Perto do Coração Selvagem

Clarice Lispector · Capítulo 11 de 21

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Perto do Coração Selvagem

Otávio

"DE PROFUNDIS". Joana esperou que a ideia se tornasse mais clara, que subisse das névoas aquela bola brilhante e leve que era o germe de um pensamento. "De profundis". Sentia-o vacilar, quase perder o equilíbrio e mergulhar para sempre em águas desconhecidas. Ou senão, a momentos, afastar as nuvens e crescer trêmulo, quase emergir completamente... Depois o silêncio.

Fechou os olhos, vagarosamente foi descansando. Quando os abriu recebeu um pequeno choque. E durante longos e profundos segundos soube que aquele trecho de vida era uma mistura do que já vivera com o que ainda viveria, tudo fundido e eterno. Estranho, estranho. A luz alaranjada das 9 horas, aquela impressão de intervalo, um piano longínquo insistindo nas notas agudas, seu coração batendo apressado de encontro ao calor da manhã e, atrás de tudo, feroz, ameaçador, o silêncio latejando grosso e impalpável.

Tudo desvaneceu-se. O piano interrompeu a insistência nas últimas notas e após um instante de repouso retomou docemente alguns sons do meio, em melodia nítida e fácil. E em breve ela não saberia dizer se a impressão da manhã fora verdadeira ou se apenas uma ideia. Deteve-se atenta para reconhecê-la... Um súbito cansaço confundiu-a um instante. Os nervos abandonados, o rosto relaxado, sentiu uma leve onda de ternura por si mesma, de quase agradecimento, embora não soubesse por quê. Por um minuto pareceu-lhe que já vivera e que estava no fim. E logo em seguida, que tudo fora branco até agora, como um espaço vazio, e que ouvia longínqua e surdamente o fragor da vida se aproximando, densa, caudalosa e violenta, as ondas altas rasgando o céu, aproximando-se, aproximando-se... para submergi-la, para submergi-la, afogá-la asfixiando-a...

Caminhou para a janela, estendeu os braços para fora e esperou inutilmente que um pouco de brisa viesse alisá-los. Ficou assim esquecida por longo tempo. Conservava os ouvidos entrefechados por uma contração dos músculos do rosto, os olhos cerrados mal deixando passar a luz, a cabeça projetada para frente. Aos poucos conseguiu realmente isolar-se. Esse estado meio inconsciente, onde parecia-lhe mergulhar profundamente em ar morno, cinzento... Pôs-se diante do espelho e entre dentes, os olhos ardendo de ódio: — E agora? Não pôde deixar de notar seu próprio rosto, pequeno e aceso. Com ele distraiu-se um instante, esquecendo a raiva. Justamente sempre acontecia uma pequena coisa que a desviava da torrente principal. Era tão vulnerável. Odiava-se por isso? Não, odiar-se-ia mais se já fosse um tronco imutável até a morte, apenas capaz de dar frutos mas não de crescer dentro de si mesma. Desejava ainda mais: renascer sempre, cortar tudo o que aprendera, o que vira, e inaugurar-se num terreno novo onde todo pequeno ato tivesse um significado, onde o ar fosse respirado como da primeira vez. Tinha a sensação de que a vida corria espessa e vagarosa dentro dela, borbulhando como um quente lençol de lavas. Talvez se amasse... E se pensou longinquamente, de súbito um clarim cortasse com seu som agudo aquela manta da noite e deixasse a campina livre, verde e extensa... E então cavalos brancos e nervosos com movimentos rebeldes de pescoço e pernas, quase voando, atravessassem rios, montanhas, vales... Neles pensando, sentia o ar fresco circular dentro de si próprio como saído de alguma gruta oculta, úmida e fresca no meio do deserto.

Mas em breve voltou a si mesma, numa queda vertical. Examinou os braços, as pernas. Lá estava ela. Lá estava ela. Mas era preciso se distrair, pensou com dureza e ironia. Com urgência. Pois não morreria? Riu alto e olhou-se rapidamente ao espelho para observar o efeito do riso no rosto. Não, não o aclarava. Parecia uma gata selvagem, os olhos ardendo acima das faces incendiadas, pontilhadas de sardas escuras de sol, os cabelos castanhos despenteados sobre as sobrancelhas. Enxergava em si púrpura sombria e triunfante. O que fazia com que brilhasse tanto? O tédio... Sim, apesar de tudo havia fogo sob ele, havia fogo mesmo quando representava a morte. Talvez isso fosse o gosto de viver.

De novo a inquietação tomou-a, pura, sem raciocínios. Ah, talvez eu deva andar, talvez... Fechou os olhos um instante, permitindo-se o nascimento de um gesto ou de uma frase sem lógica. Fazia sempre isso, confiava em que no fundo, embaixo das lavas, houvesse um desejo já dirigido para um fim. Às vezes, quando por um mecanismo especial, do mesmo modo como se desliza para o sono, fechava as portas da consciência e se deixava agir ou falar, recebia surpreendida — porque a percepção do gesto vinha-lhe apenas no momento de sua execução — uma bofetada de suas próprias mãos em seu próprio rosto. Às vezes ouvia palavras estranhas e loucas de sua própria boca. Mesmo sem entendê-las, elas deixavam-na mais leve, mais liberta. Repetiu a experiência, os olhos cerrados.

E de lá do fundo de si mesma, após um momento de silêncio e abandono, subiu, a princípio pálido e vacilante, depois cada vez mais forte e doloroso: das profundezas chamo por vós... das profundezas chamo por vós... das profundezas chamo por vós... Permaneceu ainda uns instantes parada, o rosto sem expressão, lasso e cansado como se ela tivesse tido um filho. Aos poucos foi renascendo, abriu os olhos vagarosamente e voltou à luz do dia. Frágil, respirando de leve, feliz como uma convalescente que recebesse a primeira brisa.

Então começou a pensar que na verdade rezara. Ela não. Alguma coisa mais do que ela, de que já não tinha consciência, rezara. Mas não queria orar, repetiu-se mais uma vez fracamente. Não queria porque sabia que esse seria o remédio. Mas um remédio como a morfina que adormece qualquer espécie de dor. Como a morfina de que se precisa cada vez mais de maiores doses para senti-la. Não, ainda não estava tão esgotada que desejasse covardemente rezar em vez de descobrir a dor, de sofrê-la, de possuí-la integralmente para conhecer todos os seus mistérios. E mesmo se rezasse... Terminaria num convento, porque para sua fome quase toda a morfina seria pouca. E isto seria a degradação final, o vício. No entanto, por um caminho natural, se não buscasse um deus exterior terminaria por endeusar-se, por explorar sua própria dor, amando seu passado, buscando refúgio e calor em seus próprios pensamentos, então já nascidos com uma vontade de obra de arte e depois servindo de alimento velho nos períodos estéreis. Havia o perigo de se estabelecer no sofrimento e organizar-se dentro dele, o que seria um vício também e um calmante.

O que fazer então? O que fazer para interromper aquele caminho, conceder-se um intervalo entre ela e ela mesma, para mais tarde poder reencontrar-se sem perigo, nova e pura? O que fazer? O piano foi atacado deliberadamente em escalas fortes e uniformes. Exercícios, pensou. Exercícios... Sim, descobriu divertida... Por que não? Por que não tentar amar? Por que não tentar viver?

Música pura desenvolvendo-se numa terra sem homens, sonhava Otávio. Movimentos ainda sem adjetivos. Inconscientes como a vida primitiva que pulsa nas árvores cegas e surdas, nos pequenos insetos que nascem, voam, morrem e renascem sem testemunhas. Enquanto a música volteia e se desenvolve, vivem a madrugada, o dia forte, a noite, com uma nota constante na sinfonia, a da transformação. É a música sem apoio em coisas, em espaço ou tempo, da mesma cor que a vida e a morte. Vida e morte em ideias, isoladas do prazer e da dor. Tão distantes das qualidades humanas que poderiam se confundir com o silêncio. O silêncio. O silêncio, porque essa música seria a necessária, a única possível, projeção vibrante da matéria. E do mesmo modo por que não se entende a matéria e não se a percebe até que os sentidos com ela se choquem, não se ouviria sua música.

E depois? — pensou. Fechar os olhos e ouvir a minha própria que se escoa vagarosa e turva como um rio barrento. A covardia é morna e eu a ela me resigno, depondo todas as armas de herói que vinte e sete anos de pensamento me concederam. O que sou hoje, nesse momento? Uma folha plana, muda, caída sobre a terra. Nenhum movimento de ar balançando-a. Mal respirando para não se acordar. Mas por que, sobretudo por que não usar as palavras próprias e enovelar-me, aconchegar-me em imagens? Por que me chamar de folha morta quando sou apenas um homem de braços cruzados? Novamente, no meio do raciocínio inútil, veio-lhe um cansaço, um sentimento de queda. Orar, orar. Ajoelhar-se diante de Deus e pedir. O quê? A absolvição. Uma palavra tão larga, tão cheia de sentidos. Não era culpado — ou era? de quê? sabia que sim, porém continuou com o pensamento — não era culpado, mas como gostaria de receber a absolvição. Sobre a testa os dedos largos e gordos de Deus, abençoando-o como um bom pai, um pai feito de terra e de mundo, contendo tudo, tudo, sem deixar de possuir uma partícula sequer que mais tarde pudesse lhe dizer: sim, mas eu não lhe perdoei! Cessaria então aquela acusação muda que todas as coisas aconchegavam contra ele.

O que pensava afinal? Há quanto tempo brincava consigo mesmo imóvel? Teve um gesto qualquer.

Prima Isabel entrou. "Bendito, bendito, bendito", dizia seu olhar apressado e míope, ansioso por se retirar. Só abandonava aquele ar de estrangeira quando se sentava ao piano. Otávio encolheu-se como em pequeno. Ela então sorria, era humana, chegava a perder o ar perfurador. Adquiria uma qualidade plana, mais fácil. Sentada ao piano, os lábios enfarinhados e velhos, tocava Chopin, Chopin, sobretudo todas as valsas.

— Os dedos ficaram duros, dizia orgulhosa de tocar de cor. Falando, movia a cabeça para trás num jeito subitamente coquete, de dançarina de café. Otávio corava. Prostituta, pensava, e apagava imediatamente a palavra com um movimento doloroso. Mas como ousava? Lembrava-se de seu rosto inclinado atentamente sobre ele, cuidando de suas dores de estômago. Detesto-a por isso mesmo, pensava sem lógica. E era sempre tarde: o pensamento antecedia-o. Prostituta — como se batesse em si mesmo com um chicote. No entanto, mesmo quando se arrependia, voltava a pecar. Quantas vezes, em criança, um instante antes de adormecer, subitamente tinha consciência de que tia Isabel estava na cama, insone, talvez sentada, os cabelos grisalhos em trança, a camisola de pano grosso fechada como a de uma virgem. Sentia o remorso como um ácido espalhar-se pelo interior do corpo. Mas cada vez mais odiava-a por não poder amá-la.

Ela não conseguia dar mais aquela antiga suavidade entre uma nota e outra, como um desmaio. Um som prendia-se ao outro, áspero, sincopado, e as valsas explodiam fracas, saltitantes e falhadas. Às vezes as badaladas espaçadas e ocas do velho relógio vinham dividir a música em compassos assimétricos. Otávio ficava à espreita da pancada seguinte, o coração em sobressalto. Como se elas precipitassem todas as coisas numa dança muda e docemente maluca. Aquelas batidas cortando implacáveis a música, sempre no mesmo tom, frio e sorridente, arremessavam-no para dentro de si como num vácuo sem apoio. Espiava as costas duras de sua tia, suas mãos — dois animais escuros pulando sobre as teclas amarelas do piano. Ela se voltava e dizia-lhe, concedendo a frase por pura euforia, levemente, como quem joga flores: — Que é que você tem? Vou tocar uma coisa mais alegre...

Vinha uma daquelas valsas de salão, ingênuas e nervosas, as quais não se lembrava de ter ouvido mas que se uniam misteriosamente a velhos trechos em sua memória.

— Isso não, tia, isso não...

Era cômico demais. Ele tinha medo. Pedir perdão por não se extasiar diante de sua música, pedir perdão por achá-la insuportável desde pequeno com aquele seu cheiro de panos velhos, de joias guardadas, quando a via preparar o "seu chazinho contra dores", quando ela lhe prometia tocar uma coisa muito bonita se ele estudasse bastante. Reviu-a saindo de casa, o pó branco e leve sobre a pele cinzenta, o grande decote redondo descobrindo o pescoço onde as veias arquejavam, trágicas. Os sapatinhos rasos de menina, o guarda-chuva usado com aterrorizante desenvoltura, como bengala. Pedir perdão por desejar — não, não! — que ela enfim morresse. — Estremeceu, começou a suar. Mas eu não tenho culpa! Oh! ir embora, fazer o plano do livro de direito civil, afastar-se daquele mundo horrível, repugnantemente íntimo e humano.

— Então lá vai "Gorjeio da Primavera"... — disse prima Isabel.

Sim, sim. Eu quero a primavera... Ajudai-me. Eu sufoco. A primavera ridícula era ainda mais primavera e alegria.

— Essa música parece uma rosa azul, disse ela voltada a meio em sua direção, sorrindo levemente maliciosa. No rosto seco e rugoso repentinamente, um veio d'água no deserto, os dois pequenos brilhantes tremiam de suas orelhas murchas, duas pequenas gotas úmidas, cintilantes. Ah, eram excessivamente frescas e voluptuosas... A velha possuía bens.

Mas se usava os pendentes era por uma razão que ele nunca soubera: ela própria comprara as pedras, mandara engastá-las em brincos, carregava-os como dois fantasmas sob os cabelos grisalhos e arrepiados.

Essa música parece uma rosa azul, dissera bem consciente de que só ela podia compreender. Por experiência ele sabia que deveria perguntar-lhe o significado da frase e pacientemente dar-lhe o prazer de responder, mordendo o lábio inferior: — Ah, isso é cá comigo.

Dessa vez no entanto o antigo jogo emocionante não se realizou. Apenas ele evitou olhar para a velha e encontrar seu desapontamento. Levantou-se e foi bater no quarto da noiva.

Ela cosia perto da janela. Fechou a porta, trancou-a a chave, ajoelhou-se perto dela. Encostou a cabeça no seu seio e de novo aspirou aquele perfume morno e adocicado de rosas velhas. Ela continuava a sorrir, ausente, quase misteriosa, como se prestasse ouvido ao rolar suave de um rio dentro de seu peito.

— Otávio, Otávio, disse ela com sua voz doce e longínqua.

Nenhum dos habitantes daquela casa, nem a prima solteirona, nem Lídia, nem os criados, viviam — pensou Otávio. Mentira, retrucou-se: só ele estava morto. Mas continuou: fantasmas, fantasmas. As vozes distantes, nenhuma espera, a felicidade.

— Lídia, disse, me perdoe.

— Mas o quê? — espantou-se ela discretamente.

— Tudo.

Vagamente ela achou que deveria concordar e silenciou. Otávio, Otávio. Tão mais fácil falar com as outras criaturas. Se não o quisesse tanto, como seria difícil suportar toda aquela incompreensão da parte dele. Só se entendiam quando se beijavam, quando Otávio encostava a cabeça assim, no seu seio. Mas a vida era mais longa, pensava assustada. Haveria momentos em que olharia de frente para ele sem que sua mão pudesse alcançar a dele. E então — o silêncio pesando. Estaria sempre separado dela e apenas se comunicariam nos instantes destacados — nas horas de muita vida e nas horas de ameaça de morte. Mas não bastava, não bastava... A vida em comum era necessária exatamente para viver os outros momentos, pensava assustada, raciocinando com esforço. A Otávio só poderia dizer as palavras imprescindíveis, como se ele fosse um deus com pressa. Se se alongava numa daquelas conversas vagarosas e sem objetivo, que lhe davam tanto prazer, notava-lhe a impaciência ou senão o rosto excessivamente paciente, heroico. Otávio, Otávio... O que fazer? Sua aproximação era um toque mágico, transformava-a num ser realmente vivo, cada fibra respirando cheia de sangue. Ou senão não a agitava. Adormecia-a como se viesse simplesmente, quietamente, aperfeiçoá-la.

Sabia que era inútil resolver sobre o próprio destino. Amava Otávio desde o momento em que ele a quisera, desde pequenos, sob o olhar alegre da prima. E sempre o amaria. Inútil seguir por outros caminhos, quando para um só seus passos a guiavam. Mesmo quando ele a feria, ela se refugiava nele contra ele. Ela era tão fraca. Em vez de sofrer ao reconhecer sua fraqueza, alegrava-se: sabia vagamente, sem se explicar, que desta é que vinha o seu apoio para Otávio. Sentia que ele sofria, que escondia alguma coisa viva e doente na sua alma e que ela só poderia ajudá-lo usando de toda a passividade que dormia em seu ser.

Às vezes revoltava-se longinquamente: a vida é longa... Temia os dias, um atrás do outro, sem surpresas, de puro devotamento a um homem. A um homem que disporia de todas as forças da mulher para sua própria fogueira, num sacrifício sereno e inconsciente de tudo o que não fosse sua própria personalidade. Era uma falsa revolta, uma tentativa de libertação que vinha sobretudo com muito medo de vitória. Procurava durante alguns dias tomar uma atitude de independência, o que só realizava com um pouco de sucesso pela manhã, quando acordava, ainda sem ter visto o homem. Bastava sua presença, apenas pressentida, para toda ela anular-se e ficar à espera. À noite, sozinha no quarto, queria-o. Todos os seus nervos, todos os seus músculos doentes. Resignou-se pois. A resignação era doce e fresca. Nascera para ela.

Otávio espiou-lhe os cabelos escuros, presos modestamente atrás das orelhas grandes e feias. Espiou-lhe o corpo grosso e firme, como um tronco, as mãos sólidas e bonitas. E, de novo, como o refrão mole de uma canção, repetiu-se: "O que me liga a ela?" Tinha pena de Lídia, sabia que, mesmo sem motivo, mesmo sem conhecer outra mulher, embora ela fosse a única, ele a abandonaria alguma vez. No dia seguinte até. Por que não? — Sabe? — disse — sonhei essa noite com você. Ela abriu os olhos, iluminando-se toda: — Mesmo? O quê? — Sonhei que íamos os dois por um campo cheio de flores, que eu colhia lírios para você, que você estava toda de branco.

Mas que sonho bonito... Sim, bem bonito...

— Otávio.

— Sim?...

— Você não se incomoda que eu pergunte? Quando vamos casar? Não há nada que nos impeça... Preciso saber por causa do enxoval.

— Só por isso? Ela corou, contente em poder falar de alguma coisa que a enfeitasse. Tentou desajeitada mostrar-se faceira: — É por isso e... mesmo porque eu não queria esperar. É tão difícil.

— Entendo. Mas não sei quando.

— Mas por que não imediatamente? Você precisava resolver... Há tanto tempo que...

De repente Otávio ergueu-se e disse: — Você sabe que é mentira? Que eu não sonhei com você?

Ela olhou-o espantada, pálida.

— Você está brincando...

— Não, estou falando sério. Não sonhei com você.

— Sonhou com quem?

— Com ninguém. Dormi de um sono só, sem sonhos. Ela retomou a costura.

Joana passou a mão pelo ventre estufado da cachorra, alisando-o com suas mãos finas. Deteve-se ligeiramente atenta.

— Ela está grávida — disse.

E havia qualquer coisa no seu olhar, nas suas mãos apalpando o corpo da cachorra que a ligava diretamente à realidade desnudando-a. Como se ambas formassem um só bloco, sem descontinuidade. A mulher e a cadela ali estavam, vivas e nuas, com algo de feroz na comunhão. Fala com uma justeza de termos que horroriza, pensou Otávio com mal-estar, sentindo-se repentinamente inútil e afeminado. E era apenas a primeira vez em que a via.

Nela havia uma qualidade cristalina e dura que o atraía e repugnava-lhe simultaneamente, notou ele. Até o modo como andava. Sem ternura e gosto pelo próprio corpo, mas jogando-o como uma afronta aos olhos de todos, friamente. Otávio observava-a mover-se e refletia que nem fisicamente era a mulher de quem ele gostaria. Preferia corpos pequenos, acabados, sem intenções. Ou grandes, como o da noiva, fixos, mudos. O que ele lhes dissesse seria o bastante. Aquelas linhas de Joana, frágeis, um esboço, eram inconfortáveis. Cheias de sentido, de olhos abertos, incandescentes. Não era bonita, fina demais. Mesmo sua sensualidade deveria ser diferente da dele, excessivamente luminosa.

Otávio procurava, desde o instante em que a conhecera, não perder nenhum de seus detalhes, dizendo-se: que não se cristalize em mim qualquer sentimento terno; preciso enxergá-la bem. Mas, como se adivinhasse seu exame, Joana se voltava para ele no momento preciso, sorridente, fria, pouco passiva. E tolamente ele agia, falava, confuso e apressado em obedecer-lhe. Em vez de obrigá-la a revelar-se e assim destruir-se no seu poder. E apesar daquele ar de quem ignorava as coisas mais comuns, como logo no primeiro encontro ela o precipitara em si mesmo! Jogara-o na intimidade dele próprio, esquecendo friamente as pequenas e cômodas fórmulas que o sustentavam e lhe facilitavam a comunicação com as pessoas.

Joana contou-lhe...

...O velho foi-se aproximando, a balançar o corpo gordo, o crânio liso. Chegou-se junto dela, os lábios em forma de muxoxo, os olhos arredondados, a voz chorosa. Disse, imitando o tatibitate infantil: — Machuquei aqui... Tá dodói... Botei remedinho, já tá melhorzinho...

Revirou os olhos e num momento as gorduras tremeram, o brilho dos lábios molhados e frouxos fulgurou docemente. Joana inclinou-se um pouco e viu suas gengivas vazias.

— Não diz que tem pena de mim? Ela olhava-o séria. Ele não estranhou: — Não diz nem "tadinho"? Era de uma pessoa se torcer de riso e de perplexidade vê-lo baixinho, o traseiro saliente, os grandes olhos atentos, numa larga continência trêmula. Ficou ainda silenciosa. Depois, devagar, no mesmo tom: — Coitadinho.

Ele riu, considerou finda a brincadeira e voltou as costas para a porta. Joana acompanhou-o com o olhar, inclinou-se um pouco para alcançá-lo todo com a vista, mal ele se afastou da mesa. Encarava-o ereta e fria, os olhos abertos, claros. Olhou para a mesa, procurou um instante, pegou num livro pequeno e grosso. No momento em que ele punha a mão no trinco, recebeu-o na nuca, com toda a força. Voltou-se instantaneamente, a mão na cabeça, com os olhos arregalados de dor e de espanto. Joana continuava na mesma posição. Bem, pensava ela, agora já perdeu aquele ar repugnante. Um velho só deveria sofrer.

Disse a voz alta e simpática: — Perdoe. Uma pequena lagartixa ali, em cima da porta. — Pequena pausa. — Errei na pontaria.

O velho continuou a olhá-la, sem compreender. Depois um vago terror apossou-se dele diante daquele rosto sorridente.

— Até logo... Não foi nada... — Meu Deus! — Até logo... Quando a porta fechou-se, ela ficou ainda um tempo com o sorriso no rosto. Alçou os ombros ligeiramente. Foi à janela, o olhar cansado e vazio: — Talvez eu deva ouvir música.

— Sim, é verdade, joguei o livro em cima dele, respondeu Joana à pergunta de Otávio.

Ele procurou triunfar: — Mas você não contou isso ao velho! — Não, eu menti.

Otávio olhou-a, procurou em vão algum remorso, algum sinal de confissão.

— Só depois de viver mais ou melhor, conseguirei a desvalorização do humano, dizia-lhe Joana às vezes. Humano — eu. Humano — os homens individualmente separados.

Esquecê-los porque com eles minhas relações apenas podem ser sentimentais. Se eu os procuro, exijo ou dou-lhes o equivalente das velhas palavras que sempre ouvimos, "fraternidade", "justiça". Se elas tivessem um valor real, seu valor não estaria em ser cume, mas base de triângulo. Seriam a condição e não o fato em si. Porém terminam ocupando todo o espaço mental e sentimental exatamente porque são impossíveis de se realizar, são contra a natureza. São fatais, apesar de tudo, no estado de promiscuidade em que se vive. Nesse estado transforma-se o ódio em amor, que nunca passa na verdade de procura de amor, jamais obtido senão em teoria, como no cristianismo.

Oh, poupe-me, gritava Otávio. Ela quisera parar mas o cansaço e a excitação da presença do homem aguçavam-lhe a mente, e as palavras rolavam sem cessar.

— É difícil tal desvalorização do humano, continuava, difícil fugir dessa atmosfera de fracasso de revolução — a adolescência —, de solidariedade com os homens na mesma impotência de conseguir. No entanto como seria bom construir alguma coisa pura, liberta do falso amor sublimizado, liberta do medo de não amar... Medo de não amar, pior do que o medo de não ser amado...

Oh, poupe-me, ouvia Joana no silêncio de Otávio. Mas ao mesmo tempo ela gostava de pensar alto, de desenvolver um raciocínio sem plano, seguindo-se apenas. Às vezes mesmo, por puro prazer, inventava reflexões: se uma pedra cai, essa pedra existe, houve uma força que fez com que ela caísse, um lugar de onde ela caiu, um lugar onde ela caiu, um lugar por onde ela caiu — acho que nada escapou à natureza do fato, a não ser o próprio mistério do fato. Mas agora ela falava também porque não sabia dar-se e porque sobretudo apenas pressentia, sem entender, que Otávio poderia abraçá-la e dar-lhe paz.

— Uma noite, mal me deitara, disse-lhe ela, uma das pernas da cama partiu-se jogando-me ao chão. Depois de um movimento de cólera, porque nem ao menos tinha sono bastante para dispensar o conforto, pensei subitamente: por que motivo uma cama inteira, e não uma quebrada? Deitei-me e em breve dormia...

Ela não era bonita. Às vezes como que o espírito a abandonava e então revelava-se o que, por uma vigilância sobre-humana — imaginava Otávio —, jamais se descobria. No rosto que então surgia, os traços limitados e pobres não tinham beleza própria. Nada restava do antigo mistério senão a cor da pele, creme, sombria, fugitiva. Se os instantes de abandono prolongavam-se e se sucediam, então ele via assustado a feiura, e mais que a feiura, uma espécie de vileza e brutalidade, alguma coisa cega e inapelável dominar o corpo de Joana como numa decomposição. Sim, sim, talvez subisse então à superfície alguma coisa liberta do medo de não amar.

— Sim, eu sei, continuava Joana. A distância que separa os sentimentos das palavras. Já pensei nisso. E o mais curioso é que no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo. Ou pelo menos o que me faz agir não é, seguramente, o que eu sinto mas o que eu digo.

Ela falara do velho, falara da gravidez da cadela mal ele a conhecera e de repente, assustado, ele se sentira como depois de uma confissão, como se tivesse dito àquela estranha toda a sua vida. Que vida? A que se debatia dentro dele e que não era nada, repetiu-se com medo de surgir aos próprios olhos como grandioso e cheio de responsabilidades. — Ele nada era, nada era e nada precisava pois fazer, repetia-se, os olhos mentalmente fechados. — Como se tivesse contado a Joana o que não sentia senão no escuro. E o mais surpreendente de tudo: como se ela tivesse escutado e risse depois, perdoando — não como Deus, mas como o diabo —, abrindo-lhe portas largas para a passagem.

Sobretudo no momento em que a tocara, compreendera: o que se seguisse entre eles seria irremediável. Porque quando a abraçara, sentira-a viver subitamente em seus braços como água correndo. E vendo-a tão viva, entendera esmagado e secretamente contente que se ela o quisesse ele nada poderia fazer... No momento em que finalmente a beijara sentira-se ele próprio de repente livre, perdoado além do que ele sabia de si mesmo, perdoado no que estava sob tudo o que ele era...

Daí em diante não havia escolha. Caíra vertiginosamente de Lídia para Joana. Sabendo disso ajudava-se a amá-la. Não era difícil. Uma vez ela se distraíra olhando pelo vidro da janela, os lábios soltos, esquecida de si mesma. Ele a chamara e o modo suave e abandonado como ela voltava a cabeça e dissera: hein?... fizera-o cair dentro de si mesmo, mergulhando numa tonta e escura onda de amor. Otávio voltara então o rosto para o lado, não querendo vê-la.

Poderia amá-la, poderia tomar a nova e incompreensível aventura que ela lhe oferecia. Mas continuava agarrado ao primeiro impulso que o jogara contra ela. Não era como mulher, não era assim, cedida, que ele a queria... Precisava-a fria e segura. Para que ele pudesse dizer como em pequeno, refugiado e quase vitorioso: a culpa não é minha...

Casariam, ver-se-iam minuto por minuto e que ela fosse pior que ele. E forte, para ensinar-lhe a não ter medo. Nem mesmo o medo de não amar... Ele a queria não para fazer sua vida com ela, mas para que ela lhe permitisse viver. Viver sobre si mesmo, sobre seu passado, sobre as pequenas vilezas que cometera covardemente e a que covardemente continuava unido. Otávio pensava que ao lado de Joana poderia continuar a pecar.

Quando Otávio a beijara, segurara-lhe as mãos, apertando-as contra seu seio, Joana mordera os lábios a princípio cheia de raiva porque ainda não sabia com que pensamento vestir aquela sensação violenta, como um grito, que lhe subia do peito até entontecer a cabeça. Olhou-o sem vê-lo, os olhos nublados, o corpo sofredor. Precisavam despedir-se. Afastou-se bruscamente e foi embora sem se voltar para trás, sem saudade.

No quarto, já despida sobre a cama, não conseguia adormecer. Seu corpo pesava-lhe, existia além dela mesma como um estranho. Sentia-o palpitante, aceso. Fechou a luz e os olhos, tentou fugir, dormir. Mas continuou por longas horas a perscrutar-se, a vigiar o sangue que se arrastava grosso pelas suas veias como um animal bêbedo. E a pensar. Como não se conhecia até então. Aquelas formas finas e ligeiras, aquelas linhas delicadas de adolescente. Abriam-se, respiravam sufocadas e cheias de si mesmas até o limite.

De madrugada a viração alisou a cama, acenou as cortinas. Joana foi serenando suavemente. A frescura do fim da noite acariciou-lhe o corpo dolorido. O cansaço tomou-a devagar e de repente exausta entregou-se a um sono profundo.

Acordou tarde e alegre. Cada célula, imaginava, abrira-se florescente. Milagrosamente todas as energias despertas, prontas para lutar. Quando pensava em Otávio, respirava com cuidado como se o ar lhe fizesse mal. Durante os dias que se seguiram não o viu nem procurou vê-lo. Evitava-o mesmo como se sua presença fosse dispensável.

E foi tão corpo que foi puro espírito. Atravessava os acontecimentos e as horas imaterial, esgueirando-se entre eles com a leveza de um instante. Mal se alimentava e seu sono era fino como um véu. Acordava muitas vezes durante a noite, sem susto, preparando-se antes de pensar para sorrir. Adormecia de novo sem mudar de posição, apenas cerrando os olhos. Procurou-se muito no espelho, amando-se sem vaidade. A pele serena, os lábios vivos faziam-na quase tímida voltar as costas para sua imagem, sem força para sustentar seu olhar contra o daquela mulher, fresco e úmido, tão brandamente claro e seguro.

Depois cessou a felicidade.

A plenitude tornou-se dolorosa e pesada e Joana era uma nuvem prestes a chover. Respirava mal como se dentro dela não houvesse lugar para o ar. Caminhou de um lado para outro, perplexa com a mudança. Como? — perguntava-se e sentia que estava sendo ingênua, aquilo tinha dois lados? Sofrer pelo mesmo motivo que a tornara terrivelmente feliz? Carregou consigo o corpo doente, um ferido incômodo, durante os dias. A leveza fora substituída por miséria e cansaço. Saciada — um animal que matara sua sede inundando seu corpo d'água. Mas ansiosa e infeliz como se apesar de tudo restassem terras ainda não molhadas, áridas e sedentas. Sofreu sobretudo de incompreensão, sozinha, atônita. Até que encostando a testa, no vidro da janela — rua quieta, a tarde caindo, o mundo lá fora —, sentiu o rosto molhado. Chorou livremente, como se esta fosse a solução. As lágrimas corriam grossas, sem que ela contraísse um só músculo da face. Chorou tanto que não soube contar. Sentiu-se depois como se tivesse voltado às suas verdadeiras proporções, miúda, murcha, humilde. Serenamente vazia. Estava pronta.

Procurou-o então. E a nova glória e o novo sofrimento foram mais intensos e de qualidade mais insuportável.

Casou-se.

O amor veio afirmar todas as coisas velhas de cuja existência apenas sabia sem nunca ter aceito e sentido. O mundo rodava sob seus pés, havia dois sexos entre os humanos, um traço ligava a fome à saciedade, o amor dos animais, as águas das chuvas encaminhavam-se para o mar, crianças eram seres a crescer, na terra o broto se tornaria planta. Não poderia mais negar... o quê? — perguntava-se suspensa. O centro luminoso das coisas, a afirmação dormindo embaixo de tudo, a harmonia existente sob o que não entendia.

Erguia-se para uma nova manhã, docemente viva. E sua felicidade era pura como o reflexo do sol na água. Cada acontecimento vibrava em seu corpo como pequenas agulhas de cristal que se espedaçassem. Depois dos momentos curtos e profundos vivia com serenidade durante largo tempo, compreendendo, recebendo, resignando-se a tudo. Parecia-lhe fazer parte do verdadeiro mundo e estranhamente ter-se distanciado dos homens. Apesar de que nesse período conseguia estender-lhes a mão com uma fraternidade de que eles sentiam a fonte viva. Falavam-lhe das próprias dores e ela, embora não ouvisse, não pensasse, não falasse, tinha um olhar bom — brilhante e misterioso como o de uma mulher grávida.

O que sucedia então? Milagrosamente vivia, liberta de todas as lembranças. Todo o passado se esfumaçara. E também o presente eram névoas, as doces e frescas névoas separando-a da realidade sólida, impedindo-a de tocá-la. Se rezasse, se pensasse seria para agradecer ter um corpo feito para o amor. A única verdade tornou-se aquela brandura onde mergulhara. Seu rosto era leve e impreciso, boiando entre os outros rostos opacos e seguros, como se ele ainda não pudesse adquirir apoio em qualquer expressão. Todo o seu corpo e sua alma perdiam os limites, misturavam-se, fundiam-se num só caos, suave e amorfo, lento e de movimentos vagos como matéria simplesmente viva. Era a renovação perfeita, a criação.

E sua ligação com a terra era tão profunda e sua certeza tão firme — de quê? de quê? — que agora podia mentir sem se entregar. Tudo isso deixava-a pensar às vezes: — Por Deus, quem sabe se não estou fazendo disto mais do que amor? Aos poucos habituou-se ao novo estado, acostumou-se a respirar, a viver. Aos poucos foi envelhecendo dentro de si, abriu os olhos e novamente era uma estátua, não mais plástica, porém definida. Bem longe renascia a inquietação. À noite, entre os lençóis, um movimento qualquer ou um pensamento inesperado acordava-a para si mesma. Levemente surpreendida dilatava os olhos, percebia seu corpo mergulhado na confortável felicidade. Não sofria, mas onde estava? — Joana... Joana... — chamava-se ela docemente. E seu corpo mal respondia devagar, baixinho: Joana.

Os dias foram correndo e ela desejava achar-se mais. Chamava-se agora fortemente e não lhe bastava respirar. A felicidade apagava-a, apagava-a... Já queria sentir-se de novo, mesmo com dor. Mas submergia cada vez mais. Amanhã, adiava, amanhã vou-me ver. O novo dia porém perpassava pela sua superfície, leve como uma tarde de estio, mal franzindo seus nervos.

Só não se habituara a dormir. Dormir era cada noite uma aventura, cair da claridade fácil em que vivia para o mesmo mistério, sombrio e fresco, atravessar a escuridão. Morrer e renascer.

Nunca terei pois uma diretriz, pensava meses depois de casada. Resvalo de uma verdade a outra, sempre esquecida da primeira, sempre insatisfeita. Sua vida era formada de pequenas vidas completas, de círculos inteiros, fechados, que se isolavam uns dos outros. Só que no fim de cada um deles, em vez de Joana morrer e principiar a vida noutro plano, inorgânico ou orgânico inferior, recomeçava-a mesmo no plano humano. Apenas diversas as notas fundamentais. Ou apenas diversas as suplementares, e as básicas eternamente iguais? Era sempre inútil ter sido feliz ou infeliz. E mesmo ter amado. Nenhuma felicidade ou infelicidade tinha sido tão forte que tivesse transformado os elementos de sua matéria, dando-lhe um caminho único, como deve ser o verdadeiro caminho. Continuo sempre me inaugurando, abrindo e fechando círculos de vida, jogando-os de lado, murchos, cheios de passado. Por que tão independentes, por que não se fundem num só bloco, servindo-me de lastro? É que eram demasiado integrais. Momentos tão intensos, vermelhos, condensados neles mesmos que não precisavam de passado nem de futuro para existir. Traziam um conhecimento que não servia como experiência — um conhecimento direto, mais como sensação do que percepção. A verdade então descoberta era tão verdade que não podia subsistir senão no seu recipiente, no próprio fato que a provocara. Tão verdadeira, tão fatal, que vive apenas em função de sua matriz. Uma vez terminado o momento de vida, a verdade correspondente também se esgota. Não posso moldá-la, fazê-la inspirar outros instantes iguais. Nada pois me compromete.

No entanto a justificação de sua curta glória talvez não tivesse outro valor senão o de lhe dar certo prazer de raciocínio, assim como: se uma pedra cai, essa pedra existe, essa pedra caiu de um lugar, essa pedra... Ela errava tanto.