Poetas do Minho I: João Penha
Capítulo II
Que ao menos o saboroso bolo de coco possa adoçar as
horas amargas da sua banca de advogado!
—Sr. dr., dizia-lhe o demandista quando todos apeámos do
americano no Campo de Santana, olhe que a queston do rego tem furo. Num m'a avandone.
E João Penha, sorrindo, voltado para mim, repetia-me:
—Não se esqueça de ler a Nature de Holinat. É soberba!
Ó salgueirais do Mondego, lamentai-o! Ó musa alegre da
tasca das Camelas, cobre de luto a tua face mésta! Ó fina flor dos rapazes desse tempo, chorai por ele e... por vós!{20} {21}
II
Na individualidade literária de João Penha há a distinguir o
poeta da boémia, e o poeta do amor.
São dois homens reunidos num único homem. O primeiro é
o estudante que frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrizando-se nas libações e nos improvisos; que canta os paios do Alentejo, o presunto{22} de Lamego e os falernos da Beira; que satiriza os lentes e adora a Cabula; que vê formar-se em torno de si o numeroso cenáculo a que preside com o aplauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de alegria e de mocidade, ele consubstancia numa saliente concretização pessoal.
Os seus versos, as suas anedotas de boémio noctívago correm ainda hoje na tradição universitária, impregnados desse fugitivo sachet de vida antiga, que é a gloria melancólica dos velhos e o ideal ambicioso dos novos.
A baiúca da Camela, sem ele, ficou solitária como um templo vazio.
Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de monóculo no olho, capa traçada, numa atitude elegante e vigorosa de Apolo de Belvedére, cantando no templo, sob um imaginário baldaquino de folhas de parra verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do álcool.{23}
Oh vós, que do canto sois velhos fregueses,
Ouvi destas liras o mélico emprego!
Nós somos as gemas, os bifes ingleses,
Os paios das filhas do claro Mondego.
Sorri-nos a vida nos cálices cheios.
Dos roxos falernos das parras da Beira;
Sorri-nos a Céres dos túmidos seios;
Sorri-nos dos bosques a Vénus ligeira.
Nos mostos papiros da ciência moderna
A droga se encontra que ao sono convida;
Queimemo-los todos, que só na taberna
Os livros se encontram da ciência da vida.
Ao vento os cabelos! por montes e vales
Corramos no passo das gregas coreias!
Bacantes das praças, vibrai os címbales!
Abri-nos as portas, gentis Galateias!
A lenda das noites das Camelas, personificada em João Penha, subsistiu como uma das seduções tradicionais da vida académica.
António Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas
novíssimos, o que tem mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma moderna, torturada pela nevrose,{24} confessa a sugestão dessa lenda boémia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pira sobre o tampo dos toneis impantes:
......... A Tasca das Camelas
Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrelas.
Mas quando António Nobre chegou a Coimbra, uma barreira
de vinte anos, espessos como vinte séculos, separava da tasca das Camelas a pessoa do doutor João Penha, advogado nos auditórios de Braga. A alma espumante e radiosa das noites da boémia partira-se como a tapa das últimas libações; partira-se, e partira. No templo reinava o luto silencioso das lendas de antigos castelos abandonados por príncipes cujo destino é ainda um mistério. E António Nobre, relanceando os olhos tristes pela solidão tenebrosa, teve esta explosão de desespero truculento:
Tia Camelas... só ficou a camelice.{25}
O que lembra uma situação análoga cantada por Delile nos
Jardins:
......... Tele jadis Carthage
Vit sur ses murs détruits Marius malheureux.
Dir-se-ia que tinham desaparecido com João Penha e com o
seu tempo essas telas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camelas; painéis pagãos, dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fábula parecia sorrir ainda, coroada de pâmpanos, no verso báquico do autor do Vinho e fel:
Dá-me esse onagro de vigor silvestre,
E os odres fundos, oh Sileno antigo:
Ensina-me na dor: só tu és mestre.
Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum mármore de Pradier em que uma Bacante andaluza, cingida nos braços de um Sátiro inspirado, parecia entoar um ditirambo amoroso, cortado{26} de evohés e de beijos, e de que só restava, inscrito no sóco da escultura mutilada, um sonetilho de João Penha:
Oh poetas d'água fria!
Dizei-me: a vossa musa.
Será como a andaluza
Que as noites me abrevia?
Olhai-a: que poesia!
Na dórna da Aretusa
Lá enche agora a infusa
De clássica ambrósia,
E aos lábios de cereja
Eleva, airosa e rindo,
O copo de cerveja!
Oh quadro novo e lindo!
Musas, chorai de inveja,
Musas, descei do Pindo!
Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anedotas, os episódios das noites das Camelas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição dessa boémia extinta, que{27} soa ao longe, e que exalta a imaginação dos rapazes. Para António Nobre era um «sonho», que o atraiu a Coimbra, como a devoção de Meca atrai o árabe.
Ele tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando na Tasca sem perder a donairosa compostura de um gentleman, que jamais esquecia as luvas e o charuto, se limitava a esvaziar uma «taça», nome aristocrático com que nas Camelas a boémia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da Tia Maria, João Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de mistério, segredava:
—Repita a dose para um envergonhado, que está ali fora...
Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha
esvaziava a segunda «taça», simulando passá-la à mão de um embuçado de melodrama.
António Nobre conhecia a tradição, a anedota, o pitoresco
da lenda, mas, quando{28} chegou a Coimbra, apenas restava da boémia de João Penha, na Tasca das Camelas e na Via Latina, a lembrança de que passara outrora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo secou.
Tia Camelas... só ficou a camelice.
A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que
resta de João Penha boémio.
Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade
vêm contar as sátiras, os epigramas que ele deixou gravados na memória das gerações.
Todos eles sabem de cor o famoso caso do incêndio, que
João Penha noticiava para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade bíblica, um castigo do céu, que o deixara despojado de todos os seus escassos haveres de estudante:
Foi um incêndio voraz!
Parecia a própria Gomorra!{29}
E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face
ouvindo repetir, na chalaça de Coimbra, a frase atribuída aos lábios castamente impolutos de uma boca impecável, onde só os eufemismos floriam como lírios brancos.
Conheci em Lisboa, de o ver no parlamento, o irmão de
João Penha, também advogado, e nesse tempo deputado por Braga.
Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão, costumava dizer dele:
—O seu único vício sou eu.
De improvisos feitos na aula, escritos sobre o joelho e transmitidos de bancada em bancada, ficou em Coimbra memória imperecível, que irradiou até à raia do Minho e até à raia do Algarve, como uma lenda nacional.
Perderam-se para a bibliografia os dois jornais, o Zabumba e a Gaita de foles, que{30} João Penha publicou na Sebenta, no quarto e quinto ano; mas as quadras e sonetos, em que a alegria mordaz esfuziava diariamente nessas folhas avulsas, salvaram-se para a tradição, que ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites de Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos epigramas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por exemplo, o do Pinto Lambaça!
Em pé, diante do Brito,
Dá lição Pinto Lambaça:
Parece a voz do Infinito
A sair duma cabaça!
E aquele outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini Encarnação?
Tamagnini Encarnação
Tem na ponta do nariz
O colorido feliz
De uma rosa do Japão.{31}
E ainda aquele que joga de vocábulo com o nome do condiscípulo Ennes:
A letra dos teus assuntos
Bem nos demonstra quem és:
Vale dois nn bem juntos, É letra de quatro pés.
Há poucos dias, no In ilo tempore das Novidades, li o
epigrama com que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches da Gama:
Dizem que o Sanches embirra
Que lhe vão pedir dispensa.
Forte asneira!
—Imagina que lhe pedem
A despensa
Onde tem a salgadeira...
Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto
A um doutor Pedro, que pode ser considerado, o soneto, como inexcedível na profundidade do conceito. Pelo que{32} toca ao doutor, a tradição universitária apenas o considera inexcedível no esguio da figura;
E vimos uma forma horrenda e bruta
Surgir do lodo vil com gesto iroso,
Como outrora, no Cabo Tormentoso,
O velho Adamastor de barba hirsuta.
—«Quem és tu?» eu lhe disse.—«Bardo, escuta,
(Bramiu com voz ingente e desdenhoso)
Eu sou no espaço infindo e luminoso
O verbo ideal da estupidez corrupta.
«Na terra sou Penedo: e o mar violento,
O mar das ciências vãs da humanidade,
Já quis vencer-me, e foi baldado o intento!»
Disse. E ouvimos naquela obscuridade
O cântico dum trémulo jumento:
—Era o preito da terra à Imensidade.
Sobre os inextinguíveis vestígios desta sátira têm
caminhado as gerações subsequentes, cantando o doutor incomensuravelmente filiforme. António Nobre também molhou a{33} sua sopa no capelo que encima o zingamôcho do catedrático zangaralhão:
Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
Que feliz sou, bom velho, em estudar contigo!
Mal diria eu em pequenito, quando a ama,
Para eu me calar, vinha fazer-me susto à cama
Por ti chamava: Pedro! e eu sossegava logo,
Que eras tu o Papão! A ama, de olhos em fogo Imitava-te o andar, que não era bem de homem... Eu tinha birras:—Aí vem o lobisomem!
Dizia ela.—Bate à porta! Truz! truz! truz!
E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus!
Nas mais alucinantes tempestades de entusiasmo académico a musa de João Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, atraía todas as atenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela gentileza patrícia do verbo flamejante, como no soneto A uma rabequista:
Eu dera um litro do meu sangue azul,
(Oh meus avós, não fulmineis o herege!){34} Só por beijar-te, no chapim taful,
O pequenino pé, que orquestras rege![6]
A respeito desta rabequista, que era uma italiana lindíssima, dizia-me há pouco João Penha:
—O Manuel da Assumpção queria casar com ela e eu dissuadi-o desse intento... por ciúmes.
Pobre Manuel! ele foi o primeiro romântico do seu tempo, como João Penha foi, na{35} frase de Gonçalves Crespo, o último estudante de Coimbra.
Naquela quadra, como na organização artística de João Penha, incluindo a sua modalidade de boémio, há um cunho brasonado de vieile roche das letras. Conservador como a melhor nobreza parisiense do bairro Saint Germain, ele ama a tradição da Arte, os velhos pergaminhos da língua, a lição clássica dos mestres, a compostura aristocrática da frase, que não chega a desfraldar-se no epigrama, nem a esbagaxar-se na sátira. Canta o Paio de luva branca, sem que fique na pelica uma nódoa de gordura. Canta o Vinho, sem entornar no colarinho a mancha roxa da borra. E se passa da tasca das Camelas para o salão nobre da Poesia madrigalesca, substitui facilmente a batina rota pela casaca broslada, é um cortesão de Luís XIV quando empunha a taça, refulgente de áureas facetas, para brindar as damas delicadas:{36}