Poetas do Minho I: João Penha

Alberto Pimentel · Capítulo 9 de 10

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Poetas do Minho I: João Penha

Capítulo IV

Aquele meu espírito opulento,

Que vivia na luz dos sonhos belos,

vira morrer os «últimos anelos», mas resistira, graças ao sábio formulário do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a florescer

... em tão doce obesidade,

Que dentro em pouco me vereis no transe

De tomar ordens e fazer-me abade.

A gente sai da leitura das Rimas tão bem{54} disposta como João Penha saiu de Coimbra.

Ordinariamente um livro de versos, especialmente os modernos, deixam no nosso espírito a impressão de um cemitério sombrio, umbroso de ciprestes e chorões, dealbado de mausoléus luarentos, como diria um nefelibata, e de cruzes tiritantes de frio na gélida nudez do mármore.

Pelo contrário, as Rimas de João Penha são como um pomar do Minho, ubérrimo e cantante, onde a cor dos frutos se tinge de tonalidades sadias, onde o despenho da água sobre a relva viçosa espuma em borbotões sonoros, e onde os pássaros, nas latadas verdes, assobiam numa bambochata feliz de colegiais em liberdade.

É com a impressão de ter visitado um destes pomares feracissimos e alegres que a gente fecha o volume das Rimas. {55}

 

IV

Em literatura, João Penha é hoje, como ontem, um

conservador convicto, um idealista, um romântico, intransigente, mas brilhante de originalidade saudável.

As suas opiniões são conhecidas.[7]{56}

Para ele a escola romântica, sem estar subordinada a uma

única e determinada filosofia, porque não há relação próxima ou remota entre os seus três grandes poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos os golpes que lhe vibrem os revolucionários da literatura, será eterna, porque eternamente o homem «perseguido pela realidade, se refugiará, pelo menos durante algumas horas do seu dia, no mundo das ilusões.»

Na escola romântica, o que impressiona, o que comove, é a

obra em si mesma, ao passo que na escola naturalista apenas se admira o autor pelo seu talento de observação.

João Penha distingue entre escola naturalista e escola

realista: naquela, é lícito admitir «personagens excepcionais, casos que não sejam comuns»; nesta, os modelos são vulgares, «as cousas são descritas, não como o artista as possa ver, mas como a multidão as vê.»{57}

Notarei, de passagem, que nesta subdivisão, João Penha

parece ir mais longe do que Emílio Zola, o qual envolve na mesma fórmula o naturalismo e o realismo. O famoso autor do Roman expérimental adoptou como fórmula genérica o naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e que define: «o regresso à natureza e ao homem, a observação directa, a anatomia exacta.»

Mas, para Emílio Zola, pouco importa que os modelos sejam

excepcionais ou vulgares, que estejam no sete-estrelo ou no charco, no alto ou em baixo.

«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer du sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en haut, il m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime qu'on ne saurait se tromper.»

Contanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos corpos e{58} dos fenómenos, pouco parece importar a Zola que os corpos girem no azul ou na terra.

Eu não estabeleço diferença entre naturalismo e realismo, que considero sinónimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja nos modelos excepcionais, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos modelos vulgares, em que a natureza se repete todos os dias.

Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admite, nas obras do espírito humano, senão dois efeitos: o de instruir e o de comover.

A fórmula de Zola, procedendo da análise, caminhando na orientação da medicina experimental de Cláudio Bernard, constitui uma obra de ciência, que pretende guiar o espírito na investigação da verdade.

Não sensibiliza, não evola a alma até à região do sonho; pelo contrário, prende-a à terra, à realidade, como uma algema, um Prometeu.{59}

Portanto está fora da esfera da arte, que é fundamentalmente sugestiva e emotiva.

Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo que os editores franceses se têm visto na necessidade de ir alijando as edições dos copistas da realidade por meio de uma tômbola, a franco a entrada.

A profissão de fé literária de João Penha, exposta no prefácio da Tristia, não abrange a moderna escola poética, chamada, entre nós, dos nefelibatas.

Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do

ardor com que defende as tradições do idealismo romântico, se eu ainda há poucos dias não ouvisse, nítida e firmemente explanado, o parecer de João Penha sobre a obra recente dos novíssimos:

—Não transijo com essa escola, disse-me ele. Não admito

poesia sem ritmo, como não admito música sem compasso. O verso sem cesura e sem medida, é prosa.{60}

E dizia-mo com aquela ríspida firmeza de convicção com

que Teófilo Gautier escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une folie moderne qui ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art lui-même».

Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha,

lembrava-me da frase de Junqueiro nos Simples: «A forma poética encaminha-se à solução final. Horizonte imenso.»

Horizonte imenso, sim, porque já não há medida para o

verso, que vai até onde quer ir. De outro modo não percebo a frase de Junqueiro. Os limites da metrificação portuguesa estão definidos e marcados, não há por onde variar, sem quebra da arte e do génio da língua. Castilho introduziu na forma poética a novidade dos esdrúxulos italianos, e combateu a peito descoberto pela nacionalização dos alexandrinos franceses. Tomás Ribeiro, no D. Jaime e na Delfina, percorreu todos os metros admissíveis{61} na versificação portuguesa, empregando o de treze sílabas, que já era demasiadamente violento para o ritmo orgânico da língua portuguesa. E, feito isto, ele próprio reconheceu que, por amor da variedade, se poderia tentar ainda a medição latina e ressuscitar a toante

castelhana,[8] Mas os poetas que vieram depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos eles a respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena experimentar a métrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas (que a meu ver não era menos monótona que o refrain dos nefelibatas): nada disto fizeram, preferiram escrever versos de longo curso, com quinze e mais sílabas, intercalaram rubricas em prosa no estiramento quilométrico do verso, e para que o alexandrino perdesse a harmonia que provinha da fusão{62} de dois versos de seis sílabas, fizeram-no tripartido, privando-o da cadência que deleitava o ouvido.

Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do romantismo

Prosa e verso têm balizas,

exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e lógica: que os poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto à pureza da língua, João Penha não se mostra menos intransigente. Ainda o ano passado lembrava ele ao sr. Antero de Figueiredo o conhecido conselho de mestre Boileau:

Sans la langue... l'auteur le plus divin

Est toujours, quoi qu'il fasse, un méchant écrivain.

Assim, pois, não lhe regalarão decerto o ouvido puritano as inovações bárbaras de quase todos os poetas modernos, alguns de incontestável{63} valor, à parte os vícios de escola, como por exemplo o sr. Júlio Brandão, quando diz:

E cítaras balança um coro vago de pucelas. Rostos morenos, brunos, pálidos, divinos.

Espero apreciar em breve, individualmente, a coorte revolucionária dos modernos poetas portugueses. Ver-se-há então que admiro a concepção genial de uns, e que faço justiça a todos.

Mas encontro-me com João Penha no que reputo a disciplina indispensável da arte e da língua, conquanto bastasse talvez dizer—da arte. E estou em oposição a Guerra Junqueiro quando afirma que a moderníssima evolução poética rasga horizontes inéditos, «sobretudo no ponto de

vista da forma e da expressão.»[9]

P. de Varzim—Novembro de 1893.

 

FIM

 

[1] Palavras suas em anotação ao volume dos Simples.

[2] «De uma visão mais intima e profunda do universo

germinaram em mim novas emoções, e portanto uma nova arte. O

poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento psicológico, e

não apenas uma evoluçãozinha toda literária, meramente verbal e

de superfície.»

[3] «Enquanto à técnica do poema, muitíssimo havia que dizer,

se esta nota não fosse escrita rapidamente, com o impressor à

espera.»

—Notas aos Simples.

[4] Morte de D. João.

[5] A Velhice do Padre Eterno.

[6] A plástica desta quadra foi alterada na sua transplantação da

Folha para as Rimas.

Dera um quartilho do meu sangue azul

(Oh meus avós, estremecei na campa!)

Por dar-te um beijo no chapim taful,

Que esconde um pé, de se gravar na estampa.

Tal era, na Folha, a primitiva feitura. A originalidade do

pensamento nada perdeu, e o sistema métrico decimal foi respeitado. Dizer-se que os bacharéis em direito são os primeiros a desacatar a lei!

[7] Expostas no prefacio à Tristia de Antero de Figueiredo.

[8] Vésperas; pág. 219.

[9] Prefacio ao Livro de Aglaïs.