Perto do Coração Selvagem
Lídia
A MANHÃ SEGUINTE era de novo como um primeiro dia, sentiu Joana.
Otávio saíra cedo e ela o abençoava por isso como se ele lhe tivesse concedido intencionalmente tempo para pensar, para observar-se. Ela não queria precipitar-se em nenhuma atitude, sentia que qualquer de seus movimentos poderia tornar-se precioso e perigoso.
Foram instantes, horas rápidas apenas. Porque ela recebeu o bilhete de Lídia convidando-a a visitá-la.
Sua leitura fizera Joana sorrir antes mesmo de provocar aquelas rápidas e pesadas batidas do coração. E também a lâmina fria de aço encostando no interior morno do corpo. Como se sua tia morta ressurgisse e lhe falasse, Joana imaginou-lhe o susto, sentiu seus olhos abertos — ou seriam os seus próprios olhos a quem ela não permitia surpresas? — Otávio voltou para Lídia, apesar de Joana? — diria a tia.
Joana alisou os cabelos vagamente, a lâmina fria encostada ao coração quente, sorriu de novo, oh só para ganhar tempo. Mas sim, por que não continuar com Lídia? — respondeu à tia morta. A lâmina agora, a esse pensamento claro, oprimiu-lhe rindo os pulmões, gelada. Por que recusar acontecimentos? Ter muito ao mesmo tempo, sentir de várias maneiras, reconhecer a vida em diversas fontes... Quem poderia impedir a alguém viver largamente? Mais tarde caiu num estado de estranha e leve excitação. Deslizou pela casa sem destino, chorou mesmo um pouco, sem grande sofrimento, só por chorar — convenceu-se — simplesmente, como quem acena com a mão, como quem olha. Estou sofrendo? — indagava-se às vezes e de novo quem pensava enchia toda ela de surpresa, curiosidade e orgulho e não restava lugar para quem sofrer. Mas sua fina exaltação não lhe permitiu continuar num mesmo plano durante muito tempo. Passou logo a outro tom de comportamento, tocou um pouco de piano, esqueceu a carta de Lídia. Quando dela se lembrava, vagamente, um pássaro que vem e volta, não sabia decidir-se, se ficar triste ou alegre, se calma ou agitada. Lembrava-se continuamente da noite anterior, a vidraça erguida brilhava serenamente à lua, do peito nu de Otávio, da Joana que adormecera profundamente, quase pela primeira vez na vida, confiando-se a um homem que dormia ao seu lado. Na verdade não se distanciara da Joana cheia de ternura da véspera. Envergonhada, humilde e rejeitada, essa vagara até voltar e Joana estava cada vez mais dura, mais concentrada e cada vez mais perto de si mesma — julgava. Até melhor. Só que o aço frio se renovava sempre, nunca esquentava. Sobretudo, no fundo de qualquer pensamento pairava um outro, perplexo, quase encantado, como no dia da morte do pai: aconteciam coisas sem que ela as inventasse...
De tarde pôde enfim observar Lídia e soube que estava tão longe dela como da mulher da voz. Olhavam-se e não podiam se odiar ou mesmo se repelir. Lídia falara, pálida e discreta, sobre vários assuntos sem interesse para nenhuma das duas. Sua gravidez nascente boiava por toda a sala, enchia-a, penetrava Joana. Até aqueles móveis apagados, com os paninhos de crochê, pareciam guardar-se no mesmo segredo quase revelado, na mesma espera de um filho. Os olhos abertos de Lídia eram sem sombras. Que mulher bela. Os lábios cheios mas pacíficos, sem estremecimentos, como de alguém que não tem receio do prazer, que o recebe sem remorsos. Que poesia seria a base de sua vida. Que diria aquele murmúrio que ela adivinhava no interior de Lídia? A mulher da voz multiplicava-se em inúmeras mulheres... Mas onde estava afinal a divindade delas? Até nas mais fracas havia a sombra daquele conhecimento que não se adquire com a inteligência. Inteligência das coisas cegas. Poder da pedra que tombando empurra outra que vai cair no mar e matar um peixe. Às vezes encontrava-se o mesmo poder em mulheres apenas ligeiramente mães e esposas, tímidas fêmeas do homem, como a tia, como Armanda. No entanto aquela força, a unidade na fraqueza... Oh, estava exagerando talvez, talvez a divindade das mulheres não fosse específica, estivesse apenas no fato de existirem. Sim, sim, aí estava a verdade: elas existiam mais do que os outros, eram o símbolo da coisa na própria coisa. E a mulher era o mistério em si mesmo, descobriu. Havia em todas elas uma qualidade de matéria-prima, alguma coisa que podia vir a definir-se mas que jamais se realizava, porque sua essência mesma era a de "tornar-se". Através dela exatamente não se unia o passado ao futuro e a todos os tempos? Lídia e Joana calaram um longo momento. Não se sentiam propriamente juntas, mas sem necessidade de palavras, como se na realidade se tivessem encontrado apenas para se olhar e retirar-se então. A estranheza da situação tornou-se mais nítida quando as duas mulheres sentiram que não estavam lutando. Em ambas houve um movimento de impaciência, ainda havia um dever a cumprir. Joana afastou-o, subitamente saciada: — Bem — o tom da própria voz acordou-a desagradavelmente —, creio que está finda a entrevista.
Lídia assombrou-se. Mas como? Pois se nada tinham dito! Sobretudo, repugnava-lhe a ideia de uma coisa inacabada: — Nós nada dissemos ainda... E precisamos falar... Joana sorriu. Nesse sorriso começou a agir, não com força — o cansaço — mas exatamente como eu a impressionaria. Que tolice estou pensando afinal? — Não sente — disse Joana — que nos afastamos do motivo que nos reuniu? Se falássemos nele seria pelo menos agora sem interesse nem ardor... Deixemos tudo para outro dia.
Por um instante a figura do homem apareceu-lhes apagada, inoportuna. Mas Lídia sabia que mal aquela mulher desaparecesse, desapareceria também a inércia e o torpor em que ela a deixara, tirando-lhe a vontade de se mover. E de novo desperta, quereria o filho. A pequena família. Fazia esforço por sair daquele sono, por abrir os olhos e lutar.
— É absurdo perdermos essa ocasião...
Sim, compremos o artigo, compremos o artigo. Minha moleza vem de que me preparei demais para a festa. Joana riu novamente, sem alegria.
— Sei que nada posso esperar de sua parte, retomou a grávida subitamente com força — uma nuvem destapando o sol, tudo rebrilhando de novo, insuflado de vida. Também Joana se aclarou, sentiu a nuvem descobrindo o sol, tudo borbulhando levemente de mãos dadas numa roda suave, como de crianças.
— Conheço-a bem, continuou Lídia. As palavras caíram serenamente enfaradas no lago, depositavam-se no seu fundo, sem consequência.
Mas de repente a moça se empurrou e à sua gravidez, num último esforço para despertar: — Conheço-a, sei quanto é firme sua maldade. Agora a sala revivia.
— Ah, sabe? Sim, revivia, acordou Joana. Que estou dizendo? Como ouso vir aqui? Estou longe, longe. Basta olhar para essa mulher para compreender que não se poderia gostar de mim. O aço encostou subitamente em seu coração. Ah, o ciúme, era isso o ciúme, a mão fria amassando-a lentamente, apertando-a, diminuindo sua alma. Comigo acontece o seguinte ou senão ameaça acontecer: de um momento para outro, a certo movimento, posso me transformar numa linha. Isso! numa linha de luz, de modo que a pessoa fica só a meu lado, sem poder me pegar e à minha deficiência. Enquanto Lídia tem vários planos. A cada gesto revela-se outro aspecto de sua dimensão. Ao seu lado ninguém escorrega e se perde, porque se apoia sobre seus seios — sérios, plácidos, pálidos, enquanto os meus são fúteis — ou sobre sua barriga onde até um filho cabe. Não exagerar sua importância, em todos os ventres de mulheres pode nascer um filho. Como é bela e é mulher, serenamente matéria-prima, apesar de todas as outras mulheres. O que há no ar? estou sozinha. Os lábios grandes de Lídia, de linhas vagarosas, tão bem pintados de claro, enquanto eu de batom escuro, sempre escarlate, escarlate, escarlate, o rosto branco e magro. Esses seus olhos castanhos, enormes e tranquilos, talvez nada tenham a dar, mas recebem tanto que ninguém poderia resistir, muito menos Otávio. Sou um bicho de plumas. Lídia de pelos, Otávio se perde entre nós, indefeso. Como escapar ao meu brilho e à minha promessa de fuga e como escapar à certeza dessa mulher? Nós duas formaríamos uma união e forneceríamos à humanidade, sairíamos de manhã cedo de porta em porta, tocaríamos a campainha: qual é que a senhora prefere: meu ou dela? e entregaríamos um filhinho. Compreendo por que Otávio não se desligou de Lídia: ele está sempre disposto a se lançar aos pés daqueles que andam para frente. Nunca vê um monte sem enxergar apenas sua firmeza, nunca vê uma mulher de busto grande sem pensar em deitar a cabeça sobre ele. Como sou pobre junto dela, tão segura. Ou me acendo e sou maravilhosa, fugazmente maravilhosa, ou senão obscura, envolvo-me em cortinas. Lídia, o que quer que seja, é imutável, sempre com a mesma base clara. As minhas mãos e as dela. As minhas — esboçadas, solitárias, traços lançados para a frente e para trás, descuido e rapidez num pincel molhado em tinta branco-triste, estou sempre levando a mão à testa, sempre ameaçando deixá-las no ar, oh como sou fútil, só agora compreendo. As de Lídia — recortadas, bonitas, cobertas por uma pele elástica, rosada, amarelada, como uma flor que vi em alguma parte, mãos que repousam em cima das coisas, cheias de direção e sabedoria. Eu toda nado, flutuo, atravesso o que existe com os nervos, nada sou senão um desejo, a raiva, a vaguidão, impalpável como a energia. Energia? mas onde está minha força? na imprecisão, na imprecisão, na imprecisão... E vivificando-a, não a realidade, mas apenas o vago impulso para diante. Quero deslumbrar Lídia, tornar a conversa algo estranho, fino, escapando, mas não, mas sim, não, mas por que não? Lembrou-se subitamente de Otávio, mexendo e soprando a xícara de café para esfriá-la, o ar sério, interessado e ingênuo. Surpreender Lídia, sim, arrastá-la... Como naquele tempo do internato, quando subitamente precisava pôr à prova seu poder, sentir a admiração das colegas, com quem geralmente pouco falava. Então representava friamente, inventando, brilhando como numa vingança. Do silêncio em que se escondia, saía para a luta: — Olhem aquele homem... Toma café com leite de manhã, bem devagar, molhando o pão na xícara, deixando escorrer, mordendo-o, levantando-se depois pesado, triste...
As colegas olhavam, viam um homem qualquer e no entanto, apesar de surpreendidas e intencionalmente distantes a princípio, no entanto... era milagrosamente exato! Elas chegavam a ver o homem se levantando da mesa... a xícara vazia... algumas moscas... Joana continuava a ganhar tempo, a avançar, os olhos acesos: — E aquele outro... De noite tira com esforço os sapatos, joga-os longe, suspira, diz: o que importa é não desanimar, o que importa é não desanimar...
As mais fracas murmuravam já sorridentes, dominadas: é mesmo... como é que você sabe? As outras retraíam-se. Porém terminavam ao redor de Joana, esperando que ela lhes mostrasse mais alguma coisa. Seus gestos a essa altura se tornavam leves, febris, e inspirada cada vez mais tocava em todas: — Vejam os olhos daquela mulher... redondos, transparentes, tremem, tremem, de um instante para outro podem cair numa gota d'água...
— E aquele olhar? — às vezes Joana era mais audaciosa, encontrando súbita timidez naquelas meninas que liam certos livros nos corredores da escola. E aquele olhar? de quem busca prazer onde quer que o encontre...
As colegas riam, mas aos poucos nascia alguma coisa de inquieto, doloroso e incômodo na cena. Elas terminavam por rir demais, nervosas e insatisfeitas. Joana, animada, subia sobre si mesma, prendia as moças à sua vontade e à sua palavra, cheia de uma graça ardente e cortante como ligeiras chicotadas. Até que, finalmente envoltas, elas aspiravam o seu brilhante e sufocante ar. Numa súbita saciedade, Joana parava então, os olhos secos, e corpo trêmulo sobre a vitória. Desamparadas, sentindo o rápido afastamento de Joana e seu desprezo, também elas tombavam murchas, como envergonhadas. Alguma dizia antes de se dispersarem, cansadas umas das outras: — Joana fica insuportável quando está alegre...
Lídia corou. O "Ah, sabe?" de Joana soara tão curto, distraído e curioso, tão longe da emoção de Lídia.
— Não tem importância, não tem importância — tentou Joana apaziguá-la. É claro que você não pode saber o que é maldade. Então vai ter um filho..., continuou. Quer Otávio, o pai. É compreensível. Por que não trabalha para sustentar o guri? Certamente você estava esperando de mim grandes bondades, apesar do que disse agora sobre minha maldade. Mas a bondade me dá realmente ânsias de vomitar. Por que não trabalha? Assim não precisaria de Otávio. Não estou disposta a lhe ceder exatamente tudo. Mas me conte antes seu romance com Otávio, me conte como conseguiu que ele voltasse para você. Ou melhor: o que ele pensa de mim. Diga sem medo. Eu o faço muito infeliz?
— Não sei, não tocamos no seu nome.
Eu estava então sozinha? e essa alegria de dor, o aço franzindo minha pele, esse frio que é ciúme, não, esse frio que é assim: ah, andaste tudo isso? pois tens que voltar. Mas dessa vez não recomeçarei, juro, nada reconstruirei, ficarei atrás como uma pedra lá longe, no começo do caminho. Há qualquer coisa que roda comigo, roda, roda, me atordoa, me atordoa, e me deposita tranquilamente no mesmo lugar.
Dirigiu-se à grávida: — Não é possível... Ele não se libertaria tão facilmente.
— Mas ele de certo modo detesta você! — gritara Lídia.
Ah, bem.
— Você também sente isso? — perguntara Joana.
— Sim, sim... Não é ódio somente, apesar de tudo. — A noite de ontem, minha ternura, não importa, no fundo eu sabia que estava só, nem ao menos fui enganada, porque sabia, sabia.
— E se fosse medo também?
— Medo? Não compreendo, surpreendia-se Lídia, medo de quê?
— Talvez porque eu seja infeliz, medo de se aproximar. Talvez seja isso: medo de ter que sofrer também...
— É infeliz? — indagara a outra baixo.
— Mas não se assuste, a infelicidade nada tem a ver com a maldade, rira Joana. — O que houve afinal? Não estou presente, não estou presente, o que houve, o cansaço, vontade de sair chorando. Eu sei, eu sei: gostaria de passar pelo menos um dia vendo Lídia andar da cozinha para a sala, depois almoçando ao seu lado numa sala quieta — algumas moscas, talheres tilintando —, onde não entrasse calor, vestida num largo e velho robe florido. Depois, de tarde, sentada e olhando-a coser, dando-lhe aqui e ali uma pequena ajuda, a tesoura, a linha, à espera da hora do banho e do lanche, seria bom, seria largo e fresco. Será um pouco disso o que sempre me faltou? Por que é que ela é tão poderosa? O fato de eu não ter tido tardes de costura não me põe abaixo dela, suponho. Ou põe? Põe, não põe, põe, não põe.
Eu sei o que quero: uma mulher feia e limpa, com seios grandes, que me diga: que história é essa de inventar coisas? nada de dramas, venha cá imediatamente! — E me dê um banho morno, me vista uma camisola branca de linho, trance meus cabelos e me meta na cama, bem zangada, dizendo: o que então? fica aí solta, comendo fora de hora, capaz de pegar uma doença, deixe de inventar tragédias, pensa que é grande coisa na vida, tome essa xícara de caldo quente. Me levanta a cabeça com a mão, me cobre com um lençol grande, afasta alguns fios de cabelo de minha testa, já branca e fresca, e me diz antes de eu adormecer mornamente: vai ver como em pouco tempo engorda esse rosto, esquece as maluquices e fica uma boa menina. Alguém que me recolha como a um cão humilde, que me abra a porta, me escove, me alimente, me queira severamente como a um cão, só isso eu quero, como a um cão, a um filho.
— Você gostaria de estar casada — casada de verdade — com ele? — indagou Joana.
Lídia olhara-a rapidamente, procurava saber se havia sarcasmo na pergunta: — Gostaria.
— Por quê? — surpreendeu-se Joana. Não vê que nada se ganha com isso? Tudo o que há no casamento você já tem — Lídia corou, mas eu não tinha malícia, mulher feia e limpa.
— Aposto como você passou toda a vida querendo casar.
Lídia teve um movimento de revolta: era tocada bem na ferida, friamente.
— Sim. Toda mulher... — assentiu.
— Isso vem contra mim. Pois eu não pensava em me casar. O mais engraçado é que ainda tenho a certeza de que não casei... Julgava mais ou menos isso: o casamento é o fim, depois de me casar nada mais poderá me acontecer. Imagine: ter sempre uma pessoa ao lado, não conhecer a solidão. — Meu Deus! — não estar consigo mesma nunca, nunca. E ser uma mulher casada, quer dizer, uma pessoa com destino traçado. Daí em diante é só esperar pela morte. Eu pensava: nem a liberdade de ser infeliz se conservava porque se arrasta consigo outra pessoa. Há alguém que sempre a observa, que a perscruta, que acompanha todos os seus movimentos. E mesmo o cansaço da vida ter certa beleza quando é suportado sozinha e desesperada — eu pensava. Mas a dois, comendo diariamente o mesmo pão sem sal, assistindo à própria derrota na derrota do outro... Isso sem contar com o peso dos hábitos refletidos nos hábitos do outro, o peso do leito comum, da mesa comum, da vida comum, preparando e ameaçando a morte comum. Eu sempre dizia: nunca.
— Por que casou? — indagava Lídia.
— Não sei. Só sei que esse "não sei" não é uma ignorância particular, em relação ao caso, mas o fundo das coisas. — Estou fugindo da questão, daqui a pouco ela me olhará daquele jeito que eu já conheço. — Casei certamente porque quis casar. Porque Otávio quis casar comigo. É isso, é isso: descobri: em lugar de pedir para viver comigo sem casamento, sugeriu-me outra coisa. Aliás daria no mesmo. E eu estava tonta, Otávio é bonito, não é? Não me lembrei de mais nada. — Pausa — Como é que você o quer: com o corpo?
— Sim, com o corpo — balbuciara Lídia.
— É amor.
— E você? — atreveu-se Lídia.
— Não tanto.
— Mas ele me disse, ao contrário...
Lídia interrompera-se. Olhava-a com cuidado. Como Joana parecia inexperiente. Falava do amor com tanta simplicidade e clareza porque certamente nada ainda lhe tinha sido revelado através dele. Ela não caíra nas suas sombras, ainda não sentira suas transformações profundas e secretas. Senão teria, como ela própria, quase vergonha de tanta felicidade, manter-se-ia vigilante à sua porta, protegendo da luz fria aquilo que não deveria crestar-se para continuar a viver. No entanto aquela vivacidade de Joana... o que compreendera através de Otávio... que existia vida dentro dela... Mas seu amor não abrigava, nem a Joana mesma, sentiu Lídia. Inexperiente, íntegra, intocada, podia confundir-se com uma virgem. Lídia olhava-a e tentava explicar-se o que havia de oscilante e lúcido naquele rosto. Certamente o amor não a ligava nem mesmo ao amor. Enquanto ela própria, Lídia, quase um instante após o primeiro beijo, transformara-se em mulher.
— Sim, sim, mas nada altera, prosseguia Joana serena. Eu o quero também mais friamente, como a uma criatura, como a um homem. — Será que ela vai olhar daquele jeito medroso, assombrado, reverente: oh, por que você fala em coisas difíceis, por que empurra coisas enormes num momento simples, me poupe, me poupe. Mas dessa vez tenho culpa, porque realmente nem sei o que pretendia dizer. Porém é assim que eu a vencerei. Lídia hesitava: — Isso não é mais do que amor? — Pode ser, disse Joana surpresa. O que importa é que já não é amor. — E de repente eis que vem o cansaço, o grande "para quê" me envolvendo, e eu sei que vou dizer alguma coisa. — Fique com Otávio. Tenha seu filho, seja feliz e me deixe em paz.
— Sabe o que está dizendo? — gritara a outra.
— Sei, é claro.
— Não gosta dele...
— Gosto. Mas eu nunca sei o que fazer das pessoas ou das coisas de que eu gosto, elas chegam a me pesar, desde pequena. Talvez se eu gostasse realmente com o corpo... Talvez me ligasse mais... — São confidencias, Deus meu. Agora vou dizer assim: — Otávio foge de mim porque eu não trago paz a ninguém, dou aos outros sempre a mesma taça, faço com que digam: eu estive cego, não era paz o que eu tinha, agora é que a desejo.
— Mesmo assim... acho — ninguém pode se lamentar... Nem Otávio... suponho que nem eu... — Lídia não soubera explicar, quedara-se vaga, as mãos não pousavam sobre as coisas.
— O quê? — Não sei. — Olhava para Joana e procurava alguma coisa no seu rosto, intrigada, movendo a cabeça.
— O que é? — repetiu Joana.
— Não consigo compreender. Joana enrubesceu de leve: — Também eu. Nunca penetrei no meu coração. Alguma coisa estava dita.
Joana caminhou até a janela, espiou o jardim onde brincaria o filho de Lídia, que estava agora no ventre de Lídia, que seria alimentado pelos seios de Lídia, que seria Lídia. Ou Otávio, fruto verde? Não, Lídia, a que se transmite. Se a abrissem ao meio — ruído de folhas frescas se partindo — veriam-na como uma romã aberta, sadia e rosada, translúcida como olhos claros. A base de sua vida era mansa como um regato correndo no campo. E nesse campo ela própria se movia segura e serena como um animal a pastar.
Comparou-a com Otávio, para quem a vida nunca passaria de uma estreita aventura individual. E com ela mesma, usando os outros para fundo sombrio onde se recortasse sua figura brilhante e alta. A poesia de Lídia: só este silêncio é minha prece, Senhor, e não sei dizer mais; sou tão feliz em sentir que me calo para sentir mais; foi em silêncio que nasceu em mim uma teia de aranha tenra e leve: esta suave incompreensão da vida que me permite viver. Ou era tudo mentira? Oh, Deus, quando mais precisava agir perdia-se em pensamentos inúteis. Tudo certamente mentira, era até possível que Lídia fosse muito menos pura do que imaginava. Mas mesmo assim receava continuar ao seu lado, olhá-la sem querer com um pouco de força, fazer com que ela tomasse consciência de si própria. Preservá-la, não transformar sua cor, sua preciosa voz.
— Ele me contou aquilo do velhinho... Jogou o livro sobre ele, tão velho... Antes eu compreendi, mas agora não sei como pôde... — perguntara Lídia.
— Mas foi verdade.
Lídia olhava-a, os lábios entreabertos, esperando-a. E de repente sentiu com clareza que não queria lutar contra aquela mulher. Balançou a cabeça desnorteada. Seu rosto dissolveu-se, tremeu, seus traços hesitaram em busca de uma expressão: — Eu não fiz isso por querer, sabe? Não, eu não fiz... — Lídia continuava inquieta, o rosto picado por estremecimentos rápidos. — Por que haveria eu de querer enganá-la? Não, não é isso que eu quero dizer, não é isso...
E subitamente, sem que Joana pudesse prevê-lo, rompeu num choro livre e forte. Ela vai ter um filho, está nervosa, pensou Joana. A outra se arrastava penosamente: — Eu não me incomodaria de tirar Otávio de outra mulher. Mas não sabia que havia você... Não uma pessoa qualquer como eu, mas alguém tão... tão boa... tão sublime...
Joana sobressaltou-se. Ah, eu estive trabalhando para isso: consegui ser sublime... como nos antigos tempos... Não, não é inteiramente assim, não forcei a situação, como o poderia com o aço franzino e esfriando meu corpo? Não me colocar a essa luz, com o sulco na testa tão evidente. Procurar aquele grau de luz e sombra em que me torno subitamente polpuda, o batom escurecido em mancha velha de sangue, o rosto esbranquiçado sob os cabelos... Encostam-me de novo a lâmina de aço no coração. Quando eu for embora ela me desprezará é apenas no momento que está deslumbrada. Sou fugazmente maravilhosa... Deus, Deus... caminho correndo, alucinada, o corpo voando, hesitando... para onde? Há uma substância assustada e leve no ar, eu consegui obtê-la, é como o instante que precede o choro de uma criança. Naquela noite, não sei quando, havia escadarias, leques se movendo, luzes ternas balançando os doces raios como cabeças de mães tolerantes, havia um homem olhando para mim lá da linha do horizonte, eu era uma estranha, mas vencia de qualquer modo, mesmo que fosse desprezando alguma coisa. Tudo deslizava suave, em combinação muda. Já era no fim — fim de quê? da escadaria nobre e lânguida, inclinada, acenando o longo braço brilhante, o belo e orgulhoso corrimão, o fim da noite — quando eu resvalara para o centro da sala, suave como uma bolha de ar. E subitamente, forte como um trovão, porém mudo como um espanto mudo, e, subitamente, mais um passo e não pude continuar! A barra de meu vestido de gaze estremeceu num esgar, lutou, torceu-se, rasgou-se no canto agudo do móvel e lá ficou trêmula, arquejante, perplexa sob meu olhar estupefato. E de repente as coisas haviam endurecido, uma orquestra rebentara em sons tortos e silenciara imediatamente, havia alguma coisa triunfante e trágica no ar. Eu descobri que no fundo não havia em mim surpresa: que tudo caminhava lentamente para aquilo e agora se precipitara no seu verdadeiro plano. Eu queria sair correndo, chorando com meu pobre vestido sem barra, roto e aflito. Agora as luzes brilhavam com força e orgulho, os leques desvendavam caras resplandecentes e astuciosas, lá de longe do horizonte o homem ria para mim, o corrimão retraiu-se, fechou os olhos. Ninguém precisava mais mentir, uma vez que eu já sabia tudo! Também agora me precipitarei em outro estado. Por quê? Por quê? Vou embora daqui, vou para casa, de um instante para outro o rasgão no vestido, ouvir o grito lancinante da orquestra e subitamente o silêncio, todos os músicos caídos mortos sobre o estrado, no grande salão zangado e vazio. Olhar de frente para o rasgão, mas sempre tive medo de rebentar de sofrimento, como o grito da orquestra. Ninguém sabe até que ponto posso chegar quase em triunfo como se fosse uma criação: é uma sensação de poder extrahumano conseguida em certo grau de sofrimento. Porém um minuto mais e a gente não sabe se é de poder ou de absoluta impotência, assim como querer com o corpo e o cérebro movimentar um dedo e simplesmente não consegui-lo. Não é simplesmente não consegui-lo: mas todas as coisas rindo e chorando ao mesmo tempo. Não, seguramente não inventei esta situação, e é isso o que mais me surpreende. Porque minha vontade de experiência não chegaria a provocar esse ferro frio encostando na carne morna, finalmente morna da ternura de ontem. Oh, não se fazer de mártir: você sabe que não continuaria no mesmo estado por muito tempo: de novo abriria e fecharia círculos de vida, jogando-os de lado, murchos... Também aquele momento passaria, mesmo que Lídia não reclamasse Otávio, mesmo que eu jamais viesse a saber que Otávio não a abandonara embora casado comigo. Não é que estou misturando a essa ameaça de dor certa alegria doce e irônica? não é que estou me querendo nesse momento? Só quando sair daqui me permitirei olhar o rasgão do vestido. Nada aconteceu, só que ontem eu iniciara a renovação e agora me retraio porque essa mulher está nervosa porque espera um filho de Otávio. Sobretudo não houve transformação essencial, tudo isso já existia, houve apenas o rasgão do vestido indicando as coisas. E realmente, realmente, dor de cabeça, cansaço, realmente tudo caminhava para isso.
— Eu também posso ter um filho, disse alto. A voz soou bela e límpida.
— Sim — murmurara Lídia assombrada.
— Eu também posso. Por que não?
— Não...
— Não? Mas sim... Eu lhe darei Otávio, não agora, porém quando eu quiser. Eu terei um filho e depois lhe devolverei Otávio.
— Mas isso é monstruoso! — gritara Lídia.
— Mas por quê? É monstruoso ter duas mulheres? Você bem sabe que não. É bom estar grávida, imagino. Mas basta para alguém esperar um filho ou ainda é pouco? — A gente se sente bem, dissera Lídia arrastada, os olhos abertos.
— Bem? — Também se tem medo do parto às vezes, respondia a outra mecanicamente.
— Não se assuste, qualquer animal tem filhos. Você terá um parto fácil e também eu. Nós duas temos a bacia larga.
— Sim...
— Eu também quero as coisas da vida. Por que não? Pensa que sou estéril? Nem um pouco. Não tive filhos porque não quis.
Eu me sinto segurando uma criança, pensou Joana. Dorme, meu filho, dorme, eu lhe digo. O filho é morno e eu estou triste. Mas é a tristeza da felicidade, esse apaziguamento e suficiência que deixam o rosto plácido, longínquo. E quando meu filho me toca não me rouba pensamento como os outros. Mas depois, quando eu lhe der leite com estes seios frágeis e bonitos, meu filho crescerá de minha força e me esmagará com sua vida. Ele se distanciará de mim e eu serei a velha mãe inútil. Não me sentirei burlada. Mas vencida apenas e direi: eu nada sei, posso parir um filho e nada sei. Deus receberá minha humildade e dirá: pude parir um mundo e nada sei. Estarei mais perto d'Ele e da mulher da voz. Meu filho se moverá nos meus braços e eu me direi: Joana, Joana isso é bom. Não pronunciarei outra palavra porque a verdade será o que agradar aos meus braços.