Perto do Coração Selvagem

Clarice Lispector · Capítulo 14 de 21

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Perto do Coração Selvagem

A Pequena Família

ANTES DE COMEÇAR a escrever, Otávio ordenava os papéis sobre a mesa minuciosamente, ajeitava a roupa em si mesmo. Gostava dos pequenos gestos e dos velhos hábitos, como vestes gastas, onde se movia com seriedade e segurança. Desde estudante assim se preparava para um trabalho. Depois de instalar-se junto à mesa, arrumava-a e, a consciência avivada pela noção das coisas ao redor — não me perder em grandes ideias, sou também uma coisa —, deixava a pena correr um pouco livremente para libertar-se de alguma imagem ou reflexão obsedante que porventura quisesse acompanhá-lo e impedir a marcha do pensamento principal.

Por isso trabalhar diante dos outros era um suplício. Receava o ridículo dos pequenos rituais e sem eles não podia passar, apoiavam tanto como uma superstição. Do mesmo modo como para viver cercava-se de permitidos e tabus, das fórmulas e das concessões. Tudo tornava-se mais fácil, como ensinado. O que fascinava e amedrontava em Joana era exatamente a liberdade em que ela vivia, amando repentinamente certas coisas ou, em relação a outras, cega, sem usá-las sequer. Pois ele se via obrigado diante do que existia. Bem dissera Joana que ele precisava ser possuído por alguém... Você pega no dinheiro com uma intimidade... — brincara Joana uma vez enquanto ele pagava uma conta num restaurante e de tal modo ela o encontrava distraído e assustara-o que, diante do garçom, irônico certamente, as notas e as moedas escorregaram-lhe das mãos e espalharam-se aos seus pés. Embora não se seguisse nenhuma frase irônica — bem, justiça lhe seja feita, Joana não ri — ainda guardava um argumento pronto desde então: mas o que fazer com o dinheiro senão guardá-lo para gastá-lo? Irritava-se, envergonhado. Sentia que o argumento não respondia a Joana.

A verdade é que se não tivesse dinheiro, se não possuísse os "estabelecidos", se não amasse a ordem, se não existisse a Revista de Direito, o vago plano do livro de civil, se Lídia não estivesse dividida de Joana, se Joana não fosse mulher e ele homem, se... oh, Deus, se tudo... que faria? Não, não "que faria", mas a quem se dirigiria, como se moveria? Impossível deslizar por entre os blocos, sem vê-los, sem deles necessitar...

Contrariando a regra de trabalho — uma concessão —, pegou no papel e no lápis mesmo antes de estar inteiramente preparado. Mas desculpou-se, não queria perder aquela nota, talvez lhe servisse um dia: "É necessário certo grau de cegueira para poder enxergar determinadas coisas. É essa talvez a marca do artista. Qualquer homem pode saber mais do que ele e raciocinar com segurança, segundo a verdade. Mas exatamente aquelas coisas escapam à luz acesa. Na escuridão tornam-se fosforescentes". — Pensou um pouco. Depois, apesar da concessão prolongar-se demais, anotou: "Não é o grau que separa a inteligência do gênio, mas a qualidade. O gênio não é tanto uma questão de poder intelectivo, mas da forma por que se apresenta esse poder. Pode-se assim ser facilmente mais inteligente que um gênio. Mas o gênio é ele. Infantil esse 'o gênio é ele'. Ver em relação a Spinoza, se se pode aplicar a descoberta". — Era dele mesmo? Toda a ideia que lhe surgia, porque se familiarizava com ela em segundos, vinha com o temor de tê-la roubado.

Bem, agora a ordem. Lápis largado, recomendou-se, libertar-me das obsessões. Um, dois, três! Lamento muito sofrer como sofro entre os bambus do noroeste desta cidade, começou. Faço o que quero — continuou —, e ninguém me obriga a escrever a Divina Comédia. Não há outra maneira de ser senão a que é, o resto é bordado inútil e tão incômodo como aquele, em relevo, com anjos e flores, com que prima Isabel enfeitava meus travesseiros. Quando eu estava distraído e ela vinha como uma nuvem roxa e idiota, qual o meu pensamento, diga qual, qual, mais quatro vezes qual, qual, qual, qual. Assim, assim, não fuja: "o quê? ainda estás viva? ainda não morreste?" Sim, sim, foi isso, não fugir de mim, não fugir de minha letra, como é leve e horrível, teia de aranha, não fugir de meus defeitos, meus defeitos, eu vos adoro, minhas qualidades são tão pequenas, iguais às dos outros homens, meus defeitos, meu lado negativo é belo e côncavo como um abismo. O que não sou deixaria um buraco enorme na terra. Eu não agasalho meus erros, enquanto Joana não erra, eis a diferença. Hein, hein, diga alguma coisa, rapaz. As mulheres olham para mim, as mulheres, as mulheres, minha boca, deixo crescer de novo o bigode, elas morrem de alegria e grande amor, cheio de ameixas e passas. Eu compro todas elas sem dinheiro, dinheiro guardo, se uma escorrega numa casca lá na rua, nada há de fazer senão ter vergonha. Nada se perde, nada se cria. O homem que sentisse isso, quer dizer, não apenas compreendesse, mas adorasse, seria tão feliz como o que acredita realmente em Deus. No começo dói um pouco, mas depois a gente se acostuma. Quem escreve esta página nasceu um dia. Agora são exatamente sete e pouco da manhã. Há névoas lá fora, além da janela, da Janela Aberta, o grande símbolo. Joana diria: eu me sinto tão dentro do mundo que me parece não estar pensando, mas usando de uma nova modalidade de respirar. Adeus. Isso é o mundo, eu sou eu, está chovendo no mundo, é mentira, eu sou um trabalhador intelectual, Joana dorme no quarto, alguém deve estar acordando agora, Joana diria: outro morrendo, outro ouvindo música, alguém entrou num banheiro, isto é o mundo. Vou comover todos, chamá-los para se enternecerem comigo. Vivo com uma mulher nua e fria, não fugir, não fugir, que me olha bem nos olhos, não fugir, que me espia, mentira, mentira, mas é verdade. Agora está deitada dormindo, dorme vencida pelo sono, vencida, vencida. É um pássaro fino numa camisola branca. Vou comover todos, não agasalho meus erros, mas que todos me agasalhem.

Endireitou o busto, alisou o cabelo, ficou sério. Agora ia trabalhar. Como se todos assistissem e aprovassem com a cabeça, cerrando os olhos no assentimento: isso, isso mesmo, muito bem. Alguém real incomodava-o e sozinho ficava solto, nervoso. "Todos" pois assistiam-no. Tossiu ligeiramente. Afastou o tinteiro com cuidado. Começou. "A tragédia moderna é a procura vã de adaptação do homem ao estado de coisas que ele criou." Distanciou-se um pouco, olhou o caderno, endireitou o pijama. "De tal modo a imaginação é a base do homem — Joana de novo — que todo o mundo que ele tem construído encontra sua justificativa na beleza da criação e não na sua utilidade, não em ser o resultado de um plano de fins adequados às necessidades. Por isso é que vemos multiplicarem-se os remédios destinados a unir o homem às ideias e instituições existentes — a educação, por exemplo, tão difícil — e vemo-lo continuar sempre fora do mundo que ele construiu. O homem levanta casas para olhar e não para nelas morar. Porque tudo segue o caminho da inspiração. O determinismo não é um determinismo de fins, mas um estreito determinismo de causas. Brincar, inventar, seguir a formiga até seu formigueiro, misturar água com cal para ver o resultado, eis o que se faz quando se é pequeno e quando se é grande. É erro considerar que chegamos a um alto grau de pragmatismo e materialismo. Na verdade o pragmatismo — o plano orientado para um dado fim real — seria a compreensão, a estabilidade, a felicidade, a maior vitória de adaptação que o homem conseguisse. No entanto fazer as coisas "para quê" parece-me, perante a realidade, uma perfeição impossível de exigir do homem. O início de toda sua construção é 'porquê'. A curiosidade, o devaneio, a imaginação — eis o que formou o mundo moderno. Seguindo a inspiração, misturou ingredientes, criou combinações. Sua tragédia: ter que se alimentar com elas. Confiou em que pudesse imaginar numa vida e encontrar-se noutra, aparte. De fato essa outra continua, mas sua purificação sobre o imaginado age lentamente e um homem sozinho não encontra o pensamento tonto de um lado e a paz da vida verdadeira noutro. Não se pode pensar impunemente." Joana pensava sem medo e sem castigo. Teria a loucura por fim ou o quê? Não podia adivinhar. Talvez sofrimento apenas.

Parou, releu. Não sair desse mundo, pensou com certo ardor. Não ter que enfrentar o resto. Só pensar, só pensar e ir escrevendo. Que exigissem dele artigos sobre Spinoza, mas que não fosse obrigado a advogar, a olhar e a lidar com aquelas pessoas afrontosamente humanas, desfilando, expondo-se sem vergonha.

Releu as anotações sobre a leitura anterior. — O cientista puro deixa de crer no que gosta, mas não pode impedir-se de gostar do que crê. A necessidade de gostar: marca do homem. — Não esquecer: “o amor intelectual de Deus" é o verdadeiro conhecimento e exclui qualquer misticismo ou adoração. — Muitas respostas encontram-se em afirmações de Spinoza. Na ideia por exemplo de que não pode haver pensamento sem extensão (modalidade de Deus) e vice-versa, não está afirmada a mortalidade da alma? É claro: mortalidade como alma distinta e raciocinante, impossibilidade clara da forma pura dos anjos de S. Tomaz. Mortalidade em relação ao humano. Imortalidade pela transformação na natureza. — Dentro do mundo não há lugar para outras criações. Há apenas oportunidade de reintegração e continuação. Tudo o que poderia existir já existe. Nada mais pode ser criado senão revelado. — Se, quanto mais evoluído o homem, mais procura sintetizar, abstrair e estabelecer princípios e leis para sua vida, como poderia Deus — em qualquer acepção, mesmo na do Deus consciente das religiões — não ter leis absolutas pela sua própria perfeição? Um Deus dotado de livre arbítrio é menor que um Deus de uma só lei. Do mesmo modo por que tanto mais verdadeiro é um conceito quanto ele é um só e não precisa transformar-se diante de cada caso particular. A perfeição de Deus prova-se mais na impossibilidade do milagre do que na sua possibilidade. Fazer milagres, para um Deus humanizado das religiões, é ser injusto — milhares de pessoas precisam igualmente e ao mesmo tempo desse milagre — ou reconhecer um erro, corrigindo-o — o que, mais do que uma bondade ou "prova de caráter", significa ter errado. — Nem o entendimento nem a vontade pertencem à natureza de Deus, diz Spinoza. Isso me faz mais feliz e me deixa mais livre. Porque a ideia da existência de um Deus consciente nos torna horrivelmente insatisfeitos.

No topo do estudo colocaria in litteris Spinoza traduzido: "Os corpos se distinguem uns dos outros em relação ao movimento e ao repouso, à velocidade e à lentidão e não em relação à substância". Mostrara a frase a Joana. Por quê? Encolheu os ombros, sem procurar mais fundo a explicação. Ela se mostrara curiosa, quisera ler o livro.

Otávio estendeu a mão e tomou-o. Uma folha de caderno intercalava suas páginas. Olhou-a e descobriu a letra incerta de Joana. Inclinou-se com avidez. "A beleza das palavras: natureza abstrata de Deus. É como ouvir Bach." Por que preferia que ela não tivesse escrito essa frase? Joana sempre o encontrava desprevenido. Ele se envergonhava como se ela estivesse claramente mentindo e ele fosse obrigado a enganá-la, dizendo-lhe que acreditava nela...

Ler o que ela escrevera foi como estar diante de Joana. Evocou-a e, furtando-se aos seus olhos, viu-a nos seus momentos de distração, o rosto branco, vago e leve. E de repente grande melancolia desceu sobre ele. Que estou fazendo afinal? — perguntou-se e nem sabia por que se agredira tão subitamente. Não, não escrever hoje. E como essa era uma concessão, uma ordem indiscutível — perscrutou-se: se quisesse sinceramente poderia trabalhar? e a resposta foi resoluta: não — e uma vez que a decisão era mais poderosa que ele, sentiu-se quase alegre. Hoje alguém lhe dava o descanso. Não Deus. Não Deus, mas alguém. Muito forte.

Levantar-se-ia, arrumaria os papéis, guardaria o livro, vestiria uma roupa quente, iria ver Lídia. O conforto da Ordem. Como seria recebido por Lídia? Diante da janela aberta, olhando as crianças caminharem para a escola, viu-se segurar seus ombros, subitamente em cólera, talvez um pouco forçada, em face daquela mesma pergunta: que estou fazendo afinal? — Você não tem medo? — gritara-lhe. Lídia continuara igual.

— Você não tem medo de seu futuro, de nosso futuro, de mim? Não sabe que... que... sendo apenas minha amante... só tem lugar ao meu lado?

Ela balançara a cabeça surpreendida, chorosa: — Mas não...

Ele sacudira-a, longinquamente envergonhado de mostrar tanta força, quanto junto de Joana, por exemplo, calava-se.

— Não tem medo de que eu deixe você? Não sabe que se eu deixar você, você será uma mulher sem marido, sem nada... Um pobre diabo... que um dia foi abandonada pelo noivo e que se tornou amante desse noivo enquanto ele casava com outra...

— Não quero que você me deixe...

— Ah...

— ...mas não tenho medo...

Olhara-a espantado. Estava emagrecendo, notou. Mas o aspecto saudável ainda. Apesar de tudo mais nervosa, facilidade para chorar, para comover-se. De repente puserase a rir.

— Não sei de que você é feita, juro.

Lídia rira também, contente de que tudo estivesse acabado. Ele se intimidara com seu olhar radiante, puxara-a para si a fim de não ver seus olhos. E permaneceram um instante abraçados, cheios de desejos diferentes.

E agora? Lídia o receberia como sempre. Escreveu um bilhete a Joana, avisando-lhe que não almoçaria em casa. Pobre Joana..., poderia ele dizer se quisesse. Jamais saberia. Tão íntegra na sua altivez ignorante... Mas ele ferozmente a pouparia, ria ele, o coração batendo. Bem, amanhã escreveria algo definitivo sobre o artigo.

Olhou-se ao espelho antes de sair, de olhos entrefechados observou o rosto bem feito, o nariz reto, os lábios redondos e carnudos. Mas afinal de nada tenho culpa, disse. Nem de ter nascido. E de repente não compreendeu como pudera acreditar em responsabilidade, sentir aquele peso constante, todas as horas. Ele era livre... Como tudo se simplificava às vezes...

Saiu à rua, escolheu demoradamente um saco de bombons. Terminou comprando um, bastante grande, de damasco. Quando dobrasse a esquina, chuparia o primeiro bombom, as mãos nos bolsos. Seus olhos se enterneceram pensando nisso. Por que não? — perguntou-se de repente irritado. Quem disse que os grandes homens não comem bombons? Só que nas biografias ninguém se lembra de contar isso. Se Joana soubesse desse seu pensamento? Não, na verdade nunca mostrou ironia para... Teve um momento de raiva, apressou o passo.

Antes de dobrar a esquina, pegou o saco de bombons e despejou-os na sarjeta. Angustiado, viu-os misturarem-se à lama, rolarem até um vão escuro cortado de teias de aranha.

Continuou o caminho mais devagar, encolhido. Fazia um pouco de frio. Agora alguém deveria estar satisfeito, pensou longinquamente. Como um castigo, uma confissão.

— Mesmo os grandes homens só são verdadeiramente reconhecidos e homenageados depois de mortos. Por quê? Porque os que elogiam precisam se sentir de algum modo superior ao elogiado, precisam conceder. Depois que... nasce uma superioridade evidente... quem elogia... conseguiu se manter... há mesmo certa condescendência... saiu... piedade, dizia-lhe Otávio.

Lídia observava-o num de seus momentos feios. Os lábios adelgaçados, a testa enrugada, o olhar estúpido — Otávio pensava. E amava-o neste instante. Sua feiura não a excitava, não lhe causava pena. Simplesmente ligava-se mais a ele e com maior alegria. Alegria de aceitar inteiramente, de sentir que unia o que havia de verdadeiro e primitivo em si a alguém, independente de qualquer das ideias recebidas sobre beleza. Lembrava-se das antigas colegas — daquelas meninas sempre vivas, sabendo tudo, tendo ligação com cinemas, livros, namoros, roupas, daquelas moças de quem nunca pudera aproximar-se de verdade, calada como era, sem ter propriamente o que dizer. Lembrava-se delas e sabia que haveriam de achar Otávio feio naquele instante. Pois aceitava-o tanto que desejá-lo-ia pior para provar ainda mais seu amor sem luta.

Olhava-o sem prestar atenção às suas palavras. Era doce e bom saber que entre ambos havia segredos tecendo uma vida fina e leve sobre a outra vida, a real. Ninguém adivinharia jamais que Otávio a beijara nas pálpebras uma vez, que ele sentira nos lábios os seus cílios e que sorrira por isso. E milagrosamente ela compreendera tudo sem que falassem. Ninguém saberia que um dia tinham se querido tanto que haviam permanecido mudos, sérios, parados. Dentro de cada um deles acumulavam-se conhecimentos nunca devassados por estranhos. Ele fora embora um dia. Mas não importava tanto. Ela sabia que entre os dois havia "segredos", que ambos eram irremediavelmente cúmplices. Se fosse embora, se amasse outra mulher, iria embora e amaria outra mulher para participar-lhe depois, mesmo que nada lhe contasse. Lídia tomaria parte na sua vida de qualquer modo. Certas coisas não acontecem sem consequência, pensava olhando-o. Que se fuja — e nunca se estará livre... Uma vez ia caindo, ele amparou-a, endireitou seu cabelo num gesto distraído. Ela agradeceu-lhe com uma ligeira pressão no braço. Olharam-se com um sorriso e de repente sentiram-se ofuscantemente felizes... Puseram-se a andar mais depressa, os olhos abertos deslumbrados.

Talvez ele não se lembrasse disso particularmente. Ela é quem tinha memória para aquelas coisas. Verdade é que a qualidade desses acontecimentos era tal, que não se podia rememorá-los falando. Nem mesmo pensando com palavras. Só parando um instante e sentindo de novo. Que ele esquecesse. Na sua alma, porém, restaria certamente qualquer marca, clara, cor-de-rosa, anotando a sensação e aquela tarde. Quanto a ela — cada dia que chegava trazia-lhe nas suas águas mais lembranças de que se alimentar. E aos poucos uma certeza de felicidade, de fim alcançado, subia-lhe vagarosa pelo corpo, deixando-a satisfeita, quase saciada, quase angustiada. Quando revia Otávio olhava-o agora sem grande emoção, achando-o inferior ao que ele lhe dera. Desejava falar-lhe de sua alegria. Mas vagamente temia feri-lo, como se lhe contasse uma traição com outro homem. Ou como se quisesse escancarar-lhe sua felicidade — a ele que se dividia entre duas casas e duas mulheres —, mostrá-la superior à sua.

Sim, pensava longinquamente, fitando-o — há coisas indestrutíveis que acompanham o corpo até a morte como se tivessem nascido com ele. E uma delas é o que se criou entre um homem e uma mulher que viveram juntos certos momentos.

E quando seu filho nascesse — alisou o ventre que já se arredondava — eles três seriam uma pequena família. Pensou em palavras: uma pequena família. Era isso o que desejava. Como um bom fim para toda a sua história. Otávio e ela haviam sido criados juntos, pela prima comum. Vivera perto de Otávio. Ninguém passara por sua vida senão ele. Nele descobrira o homem, antes de saber sobre homens e mulheres. Sem raciocínios, confusamente, reunia a espécie em Otávio. Vivia-o tanto que nunca sentira os outros senão como mundos fechados, estranhos, superficiais. Sempre, em todas as suas fases, perto dele. Mesmo naquele período em que se tornara sonsa, escondendo tudo o que podia, até o que não havia necessidade de esconder. Mesmo no outro, em que a olhavam nas ruas, as colegas aceitavam-na admirando seus cabelos grossos e bonitos. Otávio seguindo-a com os olhos... aquela certeza, nunca mais apagada, de que era alguém... Foi quando compreendeu que não era pobre, que tinha o que dar a Otávio, que havia um modo de entregar-lhe sua vida, tudo o que ela fora... Esperara-o. Quando o alcançara, Joana viera e ele fugira. Continuou esperando. Ele voltara. Um filho nasceria. Sim, mas antes que nascesse ela reclamaria seus direitos. "Reclamar seus direitos" parecia-lhe uma frase que dormia desde sempre dentro dela, à espera. À espera de que ela tivesse força. Queria que a criança brotasse entre os pais. E no fundo disso tudo, desejava para si mesma "a pequena família".

Sorriu levemente, ouvindo Otávio discorrer sobre qualquer coisa de que ela nem sabia o começo. Desde que o feto começara a se formar dentro de si, perdera certos trejeitos, ganhara outros, ousava avançar em certos pensamentos. Parecia-lhe que até então vivera mentindo. Seus movimentos eram mais libertos do corpo, como se agora houvesse mais espaço no mundo para o seu ser. Havia de cuidar da criança e de Otávio, ora se havia... Recostou-se melhor na poltrona, o bordado escorregou para o tapete. Entrecerrou os olhos e o ventre assim crescia, farto, brilhante. Abandonou-se ao bem-estar, certa preguiça que a dominava agora frequentemente. Não tivera o menor enjoo, nem no princípio. E sabia que seu parto seria simples, simples como tudo. Pousou a mão sobre os flancos ainda não deformados. De algum modo desprezava bastante as outras mulheres.

Otávio surpreendeu sua expressão, assustado. Uma crueldade distraída... Perscrutou-a, sem conseguir decifrá-la, compreendendo apenas que estava excluído daquele semissorriso. Porque era um sorriso, um sorriso horrível, satisfeito, apesar dela conservar o rosto sério, os olhos abertos, olhando para diante. O temor assaltou-o, quase gritou: — Você nem estava ouvindo! Lídia afastou o corpo da cadeira com um sobressalto, novamente dele, novamente entregue: — Eu...

— Nem ao menos me compreendeu, repetiu fitando-a, a respiração opressa. A cena da última vez se repetiria? Não, havia um filho dentro dela. Por que terei eu um filho? Por que eu? Exatamente eu? É estranho... Perguntar-se-ia daí a um instante: o que estou fazendo afinal? Não, não...

— Mas eu faço mais do que te compreender, disse ela apressada, eu te amo...

Ele suspirou imperceptivelmente, ainda com um pouco do susto que lhe provocara a fuga da mulher. Verdade é que ela não voltava mais inteiramente, como antes da gravidez. E ele mesmo lhe dera o reinado, o tolo... Sim, mas quando ela se libertasse da criança, quando ela se libertasse da criança... Poucos minutos depois, já serenado, Otávio se deixava invadir pelo abandono e pela moleza que tão bem sustentavam suas relações com Lídia.