Persuasão

Jane Austen · Capítulo 3 de 5 · parte 4/4

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Persuasão

Anexos: Duas Novelas de Jane Austen

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Tenho outro m otivo para recom endar que se apresse.

Manwaring chegou aqui na sem ana passada e, apesar do sr. Johnson, conseguiu encontrar oportunidades para m e visitar. Ele está totalm ente desolado por sua causa, e o ciúm e que sente de De Courcy é tal que seria m uito pouco recom endável os dois se encontrarem agora; no entanto, se você não perm itir que ele a vej a aqui, não posso garantir que ele não vá com eter algum a grande im prudência – com o ir a Churchill, por exem plo, o que seria terrível. Além do m ais, se seguir m eu conselho e resolver se casar com o sr. De Courcy, será necessário e indispensável tirar Manwaring do cam inho, e som ente você pode ter influência suficiente para m andá-lo de volta para a esposa.

Tenho ainda m ais um a razão para sua vinda. O sr. Johnson vai se ausentar de Londres na próxim a terça-feira. Ele vai cuidar da saúde em Bath, onde, se as águas forem favoráveis à sua constituição e aos m eus desej os, passará m uitas sem anas acam ado com gota. Durante sua ausência, poderei escolher eu m esm a as pessoas que irem os frequentar e m e divertir de verdade. Se ele um dia não houvesse m e forçado a fazer um a espécie de prom essa de j am ais convidá-la à m inha casa, eu lhe diria para ficar em Edward Street. Nada poderia ter m e arrancado tal prom essa a não ser a m ais prem ente necessidade de dinheiro. No entanto, posso lhe conseguir aposentos agradáveis e com salão de visitas em Upper Sey m our Street, e nós duas poderem os estar sem pre j untas, aqui ou lá, pois considero que a prom essa feita ao sr. Johnson inclui apenas (pelo m enos enquanto ele estiver ausente) o fato de você não dorm ir aqui em casa.

Pobre Manwaring, que histórias m e contou sobre os ciúm es da m ulher! Que m ulher m ais boba, esperando constância de um hom em tão charm oso! Mas ela sem pre foi tola; de um a tolice intolerável, ou não teria sequer se casado com ele. Ela, herdeira de um a grande fortuna, e ele sem um vintém ! Sei que poderia ter tido pelo m enos um título além de um baronete. Sua estupidez ao fazer esse enlace foi tão grande que, em bora o sr. Johnson fosse seu tutor e eu no geral não com partilhe as opiniões dele, j am ais poderei perdoá-la.

Adieu, sua

Alicia

CARTA 27

DA SRA. VERNON PARA LADY DE COURCY

Churchill

Esta carta, m inha querida m ãe, lhe será entregue por Reginald. Sua longa visita está finalm ente prestes a se encerrar, m as tem o que a separação ocorra dem asiado tarde para nos trazer qualquer benefício. Ela está de partida para a Cidade, onde irá visitar sua am iga pessoal, a sra. Johnson. Sua intenção inicial era que Frederica a acom panhasse para poder ter aulas, m as nós não perm itim os. A ideia estava fazendo a m enina m uito infeliz, e eu não pude suportar deixá-la à m ercê da m ãe. Nem todos os professores de Londres poderiam com pensar a ruína de seu bem -estar. Eu tam bém teria tem ido por sua saúde, e por tudo, em sum a, a não ser os seus princípios; nisso acredito que ela não será prej udicada, nem m esm o pela m ãe ou por todos os am igos da m ãe; m as ela teria se envolvido com esses am igos (nada recom endáveis, não duvido), ou então sido deixada inteiram ente sozinha, e nem sei o que teria sido pior para ela. Além do m ais, caso fique com a m ãe, ela infelizm ente terá de encontrar Reginald – e esse seria o pior de todos os m ales.

Aqui, logo terem os paz. Nossos afazeres regulares, nossos livros e conversas, os exercícios, as crianças e todos os prazeres dom ésticos que eu puder lhe proporcionar poderão, estou confiante, fazê-la superar aos poucos esse apego j uvenil. Eu não teria qualquer dúvida quanto a isso caso ela tivesse sido desprezada em troca de qualquer outra m ulher do m undo que não a própria m ãe.

Quanto tem po Lady Susan vai passar na Cidade, ou se vai voltar para cá, isso eu não sei dizer. Não consegui ser cordial em m eu convite; porém , se ela decidir vir, nenhum a falta de cordialidade da m inha parte poderá im pedi-la.

Não pude evitar perguntar a Reginald se ele pretendia ir à Cidade neste inverno, assim que descobri que os passos de Sua Senhoria iriam conduzi-la para lá; e, em bora ele tenha afirm ado que está indeciso, algo em sua expressão e em sua voz quando ele falou contradizia suas palavras. Mas chega de m e lam entar. Considero o acontecim ento tão certo que j á m e resignei ao desespero. Se ele os deixar em breve para ir a Londres, tudo estará concluído.

Afetuosam ente,

Cath. Vernon

CARTA 28

DA SRA. JOHNSON PARA LADY SUSAN

 

Edward Street

Minha caríssim a am iga, Escrevo tom ada pela m aior das aflições; o m ais desafortunado dos acontecim entos acaba de se produzir. O sr. Johnson descobriu a m aneira m ais eficaz de infernizar todos nós. Ele ficou sabendo de algum a form a, im agino eu, que você logo viria a Londres, e na m esm a hora deu um j eito de ter um a crise de gota tão grave que precisou adiar a ida para Bath, quando não desistir de todo da viagem . Estou convencida de que a gota dele é causada ou evitada a seu bel-

prazer; foi a m esm a coisa quando eu quis acom panhar os Ham ilton aos Lagos;7 e três anos atrás, quando eu quis ir a Bath, nada conseguiu fazê-lo apresentar nem sequer um sintom a de gota.

Recebi sua carta e providenciei seus aposentos conform e o com binado. Folgo em saber que m inha carta surtiu tanto efeito sobre você, e que De Courcy sem dúvida lhe pertence. Procure-m e assim que chegar, e sobretudo m e diga o que pretende fazer em relação a Manwaring. É im possível dizer quando poderei encontrá-la. Com certeza ficarei m uito confinada. Ficar doente aqui e não em Bath é um truque tão abom inável que m al consigo m e controlar. Em Bath, as tias velhas teriam cuidado dele, m as aqui tudo recai sobre m im – e ele suporta a dor com tam anha paciência que não tenho o m enor pretexto para perder a m inha.

Sua sem pre,

Alicia

CARTA 29

DE LADY SUSAN PARA A SRA. JOHNSON

 

Upper Sey m our Street

Minha cara Alicia,

Não era preciso essa últim a crise de gota para m e fazer detestar o sr. Johnson; m as agora o tam anho de m inha aversão é im possível de m edir. Confiná-la em casa para lhe servir de enferm eira em seus aposentos! Minha cara Alicia, de que erro você foi culpada para se casar com um hom em dessa idade! Idade suficiente para ser form al, ingovernável e sofrer de gota – velho dem ais para ser agradável e j ovem dem ais para m orrer.

Cheguei ontem à tarde por volta das cinco, e m al havia engolido o j antar quando Manwaring apareceu. Não vou disfarçar o verdadeiro prazer que sua visita m e causou, nem a força com a qual senti o contraste entre a sua pessoa e os seus m odos em com paração com os de Reginald, para infinita desvantagem deste últim o. Durante um a ou duas horas, cheguei até a hesitar na decisão de m e casar com ele – e, em bora essa ideia fosse fútil e tola dem ais para perdurar em m inha m ente, não m e sinto m uito ansiosa pela conclusão desse casam ento, nem anseio com grande im paciência pela hora em que Reginald chegará à Cidade, conform e com binam os. Provavelm ente adiarei sua vinda sob um pretexto qualquer. Ele não pode chegar até que Manwaring tenha partido.

Às vezes ainda tenho dúvidas quanto ao casam ento. Se o velho viesse a m orrer, talvez eu não hesitasse; m as depender dos caprichos de Sir Reginald não irá convir à liberdade de m eu espírito; caso eu decida aguardar esse acontecim ento, tenho hoj e um a desculpa suficiente no fato de estar viúva a m enos de dez m eses.

Não dei a Manwaring qualquer indicação sobre m inhas intenções – nem lhe perm iti considerar m inha relação com Reginald m ais do que um flerte sem im portância; e ele está razoavelm ente tranquilizado. Adieu, até nos reencontrarm os. Estou encantada com m eus aposentos.

Sua sem pre,

S. Vernon

CARTA 30

DE LADY SUSAN PARA O SR. DE COURCY

 

Upper Sey m our Street

Recebi sua carta; e em bora não tente esconder m inha satisfação com sua im paciência para o m om ento de nosso reencontro, ainda assim m e vej o obrigada a adiar esse m om ento para além daquele fixado inicialm ente. Não m e j ulgue cruel por exercer assim m eu poder, nem m e acuse de ser volúvel sem prim eiro ouvir m inhas razões. Durante a viagem de Churchill, tive tem po de sobra para pensar sobre o estado atual de nossa situação, e cada reflexão serviu para m e convencer de que esta requer um a condução delicada e cautelosa, à qual até agora nos m ostram os pouco atentos. Nossos sentim entos nos apressaram até um nível de precipitação que não se encaixa com as alegações de nossos am igos ou com a opinião do m undo. Fom os tem erários ao form ar esse com prom isso apressado; m as não podem os com pletar a im prudência ratificando-o quando há tantos m otivos para tem er que o enlace vá encontrar a oposição daqueles am igos dos quais você tanto depende.

Não cabe a nós reprovar qualquer expectativa que seu pai possa ter quanto a você fazer um casam ento vantaj oso; quando um a fam ília tem posses tão im portantes quanto a sua, o desej o de aum entá-las, ainda que não sej a totalm ente razoável, é corriqueiro dem ais para causar surpresa ou ressentim ento. Ele tem o direito de exigir que a nora sej a um a m ulher de fortuna, e eu às vezes luto com igo m esm a por tolerar que você form e um vínculo tão im prudente. A influência da razão, porém , m uitas vezes é reconhecida dem asiado tarde para quem tem sentim entos com o os m eus.

Faz apenas poucos m eses que fiquei viúva; e, por m enos dívidas que tenha para com a m em ória de m eu m arido por qualquer felicidade que ele tenha m e proporcionado durante uns poucos anos de união, não posso esquecer que a indelicadeza de um segundo casam ento tão precoce irá m e subm eter à censura do m undo e, o que seria ainda m ais insuportável, causar o desprazer do sr. Vernon. Talvez com o tem po eu m e fortaleça contra a inj ustiça da reprovação geral; m as a perda da valiosa estim a dele, com o você bem sabe, não tenho com o suportar; e, quando a isso vier talvez se som ar a consciência de ter prej udicado você j unto à sua fam ília, com o poderei suportar a m im m esm a? Com sentim entos intensos com o os m eus, a certeza de ter separado um filho dos pais m e tornaria a m ais infeliz das criaturas, m esm o estando ao seu lado.

Sendo assim , com certeza seria recom endável adiar nossa união, e adiá-la até que as aparências se tornem m ais prom issoras, até a situação ter tom ado um a direção m ais favorável. Para auxiliar essa decisão, sinto que será necessária um a ausência. Não devem os nos encontrar. Por m ais cruel que possa parecer essa sentença, a necessidade de pronunciá-la, único fato que m e leva a aceitá-la, ficará evidente para você depois de considerar a nossa situação à luz sob a qual eu fui im preterivelm ente obrigada a exam iná-la. Você vai acreditar, você tem que acreditar que nada senão a m ais forte convicção de m eu dever poderia m e levar a ferir m eus próprios sentim entos recom endando um a separação prolongada; e não pode suspeitar que eu sej a insensível aos seus. Digo e repito, portanto, que não devem os, não podem os ainda nos encontrar. Com um a separação de alguns m eses um do outro, tranquilizarem os os sentim entos fraternos da sra. Vernon, que, acostum ada a gozar dos bens m ateriais, considera a fortuna um a necessidade em qualquer situação, e cuj a sensibilidade não é de natureza a com preender a nossa.

Mande notícias em breve, m uito em breve. Diga-m e que aceita m eus argum entos, e não m e repreenda por usá-los. Não suporto ser repreendida. Não estou tão anim ada a ponto de precisar conter m eu ânim o. Preciso tentar buscar diversão em outras partes, e, felizm ente, m uitos de m eus am igos estão na cidade – entre eles os Manwaring. Você sabe o apreço que tenho tanto pelo m arido quanto pela esposa.

Sua sem pre fiel,

S. Vernon

CARTA 31

DE LADY SUSAN PARA A SRA. JOHNSON

Upper Sey m our Street

Minha cara am iga,

Reginald, essa criatura que m e atorm enta, está aqui. Minha carta, cuj a intenção era fazê-lo ficar m ais tem po no cam po, apressou sua vinda à Cidade. No entanto, por m ais que eu queira que ele vá em bora, não posso evitar ficar satisfeita com tal dem onstração de apego. Ele tem por m im total dedicação, de corpo e alm a. Levará de m ão própria este recado para servir de apresentação a você, que ele anseia por conhecer. Perm ita-lhe passar esta noite em sua com panhia, para que eu não corra perigo de vê-lo voltar para cá. Disse a ele que não estou m e sentindo m uito bem e preciso ficar sozinha – e, se ele voltar aqui hoj e, talvez haj a confusão, pois é im possível confiar plenam ente nos criados. Portanto, rogo-lhe que o m antenha entretido em Edward Street. Não irá achá-lo um a com panhia m açante, e perm ito que flerte com ele o quanto quiser. Ao m esm o tem po, não esqueça m eu verdadeiro interesse; diga tudo o que puder para convencê-lo de que seria m uito ruim ele perm anecer aqui; você conhece m eus m otivos – as aparências, e assim por diante. Eu m esm a insistiria m ais, m as estou im paciente para m e livrar dele, pois Manwaring vai chegar daqui a m eia hora. Adieu.

S.V.

CARTA 32

DA SRA. JOHNSON PARA LADY SUSAN

 

Edward Street

Minha cara criatura,

Estou aflitíssim a e não sei o que fazer, nem sei o que você poderá fazer. O sr. De Courcy chegou bem na hora em que não deveria ter chegado. A sra. Manwaring havia entrado aqui em casa no m esm o instante e forçado um encontro com seu tutor, em bora eu não tenha ficado sabendo de nada até um pouco m ais tarde, pois havia saído quando ela e Reginald chegaram , senão o teria m andado em bora de qualquer m aneira; m as ela estava trancada com o sr. Johnson enquanto ele m e aguardava no salão. Ela chegou ontem atrás do m arido; m as você talvez j á saiba disso por ele próprio. Veio aqui solicitar a interferência de m eu m arido e, antes de eu poder ter qualquer ciência, tudo aquilo que você desej ava esconder foi revelado a ele; e infelizm ente ela havia conseguido arrancar do criado de Manwaring a inform ação de que ele havia visitado você todos os dias desde sua chegada à Cidade, e acabara de ver com os próprios olhos ele chegar à sua porta! O que eu poderia ter feito? Fatos são coisas terríveis! Tudo isso a esta altura j á é do conhecim ento do sr. De Courcy, que se encontra agora a sós com o sr. Johnson. Não m e acuse; era m esm o im possível evitar. Já fazia algum tem po que o sr. Johnson desconfiava que De Courcy tencionasse se casar com você, e quis falar com ele a sós assim que soube que ele estava na casa.

A detestável sra. Manwaring, que, pode ficar descansada, tam anha preocupação deixou ainda m ais m agra e m ais feia, continua aqui, e eles estão todos fechados j untos. O que se pode fazer? Se Manwaring estiver com você agora, é m elhor que vá em bora. De toda form a, espero que ele agora atorm ente a m ulher m ais do que nunca. Com votos ansiosos,

Sua fiel

Alicia

CARTA 33

DE LADY SUSAN PARA A SRA. JOHNSON

 

Upper Sey m our Street

Esse desdobram ento é dos m ais irritantes. Que falta de sorte você não ter estado

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em casa! Pensei que pudesse contar com você às . Mas não estou desesperada. Não se atorm ente com tem ores por m inha causa. Pode estar certa de que conseguirei convencer Reginald de m inha versão da história. Manwaring acaba de partir; ele m e trouxe notícias sobre a chegada da esposa. Que m ulher m ais tola! De que ela im agina que essas m anobras irão adiantar? Ainda assim , gostaria que ela tivesse ficado quieta em Langford.

Reginald vai ficar um pouco enraivecido no início, m as am anhã, na hora do j antar, tudo j á estará bem outra vez.

Adieu,

S.V.

CARTA 34

DO SR. DE COURCY PARA LADY SUSAN

 

Hotel

Escrevo apenas para m e despedir da senhora. O feitiço está desfeito. Eu a vej o tal com o é. Desde que nos separam os ontem , ouvi de fontes inquestionáveis um relato a seu respeito que m e trouxe a m ais devastadora convicção da hipocrisia à qual fui subm etido e da necessidade absoluta de um a separação im ediata e eterna entre nós. A senhora não poderá ter dúvidas quanto a que estou m e referindo; Langford… Langford… essa palavra por si só j á basta. Recebi m inhas inform ações da própria sra. Manwaring na casa do sr. Johnson.

A senhora sabe com o a am ei e poderá fazer um j uízo íntim o de m eus atuais sentim entos; m as não sou tão fraco a ponto de descrevê-los para um a m ulher que exultará por ter despertado a sua aflição, m as cuj o afeto eles nunca conseguiram conquistar.

R. de Courcy

CARTA 35

DE LADY SUSAN PARA O SR. DE COURCY

 

Upper Sey m our Street

Não tentarei descrever m eu espanto ao ler seu bilhete recebido agora m esm o. Estou perplexa em m inhas tentativas de form ar algum a conj ectura racional quanto ao que a sra. Manwaring pode ter lhe contado para ocasionar um a m udança tão extraordinária de seus sentim entos. Já não lhe expliquei tudo a m eu respeito que pudesse ter um significado duvidoso, e que a m aldade do m undo interpretou para m eu descrédito? Algum dia escondi algo de você? Reginald, você está m e deixando m ais aflita do que posso descrever. Não posso crer que a velha história dos ciúm es da sra. Manwaring tenha ressuscitado ou, no m ínim o, sido ouvida novam ente. Venha ter com igo agora m esm o e explique para m im o que agora é totalm ente incom preensível. Acredite, a palavra Langford por si só não tem um significado tão poderoso para prescindir de m aiores explicações. Se form os mesmo nos separar, pelo m enos seria elegante vir se despedir pessoalm ente. Mas sinto-m e pouco inclinada a brincar; na realidade, estou falando m uito sério, pois ser prej udicada, nem que sej a por apenas um a hora, no conceito que você tem de m im é um a hum ilhação à qual não consigo m e subm eter. Contarei cada instante até a sua vinda.

S.V.

CARTA 36

DO SR. DE COURCY PARA LADY SUSAN

 

Hotel Por que m e escrever? Por que pedir detalhes? No entanto, j á que deve ser assim , fico obrigado a declarar que todos os relatos de seu m au com portam ento durante a vida e desde a m orte do sr. Vernon que tinham chegado a m eus ouvidos, bem com o aos do m undo em geral, e conquistado m inha crença m ais com pleta antes de eu a conhecer, m as dos quais a senhora, graças ao exercício de suas pervertidas habilidades, havia m e feito decidir duvidar, m e foram agora com provados de form a incontestável. E digo m ais: estou convencido de que um a relação da qual eu nunca antes havia cogitado a existência j á existe há algum tem po e continua a existir entre a senhora e o hom em de cuj a fam ília a senhora roubou a paz em troca da hospitalidade com a qual foi acolhida! Estou convencido de que se correspondeu com ele desde que saiu de Langford… não com sua esposa… m as com ele… e que ele agora a visita diariam ente. A senhora por acaso pode, por acaso vai se atrever a negar? E tudo isso no período em que fui um pretendente encoraj ado e aceito! Do que não terei conseguido escapar! Só m e resta ser grato. Longe de m im perder-m e em lam úrias e suspirar de arrependim ento. Minha própria tolice m e expôs ao perigo, e devo m inha salvação à gentileza e integridade alheias. Mas a infeliz sra. Manwaring, cuj a agonia ao relatar o passado parecia lhe am eaçar a razão… quem irá consolar a ela?

Depois de um a revelação assim , a senhora não poderá fingir m ais qualquer espanto com m inha decisão de lhe dizer adeus. Meu j uízo foi por fim recuperado, e m e inspira tanto a detestar os artifícios que m e subj ugaram quanto a desprezar a m im m esm o pela fraqueza que possibilitou sua força.

R. de Courcy

CARTA 37

DE LADY SUSAN PARA O SR. DE COURCY

 

Upper Sey m our Street

Estou satisfeita – e não vou m ais incom odá-lo um a vez despachadas estas linhas. O com prom isso que o senhor estava ansioso para assum ir duas sem anas atrás não é m ais com patível com suas opiniões, e alegro-m e em constatar que os prudentes conselhos de seus pais não foram em vão. Não tenho dúvidas de que o restabelecim ento de sua paz seguirá de perto esse ato de obediência filial, e perm ito a m im m esm a esperar que eu possa sobreviver ao meu quinhão desse desapontam ento.

S.V.

CARTA 38

DA SRA. JOHNSON PARA LADY SUSAN

 

Edward Street

Lam ento sua ruptura com o sr. De Courcy, em bora não m e espante; ele acaba de inform ar ao sr. Johnson a respeito por carta. Segundo ele, vai em bora de Londres hoj e m esm o. Estej a certa de que com partilho todos os seus sentim entos, e não se zangue se eu disser que toda a nossa interação, m esm o por carta, deve se encerrar em breve. Isso m e deixa m uito infeliz… m as o sr. Johnson j urou que, se eu insistir nessa relação, irá passar o resto da vida m orando no cam po… e você bem sabe que é im possível aceitar um a atitude extrem ada com o essa enquanto restar outra alternativa.

Você j á soube, naturalm ente, que os Manwaring vão se separar; tem o que a sra. M. volte a m orar em nossa casa. Mas ela ainda gosta tanto do m arido e se aflige tanto por ele que talvez não tenha um a vida m uito longa.

A srta. Manwaring acaba de chegar à Cidade para ficar com a tia, e dizem que ela andou declarando que irá conquistar Sir Jam es Martin antes de ir em bora de Londres outra vez. Se eu fosse você, com certeza o pegaria para m im . Quase m e esqueci de lhe dar m inha opinião sobre De Courcy : ele m e encanta deveras, é tão atraente quanto Manwaring, acho eu, e tem um a atitude tão franca e bem -hum orada que não se pode evitar am á-lo à prim eira vista. O sr. Johnson e ele são os m elhores am igos do m undo. Adieu, querida Susan. Queria que o desfecho de tudo isso não tivesse sido tão perverso. Que visita infeliz a Langford! Mas atrevo-m e a dizer que você agiu com a m elhor das intenções, e não há com o contrariar o destino.

Com m inha sincera devoção,

Alicia

CARTA 39

DE LADY SUSAN PARA A SRA. JOHNSON

 

Upper Sey m our Street

Minha cara Alicia,

Curvo-m e diante da necessidade que nos separa. Em tais circunstâncias, você não poderia agir de outra form a. A nossa am izade não poderá ser abalada por isso; e em um a época m ais feliz, quando a sua situação for tão independente quanto a m inha, ela irá nos unir outra vez com a m esm a intim idade de sem pre. Aguardarei com im paciência essa ocasião; enquanto isso, posso lhe garantir com segurança que nunca m e senti m ais à vontade nem m ais satisfeita com igo m esm a e com tudo o que m e diz respeito do que no presente m om ento. Abom ino seu m arido… desprezo Reginald… e estou segura de nunca m ais tornar a ver nenhum dos dois. Por acaso não tenho m otivos para m e alegrar? Manwaring está m ais dedicado a m im do que nunca; e, se ele tivesse liberdade para tal, duvido que eu fosse resistir até m esm o a um pedido de casam ento da parte dele. Se a esposa for m orar com você, talvez estej a ao seu alcance apressar tal acontecim ento. A violência dos sentim entos dela, que deve exauri-la, pode ser facilm ente m antida. Confio em sua am izade para isso. Estou agora convencida de que nunca poderia ter m e forçado a desposar Reginald; e estou igualm ente determ inada a garantir que Frederica jamais o faça. Irei buscá-la am anhã em Churchill, e Maria Manwaring pode trem er diante das consequências. Frederica será a esposa de Sir Jam es antes de deixar a m inha casa. Ela pode choram ingar, e os Vernon podem protestar; j á não ligo. Estou cansada de subordinar m inha vontade aos caprichos dos outros – de renunciar ao m eu próprio j uízo em deferência a pessoas às quais nenhum dever m e prende, e pelas quais não sinto nenhum respeito. Já abri m ão de m uita coisa – deixei-m e influenciar com dem asiada facilidade; m as Frederica agora verá a diferença.

Adieu, m inha am iga m ais cara. Que a próxim a crise de gota sej a m ais favorável. E que você m e considere sem pre inabalavelm ente sua

S. Vernon

CARTA 40

DE LADY DE COURCY PARA A SRA. VERNON

 

Parklands

Minha querida Catherine,

Tenho notícias encantadoras para você, e se não houvesse despachado m inha carta hoj e de m anhã talvez a tivesse poupado da irritação de saber que Reginald partiu para a Cidade, pois ele voltou, Reginald voltou, não para pedir nossa aprovação para desposar Lady Susan, m as para nos dizer que os dois se separaram para sem pre! Faz apenas um a hora que ele chegou em casa e eu ainda não pude m e inteirar dos detalhes, pois ele está tão cabisbaixo que não tenho coragem de fazer perguntas; m as espero que logo saibam os de tudo. Este é o m om ento de m aior felicidade que ele j á nos proporcionou desde o dia em que nasceu. Tudo que falta é a sua presença aqui, e nós desej am os e a rogam os com m uita ênfase que venha assim que puder. Já faz m uitas sem anas que você nos deve um a visita. Espero que nada vá torná-la inconveniente para o sr. Vernon, e por favor traga todos os m eus netos, e o convite se estende tam bém à sua cara sobrinha, é claro; anseio por conhecê-la. Este foi um inverno triste até aqui, sem Reginald e sem ver ninguém de Churchill; nunca achei a estação m ais som bria, m as esse feliz encontro nos tornará j ovens outra vez. Penso m uito em Frederica e, quando Reginald tiver recuperado o ânim o de sem pre (com o estou certa de que logo fará), tentarem os roubar seu coração outra vez, e estou cheia de esperança de ver as m ãos dos dois unidas em um futuro não m uito distante.

Sua afetuosa m ãe,

 

C. de Courcy

CARTA 41

DA SRA. VERNON PARA LADY DE COURCY

 

Churchill

Minha cara senhora,

Sua carta m e surpreendeu im ensam ente. Será verdade que eles estão m esm o separados… e para sem pre? Eu ficaria louca de alegria se pudesse ter certeza disso, m as, depois de tudo o que vi, com o posso estar segura? E Reginald está m esm o com a senhora! Minha surpresa é ainda m aior, porque na quarta-feira, o m esm o dia em que ele chegou a Parklands, recebem os um a visita das m ais inesperadas e das m enos bem -vindas de Lady Susan, aparentando grande alegria e bom hum or, e parecendo ainda m ais a ponto de se casar com ele do que quando partiu para a Cidade, e não separada dele para sem pre. Ela passou quase duas horas aqui, m ostrou-se afetuosa e agradável com o sem pre, e não pronunciou um a sílaba sequer, não deu nenhum indício de qualquer desavença ou esfriam ento entre os dois. Perguntei se ela havia encontrado m eu irm ão desde que este chegara à Cidade… não tinha qualquer dúvida quanto a isso, com o a senhora pode supor… m as perguntei apenas para ver a expressão de seu rosto. Ela respondeu na hora, sem qualquer constrangim ento, que ele tinha tido a gentileza de ir visitá-la na segunda-feira, m as que achava que j á tinha voltado para casa – explicação na qual eu nem de longe acreditei.

Aceitam os todos com prazer o seu gentil convite, e na quinta-feira que vem nós e nossos pequeninos estarem os com vocês. Queira Deus que a essa altura Reginald não tenha voltado para a Cidade!

Quisera eu pudéssem os levar a querida Frederica conosco, m as sinto acrescentar que a incum bência de sua m ãe ao vir aqui era buscar a filha para levá-la em bora; por m ais triste que isso tenha deixado a pobre m enina, foi im possível evitar. Eu m e m ostrei totalm ente relutante a deixá-la partir, e o tio tam bém ; e todas as exortações possíveis foram feitas. Mas Lady Susan declarou que, com o estava agora prestes a fixar residência na Cidade por vários m eses, não ficaria tranquila caso a filha não estivesse consigo, por causa dos professores etc. Seu com portam ento foi sem dúvida m uito gentil e adequado – e o sr. Vernon acredita que Frederica agora será tratada com afeto. Quisera eu poder pensar o m esm o!

O coração da pobre m enina quase rebentou ao nos deixar. Encarreguei-a de m e escrever com m uita frequência, e de lhe lem brar que, caso ela sej a acom etida por qualquer aflição, nós serem os sem pre seus am igos. Tom ei cuidado para estar sozinha com ela na hora de dizer isso tudo, e espero tê-la deixado um pouco m ais à vontade. Mas não ficarei tranquila enquanto não tiver ido à Cidade e avaliado pessoalm ente a situação.

Gostaria que houvesse um a esperança m aior do que a que agora se apresenta para o enlace que a conclusão de sua carta declara ser o seu desej o. Atualm ente, não é m uito provável.

Sua etc.

Cath. Vernon

 

CONCLUSÃO

Devido ao encontro entre alguns dos personagens e à separação de outros, e para grande prej uízo da renda dos correios, essa correspondência não pôde se prolongar por m ais tem po. Muito pouco auxílio ao Estado poderia ser obtido da interação epistolar entre a sra. Vernon e sua sobrinha, pois a prim eira logo percebeu, pelo estilo das cartas de Frederica, que estas eram escritas sob a vigilância da m ãe e, portanto, adiando qualquer investigação m ais profunda até poder com parecer pessoalm ente à Cidade, parou de escrever com tantos detalhes ou com tanta frequência.

Enquanto isso, depois de saber o suficiente da boca de seu sincero irm ão sobre o que havia acontecido entre ele e Lady Susan para que esta últim a caísse m ais do que nunca em seu conceito, ela ficou proporcionalm ente m ais ansiosa para afastar Frederica de tal m ãe e transferi-la aos seus cuidados; e, em bora com pouca esperança de sucesso, decidiu tentar tudo o que fosse possível para ter um a chance de obter a autorização da concunhada para tal. Sua ansiedade em relação ao assunto a fez insistir para ir m ais cedo a Londres; e o sr. Vernon, que, com o j á deve ter sido apreendido, vivia apenas para fazer aquilo que se desej asse dele, logo encontrou algum a obrigação profissional conveniente para levá-lo até lá. Com o coração tom ado por esse assunto, a sra. Vernon foi ter com Lady Susan pouco depois de chegar à Cidade; e foi recebida com um afeto tão natural e alegre que quase a fez virar as costas de tanto horror. Nenhum a lem brança relacionada a Reginald, nenhum a consciência de culpa a fizeram dar qualquer m ostra de constrangim ento. Ela estava m uito bem -disposta, e parecia ansiosa para m ostrar na m esm a hora, por m eio de todas as atenções possíveis dispensadas ao cunhado e à sua esposa, a consciência que tinha da gentileza do casal e o seu prazer na convivência com eles.

Frederica estava tão pouco alterada quanto Lady Susan; os m esm os m odos reservados, a m esm a expressão tím ida de antes na presença da m ãe convenceram a tia de que a situação lhe era desconfortável e reforçaram seu plano de m odificá-la. No entanto, Lady Susan não deu qualquer dem onstração de falta de gentileza. O assunto de Sir Jam es foi totalm ente encerrado – e seu nom e só foi citado para dizer que ele não estava em Londres; e durante a conversa toda ela só se m ostrou preocupada com o bem -estar e a educação da filha, reconhecendo com palavras de gracioso deleite que Frederica agora se tornava cada dia m ais aquilo que um pai ou m ãe poderiam desej ar.

Surpresa e incrédula, a sra. Vernon não soube do que desconfiar e, sem m odificar os próprios planos, só fez tem er m ais dificuldades para realizá-los. A prim eira esperança de algo m elhor veio quando Lady Susan lhe perguntou se ela achava que Frederica estava com um a aparência tão boa quanto em Churchill, pois precisava confessar que ela própria às vezes se perguntava com aflição se o ar de Londres convinha da m elhor form a à filha.

A sra. Vernon, incentivando a dúvida, sugeriu na m esm a hora que a sobrinha voltasse com eles para o cam po. Lady Susan foi incapaz de m anifestar o quanto essa gentileza a tocava; no entanto, por diversos m otivos, não sabia com o poderia se separar da filha; além do m ais, com o os próprios planos não estavam ainda totalm ente fixados, achava que iria dem orar m uito até poder levar Frederica para o cam po pessoalm ente; e concluiu recusando por com pleto se aproveitar de um a atenção tão sem precedentes. Apesar disso, a sra. Vernon continuou a oferecer e, em bora Lady Susan tenha continuado a resistir, dali a alguns dias sua resistência se tornou um pouco m enos form idável.

Um afortunado alerta de gripe veio decidir o que talvez não tivesse se decidido tão cedo. Com isso, os tem ores m aternos de Lady Susan foram despertados com dem asiada intensidade para que ela pensasse em qualquer coisa que não afastar Frederica do risco de um contágio. Mais do que todas as desordens do m undo, seu m aior tem or para a constituição da filha era a gripe. Frederica voltou para Churchill com o tio e a tia e, três sem anas m ais tarde, Lady Susan anunciou que havia se casado com Sir Jam es Martin.

A sra. Vernon então se convenceu do que antes apenas desconfiava: poderia ter se poupado de todo aquele esforço ao recom endar a m udança de Frederica, que Lady Susan sem dúvida j á havia decidido desde o início. Em princípio, a visita de Frederica iria durar seis sem anas; m as a m ãe, em bora tenha escrito um a ou duas cartas afetuosas dizendo-lhe para voltar, m ostrou-se m uito disposta a cum prir a vontade de todos autorizando um prolongam ento da estada, e dois m eses depois parou de escrever sobre a ausência da filha, e dali a m ais dois cessou de se corresponder com ela por com pleto.

Assim , Frederica se fixou na fam ília do tio e da tia até o m om ento em que Reginald de Courcy pudesse ser convencido, adulado e m anipulado para se afeiçoar a ela, o que – feitas as ressalvas das consequências da relação dele com a m ãe da j ovem , do fato de ele negar qualquer vínculo futuro e de detestar o sexo frágil – era razoável aguardar em doze m eses. Em geral, três teriam bastado, m as os sentim entos de Reginald, além de intensos, eram duradouros.

Não vej o com o um dia se poderá estabelecer se Lady Susan foi ou não feliz em sua segunda escolha – pois quem iria acreditar no que ela afirm asse a respeito, fosse qual fosse a resposta? O m undo deve j ulgar pela probabilidade. Nada depunha contra ela a não ser o m arido e a própria consciência.

Sir Jam es talvez pareça ter tirado um a sorte m ais cruel do que a sim ples tolice m erecia. Deixo-o, portanto, à m ercê de toda a pena que qualquer um puder lhe dedicar. Por m inha parte, confesso que eu só consigo sentir pena da srta. Manwaring, que, depois de vir à Cidade e gastar em roupas o suficiente para deixá-la pobre durante dois anos, especialm ente para conquistá-lo, viu-se privada do que lhe era de direito por um a m ulher dez anos m ais velha.

 

FIM

1. A concunhada, no caso. Ver nota 60 ao texto de Persuasão.

2. Isto é, Londres.

3. Isto é, sr. Johnson.

4. No original, entailed: propriedades que deviam ser transm itidas integralm ente em herança.

5. Incógnito.

6. No original, breakfast room: nas grandes residências, sala de estar usada durante a m anhã e para o desj ej um , em contraste com o drawing room, a sala de estar principal.

7. No original, Lakes: Lake District, região do noroeste da Inglaterra conhecida por suas m ontanhas e lagos e popular com o destino turístico.