Poetas do Minho I: João Penha
Capítulo IV
Ordinariamente um livro de versos, especialmente os
modernos, deixam no nosso espirito a impressão de um cemiterio sombrio, umbroso de cyprestes e chorões, dealbado de mausuleos luarentos, como diria um nephelibata, e de cruzes tiritantes de frio na gelida nudez do marmore.
Pelo contrario, as Rimas de João Penha são como um
pomar do Minho, uberrimo e cantante, onde a côr dos fructos se tinge de tonalidades sadias, onde o despenho da agua sobre a relva viçosa espuma em borbotões sonoros, e onde os passaros, nas latadas verdes, assobiam n'uma bambochata feliz de collegiaes em liberdade.
É com a impresão de ter visitado um d'estes pomares
feracissimos e alegres que a gente fecha o volume das Rimas. {55}
IV
Em litteratura, João Penha é hoje, como hontem, um
conservador convicto, um idealista, um romantico, intransigente, mas brilhante de originalidade saudavel.
As suas opiniões são conhecidas.[7]{56}
Para elle a escola romantica, sem estar subordinada a uma
unica e determinada philosophia, porque não ha relação proxima ou remota entre os seus trez grandes poetas, Lamartine, Hugo e Musset, resistirá a todos os golpes que lhe vibrem os revolucionarios da litteratura, será eterna, porque eternamente o homem «perseguido pela realidade, se refugiará, pelo menos durante algumas horas do seu dia, no mundo das illusões.»
Na escola romantica, o que impressiona, o que commove, é a obra em si mesma, ao passo que na escola naturalista apenas se admira o auctor pelo seu talento de observação.
João Penha distingue entre escola naturalista e escola realista: n'aquella, é licito admittir «personagens excepcionaes, casos que não sejam communs»; n'esta, os modelos são vulgares, «as cousas são descriptas, não como o artista as possa vêr, mas como a multidão as vê.»{57}
Notarei, de passagem, que n'esta subdivisão, João Penha parece ir mais longe do que Emilio Zola, o qual envolve na mesma formula o naturalismo e o realismo. O famoso auctor do Roman expérimental adoptou como formula generica o naturalismo, que é velho, porque data de Homero, e que define: «o regresso á natureza e ao homem, a observação directa, a anatomia exacta.»
Mas, para Emilio Zola, pouco importa que os modelos sejam excepcionaes ou vulgares, que estejam no sette-estrello ou no charco, no alto ou em baixo.
«Quand j'ai lu un roman, je le condamne, si l'auteur me parait manquer du sens réel. Qu'il soit dans un fossé ou dans les étoiles, en bas ou en haut, il m'est également indifférent. La verité a un son auquel j'estime qu'on ne saurait se tromper.»
Comtanto que o artista haja tomado como ponto de partida o estudo dos corpos e{58} dos phenomenos, pouco parece importar a Zola que os corpos girem no azul ou na terra.
Eu não estabeleço differença entre naturalismo e realismo, que considero synonimos: acho que procurar a realidade é investigar a natureza, seja nos modelos excepcionaes, em que a natureza capricha ás vezes, seja nos modelos vulgares, em que a natureza se repete todos os dias.
Tornando, porém, ao ponto, João Penha não admitte, nas
obras do espirito humano, senão dois effeitos: o de instruir e o de commover.
A formula de Zola, procedendo da analyse, caminhando na
orientação da medicina experimental de Claudio Bernard, constitue uma obra de sciencia, que pretende guiar o espirito na investigação da verdade.
Não sensibilisa, não evola a alma até á região do sonho;
pelo contrario, prende-a á terra, á realidade, como uma algema, um Prometheu.{59}
Portanto está fóra da esphera da arte, que é
fundamentalmente suggestiva e emotiva.
Por isso Alexandre Dumas será eternamente lido, ao passo
que os editores franceses se téem visto na necessidade de ir alijando as edições dos copistas da realidade por meio de uma tombola, a franco a entrada.
A profissão de fé litteraria de João Penha, exposta no
prefacio da Tristia, não abrange a moderna escola poetica, chamada, entre nós, dos nephelibatas.
Mas a sua opinião sobre esta escola poderia deduzir-se do
ardor com que defende as tradições do idealismo romantico, se eu ainda ha poucos dias não ouvisse, nitida e firmemente explanado, o parecer de João Penha sobre a obra recente dos novissimos:
—Não transijo com essa escola, disse-me elle. Não admitto
poesia sem rythmo, como não admitto musica sem compasso. O verso sem cesura e sem medida, é prosa.{60}
E dizia-m'o com aquella rispida firmeza de convicção com
que Theophilo Gautier escrevera: «Vouloir séparer le vers de la poésie, c'est une folie moderne qui ne tend à rien de moins que l'anéantissement de l'art lui-même».
Quando eu estava ouvindo as palavras de João Penha, lembrava-me da phrase de Junqueiro nos Simples: «A fórma poetica encaminha-se á solução final. Horisonte immenso.»
Horisonte immenso, sim, porque já não ha medida para o verso, que vai até onde quer ir. De outro modo não percebo a phrase de Junqueiro. Os limites da metrificação portugueza estão definidos e marcados, não há por onde variar, sem quebra da arte e do genio da lingua. Castilho introduziu na fórma poetica a novidade dos exdruxulos italianos, e combateu a peito descoberto pela nacionalisação dos alexandrinos francezes. Thomaz Ribeiro, no D. Jayme e na Delphina, percorreu todos os metros admissiveis{61} na versificação portugueza, empregando o de treze syllabas, que já era demasiadamente violento para o rythmo organico da lingua portugueza. E, feito isto, elle proprio reconheceu que, por amor da variedade, se poderia tentar ainda a medição latina e
resuscitar a toante castelhana, [8] Mas os poetas que vieram depois, rapazes cheios de talento e conhecedores da arte, porque todos elles a respeitaram até certo tempo, acharam que não valia a pena experimentar a metrica latina e restaurar a toante dos seiscentistas (que a meu vêr não era menos monotona que o refrain dos nephelibatas): nada d'isto fizeram, preferiram escrever versos de longo curso, com quinze e mais syllabas, intercalaram rubricas em prosa no estiramento kilometrico do verso, e para que o alexandrino perdesse a harmonia que provinha da fusão{62} de dois versos de seis syllabas, fizeram-n'o tripartido, privando-o da cadencia que deleitava o ouvido.
Percebe-se que João Penha, que já em Coimbra dizia a um renegado do romantismo
Prosa e verso têm balizas,
exija ainda hoje uma coisa, que parece ser fundamental e
logica: que os poeta escrevam em verso e os prosadores escrevam em prosa. Quanto á pureza da lingua, João Penha não se mostra menos intransigente. Ainda o anno passado lembrava elle ao snr. Anthero de Figueiredo o conhecido conselho de mestre Boileau:
Sans la langue... l'auteur le plus divin
Est toujours, quoi qu'il fasse, un méchant écrivain.
Assim, pois, não lhe regalarão decerto o ouvido puritano as
innovações barbaras de quasi todos os poetas modernos, alguns de incontestavel{63} valor, á parte os vicios de escola, como por exemplo o snr. Julio Brandão, quando diz:
E citharas balança um côro vago de pucellas.
Rostos morenos, brunos, pallidos, divinos.
Espero apreciar em breve, individualmente, a cohorte
revolucionaria dos modernos poetas portugueses. Ver-se-ha então que admiro a concepção genial de uns, e que faço justiça a todos.
Mas encontro-me com João Penha no que reputo a
disciplina indispensavel da arte e da lingua, comquanto bastasse talvez dizer—da arte. E estou em opposição a Guerra Junqueiro quando affirma que a modernissima evolução poetica rasga horisontes inéditos, «sobretudo no
ponto de vista da fórma e da expressão.»[9]
P. de Varzim—Novembro de 1893.
FIM
[1] Palavras suas em annotação ao volume dos Simples.
[2] «D'uma visão mais intima e profunda do universo
germinaram em mim novas emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda litteraria, meramente verbal e de superficie.»
[3] «Emquanto á technica do poema, muitissimo havia que dizer,
se esta nota não fosse escripta rapidamente, com o impressor á espera.»
—Notas aos Simples.
[4] Morte de D. João.
[5] A Velhice do Padre Eterno.
[6] A plastica d'esta quadra foi alterada na sua transplantação da
Folha para as Rimas.
Déra um quartilho do meu sangue azul
(Oh meus avós, estremecei na campa!)
Por dar-te um beijo no chapim taful,
Que esconde um pé, de se gravar na estampa.
Tal era, na Folha, a primitiva feitura. A originalidade do
pensamento nada perdeu, e o systema metrico decimal foi respeitado. Dizer-se que os bachareis em direito são os primeiros a desacatar a lei!
[7] Expostas no prefacio á Tristia de Anthero de Figueiredo.
[8] Vesperas; pag. 219.
[9] Prefacio ao Livro de Aglaïs.