Poetas do Minho I: João Penha
Capítulo II
Na individualidade litteraria de João Penha ha a distinguir o poeta da bohemia, e o poeta do amor.
São dois homens reunidos n'um unico homem. O primeiro é o estudante que frequenta de noite as tascas de Coimbra, celebrisando-se nas libações e nos improvisos; que canta os paios do Alemtejo, o presunto{22} de Lamego e os falernos da Beira; que satyrisa os lentes e adora a Cabula; que vê formar-se em torno de si o numeroso cenaculo a que preside com o applauso e a admiração da academia inteira, cuja alma, cheia de alegria e de mocidade, elle consubstancia n'uma saliente concretisação pessoal.
Os seus versos, as suas anecdotas de bohemio noctivago correm ainda hoje na tradição universitaria, impregnados d'esse fugitivo sachet de vida antiga, que é a gloria melancolica dos velhos e o ideal ambicioso dos novos.
A baiuca da Camêlla, sem elle, ficou solitaria como um templo vasio.
Os que foram da geração de João Penha ainda de certo o recordam hoje de monoculo no olho, capa traçada, n'uma attitude elegante e vigorosa de Apollo de Belvedére, cantando no templo, sob um imaginario baldaquino de folhas de parra verdejando esmeraldas, a alegria eterna da alma rubra do alcool.{23}
Oh vós, que do canto sois velhos freguezes,
Ouvi d'estas lyras o mélico emprego!
Nós somos as gêmas, os bifes inglezes,
Os paios das filhas do claro Mondego.
Sorri-nos a vida nos calices cheios.
Dos roixos falernos das parras da Beira;
Sorri-nos a Céres dos túmidos seios;
Sorri-nos dos bosques a Venus ligeira.
Nos mostos papyros da sciencia moderna
A droga se encontra que ao somno convida;
Queimémol-os todos, que só na taberna
Os livros se encontram da sciencia da vida.
Ao vento os cabellos! por montes e valles
Corramos no passo das gregas choréas!
Bachantes das praças, vibrae os cymbales!
Abri-nos as portas, gentis Galathéas!
A lenda das noites das Camêllas, personificada em João
Penha, subsistiu como uma das seducções tradicionaes da vida academica.
Antonio Nobre, que eu julgo ser, de todos os poetas
novissimos, o que tem mais poderosas faculdades para traduzir as impressões da alma moderna, torturada pela nevrose,{24} confessa a suggestão d'essa lenda bohemia, que reproduz a Poesia ardendo como uma pyra sobre o tampo dos toneis impantes:
......... A Tasca das Camêllas
Para mim, era um sonho, o ceu cheio de estrellas.
Mas quando Antonio Nobre chegou a Coimbra, uma barreira
de vinte annos, espessos como vinte seculos, separava da tasca das Camêllas a pessoa do doutor João Penha, advogado nos auditorios de Braga. A alma espumante e radiosa das noites da bohemia partira-se como a tapa das ultimas libações; partira-se, e partira. No templo reinava o luto silencioso das lendas de antigos castellos abandonados por principes cujo destino é ainda um mysterio. E Antonio Nobre, relanceando os olhos tristes pela solidão tenebrosa, teve esta explosão de desespero truculento:
Tia Camêllas... só ficou a camellice.{25}
O que lembra uma situação analoga cantada por Delille nos Jardins:
......... Telle jadis Carthage
Vit sur ses murs détruits Marius malheureux.
Dir-se-ia que tinham desapparecido com João Penha e com o seu tempo essas télas vivas de Van Laar, que revestiram as paredes das Camêllas; paineis pagãos, dignos de Ticiano e de Poussin, onde a Fabula parecia sorrir ainda, coroada de pampanos, no verso bachico do auctor do Vinho e fel:
Dá-me esse onagro de vigor silvestre,
E os ôdres fundos, oh Sileno antigo:
Ensina-me na dor: só tu és mestre.
Dir-se-ia que a rija cimitarra do vandalismo havia despedaçado algum marmore de Pradier em que uma Bachante andaluza, cingida nos braços de um Satyro inspirado, parecia entoar um dithyrambo amoroso, cortado{26} de evohés e de beijos, e de que só restava, inscripto no sôcco da esculptura mutilada, um sonetilho de João Penha:
Oh poetas d'agua fria!
Dizei-me: a vossa musa.
Será como a andalusa
Que as noites me abrevia?
Olhai-a: que poesia!
Na dórna da Arethusa
Lá enche agora a infusa
De classica ambrosia,
E aos labios de cereja
Eleva, airosa e rindo,
O copo de cerveja!
Oh quadro novo e lindo!
Musas, chorai de inveja,
Musas, descei do Pindo!
Ainda rescaldam nos «cavacos» da academia as anecdotas,
os episodios das noites das Camêllas no tempo de João Penha. É capitosa a tradição d'essa bohemia extincta, que{27} sôa ao longe, e que exalta a imaginação dos rapazes. Para Antonio Nobre era um «sonho», que o attraiu a Coimbra, como a devoção de Meca attrae o arabe.
Elle tinha de certo ouvido contar que João Penha, entrando
na Tasca sem perder a donairosa compostura de um gentleman, que jamais esquecia as luvas e o charuto, se limitava a esvasiar uma «taça», nome aristocratico com que nas Camêllas a bohemia nobilitava o copo. E que, ao ouvido da Tia Maria, João Penha, com o ar de uma discrição cheia de orgulho e de mysterio, segredava:
—Repita a dóse para um envergonhado, que está ali fóra...
Na sombra do limiar, entreaberta a porta, João Penha
esvasiava a segunda «taça», simulando passal-a á mão de um embuçado de melodrama.
Antonio Nobre conhecia a tradição, a anecdota, o pittoresco
da lenda, mas, quando{28} chegou a Coimbra, apenas restava da bohemia de João Penha, na Tasca das Camêllas e na Via Latina, a lembrança de que passára outr'ora por ali uma onda de mocidade alegre, que o tempo seccou.
Tia Camêllas... só ficou a camellice.
A tradição em Coimbra, um advogado em Braga, eis o que
resta de João Penha bohemio.
Mas ainda hoje os rapazes que passaram pela Universidade vem contar as satyras, os epigrammas que elle deixou gravados na memoria das gerações.
Todos elles sabem de cór o famoso caso do incendio, que João Penha noticiava para Braga, ao irmão, como tendo sido uma calamidade biblica, um castigo do ceu, que o deixára despojado de todos os seus escassos haveres de estudante:
Foi um incendio voraz!
Parecia a propria Gomorra!{29}
E os manes do doutor Adrião Forjaz velam de pudor a face ouvindo repetir, na chalaça de Coimbra, a phrase attribuida aos labios castamente impollutos de uma bôca impeccavel, onde só os eufemismos floriam como lirios brancos.
Conheci em Lisboa, de o vêr no parlamento, o irmão de João Penha, tambem advogado, e n'esse tempo deputado por Braga.
Contava-se em Coimbra que o poeta, encarecendo as virtudes do irmão, costumava dizer d'elle:
—O seu unico vicio sou eu.
De improvisos feitos na aula, escriptos sobre o joelho e transmittidos de bancada em bancada, ficou em Coimbra memoria imperecivel, que irradiou até á raia do Minho e até á raia do Algarve, como uma lenda nacional.
Perderam-se para a bibliographia os dois jornaes, o Zabumba e a Gaita de folles, que{30} João Penha publicou na Sebenta, no quarto e quinto anno; mas as quadras e sonetos, em que a alegria mordaz esfusiava diariamente n'essas folhas avulsas, salvaram-se para a tradição, que ainda hoje os repete, como se estivessem sendo lidos, nas noites de Coimbra. Quantas vezes não tenho eu ouvido recordar em Lisboa muitos dos epigrammas de João Penha, improvisos feitos nas aulas, como, por exemplo, o do Pinto Lambaça!
Em pé, diante do Brito,
Dá lição Pinto Lambaça:
Parece a voz do Infinito
A sair d'uma cabaça!
E aquell'outro apontado ao nariz vermelho de Tamagnini
Encarnação?
Tamagnini Encarnação
Tem na ponta do nariz
O colorido feliz
De uma rosa do Japão.{31}
E ainda aquelle que joga de vocabulo com o nome do
condiscipulo Ennes:
A lettra dos teus assumptos
Bem nos demonstra quem és:
Vale dois nn bem juntos,
É lettra de quatro pés.
Ha poucos dias, no In illo tempore das Novidades, li o
epigramma com que João Penha alvejou a gastronomia proverbial do doutor Sanches da Gama:
Dizem que o Sanches embirra
Que lhe vão pedir dispensa.
Forte asneira!
—Imagina que lhe pedem
A despensa
Onde tem a salgadeira...
Agora e sempre me parece novo em folha o famoso soneto
A um doutor Pedro, que póde ser considerado, o soneto, como inexcedivel na profundidade do conceito. Pelo que{32} toca ao doutor, a tradição universitaria apenas o considera inexcedivel no esguio da figura;
E vimos uma forma horrenda e bruta
Surgir do lôdo vil com gesto iroso,
Como out'rora, no Cabo Tormentoso,
O velho Adamastor de barba hirsuta.
—«Quem és tu?» eu lhe disse.—«Bardo, escuta,
(Bramiu com voz ingente e desdenhoso)
Eu sou no espaço infindo e luminoso
O verbo ideial da estupidez corrupta.
«Na terra sou Penedo: e o mar violento,
O mar das sciencias vãs da humanidade,
Já quiz vencer-me, e foi baldado o intento!»
Disse. E ouvimos n'aquella obscuridade
O cantico d'um tremulo jumento:
—Era o preito da terra á Immensidade.
Sobre os inextinguiveis vestigios d'esta satyra teem caminhado as gerações subsequentes, cantando o doutor incommensuravelmente filiforme. Antonio Nobre tambem molhou a{33} sua sôpa no capêllo que encima o zingamôcho do cathedratico zangaralhão:
Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
Mal diria eu em pequenito, quando a ama,
Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
Que eras tu o Papão! A ama, de olhos em fogo Imitava-te o andar, que não era bem de homem... Eu tinha birras:—Ahi vem o lobishomem!
Dizia ella.—Bate á porta! Truz! truz! truz!
E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jesus!
Nas mais allucinantes tempestades de enthusiasmo academico a musa de João Penha era a sarça ardente que prendia todos os olhares, attraia todas as attenções pela originalidade fidalga do conceito, e pela gentileza patricia do verbo flammejante, como no soneto A uma rabequista:
Eu dera um litro do meu sangue azul,
(Oh meus avôs, não fulmineis o hereje!){34}
Só por beijar-te, no chapim taful,
O pequenino pé, que orchestras rege! [6]
A respeito d'esta rabequista, que era uma italiana lindissima,
dizia-me ha pouco João Penha:
—O Manoel da Assumpção queria casar com ella e eu
dissuadi-o d'esse intento... por ciumes.
Pobre Manoel! elle foi o primeiro romantico do seu tempo,
como João Penha foi, na{35} phrase de Gonçalves Crespo, o ultimo estudante de Coimbra.
N'aquella quadra, como na organisação artistica de João
Penha, incluindo a sua modalidade de bohemio, ha um cunho brazonado de vieille roche das lettras. Conservador como a melhor nobresa parisiense do bairro Saint Germain, elle ama a tradição da Arte, os velhos pergaminhos da lingua, a lição classica dos mestres, a compostura aristocratica da phrase, que não chega a desfraldar-se no epigramma, nem a esbagaxar-se na satyra. Canta o Paio de luva branca, sem que fique na pellica uma nodoa de gordura. Canta o Vinho, sem entornar no collarinho a mancha roixa da bôrra. E se passa da tasca das Camêllas para o salão nobre da Poesia madrigalesca, substitue facilmente a batina rôta pela casaca broslada, é um cortezão de Luiz XIV quando empunha a taça, refulgente de aureas facetas, para brindar as damas delicadas: {36}
D'este copo de vinho generoso
Dai-me que eu tire o alento que desejo,
Para que o novo canto, sonoroso,
Desfira na guitarra em doce arpejo;
E já que estou devéras amoroso,
Aproveito apressado um tal ensejo
Para erguer á leitora, que me escuta,
Um brinde que me deixe a taça enxuta.