Perto do Coração Selvagem
O Abrigo no Homem
JOANA. Joana, pensava o homem aguardando sua vinda. Joana, nome nu, santa Joana, tão virgem. Como era inocente e pura. Via-lhe os traços infantis, as mãos eloquentes como as de um cego. Ela não era bonita, pelo menos desde homem nunca sonhara com aquela criatura, nunca a esperara. Talvez por isso a tivesse seguido tantas vezes na rua, mesmo sem aguardar seu olhar, talvez... Não sabia, gostara sempre de vê-la. Não era bonita. Ou era? Como saber? Tão difícil descobrir como se nunca a tivesse visto, como se não a tivesse abraçado tantas vezes. Uma ameaça de transformação no rosto, nos movimentos, instante por instante. Mesmo no repouso ela era alguma coisa que ia se erguer. E o que entendia ele agora e sentia tão milagrosamente, como se ela lhe tivesse explicado? — perguntava-se. Fechou os olhos, os braços ao longo da cama. Mas apenas até o momento em que soassem os passos de Joana lá fora. Porque ele nunca ousara abandonar-se em sua presença. Inclinava-se sobre ela, esperava-a cada segundo, absorvendo-a. Não se cansava, porém, e aquela atitude não lhe tirava a naturalidade. Apenas lançava-o numa outra até então desconhecida. Ele era dois, agora, mas aos poucos seu novo ser nascente crescia e dominava o passado do outro. Apertou os lábios. Parecia-lhe que misteriosamente havia lógica em ter experimentado certas torturas, as serenas baixezas, a falta despreocupada de caminho, para agora receber Joana enfim. Não que o tivessem alguma vez impelido para a lama e contra seu desejo, não que se julgasse um mártir. Jamais aguardara solução. Mesmo quanto às mulheres, que ele espiava, espiava e largava. Mesmo aquela mulher na casa de quem ele agora se instalara preguiçosamente, apesar de mal suportar sua presença, uma sombra cansativa e terna. Ele caminhara sobre seus próprios pés, o corpo consciente, experimentando e sofrendo sem ternura para consigo mesmo, tudo concedendo friamente, ingenuamente à sua curiosidade. Considerava-se até feliz. E agora viera-lhe Joana, ela, Joana que... Quis acrescentar ao pensamento confuso mais uma palavra, a verdadeira, a difícil, porém assaltou-o de novo a ideia de que não precisava mais pensar, não precisava de nada, de nada... ela viria daqui a pouco. Daqui a pouco. Mas escute: daqui a pouco... Era assim: Joana o libertara. Cada vez mais ele necessitava de menos para viver: pensava menos, comia menos, dormia quase nada. Ela era sempre. E viria daqui a pouco.
Fechou os olhos mais intensamente, mordeu os lábios, sofrendo sem saber por quê. Abriu-os em seguida e no quarto — o quarto vazio! — subitamente não descobriu a marca da passagem de Joana. Como se fosse mentira a sua existência... Ergueu-se. Vem, gritou qualquer coisa nele ardente e mortal. Vem, repetiu baixinho, cheio de temor, o olhar perdido. Vem...
Passos quase silenciosos pisavam lá fora as folhas secas. De novo Joana vinha... de novo ela o ouvia de longe.
Ele quedou-se de pé junto da cama, os olhos ausentes, um cego ouvindo música distante. Aproximava-se, aproximava-se... Joana. Seus passos eram cada vez mais uma realidade, a única realidade. Joana. Com a subitaneidade de uma punhalada, a dor estalou dentro de seu corpo, iluminou-o de alegria e perplexidade.
Quando a porta se abriu para Joana ele deixou de existir. Escorregara muito fundo dentro de si, pairava na penumbra de sua própria floresta insuspeita. Movia-se agora de leve e seus gestos eram fáceis e novos. As pupilas escurecidas e alargadas, de súbito um animal fino, assustado como uma corça. No entanto a atmosfera tornara-se tão lúcida que ele perceberia qualquer movimento de coisa viva ao seu redor. E seu corpo era apenas memória fresca, onde se moldariam como pela primeira vez as sensações.
O pequeno navio branco flutuava sobre grossas ondas, verdes, brilhantes e mal feitas — via ela deitada, espiando o pequeno quadro da parede.
— No dia 3, continuou Joana e fazia a voz clara, leve, com pequenos intervalos redondos, no dia 3 houve uma grande parada em benefício dos que nasciam. Era muito engraçado ver as pessoas cantando e empunhando bandeiras cheias de todas as não-cores. Então ergueu-se um homem tênue e rápido como a brisa que sopra quando a gente está triste e disse de longe: eu. Ninguém ouviu, mas ele estava quase satisfeito. Foi quando se ergueu a grande ventania que sopra do noroeste e caminhou sobre todos com os grandes pés fogosos. Todos voltaram para suas casas, murchos, crestados de calor. Tiraram os sapatos, desafogaram os colarinhos. Todos os sangues corriam lentamente, pesadamente em todas as veias. E um grande não-ter-o-quefazer arrastava-se nas almas. Nesse ínterim a terra continuava a rodar, Foi quando nasceu um menino chamado um nome. Ele era lindo, o menino. Grandes olhos que viam, lábios finos que sentiam, rosto magro que sentia, testa alta que sentia. A cabeça grande. Ele caminhava como quem sabe exatamente o lugar, esgueirando-se sem esforço entre a multidão. Quem fosse atrás dele chegaria. Quando ele se emocionava, quando se surpreendia, balançava a cabeça, assim, devagar, em não, como quem recebe mais do que esperou. Ele era lindo. E sobretudo estava vivo. E sobretudo eu o amava. Eu nascia, e meu coração era novo quando eu o via. Eu nascia, eu nascia, eu nascia. Agora um verso. O que eu quero, meu bem, é te ver sempre, meu bem. Como te vi hoje, meu bem. Mesmo que morreres, meu bem. Outro: Ouvi um dia uma flor cantando e tranquilamente me alegrei; depois me aproximei e, milagre, não era a flor que cantava mas um passarinho sobre a flor.
Joana falava sonolentamente no fim. Pelos olhos semicerrados o navio flutuava torto no quadro, as coisas do quarto espichavam-se, luminosas, o fim de uma dando a mão ao começo de outra. Pois se ela já sabia "que tudo era um", por que continuar a ver e a viver? O homem, de olhos fechados, mergulhara no seu ombro e ouvia sonhando sem dormir. A intervalos ela escutava dentro do silêncio vivo da tarde de verão movimentos abafados e vagarosos no assoalho frouxo de madeira. Era a mulher, a mulher, aquela mulher.
Nas primeiras vezes em que Joana viera à casa grande, desejara perguntar ao homem assim: ela é agora como sua mãe? não é mais sua amante? mesmo eu existindo ela ainda quer você em casa? Mas adiara sempre. No entanto, tão forte era a presença da outra na casa, que os três formavam um par. E jamais Joana e o homem se sentiam inteiramente sós. Joana também já quisera perguntar à própria mulher: mas onde, mas onde se desenrola a alma atrás de vocês? Isso porém fora um pensamento antigo. Porque um dia a enxergara de relance, as costas gordas concentradas num bloco indissolúvel de angústia sob o vestido de renda preta. Percebera-a também em outros momentos, rápidos, passando de um quarto à sala, sorrindo depressa, escapando horrível. Então Joana descobrira que ela era alguém vivo e negro. Orelhas grossas, tristes e pesadas, com um fundo escuro de caverna. O olhar terno, fugitivo e risonho de prostituta sem glória. Os lábios úmidos, emurchecidos, grandes, tão pintados. Como ela devia amar o homem. Os cabelos fofos eram ralos e avermelhados pelas pinturas sucessivas. E o quarto onde o homem dormia e recebia Joana, aquele quarto com as cortinas, quase sem poeira, ela o arranjara certamente. Como quem cose a mortalha do filho. Joana, aquela mulher e a esposa do professor. O que as ligava afinal? As três graças diabólicas.
— Amêndoas... — disse Joana, voltando-se para o homem. O mistério e a doçura das palavras: amêndoa... ouça, pronunciada com cuidado, a voz na garganta, ressoando nas profundezas da boca. Vibra, deixa-me longa e estirada e curva como um arco. Amêndoa amarga, venenosa e pura.
As três graças amargas, venenosas e puras.
— Conte aquilo... — disse-lhe o homem.
— O quê? — Do marinheiro. Se amares um marinheiro terás amado o mundo inteiro.
— Horrível... — riu Joana. Eu sei: eu mesma disse que deveria ser tão verdade que já nascia com rima. Pois já nem me lembro mais.
— Que fazia domingo na praça. O cais do porto... — ajudou o homem.
Um dia, rompendo a quietude em que ficava junto de Joana ele tentara falar: — Eu sempre não fui nada.
— Sim, respondeu ela.
— Mas tudo o que houve não faria você ir embora...
— Não.
— Mesmo essa mulher... essa casa... É diferente, você sabe?
— Sei.
— Sempre fui como um mendigo, eu sei. Mas nunca pedia nada, nem precisava, nem sabia. Você veio, sabe? Eu pensava antes: nada era ruim. Mas agora... Por que você me diz sempre coisas tão loucas, juro, não posso...
Ela então se levantara sobre o cotovelo, subitamente séria, o rosto debruçado sobre ele: — Você acredita em mim?
— Sim... — respondeu ele assustado com sua violência.
— Você sabe que eu não minto, que nunca minto, mesmo quando... mesmo sempre? Sente? Diga, diga. O resto então não importaria, nada importaria... Quando digo essas coisas... essas coisas loucas, quando não quero saber de seu passado, e não quero contar sobre mim, quando eu invento palavras... Quando eu minto você sente que eu não minto?
— Sim, sim...
Ela deixara-se cair de novo sobre a cama, os olhos fechados, cansada. Não importa, não importa se depois ele não acreditar, se correr de mim como o professor. Por enquanto junto dele podia pensar. E por enquanto também é tempo. Abriu os olhos, sorriu para ele. Um menino, é isso que ele é. Deve ter tido muitas mulheres, muito amado, atraente, com os grandes cílios, os olhos frios. Até agora foi mais consistente, eu o dissolvi um pouco. Aquela mulher espera que eu vá embora um dia finalmente. Que ele volte.
— Que fazia domingo na praça? A praça é larga e solitária, disse afinal lentamente procurando recordar e atender ao pedido do homem. Sim... Tanto sol, preso ao chão como se nascesse dele. O mar, a barriga do mar, calada, arquejante. Os peixes em domingo, volteando rapidamente as caudas e serenos continuando a abrir caminho. Um navio parado. Domingo. Os marinheiros passeando pelo cais, pela praça. Um vestido cor-de-rosa aparecendo e desaparecendo numa esquina. As árvores cristalizadas em domingo — domingo é qualquer coisa como árvores de Natal —, brilhando silenciosas, contendo, assim, assim, a respiração. Um homem passando com uma mulher de vestido novo. O homem quer não ser nada, anda ao lado dela olhando-a quase de frente, indagando, indagando: diga, mande, pise. Ela não respondendo, sorrindo, puro domingo. Satisfação, satisfação. Pura tristeza sem mágoa. Tristeza que parece vir de trás da mulher de cor-de-rosa. Tristeza de domingo no cais do porto, os marinheiros emprestados à terra. Essa tristeza leve é a constatação de viver. Como não se sabe de que modo usar esse conhecimento súbito, vem a tristeza.
— Dessa vez a história foi diferente — queixou-se ele depois de uma pausa.
— É que estou apenas contando o que vi e não o que vejo. Não sei repetir, só sei uma vez as coisas — explicou-lhe ela.
— Foi diferente, mas tudo o que você vê é perfeito.
Ele usava ao redor do pescoço uma correntezinha como uma pequena medalha de ouro. De um lado Santa Teresinha, de outro S. Cristóvão. Ele era devoto dos dois: — Mas não ligo muito a coisas de santos. Só às vezes. Ela contara-lhe certa vez que em pequena podia brincar uma tarde inteira com uma palavra. Ele pedia-lhe então para inventar novas. Nunca ela o queria tanto como nesses momentos.
— Diga de novo o que é Lalande — implorou a Joana.
— É como lágrimas de anjo. Sabe o que é lágrimas de anjo? Uma espécie de narcisinho, qualquer brisa inclina ele de um lado para outro. Lalande é também mar de madrugada, quando nenhum olhar ainda viu a praia, quando o sol não nasceu. Toda a vez que eu disser: Lalande, você deve sentir a viração fresca e salgada do mar, deve andar ao longo da praia ainda escurecida, devagar, nu. Em breve você sentirá Lalande... Pode crer em mim, eu sou uma das pessoas que mais conhecem o mar.
Ele não sabia em instantes se vivia ou se estava morto, se tudo o que tinha era pouco ou demais. Quando ela falava, inventava doida, doida! A plenitude enchia-o tão grande como um vazio e sua angústia era a da limpidez do largo espaço acima das águas. Por que ficava estarrecido diante dela, estupefato como uma parede branca ao luar? Ou talvez fosse acordar de repente, gritar: quem é esta? ela é demais na minha vida! não posso... quero voltar... Mas ele não o poderia mais — sentia subitamente e assustava-se perdido.
— Querido — disse ela interrompendo os pensamentos do homem.
— Sim, sim... — Ele escondeu o rosto naquele ombro macio e ela ficou sentindo sua respiração percorrê-la de ida e de volta, de ida e de volta. Eles dois eram duas criaturas. Que mais importa? — pensava ela. Ele moveu-se, ajeitou a cabeça na sua carne como... como uma ameba, um protozoário procurando cegamente o núcleo, o centro vivo. Ou como uma criança. Lá fora o mundo se escoava, e o dia, o dia, depois a noite, depois o dia. Alguma vez haveria de partir, de separar-se de novo. Ele também. Dela? Sim, em breve ela se tornaria pesada a ele com seu excesso de milagre. Como as outras pessoas, inexplicavelmente envergonhado de si próprio ansiaria por ir embora. Mas uma vingança: ele não se libertaria inteiramente. Terminaria maravilhado consigo mesmo, comprometendo-se, cheio de uma responsabilidade indefinida e angustiosa. Joana sorriu. Ele terminaria por odiá-la, como se ela exigisse dele alguma coisa. Como sua tia, seu tio que a respeitavam contudo, pressentindo que ela não amava os seus prazeres. Confusamente supunham-na superior e desprezavam-na. Oh Deus, de novo estava recordando, contando a si mesma sua história, justificando-se... Poderia pedir dados ao homem: eu sou assim? Mas o que sabia ele? Afundava o rosto no seu ombro, escondia-se, possivelmente feliz naquele instante. Sacudi-lo, contar-lhe; homem assim era Joana, homem. E assim fez-se mulher e envelheceu. Acreditava-se muito poderosa e sentia-se infeliz. Tão poderosa que imaginava ter escolhido os caminhos antes de neles penetrar — e apenas com o pensamento. Tão infeliz que, julgando-se poderosa, não sabia o que fazer de seu poder e via cada minuto perdido porque não o orientara para um fim. Assim cresceu Joana, homem, fina como um pinheiro, muito corajosa também. Sua coragem desenvolvera-se dentro do quarto e à luz fechada mundos luminosos se formavam sem medo e sem pudor. Ela aprendeu desde cedo a pensar e como não vira de perto nenhum ser humano senão a si mesma, deslumbrou-se, sofreu, viveu um orgulho doloroso, às vezes leve mas quase sempre difícil de se carregar.
Como terminar a história de Joana? Se pudesse colher e acrescentar o olhar que surpreendera em Lídia: ninguém te amará... Sim, terminar assim: apesar de ser das criaturas soltas e sozinhas no mundo, ninguém jamais pensou em dar alguma coisa a Joana. Não amor, entregavam-lhe sempre outro sentimento qualquer. Viveu sua vida, ávida como uma virgem — isso para o túmulo. Fez-se muitas perguntas, mas nunca pôde se responder: parava para sentir. Como nasceu um triângulo? antes em ideia? ou esta veio depois de executada a forma? um triângulo nasceria fatalmente? as coisas eram ricas. — Desejaria deter seu tempo na pergunta. Mas o amor a invadia. Triângulo, círculo, linhas retas... harmônico e misterioso como um arpejo. Onde se guarda a música enquanto não soa? — indagava-se. E rendida respondia: que façam harpa de meus nervos quando eu morrer.
O fim da lucidez de Joana misturou-se ao navio torto sobre as ondas, movendo-se. Bastava menear a cabeça para que as ondas a acompanhassem. Mas ela tivera coisa, ah isso tivera. Um marido, seios, um amante, uma casa, livros, cabelos cortados, uma tia, um professor. Titia, ouça-me, eu conheci Joana, de quem lhe falo agora. Era uma mulher fraca em relação às coisas. Tudo lhe parecia às vezes preciso demais, impossível de ser tocado. E, às vezes, o que usavam como ar de respirar, era peso e morte para ela. Veja se compreende a minha heroína, titia, escute. Ela é vaga e audaciosa. Ela não ama, ela não é amada. Você terminaria notando-o como Lídia, outra mulher —uma jovem mulher cheia do próprio destino —, observou-o. No entanto o que há dentro de Joana é alguma coisa mais forte que o amor que se dá e o que há dentro dela exige mais do que o amor que se recebe. Compreende, titia? Eu não a chamaria de herói como eu mesma prometera a papai. Pois nela havia um medo enorme. Um medo anterior a qualquer julgamento e compreensão. — Me ocorreu agora isso: quem sabe, talvez a crença na sobrevivência futura venha de se notar que a vida sempre nos deixa intocados. — Compreende, titia? — esqueça a interrupção da vida futura — compreende? Vejo teus olhos abertos, me olhando com medo, com desconfiança, mas querendo mesmo assim, com tua feminilidade de velha, agora morta, é verdade, agora morta, gostar de mim, passando por cima de minha aspereza. Pobre!, a maior revolta que senti em ti, além das que eu provocava, pode ser resumida naquela frase quase diária que ainda ouço, misturada ao teu cheiro que não posso esquecer: "oh, não poder sair à rua na roupa em que se está!" Que mais te contar? Tenho os cabelos cortados, castanho, às vezes uso franja. Vou morrer um dia. Nasci também. Havia o quarto com os dois. Ele era bonito. O quarto rodava um pouco. Tornava-se transparente e morno um véu um véu se aproximando vindo. Eles três formavam um casal e a quem contar isso? Poderia adormecer porque o homem nunca dormia e vigiaria como a chuva caindo. Otávio também era bonito, olhos. Esse era uma criança uma ameba flores brancura mornidão como o sono por enquanto é tempo por enquanto é vida mesmo que mais tarde... Tudo como a terra uma criança Lídia uma criança Otávio terra de profundis...