Poetas do Minho I: João Penha
Capítulo III
Tal é, rapidamente tracejado, o perfil lendario de João Penha bohemio, do poeta da alegria e da mocidade, que improvisava nas tascas do Homem do gaz, do Varão do Luxemburgo, do Conselheiro Rodrigo, e da Tia Maria Camêlla.
Mas esse improvisador errante, que a borga arrastava de taberna em taberna, não descalçava nunca as luvas, nem para beber, nem para cantar. Era um artista de raça, que adorava o primor da fórma. Sob este ponto de vista João Penha e a Folha exerceram uma sensivel influencia. O soneto da escola italiana, tão abandonado como antiqualha árcade depois de Bocage, resurgiu no acuro parnasiano{37} de João Penha. E todos os da Folha, que navegavam na esteira do mestre, sahiram excellentes artistas no cinzelamento esculptural da fórma litteraria: Crespo, Junqueiro, Simões Dias, Candido de Figueiredo, etc.{38}
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III
Para João Penha, como poeta lyrico, o amor parecia não ser mais que uma idealisação, uma phantasia de artista.
Eu não encontrava, nos sonetos do Vinho e Fel, a abstracção absorvente de Petrarcha, a paixão abrasadora como lava, o Vesuvio que vulcanisa o coração, reduzindo-o a cinzas.
A Ironia andava de braço dado com o{40} Amor, no lyrismo de João Penha, mais como um effeito pittoresco da Arte, suppunha eu, do que como a crua expressão da Verdade.
Não descobria atravez das Rimas o typo constante, persistente, de uma mulher, embora se me affigurasse que de recordações avulsas e de perfis differentes creára o poeta o elemento feminino dos seus poemas.
Nunca os versos de João Penha me deram, na taça do
Vinho e Fel, a impressão de uma grande catastrophe psychologica, que lhe precipitasse a alma na voragem do scepticismo.
Parecia-me que a sua musa obedeceu á orientação
romantica, que se comprazia em polvilhar de gottas de fel, como um effeito decorativo, puramente ornamental, a corolla das flôres ideiaes do Sentimento.
É verdade que no escrinio das Rimas havia a miniatura de
uma mulher, mas eu considerava-a, se me permittem a expressão, um retrato de phantasia:{41}
Um rosto encantador, quasi moreno,
De uns grandes olhos verdes animado:
Negro o cabello, em tranças ennastrado;
Correcto o supercilio, iris sereno;
Vermelho o labio, sorridente e ameno;
Breve a cintura; o collo, assetinado;
Um donaire, das outras invejado;
Magras as mãos; o pé, leve e pequeno:
Eis a dama por quem chorando anhélo!
Rival das graças do cinsel iónio,
Mas fria como a neve: o meu flagello!
Eis a minha Nathercia, o cruel demonio
Por quem vivo perdido, mas tão bello
Que nem lhe resistira Santo Antonio!
Este soneto affigurava-se-me como o primeiro elo de uma
concepção artistica de poeta, de um plano litterario preconcebido, que visava a produzir effeitos pela antithese do Amor e da Ironia, pelo contraste da veia alegre do bohemio com a inspiração sentimental do lyrico.
Assim não tardava muito que a musa dicaz do epigramma deixasse cair sobre o retrato da{42} primeira pagina o peso de um paio roliço de Lamego, que se esborrachava em rúbidas gorduras sobre a miniatura delicada:
Mal pode phantasiar-te a mente accêsa
Tão gentil como quando, venturoso,
Te vi a vez primeira, ébrio de goso,
Estatico de pasmo e de surpreza.
Que prodigio de esplendida bellesa!
Que labios, que sorrir, que olhar piedoso!
Que opulento cabello... um mar undoso
Onde escondêras a gentil nudeza!
Assentada n'um banco de verdura,
Junto á margem do múrmuro Mondêgo,
De um Corregio vencêras a pintura.
Ai! perdi, desde então, paz e socego:
Se estavas tão graciosa em tal postura,
E comias um paio de Lamego!
E logo, como na travação logica de um poema, cuja traça foi gisada calculadamente, o paio continuava a materialisar a desillusão do poeta, que não encontrava na realidade{43} da vida a mulher ideial das suas noites de phantasia romantica.
O paio parecia-me na obra de João Penha um symbolo de salutar desengano para os que criam na espiritualidade ethérea da mulher e que, regressando alquebrados do Paiz do Sonho, ainda podem achar rehabilitação salvadora na despensa, no réstaurant, e na cava.
És minha, és minha, oh venturoso fado!
Cedeste á chamma que em meu peito alento!
Chegou por fim o divinal momento,
O dia de meus sonhos anhelado!
O ceu, ha pouco tôrvo, eil-o azulado:
Sussurra esmorecido ao longe o vento;
Esplende o sol no ethereo firmamento;
Recende aromas o florente prado.
Quando ha pouco a teus pés (oh quadro lindo!)
Te disse o meu amor, em doce esmaio
Senti volupias de um prazer infindo.
Oh camênas agricolas, cantai-o!
Ella, a minha formosa, ella fugindo,
Deixou-me o coração, deixou-me o paio.{44}
Desfeito o sonho, fica nas mãos do poeta como um refem da
sua esperança perdida, das suas illusões derrotadas, o paio,— a porção mais subjectiva do eu espiritual da dama, o paio, um symbolo, o paio, uma philosophia, como o porco do rebanho de Epicuro, Epicuri de grege porcus.
Se alguma duvida pudesse restar sobre a interpretação
d'este symbolo culinario, que atravessa toda a obra do poeta, bastaria a desvanecêl-a a clara exegése d'este soneto:
Aquella Rosa branca, a flor mais viva
Dos jardins olorosos de Granada,
Já não parece a flor enamorada,
Triste por viver só, viver captiva.
Outr'ora, em seu mirante, pensativa,
Muitas vezes a luz da madrugada
A via entre boninas, enlevada,
Nos sons d'uma guitarra fugitiva.
Agora, a Beatriz do Poeta abstruso,
A Elleonora das canções do Tasso,
A Nathercia gentil do cantor luso,{45}
Sol perdido em nevoeiro escuro e baço,
A citharas prefere a roca e o fuso,
Aos meus cantos,—presuntos de Melgaço!
Sente-se na symbolica de João Penha a alma alegre de
uma geração que teve sangue, que teve vigor, que adorou a vida porque a podia gosar.
Respira-se ahi o aroma aperitivo de um succolento jantar fradesco, como na antiga cosinha dos bernardos de Alcobaça, que ainda hoje, apesar de vasia, dá a impressão do apetite saluberrimo da ordem de Cistér.
Como que se ouvem os passos dos leigos conduzindo da copa os cangirões bojudos, da ucharia as viandas gelatinosas, e da frescura dos coutos, regados por agua diamantina, as fructas deliciosas e maduras.
Um braço invisivel parece encaminhar o nosso espirito á vasta mesa do refeitorio cisterciense, onde a gula monastica levanta castellos de comesana macissa, que o apetite{46} voraz ha de em breve vencer e desmoronar.
Sóbe ao pulpito, emquanto os outros devoram pingues vitualhas, um prégador aguado, que, com os olhos postos no gordo repasto, falla, sem fé e sem uncção, da diabolica attracção dos sete peccados mortaes, que os setecentos filhos de S. Bernardo ali reunidos devem a todo o custo evitar.
E especifica: a soberba, a avareza, a luxuria...
Deglutindo truculentamente, um velho frade, saturado do mundo, dirá para o fundo do prato com os seus botões:—Que mulher conheci eu por lá que valesse esta bella petisqueira d'Alcobaça?
Assim João Penha, como o bernardo guloso, exclama no soneto:
Cantai-me a vida, e o sonho transitorio!
Cantai, emquanto á dor busco remedio
Nos vastos caldeirões do refeitorio.
A raça, no breve lapso de vinte annos,{47} hysterisou-se excessivamente em nervosismos e melancolias, que allucinam funebremente o cerebro dos poetas modernos.
Vede bem! João Penha cantava o Paio, celebrava o
Presunto, preconisava a Vida, ao passo que Antonio Nobre deixa entenebrecer o seu espirito no symbolismo tetrico da Velha (a morte) e do Hotel da Cova (a sepultura).
E, todavia, Coimbra, onde um gozou e o outro se aborreceu,
continua a ser talqualmente a mesma, pesa sobre a Universidade a mesma Torre de pedra, sobre os hombros do doutor Pedro a mesma Torre de sciencia, ha o mesmo cheiro a lente cathedratico e a bolôr auctoritario, a Pandecta rançosa falla ainda mais alto que toda a concepção do Direito moderno explanada pelo snr. M. Fratel, porque, n'essa Coimbra vetusta, ha só uma coisa que falla mais alto que a Universidade,—é a Cabra.
Continuando o meio a ser o mesmo, sendo{48} mesmissima
a atmosphera social onde a mocidade academica respira, é claro que a variedade das impressões recebidas se ha de explicar pelas condições especiaes, tanto psychicas como physicas, do individuo que as recebe.
Assim, pois, temos em João Penha a musa viva que floresce
o amarantho, rubro como a purpura e como... o paio: em Antonio Nobre temos a musa languida que desabrocha a pállida cecém, perfumada, mas branca como a neve.
Depois de haver escripto a Carta a Manoel, Antonio Nobre,
sedento de ideiaes consolativamente calmantes, vai, luziada errante, procurar a Vida no Bairro Latino, e lá mesmo se encontra só e desgraçado.
João Penha, durante o seu tempo de Coimbra, saltou, como
um funambulo, por sobre todos os desgostos do amor intimo, sem entornar a taça repleta de phalerno.{49}
Não ha dôr que resista a um vinho ardente,
Nem ao facil amor de uma hespanhola.
Porque a verdade, ao contrario do que eu e outros poderiamos suppôr de longe, enganados pela apparencia picarescamente ironica dos versos de João Penha, a verdade é que elle amou, embora não andasse lutuosamente vestido de almáfega, nem passeiasse merencorio e sinistro como os bardos melodramaticos, que aliás caricaturou.
Os humoristas levam ás vezes a estes erros de apreciação, porque, em vez de fazerem da sua dôr um poema, segundo a expressão de Goethe, fingem que lhe sopram, como a uma nuvem de fumo, para dissipal-a...
No fundo da biographia de João Penha está effectivamente a memoria de um amor, que inspirou O Vinho e Fel e O Tancredo, poema no genero do Onofre, e que, como muitas outras composições, perdidas, ou publicadas em jornaes, não sahiu nas Rimas.{50}
—Nós em Coimbra, dizia-me João Penha, bebiamos, não para apagar a sêde ou para afogar paixões,—mas para dar tom aos nervos e activar os movimentos do machinismo intellectual. Todavia não deve esquecer-se que o vinho é o grande consolador dos tristes: date vinum moerentibus et lætobunt...
Esta phrase rasga o véo de um segredo, que o vinho letificante diluiu na taça da bonomia.
Mas ri-se como quem chora,
O bardo das scenas varias,
Qual ri o mocho sombrio
Sobre as loisas funerarias.
A noite na adega esconsa,
D'uns candís á luz escassa,
Quantas vezes não procura
O esquecimento na taça!
.......................
Que já li sobre uma lage,
Occulta, n'umas cavernas,
Este sinistro epitaphio
Do phantasma das tabernas:
«Aqui jaz o bardo triste
Junto á bella Carolina:{51}
Riu-se a bella do rapaz,
Riu-se o rapaz da menina.»
Mais de um rugido de paixão leonina estruge na adêga
esconsa, á luz fumenta dos candis, emquanto a tia Camêlla despeja do pichel um gorgolão vermelho de phalerno:
Venho pedir-te o retrato
Que te dei por amisade:
Não quero servir de ornato
Nos alcouces da cidade.
Quero laval-o nas ondas,
Que gemem na praia agreste,
D'aquellas manchas hediondas
Dos beijos que tu lhe déste.
Quero arrancar-lhe a moldura,
O teu cabello, e trocal-o
Por uma trança mais pura
Das crinas do meu cavallo.
Estes gritos de desespero fazem lembrar aquella sazão
plena de romantismo, em que Dumas Filho obtinha um duplo triumpho no romance e no palco quando Armand Duval arremessava a bolsa recheiada de oiro á face de Margarida Gautier.{52}
És da raça dos Borgias! vocifera o poeta, mas traça a capa
de estudante, e vai procurar o contra-veneno da paixão
... nos bôjos da amphora vetusta.
Diz Gonçalves Crespo que a mulher amada do poeta poz,
um dia, o pé no estribo, e partiu para Lisboa. Mas a verdade é que quem partiu foi elle, deixando-a a ella, aos sinceiraes do Mondego, ao Paiz azul do sonho e á vida murciana de Coimbra. N'essa hora surgiu mais um advogado em Braga.
Poderiam, erradamente, suppol-o voluvel, inconstante no amor os que não conheciam os segredos da sua biographia, que a resposta não tardava, prompta e cabal:
Mais frio que Blondin sobre o Niagára,
Julgas minh'alma em vis paixões accesa;
E comtudo nas ostras da bellesa
Eu só procuro o amor, perola rara.
Mas, não encontrando a perola rara, tomava{53} o partido de comer ostras, temperando-as com pimenta e limão, e com o sorriso tolerante de Pangloss, para quem tudo era pelo melhor no melhor dos mundos possivel.
Convém notar que João Ponha deu o titulo de Lyra de Pangloss a uma das subdivisões das suas Rimas.
Sahindo de Coimbra, não chorava sobre as ruinas dos seus sonhos desfeitos, das suas illusões perdidas. Vinha desenganado, mas gordo. O espirito,
Aquelle meu espirito opulento,
Que vivia na luz dos sonhos bellos,
vira morrer os «ultimos anhelos», mas resistira, graças ao sabio formulario do doutor Pangloss. E o corpo, sadio e forte, continuou a florescer
... em tão doce obesidade,
Que dentro em pouco me vereis no transe
De tomar ordens e fazer-me abbade.
A gente sahe da leitura das Rimas tão bem{54} disposta como João Penha sahiu de Coimbra.