Quando Chega a Hora

Zibia Gasparetto · Capítulo 3 de 4 · parte 2/4

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Quando Chega a Hora

Liana havia vestido a roupa com a…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

- Aquele médico anda metido nisso. Ela pode ter sido coagida. - Será? - Você deveria ir até lá e ver o que está acontecendo.

- Isso não. Depois do que ela fez, seria me rebaixar. Ela é quem deve vir e pedir perdão. - Bobagem. Nem sabe ao certo o que aconteceu. Se não tomar nenhuma providência, pode se arrepender. E se ela estiver mal? Eulália sobressaltou-se: - Você acha?

- É uma hipótese.

Ela pensou por alguns instantes, depois decidiu:

- Só se você for comigo. Se estiver acontecendo alguma coisa grave, precisarei de sua ajuda para tirá-Ia de lá.

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- Concordo. Iremos logo depois do almoço, sem avisar, para não dar tempo a que tentem alguma coisa.

Hilda reapareceu na porta e Eulália perguntou:

- E então?

- Ele está se lavando e vai descer.

- Onde estão os outros dois?

- Na copa. Não os deixei subir, conforme a senhora mandou. - Muito bem. Eles terminaram de almoçar. Eulália subiu e arrumou-se para sair.

Quando voltou, as crianças almoçavam na copa.

- Hilda, verifique se Eurico se alimenta direito. Se ele não comer, não vai brincar com Nico nem com Amelinha. Se ele quiser ficar no quarto, ficará sozinho. Dando uma olhada desafiadora para Eurico, Eulália saiu com o marido. Quando Hilda foi até a cozinha, Nico disse baixinho:

- Acho melhor comer, Eurico. Pelo menos hoje. O dia está bonito e bom para brincarmos no jardim.

- É. Por hoje. Mas amanhã começo de novo.

- Não adianta fazer isso com ela, não vai dar certo - ponderou Amelinha. - Sempre deu. Você vai ver. Ela vai trazer o professor de volta. - Se ela descobrir que eu levo comida escondido para você, me manda embora - murmurou Nico.

- Ela não vai saber nunca. Só se alguma linguaruda contar. - Não olhe assim para mim. Nós temos nossos segredos, e eu nunca contei nada. - É verdade - disse Nico. - Ela tem sido uma boa companheira. - Você gosta de protegê-Ia só porque é mulher, como todos aqui fazem. Todas as meninas são faladeiras. - Não eu! - protestou ela.

- Você está sendo injusto. Reconheça que ela nunca contou nada. - Está bem... Até agora ela não contou nada.

- Aonde será que eles foram? Não costumam sair a essa hora lembrou Amelinha. - Acho que foram ver a Liana - sugeriu Nico.

- Será? Será que vão fazer as pazes? - perguntou Eurico, contente. - Acho que não. Ainda ontem ela estava muito zangada com o professor. Eu ouvi quando ela disse a papai que ele nunca mais pisaria nesta casa - comentou Amelinha. 225

- Se ela fizer isso, vai ver só. Vou infernizar a vida dela outra vez. - Não faça isso, Eurico. Minha mãe sempre diz que a mentira dá mau resultado. Você vai fingir de doente e pode acabar doente de novo. Lembra como você passava mal quando chegou aqui? - Agora estou curado. O professor disse que sou forte como todo mundo. - Mas não abuse. Sua mãe não merece ser enganada.

- Merece, sim. Ela é muito implicante e mandona. Queria que tia Liana se casasse com quem ela escolheu. Isso é errado.

- Isso é. Ela gosta mais do Dr. Mário. Ele é uma boa pessoa, mas a Liana não gostava dele para casar. Também se casou com o professor só para poder fazer aquele tratamento. Ela não o ama.

- É mesmo - interveio Amelinha. - Mas eles casaram com buquê, até com os noivinhos no bolo de noiva. Acho que eles se gostam, sim.

- Vocês mulheres são tão bobas! O que tem a ver o bolo de noiva com o gostar?- desafiou Eurico.

- Não adianta discutir por isso. O importante é a Liana sarar, ficar feliz. Com o professor e o Dr. Marcílio cuidando dela, vai dar tudo certo. Ela vai ficar boa e, no fim, sua mãe vai compreender, eles vão se entender e pronto.

O carro de Norberto parou em frente à casa do professor. Ele desceu e tocou a campainha. Gislene abriu a porta.

- Viemos falar com Liana - disse Norberto. - Queiram entrar, vou avisar Dona Liana.

Ele voltou ao carro, abriu a porta e Eulália desceu. Entraram e sentaram-se na sala, tentando controlar a inquietação.

Gislene procurou Liana e Alberto no escritório e disse baixinho: - Eles estão na sala, Dona Eulália e o Dr. Norberto. Perguntaram pela senhora.

Liana olhou apreensiva para Alberto, que respondeu:

- Diga-Ihes que ela já está indo.

Gislene saiu e Liana sussurrou:

- Meu Deus! E agora?

- Acalme-se. Vai dar tudo certo.

- O que diremos?

- Vamos representar o papel de casal em lua-de-mel. Estamos muito apaixonados. Fugimos para não termos de esperar pelo casamento.

- E Norberto? O que vai pensar de mim?

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- Que você mudou, deixou de gostar dele e que me ama. Não é isso o que quer? -É.

- É a maneira de tirá-Io definitivamente de seu caminho e devolvê-Io aos braços de Eulália. - Tem razão. Estou tão nervosa...

Ele tomou as mão dela e acariciou-as, tentando esquentá-Ias. - Não vai acontecer nada. Estou do seu lado. Você está pálida. Vamos, vá se pintar um pouco. Tem de parecer uma mulher feliz e amada. - Está bem. Liana foi até o quarto, arrumou-se um pouco e voltou:

- Estou bem?

- Melhorou. Agora sorria, vamos entrar abraçados e fingir que nos amamos. Quando os dois entraram na sala abraçados, Eulália e Norberto levantaram-se. - Sejam bem-vindos à nossa casa - disse Alberto com gentileza, estendendo a mão a Norberto, que fingiu não perceber. Sem perder a compostura, Alberto continuou: - Sentem-se, por favor.

Eles se deixaram cair no sofá, tentando encontrar palavras que expressassem o que sentiam. Liana aproximou-se de Eulália, dizendo:

- Sinto muito, Eulália, por não haver contado o que pretendíamos fazer. - Você fugiu de casa, na calada da noite, como uma criminosa. Não precisava fazer isso.

- Você abusou de nossa confiança, professor - disse Norberto fuzilando-o com os olhos. - Desculpe, Norberto, mas não fiz nada errado. Nós nos amamos. Liana desmanchou o noivado. Pensamos muito e achamos que, se nos casássemos dessa forma, pouparíamos tempo e comentários.

- Não acredito que tenham se casado. Ninguém pode fazer isso sem o tempo necessário para as providências legais.

Virando-se para Alberto, Liana pediu:

- Meu bem, pode apanhar o comprovante do casamento? Ele saiu e Norberto não se conteve:

- Liana, estou vendo e ainda não acredito. Como pôde fazer uma coisa dessas depois de tudo? - Ela empalideceu, e ele tentou corrigir: - Depois de tudo que sua irmã fez por você a vida inteira? 227

- Foi por amor. Eu amo meu marido. Gostaria que compreendessem e perdoassem a forma como entendi de procurar a felicidade.

Alberto voltou e apresentou o documento a Norberto. Enquanto ele o examinava, sentou-se ao lado de Liana no sofá, abraçando-a com carinho, beijando-lhe a face delicadamente. Norberto estava pálido e ofendido. Não encontrou palavras para dizer. Em silêncio, passou o documento a Eulália, que o examinou atentamente. Depois, entregou-o a Alberto, dizendo:

- É. Parece que está consumado. Nesse caso, nada mais temos a fazer aqui. Vamos embora. Levantou-se. Alberto levantou-se também, aproximando-se dela e de Norberto, dizendo: - Por favor, Eulália. Perdoe nossa atitude. Compreenda. Garanto a vocês que amo muito Liana e que tudo farei para vê-Ia feliz.

- Ela escolheu você, contra nossa vontade. Portanto não precisa de nós para nada. Vamos embora.

Liana colocou a mão carinhosamente sobre o braço da irmã, dizendo com voz súplice: - Por favor, Eulália! Não se vá. Eu não pretendi magoá-Ia. Fique. Diga que me perdoa e que poderemos continuar amigas como sempre. - Não posso. Como voltar a confiar em sua amizade depois do que fez? Você escolheu onde e com quem desejava ficar. De hoje em diante, siga seu caminho, eu seguirei o meu. Espero que não se arrependa do que fez. Vamos embora, Norberto. Segurou o braço do marido e praticamente o arrastou pela porta afora, lançando um olhar irado sobre Alberto. Liana fez um gesto para impedi-Ia, mas ela se desviou e saiu fechando a porta atrás de si.

Liana, trêmula, deixou-se cair em uma cadeira, chorando copiosamente. Alberto tentou confortá-Ia.

- Eu sabia que ela não ia me perdoar. Eulália sempre foi orgulhosa e determinada. Nunca mais ela vai querer falar comigo! Perdi minha irmã.

- Não diga isso. Com o tempo ela vai refletir, pensar melhor. Sentirá sua falta, voltará atrás. Você vai ver.

- Não creio. Sei como ela é.

- Você tinha o direito de cuidar de sua vida do seu jeito. Por mais que ela tenha cuidado de você, não pode interferir. Você é livre. Vamos, enxugue essas lágrimas. Reaja. Estendeu o lenço, que ela apanhou enxugando os olhos e tentando parar de chorar. 228

- Assim é melhor - disse ele quando ela finalmente parou. - Agora sou eu quem vai fazer aquele chá especial de sua avó.

Abraçou-a com carinho, conduzindo-a até a cozinha e fê-Ia sentar-se enquanto colocava a chaleira no fogo, fazendo um sinal para que GisIene os deixasse a sós. Preparou o chá, serviu e sentou-se a seu lado, sem que ela, abatida e triste, reagisse. Procurou conversar, mas Liana parecia ausente e não respondia ao que ele dizia. - Vou me deitar - disse ela.

Sem esperar resposta, levantou-se, foi para o quarto e deitou-se. Preocupado, Alberto ligou para o Dr. Marcílio, contando-lhe o sucedido.

- Ela ficou apática. Caiu em funda depressão. Tentei conversar, mas nem sequer me ouviu. - Vou dar uma passada aí para vê-Ia.

Quando o médico chegou, Alberto já o esperava com impaciência. Gislene fora ao quarto de Liana e ela caíra em um sono pesado. Quando a chamaram, não quis acordar.

- Ela estava tão bem! - explicou ele. - Foi a intransigência de Eulália que a deprimiu. Disse que havia perdido a irmã.

- Liana está frágil. Tem alguma coisa que a oprime, ainda não sei o que é. Parece que sente prazer em se castigar.

Alberto hesitou alguns segundos, depois respondeu:

- Ela tem um segredo que a oprime. Não estou autorizado a lhe contar, embora pense que, como seu médico, deveria saber.

- Os espíritos perturbadores exploram todas as fraquezas daqueles a quem pretendem dominar. Esse ponto fraco que ela tem permite que o padrão energético dela baixe e assim eles podem atingi-Ia. Por isso, quando não conseguem manter um assédio direto, procuram fazer com que pessoas ligadas a ela toquem esse ponto e assim conseguem obter os resultados que querem.

- Isso está acontecendo com ela.

- Está. No momento, por haver se deprimido, o espírito do coronel Firmino deve tê-Ia dominado, mesmo à distância.

- Deve ser isso. Tentamos acordá-Ia, mas parece que está dopada. - Vamos tentar de novo. Dirigiram-se ao quarto e aproximaram-se de Liana.

- Vamos orar e pedir ajuda - tornou Marcílio, estendendo as mãos sobre a cabeça de Liana. Os dois fecharam os olhos e oraram em silêncio.

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Vá buscar um copo com água - pediu ele.

Alberto obedeceu e voltou com o copo, colocando-o sobre a mesa de cabeceira. O médico colocou uma das mãos sobre o copo e continuou em oração. Depois se sentou em uma cadeira ao lado da cama, dizendo:

- Ela está sendo atendida. Vamos esperar.

De fato, Liana continuava adormecida, porém seu sono agora parecia regular e seu rosto estava mais corado. Alberto sentou-se também e ambos esperaram em silêncio. Os minutos foram passando e só se ouvia o tique-taque do relógio na mesa de cabeceira. Passados dez minutos, ela acordou, olhando-os admirada. Marcílio levantou-se, pegou o copo com água e deu-o a ela dizendo: - Vamos, beba. Liana obedeceu. Depois respirou fundo e perguntou:

- O que aconteceu? Por que está aqui? Fiquei mal outra vez? - Ficou. - Sinto muito. Estou dando trabalho a vocês.

- Está mesmo. E porque quer.

Ela olhou assustada para ele:

- Desculpe, não entendi.

- Está na hora de entender. Você se deprime e com isso permite o acesso às energias do coronel Firmino.

- Deus me livre! Foi ele?

- Foi. Mas ele não teria tido acesso se você não lhe abrisse as portas. - Não diga isso. Não quero nada com ele!

- Mas ele quer. E quando você fica negativa, deprimida, ele consegue envolvê-Ia. - Estou sofrendo muito. Não posso evitar a tristeza. Eulália não me perdoou. Disse que nunca mais quer me ver.

- Ela disse. Mas quem garante que será assim? - perguntou o médico. - Eu sei que ela é obstinada. Nunca volta atrás.

- Para conduzir as pessoas ao caminho melhor, a vida tem recursos que desconhecemos. Acho que você deve confiar. Afinal, não fez nenhum mal. Está apenas cuidando de sua cura. Um dia ela entenderá isso. O que não pode é se machucar dessa forma e permitir o envolvimento destrutivo do coronel. Precisa se defender. - Como?

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- Tentando não dramatizar os fatos em sua vida. Nada é definitivo. Você já resolveu que Eulália nunca vai mudar. Quem pode garantir isso? Todos nós mudamos a todo momento. - Talvez eu não mereça viver em paz.

Alberto fez ligeiro sinal para o médico e levantou-se dizendo: - Continuem conversando, que vou mandar fazer um cafezinho. Saiu. Queria dar oportunidade a que Liana contasse ao médico o verdadeiro motivo de sua depressão. Mandou preparar o café, mas não mandou servir. Queria dar mais tempo aos dois. Quando Eulália se sentou no carro ao lado do marido, não conseguiu esconder a indignação.

- Eu não lhe disse? Ela fez tudo de caso pensado. Bem que eu não queria vir. E você pensou que ela estivesse seqüestrada. De onde tirou essa idéia?

- Não sei. Nunca pensei que Liana fosse capaz de fazer uma coisa dessas. - Pois fez! Talvez a estas horas estejam rindo juntos da peça que nos pregaram. Viu como se abraçavam descaradamente em nossa frente?

Norberto mordeu os lábios nervoso. Essa cena não saía de sua mente. Sentira vontade de esmurrar o professor. Aquele traidor! Com aquela cara de bom homem, respeitador. E pensar que fora ele quem o levara para dentro de sua própria casa! Cerrou os lábios com raiva. Teve medo de responder e deixar transparecer o que estava sentindo. Ela continuou:

- Prepararam tudo com antecedência. Ninguém se casa de repente. Como são fingidos! Eu não percebi nada. Ela com aquela cara de coitada, sempre deitada, fraca, desvalida. Enquanto isso, estava sabendo muito bem o que queria fazer. - A culpa é daquele professor de meia-tigela.

- E pensar que nós o colocamos dentro de casa!

- Cale-se. Essa idéia está me mortificando.

- Liana morreu para mim, definitivamente.

Norberto hesitou, depois respondeu:

- Não sei, Eulália. Apesar de tudo que vimos, ainda tenho algumas dúvidas. Liana estava pálida. Pintou-se, mas dava para notar sua palidez. Não está bem como quis parecer. - O que quer dizer? Ela estava um pouco abatida, mas muito feliz. Claro que ainda não recuperou totalmente a saúde. Mas de resto não há nada para duvidar.

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Ela mesma disse que ama o marido e que se casou de livre vontade. Norberto sacudiu a cabeça pensativo:

- Se pensarmos bem na Liana que conhecemos, que sempre foi cordata, obediente, prezando sua amizade e carinho, não podemos entender por que fez isso. Chego a pensar que por trás há alguma coisa que não sabemos. Aquele médico não sai de minha cabeça. Sobre a mesa da sala havia uma receita dele, eu vi. Se fosse em nossa casa, ele não teria tido acesso. Bem que eu queria levá-Ia a Caldas. Por que não insistiu? - Eu insisti. Depois, Alberto sempre se deu muito bem com o Dr. Marcílio. Várias vezes tentou me convencer de que eu deveria deixá-Io tratar Liana. Como se ele fosse uma sumidade! Claro que agora, ela sendo sua esposa, faz como quer. - É por isso que apesar de tudo eu ainda insisto. Não acho uma atitude sensata você fechar a porta a eles.

- Depois do que fizeram?

- Sim. Liana não tem estado bem ultimamente. E se ela estiver com as faculdades mentais alteradas? E se o professor tivesse se aproveitado desse fato para casar-se com ela e tê-Ia sob sua guarda?

- Por que faria isso?

- Por várias razões. Porque se apaixonou, porque pretende ligar-se à nossa família de alguma forma.

- O dinheiro que temos é nosso. Liana não tem nada.

- Então é por paixão mesmo. Um homem faz qualquer coisa por uma paixão. Eulália olhou-o admirada. Nunca imaginara que o marido pensasse dessa forma, sempre tão pacato, discreto.

- Liana é bonita, mas não tanto a ponto de despertar uma paixão - respondeu ela. Norberto controlou-se. Estava difícil suportar a situação. Procurou manter a calma ao responder:

- É verdade. Nesse ponto eu concordo. Mas sabe como é: tenho ouvido contar tantas coisas! Há homens desequilibrados.

- Bom, aí eu também concordo. O professor deve ser um desses. Onde já se viu? Casar-se dessa forma, roubar a mulher como se estivesse no tempo das cavernas. Não tem nenhum respeito pela família. Por isso vive sozinho.

Norberto meneou a cabeça, concordando, e, enquanto Eulália discorria sobre como deveria ser o respeito à família e à sociedade, ele pensava em conseguir uma forma de encontrar-se a sós com Liana a fim de descobrir a verdade.

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Não acreditava que ela houvesse esquecido o amor que os unia. Tinha certeza de que ela o amava e havia se afastado por causa de Eulália. Na verdade, ela era o maior obstáculo para que eles pudessem ficar juntos para sempre.

Tinha certeza de que, se sua mulher morresse, Liana não hesitaria em casar-se com ele. Essa era sua esperança depois que Liana desfizera o noivado com Mário. Em seu desespero, pensara algumas vezes em tirar Eulália do caminho, mas como? Não se sentia com coragem de cometer um crime, principalmente com a mãe de seus filhos. Mas desejava de coração que ela morresse, para que pudesse libertar-se desse peso e assumir o amor de sua vida.

Queria que Liana continuasse vivendo com eles na esperança de um dia realizar esse sonho. Enquanto ela era solteira, havia esperança. Agora isso seria impossível. Ela havia preferido outro.

Não podia acreditar. Liana nunca havia amado ninguém antes dele e entregara-se por amor. Precisava vê-Ia, ouvir de seus lábios que se casara apenas para fugir da paixão e do desejo que a atormentavam. Que quando se encontravam, mesmo na presença de Eulália e das crianças, ela sentia, como ele, a vontade de repetir o delírio daquela noite. Essa lembrança reaparecia sempre que a via, e isso lhe tirava o fôlego. Era a custo que conseguia dominar-se.

Enquanto Eulália continuava falando, ele meneava a cabeça de vez em quando concordando e pensava como conseguir o que desejava. Arranjaria um jeito de tirar férias, ficar algum tempo na mansão, depois encontraria uma forma de encontrar-se com Liana a sós.

Naquela noite, depois do jantar, Norberto voltou ao assunto. - Estive pensando, Eulália, em tirar umas férias. Estou cansado e penso que passar algum tempo aqui com vocês me fará bem.

Eulália corou de prazer. Preocupado com seus problemas, o marido desejava confortá-Ia. Sorriu e respondeu:

- É uma ótima idéia. Assim me ajudará com Eurico, que tem andado impossível. - Espero que sua saúde não tenha piorado.

- Piorou. Não se alimenta como antes e vive querendo que eu chame de volta o professor. Temos de arranjar alguém que continue as aulas. Estavam indo tão bem! - Dessa vez tentaremos uma professora. É mais seguro. Voltarei a São Paulo amanhã, ajeitarei tudo para poder ficar aqui.

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Vou ver com nossos amigos se consigo alguma moça boa, de boa família, que possa vir e dar aulas para as crianças.

- Bem pensado. Quem sabe assim Eurico esquece esse assunto e deixa de me preocupar. Ele fica na cama, não come, e, se não fosse Nico, que consegue tirá-Io de lá, seria pior. Norberto suspirou. Sempre desejara um filho forte, viril, corajoso, inteligente. A vida deu-lhe Eurico, fraco, doente, sem capacidade de sobressair-se em nada. Paciência. Teria de suportar esse fardo pelo resto da vida.

Na manhã seguinte, Norberto partiu prometendo voltar antes do fim da semana. Dois dias depois, ligou dizendo que voltaria no sábado levando uma professora que fora muito bem recomendada e lhe parecera muito culta e preparada.

Na tarde do dia marcado, Norberto chegou, em companhia da nova professora. Na porta de entrada, Eulália examinou-a enquanto descia do carro. Era jovem, pouco mais de vinte anos talvez, pele clara, olhos e cabelos castanhos, bem-feita de corpo. Eulália fixou-a e ela não desviou o olhar.

Aproximou-se da porta e parou, esperando que Norberto a apresentasse. Ele se adiantou e, depois de beijar levemente a face de Eulália, estendeu a mão para a jovem, dizendo: - Esta é Melissa Duarte, a nova professora.

Eulália estendeu a mão: - Prazer em conhecê-Ia. Duarte? Por acaso será parente do Dr. Gabriel Duarte? - Sobrinha - respondeu Melissa com voz firme. - Ele é irmão de minha mãe. Eulália convidou-a a entrar. Mandou levar a bagagem para o quarto. - Deve estar cansada da viagem. Hilda é nossa governanta e vai mostrar-lhe seu quarto. Ela assentiu com a cabeça e depois das apresentações acompanhou Hilda. Assim que se viu a sós com o marido, Eulália comentou:

- Essa professora não vai dar certo.

- Porquê?

- É muito jovem, e além do mais me pareceu um pouco petulante. - Trata-se de uma moça de muito boa educação, de família tradicional. Você conhece muito bem os Duarte. Depois, ela é pedagoga. Acredite que não foi fácil conseguir alguém desse nível que concordasse em vir para o interior, longe dos amigos e da família.

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- Era isso que eu estava me perguntando. Por que uma jovem da melhor sociedade deixa a família e vem para o interior morar com estranhos e ensinar três endiabradas crianças? Não arranjaria um emprego muito melhor na cidade?

- É possível. Mas Juca, quando sugeriu que a contratasse, disse-me que ela é do lado pobre da família. Precisa trabalhar para se sustentar.

- Estava com roupas muito finas para ser tão pobre como você diz. - Não reparei. O que sei é que ela estava com vontade de sair da cidade e vir para o interior. Prefere a vida calma. Conversei com a mãe e com ela, e combinamos tudo. Ela vai ficar pelo menos até os exames do fim do ano. Faltam apenas três meses. - Se eles conseguirem passar para o quarto ano, será ótimo. Se Eurico tivesse mais saúde, poderíamos interná-Ios em um bom colégio e voltar a morar na cidade. - Infelizmente isso ainda não é possível. Vou subir para tomar um banho. Estou empoeirado.

Depois do banho, Norberto estendeu-se na cama. Tinha tempo de descansar um pouco antes do jantar. Pretendia ficar o tempo que precisasse para conseguir se encontrar com Liana sem que Eulália soubesse.

Liana! Como esquecer aqueles momentos que haviam passado juntos? Em sua saudade, Norberto visualizava todos os detalhes da conquista, revendo o prazer que havia sentido. Não percebeu que um vulto escuro se aproximou dele atraído pelo teor de seus pensamentos. Era o espírito do coronel Firmino.

Colou-se a ele e, admirado, começou a sentir o prazer que Norberto estava sentindo ao visualizar aqueles momentos. Delirou com a relação íntima que eles haviam tido, experimentando emoções que ele não se recordava de haver sentido antes. Suas experiências sexuais com a esposa haviam sido sempre mantidas contra a vontade dela e nunca lhe haviam dado emoções tão fortes como as que experimentava agora. Num relance, brotou em sua mente a idéia de aproveitar melhor sua descoberta. Ele estava morto e, por mais que se esforçasse, não conseguia contato direto com ela. Contudo, se usasse o corpo daquele homem, poderia tê-Ia de volta mesmo antes de ela morrer. Assim, ele decidiu não abandonar mais Norberto. Ficaria ligado a ele para saber tudo que ele planejava. Percebeu que ele iria tentar encontrar-se com Mariquita. Que a amava e que era correspondido. Era a maneira de vê-Ia, de tê-Ia de volta.

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Norberto passou a mão pelos cabelos nervosamente. De repente, seu desejo de ver Liana ficou insuportável. Fez grande esforço para se controlar. Precisava ter paciência. Não podia dar largas às suas emoções.

Apesar de tudo, não pretendia pôr tudo a perder. Se Eulália descobrisse, seria o caos. Esforçou-se para pensar em outra coisa, mas não conseguiu. Levantou-se e desceu para o jantar. Sua cabeça estava pesada, sentia-se inquieto.

Melissa desceu e Eulália já a esperava.

- Vou chamar as crianças para conhecê-Ia.

Hilda apareceu na sala acompanhada de Amelinha e Nico. - Onde está Eurico? - indagou Eulália.

- Está deitado. Não quis levantar - esclareceu Hilda.

- Vá lá e diga-lhe que estou esperando.

Enquanto Hilda subia, Eulália fez as apresentações:

- A Srta. Melissa é a nova professora. Esta é Amelinha, minha filha. Este é Nico.

- Como vai? - disse Melissa, olhando-os com interesse e estendendo a mão para Amelinha.

- Bem - respondeu a menina.

- E você, Nico, como vai?

- Bem. Seja bem-vinda, professora.

- Obrigada.

Hilda voltou mais corada do que o costume:

- Ele disse que não vai levantar-se daquela cama nunca mais.

- Está vendo? - comentou Eulália voltando-se para Melissa. Meu marido deve ter lhe falado sobre nosso filho Eurico.

- Falou, sim.

- Se a senhora quiser, posso subir e ver se consigo trazê-Io - ofereceu Nico.

- É melhor mesmo. Vá lá, Nico, e faça isso. Não desejo perder meu bom humor.

Nico subiu enquanto Amelinha olhava para Melissa com curiosidade. Norberto chegou e Eulália foi logo dizendo:

- Eurico não quer se levantar.

- Você vai falar com ele? - perguntou Norberto.

- Nico já foi. Nesses casos ele é melhor que eu.

Nico entrou no quarto de Eurico, que estava coberto até a cabeça. - Levante, Eurico. - Não vou. Logo hoje que veio aquela professora horrível. Deve ser velha, feia, malvada e burra, como todas as outras que já tive. Eu quero o professor de volta. 236

- Pelo que pude ver, ela não parece nada disso que você disse. É moça, bonita e tem boa cara.

- Mesmo assim eu não quero nenhuma professora. Eu quero Alberto. - Você não está sendo inteligente.

- Está me chamando de burro? - Não exagere. De que adianta querer uma coisa que agora não é possível? O professor mesmo me disse que precisamos ter paciência por enquanto. Sua mãe não quer fazer as pazes com eles.

- Tem de fazer. Não pode ficar toda a vida de mal com tia Liana. Ainda mais agora que ela se casou com nosso professor.

- Você não pode obrigar sua mãe a fazer uma coisa que ela não quer. - Mas eu quero. - Não seja tão mimado. Por que não podemos ficar com outra professora por algum tempo, só enquanto esperamos que eles façam as pazes? - Porque eu queria logo. - Não seja criança. Minha mãe sempre diz que querer o que não depende de nós é se machucar à toa. É o que está fazendo: se machucando sem nenhum resultado bom. Ao contrário. Irrita sua mãe, fica doente de novo e ela briga mais ainda com o professor e a Liana, pondo a culpa neles.

- Se eu ficar doente de novo, a culpa é só dela. Eles não têm nada com isso. - A culpa é só sua. Está culpando sua mãe, mas é você quem está se machucando, sendo rebelde, ficando sem comer e sem ir brincar no sol.

- É só por um pouco, até ela fazer o que eu quero.

- Você está desafiando a vida. Está melhor e se finge de doente. Vai acabar ficando mesmo. A culpa é só sua.

- Não vou ficar doente de novo.

- Se continuar assim, vai. Por isso, levanta dessa cama. Vamos jantar. Como pode falar mal da nova professora sem conhecer?

- Eu sei que ela é ruim e que não vai dar certo.

- Eu só vou aceitar isso e concordar depois que você a conhecer e tivermos algumas aulas. Antes disso, eu não sei.

- Você não acredita em mim.

- Não mesmo. Você não pode saber se vai dar certo ou não sem experimentar. Está só fantasiando.

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- Está bem. Eu vou levantar, conhecê-Ia, assistir a algumas aulas, só para provar a você que eu estava certo.

- Isso mesmo. Então vou acreditar, e até ajudar você a fazer uma campanha contra ela. - Você me ajuda a azará-Ia?

- Só se ela for ruim mesmo. Antes de saber isso, não.

- Está bem... vamos ver...

Ele se levantou disposto a provar a Nico que sabia o que estava dizendo. Observando-o enquanto se vestia, Nico sorriu levemente. Todos na mansão se queixavam de Eurico, dizendo que ele era muito difícil de levar. Nico pensava justamente o contrário. Sabendo conversar com ele, era muito fácil conseguir o que queria. 238

Capítulo 17

Eurico olhou para Melissa, que estava falando sobre história, e fechou o caderno. O sol lá fora estava brilhando e ele estava pensando em ir ver o ninho de passarinhos do limoeiro. Já teria filhotes?

Não estava nem um pouco interessado em saber quem foram os presidentes dos países da Europa, nem por que haviam feito a Primeira Guerra Mundial. Melissa calou-se, observando-o enquanto Amelinha o cutucava por baixo da mesa tentando chamar sua atenção. Eurico, absorto, não percebeu. Continuou pensando nos assuntos de seu interesse, que nada tinham a ver com o que ela desejava ensinar. Melissa aproximou-se dele em silêncio e sentou-se a seu lado, calada. Os outros dois observavam sem coragem para dizer nada. Eurico demorou alguns segundos para perceber Melissa sentada a seu lado.

Quando notou, olhou para ela com ar de desafio. Se ela tentasse repreendê-Io, sabia muito bem o que fazer. Passaria maI o resto do dia e Eulália acabaria por culpar a professora e mandá-Ia de volta para São Paulo. Ela continuou em silêncio, absorta, sem olhar para ele. O tempo foi passando, e Eurico irritou-se com o mutismo dela. - Não gosto de história e não vou estudar isso - disse ele. Melissa levantou-se, colocou-se na frente de Eurico e olhando-o nos olhos disse com firmeza:

- Se não gosta, não faça.

- Você é a professora. Não vai me obrigar?

- Não. É um direito seu.

- Não está sendo paga para me ensinar?

- Estou. Esta é nossa primeira aula. Eu estou fazendo minha parte, ensinando. Cumpro meu compromisso. Ofereço um trabalho e sou paga.

É uma troca digna. Você não pode dizer o mesmo.

- Porquê?

- Sua mãe faz a parte que lhe compete pagando seus estudos. Portanto, você tem tudo a seu favor. Só que, se não estudar, nunca terá independência para se sustentar. Se pretende continuar vivendo às custas de sua família pelo resto da vida, é uma decisão sua que eu respeito. Não pretendo forçá-Io a nada. Se não quiser mais comparecer às aulas, falarei com sua mãe e pronto.

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Descontamos uma parte do dinheiro que ela paga e darei aula só para os outros dois. - Não quer dar aula para mim só porque não gosto de estudar? - Isso mesmo. Gosto de trabalhar com quem aproveita. Não sou de perder tempo com quem não deseja aproveitar. Sinto-me mal em fazer sua mãe pagar por alguma coisa sem proveito.

- Já que você veio, não pode se recusar a me dar aulas. É sua obrigação. - Assim como eu respeito você se não deseja estudar, exijo que me respeite quando eu me reservo o direito de ensinar apenas os que desejam aprender. Portanto, se está sem vontade e prefere ir para o jardim, fique à vontade.

- Está me mandando embora?

- Não. Estou dando oportunidade para você escolher o que quer. - E se eu ficar? - Vou exigir atenção e vontade de aprender. - Pois eu vou embora mesmo. Você não é como o professor Alberto. Ele, sim, sabia dar aulas.

Eurico levantou-se e saiu. Nico fez um gesto para detê-Io, mas Melissa fez-lhe sinal para que deixasse. Amelinha, que ia levantar-se, sentou-se novamente. - Muito bem - disse Melissa com voz suave. - Vamos continuar. Eurico foi para o jardim ver os passarinhos, entretanto não conseguia desviar a atenção da janela da sala de aula. O que estariam fazendo lá tanto tempo? Por que depois que ele saiu os outros dois continuaram lá como se nada houvesse acontecido? E a professora? Ela não sabia que a única razão de ser contratada em casa era porque ele não podia freqüentar uma escola? Se não desse aula para ele, os outros dois poderiam ir para a escola da cidade. Ela não tinha medo de perder o emprego? Ouvira seu pai dizer que ela precisava trabalhar para se sustentar. O que será que ela estava ensinando?

Hilda, vendo-o, foi ter com ele, perguntando:

- O que está fazendo neste sol? Por que não está na aula? - Por que não quero. Não gosto da aula dela.

- Este sol vai fazer-lhe mal. Vamos entrar.

- Não vou.

- Vou falar com sua mãe. Essa professora não devia tê-Io deixado sair, ainda mais para ficar neste sol.

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- Isso mesmo. Vá, sua linguaruda! Diga para ela que é melhor mandar essa professora embora. Ela não serve mesmo.

Hilda saiu e ele se sentou no caramanchão. Essa aula estava demorando muito. Não acabava mais. O que ele iria fazer até que Nico estivesse livre? Entediado, esperou e, quando os viu sair para o jardim, foi ao encontro deles, que conversavam animadamente.

- Ele tomava banho uma vez por mês, de roupa e sentado na cadeira - dizia Amelinha rindo. - Que banho? - disse Nico. - Enfiavam a cadeira dele no mar e a tiravam. Isso é banho? - Do que estão falando? - indagou Eurico.

- De Dom João VI, rei de Portugal - respondeu Nico rindo. - Por que ele fazia isso? - Não vamos contar nada - disse Amelinha. - Quem mandou você não ficar na aula? Foi tão engraçado!

- Estão falando da aula?

- Estamos - respondeu Nico. - Sempre pensei que um rei fosse muito limpo. - Não conte nada para ele - disse Amelinha.

- Foi só a primeira aula, e vocês dois já estão puxando saco da professora. - Não seja despeitado. Ela é boa e eu gosto dela - defendeu ela. - E você, Nico? - Foi a primeira aula e não nego que foi divertida.

- Ela me mandou embora. Não tem paciência.

- Para falar a verdade, Eurico, ela foi até muito boa. Não deu castigo nem obrigou você a nada. Só deixou você escolher. Foi você quem resolveu sair. Eurico mordeu os lábios nervoso. Essa Melissa era bem capaz de o fazer até perder o amigo. No dia seguinte iria tentar outra coisa, mas ele haveria de conseguir mandar essa professora embora.

Norberto não havia conseguido dormir. Ficara se revirando na cama só pensando em um jeito de ver Liana a sós. Quando fosse até lá, não queria que o professor estivesse em casa. Ele não ia deixá-Ios sozinhos, tinha certeza.

Liana teria contado ao marido o que acontecera entre eles? Essa dúvida o atormentava. Ardia por estar com ela de novo, e o desejo reacendera de forma insuportável, fazendo com que ele perdesse a vontade de comer, de fazer qualquer outra coisa. 241

Por que o casamento dela o descontrolara tanto? Ele a amava, mas conseguia se conter. Agora estava sendo difícil. Tinha ímpetos de sair correndo e ir até ela, tomá-Ia nos braços sem se importar com mais nada.

Essa emoção era tão forte que o assustava. Depois do almoço, saiu dizendo que ia a uma loja da cidade, mas foi diretamente à casa do professor.

As janelas abertas indicavam que estavam em casa. Não teve coragem de parar o carro em frente à casa. Deixou-o em outra rua e foi a pé até lá.

A rua estava deserta e ele parou a alguma distância, observando. Viu quando Alberto, segurando um grande envelope pardo, saiu caminhando. Estava com sorte. Liana ficara em casa.

Assim que Alberto virou a esquina, ele se aproximou e tocou a campainha. Gislene abriu e; vendo-o, assustou-se.

- Preciso falar com Liana.

- Ela está descansando. Acho que adormeceu.

- Pois vá e acorde-a. É urgente.

Ela o convidou a entrar na sala e foi ao quarto de Liana. Enquanto esperava, Norberto mal conseguia dominar a ansiedade. Finalmente ia saber a verdade. Alguns instantes depois, Liana apareceu. Ele teria vindo a mando de Eulália? Ela teria se arrependido?

Gislene esperava na porta da sala, receosa.

- Precisamos falar a sós - disse Norberto.

- Pode ir, Gislene.

Logo que ela saiu, ele se aproximou dela, abraçando-a e dizendo emocionado: - Liana, estou ficando louco! Como pôde fazer isso comigo? Ela o empurrou aflita: - Deixe-me. Não quero mais falar nisso.

- Não consigo pensar em mais nada que não seja você. Não posso viver sem você! Tentava abraçá-Ia, e ela o empurrava nervosa.

- Vá embora. Deixe-me em paz! Não quero nada com você! Olhando para ele, Liana foi tomada de um sentimento de horror. Pálida e apavorada, ela repetia: - Vá embora. Deixe-me em paz.

- Não posso! Agora que estamos juntos de novo, não mais a deixarei. 242

- Você enlouqueceu? E Eulália?

- Nada mais importa. Vamos fugir. Ficaremos juntos para sempre. Nunca mais nos separaremos. Vamos nos amar! Eu preciso de você!

Ele a abraçava e Liana sentia-se sufocar enquanto ele a apertava em seus braços, beijando-lhe o rosto, os cabelos, procurando seus lábios.

Foi aí que Liana deu um grito, seu corpo amoleceu. Norberto segurou-a, deitando-a no sofá enquanto Gislene apareceu assustada, dizendo:

- O que foi, Dona Liana? O que aconteceu?

- Vá buscar um copo de água - pediu Norberto, pálido.

- O que fez com ela? Não sabe que está muito doente e que não pode passar emoções fortes? Vou buscar o remédio dela e chamar o médico.

- Não quero que chame aquele médico. Vou levá-Ia comigo para casa. De lá iremos a São Paulo ver o médico de nossa família.

- O senhor não vai levá-Ia daqui sem avisar o marido dela. - Eu me responsabilizo. Ela precisa de atendimento, e não vou deixá-Ia nas mãos daquele charlatão. O marido dela que vá depois nos procurar. Vou buscar meu carro, que está na outra rua. Enquanto isso, veja alguma roupa dela. Depois vai me ajudar a colocá-Ia no carro.

Ele saiu e Gislene nervosa trancou as portas e fechou as janelas. Não iria deixar que ele levasse Liana. Tratou de buscar o remédio e tentou acordá-Ia. Ela parecia morta. Não dava acordo de si.

Assustada, Gislene apanhou o telefone e ligou para a casa do Dr. Marcílio. Ele não estava, mas Adélia, informada do que acontecia, resolveu:

- Sei onde Marcílio está. Vou imediatamente chamá-lo. Agüente firme e não abra a porta para Norberto. Seria bom se rezasse enquanto isso. Depois eu explico por quê. Gislene desligou e vistoriou toda a casa para ver se tudo estava bem trancado. Em seguida, ouviu a campainha. Ela estremeceu. Norberto estava de volta e tocava a campainha insistentemente. Ele entrou no jardim e esmurrou a porta, dizendo: - Sei que vocês estão aí. Abra a porta, senão eu arrombo. Gislene rezava, conforme lhe fora pedido, mas não conseguia prestar atenção na oração. Seu coração batia descompassado. Vendo que ele não desistia, ela tomou coragem, foi até a porta e gritou: - Não vou abrir para o senhor. Já chamei a polícia. Se não for embora, vai ter de explicar tudo ao delegado.

- Você me paga, sua vadia. Vou entrar de qualquer jeito. - Não vai, não. A polícia já está vindo.

Norberto olhou para a rua e viu o médico com a esposa, parando o carro em frente à casa. 243

Murmurando uma praga, ele saiu, entrou no carro e se foi. Marcílio bateu na porta, dizendo:

- Sou eu, Marcílio. Pode abrir, Gislene, ele já se foi.

Ela abriu a porta e caiu em pranto.

- Ela está como morta. Ele queria levá-Ia para São Paulo. Foi horrível!

Marcílio correu ao sofá onde Liana estava desacordada e tomou seu pulso. Depois, disse a Adélia:

- Vamos fazer uma corrente para trazê-Ia de volta.

Adélia chamou Gislene, recomendando que estendesse as mãos sobre Liana, e ela fez o mesmo. Marcílio colocou a mão sobre a testa dela, dizendo:

- Liana, volte. Tudo passou. Você está protegida. Ele já se foi.

Repetiu isso algumas vezes, até que um suspiro dorido escapou dos lábios dela. Depois ela abriu os olhos, dizendo apavorada:

- Ele veio aqui para me levar! Foi horrível!

- Quem? - indagou Marcílio.

- O coronel Firmino. Estava aqui, agarrando-me. Fiquei apavorada. - Ela delira - disse Gislene. - Quem esteve aqui foi o Dr. Norberto.

O médico olhou para a esposa e não disse nada. Depois para Gislene: - Faça um café, por favor. Ela precisa de um.

Enquanto ela ia para a cozinha, Marcílio comentou:

- As coisas estão se complicando. Ele agora tomou Norberto. Por isso ele estava tão violento.

- Assim ele se fortaleceu.

Vendo que Gislene voltava, eles se calaram. Liana estava tomando café quando Alberto chegou. Ele havia ido ao correio. Informado do que acontecera, disse emocionado: - De agora em diante não mais a deixarei só.

- É melhor mesmo.

- Ele veio - disse Liana, apavorada. - O coronel Firmino estava aqui! Queria me levar com ele.

Alberto segurou as mãos dela com força, dizendo:

- Eu estou aqui. Ele não vai poder fazer nada.

- Acalme-se - pediu Marcílio. - Ele envolveu Norberto. Notou que ele a quer e está se aproveitando.

- Meu Deus! Será possível? - murmurou ela assustada. Ele pode perder a cabeça. 244

Eulália vai perceber! O que faremos? Se ela descobrir tudo, eu não suportarei. - Não fique assim, Liana. Neste momento temos de ser firmes e ter fé. Deus está nos protegendo. O coronel nada poderá fazer - tornou AIberto, friccionando as mãos geladas de Liana na tentativa de aquecê-Ias.

- De hoje em diante, não sairei de seu lado. Quando precisar sair, levo-a comigo. Se não puder ir, encarrego Gislene de tudo, mas não a deixarei.

- É melhor mesmo - concordou Marcílio. - Pelo menos por enquanto. - Eu saí da mansão e pensei que tivesse me libertado dele. Agora sei que foi inútil- disse Liana.

- Isso não é verdade - respondeu Adélia. - Lá ele estava dominando a situação. Aqui ele não tem a mesma força.

- Isso mesmo, Liana - reforçou Marcílio. - Depois, nossos amigos espirituais continuam trabalhando em seu favor. O coronel Firmino está resistindo, mas é apenas uma questão de tempo. Por mais que ele lhe pareça assustador pela violência que demonstra, pela determinação que lhe dá muita força, ele nunca vencerá os espíritos do bem que estão apoiados pela força da vida e da luz.

- Se eles têm mais poder - redargüiu Liana -, por que não o dominam e o afastam de vez? - Porque eles preferem convencê-Io a desistir, a enxergar a verdade. Só assim você estará livre para seguir seu destino. É preciso que entenda, Liana: vocês estão ligados por laços de um passado que os colocou frente a frente. É hora de ambos se libertarem. É hora de compreender e perdoar. - Só sei que o odeio, que não desejo vê-Io nunca mais. Só em falar nele sinto-me apavorada.

- Seja o que for que tenha acontecido entre ambos, já passou. É preciso entender, Liana, que ele agiu de acordo com sua maneira de ser na época. O ódio é um sentimento terrível porque, ao invés de distanciá-Ia dele, a aproxima mais.

- Deus me livre, Dr. Marcílio.

- Por isso, quando sentir raiva dele, procure lembrar que ele é como é e não como você gostaria que ele fosse. É inútil querer mais de alguém que não tem para dar. - Eu nem sei por que sinto isso. Não sei se vivi outras vidas antes desta. 245

- Seu horror por ele é muito revelador. Embora não se lembre, os fatos do passado estão em seu inconsciente e refletem-se em seus sentimentos no presente. Você não precisa saber o que aconteceu, mas sempre que sentir essa repulsa por ele, essa raiva, pense que ele é como uma criança que ainda não tem discernimento para fazer melhor. - Dizem que ele foi maldoso em vida, morreu velho e até agora ainda pensa em fazer mal aos outros.

- Se você não deixar de lado esse rancor, não vai conseguir livrar-se do coronel Firmino. Apesar de ter vivido muito, ele é um espírito ainda ignorante. Precisa desenvolver a consciência, aprender os verdadeiros valores da vida. Para isso terá de pagar um preço que nós não sabemos qual será. Tenho certeza, entretanto, de que terá de se esforçar, trabalhar muito para conseguir. Já você tem muito mais conhecimento. É um espírito mais lúcido e tem condições de compreender os limites dele. Quando fizer isso, terá condições de perdoá-lo. Então será mais fácil libertar-se de sua influência.

- Não lhe desejo nenhum mal, doutor. Entenda isso. Só não quero tê-Io à minha volta. - Nesse caso terá mais facilidade em fazer o que estou lhe pedindo. Quando pensar nele, veja-o como alguém necessitado, reze para que ele abra seu entendimento e possa seguir um caminho melhor. Se fizer isso, estará nos ajudando a libertá-la de sua influência. - Vou me esforçar - garantiu Liana.

- Amanhã desejo vê-la em minha casa para a reunião - interveio Adélia. - Estaremos lá - prometeu Alberto.

As cores haviam voltado ao rosto de Liana, e o médico tomou-lhe o pulso por alguns instantes. Depois perguntou:

- Sente-se melhor?

- Sim - disse ela.

- Nesse caso, temos de ir - disse o médico.

Gislene, que acabava de entrar, disse:

- Por favor, doutor! Sente-se um pouco pelo menos para um café. Já vou servir.

- Se tiver aquele bolo de chocolate que você faz, não vou resistir! - respondeu ele sorrindo. - Pois tenho, sim.

Liana sentara-se no sofá e Alberto continuava segurando sua mão, alisando-a com carinho. Estava ali para defendê-la e cumpriria seu papel.

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Norberto saiu da casa do professor tentando controlar o rancor. Tinha ímpetos de voltar e arrancar Liana de lá à força. Não queria promover um escândalo, mas eles não perdiam por esperar. Não ia ceder com tanta facilidade.

Deviam estar cantando vitória. Aquele professorzinho ia ver com quem estava lidando. Ela não disse que amava o marido. Esse casamento era uma farsa, e ele haveria de anular tudo. Sentia a boca amarga e uma forte pressão na nuca. Seu estômago também estava enjoado. Reconhecia que havia perdido a cabeça. Precisava controlar-se. Sua impulsividade assustara Liana. Esquecera que ela estava fraca e doente. Da próxima vez seria mais cuidadoso. Tinha certeza de que encontraria um jeito de vê-Ia a sós novamente. Sabia que depois do que acontecera ela seria mais vigiada. Era mais uma prova de que ela bem poderia estar ali a contragosto.

Como conseguir o que pretendia? Daria alguns dias para que eles esquecessem o assunto, e depois encontraria um jeito de vê-Ia outra vez. Ao chegar em casa, Eulália estranhou: - Aonde você foi? Demorou tanto!

- Fui dar uma volta. Não estava me sentindo bem.

- Hum... Você está pálido. Está doente?

- Não. Apenas ligeira indisposição de estômago.

- Posso preparar um remédio.

- Não é preciso. Já estou melhorando.

Ela olhou para ele e não insistiu. Ele lhe parecia um pouco inquieto, sem o ar costumeiro que ela tão bem conhecia. Sentou-se no sofá da sala, recostou a cabeça e fechou os olhos. Preocupada, Eulália esperou meia hora e, como ele continuasse do mesmo jeito, aproximou-se e tocou de leve em seu ombro, dizendo: - Está se sentindo melhor? - Deixe-me em paz - respondeu ele sem abrir os olhos. Eulália ficou chocada. O tom áspero do marido surpreendeu-a. Em tantos anos de casamento, ele nunca se dirigira a ela dessa forma. Sem se dar por vencida, ela retrucou:

- Por que está desse jeito? Aconteceu alguma coisa que eu não sei? - Já pedi que me deixe em paz. Não estou com vontade de conversar.

Ela não insistiu. Afastou-se um tanto magoada. Acontecesse o que acontecesse, Norberto sempre fora educado. Esse era um forte traço de sua personalidade. 247

Mesmo nos momentos em que estava muito contrariado, conseguia controlar-se e expressar-se de maneira discreta.

Intrigada, Eulália perguntava-se o que ele teria ido fazer naquela tarde que o transtornara tanto. Talvez estivesse doente e escondesse para não a preocupar. Logo afastou essa idéia. Sempre que ele não se sentia bem, ia ao consultório do Dr. Caldas, seu médico e amigo. Logo ela começou a pensar que era estranho o fato de ele tirar férias naquela época do ano para ficar com a família. Sentia que havia alguma coisa que ele escondia para não a deixar nervosa. O que seria?

A esse pensamento, sentiu o coração oprimido. O que ainda estaria para acontecer? Já não bastava Liana ter-lhe dado tanto desgosto?

Foi arrancada de seus pensamentos por Hilda:

- Eurico está impossível. Foi se deitar e disse que não vai descer para o jantar. Nico está com ele. Mas eu disse que o sol iria fazer-lhe mal.

Ele não me ouviu.

- O que disse?

Hilda contou-lhe tudo novamente, ao que Eulália respondeu: - Deixe-o por agora. Depois falo com ele.

As coisas estavam se complicando novamente com o filho. Reconhecia que Alberto soubera conquistar a estima de Eurico. Durante aquele tempo ele se tomara mais calmo, mais forte e até mais participativo.

Por que Liana fizera aquilo? Ela poderia ter se casado com Mário e tudo continuaria em ordem, Eurico em paz e eles todos juntos.

Suspirou triste. A calma dos últimos meses fora truncada. Até Norberto estava mudado. Não falaria com ele até que lhe pedisse desculpas pela grosseria de momentos antes. Esse pensamento não a acalmou. Ao contrário, sentiu-se mais angustiada e só. Não tinha ninguém em quem pudesse confiar. Estava habituada a dividir tudo com Norberto e Liana. Ela a abandonara e ele não parecia disposto a apoiá-Ia. Eulália reagiu a esse pensamento e tentou sair da depressão. Seu marido estava indisposto, apenas isso. Descansaria um pouco, ficaria melhor e depois lhe pediria desculpas pela atitude grosseira. Nada havia mudado entre eles.

Levantou-se e resolveu ver o que estavam fazendo para o jantar. Se ele não estava bem do estômago, teria de providenciar alimentos leves.

Norberto sentou-se à mesa para o jantar sem dizer nada. Eulália notou que ele parecia melhor, mas não se arriscou a perguntar.

- Onde estão as crianças? - indagou ele com naturalidade. 248

- Eurico não quis descer e os outros dois jantaram na copa. - Eurico não jantou por quê?

- Não quis.

- Ele não pode ficar sem se alimentar. Você precisa falar com ele. Não pode deixá-Io fazer tudo que quer.

- Ele alega que não está bem.

- Mais uma razão para ele não ficar sem comer. Você sabe que ele pode voltar a ficar anêmico.

- Ele não quer aceitar a nova professora. Hoje não quis assistir à aula. - Isso não pode acontecer. Você tem de obrigá-Io a ir.

- Já tentei. Ele não obedece. Por que não fala você com ele? - Falarei, depois do jantar. Apesar de Norberto parecer melhor, Eulália notou que ele a olhava de um jeito diferente do habitual. Não disse nada. Não queria arriscar-se a ser maltratada de novo. Depois do jantar, Norberto foi ao quarto de Eurico e mandou que Amelinha e Nico saíssem. Depois se aproximou da cama onde o menino, coberto até o pescoço, fechara os olhos para fingir que estava dormindo.

Continuar: parte 3 de 4