Perto do Coração Selvagem
Segunda Parte
O CASAMENTO
JOANA lembrou-se de repente, sem aviso prévio, dela mesma em pé no topo da escadaria. Não sabia se alguma vez estivera no alto de uma escada, olhando para baixo, para muita gente ocupada, vestida de cetim, com grandes leques. Muito provável mesmo que nunca tivesse vivido aquilo. Os leques, por exemplo, não tinham consistência na sua memória. Se queria pensar neles não via na realidade leques, porém manchas brilhantes nadando de um lado para outro entre palavras em francês, sussurradas com cuidado por lábios juntos, para frente assim como um beijo enviado de longe. O leque principiava como leque e terminava com as palavras em francês. Absurdo. Era pois mentira.
Mas apesar de tudo a impressão continuava querendo ir para frente, como se o principal estivesse além da escadaria e dos leques. Parou um instante os movimentos e só os olhos batiam rápidos, à procura da sensação. Ah, sim. Desceu pela escadaria de mármore, sentindo na planta dos pés aquele medo frio de escorregar, nas mãos um suor cálido, na cintura uma fita apertando, puxando-a como um leve guindaste para cima. Depois o cheiro das fazendas novas, o olhar brilhante e curioso de um homem atravessando-a e deixando-lhe, como se tivesse comprimido um botão no escuro, o corpo iluminado. Ela era percorrida por longos músculos inteiros. Qualquer pensamento descia por essas cordas polidas até tremer ali, nos tornozelos, onde a carne era macia como a de um frango.
Parava no último degrau, no largo e sem perigo, pousava levemente a palma da mão sobre o corrimão frio e liso. E sem saber por que sentia uma súbita felicidade, quase dolorosa, um quebranto no coração, como se ele fosse de massa mole e alguém mergulhasse os dedos nele, revolvendo-o maciamente. Por quê? Levantou fragilmente a mão, num gesto de recusa. Não queria saber. Mas agora já lhe surgira a pergunta e como resposta absurda veio-lhe o corrimão refulgente lançado com desenvoltura do alto como uma serpentina envernizada em dia de carnaval. Só que não era carnaval, porque havia silêncio no salão, podia-se ver tudo através dele. Os reflexos úmidos das lâmpadas sobre os espelhos, os broches das damas e as fivelas dos cintos dos homens comunicando-se a intervalos com o lustre, por delgados raios de luz.
Cada vez mais entendia o ambiente. Entre os homens e as mulheres não havia espaços duros, tudo se misturava molemente. De algum aquecedor invisível subia um vapor úmido e emocionante. De novo o coração lhe doeu levemente e ela sorriu, o nariz franzido, a respiração fraca.
Houve uma pequena pausa de repouso. Foi recuperando aos poucos, apesar de seu esforço em contrário, a realidade, novamente o corpo insensível, opaco e forte como uma coisa viva há muito tempo.
Enxergou o quarto, as cortinas acenando irônicas, a cama obstinadamente imóvel, inútil... Tentou inquieta transpor-se para o topo da escadaria, descê-la novamente. Enxergou-se caminhando, mas não sentiu mais as pernas trêmulas, nem o suor nas mãos. Então viu que esgotara a lembrança.
Ficou à espera, junto da estante de livros, onde fora buscar... o quê? Franziu a testa sem muito interesse. O quê? Procurou achar engraçada aquela impressão de que no centro da testa existia agora um buraco no lugar de onde tinham extraído a ideia do que fora buscar.
Inclinou-se pela porta e perguntou alto, os olhos fechados: — Que é que você queria, Otávio?
— O de Direito Público, disse ele, e antes que prestasse de novo atenção ao caderno lançou-lhe um rápido olhar surpreso.
Levou-lhe o livro, ausente, os movimentos vagarosos. Ele esperou-o com a mão estendida, sem levantar a cabeça. Demorou um instante com o livro em sua direção, a uma pequena distância dele. Mas Otávio não notou a demora e com um pequeno movimento de ombros ela colocou-o entre seus dedos.
Sentou-se numa cadeira próxima, sem comodidade, como se devesse partir daí a um instante. Aos poucos, nada acontecendo, aproximou o corpo do encosto e abandonou-se, os olhos vazios, sem pensar.
Otávio continuava no Direito Público, demorando-se em alguma linha e depois impaciente mordendo a unha e voltando rápido várias páginas ao mesmo tempo. Até que parava de novo, distraído, a língua passeando pelo bordo dos dentes, uma das mãos puxando com ternura os fios das sobrancelhas. Alguma palavra imobilizou-o, a mão no ar, a boca aberta como um peixe morto. De repente afastou o livro com um safanão. O olhar brilhante e ganancioso, escreveu depressa no caderno, parando um instante para respirar ruidosamente e, num gesto que a sobressaltou, bater nos dentes com os nós dos dedos.
Que animal, pensou ela. Ele interrompeu o que escrevia e olhou-a aterrorizado, como se ela lhe tivesse jogado alguma coisa. Continuou a fixá-lo sem força e Otávio mexeu-se na cadeira, pensando apenas que não estava sozinho. Sorriu, tímido e importunado, estendeu-lhe a mão por cima da mesa. Ela afastou o corpo da cadeira e ofereceu-lhe por sua vez a ponta dos dedos. Otávio comprimiu-os rapidamente, sorridente, e logo depois, antes mesmo que ela tivesse tempo de recolher o braço, voltou-se furiosamente para o caderno, o rosto quase afundando nele, a mão trabalhando.
Era ele quem estava sentindo agora, pensou Joana. E, de repente, talvez de inveja, sem nenhum pensamento, odiou-o com uma força tão bruta que suas mãos se fecharam sobre os braços da poltrona e seus dentes se cerraram. Palpitou durante alguns instantes, reanimada. Temendo que o marido sentisse alguns instantes, obrigasse-a a disfarçá-lo e assim diminuir a intensidade de seu sentimento.
A culpa era dele, pensou friamente, à espreita de nova onda de raiva. A culpa era dele, a culpa era dele. Sua presença, e mais que sua presença: saber que ele existia, deixavam-na sem liberdade. Só raras vezes agora, numa rápida fugida, conseguia sentir. Isso: a culpa era dele. Como não descobrira antes? — perguntou-se vitoriosa. Ele roubava-lhe tudo, tudo. E como a frase ainda fosse fraca, pensou com intensidade, os olhos fechados, tudo! Sentiu-se melhor, pensou com mais nitidez.
Antes dele estava sempre de mãos estendidas e quanto oh quanto não recebia de surpresa! De violenta surpresa, como um raio de doce surpresa, como uma chuva de pequenas luzes... Agora tinha todo o seu tempo entregue a ele e os minutos que eram seus ela os sentia concedidos, partidos em pequenos cubos de gelo que devia engolir rapidamente, antes que se derretessem. E fustigando se para andar a galope: olhe, que esse tempo é liberdade! olhe, pense depressa, olhe, encontre-se depressa, olhe... acabou-se! Agora — só mais tarde, de novo a bandeja de cubinhos de gelo e você diante dela fascinada, vendo os pingos d'água já escorrerem.
Depois ele vinha. E ela repousava enfim, com um suspiro, pesadamente. — Mas não queria repousar! — O sangue corria-lhe mais vagarosamente, o ritmo domesticado, como um bicho que adestrou suas passadas para caber dentro da jaula.
Lembrou-se de quando fora buscar — o quê? ah, Direito Público — na estante do topo da escadaria, uma lembrança tão gratuita, tão livre, até imaginada... Como estava nova então. Água límpida correndo por dentro e por fora. Teve saudades da sensação, necessidade de sentir de novo. Olhou ansiosa de um lado para outro, procurando alguma coisa. Mas tudo ali era como era há muito. Velho. Vou deixá-lo, achou num primeiro pensamento, sem antecedentes. Abriu os olhos, à espreita de si mesma. Sabia que desse pensamento poderiam vir consequências. Pelo menos antigamente, quando suas resoluções não precisavam de grandes fatos, só de uma pequena ideia, de uma visão insignificante, para nascerem. Vou deixá-lo, repetiu-se e dessa vez do pensamento partiam pequenos filamentos prendendo-o a si mesma. Dagora em diante ele estava dentro dela e cada vez mais os filamentos engrossariam até formarem raízes.
Quantas vezes ainda ela se proporia isso, até deixá-lo mesmo? Cansou-se previamente das pequenas lutas que ainda teria, revoltando-se e cedendo em seguida, até o fim. Teve um rápido e impaciente movimento interior que se refletiu apenas num levantar imperceptível da mão. Otávio desviou por um segundo os olhos para ela e continuou como um sonâmbulo a escrever. Como ele era sensível, pensou num intervalo. Continuou seguindo-se: por que adiar? Sim, por que adiar? — perguntou-se. E a indagação era sólida, reclamava uma resposta séria. Ajeitou-se na cadeira, tomou uma atitude de cerimônia, como para ouvir o que tinha a dizer.
Então Otávio suspirou alto, fechou o livro e o caderno com estrépito, jogou-os longe, exagerado, as pernas compridas estiradas para longe da cadeira. Ela olhou-o assustada, ofendida. Então... — começou com ironia. Mas não sabia como continuar e esperou, olhando-o.
Ele disse, um cômico ar severo: — Muito bem. Agora a senhora faça o favor de se aproximar e encostar a cabeça nesse valoroso peito, porque estou precisando disso.
Ela riu, só para satisfazê-lo. Mas no meio do riso já estava achando um pouco de graça. Continuou sentada, tentando prosseguir: então, ele... e fazia com os lábios um jeito de desprezo e de vitória, como quem recebe as provas esperadas. Então, ele... Era assim? Esperava que Otávio visse sua atitude, adivinhasse sua resolução de não se mover da cadeira. Ele, no entanto, como sempre, nada adivinhava e justamente nos momentos em que deveria olhar, distraía-se com qualquer coisa. Agora, exatamente agora, lembrara-se de ajeitar o livro e o caderno jogados sobre a mesa. Nem olhava para Joana, estava certo de que ela viria? Riu um mau sorriso, pensando como ele se enganara e quantos pensamentos ela tivera sem que ele pudesse imaginar sequer. Sim, por que adiar? Ele ergueu os olhos, um pouco surpreso pela demora. E como ela continuasse sentada, ficaram se olhando de longe. Ele estava intrigado.
— Então? — disse sem gosto: — Meu valoroso...
Joana interrompeu-o com um gesto, porque não suportava a piedade que a invadira de súbito e a impressão de ridículo da frase, quando ela própria estava tão lúcida e resolvida a falar. Ele não se assustou com o seu movimento e ela teve que engolir a saliva com cuidado para empurrar para dentro de si a estúpida vontade de chorar que principiava a nascer mole dentro do peito.
Agora sua piedade abrangia-a também e ela via os dois juntos, coitados e infantis. Os dois iam morrer, esse mesmo homem que batera com os dedos nos dentes, num movimento tão vivo. Ela mesma, com o topo da escadaria e toda a sua capacidade de querer sentir. As coisas principais assaltavam-na em quaisquer momentos, também nos vazios, enchendo-os de significados. Quantas vezes não dera uma gorjeta exagerada ao garçom só porque se lembrara de que ele ia morrer e não o sabia.
Olhava-o misteriosamente, séria e terna. E agora procurava emocionar-se pensando nos dois futuros mortos.
Encostou a cabeça no seu peito e lá um coração batia. Pensou: mas mesmo assim, apesar da morte, vou deixá-lo um dia. Conhecia bem o pensamento que lhe poderia vir, fortalecendo-a, se antes de deixá-lo se comovesse: "Eu tirei tudo o que poderia ter. Não o odeio, não o desprezo. Por que procurá-lo, mesmo que o ame? Não gosto tanto de mim a ponto de gostar das coisas de que eu gosto. Amo mais o que quero do que a mim mesma". Oh, sabia igualmente que a verdade poderia estar no contrário do que pensara. Abandonou a cabeça, comprimiu a testa na camisa branca de Otávio. Aos poucos, muito de leve, foi-se apagando a ideia de morte e já não encontrava de que rir. Seu coração era maciamente moldado. Com o ouvido ela sabia que o outro, indiferente a tudo, prosseguia nas suas batidas regulares, no seu caminho fatal. O mar.
— Adiar, só adiar, pensou Joana antes de deixar de pensar. Porque os últimos cubos de gelo haviam-se derretido e agora ela era tristemente uma mulher feliz.