Poetas do Minho I: João Penha

Alberto Pimentel · Capítulo 6 de 10

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Poetas do Minho I: João Penha

Capítulo I

João Penha.

 

«... Quem publica um livro não o faz para o ler, publica-o

para que os outros o leiam. Quer, portanto, produzir um

efeito qualquer, efeito que, em todo o caso, não pode ser

o do sono: para este há o opio, a Beladona e o Código do

Processo Civil.»

João Penha.

 

I

 

Há quinze dias, João Penha e eu, sentados no mesmo

banco do americano, vínhamos do Senhor do Monte para Braga, e conversávamos de literatura. Nomes de autores, nomes de livros, recordações dispersas, do tempo em que ele redigia a Folha em Coimbra e eu lhe enviava do Porto algum insignificante auxilio de colaborador, passavam rapidamente na precipitação{8} tumultuante do dialogo, a cada momento interrompido pelas paragens do tramway, pela entrada e saída de passageiros, pela voz autoritária do condutor, que explicava em dialecto calaico:

—Bai cheio. Num há lugar.

Tendo João Penha aludido a mais de um dos poetas, que

constituíram a constelação académica da Folha, para entrelembrar casos e anedotas da boémia coimbrã, disse-lhe eu de repente:

—Por que não escreve as suas memorias de Coimbra?

—Não tenho tempo, respondeu ele. Encheriam três volumes.

Três volumes, de certo, porque João Penha foi o chefe de um cenáculo numeroso, que viveu na alegria e nas letras, que teve aventuras e triunfos, e que legou aos cursos subsequentes uma gloriosa historia ainda hoje rememorada com prestigio na tradição académica.{9} Ele, erguido no pedestal que o voto unânime dos seus contemporâneos lhe havia consagrado, via do alto, como um ídolo, toda a nervosa multidão da academia, que o adorava, observava todas as evoluções caprichosas dessa legião gentilissima de rapazes talentosos, que se moviam em torno dele, conhecia todos os segredos da biografia de uma geração, que há de ficar eternamente lembrada. Três volumes, pelo menos, e não seriam de mais.

Mas percebe-se que lhe custe meter ombros a um labor de reconstrução histórica em que a pena seria como um estilete a revolver dolorosamente o coração saudoso do escritor. Eu mesmo, que apenas segui de longe toda essa altívola mocidade académica, ouvindo reproduzida a distancia a sua voz no fonógrafo literário da Folha e de uma boa dezena de poemas, eu que senti rolar até mim a lava candente do vulcão sem assistir{10} ás tempestades explosivas da cratera, eu próprio experimento a vaga nostalgia da Coimbra daquele tempo vendo envelhecer em Lisboa, na prosa da burocracia, do foro, do professorado e do parlamento, os poetas que há vinte anos constituíam a ala vitoriosa dos novos comandada por João Penha.

E, mais infelizes ainda, os que hoje não fazem leis, nem minutas, nem agravos, nem compêndios, dormem prematuramente o somo da morte na apoteose serena, sem invejas, mas também sem desilusões, daqueles que, como Gonçalves Crespo, brilharam pelo clarão do seu talento, e passaram como um meteoro fugitivo.

Tive Gonçalves Crespo por companheiro na Redacção da

Câmara dos Pares. O seu espírito doirava-se ainda de um reflexo de alegria, sem constrangimento, que era como que o último elo da sua tradição académica. Tinha passado de Coimbra para Lisboa serenamente,{11} sem tempestades da vida, que envelhecem a alma antes do alvejar da primeira cã. Na paz domestica do seu lar, a morte foi como um salteador que surpreende um viajante a dormir na pousada, e o estrangula entre dois braços de ferro num momento. Os outros que ficaram ainda, são como as árvores no Outono, que dia a dia vão sendo sacudidas e abaladas pela nortada agreste, que anuncia o inverno.

É difícil adivinhar hoje na melancólica indiferença de Simões

Dias, que passa através de Lisboa com o ar desleixado de um provinciano aborrecido, aquela brilhante alma meridional do poeta das Peninsulares, onde cantavam serenatas da Andaluzia e rouxinóis do Mondego.

Cândido de Figueiredo, cuja musa era das mais crentes,

embora não fosse das mais vulcânicas, cansado de repartir os restos da sua mocidade entre a cátedra de professor{12} e a Secretaria da Justiça, correu ao encontro da velhice, denominou-se voluntariamente Caturra, atirou-se ás questões de filologia, e conseguiu tornar-se rabugento contra os que escrevem aereonauta com um e supérfluo.

Este correctíssimo poeta da Folha é hoje um suicídio

ambulante. Mata-se a ensinar a língua portuguesa a quem a não quer saber. Já um ministério lhe receitou, como distracção, o Governo Civil de Vila Real. Cândido de Figueiredo viu o Marão resplandecente de neve, e não o cantou. Apenas recolheu a Lisboa, deu-se pressa em publicar Novas lições praticas da língua portuguesa.

Não era poeta, poeta de fazer versos, embora tivesse começado por aí, como todos, mas tinha assomos de graciosa imaginação quando romantizava na Folha as lendas do alto Alentejo, um que só doutorou em direito, e estuda e encalvece como todo o bom lente, e apenas sai dos braços de Minerva na{13} Universidade para os braços do senhor José Luciano no Parlamento.

Esse, José Frederico Laranjo, tão amante de falar nos palratórios de Coimbra, vai estando tão mudado hoje, que já ninguém treme de medo quando ele pede a palavra na câmara.

—E Junqueiro? o nosso astral Guerra Junqueiro? perguntar-me-há o luciolante apostolado que o rodeia na cervejaria do Camanho.

Junqueiro, se houvéssemos de dar credito a todas as suas apreensões patológicas, está «precocemente chegado, pelo

sofrimento, ao ocaso da vida».[1] Sinceramente desejo que os factos venham desmentir esta apreensão.

Mas Guerra Junqueiro, meus senhores,{14} era na Coimbra daquele tempo, na Folha principalmente, a promessa florescente de um lírico primoroso, depois transviado, e a meu ver atormentado, pela preocupação constante de reformar a

estética [2] [3] [4] , a técnica , o Olimpo dos românticos, o paraíso

dos católicos [5], de fundar escola e de atingir a perfeição suprema no seu melhor livro, que, segundo o seu próprio conceito, são os Simples.

E talvez não sejam.

Em Coimbra, Guerra Junqueiro era, como{15} todos os outros, um satélite que gravitava em torno de João Penha, o chefe incontestado, antes adorado, do cenáculo, da boémia, e da Folha.

O tempo rolou a sua pesada mole por sobre as ilusões

desses rapazes que eram então a fina flor da geração académica. Deles, os que não estão ainda velhos por fora, começam a descair na tristeza, não direi do ocaso da vida, como apreensivamente afirmou de si mesmo Guerra Junqueiro, mas da experiência dura do mundo.

João Penha, o primaz da tribo, é advogado em Braga,

trabalha honestamente para sustentar a sua família. Está ao corrente de todas as novidades literárias que a França inventa e exporta, porque as recebe directamente de Paris em primeira mão, mas atura todos os dias, no seu escritório, uma chusma de clientes, que ás vezes, o que o contraria muito, o assaltam em plena rua, já depois{16} dele ter fechado o seu escritório ás duas horas da tarde, invariavelmente.

Outro dia, João Penha ia para o Bom Jesus do Monte, em

serviço—disse-me ele—ás sete horas da manhã. A seu lado, no tramway, um demandista estopante gritava para vencer a dureza de ouvido do advogado.

—O que eu quero, berrava o cliente, é ganhar a queston do

rego. Porque, snr. doutor, no rego é que está a grande maroteira dela. (Ela era a parte contraria, uma mulher).

Questão de águas: a mais generalizada espécie de litígios

no Minho.

João Penha, de charuto ao canto da boca, ouvia

imperturbavelmente resignado e silencioso. Os outros passageiros sorriam disfarçadamente das frases equivocas do demandista. Filado pelo cliente, João Penha era, naquela hora, sob o céu azul, radioso de sol, uma vitima do Direito, que legisla sobre regos e outras coisas mais;—do Direito que{17} ele pudera amenizar em Coimbra com as sátiras escritas na aula, com os sonetos publicados na Folha, com a boémia alegre das Camêlas e do Homem do gás.

Agora, em Braga, o Direito esmagava-o como a clava de Hércules. Fazia dó, fazia pena ver João Penha torturado nos colmilhos de um litigante obsesso, a quem ele não podia responder, com um repente de Bocage, num epigrama vingador.

Não me atrevi a arrancar João Penha das garras do cliente. Mas à volta do Bom Jesus, tornando a encontrar-nos no mesmo americano, interpus-me ao demandista e a ele, e conversamos de varia literatura,—muralha da China Contra a qual esbarraram, infrutiferamente, duas investidas do brácaro Chicaneau, que parecia recortado dos Plaideurs de Racine.

Aqui esta no que veio a dar aquele belo espírito do maior improvisador e do maior boémio da Coimbra de há vinte anos! {18}

Ó salgueirais do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da tasca das Camelas, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flor dos rapazes desse tempo, chorai por ele e.... por vós!

Colhi em Braga informações sobre o viver de João Penha transformado. Tem, como advogado, uma grande clientela posto não vá nunca ao tribunal. Mas a sua competência em questões do cível não sofre rivalidade. Escrevendo nos processos, é um jurisconsulto de primeira ordem.

Às duas horas da tarde fecha impreterivelmente o escritório. Os clientes voltarão, se quiserem, no dia seguinte. Mas voltam sempre.

À noite, João Penha, invariavelmente de luvas pretas, monóculo posto, frequenta a confeitaria do Anacleto à rua de S. Marcos. Uma coincidência leva-me a suspeitar que João Penha rivaliza na gulodice de bolos finos com o glorioso Sampaio da Revolução, de veneranda memória. Vindo todos os anos à Póvoa{19} de Varzim, na época de banhos, é na confeitaria contigua ao Café Chinês que ele aparece ás noites, sempre de luvas, correctamente vestido, sobraçando ás vezes um pacotinho de doces.