lhe a carta de Reginald, e alegro-m e de todo o coração que m eu pai tenha sido tranquilizado por ela. Transm ita isso a ele, j unto com m inhas congratulações; entre nós, porém , devo confessar que a mim a carta só convenceu de que m eu irm ão não tem qualquer intenção atual de se casar com Lady Susan – e não que não corra esse perigo daqui a três m eses. Ele faz um relato m uito plausível do com portam ento dela em Langford, e desej o que isso possa ser verdade, m as as inform ações devem vir da própria, e estou m enos inclinada a acreditar nelas do que a lam entar o grau de intim idade que subsiste entre os dois sugerido pela discussão de tal assunto.
Sinto m uito ter desagradado ao m eu irm ão, m as não posso esperar nada m elhor do que isso enquanto ele se m ostrar tão ansioso para j ustificar Lady Susan. Ele está se m ostrando de fato m uito severo com igo, m as, ainda assim , espero não ter sido precipitada no j uízo que fiz a seu respeito. Pobre m ulher! Em bora eu tenha m otivos suficientes para m inha antipatia, j á não posso evitar sentir pena, pois ela está realm ente abalada, e não sem m otivos. Recebeu hoj e de m anhã um a carta da senhora que está cuidando de sua filha, solicitando que a srta. Vernon sej a retirada de lá im ediatam ente, um a vez que foi surpreendida tentando fugir. Por que ou para onde a m enina queria ir, nada disso chega a ser m encionado; porém com o sua situação parece ser im perdoável, é um fato m uito triste, e logicam ente está afligindo m uito Lady Susan.
Frederica j á deve estar com dezesseis anos, e deveria saber se com portar, m as, a j ulgar pelas insinuações da m ãe, tem o que sej a um a m enina perversa. Foi, contudo, lam entavelm ente negligenciada, e a m ãe deveria se lem brar disso.
O sr. Vernon partiu para a Cidade assim que ela decidiu o que deveria ser feito. Se possível, ele deve tentar convencer a srta. Sum m ers a deixar Frederica ficar, e, caso não consiga, deve trazê-la por enquanto para Churchill, até ser possível encontrar outro lugar para a m enina. Enquanto isso, Sua Senhoria se reconforta passeando pelo Jardim de Arbustos com Reginald, recorrendo, suponho, a todos os sentim entos afetuosos dele nessa hora tão difícil. Ela tem conversado bastante com igo a respeito, e conversa m uito bem , e tem o estar sendo pouco generosa ao dizer que conversa bem demais para ter sentim entos tão profundos. Mas não vou ficar procurando defeitos. Ela talvez venha a ser a esposa de Reginald. Que Deus não perm ita! Mas por que eu seria m ais arguta do que qualquer outra pessoa? O sr. Vernon afirm a nunca ter visto um a aflição m ais profunda do que a dela ao receber a carta – e será o j uízo dele inferior ao m eu?
Ela se m ostrou m uito pouco inclinada a perm itir que Frederica viesse para Churchill, atitude um tanto j usta, pois isso m e parece um a espécie de recom pensa para um com portam ento que m erece algo bem diferente. Mas era im possível levá-la para qualquer outro lugar, e ela não vai passar m uito tem po aqui.
“Será absolutam ente necessário”, disse ela, “com o você, m inha cara irm ã, j á deve ter percebido, tratar m inha filha com algum a severidade quando ela aqui estiver; um a necessidade m uito dolorosa, m as tentarei m e subm eter a ela. Tem o ter sido indulgente dem ais com excessiva frequência, m as o tem peram ento de m inha pobre Frederica nunca soube tolerar bem a oposição. A senhora precisa m e am parar e incentivar – caso m e considere excessivam ente tolerante, deve m e instar à necessária repreensão.”
Tudo isso m e parece assaz razoável. Reginald está tão exaltado com essa pobre m enina boba! O fato de ele se m ostrar tão am argo em relação à filha dela com certeza não depõe a favor de Lady Susan; o conceito dele deve advir da descrição feita pela m ãe.
Bem , qualquer que sej a o destino dele, podem os nos reconfortar sabendo que fizem os o possível para salvá-lo. Devem os confiar os acontecim entos a um Poder Superior. Sua sem pre etc.
Cath. Vernon
CARTA 16
DE LADY SUSAN PARA A SRA. JOHNSON
Churchill
Nunca, m inha cara Alicia, nunca em toda a m inha vida fiquei tão irritada quanto pela carta que recebi hoj e de m anhã da srta. Sum m ers. Aquela m inha filha m edonha tentou fugir. Eu antes não fazia ideia de que fosse tam anho diabinho; ela parecia ter toda a docilidade dos Vernon; no entanto, ao receber a carta na qual eu declarava m inhas intenções em relação a Sir Jam es, ela realm ente tentou escapar; pelo m enos não consigo encontrar outra explicação para ela ter agido assim . Im agino que pretendesse ir para a casa dos Clarke, em Staffordshire, um a vez que não conhece m ais ninguém . Mas ela vai ser punida, e vai se casar com ele. Mandei Charles à Cidade tentar rem ediar a situação, se possível, pois eu de form a algum a a quero aqui. Se a srta. Sum m ers não puder ficar com ela, você precisa encontrar outra escola para m im , a m enos que consigam os casá-la im ediatam ente. A srta. S. escreveu dizendo que não conseguiu obter da j ovem dam a nenhum m otivo para tal extraordinário com portam ento, o que só faz confirm ar m inha explicação pessoal para ele.
Acho que Frederica é tím ida dem ais, e tem m edo dem ais de m im para contar algum a coisa; no entanto, caso a afabilidade do tio consiga arrancar algo dela, não tem o. Confio que conseguirei tornar m inha história tão boa quanto a dela. Se tenho algum a vaidade, é de m inha eloquência. O com ando da linguagem acarreta consideração e estim a com a m esm a certeza que a adm iração acom panha a beleza. E eu aqui tenho bastante oportunidade para exercitar m eu talento, j á que a m aior parte de m eu tem po é dedicada às conversas. Reginald nunca fica tranquilo a m enos que estej am os sozinhos, e quando o tem po está razoável passam os horas cam inhando j untos pelo j ardim de arbustos. De m odo geral, ele m e agrada m uito, é inteligente e tem bastante coisa a dizer, m as às vezes é im pertinente e criador de problem as. Dem onstra um a espécie de sensibilidade ridícula ao exigir explicações detalhadas sobre qualquer coisa negativa que tenha escutado a m eu respeito, e só fica satisfeito quando pensa ter entendido tudo tim -tim por tim -tim .
Esse é um tipo de am or – m as confesso que não m e agrada particularm ente. Prefiro infinitam ente o espírito carinhoso e liberal de Manwaring, que m e im pressionou com a m ais profunda convicção de m eu m érito e aceita que o que quer que eu faça estará sem pre certo; considero com certo desprezo as fantasias questionadoras e desconfiadas desse coração que sem pre parece estar duvidando da sensatez das próprias em oções. Manwaring é sem dúvida superior a Reginald, além de qualquer com paração – superior em tudo, m enos na capacidade de estar com igo. Pobre hom em ! Ele está m uito aflito de ciúm e, algo que não m e desagrada, pois não conheço m elhor esteio para o am or. Tem m e infernizado para obter m inha perm issão de vir para cá e se hospedar em algum lugar perto
de m im 5 incog. – m as proibi qualquer coisa desse gênero. Im perdoáveis são as m ulheres que se esquecem daquilo que devem a si m esm as e à opinião do m undo.
S. Vernon
CARTA 17
DA SRA. VERNON PARA LADY DE COURCY
Churchill
Minha querida m ãe,
O sr. Vernon voltou na quinta-feira à noite trazendo consigo a sobrinha. Lady Susan havia recebido um recado dele pelo correio desse m esm o dia inform ando que a srta. Sum m ers se recusara term inantem ente a perm itir que a srta. Vernon perm anecesse em sua escola. Estávam os, portanto, preparados para sua chegada e passam os a tarde inteira a aguardá-los com im paciência. Eles apareceram enquanto estávam os tom ando o chá, e nunca em toda a m inha vida vi criatura com ar m ais am edrontado do que Frederica ao adentrar a sala.
Lady Susan, que anteriorm ente havia vertido lágrim as e dem onstrado grande agitação com a perspectiva do encontro, recebeu a filha com um autocontrole exem plar e sem trair o m enor afeto. Mal falou com a m enina e, quando Frederica desatou a chorar assim que nos sentam os, tirou-a da sala e só retornou depois de algum tem po; ao voltar, tinha os olhos m uito verm elhos, e estava tão agitada quanto antes. Não vim os m ais a m enina.
O pobre Reginald estava m uitíssim o preocupado por ver sua bela am iga tão abalada, e a fitava com um a solicitude tão afetuosa que eu, depois de surpreendê-la vez ou outra observando o com portam ento dele com um ar exultante, fiquei bastante sem paciência. Esse teatrinho patético durou a noite inteira, um a exibição tão ostentatória e ardilosa a ponto de m e convencer, sem som bra de dúvida, de que ela na realidade nada sentia.
Desde que conheci a filha, estou m ais zangada com ela do que nunca. A pobre m enina aparenta estar tão infeliz que fico de coração apertado. Lady Susan com certeza é excessivam ente rígida, pois Frederica não dem onstra ter o tipo de tem peram ento que torna a severidade necessária. Ela m e parece inteiram ente tím ida, retraída e contrita.
É m uito bonita, em bora não tão vistosa quanto a m ãe, e nem um pouco parecida com ela. Tem um a tez delicada, m as nem tão clara nem tão rosada quanto a de Lady Susan – seu sem blante tem a form a dos Vernon, rosto ovalado e m ansos olhos castanhos, e seu olhar tem um a doçura toda sua quando ela se dirige ao tio ou a m im , pois, com o fom os gentis com ela, naturalm ente conquistam os sua gratidão. A m ãe insinuou que seu tem peram ento é intratável, m as nunca vi um rosto que desse m enos indicação de m á disposição do que o dela; e, pelo que agora posso constatar do com portam ento de um a com a outra, pela invariável severidade de Lady Susan e pelo silencioso abatim ento de Frederica, sou levada a acreditar, com o acreditava até agora, que a prim eira não nutre qualquer am or verdadeiro pela filha e nunca a tratou com o devia ou lhe dem onstrou afeto.
Ainda não pude ter um a conversa com m inha sobrinha; ela é tím ida, e acho que posso constatar alguns esforços no sentido de evitar que passe m uito tem po sozinha com igo. Nenhum m otivo satisfatório para sua fuga surgiu até agora. A senhora pode estar certa de que o bondoso tio se m ostrou tem eroso dem ais de perturbá-la para fazer m uitas perguntas durante a viagem . Quisera eu poder ter ido buscá-la em seu lugar; acho que um a viagem de cinquenta quilôm etros m e teria bastado para descobrir a verdade.
A pedido de Lady Susan, o pequeno piano foi levado para dentro nestes últim os dias, para seu quarto de vestir, e é lá que Frederica passa a m aior parte do dia; praticando, é o que se diz, m as eu raram ente ouço qualquer barulho quando passo por lá. Não sei o que a m enina faz lá dentro; há vários livros no quarto, m as nem toda m oça que passou os prim eiros quinze anos de vida correndo solta por aí sabe ou quer ler. Pobrezinha! A vista de sua j anela não é m uito interessante, pois esse quarto dá para o gram ado, com o a senhora sabe, com o j ardim de arbustos em um dos lados, onde ela talvez possa ver a m ãe cam inhando durante um a hora seguida, m uito entretida em um a conversa com Reginald. Um a m enina da idade de Frederica deve m esm o ser infantil caso coisas assim não a deixem espantada. Não é im perdoável dar um exem plo desses para um a filha? Ainda assim , Reginald considera Lady Susan a m elhor das m ães – e continua a condenar Frederica com o um a m enina sem valor! Está convencido de que sua tentativa de fuga ocorreu sem causa para j ustificá-la, e de que nada a provocou. Eu certam ente não posso afirm ar o contrário, m as, considerando a declaração da srta. Sum m ers de que a srta. Vernon não deu qualquer sinal de obstinação ou perversidade durante toda a sua estada em Wigm ore Street até o m om ento em que foi surpreendida nessa tentativa, não consigo acreditar de tão pronto no que Lady Susan o fez e quer m e fazer acreditar, que o plano de fuga foi causado som ente por im paciência ao se ver confinada, e por um desej o de fugir da instrução dos m estres. Ah, Reginald, com o seu j uízo está escravizado! Ele m al se atreve a adm itir que a m enina é atraente e, quando m enciono sua beleza, responde apenas que seus olhos não têm brilho.
Ele às vezes está certo de que ela tem um a deficiência de com preensão, e outras vezes de que seu único defeito é o tem peram ento. Em sum a, que quando alguém vive enganando os outros é im possível ser constante. Para j ustificar a si m esm a, Lady Susan j ulga necessário que Frederica sej a culpada, e provavelm ente em algum as ocasiões considerou útil acusá-la de m au-caratism o, e em outras lam entar sua falta de bom -senso. Reginald está sim plesm ente repetindo o que Sua Senhoria diz.
Subscrevo-m e etc.
Cath. Vernon
CARTA 18
DA MESMA PARA A MESMA
Churchill
Minha cara senhora,
Folgo m uito em saber que m inha descrição de Frederica Vernon despertou seu interesse, pois considero a m oça de fato m erecedora de seu apreço, e, depois que eu lhe falar sobre um a ideia que recentem ente m e veio à cabeça, tenho certeza de que sua im pressão favorável a respeito dela será intensificada. Não posso evitar im aginar que ela está se afeiçoando ao m eu irm ão, pois m uitas vezes vej o que tem os olhos fixos no rosto dele com um a notável expressão de adm iração pensativa! Ele sem dúvida é um rapaz vistoso, e – m ais do que isso – seus m odos têm um a franqueza que deve ser m uito sedutora, e estou certa de que Frederica sente isso. Seu com portam ento, em geral distraído e introspectivo, sem pre se ilum ina com um sorriso quando Reginald diz algo divertido; e, por m ais sério que sej a o assunto sobre o qual ele está discorrendo, estarei m uito equivocada se afirm ar que qualquer sílaba do que ele diz escapa a seus ouvidos.
Quero que ele estej a percebendo tudo isso, pois sabem os o poder que a gratidão exerce em um coração com o o seu; e, se o afeto sincero de Frederica puder afastá-lo de sua m ãe, talvez venham os a abençoar o dia que a fez vir para Churchill. Acho, m inha cara senhora, que a m enina daria um a filha bem do seu agrado. Não há dúvida de que é extrem am ente j ovem , teve um a educação lam entável e um terrível exem plo de leviandade na m ãe; apesar disso, posso afirm ar que tem excelente disposição, e que suas habilidades naturais são m uito boas.
Em bora ela não apresente qualquer talento consum ado, de form a algum a é tão ignorante quando se poderia im aginar; gosta de livros e passa a m aior parte do tem po lendo. A m ãe agora a deixa m ais sozinha do que costumava deixar, e eu a m antenho com igo o quanto posso, e tenho m e esforçado m uito para vencer sua tim idez. Som os m uito boas am igas e, em bora ela nunca abra a boca na frente da m ãe, conversa bastante quando está sozinha com igo, deixando claro que, caso fosse tratada adequadam ente por Lady Susan, sem pre iria se m ostrar m ais disposta. Quando se com porta sem restrição, não pode haver coração m ais delicado e afetuoso ou m odos m ais agradáveis do que os seus. Os prim inhos todos gostam m uito dela.
Afetuosam ente,
Cath. Vernon
CARTA 19
DE LADY SUSAN PARA A SRA. JOHNSON
Churchill
Você deve estar ansiosa para ouvir m ais sobre Frederica, e talvez m e considere negligente por não ter escrito antes. Ela chegou com o tio na quinta-feira, duas sem anas atrás, e eu naturalm ente não perdi tem po para lhe perguntar o m otivo de seu com portam ento, e logo constatei estar certa quando o atribuí à carta que eu m esm a escrevi. A perspectiva do casam ento a deixou tão assustada que, com um m isto de perversidade j uvenil e insensatez, sem considerar que não poderia escapar de m inha autoridade ao fugir de Wigm ore Street, ela decidiu ir em bora e tom ar um coche até a casa de seus am igos, os Clarke, e na realidade conseguiu avançar duas ruas nessa viagem quando infelizm ente deram por sua falta, perseguiram -na e capturaram -na.
Foi esse o prim eiro feito digno de nota da srta. Frederica Susanna Vernon e, se considerarm os que ela o realizou na tenra idade de dezesseis anos, abrirem os cam inho para um m ui lisonj eiro prognóstico de futuro renom e. Estou im ensam ente irritada, porém , com a dem onstração de propriedade que im pediu a srta. Sum m ers de ficar com a m enina; e isso m e parece um a tal estupidez, levando em conta as relações fam iliares de m inha filha, que só posso supor que a dam a tenha sido m ovida pelo m edo de não receber seu dinheiro. No entanto, sej a com o for, Frederica está de novo com igo e, com o no m om ento não tem m ais nada com que passar o tem po, está ocupada dando continuidade ao plano rom ântico iniciado em Langford. Ela está na realidade se apaixonando por Reginald de Courcy. Desobedecer à m ãe recusando um a proposta de casam ento irrecusável não lhe basta; ela tam bém precisa distribuir seu afeto sem a aprovação m aterna. Nunca vi um a m enina da sua idade tentar com m ais afinco se transform ar na chacota da hum anidade. Seus m odos são razoavelm ente vivazes, e sua falta de afetação ao exibi-los é tão encantadora que a probabilidade de ser ridicularizada e desprezada por todos os hom ens que nela deitarem os olhos é das m ais razoáveis.
A falta de artifícios j am ais irá funcionar nos assuntos do coração, e essa m enina nasceu um a tonta, que possui essa qualidade quer por natureza, quer por afetação. Ainda não tenho certeza se Reginald percebeu o que ela está tram ando; isso tam pouco tem m uita im portância; ela lhe é atualm ente obj eto de total indiferença, e ele lhe teria desprezo caso viesse a conhecer seus sentim entos. Sua beleza é m uito adm irada pelos Vernon, m as não tem qualquer efeito sobre ele. A tia gosta m uito dela – por ser tão diferente de m im , naturalm ente. Ela é o tipo exato de com panheira que convém à sra. Vernon, que m uito aprecia ter a prim azia em tudo e m onopolizar toda a sensatez e a inteligência de um a conversa; Frederica j am ais lhe fará som bra. Quando ela aqui chegou, fiz alguns esforços para evitar que convivesse m uito com a tia, m as desde então relaxei, um a vez que acredito poder confiar que ela vai respeitar as regras que estabeleci para suas conversas.
Mas não vá você im aginar que, com toda essa leniência, eu tenha por um instante desistido de m eu plano para o casam ento dela; não, m inha decisão quanto a isso perm anece firm e, em bora eu ainda não tenha decidido com o vou transform á-la em realidade. Prefiro que o assunto não sej a abordado aqui, para ser escrutinizado pelas m entes sensatas do sr. e da sra. Vernon; e neste m om ento não estou em condições de ir à Cidade. Sendo assim , a srta. Frederica terá de esperar um pouco.
Sua sem pre,
S. Vernon
CARTA 20
DA SRA. VERNON PARA LADY DE COURCY
Churchill
Minha querida m ãe, tem os agora um convidado inesperado em nossa com panhia. Ele chegou ontem . Ouvi um a carruagem à porta quando estava sentada com as crianças vendo-as j antar e, supondo que fossem precisar de m im , saí do quarto delas logo depois e j á estava na m etade da escada quando Frederica veio subindo às pressas, pálida feito a m orte, e passou correndo por m im a cam inho do quarto. Eu na m esm a hora a segui para perguntar qual era o problem a. “Ah”, lam entou-se ela, “ele está aqui, Sir Jam es está aqui… o que vou fazer?” Isso não era explicação; im plorei para ela m e esclarecer do que estava falando. Nessa hora, fom os interrom pidas por um a batida na porta; era Reginald, que tinha ido buscar Frederica a pedido de Lady Susan para fazê-la descer. “É o sr. De Courcy ”, disse ela, enrubescendo com violência. “Mam ãe m andou m e cham ar e tenho de ir.”
Descem os os três j untos, e vi m eu irm ão exam inar com surpresa o sem blante
aterrorizado de Frederica. Na pequena sala, 6 encontram os Lady Susan e um rapaz de aspecto elegante que ela m e apresentou com o Sir Jam es Martin, o m esm o cavalheiro, com o a senhora irá se lem brar, que segundo os boatos ela havia se esforçado para afastar da srta. Manwaring. Parece, porém , que a conquista não era para si própria ou que desde então ela a transferiu para a filha, pois Sir Jam es está agora perdidam ente apaixonado por Frederica, e com grande incentivo da Mãe. Estou certa, no entanto, de que a pobre m oça não gosta dele; e, em bora ele tenha aspecto e m odos m uito satisfatórios, tanto o sr. Vernon quanto eu o acham os um rapaz m uito fraco.
Frederica parecia tão tím ida, tão desatinada ao entrar na sala que senti m uita pena dela. Lady Susan deu m uita atenção ao visitante, m as pude perceber que não tinha qualquer prazer especial em vê-lo. Sir Jam es falou bastante e desculpou-se profusa e educadam ente com igo pela liberdade que havia tom ado vindo até Churchill, recheando seu discurso com risadas m ais frequentes do que o assunto exigia; repetiu várias coisas m uitas vezes, e disse a Lady Susan três vezes que tinha estado com a sra. Johnson algum as noites antes. De vez em quando falava com Frederica, m as falava m ais com a m ãe. A pobre m enina passou esse tem po todo sentada sem abrir a boca; m anteve os olhos baixos, e a cor de seu rosto m udava a cada instante, enquanto Reginald observava tudo que acontecia em total silêncio.
Por fim , Lady Susan, que im agino estivesse cansada daquela situação, sugeriu um passeio, e deixam os os dois cavalheiros j untos para ir vestir nossas peliças.
Quando estávam os subindo, Lady Susan pediu perm issão para m e acom panhar por alguns instantes ao m eu quarto de vestir, um a vez que estava ansiosa para falar com igo em particular. Conduzi-a até lá e, assim que a porta se fechou, ela disse: “Nunca fiquei m ais espantada na vida do que com a chegada de Sir Jam es, e o caráter súbito desse acontecim ento exige um pedido de desculpas a você, cara irm ã, em bora para mim, com o m ãe, ele sej a altam ente lisonj eiro. O afeto que ele tem pela m inha filha é tão caloroso que ele não conseguiu m ais ficar sem vê-la. Sir Jam es é um rapaz de disposição afável e excelente caráter; talvez um pouco volúvel, m as um ano ou dois irão rem ediar isso, e sob outros aspectos ele é um partido tão bom para Frederica que eu sem pre considerei sua afeição por ela com grande prazer, e estou convencida de que a senhora e m eu irm ão darão sua sincera aprovação a esse enlace. Nunca m encionei a ninguém a possibilidade de isso acontecer porque pensei que, enquanto Frederica continuasse na escola, era m elhor guardar segredo; agora, porém , convencida que estou de que Frederica está dem asiado avançada em anos para algum dia se subm eter ao confinam ento de um a escola, e, portanto, tendo passado a considerar a união dela com Sir Jam es um acontecim ento não m uito distante no futuro, eu pretendia, daqui a alguns dias, contar a história toda à senhora e ao sr. Vernon. Tenho certeza, cara irm ã, de que a senhora irá m e perdoar por ter guardado silêncio em relação a isso por tanto tem po, e que irá concordar com igo que circunstâncias assim , enquanto perm anecerem em suspense por qualquer m otivo que for, devem ser ocultadas com o m aior cuidado possível. Quando, daqui a alguns anos, a senhora tiver a felicidade de confiar sua pequena Catherine a um hom em que sej a irrepreensível tanto nas relações quanto no caráter, saberá o que estou sentindo agora; em bora graças aos céus não possa ter tantos m otivos quanto eu para se regozij ar com tal acontecim ento. Catherine terá am plos recursos para sustentar a si m esm a e, ao contrário de m inha Frederica, não dependerá de um casam ento afortunado para aproveitar os confortos da vida.”
Ela concluiu a conversa exigindo que eu lhe desse os parabéns. Fiz isso de form a um tanto canhestra, creio eu; pois a realidade é que a súbita revelação de um assunto tão im portante m e privou da capacidade de falar com qualquer clareza. No entanto, ela agradeceu de form a m uito afetuosa a m inha bondosa preocupação com o bem -estar dela própria e da filha, e então disse:
“Não tenho m uito talento para declarações, m inha cara sra. Vernon, e nunca tive o útil talento de fingir sensações alheias ao m eu coração, e confio portanto que a senhora irá acreditar em m im quando eu declarar que, por m ais que tenha ouvido elogios à sua pessoa antes de conhecê-la, não fazia ideia de que um dia iria am á-la com o am o agora; além do m ais, devo dizer que sua am izade para com igo m e gratifica particularm ente, pois tenho m otivos para acreditar que foram feitas tentativas para influenciar o seu j uízo contra m im . Meu único desej o seria que aqueles – quem quer que sej am – a quem devo tão gentis intenções pudessem ver com o nós duas agora estam os nos entendendo e com preender o verdadeiro afeto que tem os um a pela outra! Mas não vou tom ar m ais o seu tem po. Que Deus a abençoe por sua bondade com igo e com m inha m enina e continue a lhe proporcionar toda a felicidade de que a senhora hoj e dispõe.”
O que se pode dizer de um a m ulher assim , m inha querida m ãe? Quanta ânsia, quanta solenidade em suas palavras! Apesar disso, não posso evitar desconfiar da veracidade em tudo que ela m e disse.