Quando Chega a Hora

Zibia Gasparetto · Capítulo 3 de 4 · parte 4/4

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Quando Chega a Hora

Liana havia vestido a roupa com a…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

- É verdade. Felizmente Nico tem muita força e Alberto entende desse assunto. Foi ele quem orientou os meninos, ajudando-os para que se defendessem e resistissem ao assédio do coronel Firmino.

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- Lamento ter sido contra seu casamento. Agora percebo que ele a ama muito e fez tudo para protegê-Ia enquanto nós, sua família, só atrapalhamos. - Vocês não sabiam a verdade. Estou contente que tenham compreendido. Assim poderão apoiar Eurico. Ele vê mesmo os espíritos!

- Eu sei. Quem diria! Tivemos nossa lição. Norberto agora quer estudar. Ficou de ir à casa do Dr. Marcílio buscar alguns livros.

- Tanto esse médico quanto sua esposa e todos que freqüentam sua casa são maravilhosos. As sessões são verdadeiros bálsamos de paz.

- Vocês têm ido?

- Sim.

- Sente-se melhor?

- Muito. Hoje, por exemplo, parece-me haver acordado de um longo pesadelo. Sinto vontade de cantar, de levantar, ver as flores de nosso jardim, ir à rua. - De fato, seu aspecto está muito melhor. Está até corada! O Dr. Marcílio entrou e foi logo dizendo:

- Como você melhorou!

- Ela está corada.

- Posso levantar-me?

- Vim buscá-Ias para o café com bolo de Gislene. É imperdível. Estamos esperando as duas na sala.

Liana levantou-se, trocou de roupa e arrumou-se. Estava renovada e feliz. Antes de sair do quarto, abraçou a irmã, dizendo emocionada: - Que bom que você está aqui! Nunca mais me abandone.

Ao que Eulália respondeu:

- Nunca. De agora em diante voltaremos a ser uma família. O que Alberto fez por você tocou meu coração. Sinto-me envergonhada do que fiz.

Elas foram para a sala, e Norberto, vendo-as, não disse nada. Sentia-se constrangido pelo que fizera. Foi Liana quem se aproximou dele, dizendo:

- Hoje é um dia feliz. Estou contente que estejam aqui. Alberto aproximou-se: - Tem razão. Desde que nos casamos, vê-Ios aqui era nosso maior desejo. Liana sentiu muita falta da família.

- Lamento que tenha sido dessa forma. Sinto-me envergonhado - respondeu Norberto. Marcílio interveio:

- Não se preocupe com isso. Todos nós sabemos como a influência desses espíritos pode ser forte.

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O que importa agora é conhecer as leis que interferem nesses fenômenos para saber como se defender.

- Sinto que é hora de aprender - tornou Norberto com humildade. - Tem razão. Sua sensibilidade abriu-se e, se não atentar para essa realidade, o que lhe aconteceu pode se repetir.

- Deus me livre, doutor! Nunca em minha vida fiz papel de louco como hoje. Fico arrepiado só em pensar.

- Gostaria de conversar consigo. Vá em casa qualquer dia desses. - Se não se importar, gostaria de ir hoje mesmo. Sinto-me inseguro e preocupado. Sempre mantive completo domínio sobre meus atos. É difícil para mim admitir as loucuras que fiz. - Depois de nosso café, conversaremos.

O lanche decorreu alegre, e tanto Eulália quanto Liana estavam bem-dispostas. Alberto fez as honras da casa, atencioso para com todos.

Quando o médico se despediu, convidou Norberto para acompanhá-lo. Eulália levantou-se, mas Marcílio tornou:

- Fique mais um pouco, Dona Eulália. Depois de tanto tempo, vocês têm muitas coisas para conversar. Nossa conversa será a dois.

- Também gostaria de entender do assunto. Meu filho precisa de minha compreensão - objetou ela.

- Falaremos outro dia. Hoje quero conversar com o Dr. Norberto. - Nesse caso, ficarei mais um pouco. Hilda me fará companhia na volta. Eles saíram, e os três sentaram-se na sala enquanto Hilda acompanhava Gislene na cozinha. As duas conversavam animadas, e Hilda queria a receita daquele bolo tão gostoso que ela servira com o café.

Eulália foi a primeira a romper o silêncio.

- Quero pedir-lhe desculpas, Alberto. Fui intolerante e teimosa. As crianças sentiram muito sua falta. Eurico fez de tudo para que o chamasse de volta. Ficou impossível. - Eu sei. Nico contou-me. Ele se habituou a conseguir tudo que deseja dessa forma. Sabe de sua preocupação com sua saúde e explora isso.

- Já notei. Infelizmente esse é meu ponto fraco. Ele sempre deu muito trabalho. Tinha febre por qualquer coisa, não se alimentava, nunca foi igual às outras crianças. Amelinha sempre foi muito diferente. Eu sentia que ele era muito mais frágil, e tinha medo de perdê-lo. - Dá para entender. Mas agora ele já superou essa fase. Está mais forte. Precisa aprender a se colocar de outra forma.

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Eulália baixou a cabeça e ficou pensativa alguns segundos. Depois disse: - Talvez eu seja culpada disso também. Sempre impus o que eu queria sem ouvir o que ele dizia. Para mim, ele era incapaz de discernir. Confundi as coisas, pensei isso por causa de sua debilidade física. Agora, com o que aconteceu, percebi que ele sabia mais que eu, pelo menos sobre essa história de almas do outro mundo.

- Ele ficará feliz quando souber que você acredita nele agora - disse Liana. - E que vocês voltarão a freqüentar nossa casa.

Alberto, pretextando um trabalho a fazer, deixou-as a sós para que pudessem conversar à vontade.

Marcílio chegou em casa e conduziu Norberto a seu escritório, fechando a porta. Depois que se acomodaram, o médico tomou:

- Fico feliz que você tenha compreendido a verdade. Agora já vejo uma saída para os angustiantes problemas de sua família.

Norberto olhou-o preocupado. O que acontecera naqueles dias aparecia em sua mente de maneira obscura. Lembrava-se de ter feito algumas coisas incontroláveis, mas não de tudo que dissera. Eulália contara que ele dissera amar Liana. Era isso que mais o assustava. Por pouco pusera tudo a perder. E se acontecesse de novo? E se ele acabasse revelando o segredo de seu amor por ela?

- Tudo ficará bem se a alma do coronel não voltar.

- Liana foi esposa dele em outra encarnação. Mas não teria conseguido envolvê-Io daquela forma se você não lhe desse oportunidade.

- Eu nem acreditava na existência dele. Você diz que Liana foi casada com ele em outra encarnação. Para mim é difícil acreditar. Ainda agora, apesar do que aconteceu, estou duvidando. O coronel pode ter se enganado. Liana pode ser parecida com a esposa dele. - Entendo sua dificuldade. Eu afirmo: Liana foi a esposa do coronel, e digo mais. Estou informado pelos espíritos superiores que Amelinha foi a filha que ele perseguiu, Nico o genro que ele queria matar e Eurico o neto que ele impediu de nascer. Norberto abriu a boca e fechou-a novamente sem encontrar palavras para dizer. O tom de Marcílio era sério e firme. Ele estava afirmando, e Norberto não se sentiu com coragem de contradizer. O médico continuou:

- O espírito de Eurico teve muita dificuldade para reencarnar, por isso a infância difícil. Mas agora a encarnação firmou-se e, com a graça de Deus e a ajuda de vocês, ele reconquistará o equilíbrio.

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A ida de sua família para aquela casa não foi por acaso. Para que eles pudessem viver em paz, era preciso que o espírito do coronel Firmino se esclarecesse. Ele, mesmo à distância, continuava envolvendo Eurico, que era inimigo dele de outros tempos. Enquanto ele não desistisse de procurá-los e de persegui-Ios, seria difícil o menino manter a saúde. Vendo que Norberto acompanhava atentamente suas palavras, continuou: - Liana foi a mãe de Amelinha e esposa do coronel. Elas sofreram muito ao lado dele e o odiavam profundamente. A vida trabalha para a harmonia do ser. Ninguém pode ter saúde física e mental sem limpar o coração, sem largar o passado e perdoar a ignorância alheia. - Como pode ser isso? Liana não conhecia o coronel nem se lembrava dele. Como poderia odiá-Io?

- Ela reencarnou e esqueceu. Sempre que renascemos a vida apaga a consciência de nosso passado, mas as energias continuam em nosso inconsciente. A mágoa, a raiva estavam lá todo o tempo, e bastou que ela o reencontrasse para que tudo viesse à tona. Lembre-se que quando ela o viu perto da escada ficou apavorada.

- Qualquer um ficaria, vendo um espírito.

- Com ela foi pior. Sentiu pavor de que ele a dominasse energeticamente. - De fato, fizemos tudo e ela não reagiu. Nunca entendemos essa atitude. Liana sempre foi forte, determinada, ativa. Ficou completamente deprimida, apática. - Por isso foi preciso que a tirássemos de casa daquela forma. Se ela ficasse lá, não teríamos como ajudá-Ia, ainda mais que vocês não permitiam nossa presença. - Sinto que tenhamos sido tão resistentes.

- Quando ela se foi, ele ficou com raiva e percebeu que poderia envolver você. Então começou a pressioná-Io para buscar Liana.

- Ele sabia que eu não aceitei o casamento dela.

- Ele sabia mais. Ele sabia tudo quanto você pensava. Para os espíritos desencarnados, nossos pensamentos são visíveis.

Norberto remexeu-se na cadeira inquieto.

- Ele sabia tudo que eu pensava?

- Tudo. Por isso, descobrindo seus sentimentos para com Liana, viu uma oportunidade de conseguir o que queria.

Norberto baixou a cabeça envergonhado. Como é que o médico podia saber de tudo? Liana teria contado? Não se conteve:

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- Liana falou sobre isso?

- Falou. Ela contou tudo que houve entre vocês. Esse é o ponto fraco que facilitou o assédio do coronel. Vive arrependida, não se perdoa pelo deslize, teme que a irmã descubra. Liana tem a alma nobre, é muito honesta. Respeita sua família. Vive se atormentando com o que aconteceu.

- Às vezes também me arrependo. A presença de Liana enlouquece-me. Esse amor está acabando comigo. Depois, sei que Liana também me ama. - A vida separou vocês. É preciso entender que o momento não é para que fiquem juntos. Por enquanto ainda não nos foi revelado por que você está dentro desta história, que laços do passado existem unindo a família do coronel Firmino, você e sua esposa. Mas, se estão juntos nesse processo, certamente atraíram essa experiência por alguma razão. No universo nada acontece por acaso.

- Acha isso mesmo? Teremos vivido outras vidas também? - Com certeza. O que sei é que somos responsáveis por nossas atitudes. Há valores essenciais que necessitamos aprender se quisermos viver melhor. Neste mundo somos submetidos a energias perigosas que despertam nossas paixões. Estamos aqui para aprender a dominá-Ias. Ficar cada vez mais forte no bem é nossa garantia de equilíbrio, de saúde e de felicidade. Ninguém pode ficar bem entregando-se às paixões. Elas exacerbam as emoções e são insaciáveis, exigindo cada dia mais. É sofrimento o tempo todo. - Quanto a isso concordo. Desde que me apaixonei por Liana, minha vida tem sido um inferno. Não tive mais um momento de paz.

- A paz tem o preço da honestidade e do respeito. Você mentiu, desrespeitou sua alma, e a consciência de seu erro não lhe permite desfrutar de paz. Norberto colocou a cabeça entre as mãos em desespero. Aquelas palavras o emocionavam muito. Ele estava mexido, sensível, e não suportou. As lágrimas desceram por seu rosto e ele rompeu em soluços.

Marcílio deixou que ele desabafasse e ficou em silêncio. Intimamente orava aos amigos espirituais pedindo que o ajudassem a aliviar aquele coração aflito. Quando serenou, Norberto enxugou os olhos com um lenço e disse: - Desculpe, doutor. Não pude suportar.

- As lágrimas às vezes lavam a alma. - Se elas pudessem me ajudar a sair dessa confusão em que me encontro, seria bom. Infelizmente, não têm esse poder.

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- É, mas Deus tem. Ele tem a magia do amor e pode não só aliviar mas também curar as feridas do coração.

- Eu gostaria muito de ter essa fé, de poder acreditar que um dia me libertarei desse tormento.

- Se é isso que quer de verdade, se seu coração estiver sendo sincero, tenho certeza de que conseguirá o que pretende.

- Eu gostaria muito de viver para minha família. Quando pensei em me casar, procurei uma moça boa que pudesse ser a mãe de meus filhos. Não pensava em amor, confesso. Nosso casamento foi uma espécie de arranjo. Mas gostei de Eulália. Ela me atraía como mulher. Mas nunca senti por ela o que sinto por Liana. Aliás, nunca havia sentido isso por nenhuma mulher. Arrependi-me de haver casado, mas era tarde. Agora, estou perdido. Eulália tem sido boa companheira, fiel, devotada à família. Eu gostaria de amá-Ia como merece. Liana está casada, sinto que não devo mais infelicitar sua vida. Sei que ela ainda me ama, e é isso que me tira o sossego. Ela não pode amar o marido. Era a mim que ela amava! - Você está enganado. Liana ama o marido. Eles foram feitos um para o outro. Deixe-os viver em paz.

- Se isso é verdade, eu gostaria de esquecer. Mas como? - Feche os olhos e vamos pedir a ajuda de Deus. Neste momento, procure esquecer esse problema. Pense que você está cansado e que agora não precisa tomar nenhuma decisão. Entregue-se à paz. Deixe que a luz da harmonia brilhe à sua volta, e peça que Deus o proteja e oriente. Você deseja o bem e só o bem. Vamos orar. Marcílio proferiu comovida oração e aos poucos Norberto sentiu-se mais calmo. - O desabafo fez-me bem. Obrigado por ter-me escutado. - Vou emprestar-lhe alguns livros que estudam os fenômenos de influência e como manter a saúde mental protegendo-se das investidas dos espíritos perturbadores. - Vou ler com atenção. Nunca mais quero passar por isso outra vez. Marcílio olhou sério para ele e disse com naturalidade:

- Você vai saber como é o processo, mas o importante é descobrir como você está atraindo essas influências. Assim como nossa sociedade tem leis para preservar o próprio equilíbrio, a vida estabeleceu os valores verdadeiros do espírito eterno. Criou leis cósmicas que funcionam naturalmente, respondendo a cada um de acordo com suas atitudes. E, se as leis humanas se modificam conforme a humanidade progride, as leis cósmicas nunca se alteram, porque representam a verdade absoluta.

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Por isso, quem quer gozar de saúde física, mental, espiritual, ter felicidade, paz, alegria de viver, precisa estudar a vida, entender como ela funciona. Assim, quanto mais verdadeiro você for dentro dos valores da espiritualidade, mais equilibrado e feliz será. - A religião está sempre pregando moral, mas tenho visto que mesmo os que cumprem os preceitos de sua religião sofrem muito neste mundo. - Não estou me referindo às religiões nem à moral humana. Elas estão cheias de preconceitos e inverteram quase todos os valores. Estou falando do que a vida quer, de como ela reage acionando o progresso humano provocando o desenvolvimento da consciência.

- Como posso saber o que a vida quer? Sempre cumpri com meus deveres de cidadão, de esposo e pai. Como foi acontecer comigo essa paixão que não pedi e que está infelicitando toda a nossa família?

- Eis o que você precisa descobrir. Consulte seu coração, peça a Deus para mostrar-lhe a verdade. Jogue fora a culpa. Ela deturpa os fatos e enfraquece o espírito. - Mas é o que eu mais sinto. Culpa. Por minha causa Liana está sofrendo e estamos nessa confusão.

- Como pode se culpar se reconhece que essa paixão brotou em seu peito sem que planejasse?

- É, foi. Mas agi de forma errada.

- Deixou-se dominar pelas emoções. E o que era atração acabou tomando-se paixão. Assim você acabou descobrindo que, quando não controlamos as emoções, elas acabam por nos controlar. Quando não pisamos no freio, o carro se desgoverna e acabamos por nos machucar.

- E como!

- Você agora está mais forte que antes. Quando sentir atração por alguém, vai dominar-se, porque já sabe a que sofrimentos as emoções descontroladas podem conduzir. - Concordo, doutor. Nunca mais quero me envolver com ninguém dessa forma. - Se está decidido a preservar sua paz, não se culpe mais. Reconheça que foi imprudente mas que agora, mais experiente, saberá agir melhor daqui para a frente. - Suas palavras têm o dom de me acalmar. Sinto como se tivesse tirado um peso enorme de cima de mim.

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- A culpa pesa. Liberte-se dela. Você tem uma família linda, está bem financeiramente, agradeça a Deus essa felicidade. Não perca tempo alimentando ilusões que só trazem dores, sofrimentos.

Norberto baixou a cabeça pensativo e ficou calado por alguns instantes. Depois disse:

- Obrigado por haver me mostrado a verdade. Assim como estou tirando o peso da culpa do coração, gostaria que me ajudasse a tirar essa paixão do peito. - Infelizmente não tenho esse poder.

- Nem eu. Confesso que tenho tentado.

- Amar Liana não é proibido. O amor é e sempre será uma bênção. Se não consegue tirar esse sentimento de seu coração, transforme-o em alguma coisa elevada. Liberte-a definitivamente. Não interfira mais em sua vida, deixe que ela encontre seu verdadeiro destino. A vida separou-os e deve ter seus motivos. Ela sempre faz tudo certo. - Liana é a mulher da minha vida. Tenho certeza disso.

- No momento estão em lugares opostos, cada um cumprindo seus compromissos. Quem garante que sua felicidade seja ao lado dela? Você gosta de sua mulher. Não estará ao lado de sua família a melhor oportunidade de uma vida mais proveitosa e feliz? São considerações para você pensar.

Norberto suspirou fundo. Sentia que naquele momento era incapaz de decidir qualquer coisa. O médico levantou-se, dizendo:

- Vou apanhar os livros.

Norberto meneou a cabeça, concordando. Pensou que soubesse muito sobre a vida, mas agora percebia que havia ainda muito a aprender.

Quando deixou a casa do Dr. Marcílio, Norberto sentia que precisava reconquistar a paz. As palavras do médico fizeram-no refletir sobre seus sentimentos. Ele amava Liana, mas não queria que Eulália descobrisse que fora traída.

Ao pensar nisso, sentia um aperto no peito e sua inquietação aumentava. Se ela descobrisse tudo, saberia que ele fora um fraco, que não soubera controlar as emoções dentro de sua própria casa.

Ela o julgava um homem correto, admirava-o e respeitava-o. O pensamento de aparecer diante dela como um mau-caráter deixava-o apavorado. Teve de reconhecer que o apoio, a consideração, o carinho de Eulália eram muito importantes em sua vida. Recordou-se do namoro, do casamento, do nascimento dos filhos, dos problemas que haviam dividido nos doze anos de convivência, e sentiu que não queria mais separar-se da família.

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Recordando-se que propusera fugir com Liana, sentia-se nervoso. Felizmente ela tivera o bom senso de não aceitar. Quanto mais pensava, mais se arrependia de ter se envolvido nessa aventura.

Agora ela estava casada e ele poderia esquecer a culpa de a ter deflorado. Se Alberto a aceitara mesmo assim, se eles se amavam como o médico afirmara, ele, Norberto, não tinha mais nenhuma responsabilidade pelo futuro dela.

Essa idéia o preocupava. A perda da virgindade era motivo até de anulação do casamento. Pensando melhor, reconhecia que o casamento de Liana, ao contrário do que pensara, viera em auxílio deles, porquanto o obrigava a controlar a atração que sentia por ela. Depois do que acontecera, eles freqüentariam sua casa novamente. Teria de conviver com ela. Como se sentiria? Conseguiria controlar suas emoções? Eulália voltou para casa e, enquanto Hilda ia dar as ordens para o jantar, ela reuniu as crianças na sala. Depois de verificar que haviam estudado e tomado banho, disse: - Sentem-se e vamos conversar.

Eles se olharam admirados. Ela nunca se dirigira a eles nesses termos. Parecia até que estava falando com visitas. Acomodaram-se logo. Ela continuou: - Eu sei de tudo.

Eles se olharam e continuaram em silêncio à espera de que ela prosseguisse. - Não precisam ter medo. Hoje descobri a verdade. A alma do coronel Firmino tomou conta de Norberto e obrigou-o a fazer coisas que ele não queria. Eurico suspirou aliviado:

- Puxa!! Até que enfim! A senhora também o viu?

- Não fisicamente. Mas vi como seu pai mudou, fez loucuras, parecia outra pessoa. Cheguei a pensar que tivesse enlouquecido, mas o Dr. Marcílio conversou com ele como se fosse com o coronel, e ele respondeu tudo. Depois rezamos e ele acabou se arrependendo e concordando em ir embora. Não sei como é isso, mas parece que veio uma outra alma buscá-lo. - Eu sei - disse Eurico. - Foi aquela mulher bonita que, sempre, que ele estava em meu quarto e eu rezava, aparecia e o levava embora.

Eulália admirou-se:

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- Você a viu também?

- Vi. Ela é muito bonita e sorri para mim. Quando ele está me amolando e ela chega, ele fica como que esquecido de tudo e ela pega no braço dele e o leva. - Por isso você sentia tanto medo! - considerou Eulália. - Sinto muito, meu filho, por não ter acreditado no que você dizia. Nunca pensei que isso pudesse ser verdade. Se soubesse, não teria vindo morar aqui.

- Não ia adiantar. Eu o via na outra casa também.

- Como assim? Não foi depois que nos mudamos para cá que ele começou a aparecer para você?

- Não. Desde pequeno que ele me persegue.

- Acho que agora ele não vai voltar mais - tornou Nico.

- Como é que você sabe? - perguntou Amelinha.

- Minha mãe sempre dizia que as almas do outro mundo aparecem quando se sentem infelizes e precisam de alguma coisa. Se nós rezamos, conversamos com elas para saber o que desejam, elas vão embora e nunca mais voltam - garantiu Nico.

- Tem certeza? - tornou Eurico. - Você conversou com a alma do coronel muitas vezes e ele sempre voltava.

- Eu conversei, mas ele não me levou a sério. Acho que é porque sou criança. Agora, com o Dr. Marcílio, que entende dessas coisas, vai ser diferente. Acho que estamos livres dele.

- Tomara. Fico arrepiado só em lembrar a cara dele!

Eulália levantou-se e abraçou o filho penalizada. As crianças haviam enfrentado tudo isso sozinhas e com muita coragem. Reconheceu que Nico era um menino especial. Norberto entrou, colocou os livros sobre a mesinha e disse: - Posso saber qual é o motivo dessa reunião?

- Eurico está me contando como ele via o coronel - respondeu Eulália. - Eles conversavam com ele e tentavam fazer o que o Dr. Marcílio fez.

Norberto admirou-se:

- Expliquem como é isso. Ele respondia?

- Respondia, sim, papai - confirmou Eurico.

Nico interveio:

- Bom, Sr. Norberto, o Eurico o via, ficava com medo, cobria a cabeça com o lençol, mas continuava vendo assim mesmo. Me chamava, contava o que ele estava lhe dizendo e eu tentava conversar para ver se ele desistia de assustar o Eurico. 283

- Ele só ia embora quando aquela mulher aparecia e o levava. - Vocês foram muito corajosos.

- Eu tinha muito medo - lembrou Amelinha.

- Eu também - afirmou Eurico. - Eu não. Minha mãe sempre diz que as almas do outro mundo não podem nos fazer mal. Basta rezar e pedir a ajuda de Jesus, que somos protegidos. Norberto e Eulália entreolharam-se. Estavam assustados mas ao mesmo tempo interessados em saber mais. A certeza de que depois da morte as pessoas continuavam a viver em outros mundos, de onde podem interferir na vida dos que ficaram, modificava todos os seus conceitos antigos. Indagações novas surgiam e eles queriam respostas. Havia muito que aprender nesse novo caminho, mas uma coisa era certa: as crianças falavam a verdade e, por mais incrível que pudesse parecer, eles acreditavam.

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Capítulo 20

Sentados ao redor da mesa, na casa do Dr. Marcílio, Norberto, Eulália, Liana e Alberto, juntamente com os freqüentadores habituais, oravam na sala iluminada por pequena lâmpada azul.

Depois do que acontecera, Norberto e Eulália iam à casa do médico duas vezes por semana assistir às sessões, de onde saíam cada vez mais interessados. Ele aproveitara aqueles dias de férias para ler os livros que Marcílio lhes emprestara, e, se a princípio o fez movido pelo receio do que lhe acontecera, acabou descobrindo que atrás dos fenômenos que tanto o assustaram havia uma verdade maior revelando segredos da vida que ele nunca supusera possíveis, descortinando toda a perfeição do universo, fazendo-o refletir e compreender sua grandeza.

Estudando a reencarnação, encontrou respostas para todas as suas indagações com relação às aparentes injustiças das desigualdades sociais. Sentiu-se mais respeitoso para com o que ainda não podia compreender, entendeu que as pessoas podiam ser diferentes umas das outras, cada uma dentro do próprio processo de desenvolvimento espiritual. Era sexta-feira, e no domingo ele teria de voltar a São Paulo. Suas férias haviam terminado. Era com pesar que regressaria à capital. As longas conversas que ele e Eulália mantiveram com o médico durante aquele período haviam esclarecido muito. Eles estavam cada vez mais desejosos de saber detalhes da vida astral, captação de energias, reencarnação, influências dos espíritos desencarnados, etc.

Marcílio sorria observando a euforia deles, comum a todos os que passam pelas primeiras experiências da mediunidade e obtêm provas da vida após a morte. Ele respondia o que podia com paciência, alertando para o uso do bom senso no trato com os desencarnados, com os quais é necessário ter os mesmos cuidados que se têm com as pessoas à nossa volta. - Não podemos esquecer que nem todos os que estão vivendo na outra dimensão são pessoas elevadas. Os embusteiros, os maldosos que viveram aqui estão lá e continuam iguais ao que eram. A morte do corpo não modifica o nível de ninguém. Cada um continua sendo o que é.

- Não devemos evocar espíritos? - indagou Norberto.

- Nunca. A não ser quando chamamos os que sabemos superiores. Não estou me referindo a parentes nossos, mas a espíritos de alto nível, como Jesus, Maria, S. Francisco de Assis. Esses podemos evocar, a eles podemos nos ligar e pedir ajuda. 285 - Estava pensando em evocar a alma de minha mãe - disse Eulália. - Por que ela nunca veio às nossas sessões?

- O que sei é que, se lhe fosse permitido vir, ela teria vindo sem que a evocássemos. Quando a manifestação de alguém que amamos é espontânea, vem acompanhada de sinais que provam sua autenticidade. Quando evocamos, nem sempre podemos afirmar que foi a própria pessoa quem compareceu. Depois, nossa evocação pode perturbá-Ia se estiver em recuperação, em fase de reencarnação ou mesmo já tendo reencarnado. O que acontecerá se pedirmos a ajuda de um parente desencarnado e ele estiver sem condições de nos atender? Ficará em conflito, sofrerá, algumas vezes até tentará nos socorrer e acabará por atrapalhar mais. Por isso, é preciso ter fé. Confiar. O importante é saber que a vida continua, que cada um é responsável por suas atitudes e atrairá para si fatos e pessoas em sua vida, conforme acredita e faz. O resto vai por conta de nossa insegurança, sempre esperando que os outros nos digam como proceder.

- Compreendo o que deseja dizer. Não basta saber, é preciso viver de acordo com o que acreditamos, senão estaremos apenas intelectualizando e não assimilando. Marcílio sorriu satisfeito:

- Nada como falar com pessoas inteligentes. Você disse em poucas palavras o que eu quis dizer com toda essa conversa.

Sentado ao redor da mesa, Norberto pedia a ajuda de Deus para que ele pudesse encontrar a paz do coração. Naqueles dias em que haviam reatado as relações com Liana e Alberto, vendo-os juntos, muitas vezes ele sentira o coração apertado. Nessa hora se controlava pensando que Liana era feliz e ele desejava viver para sua família dali para a frente. Depois do que acontecera, Eulália aproximara-se mais dele, interessada em estudar a medi unidade para poder apoiar Eurico. Estava lendo os livros que o Dr. Marcílio emprestara e os dois ficavam horas conversando sobre o assunto.

Norberto surpreendeu-se com a lucidez de Eulália, sua postura firme, interpretando o que liam com inteligência e perspicácia, muitas vezes esclarecendo suas dúvidas com certa facilidade e brilho. Se antes a admirava como esposa, passou a admirá-Ia como pessoa. Cada dia que passava, mais e mais se arrependia de haver se deixado levar pela paixão a ponto de perder a paz e pôr em risco o futuro de sua família. 286

Amava os filhos, queria que eles o amassem e respeitassem. Começou a pensar que havia sido um erro ele ter ficado separado da esposa. Enquanto estiveram sempre juntos, ele não sentira nada por Liana. Pela primeira vez começou a duvidar da veracidade do amor que pensava sentir por ela.

Seria bom se ele pudesse ficar ao lado de Eulália o tempo todo. Mas tinha receio de pedir-lhe que voltasse a viver na cidade. E se Eurico piorasse novamente? Ele parecia tão bem! Não se lembrava de tê-Io visto assim tão disposto. Por outro lado, ele não podia abandonar os negócios e ir viver na mansão.

Naquele instante, Norberto pediu a Deus que o ajudasse. Estava arrependido e com vontade de viver em paz.

- Boa noite, amigos! - disse um dos médiuns presentes. - Venho novamente hoje agradecer a ajuda que recebemos de vocês. Finalmente Firmino está aceitando a verdade. Esse está sendo um importante passo para que vocês se libertem do passado e possam seguir adiante. Eu já relatei como começou esta história e hoje quero esclarecer mais alguns pontos. Eu só contei que Liana, que se chamava Mariquita quando se casou com Firmino, era uma jovem de rara beleza e vivia com seus pais e uma irmã um ano mais nova. Foram educadas com muita severidade. Inês, a irmã, não era tão bonita como Mariquita e sofria muito, ouvindo desde cedo as pessoas dizerem que elas nem pareciam irmãs. Sentia muita inveja e fazia o que podia para infelicitar Mariquita. Quando Inês descobriu que o jovem Gilberto estava apaixonado por sua irmã e lhe enviava bilhetes amorosos, pensou logo em conquistá-Io. Se ela o tirasse de Mariquita, certamente ninguém mais diria que ela era mais feia ou menos inteligente.

Para isso arquitetou um plano. Sabia que Firmino, filho de abastada família, estava apaixonado por Mariquita e que ela não o queria. Procurou o pai e contou-lhe que vira a irmã aos beijos com Firmino, dando a entender que tinham intimidade. Furioso, o pai procurou o rapaz e exigiu uma explicação, e ele, em comum acordo com Inês, aproveitou e pediu a mão de Mariquita. De nada valeu Mariquita chorar, implorar, pedir. Nada demoveu seus pais, e acabaram se casando.

Inês fingiu-se amiga de Gilberto, que estava inconsolável pela perda de Mariquita, e acabou finalmente se envolvendo com ele. Casaram-se. Ela o amava de verdade. Entretanto, sentia que agira errado e, insegura, exigia cada vez mais atenção do marido, querendo que ele provasse constantemente seu amor e sua fidelidade.

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A vida deles tornou-se um inferno. O ciúme dela era doentio. Ele queria filhos, mas ela o queria só para si. Não desejava dividir seu amor com os filhos. Foram infelizes, desencarnaram frustrados e angustiados.

Ao se encontrarem no astral depois da morte, souberam de todos os sofrimentos pelos quais Mariquita passara com o marido. Inês sentiu-se culpada pelos sofrimentos da irmã. Foi procurar Gilberto e contou-lhe toda a verdade. Choraram juntos. - Se você ainda a ama - disse Inês -, estou disposta a ajudá-Ia a reconquistá-Ia. Quando ele se foi disposto a procurar Mariquita, Inês sentiu-se muito só. Pela primeira vez lamentou-se por não ter filhos. Seus conhecidos tinham pessoas na Terra que eles amavam. Ela não tinha ninguém. Arrependida, lamentou o tempo perdido. O tempo havia passado, mas Gilberto não havia esquecido o primeiro amor de sua juventude. Foi procurar Mariquita. Ela o recebeu com carinho. Porém, quando ele lhe falou do antigo amor, ela respondeu:

- Sei que está sendo sincero. Mas eu mudei. Depois de tudo que passei, não sou mais a mesma. Aqui, conheci uma pessoa que me tem ajudado a atravessar os desafios que a vida me enviou e me ensinado coisas novas. Eu o amo e é com ele que desejo ficar. Perdoe-me. Tenho certeza de que não sou eu a mulher de sua vida.

- É definitivo?

- É. Devo reencarnar em breve, terei ainda alguns desafios nessa encarnação. Ele vai nascer antes de mim e, quando chegar o momento, estará comigo para ajudar-me. Estou certa de que vamos vencer.

- E eu?

- Não se deixe envolver por uma ilusão. Nós nem sequer chegamos a nos conhecer melhor. Como sabe que nosso relacionamento daria certo? Depois, Inês ainda o ama. Por que não tenta entender-se com ela? - Viver com ela foi difícil e frustrante. Não desejo viver aquilo tudo novamente. Depois, como pode dizer isso? Ela foi a causa de. sua infelicidade. Fez tudo para nos separar, e você ainda a defende?

- Não a culpo por minha infelicidade com Firmino. Se eu não tivesse necessidade de passar por essa experiência, nem sequer teria me casado com ele. Ela não teria conseguido nada. - O que quer dizer com isso?

- Que eu precisava aprender essa dura lição, e ninguém a poderia evitar. 288

- Ela a invejava.

- Ela me amava e admirava tanto que gostaria de ser igual a mim. Só que ela não acreditava no próprio valor, e por isso queria o impossível, que era ter o meu. Eu sei que ela é uma alma divina e que dentro dela há um ser maravilhoso, cheio de luz e beleza. Quando ela descobrir isso, nunca mais sentirá inveja de ninguém. Será feliz e espalhará a felicidade. Por que não tenta ajudá-Ia a descobrir sua riqueza interior? Gilberto saiu de lá encantado com o que ouvira. Procurou por Inês para contar-lhe que fora recusado e Mariquita estava amando outro. E finalizou:

- Como vê, fui derrotado duas vezes. Ela garante que não é a mulher de minha vida. A partir daquele dia eles se tomaram inseparáveis amigos. Inês procurara a irmã sem constrangimento e abraçaram-se com carinho.

Inês foi chamada e disseram-lhe que ia reencarnar. Ela alegou que estava arrependida do que fizera à irmã e desejava ajudá-Ia de alguma forma. Queria ter muitos filhos. Foi informada de que Mariquita seria sua irmã mais nova. Ela se casaria novamente com Gilberto e receberiam como seus filhos Mariinha e o filho dela que não chegou a nascer por causa do atentado que ela sofreu quando estava grávida. Naquele tempo, ela se recuperou, mas não pôde ter filhos. Esse espírito estava em um processo difícil e com muita dificuldade de nascer. Por atitudes que agora não vale a pena mencionar, ele havia lesado seu corpo astral. Por isso deu tanto trabalho desde que nasceu. Mas graças à dedicação de todos, ele melhorou muito e já conseguiu reequilibrar-se. Temos certeza de que, de agora em diante, sua reencarnação se firmará. Só queremos que ele se dedique à mediunidade. Trouxe essa capacidade e o compromisso de libertar-se através do trabalho em favor dos que sofrem. Doando amor e energias, ele finalmente conseguirá o que tanto deseja: saúde e alegria.

Agradecemos a ajuda e queremos que continuem na fé em Deus e no caminho do bem. A médium calou-se. Marcílio fez comovida prece de agradecimento e encerrou a sessão. Quando as luzes se acenderam, ninguém comentou. Todos estavam comovidos e pensativos.

Eulália via-se na pele de Inês, a irmã invejosa; Norberto sentia-se como Gilberto. Todos sabiam que o menino doente era Eurico.

Norberto criou coragem e pediu para falar com o Dr. Marcílio em particular, ao que Eulália indagou:

- Posso ir também?

289

- Claro - respondeu Norberto. - Venha. O que quero falar interessa também a você.

Foram para outra sala, acomodaram-se e Norberto começou:

- Estou muito emocionado, doutor. Esta noite tivemos revelações muito importantes.

- É verdade. Raramente podemos contar com tanta clareza. Se o fizeram, é porque vocês já têm esclarecimento para saber a verdade.

- Está claro que falavam de nós - disse Eulália. - Tenho certeza de que eu fui Inês. - E eu Gilberto. Isso me explicou muitas coisas. Até a doença de Eurico. Nunca havia entendido por que ele nasceu tão diferente de Amelinha.

- Agora já sabem. Sabem também que ele está recuperado e daqui para a frente gozará de boa saúde.

- É sobre isso que desejo falar. Estou me sentindo muito só na capital.

- Não é bom para um homem ficar sozinho.

- Concordo, doutor. Eulália me faz muita falta. Porém estava disposto ao sacrifício por causa de Eurico. Mas agora. ..

- Depois do que ouvimos hoje, acho que já podem voltar para a capital. Eulália sentiu-se emocionada com as palavras do marido. Norberto nunca lhe dissera que sentia sua falta. Ela também queria ficar ao lado dele.

- Eu gostaria muito de estarmos todos juntos. Será que Eurico não vai se ressentir?

- Penso que não. Acho que agora está na hora de ter vida normal, de ir para a escola como todos os meninos de sua idade.

- Só há um problema: Nico. Ele não vai querer separar-se dele lembrou Eulália. - É verdade. Eu também gosto muito desse menino - esclareceu Norberto. - Ele é tão bom, ajudou tanto Eurico. Às vezes diz coisas que estão muito além do que dizem os meninos de sua idade.

- Trata-se de um espírito carismático. De um grande artista, esqueceram?

- Como sabe? - indagou Eulália.

Marcílio contou-lhes o que lhes fora revelado anteriormente sobre a vida de todos eles e finalizou:

- Por que não o levam para a cidade e financiam seus estudos? 290

Acho que ele merece e vai aproveitar. Seus pais são muito pobres, como sabem. Ele nunca terá chance ficando aqui.

- É uma boa idéia - concordou Eulália, satisfeita. - Ele é muito apegado à mãe. Será que vai aceitar?

- Ela vai aceitar - garantiu Norberto. - Ama o menino, e é o futuro dele que está em jogo. Depois, continuaremos a vir para cá e ele poderá ir ver a família. - Nesse caso penso que Eurico vai querer ir - concluiu Eulália. Liana e Alberto saíram da casa do médico em silêncio, sem esperar pelos demais. Cada um ia imerso nos próprios pensamentos, sem coragem para abordar o assunto. Por fim Alberto disse:

- Esta noite pudemos compreender muitas coisas.

- É verdade.

- Deu para saber que seu antigo apaixonado de outros tempos conserva no coração o mesmo amor. Está claro que se trata de Norberto. Ela baixou a cabeça, pensativa. Chegaram em casa pouco depois. - Vou preparar um chá. Você quer?

Ele concordou e ela foi à cozinha, enquanto ele se sentou na sala pensativo. Por que Liana havia recusado o amor de Norberto antes de reencarnar e depois se apaixonara por ele? A quem ela se referira ao dizer que estava amando outra pessoa? Ao pensar nisso seu coração se descompassava. Teria sido ele? Teriam estado juntos no astral e combinado o casamento? Teria sido por amor?

Ele sempre se sentira atraído por Liana. Fizera grande esforço para banir esses pensamentos, porque não queria mais se envolver com ninguém por amor depois da experiência desastrosa que tivera com o casamento.

A idéia de se casar com Liana para ajudá-Ia teria sido sincera ou apenas um ardil que inconscientemente usara para enganar-se e mergulhar sem medo nesse casamento? Se fosse com outra pessoa, teria se casado?

Estava confuso. Não conseguia encontrar as respostas com clareza. Liana chamou-o para tomar o chá com biscoitos. Ele se sentou à mesa e serviu-se em silêncio. Foi Liana quem falou:

- Não consigo esquecer o que ouvimos esta noite. Deu voltas à minha cabeça. Parece que à sua também.

- Confesso que sim. Há muitas perguntas sem resposta circulando dentro de mim.

Ela pensou alguns instantes, depois respondeu;

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- Comigo ocorreu o contrário. Encontrei respostas para muitas coisas que me aconteceram nesta vida.

- Quais, por exemplo?

- Por que Norberto se interessou por mim.

- Ele gostava de você e continua gostando. Mas e você? Por que o recusou lá e o amou aqui?

- Não sei. O fato é que saber tudo me deu calma. Pela primeira vez comecei a pensar que meu amor por ele não passou de uma ilusão. Devo confessar: depois de nossa reconciliação, quando voltamos a freqüentar sua casa, ele me pareceu outra pessoa. Percebi atitudes e particularidades nele que antes não havia observado. Algumas vezes cheguei a questionar meus sentimentos, percebendo claramente que ele não tinha nada para me atrair. Mas eu recusava aceitar esse pensamento. Se não era amor, eu me entregara a ele por atração física. Eu não quero aceitar que posso ser venal.

- Muitas vezes fiquei com receio de que, voltando a conviver com ele, ficasse mais difícil para você esquecê-Io. Se por um lado gostei que fizesse as pazes com sua família, por outro senti muito medo. Cheguei a desejar que as férias dele acabassem e que ele fosse embora. Liana olhou-o nos olhos e tomou:

- Você sabe o quanto estou arrependida daquela fraqueza. Nunca mais quero passar por isso. Eulália e as crianças merecem respeito. Se eles soubessem a verdade, eu morreria de vergonha. Por haver fraquejado, quase enlouqueci. Minha consciência não suporta uma atitude como essa. Pode ter certeza de que estou imunizada definitivamente. Se fui capaz de resistir ao assédio de Norberto mesmo quando me julgava apaixonada, agora que percebi meu engano posso ficar com ele a sós em qualquer lugar sem que me sinta tentada a nada. Alberto segurou a mão de Liana, apertando-a com força, e perguntou: - Tem certeza de que não o ama mais? - Tenho. Esta noite, quando aquele espírito relatou que ele me havia procurado e eu não o aceitara dizendo que amava outro, tudo ficou claro em minha cabeça. Sei que ele não é o homem de minha vida!

Pode imaginar como me sinto feliz? O pensamento de que eu estava roubando o marido de Eulália me esmagava. Agora estou livre. Eu o havia devolvido a ela antes e estou contente porque mesmo sem me lembrar de nada eu me recusei a fugir com ele e a aceitar seu amor. Tenho me sentido muito bem ultimamente. Nossas conversas, seu apoio, seu carinho, sua proteção devolveram-me a alegria de viver.

292

A ajuda espiritual, o Dr. Marcílio, os amigos têm sido uma bênção que nunca poderei pagar. E esta noite completou minha cura. Não me sinto mais culpada pelo que aconteceu com Norberto. Foi ocasional. Ele estava longe da esposa; eu, carente de afeto. - Mas ele continua amando você.

- Não creio. Reparou como ele e Eulália conversam e estão sempre juntos? - É verdade.

- Isso não acontecia antigamente. Penso que eles foram feitos um para o outro e estão descobrindo isso. O casamento deles foi um arranjo em que o amor ficou em segundo plano. Sinto que estão mudando. - Pode ser. Desejo sinceramente que eles se entendam e se amem.

- Eu também.

No domingo, Eulália convidou-os para almoçar na mansão. Norberto iria embora no fim da tarde. As crianças estavam agitadas, e, assim que Alberto chegou com Liana, já os esperavam no jardim.

Foi Amelinha quem falou primeiro:

- Tenho uma novidade, tia...

- Língua comprida! Deixe que eu falo! - gritou Eurico, tentando empurrá-Ia para trás. - Calma - pediu Liana. - Cada um fala por sua vez!

- Eu sou primeira!

- Nós vamos voltar a morar na cidade! - disse Eurico, eufórico. - Está vendo, tia? Ele não tem educação mesmo. Nem me deixou falar.

- É verdade? - indagou Alberto.

- É - disse Amelinha rapidamente, antes que Eurico respondesse. - E Nico também vai! - Você tinha de falar, sua linguaruda!

- É verdade, Nico? Você vai para a cidade com eles?

- Vou, Liana. A Dona Eulália foi pedir à minha mãe para eu ir morar com ela na cidade para estudar com o Eurico. Ela deixou.

- Que bom, Nico! - tornou Alberto, contente. - Já resolveu que carreira vai seguir? - Ainda não sei. Mas estou um pouco nervoso. A vida da cidade é diferente. - É. Mas é muito boa também - explicou Alberto. - Você vai gostar, tenho certeza. 293

Depois do almoço, enquanto as crianças brincavam no jardim, eles foram tomar o café na sala de estar, e Eulália comentou:

- Nós vamos voltar a morar em São Paulo. - As crianças já nos contaram as novidades - disse Liana. - Norberto sente-se muito só. Está com saudade da família. Falamos com o Dr. Marcílio, que nos garantiu que Eurico já está forte o bastante para levar vida normal. Aliás, ele precisa ir à escola como os outros meninos.

- É verdade - disse o professor. - Ele é muito inteligente e aprenderá depressa. É só vocês não entrarem no jogo dele e tudo irá bem.

- Esse eu conheço bem. Ele se aproveitava de sua debilidade física para nos chantagear. Conseguia porque naquele tempo estava doente mesmo, passava mal, mas agora está saudável. Acabou aquela anemia. Não conseguirá mais nada. - Eurico é um bom menino. Basta valorizar suas qualidades reais e não dar importância às manifestações de seu mimo - garantiu Alberto.

- Não posso esquecer que foi você quem o ensinou a gostar de aprender. Você e Nico. Esse menino vale ouro - reconheceu Eulália.

- Se depender de mim, pretendo ajudá-Io a progredir na vida interveio Norberto. - Sou muito reconhecido a ele.

- Além de bondoso, tem inteligência acima dos meninos de sua idade. Várias vezes me surpreendeu com suas palavras - tornou Alberto.

- A mãe dele é uma mulher maravilhosa - aventou Eulália. Adora Nico. Ele sempre foi seu companheiro dedicado. O marido é um inútil e nenhum de seus outros filhos é como Nico. É com ele que ela costuma conversar mais. Mas, quando lhe pedi para deixá-Io mudar-se conosco para São Paulo, ela concordou. Em seus olhos brilhava uma lágrima, mas ela garantiu que a felicidade dele e seu futuro estavam em primeiro lugar. Disse que ele gostava muito de nós e ela tinha certeza de que ele seria muito feliz em nossa casa.

- Comove o amor dessa mulher pela família. Enquanto o marido é um encostado, ela trabalha duro para mantê-Ios. Sem revolta, até com alegria, vai vivendo sua vida - declarou Norberto.

Eulália interveio:

- Não sei se vocês sabem, mas, quando ajustei Nico para fazer companhia a Eurico, ele trabalhava para ajudar a mãe. Fiz um trato com ele, dando-lhe um pequeno salário para que sua mãe não sentisse falta da ajuda que ele lhe dava. Era um valor insignificante. mas ele o aceitou com dignidade e só assim concordou em ficar aqui. 294

Agora que ele vai conosco, Norberto resolveu mandar uma mesada a Dona Ernestina. Assim ela não precisará trabalhar tanto.

- Vou sentir falta de vocês, principalmente das crianças - disse Liana. - Por que não voltam a morar em São Paulo? Gostaria muito de ter vocês por perto - sugeriu Eulália.

Foi Alberto quem respondeu:

- Eu gosto daqui. Por enquanto não pensamos em nos mudar. - É verdade. Agora que estou melhor sinto vontade. de voltar a lecionar. - Não desejo ser indelicada - tornou Eulália -, mas gostaria de perguntar uma coisa a você, Alberto.

- Pergunte o que quiser. - Quando você veio para cá, disseram-nos que você aceitou dar aulas para as crianças como um complemento de sua renda mensal. Desde que interrompemos essas aulas, esse dinheiro não lhe tem feito falta?

- Felizmente não. Tenho trabalhado para revistas e jornais, que pagam pelos artigos. - Não seria melhor você voltar a trabalhar em São Paulo? - indagou Norberto. - Tenho certeza de que ganharia muito mais.

- Mas gastaria muito mais.

- Pretende se enterrar aqui para sempre? - perguntou Eulália. - Gosto deste lugar. Pode ser que amanhã eu mude, mas no momento a calma, a simplicidade, a paz daqui têm sido inspiradoras. Sinto que estou mais perto de mim mesmo, de meus sentimentos.

- E você, Liana o que diz? - perguntou Eulália.

- Também gosto daqui. Estou me recuperando e essa calma também tem me ajudado a recolocar a cabeça no lugar.

Era noite quando eles se despediram. No trajeto de volta, Alberto não se conteve e perguntou:

- Você gosta mesmo de ficar morando aqui? Agora que a crise passou, não deseja ir viver na cidade, retomar o fio de sua vida normal?

- Não sei se estou pronta para retomar alguma coisa em minha vida. Tenho sentido vontade de voltar a lecionar, de me ocupar. Sempre fui pessoa ativa. Depois, estou sendo pesada a você. Além de me ajudar, tem pago todas as despesas da casa. Não é justo. - Se é por isso que deseja retomar as aulas, não precisa. O que ganho dá e sobra para as nossas despesas.

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- Não é só por isso. Você tem sido bom demais. Não quero abusar. Depois, estava habituada a ter meu próprio dinheiro, a pagar minhas despesas. Já fez muito por mim. Nunca poderei pagar o bem que me fez.

Alberto calou-se.

Chegaram em casa. Ele apanhou um livro e sentou-se no escritório para ler. Porém nem sequer o abriu. Permaneceu assim em silêncio até que Liana o procurou: - Você quer alguma coisa, um chá ou um café?

- Não, obrigado.

- Já vou dormir. Boa noite.

Ele a olhou sério, depois disse:

- Talvez esteja na hora de conversarmos sobre as nossas vidas. - O que quer dizer? - Combinamos que, quando tudo estivesse resolvido, nós nos separaríamos. Ela estremeceu ligeiramente:

- Acha que já está na hora?

- Não sei. Fiquei pensando em suas palavras de há pouco. Não desejo que se sinta tolhida em sua liberdade. Se deseja voltar a São Paulo, recomeçar a vida de outra forma, lecionar, não se prenda por nada. Esse foi o nosso trato. Quando quiser romper, basta falar. É justo que deseje cuidar de seus interesses.

- Não estou aqui me sentindo presa. Ao contrário. A seu lado tenho me sentido livre como nunca havia sido. Antes eu vivia sob os olhos de Eulália, que é muito boa, mas, desde que nossa mãe morreu, assumiu que devia cuidar de mim e tomou conta de minha vida. Depois, vivi esmagada pelo peso da culpa. Você me ensinou a perceber melhor as coisas. Respeitou-me e deu-me toda a liberdade.

- Se é assim, está bem. Quando resolvi cooperar com você, foi de coração. Só não quero que se sinta no dever de ficar a meu lado por gratidão. Quero deixar claro que, quando desejar ir embora, é só falar.

- Talvez esteja na hora de eu ir mesmo. Acho que já lhe dei trabalho demais. Você tem o direito de viver sua vida sem se ocupar com meus problemas. Vou pensar e resolver o que fazer.

- Acho que não entendeu. Gosto de sua companhia. Tenho prazer em que fique aqui para sempre. Estou pensando apenas em você. Desejo que se sinta livre para escolher seu futuro. Agora você pode.