Persuasão

Jane Austen · Capítulo 3 de 5 · parte 3/4

Páginas do PDF

Persuasão

Anexos: Duas Novelas de Jane Austen

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Quanto a Reginald, acredito que ele não saiba o que pensar sobre a situação. Quando Sir Jam es chegou, pareceu atônito e perplexo. Ficou inteiram ente fascinado com o arrebatam ento do rapaz e com a confusão de Frederica; e, ainda que um a conversa reservada com Lady Susan tenha surtido seu efeito desde então, estou certa de que ainda está m agoado por ela perm itir que um hom em desses cortej e sua filha.

Sir Jam es se convidou com grande com postura para passar alguns dias aqui hospedado; esperou que não fôssem os achar isso estranho, estava consciente da im pertinência do pedido, m as tom ou a m esm a liberdade que tom aria um parente, e concluiu desej ando, com um a risada, poder se transform ar realm ente em um m uito em breve. Até m esm o Lady Susan pareceu um pouco desconcertada com essa ousadia dele; estou convencida de que, no fundo, ela desej a sinceram ente que ele vá em bora.

Mas algo precisa ser feito por essa pobre m enina, caso seus sentim entos sej am m esm o com o seu tio e eu acreditam os. Ela não pode ser sacrificada ao ardil ou à am bição, e não deve nem sequer ser subm etida ao tem or de que isso aconteça. Um a m oça capaz de apreciar Reginald de Courcy m erece, por m ais que ele a desdenhe, um destino m elhor do que ser a esposa de Sir Jam es Martin. Assim que conseguir conversar com ela a sós, descobrirei a verdade, m as ela parece querer m e evitar. Espero que isso não tenha por m otivo nada de errado, e que eu não venha a descobrir que a avaliei com excessiva generosidade. O com portam ento dela para com Sir Jam es sem dúvida indica um a enorm e vergonha e constrangim ento; m as não vej o nada nele aparentado ao incentivo.

Adieu, m inha cara senhora,

Sua etc.

Catherine Vernon

CARTA 21

DA SRTA. VERNON PARA O SR. DE COURCY

Senhor,

Espero que m e perdoe esta liberdade que um a aflição trem enda m e força a tom ar, ou eu teria vergonha de incom odá-lo. Estou m uito infeliz em relação a Sir Jam es Martin, e não tenho outra form a no m undo de aj udar a m im m esm a a não ser lhe escrever, pois fui proibida de falar com m eu tio ou m inha tia sobre o assunto; e, sendo assim , tem o que recorrer ao senhor não vá parecer nada além de um equívoco, com o se eu estivesse obedecendo apenas à form a e não ao conteúdo das ordens de Mam ãe, m as se o senhor não tom ar m eu partido e convencê-la a desistir de tudo eu ficarei com o louca, pois não o suporto. Nenhum ser hum ano a não ser o senhor poderia ter qualquer esperança de convencê-la. Assim , se puder ter a im ensa e indescritível bondade de tom ar m eu partido j unto a ela e convencê-la a m andar Sir Jam es em bora, ficar-lhe-ei m ais grata do que sou capaz de expressar. Nunca gostei dele, desde o início, e garanto-lhe que não se trata de um capricho repentino; sem pre o achei bobo, im pertinente e desagradável, e agora ele ficou pior do que nunca. Eu preferiria trabalhar para viver a m e casar com ele. Não sei com o m e desculpar o suficiente por esta carta, pois sei que estou tom ando um a liberdade im ensa, e tenho consciência do quanto Mam ãe vai ficar zangada, m as tenho de correr esse risco. Subscrevo-m e, senhor, com o sua m ais Hum ilde Criada

F.S.V.

CARTA 22

DE LADY SUSAN PARA A SRA. JOHNSON

 

Churchill

É insuportável! Minha caríssim a am iga, nunca fiquei tão zangada em toda m inha vida, e preciso desabafar escrevendo para você, sabendo que vai entender tudo o que estou sentindo. Quem apareceu aqui na terçafeira senão Sir Jam es Martin? Você bem pode im aginar m eu espanto e m inha irritação – pois, com o bem sabe, eu nunca quis que ele fosse visto em Churchill. Que pena você não ter descoberto as intenções dele! Não contente em aparecer, ele ainda se convidou para passar alguns dias aqui. Eu poderia tê-lo envenenado; porém , fiz o m elhor que pude nas circunstâncias e contei m inha história com grande sucesso à sra. Vernon, que, sej am quais forem seus verdadeiros sentim entos, não disse nada para se opor aos m eus. Tam bém garanti que Frederica tratasse Sir Jam es com civilidade, e a fiz entender que estava absolutam ente decidida a fazê-la se casar com ele. Ela falou um pouco sobre a própria infelicidade, m as foi só. Já faz algum tem po que estou particularm ente decidida a realizar esse enlace, pois posso ver com o ela se afeiçoa cada dia m ais a Reginald, e não estou totalm ente segura de que esse afeto não acabará no final das contas por despertar um a retribuição. Por m ais que um vínculo baseado apenas na com paixão torne a am bos, na m inha opinião, dignos de desprezo, não estou de form a algum a segura de que essa não será a consequência. É verdade que Reginald não se m ostrou de m odo algum m ais frio em relação a m im ; no entanto, ele ultim am ente deu para m encionar Frederica de form a espontânea e desnecessária, e em certa ocasião fez algum elogio à sua pessoa.

Ele ficou m uito surpreso com a aparição do m eu visitante; e no início observou Sir Jam es com um a atenção que, com o fiquei surpresa ao constatar, não era desprovida de ciúm es; infelizm ente, não pude atorm entá-lo de verdade, um a vez que Sir Jam es, em bora tenha se m ostrado extrem am ente galante com igo, logo deu a entender a todos os presentes que o seu coração pertencia à m inha filha.

Quando ficam os a sós, não tive grandes dificuldades para convencer De Courcy de que, levando tudo em consideração, eu tinha toda a razão de alm ej ar o enlace; e a coisa toda pareceu resolvida de form a m uito satisfatória. Nenhum deles pôde evitar perceber que Sir Jam es não é nenhum Salom ão, m as proibi term inantem ente Frederica de reclam ar com Charles Vernon ou sua esposa, e os dois não tiveram , portanto, nenhum m otivo para intervir, em bora eu acredite que tudo que a m inha im pertinente concunhada queria era um a oportunidade para fazê-lo.

Tudo porém corria de form a calm a e tranquila; e, em bora eu contasse as horas para o fim da visita de Sir Jam es, estava totalm ente convencida do estado da situação. Im agine, portanto, com o estou m e sentindo com a súbita perturbação de todas as m inhas providências, e vinda da direção que eu m enos tinha m otivos para tem er. Reginald entrou hoj e de m anhã em m eu quarto de vestir com um com portam ento m uito inabitual, solene, e depois de alguns preâm bulos m e inform ou, com todas as letras, que desej ava tentar m e convencer da im propriedade e da crueldade de perm itir que Sir Jam es Martin cortej asse m inha filha contra a sua própria inclinação. Fiquei pasm a. Quando descobri que um a sim ples risada não iria fazê-lo desistir desse obj etivo, solicitei com calm a um a explicação, pedindo para saber o que o estava levando a agir assim e quem havia lhe solicitado que m e repreendesse. Ele então m e disse, m isturando ao seu discurso alguns elogios insolentes e expressões inadequadas de ternura que escutei com total indiferença, que m inha filha havia lhe revelado algum as das circunstâncias relativas a ela própria, Sir Jam es e a m im que estavam causando grande incôm odo em Reginald.

Para resum ir, descobri que ela em prim eiro lugar havia chegado a escrever para ele solicitando-lhe que interviesse, e que, ao receber tal carta, ele havia conversado com ela a respeito de m odo a com preender os detalhes e a se assegurar dos verdadeiros desej os dela!

Não tenho qualquer dúvida de que a m enina aproveitou essa oportunidade para se com portar de form a ostensivam ente sedutora com ele; pelo m odo com o ele se referiu a ela, estou convencida do fato. De que poderá lhe adiantar esse am or! Irei desprezar para sem pre o hom em capaz de se deixar gratificar por um a paixão que nunca desej ou inspirar e cuj a confissão j am ais solicitou. Detestarei esses dois para sem pre. Ele não pode nutrir nenhum apreço genuíno por m im , ou não teria escutado o que ela disse; e ela, com seu coraçãozinho rebelde e seus sentim entos indelicados, atirar-se sob a proteção de um rapaz com quem m al havia trocado duas palavras antes. Estou tão atônita com a falta de pudor dela quanto com a credulidade dele. Com o ele se atreveu a acreditar nas coisas desfavoráveis que ela lhe disse a m eu respeito! Não deveria ter tido certeza de que eu provavelm ente tive m otivos inquestionáveis para tudo o que fiz? Onde estava nessa hora sua confiança na m inha noção do bem ; onde estava o ressentim ento que o verdadeiro am or teria ditado contra a pessoa que m e difam ava, e além do m ais sendo essa pessoa quem é, um a fedelha, um a criança, sem qualquer talento ou educação, que ele sem pre foi ensinado a desprezar?

Consegui m anter a calm a por algum tem po, m as até m esm o o m ais alto grau de autocontrole acaba sendo derrotado; e espero depois ter m e m ostrado suficientem ente astuta. Ele tentou, tentou por m uito tem po atenuar m eu ressentim ento, m as a m ulher que ao ser insultada por acusações se deixa convencer por elogios é m esm o um a boba. Acabou indo em bora tão irritado quanto eu, e dem onstrou mais ainda a própria raiva. Eu m e m antive deveras im passível, m as ele deu vazão à m ais violenta indignação. Posso esperar, portanto, que esta logo vá arrefecer; e talvez a raiva dele desapareça para sem pre, ao passo que a m inha continuará fresca e im placável.

Ele agora está trancado em seus aposentos, para onde o ouvi se dirigir ao sair dos m eus. Que desagradáveis devem estar sendo as suas reflexões! Mas os sentim entos de algum as pessoas são incom preensíveis. Ainda não m e acalm ei o suficiente para falar com Frederica. Ela não vai esquecer tão cedo os acontecim entos deste dia. Vai descobrir que contou em vão sua doce história de am or e que se expôs para sem pre ao desprezo do m undo inteiro, bem com o ao m ais severo ressentim ento de sua m agoada m ãe.

Afetuosam ente,

S. Vernon

CARTA 23

DA SRA. VERNON PARA LADY DE COURCY

Churchill

Perm ita-m e parabenizá-la, m inha querida m ãe. A situação que tanto nos deixou ansiosas está rum ando para um final feliz. Podem os esperar os m ais agradáveis desdobram entos; e, com o a questão agora tom ou um a direção tão favorável, sinto m uito por ter com unicado à senhora m inhas apreensões; pois o prazer de saber que o perigo passou talvez tenha tido um preço alto com tudo o que a senhora sofreu anteriorm ente.

A alegria m e deixa tão agitada que m al consigo segurar a pena, m as estou decidida a lhe enviar um as poucas linhas por interm édio de Jam es, de m odo que a senhora tenha algum a explicação do fato, que tanta surpresa deve ter lhe causado, de Reginald estar voltando para Parklands.

Cerca de m eia hora atrás, eu estava sentada com Sir Jam es na pequena sala quando m eu irm ão m e cham ou até lá fora. Vi no m esm o instante que havia algum problem a; ele estava corado e falava com grande em oção. Minha cara senhora bem conhece o tem peram ento arrebatado de seu filho quando está tom ado por algum a ideia.

“Catherine”, disse ele, “vou voltar para casa hoj e. Lam ento deixá-los, m as preciso ir. Já faz tem po que não vej o m eus queridos pai e m ãe. Vou m andar Jam es na frente com m eus caçadores agora m esm o e, se você tiver algum a carta, ele pode levá-la. Eu m esm o só chegarei em casa na quarta ou na quinta-feira, pois passarei por Londres, onde tenho negócios a fazer. Antes de ir em bora, porém ”, prosseguiu ele, falando em voz m ais baixa e com energia ainda m aior, “devo alertá-la sobre um a coisa. Não deixe esse tal Martin fazer Frederica Vernon infeliz. Ele quer se casar com ela – é a m ãe quem está prom ovendo o enlace –, m as ela não suporta a ideia. Estej a certa de que estou falando com a m ais plena convicção da veracidade do que digo. Eu sei que Frederica não suporta o fato de Sir Jam es perm anecer aqui. Ela é um a m oça bondosa e m erece um destino m elhor. Mande-o em bora agora m esm o. Ele não passa de um bobo – m as só Deus sabe qual pode ser a intenção da m ãe! Adeus”, acrescentou ele, apertando m inha m ão com vigor, “não sei quando você tornará a m e ver. Mas lem bre-se do que eu lhe disse sobre Frederica; você precisa cuidar para que ela sej a bem tratada. Ela é um a m oça am ável e tem um intelecto m uito superior a qualquer crédito que j am ais lhe tenham os dado.”

Ele então m e deixou e subiu correndo a escada. Não tentei detê-lo, pois sabia quais deviam ser os seus sentim entos; não preciso tentar descrever a natureza dos m eus ao escutá-lo. Durante um ou dois m inutos, perm aneci no m esm o lugar, paralisada pelo assom bro – um assom bro de um tipo deveras agradável, m as que necessitava algum a reflexão para se tornar tranquilo e feliz.

Uns dez m inutos depois de eu voltar para a sala, Lady Susan adentrou o recinto. Concluí naturalm ente que ela e Reginald haviam brigado, e busquei com ansiosa curiosidade um a confirm ação dessa crença em seu rosto. No entanto, m estre em fingim ento com o ela é, parecia totalm ente despreocupada e, depois de passar um tem po curto discorrendo sobre assuntos sem im portância, disse para m im : “Wilson com entou com igo que vam os perder o sr. De Courcy. É verdade que ele vai em bora de Churchill hoj e de m anhã?” Respondi que sim . “Ele não nos disse nada a respeito ontem à noite”, continuou ela, rindo, “nem m esm o hoj e durante o desj ej um . Mas talvez nem ele m esm o soubesse. Os j ovens m uitas vezes são apressados em suas decisões – e tão repentinos para tom á-las quanto inconstantes para m antê-las. Eu não ficaria surpresa se ele m udasse de ideia na últim a hora e acabasse não indo.”

Ela se retirou logo depois. Estou confiante, porém , m inha querida m ãe, de que não tem os m otivo nenhum para tem er um a alteração do atual plano de Reginald; as coisas foram longe dem ais. Os dois devem ter brigado, e por causa de Frederica. A calm a dela m e espanta. Que deleite a senhora terá ao revê-lo, ao constatar que ele ainda é digno de sua estim a, ainda capaz de contribuir para sua felicidade!

Da próxim a vez em que escrever, espero poder lhe contar que Sir Jam es partiu, Lady Susan desapareceu e Frederica está em paz. Tem os m uito a fazer, m as será feito. Estou m uito im paciente para saber com o ocorreu essa espantosa m udança. Term ino com o com ecei, com m inhas calorosas congratulações.

Sua sem pre,

Cath. Vernon

CARTA 24

DA MESMA PARA A MESMA

 

Churchill

Quando lhe m andei a últim a carta, m inha querida m ãe, m al podia im aginar que o delicioso estado de ânim o em que m e encontrava então fosse sofrer um revés tão rápido e tão m elancólico! Jam ais poderei m e arrepender o suficiente de lhe ter escrito. Mas quem poderia ter previsto o que iria acontecer? Minha querida m ãe, todas as esperanças que duas horas atrás m e deixavam tão feliz desapareceram . Lady Susan e Reginald fizeram as pazes, e estam os na m esm a situação de antes. Apenas um a coisa foi ganha: Sir Jam es Martin se foi. O que devem os esperar agora? Estou m esm o desapontada. Reginald j á tinha quase ido em bora; seu cavalo fora pedido e quase trazido até a porta! Quem não teria se sentido segura?

Passei m eia hora aguardando sua partida im inente. Depois de m andar a carta para a senhora, fui ter com o sr. Vernon e fiquei sentada com ele em seu quarto, conversando sobre todo esse assunto. Então resolvi sair em busca de Frederica, que não via desde a hora do desj ej um . Encontrei-a na escada e vi que ela estava chorando.

“Minha cara tia”, disse ela, “ele vai em bora, o sr. De Courcy vai em bora, e foi tudo culpa m inha. Tem o que a senhora vá se zangar, m as eu realm ente não fazia ideia de que tudo fosse term inar assim .”

“Meu am or”, respondi, “não acho que você tenha que se desculpar com igo por causa disso. Ficarei grata a qualquer um capaz de m andar m eu irm ão de volta para casa; isso porque (aqui m e controlei) sei que m eu pai quer m uito vê-lo. Mas o que você fez para causar tudo isso?”

Ela corou profundam ente ao responder: “Eu estava tão infeliz por causa de Sir Jam es que não pude evitar… fiz um a coisa m uito errada, e sei disso… m as a senhora não faz ideia de com o tenho andado infeliz, e Mam ãe m e ordenou que nunca falasse com a senhora nem com m eu tio a respeito, e…” “Então você falou com m eu irm ão, para tentar fazer com que ele interviesse”, disse eu, desej ando poupá-la da explicação. “Não… m as escrevi para ele. Escrevi, sim . Levantei-m e hoj e de m anhã antes de o dia raiar… dem orei duas horas para escrever a carta… e, quando term inei, achei que j am ais fosse ter coragem de entregá-la. Depois do desj ej um , porém , quando estava a cam inho de m eu quarto, cruzei com ele no corredor, e então, com o sabia que tudo iria depender daquele instante, forcei-m e a lhe entregar a carta. Ele teve a bondade de aceitá-la na hora; não m e atrevi a olhar para ele… e saí correndo sem dem ora. Mal conseguia respirar de tão assustada. Minha cara tia, a senhora não sabe com o tenho andado infeliz.”

“Frederica”, falei, “você deveria ter contado a mim todos os seus problem as. Teria encontrado em m im um a am iga sem pre pronta para aj udá-la. Acha que o seu tio e eu não teríam os tom ado o seu partido com o m esm o arrebatam ento de m eu irm ão?”

“Eu realm ente não duvidava de sua bondade”, disse ela, tornando a corar, “m as pensei que o sr. De Courcy pudesse convencer m inha m ãe de qualquer coisa; m as estava errada; eles tiveram um a briga terrível por causa disso, e agora ele está de partida. Mam ãe nunca vai m e perdoar, e m inha situação ficará pior do que nunca.” “Não ficará, não”, respondi. “Em relação a isso, a proibição de sua m ãe não a devia ter im pedido de falar com igo sobre o assunto. Ela não tem nenhum direito de torná-la infeliz, e não vai fazer isso. Mas o fato de você ter recorrido a Reginald só pode fazer bem a todos os envolvidos. Acredito que sej a m elhor assim . Pode ter certeza de que ninguém a fará infeliz por m uito m ais tem po.”

Nessa hora, qual não foi m inha surpresa ao ver Reginald saindo do quarto de vestir de Lady Susan. Meu coração falhou na hora. A confusão de m eu irm ão ao m e ver foi patente. Frederica desapareceu na hora. “Está de partida?”, perguntei. “Poderá encontrar o sr. Vernon no quarto.” “Não, Catherine”, respondeu ele. “Eu não estou de partida. Perm ite que eu lhe fale um instante?”

Entram os em m eu quarto. “Descobri”, disse ele, e sua confusão foi aum entando conform e ele falava, “que venho agindo com a m inha im petuosidade tola de sem pre. Com preendi Lady Susan de form a inteiram ente equivocada, e estava a ponto de sair desta casa com um a im pressão errada em relação à sua conduta. Houve algum erro m uito grande… im agino que todos nós tenham os nos equivocado. Frederica não conhece a m ãe que tem … Lady Susan quer apenas o seu bem … m as Frederica se recusa a ser sua am iga. Portanto, Lady Susan nem sem pre sabe o que fará a filha feliz. Além do m ais, eu não tinha o m enor direito de m e introm eter… a srta. Vernon errou quando recorreu a m im . Em sum a, Catherine, tudo saiu errado… m as tudo agora term inou bem . Acredito que Lady Susan desej a falar com você a respeito, quando estiver disposta.”

“Mas é claro”, respondi, suspirando ante o relato de um a história tão frágil. Não fiz qualquer com entário, porém , pois m inhas palavras teriam sido em vão. Reginald se retirou de bom grado, e eu fui ter com Lady Susan; estava de fato curiosa para ouvir o relato dela.

“Não lhe disse que o seu irm ão no final das contas não iria nos deixar?” “De fato, foi o que a senhora disse”, respondi m uito séria, “m as tive o orgulho de pensar que poderia estar errada.” “Eu não teria em itido um a opinião dessas”, retrucou ela, “caso não tivesse m e ocorrido naquele instante que a decisão dele de partir poderia ter sido ocasionada por um a conversa que tivem os hoj e de m anhã, e que term inou, para sua grande insatisfação, com nós dois não entendendo direito o que o outro queria dizer. Essa ideia m e ocorreu nesse m om ento, e eu no m esm o instante decidi que um a desavença acidental da qual eu talvez provavelm ente era tão culpada quanto ele não deveria privá-la da com panhia de seu irm ão. Se a senhora bem se lem bra, eu saí da sala quase na m esm a hora. Estava decidida a não perder tem po para esclarecer esses erros até onde fosse possível. O caso era o seguinte. Frederica havia decidido resistir violentam ente a se casar com Sir Jam es…” “E Sua Senhoria pode se espantar que ela o faça?”, exclam ei com algum arrebatam ento. “Frederica possui um a inteligência excelente, e Sir Jam es não tem nenhum a.” “Estou longe de lam entar esse fato, m inha querida irm ã”, disse ela; “pelo contrário, fico grata por um sinal tão favorável do bom -senso de m inha filha. Sir Jam es com certeza tem deficiências (seus m odos pueris o fazem parecer ainda pior) e, se Frederica tivesse o poder de observação e as capacidades que eu poderia ter desej ado em m inha filha, ou se ao m enos eu soubesse que ela as possui tanto quanto na realidade, não teria ansiado tanto por esse enlace.” “Estranho a senhora ser a única a ignorar o bom -senso de sua filha.” “Frederica nunca faz j ustiça a si m esm a; seus m odos são tím idos, infantis. Além do m ais, ela tem m edo de m im ; praticam ente não m e am a. Durante a vida de seu pobre pai, foi um a m enina m im ada; a severidade que desde então m e foi necessário dem onstrar elim inou por com pleto seu afeto por m im ; ela tam pouco possui um a inteligência brilhante, genialidade ou vigor m ental capazes de avançar sozinhos.” “Diga, em vez disso, que ela foi infeliz na educação que recebeu.” “Deus sabe, m inha queridíssim a sra. Vernon, o quanto tenho consciência desse fato; m as gostaria de esquecer qualquer circunstância que pudesse pôr a culpa na m em ória de alguém cuj o nom e é sagrado para m im .”

Nesse ponto, ela fingiu chorar. Eu j á estava sem paciência nenhum a para ela. “Mas o que Sua Senhoria queria m e dizer sobre sua desavença com m eu irm ão?”, perguntei. “Ela teve origem em um a ação de m inha filha que realça sua falta de j uízo e o m edo terrível que ela sente de m im sobre o qual eu venho falando. Frederica escreveu para o sr. De Courcy.” “Eu sei. A senhora a tinha proibido de com unicar ao sr. Vernon ou a m im o m otivo de sua infelicidade; sendo assim , o que ela poderia ter feito senão recorrer a m eu irm ão?” “Meu Deus!”, exclam ou ela, “Que conceito a senhora deve fazer de m im ! Será possível supor que eu estava a par dessa infelicidade? Que o m eu obj etivo era fazer m inha própria filha infeliz, e que eu a havia proibido de lhe falar sobre o assunto por m edo de que a senhora viesse a frustrar o plano diabólico? Por acaso m e j ulga desprovida de qualquer sentim ento honesto, de qualquer sentim ento natural? Eu seria capaz de condenar minha própria filha a um a infelicidade eterna, ela, cuj o bem -estar é m eu prim eiro dever sobre esta Terra prom over?”

“É um a ideia terrível, de fato. Qual foi então sua intenção ao insistir no seu silêncio?” “De que teria adiantado recorrer à senhora, m inha querida irm ã, fosse qual fosse o estado atual da situação? Por que expô-la a súplicas que eu própria m e recusava a escutar? Isso não seria desej ável nem para a senhora, nem para ela, nem para m im . Já que m inha própria decisão estava tom ada, eu não poderia desej ar a interferência de outra pessoa, por m ais am igável que fosse. É verdade que eu estava errada, m as acreditava estar certa.” “Mas que erro foi esse que Sua Senhoria tanto m enciona? De onde veio um a incom preensão tão espantosa em relação aos sentim entos de sua filha? A senhora não sabia que ela não gostava de Sir Jam es?” “Sabia que ele não era exatam ente o hom em que ela teria escolhido. Estava convencida, no entanto, de que as obj eções que ela lhe fazia não advinham de qualquer percepção de suas deficiências. Mas você não deve m e questionar com excessivos detalhes sobre essa questão, querida irm ã”, prosseguiu ela, tom ando a m inha m ão afetuosam ente. “Confesso honestam ente que há algo a esconder. Frederica m e faz m uito infeliz. O fato de ela ter recorrido ao sr. De Courcy m e m agoou em especial.” “O que está querendo dizer com esse aparente m istério?”, perguntei. “Se acha que a sua filha tem qualquer afeição por Reginald, o fato de ela recusar Sir Jam es m esm o assim deveria ser levado em conta, da m esm a form a que se a causa da obj eção fosse um a consciência da tolice dele. E por que, afinal de contas, Sua Senhoria brigou com m eu irm ão por causa de um a interferência que, com o deveria saber, o tem peram ento dele não lhe perm itia recusar quando assim solicitado?”

“A senhora sabe com o o tem peram ento dele é arrebatado, e ele veio protestar com igo, tom ado de com paixão por essa m oça m altratada, por essa heroína em perigo! Nós entendem os m al um ao outro. Ele achou que eu tivesse m ais culpa do que de fato tenho; considerei a interferência dele m enos desculpável do que agora a considero. Tenho verdadeiro apreço por ele, e fiquei m ortificada além do que posso descrever ao constatar que m eu apreço não era m erecido, com o pensava então. Am bos nos exaltam os, e naturalm ente som os am bos culpados. A decisão dele de ir em bora de Churchill condiz com a ansiedade geral de seu tem peram ento; quando entendi quais eram suas intenções, porém , e ao m esm o tem po com ecei a pensar que talvez nós dois tivéssem os nos equivocado em relação ao que o outro tinha dito, decidi m e explicar antes que fosse dem asiado tarde. Pois sem pre terei afeto por qualquer m em bro de sua fam ília, e confesso que teria ficado m uito m agoada caso m inha relação com o sr. De Courcy tivesse term inado de form a tão som bria. Tudo que tenho a dizer além disso é que, com o estou convencida de que Frederica nutre um a antipatia razoável por Sir Jam es, irei lhe inform ar agora m esm o que ele deve desistir dela. Repreendo a m im m esm a por tê-la deixado infeliz com isso, em bora tenha agido de form a inocente. Ela terá toda a retribuição que estiver a m eu alcance lhe conceder; caso valorize a própria felicidade tanto quanto eu valorizo, e caso faça j uízos sensatos e se com porte com o deve, ela poderá agora ficar tranquila. Perdoe-m e, querida irm ã, por tom ar assim o seu tem po, m as eu tinha essa dívida com m eu próprio caráter; e, depois dessa explicação, tenho certeza de que não corro perigo de cair no seu conceito.”

Eu poderia ter respondido: “Não m uito, de fato”, m as deixei-a quase sem dizer palavra. Foi o m áxim o de autocontrole de que fui capaz. Se tivesse com eçado a falar, não teria conseguido parar. A segurança, o fingim ento… m as não vou m e perm itir insistir a respeito; a senhora j á deve ter percebido o suficiente. Sinto o coração nauseado dentro do peito.

Assim que consegui m e recom por de form a satisfatória, voltei à sala. A carruagem de Sir Jam es estava na porta de casa, e ele, alegre com o de hábito, despediu-se logo depois. Com quanta facilidade Sua Senhoria encoraj a ou dispensa os am antes!

Apesar de agora estar livre, Frederica ainda parece infeliz, talvez ainda receando a raiva da m ãe, e, em bora tem esse a partida de m eu irm ão, talvez encium ada pelo fato de ele ter ficado. Vej o com o ela observa com atenção a ele e Lady Susan. Pobre m enina, j á não tenho qualquer esperança por ela. Não existe a m enor chance de o seu afeto ser correspondido. Reginald agora tem um conceito m uito diferente a seu respeito do que tinha antes, e lhe faz certa j ustiça, m as a reconciliação com a m ãe im pede qualquer esperança m aior.

Minha cara senhora, pode se preparar para o pior. A probabilidade de eles se casarem com certeza aum entou. Ele está m ais ligado a ela do que nunca. Quando esse terrível acontecim ento advier, Frederica deve ficar conosco.

Fico feliz pelo fato de que a m inha últim a carta só vai preceder esta aqui por pouco tem po; cada instante de um a Alegria que só levará à decepção que puder lhe ser poupado é de sum a im portância.

Sua sem pre,

Cath. Vernon

CARTA 25

DE LADY SUSAN PARA A SRA. JOHNSON

 

Churchill

Cara Alicia, venho lhe pedir os parabéns. Sou novam ente eu m esm a; alegre, triunfante. Quando lhe escrevi no outro dia, estava de fato m uito irritada, e não m e faltavam m otivos. Não, não sei se deveria ficar de todo tranquila agora, pois tive m ais dificuldade para restabelecer a paz do que j am ais tencionei suportar. Esse Reginald tem m esm o um caráter orgulhoso! E seu orgulho advém de um a noção fantasiosa de integridade superior que é particularm ente insolente. Garanto-lhe que não vou perdoá-lo com facilidade. Ele na verdade estava prestes a ir em bora de Churchill! Eu m al havia term inado m inha carta anterior quando Wilson veio m e avisar. Descobri, portanto, que era preciso tom ar algum a providência, pois m inha intenção não era deixar m eu tem peram ento à m ercê de um hom em cuj as paixões fossem tão violentas e ressentidas. Deixá-lo partir com tam anha im pressão desfavorável a m eu respeito teria sido brincar com m inha reputação; assim sendo, era preciso transigir.

Mandei Wilson avisar que eu desej ava falar com ele antes que partisse. Ele veio na hora. As em oções zangadas que haviam m arcado cada traço seu em nossa últim a despedida estavam em parte suavizadas. Ele parecia espantado com m eu cham ado, e exibia um a expressão m eio desej osa e m eio tem erosa de ser abrandada pelo que eu pudesse dizer.

Se m inha atitude expressava m eu obj etivo, eu m e m ostrei calm a e digna – m as, m esm o assim , com um certo grau de introspecção que talvez o convencesse de que eu não estava de todo feliz. “Peço-lhe perdão, senhor, pela liberdade que tom ei ao m andar cham á-lo”, falei; “m as, com o acabo de saber de sua intenção de ir em bora daqui hoj e, sinto que é m eu dever lhe pedir para não encurtar sua visita por m inha causa, nem m esm o por um a hora. Tenho plena consciência de que, depois do que aconteceu entre nós, não seria adequado para os sentim entos de nenhum dos dois perm anecer m ais tem po na m esm a casa. Um a transform ação tão im portante e total de um a am izade íntim a torna qualquer interação subsequente um a severa punição; e sua decisão de ir em bora de Churchill sem dúvida nenhum a condiz com a sua situação e com os sentim entos arrebatados que eu sei que o senhor possui. Ao m esm o tem po, contudo, para m im não é um sacrifício tão grande abandonar parentes aos quais o senhor é tão apegado e que lhe querem tanto bem . O fato de eu ficar aqui não poderá dar ao sr. e à sra. Vernon o m esm o prazer que um a convivência com o senhor deve proporcionar; e m inha visita talvez j á tenha se prolongado dem ais. Minha partida, portanto, que de toda form a deve ocorrer em breve, pode perfeitam ente ser adiantada; e desej o especialm ente não vir a ser de form a algum a instrum ental na separação de um a fam ília tão afetuosam ente apegada. Para onde eu vou não im porta a ninguém ; e m uito pouco a m im m esm a; m as o senhor é im portante para todos os seus parentes.” Assim concluí, e espero que fique satisfeita com m eu discurso. Seu efeito sobre Reginald j ustifica um a certa vaidade, pois foi ao m esm o tem po favorável e instantâneo. Ah! Que deleite observar as variações de sua atitude enquanto eu falava, ver o em bate entre a ternura que ressurgia e os resquícios de desprazer. Há algo de agradável em sentim entos que podem ser m anipulados com tam anha facilidade. Não que eu o invej e por tê-los, e por nada nesse m undo gostaria de tê-los eu própria, m as eles são m uito convenientes quando se quer influenciar as paixões alheias. Apesar disso, esse Reginald, que poucas palavras m inhas reduziram na hora à m ais com pleta subm issão e tornaram m ais tratável, m ais apegado, m ais dedicado do que nunca, teria sido capaz de m e abandonar nos prim eiros e irados arroubos de seu coração orgulhoso sem nem sequer se dignar a buscar um a explicação!

Por m ais hum ilde que ele agora estej a, não posso lhe perdoar essa m ostra de orgulho; e estou em dúvida se devo puni-lo dispensando-o por com pleto depois da reconciliação, ou então m e casando com ele e provocando-o para sem pre. Mas essas m edidas são am bas dem asiado violentas para serem adotadas sem algum a deliberação. No m om ento, estou dividida entre diversos proj etos. Tenho m uito a fazer. Preciso punir Frederica, e com m uita severidade, por ter recorrido a Reginald; preciso punir a ele por ter recebido tal apelo de form a tão favorável, bem com o pelo resto de seu com portam ento. Preciso atorm entar m inha concunhada pelo triunfo insolente de sua expressão e de seus m odos desde que Sir Jam es foi dispensado – pois, para m e reconciliar com Reginald, não pude salvar esse desafortunado rapaz –, e preciso com pensar a m im m esm a pelas hum ilhações que tive de suportar nestes últim os dias. Para fazer isso, tenho vários planos. Tam bém estou pensando em ir em breve à Cidade e, sej a qual for m inha determ inação quanto ao resto, provavelm ente esse proj eto irei executar – pois, quaisquer que sej am m eus obj etivos, Londres será sem pre o m ais belo cam po de batalha, e, de toda form a, eu lá serei recom pensada com a sua com panhia e com algum a distração desta penitência de dez sem anas em Churchill.

Acho que devo ao m eu próprio caráter concluir o enlace entre m inha filha e Sir Jam es, depois de ter tido essa intenção por tanto tem po. Faça-m e saber sua opinião a esse respeito. A flexibilidade m ental, atributo facilm ente valorizado por outros, é algo que, com o você sabe, não tenho m uito desej o de obter; tam pouco Frederica pode exigir qualquer indulgência em relação aos seus caprichos à custa das inclinações da m ãe. O m esm o vale para o inútil am or que ela sente por Reginald; decerto é m eu dever desencoraj ar essa bobaj ada rom ântica. Levando tudo em consideração, portanto, parece caber a m im levá-la à Cidade e casá-la im ediatam ente com Sir Jam es.

Quando a m inha própria vontade for cum prida, e não a dele, terei algum crédito por ter conseguido m anter boas relações com Reginald, algo que atualm ente não tenho, pois, em bora ele ainda estej a em m eu poder, desisti j usto do obj eto que m otivou nossa briga, e no m elhor dos casos a honra da vitória é duvidosa.

Mande-m e sua opinião sobre esses assuntos, m inha cara Alicia, e avise-m e se pode conseguir um lugar adequado para eu m e hospedar não m uito longe de você.

Sua m ui devota

S. Vernon

CARTA 26

DA SRA. JOHNSON PARA LADY SUSAN

 

Edward Street

Fico grata por sua consulta, e m eu conselho é o seguinte; venha para a Cidade sem dem ora, m as deixe Frederica para trás. Com certeza seria bem m ais útil estabelecer-se com firm eza desposando o sr. De Courcy do que irritar a ele e ao resto da fam ília obrigando sua filha a desposar Sir Jam es. Você deveria pensar m ais em si e m enos nela. Ela não tem um tem peram ento capaz de contribuir para sua reputação no m undo, e parece estar no seu j usto lugar em Churchill na com panhia dos Vernon; você, entretanto, tem talento para a sociedade, e é um a vergonha estar dela exilada. Assim sendo, deixe Frederica punir a si m esm a pelo aborrecim ento que lhe causou entregando-se àquele tipo de ternura rom ântica que sem pre irá lhe garantir um a quantidade suficiente de tristeza; e venha para a Cidade assim que puder.

Continuar: parte 4 de 4