Perto do Coração Selvagem
A Víbora
QUE TRANSPONHO suavemente alguma coisa...
Otávio lia enquanto o relógio estalava os segundos e rompia o silêncio da noite com 11 badaladas.
Que transponho suavemente alguma coisa... Ê a impressão. A leveza vem vindo não sei de onde. Cortinas inclinam-se sobre as próprias cinturas languidamente. Mas também a marcha negra, parada, dois olhos fitando e nada podendo dizer. Deus pousa numa árvore pipilando e linhas retas se dirigem inacabadas, horizontais e frias. É a impressão... Os momentos vão pingando maduros e mal tomba um ergue-se outro, de leve, o rosto pálido e pequeno. De repente também os momentos acabam. O sem-tempo escorre pelas minhas paredes, tortuoso e cego. Aos poucos acumula-se num lago escuro e quieto e eu grito: vivi! A noite calava as coisas lá fora, algum sapo coaxava a intervalos. Cada arbusto era um vulto imóvel e recolhido.
Longe brilhavam e tremiam pequenas luzes avermelhadas, olhos insones. Na escuridão como da água.
Os girassóis altos e finos aclaravam o jardim em pausas.
O que pensar naquele instante? Ela estava tão pura e livre que poderia escolher e não sabia. Enxergava alguma coisa, mas não conseguiria dizê-la ou pensá-la sequer, tão diluída achava-se a imagem na escuridão de seu corpo. Sentia-a apenas e olhava expectante pela janela como se olhasse seu próprio rosto na noite. Seria esse o máximo que atingiria? Aproximar-se, aproximar-se, quase tocar, mas sentir atrás de si a onda sugando-a em refluxo firme e suave, sorvendo-a, deixando-lhe após a assombrada e impalpável lembrança de uma alucinação... Mesmo naquele momento, percebendo a noite e seus próprios pensamentos indistintos, ela ainda restava separada deles, sempre um pequeno bloco fechado, assistindo, assistindo. A luzinha brilhando silenciosamente, afastada, solitária, inconquistada. Jamais se entregava.
Olhou ao redor de si mesma, a sala arfando de leve, fracamente iluminada como numa vertigem. Alçou ligeiramente a cabeça, perscrutou o espaço e tinha consciência do resto da casa que se perdia na escuridão, os objetos sérios e vagos flutuando pelos cantos. Teria que andar às apalpadelas mal atravessasse a porta. E sobretudo se fosse uma criança, na casa da tia, acordando de noite, a boca seca, indo à procura de água. Sabendo as pessoas isoladas cada uma dentro do sono intransponível e secreto. Sobretudo se fosse aquela criança e como naquela noite ou naquelas noites, ao atravessar a copa surpreendesse o luar parado no quintal como num cemitério, aquele vento livre e indeciso... Sobretudo se fosse a criança amedrontada esbarraria no escuro em objetos imprecisos e a cada toque eles se condensariam subitamente em cadeiras e mesas, em barreiras, de olhos abertos, frios, inapeláveis. Mas também aprisionados então. Depois da pancada a dor, o luar desnudando o terraço de cimento, a sede subindo pelo corpo como uma lembrança. A quietude profunda na casa, os telhados vizinhos imóveis e lívidos...
De novo Joana procurou voltar à sala, à presença de Otávio. Estava solta das coisas, de suas próprias coisas, por ela mesma criadas e vivas. Largassem-na no deserto, na solidão das geleiras, em qualquer ponto da Terra e conservaria as mesmas mãos brancas e caídas, o mesmo desligamento quase sereno. Tomar uma trouxa de roupa, ir embora devagar. Não fugir, mas ir. Isso, tão doce: não fugir, mas ir... Ou gritar alto, alto e reto e infinito, com os olhos fechados, calmos. Andar até encontrar as luzinhas vermelhas. Tão trêmulas como num começo ou num fim. Também ela estava a morrer ou a nascer? Não, não ir: ficar presa ao instante como um olhar absorto se prende ao vácuo, quieta, fixa no ar...
A trepidação de um bonde longínquo atravessou-a como num túnel. Um trem noturno num túnel. Adeus. Não, quem viaja à noite apenas olha pela janela e não dá adeus. Ninguém sabe onde estão os casebres, os corpos sujos são escuros e não precisam de luz.
— Otávio — disse porque estava perdida.
A voz de Joana riscou o quarto inexpressiva, leve, direta. Ele ergueu os olhos: — O que é? — indagou. E sua voz era cheia de sangue e de carne, reuniu a sala na sala, designou e definiu as coisas. Um sopro reavivando as labaredas. Na praça vazia entrara a multidão.
Debateu-se um momento, tremeu, acordou. Tudo rebrilhava sob a lâmpada, tranquilo e alegre como num lar. Dentro da penumbra de seu corpo a inutilidade da espera atravessou-a sonâmbula como um pássaro pela noite.
— Otávio — repetiu.
Ele aguardava. Então de novo consciente da sala, do homem e de si mesma, suas próprias chamas cresceram um pouco, ela soube que deveria prosseguir logicamente, que o homem esperava uma continuação. Procurou um aviso, um pedido, a palavra certa: — Tenho a impressão de que você só veio para me dar um filho, disse e só agora tivera oportunidade de cumprir a promessa feita a Lídia. Mesmo continuar a querer o filho seria ligar-se ao futuro.
Otávio fitou-a um instante assustado, sem ternura.
— Mas — murmurou ele depois de um tempo e sua voz era hesitante, tímida e rouca —, mas você não acha que tudo está quase terminado entre nós? E quase desde o princípio... — aventurou.
— Só terminará quando eu tiver um filho — repetiu ela vaga, obstinada.
Otávio abriu os olhos em sua direção, o rosto pálido e subitamente cansado sob a lâmpada da mesa, onde o livro jazia aberto.
— Talvez um pouco forçada a ideia, não? — perguntou com ironia.
Ela não a notou: — O que houve entre nós por si só não basta. Se eu ainda não lhe dei tudo, talvez você me procure um dia ou eu sinta sua falta. Enquanto que depois de um filho nada nos restará senão a separação.
— E o filho? — indagou ele. — Qual será o papel do pobre em todo este sábio arranjo?
— Oh, ele viverá — respondeu.
— Só isso? — tentou ele o sarcasmo.
— Que é que se pode fazer além disso? — lançou ela no ar a pergunta, de leve, sem aguardar resposta.
Otávio, julgando-a à espera, apesar da timidez e da raiva em obedecer-lhe, concluiu hesitante: — Ser feliz, por exemplo.
Joana ergueu os olhos e espiou-o de longe com surpresa e certa alegria — por quê? — indagou-se Otávio assustado. Enrubesceu como se tivesse dito uma graça ridícula. Ela viu-o raivoso e encolhido no fundo da cadeira, ofendido e pisado como se lhe tivessem cuspido no rosto. Imóvel, inclinou-se no entanto para ele, cheia de piedade e mais que piedade — apertou os lábios, confusa — um amor cheio de lágrimas. Fechou os olhos um instante, procurando não vê-lo, não querê-lo mais. No fundo ainda poderia unir-se a Otávio, mal sabia ele quanto. Bastava talvez falar-lhe sobre seus próprios medos, por exemplo, resumindo em palavras aquela sensação de vergonha e timidez quando chamava o garçom bem alto, todos ouviam e só ele não escutava. Ela riu. Otávio gostaria de saber disso. Também ligar-se-ia a ele resumindo-lhe sua vontade de fugir quando se via entre homens e mulheres risonhos e ela própria não sabia como colocar-se entre eles e provar seu corpo. Ou talvez estivesse errada e a confissão não os aproximasse. Do mesmo modo por que em pequena imaginava que, se pudesse contar a alguém o "mistério do dicionário", ligar-se-ia para sempre a esse alguém... Assim: depois do i era inútil procurar o i... Até o l, as letras eram camaradas, esparsas como feijão espalhado sobre a mesa da cozinha. Mas depois do l, elas se precipitavam sérias, compactas e nunca se poderia achar por exemplo uma letra fácil como a entre elas. Sorriu, descerrou os olhos aos poucos e agora tranquila, enfraquecida, já podia enxergá-lo friamente.
— Você bem sabe que não se trata disso. Oh, Otávio, Otávio... — murmurou depois de um instante, as chamas subitamente reavivadas — que nos acontece afinal, o que nos acontece?
A voz de Otávio era áspera e rápida quando ele respondeu: — Você sempre me deixou só.
— Não... — assustou-se ela. — É que tudo o que eu tenho não se pode dar. Nem tomar. Eu mesma posso morrer de sede diante de mim. A solidão está misturada à minha essência...
— Não — repetiu ele, obstinado, os olhos turvos. — Você sempre me deixou só porque quis, porque quis.
— Não tenho culpa — gritou Joana —, acredite... Está gravado em mim que a solidão vem de que cada corpo tem irremediavelmente seu próprio fim, está gravado em mim que o amor cessa na morte... Minha presença sempre foi essa marca...
— Quando eu me aproximei — disse ele sardônico —, pensava que você ia me ensinar alguma coisa mais do que isso. Eu precisava — prosseguiu mais baixo — daquilo que adivinhava em você e que você sempre negou.
— Não, não... — falou ela fragilmente. — Acredite, Otávio, meus conhecimentos mais verdadeiros atravessaram minha pele, me vieram quase traiçoeiramente... Tudo o que sei nunca aprendia e nunca poderia ensinar.
Silenciaram um instante. Num rápido momento Joana viu-se sentada junto ao pai, um laço no cabelo, numa sala de espera. O pai despenteado, um pouco sujo, suado, o ar alegre. Ela sentia o laço acima de todas as coisas. Estivera brincando com os pés na terra e calçara apressada os sapatos sem lavá-los e agora eles rangiam ásperos dentro do couro. Como podia o pai estar despreocupado, como não notava que os dois eram os mais miseráveis, que ninguém os olhava sequer? Mas ela queria provar a todos que continuaria assim, que o pai era dela, que o protegeria, que jamais lavaria os pés. Viu-se sentada junto do pai e não sabia o que sucedera um instante antes da cena e um instante depois. Só uma sombra e ela recolheu-se a ela ouvindo a música da confusão murmurar em suas profundezas, impalpável, cega.
— No entanto — prosseguia Otávio — você mesma disse: há certo instante na alegria de poder que ultrapassa o próprio medo da morte. Duas pessoas que vivem juntas — continuou mais baixo — procuram talvez atingir esse instante. Você não quis.
Ela não respondeu. Quando ela não lhe respondia, ele se assustava, voltava ao tempo de criança, as pessoas zangadas e ele obrigado a prometer, a agradar, cheio de remorsos. Lembrou-se de uma antiga culpa em relação a Joana e procurou livrar-se dela imediatamente, que ela nunca mais lhe pesasse. E mesmo sabendo que ia falar fora de propósito, não pôde conter-se: —Você tem razão, Joana: tudo o que nos vem é matéria bruta, mas nada existe que escape à transfiguração — começou e imediatamente seu rosto cobriu-se de vergonha diante das sobrancelhas erguidas de Joana. Forçou-se a continuar. — Não lembra que um dia você me disse: "a dor de hoje será amanhã tua alegria; nada existe que escape à transfiguração". Não lembra? Talvez não tenha sido exatamente assim...
— Lembro.
— Bem... Naquele instante não julguei simples suas palavras. Tive até raiva, suponho...
— Sei — disse Joana. — Você me disse que se tivesse dor de fígado eu viria depor aos seus pés a mesma magnificência inútil.
— Sim, sim, foi isso mesmo — disse Otávio depressa assustado. Você nem se intimidou, parece-me Mas... olhe, acho que não lhe contei: depois compreendi que não havia riqueza supérflua no que você dissera... Acho que jamais confessei isso a você, ou já? Olhe, até suponho que nessa frase esteja a verdade. Nada existe que escape à transfiguração... — Corou. — Talvez o segredo esteja aí, talvez seja isso o que eu adivinhei em você... Há certas presenças que permitem a transfiguração.
Como ela continuasse calada, ele empurrou-se mais uma vez.
— Você promete demais... Todas as possibilidades que você oferece às pessoas, dentro delas próprias, com um olhar... não sei.
E do mesmo modo como ela não se mostrara altiva ou diminuída quando ele ironizara da primeira vez sobre a magnificência inútil, agora ela não se rejubilava com a humildade de Otávio. Ele olhou-a. De novo não soubera ligar-se àquela mulher. De novo ela o vencia.
Havia silêncio na sala e a luz e o vazio repousavam sobre as teclas brancas do piano aberto. Alguma coisa era morta, lenta e verdadeira. Seria vão reatar a alegria de viver àquele instante.
— O que vem agora? — murmurou Otávio e dessa vez ele sucumbira ao fundo das coisas, fora arrastado à verdade de Joana.
— Não sei — disse.
Otávio perscrutou-a. Em que refletia ela, tão distante? Parecia pairar no centro de alguma coisa móvel, o corpo flutuante, sem apoio, quase inexistente. Como quando ela se punha a contar fatos passados e quando ele adivinhava que ela mentia. A cabeça de Joana vagava então leve, ela inclinava suavemente a testa, erguia-a, balbuciava, havia um núcleo sólido e astucioso a princípio mas depois tudo era fluido e inocente. A inspiração guiava seus movimentos. E Otávio olhava-a esquecido de si próprio. A angústia terminava apertando seu coração, porque se ele quisesse tocá-la não poderia, havia um círculo intransponível e impalpável ao redor daquela criatura, isolando-a. A amargura tomava-o então porque ele não a sentia como mulher e sua qualidade de homem tornava-se inútil e ele não podia ser outra coisa senão um homem. No jardim da prima Isabel cresciam outrora rosas brancas. Ele olhava-as muitas vezes perplexo, sem saber de que modo tê-las, porque diante delas seu único poder, o de criatura, era vão. Encostava-as ao rosto, aos lábios, aspirava-as. Elas continuavam a tremer delicadamente viçosas. Se ao menos elas tivessem grossas pétalas — costumava pensar —, se ao menos fossem duras... se ao menos ao tombarem se espatifassem no solo com um ruído seco... Sentindo penetrá-lo a graça crescente das flores, como a de Joana, como a de Joana quando mentia, ele era presa de um furor impotente: amassava-as, mastigava-as, destruía-as.
Olhando-a agora, sem saber definir aquele rosto, quis reconstituir a antiga sensação, voltar ao jardim da prima Isabel.
Mas em lugar de qualquer outro pensamento, subitamente compreendeu que Joana iria embora. Sim, ele continuaria, havia Lídia, o filho, ele mesmo. Ela iria embora, ele sabia... Mas que importava, ele não precisava de Joana. Não, "não precisava", mas "não podia". E de repente não entendeu mesmo como vivera ao seu lado tanto tempo e parecia-lhe que depois de sua partida ele simplesmente teria que unir o presente àquele passado longínquo, da casa da prima Isabel, de Lídia-noiva, dos projetos de um livro sério, de suas próprias torturas mornas, doces e repugnantes como um vício, àquele passado apenas interrompido por Joana. Seria bom livrar-se dela, fazer o plano do livro de direito civil. Já se via caminhando entre suas coisas com intimidade.
Mas viu também, com estranha e súbita clareza, a si mesmo numa tarde talvez, sentindo no peito uma dor fina, franzindo os olhos, sabendo as mãos vazias sem olhá-las. A indefinível sensação de perda quando Joana o deixasse... Ela surgiria nele, não na sua cabeça como uma lembrança comum, mas no centro de seu corpo, vaga e lúcida, interrompendo sua vida como o badalar súbito de um sino. Ele sofreria como se estivesse mentindo coisas loucas, mas como se não pudesse expulsar a alucinação e a aspirasse cada vez mais como a um ar que no interior do corpo pudesse benditamente se transformar em água. Sentiria o espaço aberto e límpido no seu coração, onde nenhuma das sementes de Joana pudera cobrir de floresta, porque ela era impossuída como o pensamento futuro. No entanto ela era dele, sim, profundamente, difusamente como uma música ouvida. Minha, minha, não partas! — implorou do fundo do seu ser.
Mas ele não pronunciaria tais palavras porque desejava que ela partisse, não saberia o que fazer de Joana se ela ficasse. Voltaria para Lídia, grávida e larga. Aos poucos soube que escolhera a renúncia do que era mais precioso em seu ser, daquela pequena porção sofredora que ao lado de Joana conseguia viver. E depois de um momento de dor, como se abandonasse a si próprio, os olhos fulgurando de cansaço, ele sentiu a impotência de desejar mais alguma coisa para o futuro. Perplexo, assistia afinal a sua purificação violenta e estranha, como se entrasse lentamente num mundo inorgânico.
— Quer mesmo um filho? — perguntou ele porque, medroso da solidão em que avançara, quis subitamente ligar-se à vida, apoiar-se em Joana até poder apoiar-se em Lídia, como quem ao atravessar um abismo agarra-se às pedras pequenas até galgar a maior.
— Nós não saberíamos como fazê-lo viver..., veio a voz de Joana.
— Sim, tem razão... — disse ele assustado. E queria violentamente a presença de Lídia. Voltar, voltar para sempre. Compreendeu que esta seria a sua última noite com Joana, a última, a última...
— Não... talvez eu tenha razão, prosseguia Joana. Talvez não se pense em nada disto antes de ter um filho. Acende-se uma lâmpada bem forte, tudo fica claro e seguro, toma-se chá todas as tardes, borda-se, sobretudo uma lâmpada mais clara do que esta. E o filho vive. Isso é bem verdade... tanto que você não temeu pela vida do filho de Lídia...
Nenhum músculo do rosto de Otávio se moveu, seus olhos não pestanejaram. Mas todo ele se condensou e sua palidez brilhou como uma vela acesa. Joana continuava a falar vagarosamente, mas ele não a ouviu porque aos poucos, quase sem pensamentos, a cólera veio-lhe subindo do coração pesado, ensurdeceu-lhe os ouvidos, enublou-lhe os olhos. O que..., debatia-se nele a raiva trôpega e arquejante, então ela sabia sobre Lídia, sobre o filho... sabia e silenciava... Ela me enganava... — A carga asfixiante cada vez pesava mais fundo dentro dele. — Admitia minha infâmia serenamente... continuava a dormir junto de mim, a me suportar... desde quando? Por quê? mas, santo Deus, por quê?!...
— Infame.
Joana sobressaltou-se, levantou a cabeça rapidamente.
— Vil.
Sua voz mal se continha na garganta intumescida, as veias do pescoço e da testa latejavam grossas, nodosas, em triunfo.
— Foi tua tia quem te chamou de víbora. Víbora, sim. Víbora! Víbora! Víbora!
Agora ele gritava histérico sem se dominar. Víbora. Cada grito, mal se libertava da fonte convulsa, vibrava quase alegre no ar. Ela o observava a bater os punhos sobre a mesa enlouquecido, chorando de ira. Quanto tempo? Porque Joana tinha consciência, como de uma música longínqua, de que tudo continuava a existir e os gritos não eram setas isoladas, mas fundiam-se no que existia. Até que subitamente exausto e vazio ele sentou-se numa cadeira, devagar. O rosto flácido, os olhos mortos, pôs-se a fitar um ponto no chão.
Os dois mergulharam em silêncio solitário e calmo. Passaram-se anos talvez. Tudo era límpido como uma estrela eterna e eles pairavam tão quietos que podiam sentir o tempo futuro rolando lúcido dentro de seus corpos com a espessura do longo passado que instante por instante acabavam de viver.
Até que a primeira claridade da madrugada começou a dissolver a noite. No jardim a escuridão esgarçava-se num véu e os girassóis tremiam à brisa nascente. Porém as luzinhas ainda vacilavam no fundo da distância como do mar.