Quando Chega a Hora

Zibia Gasparetto · Capítulo 3 de 4 · parte 3/4

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Quando Chega a Hora

Liana havia vestido a roupa com a…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

- Abra os olhos, Eurico. Eu sei que está acordado.

Ele abriu e não disse nada. Norberto continuou:

- O que está acontecendo com você? Por que não foi à aula hoje? - Não gosto dessa professora.

- Como pode saber? Era sua primeira aula com ela.

- Eu sei que ela não é como o professor Alberto. Ele, sim, é que sabia dar aulas. Norberto trincou os dentes com raiva e respondeu: - Ela é muito melhor do que ele. Não quero que fale mais o nome dele nesta casa! - Eu quero que ele volte para dar as aulas. Enquanto ele não vier, não irei a nenhuma aula. Norberto aproximou seu rosto do de Eurico, olhou-o nos olhos com rancor e disse: - Irá, porque eu estou mandando. Amanhã cedo vai se levantar e ir à aula da professora. Eurico começou a chorar, dizendo:

- Eu não quero! Não gosto dela. Eu quero o professor Alberto! Eu gosto dele. Ele tem de voltar aqui com tia Liana!

Norberto enrubesceu. Agarrou Eurico pelos braços e sacudiu-o com força, gritando nervoso:

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- Cale a boca! Nunca mais repita isso em minha frente. Aquele professor maldito nunca mais entrará nesta casa! Isso eu juro! Se ele fizer isso, darei cabo da vida dele! Eurico gritou apavorado:

- Socorro! Nico! Venha me ajudar! O coronel Firmino está aqui e quer me matar! Nesse momento, Eulália, que escutara os gritos do marido e do menino, subira a escada correndo a tempo de intervir. Segurou o marido por trás, gritando apavorada: - Norberto! Você enlouqueceu? O que está fazendo? Quer matar nosso filho? Norberto soltou Eurico, que caiu na cama pálido, sem forças, enquanto Nico o abraçava dizendo baixinho:

- Calma, Eurico. Eu estou aqui. Ele não vai lhe fazer nenhum mal. Eulália, inconformada, olhava nervosa para o marido, que empalidecera e cambaleara a tal ponto que, se ela não o amparasse, teria caído ao solo. Arrastou-o para uma cadeira enquanto Amelinha chorava assustada e Nico tentava confortá-Ia também. Hilda apareceu na porta e Eulália disse-lhe nervosa:

- Ajude-me a levar Norberto para nosso quarto.

As duas pegaram seu braço, uma de cada lado. Ele estava alheio e deixou-se conduzir com docilidade até o quarto onde Eulália o obrigou a deitar-se, afrouxou suas roupas e tirou-lhe os sapatos.

Ele fechou os olhos parecendo dormir. Seu corpo estava suado e sua respiração descompassada.

- Ele não parece nada bem - comentou Hilda. - Nunca o vi assim. O que aconteceu, Dona Eulália?

- Não sei. Ele deve estar doente. Muito doente. Acho que teremos de voltar a São Paulo para ele se tratar.

- Acho melhor não esperar. Vamos chamar o Dr. Marcílio mesmo. - Deus nos livre daquele charlatão! Está resolvido. É melhor preparar tudo. Amanhã irei com ele a São Paulo para uma consulta com o Dr. Caldas. Tonico dirige o carro, você toma conta das crianças.

- Ele está pálido, a respiração esquisita. Desculpe, Dona Eulália, mas médico é médico. Se eu fosse a senhora, chamava o Dr. Marcílio mesmo. Formado ele é. - Não. Vamos esperar. Prefiro levá-lo amanhã ao médico de nossa confiança. Hilda calou-se.

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No quarto de Eurico, Nico tentava acalmar os outros dois: - Ele não pode fazer nada. Não precisa ter medo.

- Não era meu pai que estava me sacudindo! Era o coronel. Eu vi! Ele queria me matar! Estou com medo. Ele pegou o corpo de meu pai.

- Não quero que ele pegue o corpo de papai! - disse Amelinha, chorando nervosa. - Ele pode querer levá-Io como quis levar tia Liana.

- Temos que buscar ajuda. Como vocês não podem sair, eu irei. - Não agora! Você não vai me deixar sozinho com ele!

- Ele já foi embora. Não precisa ter medo.

- Não quero que vá. Perto de você ele não vem. Você vai ficar comigo. - Está bem, eu fico. Mas tenho que pedir ajuda ao professor. - Eu também não quero que você vá agora - disse Amelinha. Estou com medo. E se ele voltar?

Eulália entrou no quarto e eles se calaram. Aproximou-se da cama do filho, dizendo: - Viu o que você fez? Deixou seu pai perder a cabeça com sua teimosia. - Eu não fiz nada. Só disse que queria ter o professor de volta. - É impossível. Ele nunca mais porá os pés aqui. É melhor esquecer isso e não desafiar seu pai como fez hoje.

- Ele quis me matar, mamãe!

- Que loucura é essa, menino? Onde já se viu?

- É verdade. Se você não viesse, ele teria me matado. Olhava para mim com tanto ódio... Eulália empalideceu e abraçou o filho preocupada. Ela notara isso ao entrar. Ele olhava para o filho com muito ódio. Seu marido estaria enlouquecendo? Ele nunca levantara a voz com o menino, principalmente por sabê-Io tão fraco e delicado. Sacudi-lo com tanta violência foi terrível.

Por mais que pensasse, ela não podia acreditar que ele desejasse matar o próprio filho. - Isso não é verdade, meu filho. Você está enganado. Seu pai ama-o muito, sempre fez tudo por você. Nunca haveria de querer matá-lo. De onde tirou essa idéia? - Estava nos olhos dele, mamãe. Eu vi.

Eulália sentiu um aperto no peito e não encontrou palavras para retrucar. Beijou-o na testa com carinho, depois disse:

- Estou começando a desconfiar que seu pai está doente. Hoje não estava se sentindo bem. Esqueça isso. Amanhã irei com ele a São Paulo para uma consulta ao Dr. Caldas. 251

Vocês ficarão com Hilda até eu voltar. Agora vou fazer um chá para você e vai dormir. Amanhã tudo terá passado. Só lhe peço que não afronte seu pai. Vá assistir à aula, por favor. Não custa nada. Se depois de algumas aulas não gostar da professora, arranjamos outra. Mas faça o que lhe estou pedindo.

- Ele vai, sim, Dona Eulália - garantiu Nico. - Eu o levo. - Só se você deixar Nico dormir aqui hoje. Estou com medo. - Eu também quero ficar aqui - disse Amelinha. - Não vou ficar sozinha em meu quarto. Eulália pensou um pouco e resolveu concordar. Era melhor mesmo que eles ficassem juntos aquela noite. Não sabia como Norberto iria despertar. E se ele ficasse violento novamente? - Está bem - concordou ela. - Vou mandar pôr dois colchões no chão. Mas cada um vai ficar em sua cama.

- oba! - disse Eurico, satisfeito.

- Amanhã quero ver você na aula - exigiu Eulália.

- Vamos ver - tomou Eurico.

- Ele vai, pode contar - rematou Nico.

Colocaram os colchões, arrumaram tudo, e, quando os viu deitados cada um em seu lugar, Eulália recomendou a Nico:

- É melhor fechar a porta com chave. Assim ficam mais tranqüilos. Se eu quiser entrar, baterei.

Depois que ela se foi, Nico passou a chave na porta e imediatamente os três se uniram na cama de Eurico.

- Você viu mesmo a alma do coronel Firmino em papai? - perguntou Amelinha, preocupada.

- Vi. Era ele. Estava furioso.

- Ele não pode fazer nada, está morto - explicou Nico.

- Você diz que não pode, mas papai estava fazendo o que ele queria. Sacudiu-me que eu fiquei tontinho. Pensei que fosse morrer ali. Se mamãe não chegasse, ele podia mesmo ter me matado.

Apesar de preocupado, Nico não quis dar o braço a torcer: - Ele não faria isso. Você está exagerando. Ficou com medo porque ele estava junto. Mas seu pai nunca iria matar você. Tenho certeza disso.

- Nós fechamos a porta, mas isso para ele não adianta nada. Ele atravessa pela parede - lembrou Eurico preocupado.

Amelinha encolheu-se mais junto a eles:

- Não diga isso, que estou com medo. Não vou dormir a noite inteira. Se ele vier, tenho de estar acordada para chamar mamãe. Por que não disse para ela que viu a alma do coronel Firmino no corpo de papai?

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- Está louca? Se eu dissesse, ela me levaria junto amanhã ao Dr. Caldas e começaria tudo de novo. Aqueles remédios horríveis! Eu nunca mais quero tomar aquelas porcarias. Não adianta nada mesmo. Não estou doente.

- Eurico tem razão. Foi melhor não contar. Amanhã irei procurar o professor e ele nos ajudará.

- Como, se ele não pode vir aqui? - retrucou Eurico.

- Daremos um jeito, você vai ver. O que não podemos é ficar com medo daquela alma penada. Acho melhor rezar. Vamos nos dar as mãos e rezar. Pedir a proteção de Jesus. Assim estaremos protegidos.

Os três deram as mãos e rezaram o pai-nosso. Depois Nico pediu proteção para eles e todos da casa. E finalizou:

- Agora vamos dormir. Podem ficar sossegados, que nada vai acontecer. Vou ficar acordado até vocês pegarem no sono.

- Você não sabe nenhuma história bonita para nos contar? - pediu Amelinha. - Sei. Vou contar uma que minha mãe sempre contava quando eu era pequeno e estava com medo de assombração. Era uma vez...

Com voz pausada, Nico foi contando sua história enquanto os outros dois ouviam com interesse. Aos poucos foram fechando os olhos. Quando os viu adormecidos, Nico acomodou-se e, agradecendo a proteção de Deus, adormeceu. Eulália, sentada ao lado da cama do marido, não tinha sono. Ele dormia ainda vestido e ela permanecia em vigília, com medo de que ele acordasse maldisposto. Parecia-lhe que de repente uma onda de desgraças caíra sobre sua família. Por quê? Eles eram pessoas honestas e de bom comportamento. Não mereciam nada do que lhes estava acontecendo.

Pensamentos desencontrados passavam por sua cabeça, e ela se perguntava de que jeito Norberto iria acordar. Lembrava-se de que durante o jantar, embora ele houvesse se comportado normalmente, havia alguma coisa em seus olhos que o tornava diferente do que sempre fora.

Não podia acreditar que Norberto, um homem equilibrado e correto, enlouquecesse de repente, ficasse violento a ponto de agredir o filho doente. Não podia conformar-se com isso. Alguma coisa muito grave estava acontecendo com ele e ela tinha de descobrir.

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Não podia deixar seus filhos à mercê de uma situação inesperada como a que ocorrera. Precisava protegê-Ios de qualquer forma.

Pretendia levar Norberto a São Paulo no dia seguinte e ter uma conversa muito séria com o médico. Precisava saber até que ponto Norberto estava desequilibrado e se isso poderia pôr em risco a segurança de sua família.

Hilda bateu na porta e Eulália foi abrir:

- Desculpe, Dona Eulália, mas eu não pude dormir. Vim saber como ele está e ver se precisa de alguma coisa.

- Está na mesma, Hilda. Não acordou. Mas pode ir dormir. Se eu precisar, chamo. - Não, senhora. Estou vendo que ainda nem se trocou. Se a senhora pode ficar acordada, eu também posso. Se me permite, prefiro ficar aqui, a seu lado, a ficar em meu quarto. Eulália olhou para ela surpreendida. Hilda sempre lhe parecera indiferente e fria. Sentiu-se confortada. Sorriu e respondeu:

- Está bem. Se quer ficar, eu agradeço. Não consigo dormir também. - Vou buscar um chá de cidreira para nós. Acalma e faz bem. Ela se foi e alguns minutos depois voltou com a bandeja. Enquanto tomavam o chá, Eulália confidenciou:

- Estava me sentindo muito sozinha. Obrigada, Hilda, por fazer-me companhia. - Temos vivido juntas tantos anos. Nesta hora temos de nos apoiar - respondeu ela com simplicidade.

Eulália suspirou. Depois disse:

- Como será que ele vai acordar?

- Talvez estejamos preocupadas sem razão. Pode ser que ele esteja bem. - Deus a ouça. Mas, mesmo assim, amanhã iremos ao médico. Não desejo facilitar. - Tem razão, Dona Eulália.

As duas continuaram conversando mais algum tempo até que aos poucos, cansadas, reclinaram-se na poltrona em que estavam sentadas e adormeceram.

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Capítulo 18

Eulália acordou sobressaltada e olhou em volta. Estava sozinha. Norberto não estava no quarto, nem Hilda. Apressou-se em descer as escadas. Sentia o corpo doer, certamente por haver passado a noite na cadeira. O dia já havia amanhecido e o cheiro do café indicava que os empregados já haviam levantado. Preocupada, foi à cozinha, onde encontrou Hilda. - Bom dia, Hilda. Não a vi sair do quarto.

- Eu acordei e resolvi fazer um café. Maria não veio ainda. É muito cedo. - Você viu Norberto?

- Quando saí do quarto, ainda dormia. Ele não está lá?

- Não. Aonde terá ido?

- Não sei.

- Vou procurá-lo lá em cima. Procure-o aqui embaixo.

Eulália subiu novamente as escadas com o coração batendo forte. Ao passar pelo quarto de Eurico, verificou que a porta ainda estava fechada à chave. - Ainda bem - pensou. - Aqui ele não entrou.

Foi para o quarto do casal e verificou que a porta do banheiro estava fechada. Ouvia-se perfeitamente o barulho da água da torneira. Respirou aliviada. Só podia ser ele se lavando. Olhou-se no espelho da penteadeira e não gostou do que viu. Estava pálida, seu cabelo em desalinho. Tratou de arrumar-se. Foi até o banheiro do corredor, lavou-se, penteou-se e voltou ao quarto. Norberto estava diante do guarda-roupas escolhendo algo para vestir. - Bom dia, Norberto - disse ela procurando controlar-se. Não queria que ele percebesse seu nervosismo.

- Bom dia - respondeu ele com naturalidade.

- Sente-se melhor?

Ele olhou para ela admirado.

- Estou bem. Por que pergunta?

- Ontem você teve uma crise de nervos e sentiu-se mal. Sacudiu Eurico com tanta força que precisei intervir.

- Aquele menino me tira dei sério. É preciso ser firme com ele. Estou cansado de deixá-lo fazer tudo o que quer.

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Eulália sentiu sua preocupação aumentar. Nunca Norberto tivera uma atitude como aquela. Sempre fora afável e cordato. Dava-lhe liberdade para educar as crianças conforme ela quisesse.

- Deixe-o por minha conta. Sei como lidar com ele.

- Tenho minhas dúvidas. Acha bom colocar aquele menino controlador do lado dele? - Nico? Ele tem sido uma bênção para Eurico. Graças a ele nosso filho melhorou muito. - Teria melhorado de qualquer jeito. Para isso ele mudou de clima. Se ele não me obedecer e continuar a fazer essa chantagem, mandarei Nico embora.

Eulália sentiu um aperto no peito. Norberto falava com voz dura, muito diferente do que costumava. Era evidente que ele não estava em seu estado normal. Resolveu não o contrariar e respondeu:

- Você é quem sabe. Eu marquei hoje uma consulta com o Dr. Caldas para você. Temos de ir a São Paulo. Pedi a Tonico para dirigir o carro, não quero que você se canse. - Não vou a lugar nenhum. Estou muito bem. Não preciso de consulta nenhuma. Pode desmarcar. Quem deveria ir é Liana. Essa, sim, eu quero levar a Caldas. Eulália tentou contemporizar:

- Ela está casada. Não podemos interferir na vida dela. Depois, ela não quer ir ao Dr. Caldas. Está se tratando com o Dr. Marcílio.

- Aquele curandeiro. Não vou permitir que continue tratando dela. - Calma, Norberto. Não temos como a obrigar a ir conosco para São Paulo. - Pensando melhor, não precisa desmarcar a consulta. Passarei na casa de Liana e ela irá comigo ver Caldas. Você fica aqui com as crianças, Eulália. - Não quero que interfira na vida de Liana. Ela escolheu o próprio caminho. Você não está bem e eu vou levá-Io ao médico hoje.

Norberto aproximou-se dela e olhando-a nos olhos disse com raiva: - Não se meta entre nós! Meu compromisso é com Liana. É ela que eu quero. Tenho de tirá-Ia daquele traidor.

Eulália abriu a boca e fechou-a de novo, sem saber o que dizer. O marido estava fora de si. Sentiu medo. Ele lhe parecia outra pessoa. Norberto havia enlouquecido. O que fazer sozinha com ele e as crianças naquela casa? Eles poderiam estar correndo sérios riscos. 256

Repugnava-lhe pedir ajuda aos empregados. Pensou em ligar para o Dr. Caldas e pedir-lhe que viesse imediatamente. Pagaria o que ele pedisse. Enquanto isso, tentaria acalmá-Io. - Está certo - disse ela. - Farei como você quiser. Não precisa ficar zangado. - Melhor assim. Não tenho nada contra você ainda. Não se meta, e ficará fora disto. - Está bem. O café está pronto. Quer que eu traga a bandeja aqui? - Por quê? Vou tomá-Io na copa.

Eulália concordou, embora preferisse que ele não deixasse o quarto. Precisava telefonar ao médico sem que ele percebesse.

- Vou descer e ver se está tudo em ordem.

Ela desceu enquanto ele acabava de vestir-se. As empregadas já estavam na cozinha e ela fez um sinal para Hilda. Quando ela se aproximou, disse nervosa: - Hilda, ele não está bem. Não está falando coisa com coisa. Parece outra pessoa. Quer ir pegar Liana e levá-Ia para São Paulo. Está fora de si. Preciso de sua ajuda. Você tem de ligar para o Dr. Caldas, sem que ele perceba, e contar-lhe o que está acontecendo. Peça-lhe para vir imediatamente. Pagarei o que ele quiser.

- Está bem. - Vendo que Norberto descia as escadas, continuou em voz alta: - Sim, senhora. Já mandei colocar tudo no lugar. Posso servir o café agora? - Pode, Hilda.

- As crianças ainda não acordaram.

- Deixe-as dormir mais um pouco - respondeu Eulália. - Ainda é muito cedo. A aula é às nove.

Hilda concordou e voltou à cozinha, enquanto Eulália se sentava com o marido na copa. Enquanto Maria colocava os bules na mesa, Eulália levantou-se, foi à cozinha e aproximou-se de Hilda, dizendo-lhe baixinho:

- Não os deixe sair do quarto. Leve-Ihes o café lá. Diga-Ihes para manter a porta fechada à chave.

Hilda assentiu com.a cabeça e Eulália voltou à mesa, olhando preocupada para o marido. Não queria que ele percebesse o que ela estava tentando fazer. Ele comia em silêncio, olhos fixos em um ponto distante, alheio ao que acontecia à sua volta. Ela respirou aliviada. Precisava distraí-Io enquanto o médico não chegasse. Na melhor das hipóteses ele demoraria de cinco a seis horas para chegar. Ia ser difícil. Se Norberto tivesse alguma crise, não sabia como agir.

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Depois do café, Norberto sentou-se na sala, apático. Hilda fez sinal para Eulália, chamando-a para o jardim. Disse-lhe preocupada:

- Dona Eulália, o Dr. Norberto está muito mal. Precisamos fazer alguma coisa. - Telefonou para o Dr. Caldas?

- Telefonei. Ele não estava.

- Ligou para a casa dele?

- Sim. Falei com sua esposa. Ela me disse que ele teve um chamado de urgência e saiu ainda de madrugada. Há um cliente dele passando muito mal. Talvez ele não volte logo. - Deixou o recado para quando ele voltasse?

- Deixei. Expliquei o que está acontecendo. Ela sugeriu que chamássemos outro médico. Acha perigoso esperar. Estamos longe da capital. Mesmo que ele saia logo, até chegar aqui vai demorar muito. Temos crianças em casa.

Eulália juntou as mãos, apertando-as nervosamente.

- Meu Deus! O que vai nos acontecer?

- Se eu fosse a senhora, chamaria o Dr. Marcílio mesmo. Ele nos socorrerá até o Dr. Caldas chegar. Pode dar algum calmante para ele. - Não posso fazer isso depois de tudo que aconteceu.

- Não temos outra saída. Se o Dr. Norberto tiver outra crise de loucura, o que faremos?

- Nem me fale uma coisa dessas! Podemos mandar Tonico a Ribeirão Preto. Lá há bons médicos.

- Ele demoraria pelo menos duas horas. Não conhecemos ninguém lá. Mande buscar o Dr. Marcílio mesmo.

- Ele pode não querer nos atender.

- É um médico, não fará isso. Depois, apesar de tudo, tenho ouvido falar muito bem dele. Salvou a vida de muita gente por aqui.

- Vamos ver. Pode ser que Norberto fique calmo. Vamos esperar. - A professora já está tomando café. Vamos suspender a aula de hoje? De onde estava, Eulália via Norberto sentado na sala. Lançando um olhar para ele, decidiu:

- Melhor irem para aula como sempre. Se suspendermos, eles ficarão soltos pela casa. Não acho isso aconselhável. Vamos mantê-Ios ocupados.

Hilda saiu e Eulália entrou. Estava resolvida a esperar. Se notasse qualquer agitação nele, mandaria chamar o Dr. Marcílio.

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Suspirou angustiada. Não lhe restava outra saída. Voltou à sala. Apanhou uma revista, sentou-se no sofá e começou a folheá-la, fingindo interesse. Mas estava observando o marido atentamente.

As crianças acordaram, tomaram o café no quarto e foram avisadas que deveriam descer para a aula. Eurico não estava querendo ir, mas Nico conseguiu convencê-Io: - Não acho bom provocar seu pai agora. Já pensou se ele fica nervoso e volta com o coronel Firmino?

- Nem fale uma coisa dessas! - disse Eurico, nervoso.

- Eu tenho medo dele! - tornou Amelinha.

- Não precisa. Ele não vai nos fazer nada. Estou pensando uma coisa... - O que foi, Nico? - indagou Eurico

- Tenho que avisar o professor. Ele entende de alma do outro mundo. - Não quero que você saia hoje. Já pensou se o coronel aparece de novo? - retrucou Eurico. - Vou e volto logo. Temos que tomar uma providência.

- Como você vai fazer isso? Minha mãe não vai gostar de você perder aula. - Ela só vai saber se vocês contarem.

- Eu não conto - prometeu Amelinha.

- Eu também não. Mas e a professora?

- Deixe-a comigo.

- Vai contar para ela? - perguntou Eurico.

- Não. Ela não vai acreditar. Vou dar um jeito. Vocês vão ver. Uma vez na sala de aula, depois de cumprimentarem a professora,

Nico aproximou-se dela dizendo:

- Dona Melissa, pode me fazer um favor?

- Depende. O que é?

- Tenho que ir até minha casa agora. Hoje a senhora vai conferir aquele trabalho, e eu deixei o caderno na casa da minha mãe.

- Você pega à tarde. Eu vejo amanhã.

Nico não se deu por achado:

- Fiz com tanto capricho! Ficou tão bom! Eu quis mostrar para minha mãe e esqueci lá. - Deveria ser mais atento. Vamos à nossa aula de história. Vou repetir o ponto que dei. - Oba! - fez Amelinha. - Eu gostei muito daquela história. - Dona Melissa - tornou Nico -, eu sei essa história na ponta da língua. 259

Enquanto a senhora dá essa aula, eu vou até em casa, pego o caderno e volto. Quando acabar, já estarei aqui.

- Não acredito que já saiba tudo.

- Eu sei. A senhora pode perguntar.

- Você é insistente. Já vi que está querendo mesmo ir até lá. Confesse que está com saudade de sua mãe!

- Um pouco.

- Está bem, Nico. Peça a Dona Eulália. Se ela deixar, eu deixo. Nico sentou-se desanimado. - Eu desisto. Ela não vai deixar. - Quer que eu o deixe sair e não conte a ela? Não posso fazer isso. Nico olhou para os amigos com tristeza. Depois decidiu:

- Está bem. Vou pedir a ela.

Saiu e Hilda segurou-o pelo braço.

- Aonde vai?

- Falar com Dona Eulália.

- Agora não. Ela está com o Dr. Norberto na sala. É melhor voltar para a aula. Nico não se conformou:

- Sabe o que é? Eu esqueci o meu caderno com o trabalho para hoje lá na casa da minha mãe. Dona Melissa disse que deixa eu ir até lá buscar se a Dona Eulália concordar.

- Não precisa incomodá-Ia para isso. Pode ir. Eu deixo. Diga à professora que eu assumo a responsabilidade por isso.

Nico voltou radiante, deu o recado e saiu pelos fundos para não ser visto por Norberto. Foi o mais rápido que pôde. Chegou eufórico à casa do professor. Gislene abriu a porta, convidando-o a entrar.

- Preciso falar com o professor. É urgente.

Antes que ela fosse dar o recado, Alberto apareceu na sala: - O que foi, Nico? Aconteceu alguma coisa?

- Aconteceu, professor. O Dr. Norberto ficou nervoso com o Eurico e sacudiu ele com força. Parecia louco. Então o Eurico viu que o coronel Firmino estava no lugar dele. Alberto suspirou preocupado. O que ele temia acontecera. - Conte-me tudo com detalhes. Não esqueça nada.

Nico contou e finalizou:

- Quando eu saí, a Dona Eulália estava vigiando ele na sala. Ele parecia outra pessoa. Estava calado, cara esquisita. Lá na mansão todo mundo está com medo dele. A Liana está melhor?

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- Está, Nico. Agora está. Ele veio aqui e agrediu-a também. Queria levá-Ia com ele. - Cruz credo!

- Agora não posso sair daqui. Tenho de ficar do lado dela. Ele pode voltar. - O que vamos fazer? Faço força para mostrar coragem perto do Eurico e da Amelinha, mas tem hora que fico com medo. Ele é muito perigoso e tem força. - Não precisa ter medo. Ele só tem força com as pessoas que não têm fé e que não se ligam com Deus. Nós temos proteção. Só precisamos estar atentos. Ouça bem. Vou conversar com o Dr. Marcílio. Ele tem uma sessão espírita com pessoas que entendem dessas coisas. Conta com a ajuda de muitos espíritos superiores. Precisamos ficar firmes na fé. Se acontecer alguma coisa, se o coronel Firmino voltar a ameaçar vocês, reze. Peça a ajuda de Jesus. Ele os protegerá. O bem é mais forte que o mal.

- Se ao menos a Dona Eulália acreditasse! Ela estava tão abatida... Não sabe o que fazer.

- Vamos ajudar, Nico. Fale com as crianças e procurem ficar longe de Norberto. Vão para o jardim, fechem-se no quarto, mas não se aproximem dele. - Está bem. Agora tenho que ir. Prometi à professora estar de volta logo. - Vá, Nico. Deus o acompanhe. Obrigado por ter vindo me avisar.

Depois que o menino saiu, Alberto foi para o escritório, apanhou o telefone e ligou para o Dr. Marcílio contando-lhe a visita de Nico. Finalizou:

- Precisamos fazer alguma coisa para ajudá-Ios. O que o senhor me aconselha? - Prece. Faça prece e continue vigilante. Ele está com idéia fixa em Liana. Não se afaste dela por nada. Conserve as portas da casa trancadas. Vou reunir os médiuns e pedir orientação. Qualquer coisa, comunique-me. Eu farei o mesmo. Depois de desligar o .telefone, Alberto foi ao quarto ver Liana. Ela estava dormindo. O médico dera-lhe um relaxante. Aproximou-se da cama, curvou-se e alisou o rosto dela com carinho. Estava pálida. Ele se comoveu.

Estava ali para protegê-Ia. Não deixaria ninguém lhe fazer nenhum mal. Sentou-se ao lado da cama, segurou a mão dela e levou-as aos lábios, beijando-a com delicadeza. 261

Liana abriu os olhos e, vendo-o, sorriu. Acanhado, ele largou sua mão, mas ela se remexeu na cama, procurou a mão dele, segurou-a e fechou os olhos novamente. Alberto sentiu um calor brando invadir-lhe o peito. Ela confiava nele e sentia prazer ao seu contato. Era muito bom sentir esse aconchego.

Nico voltou à mansão, entrou na casa e apanhou o caderno de que precisava. Desceu, pediu licença e entrou na sala de aula. Enquanto a professora retomava o assunto, Nico fez pequeno sinal afirmativo com a cabeça para os outros dois. Assim que a aula acabou, eles foram ao jardim e Eurico perguntou: - E então? - Falei com o professor. Ele pediu para ficarmos o mais longe possível do Dr. Norberto, pelo menos enquanto o coronel estiver com ele. Disse também para não termos medo, para rezarmos, que os espíritos superiores iam nos ajudar. O Dr. Marcílio fala com eles e ia pedir para virem aqui. - Puxa! Como serão esses espíritos superiores? - perguntou Amelinha.

- Só fazem o bem. Trabalham para Jesus - esclareceu Nico. - Eles são anjos? - retrucou ela. - São pessoas - interveio Eurico. - Aquela mulher que sempre aparece para buscar o coronel Firmino quando ele está me assustando deve ser um espírito desses. Ela é tão bonita! Quando a vejo, eu me acalmo e perco o medo. Às vezes ela sorri para mim. - Puxa! Que sorte a sua! - exclamou Nico. - Bem que eu gostaria de ver esses espíritos. - Pois eu não. Se pudesse, trocava com você. Aí eu ia ver se está falando a verdade, se não tem medo mesmo.

- Essas almas não têm poder nenhum. Todo poder vem de Deus. Como eu estou com Deus, não tenho nada a temer.

Hilda chamou-os para o almoço. Querendo afastar-se de Norberto, eles pediram para fazer o prato e comer na mesa do caramanchão. Hilda conversou com Eulália, que achou até bom, uma vez que Norberto continuava na sala, calado.

Angustiada, ela não o deixava só nem por um instante, com medo de que ele tivesse alguma crise. Almoçaram os dois em silêncio e depois ele se sentou novamente na sala, olhando de vez em quando para o relógio.

Quando o carrilhão da sala bateu duas vezes, ele se levantou dizendo: - Tenho de ir. Mande tirar o carro.

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- Aonde você vai?

- A São Paulo. Não temos uma consulta para Liana às cinco? Eulália tentou contemporizar: - Não. Terá de ficar para outro dia. Infelizmente o Dr. Caldas viajou e não poderá nos atender hoje.

- Não importa. Vou levá-Ia de volta a São Paulo. Lá esperaremos por ele. Eulália aproximou-se dele, dizendo preocupada:

- Você não pode fazer isso! Ela não quer ir. O marido dela não vai deixar! Os olhos de Norberto brilharam rancorosos. Ele disse com raiva: - Pouco me importa o que esse impostor quer. Ela é minha, entendeu? Ninguém a tira de mim!

Eulália empalideceu e não soube o que dizer. Ele continuou: - Ela é minha! Está na hora de ir buscá-Ia e de ficar a meu lado para sempre. Nosso amor é mais forte que tudo!

- Você está fora de si, não pode sair desse jeito! Meus Deus! Ele está enlouquecendo! - Não se meta em minha vida. Chega! Saia de meu caminho. - Espere um pouco. Não saia desse jeito!

- Não tente me impedir. Nada vai me fazer desistir agora. Custou muito para conseguir chegar até aqui.

Empurrando-a com força, Norberto saiu e Eulália, apavorada, foi atrás dele chamando por Hilda, que apareceu em seguida.

- Chame o Dr. Marcílio. Peça-lhe que venha imediatamente. Norberto entrou no carro que se encontrava na garagem e deu a partida. Eulália ainda tentou impedi-Io, mas não conseguiu. Vendo o carro arrancar e sair pelo portão principal, em pranto correu para casa. Vendo Hilda ao telefone, perguntou:

- É o Dr. Marcílio?

Hilda fez que sim com a cabeça e ela apanhou o telefone, dizendo: - Dr. Marcílio, é Eulália. Ajude-nos, pelo amor de Deus. Meu marido enlouqueceu de repente. Saiu com o carro e não consegui segurá-Io. Disse que vai tirar Liana de casa e levá-Ia com ele para São Paulo.

- Acalme-se, Dona Eulália. Vou imediatamente à casa de Liana avisá-Ios. Se sabe rezar, reze. É o melhor que tem a fazer agora.

- Rezar? Quero que o senhor encontre Norberto e lhe aplique uma injeção para fazê-Io dormir. Depois trataremos da saúde dele.

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- Sei como agir em casos como o dele. A oração terá o dom de ajudá-Ia a acalmar-se. A fé é alimento da alma. A oração é um santo remédio.

- Está bem. Não temos tempo agora. Vá procurá-Io, por favor. Depois que o médico desligou, Eulália disse com voz desconsolada: - Ele me mandou rezar! Onde já se viu um médico como esse? Como podemos confiar nele?

- Pois eu acho que foi um sábio conselho. Sou pessoa de fé. Acredito que, quando não podemos fazer nada para resolver nossos problemas, Deus pode. Depois, Dona Eulália, a senhora está muito nervosa. A oração faz bem e tem o dom de acalmar. Eulália andava de um lado a outro inquieta. Depois resolveu: - Vamos até lá ver o que está acontecendo. Não podemos ficar aqui esperando. Vai ser um escândalo. Ele vai querer tirá-Ia pela força e é claro que o professor não vai deixar. Meu Deus, o que pode acontecer ainda?

- É melhor ficar aqui, Dona Eulália. Não vai acontecer nada. O Dr. Marcílio vai cuidar de tudo. Ele deve saber como lidar com um caso desses. Vai ver que logo estará de volta trazendo o Dr. Norberto.

- Não sei. Tenho medo. Nunca vi Norberto desse jeito. Está fora de si. Seus olhos pareciam de um louco!

- Não diga isso, Dona Eulália. Calma. Vamos esperar.

- Não. Mande Tonico tirar meu carro e vamos até lá. Pediremos a Melissa que faça companhia às crianças.

Marcílio chegou à casa de Liana acompanhado de Adélia e mais dois médiuns que participavam das sessões espíritas em sua casa. Alberto fê-los entrar, e Marcílio tornou: - Prepare-se. Norberto vem vindo novamente. Eulália ligou-me pedindo ajuda. Ele saiu como louco dizendo que vinha buscar Liana para levá-Ia com ele a São Paulo. Não tenho dúvida de que o espírito do coronel Firmino o está dominando. Como está Liana? - No quarto. Ainda se sente fraca - respondeu Alberto.

- Vamos nos preparar para recebê-lo. Você, Alberto, vá para o quarto de Liana, tome a mão dela, fique em oração. Se ela acordar, diga-lhe que não tenha medo de nada. Nós estamos cuidando de tudo.

Enquanto Alberto obedecia, ele disse para Gislene:

- Ponha sobre a mesa aquele vaso com flores e uma jarra com água. Fique observando da janela. Quando o Dr. Norberto chegar, avise-nos.

Depois ele se sentou ao redor da mesa em companhia de Adélia e dos outros dois e pediu:

264

- Vamos nos ligar com nossos guias espirituais e pedir proteção para Liana e o coronel. Cada um cerrou os olhos e começou a orar em silêncio. Passaram alguns minutos quando Gislene avisou:

- Parou um carro aqui. É ele. Está descendo.

Norberto bateu na porta, dizendo com voz calma:

- Liana, abra. Precisamos conversar.

Ninguém respondeu. Ele continuou:

- Não tenha medo, Liana. Só quero seu bem. Abra a porta. Sei que está doente e precisando de ajuda! Vamos, abra.

Durante alguns minutos ele tentou, enquanto os três ao redor da mesa oravam em silêncio. Por fim, Marcílio abriu os olhos e pediu a Gislene:

- Abra a porta e deixe-o entrar.

Ela olhou assustada para ele, mas, apesar de estar trêmula, obedeceu. Abriu a porta e ele entrou rapidamente, dizendo:

- Vá chamar Liana imediatamente.

- Ela está dormindo.

- Acorde-a. Estarei esperando.

Gislene saiu da sala e então foi que Norberto viu os quatro sentados ao redor da mesa na sala de jantar. Estremeceu, olhando-os assustado. Depois gritou: - O que estão fazendo aqui, tramando contra mim? Saiam de meu caminho se não quiserem ser esmagados por minha raiva. Sei como acabar com todos vocês. - Você não tem esse poder, coronel Firmino - disse Marcílio com voz firme. - Quem me desafia? Não sabe que eu mando e todos me obedecem? - Quando você estava na carne, gostava de mandar em todo mundo. Mas esse tempo acabou. Seu corpo morreu e você não passa de um fantasma sofrido e solitário. - Não é verdade. Você está querendo me iludir para atrapalhar meus planos. Pensa que não sei?

Algumas pancadas na porta da frente fizeram-no estremecer. Marcílio levantou-se e foi abrir. Vendo Eulália e Hilda, fez-Ihes sinal para que entrassem. - Vi o carro de Norberto - explicou Eulália.

Marcílio fez-lhe sinal para que se calasse, tomou-as pelo braço e conduziu-as até a sala de jantar indicando as cadeiras para que se sentassem. As duas deixaram-se cair, olhando assustadas para Norberto e os dois em volta da mesa sem entender nada. 265

Marcílio, voltando-se rara Norberto, tornou:

- Você está enganado. Só queremos ajudá-Io. Não está cansado de tantos anos de sofrimento? Por que teima em querer voltar ao passado, se ele já acabou faz tempo? Não percebe quanto tempo está perdendo?

- Chega de conversa fiada. Onde está Liana? Ela é minha e tem de me obedecer! - Ela é livre. Aquele tempo acabou. Hoje ela é casada com outra pessoa. - Isso não vale nada. Ela é minha mulher! Custei a encontrá-Ia. Não vou perdê-Ia de novo. Marcílio levantou-se e aproximou-se de Norberto, que em pé a um canto da sala, olhos fixos em um ponto indefinido, continuava mergulhado em sua obstinação, e colocou sua mão direita sobre a cabeça dele, que estremeceu e começou a gritar enfurecido: - Saia daqui. Vá embora. Não se meta em minha vida. Você não vai conseguir nada. Sou mais forte do que você e do que todos os seus asseclas.

Marcílio continuou orando em silêncio com a mão colocada sobre a nuca de Norberto. Depois foi até Felipe, um dos moços que estava sentado ao redor da mesa, e colocou a mão sobre a nuca dele, continuando em oração.

Alguns segundos depois o corpo de Norberto amoleceu e ele caiu ao chão, enquanto o rapaz na mesa agitava-se exclamando:

- O que está fazendo? Que truque é esse? Está tirando minhas forças! Você vai me pagar! Eulália levantou-se para socorrer o marido, mas um gesto enérgico de Marcílio a deteve. - Fique onde está! Ajude-nos com suas orações.

Ela se sentou novamente e desta vez começou a rezar de fato. Marcílio, com a mão direita sobre a cabeça do rapaz, continuou:

- Ao invés de querer brigar comigo, por que não aproveita este momento para melhorar sua vida? Não está cansado de viver sozinho, triste, de um passado que nunca mais voltará, ao invés de aproveitar o que pode agora, de encontrar pessoas que gostam de você, que só esperam que aceite as mudanças de sua vida para virem a seu encontro? Por que prefere a infelicidade quando já pode viver melhor e ser mais feliz? Com voz embargada, Felipe respondeu:

- Você fala isso porque não sabe o que é viver como estou vivendo. Não sabe o que é vagar em busca dos que ama e nunca os encontrar.

266

Sentir-se sozinho sem que ninguém se importe com sua dor ou com seus sofrimentos. - Você está assim porque quer. Agarrou-se ao passado, recusa-se a obedecer às orientações daqueles que têm condições de ajudá-lo. Fechou-se em sua teimosia e recusa-se a deixar a mansão, como se ainda fosse o dono dela!

- Eu a construí. Aquela casa é minha!

- Você a construiu. Mas agora ela é do mundo e daqueles que a herdaram. Você não pertence mais a este mundo. Vive em outra dimensão, onde há coisas maravilhosas esperando por você, onde pessoas que o amam esperam que acorde dessa ilusão e possa finalmente deixar o passado, tomando consciência do presente e seguindo adiante para a conquista da felicidade.

- Você diz isso, mas eu sei que fui muito ruim. Cheguei ao crime, minha filha me odeia! Não. Não acredito que haja alguém que goste de mim ainda, mesmo depois de tudo que fiz para a minha própria família.

- Pois há. Aqui mesmo está alguém que espera ansiosamente que você saia dessa ilusão para poder abraçá-Io e ajudá-Io a buscar o caminho do equilíbrio e da renovação. Olhe. Felipe remexeu-se na cadeira e depois gritou em lágrimas: - Mãe! É você! Vá embora. Eu não mereço. Fui muito egoísta, mau. Não me abrace, mãe. O outro moço que estava ao lado disse com voz emocionada: - Meu filho! Descanse em meus braços, que sempre estarão abertos para recebê-Io! Entregue-se a este momento de amor e venha comigo. Vou levá-Io a um lugar onde você ficará sob meus cuidados. Venha. Perceba que ninguém é culpado pelo que lhe aconteceu. Você plantou e colheu de acordo com sua semeadura. Arranque todas as mágoas de seu coração, perdoe a todos, mas principalmente a si mesmo por ter sido tão resistente. Felipe soluçava sentidamente. O outro rapaz continuou:

- Isso, meu filho. Extravase toda a sua mágoa. Deixe ir todas as suas dores. Descanse a cabeça em meu colo. Vou levá-Io comigo.

- Mãe, ajude-me a encontrar a paz! Eu quero esquecer!

Felipe respirou fundo e estremeceu. Depois abriu os olhos, ajeitando-se na cadeira. O outro rapaz ainda disse:

- Obrigado, amigos. Voltarei outro dia para conversarmos. Marcílio sentou-se, fez uma prece de agradecimento a Deus. Quando terminou, levantou-se, aproximou-se de Norberto, que, estendido no chão, parecia dormir, e chamou: 267

- Acorde, Norberto. Já passou.

Ele abriu os olhos e olhou assustado para todos os presentes, como quem acorda de um pesado sono. Marcílio ajudou-o a levantar-se e fê-Ia sentar-se ao redor da mesa. Apanhou um pouco de água e deu-lhe para beber enquanto os outros dois serviam os demais. Eulália e Hilda estavam mudas. Não se atreviam nem a perguntar. Norberto recuperara seu estado normal, olhou-os admirado e perguntou: - Podem explicar-me o que estamos fazendo aqui? O que aconteceu? Marcílio respondeu com simplicidade: - O espírito do coronel Firmino incorporou em você e tivemos de esclarecê-Ia. Garanto que de agora em diante ele não mais aparecerá a ninguém naquela casa, muito menos a Eurico. - O coronel Firmino? Estou ouvindo bem? - disse Norberto, admirado. Desta vez Eulália tomou coragem e interveio:

- Pois foi. Você ficou como louco. Foi horrível. Se não fosse o Dr. Marcílio e essas pessoas aqui, você estaria internado em um hospício.

Meu Deus! Eurico estava dizendo a verdade! Por que não acreditei? - Ele disse muitas vezes que via espíritos - lembrou Hilda. - Ele estava certo - esclareceu Marcílio. - Esse menino tem uma sensibilidade especial. Ele vê e ouve os seres de outras dimensões.

- Mas o coronel está morto! - disse Norberto.

- Engano seu. Ele está vivo. Quem morre neste mundo vai para outras dimensões, mas continua vivendo.

- É difícil acreditar.

- Para quem nunca se interessou pelo assunto, pode ser - respondeu o médico. - Entretanto, para os que são chamados a essa realidade, o contato com quem já partiu é natural. Norberto passou a mão pelos cabelos um pouco inquieto e disse: - Gostaria de saber como chegaram a essa conclusão. Minha própria mulher, que nunca acreditou nisso, agora está afirmando que a alma do coronel existe mesmo. - Eu posso esclarecer como foi. Você não se recorda de nada? - De certa forma, não perdi a lucidez. É difícil dizer. Havia momentos em que me sentia atordoado, fazia coisas desconexas, mas não conseguia parar. Era como se estivesse em um sonho em que as idéias se embaralhavam em minha cabeça. Foi horrível! - Então você percebeu que sacudiu Eurico com violência, assustando-o? - perguntou Eulália.

268

- Eu fiz isso mesmo? Houve um momento em que senti muita raiva de Eurico, tive vontade de... - Norberto parou horrorizado.

- De acabar com ele - completou Marcílio, calmo. - Nessa hora, quem sentia toda essa raiva e queria fazer isso não era você, mas o espírito do coronel Firmino. Sempre que ele aparece, demonstra sentir raiva dos meninos, porque de certa forma eles atrapalharam o que ele pretendia fazer.

- Esses sentimentos brotavam dentro de mim e chocavam-me. Eu amo meus filhos. Sempre fiz tudo para que Eurico ficasse bem, com saúde.

- Você se chocava, sentia-se culpado por sentir isso, e o coronel conseguia dominá-lo ainda mais.

- O que me conta é incrível! Nunca pensei que uma situação dessas acontecesse. - Agora experimentou. Não pode mais duvidar.

- Ainda bem que Eulália interveio. Não sei o que poderia ter acontecido. O que Eurico está pensando de mim? Fui rude demais.

- Ele sabe que não era você. Nessa hora ele viu em seu lugar o coronel Firmino - esclareceu Marcílio.

- Como sabe?

- Ele teve medo de que lhe acontecesse alguma coisa e pediu a Nico que viesse nos procurar e contar tudo - explicou o médico.

- Estou admirado! Quero saber tudo a respeito. Se ele fez isso, foi porque sabia que vocês podiam nos ajudar - disse Norberto. - Agora não há mais motivo para que não saibam toda a verdade. Esses meninos são maravilhosos. Seu filho vê e até conversa com os seres de outras dimensões. Ele tem medo, mas Nico não, e o tem ajudado a enfrentar esses encontros com coragem e firmeza. Graças a ele, Eurico está reagindo e melhorando a cada dia. - É verdade - interveio Eulália. - Você ameaçou mandá-lo embora. Sentia raiva dele também?

- Sim. De repente parecia que ele estava me atrapalhando, que era meu inimigo. - Ele estava atrapalhando os planos do coronel Firmino, ajudando-nos a libertar Liana da interferência dele - disse Marcílio. Norberto assustou-se: - Liana? Por que ela?

- Vocês ignoram porque vieram morar naquela casa. Não foi apenas por causa da saúde de Eurico. A vida trouxe-os aqui porque tinha seus motivos. Era preciso que vocês todos se reencontrassem, principalmente Liana com Firmino - esclareceu Marcílio. - Posso contar tudo desde o começo.

269

- Gostaria de entender - pediu Eulália.

- Por favor - tornou Norberto.

Marcílio falou sobre reencarnação, sobre os laços que uniam Liana e as crianças ao espírito do coronel, a intenção dele de continuar a dominá-Ia. Eulália não se conteve:

- Por isso você disse que amava Liana!

Norberto empalideceu:

- Eu disse isso?

- Sim. Disse também que ela era sua mulher. Pensei que tivesse enlouquecido. Agora entendo... era o coronel que sentia isso!

- Era - apressou-se a dizer Marcílio. - Mas é preciso lembrar que ele se aproveitou de sua amizade por sua cunhada e por seu interesse em ajudá-Ia levando-a a seu médico de confiança.

- É. Ele dizia que ia levá-Ia ao Dr. Caldas. Tentei impedi-lo, mas não consegui. Você estava como louco!

Norberto remexeu-se na cadeira. Sentia-se envergonhado.

- Isso já passou. Está se sentindo bem agora? - perguntou o médico.

- Sim. Apesar de assustado, estou bem. Quando vocês falam, parece que se referem a outra pessoa.

- Era outra pessoa mesmo - confirmou Marcílio.

- Só não entendo uma coisa. Vocês estavam todos aqui quando chegamos. Como sabiam? - perguntou Eulália.

Marcílio contou a razão pela qual tiraram Liana daquela casa às escondidas para o casamento, mas omitiu o fato de eles haverem se casado apenas na aparência. Explicou também como, com a ajuda dos espíritos superiores, haviam ido até lá naquela tarde para esperá-lo.

- Quando ele saiu de casa como louco e não me deixou acompanhá-lo, não pude suportar. Vim atrás.

- Fez bem. Assim pôde assistir a tudo que aconteceu aqui - disse o médico. Eulália hesitou um pouco, depois decidiu:

- E Liana, como está?

- Melhor. Está no quarto, e Alberto está com ela. Pedi-lhe que ficasse em prece ao lado dela para fortalecê-Ia. As energias do coronel eram fortes e poderiam envolvê-la. Ela se encontra ainda um tanto debilitada.

270

A obsessão dele em dominá-Ia fazia-o emitir energias controladoras que sugavam as forças dela, enfraquecendo-a.

- Por isso ela estava sempre deprimida, apática, sem vontade? perguntou Eulália. - Sim. Esse estado é próprio da subjugação espiritual. O coronel jogou energia de domínio sobre Liana e ela não reagiu. Se tivesse usado sua força para afastá-Io de sua aura, não teria sido tão atingida.

- Ela não sabia de nada disso - lembrou Eulália.

- Tentei avisar. Eurico via. Ela mesma chegou a ver o coronel, lembra-se? - É verdade! - concordou Eulália.

- Quem poderia imaginar tudo isso? - comentou Norberto, perplexo. - E agora? - disse Eulália. - Estou com medo de voltar àquela casa. Acho melhor voltarmos para São Paulo.

- Não há mais motivo para isso. Eurico deu-se bem aqui, apesar do que aconteceu. Garanto que o coronel agora não oferece mais perigo. Foi afastado. O espírito de sua mãe sofria muito vendo-o naquele estado. Há muito tentava ajudá-ia. Agora conseguiu que ele compreendesse e resolvesse aceitar afastar-se daquela casa e receber tratamento. Se um dia ele voltar, estará melhor e não prejudicará mais ninguém - esclareceu Marcílio. - Não sei. Essas coisas de almas do outro mundo me assustam. Antes não tinha medo porque não acreditava nelas, mas agora... - considerou Eulália. Marcílio sorriu e respondeu:

- Quer saber por que Eurico não se dava bem na cidade grande? Ele teve dificuldade em reencarnar por problemas de sua vida passada. Estava frágil e sensível. A pressão das energias negativas é muito maior na cidade, onde há muito mais pessoas, mais problemas, mais violência. O acúmulo de gente energeticamente representa acúmulo de problemas. A sensibilidade dele sofria com isso. Aqui, tudo é mais calmo, as energias menos agressivas, ele pode ir aos poucos assumindo melhor a encarnação. Se ele continuar aqui por mais algum tempo, garanto que chegará à idade adulta saudável e recuperado.

- É o que eu mais desejo neste mundo! - tornou Eulália.

- É preciso também cuidar da sensibilidade dele. Precisam aprender as leis que regem o campo das influências, para que ele aprenda a viver bem com a sensibilidade que possui. 271

- Depois do que me aconteceu, não posso ignorar - disse Norberto. - Desejo saber tudo, estudar o assunto, para que não aconteça novamente. Tremo só em pensar nessa possibilidade

- Faz bem. Tenho estudado sem cessar e possuo em minha casa extensa biblioteca sobre o assunto. Está à sua disposição.

- Obrigado, doutor.

Alberto apareceu na sala e Marcílio chamou-o:

- Aproxime-se, Alberto. Como está Liana?

- Bem. Houve momentos em que ficou inquieta, queria sair do quarto, ir embora daqui, estava apavorada. Com a mão dela entre as minhas, fiz prece e aos poucos ela se acalmou. Agora quer levantar-se. Ouviu vozes e eu lhe disse que era você. Ela quer vê-Io e saber se já pode se levantar.

- Ela deve estar se sentindo muito melhor. Felizmente o coronel Firmino foi afastado. Agora ela ficará bem - disse o médico.

Eulália hesitou um pouco, depois disse:

- Só agora ficamos sabendo a causa da doença dela. Estou arrependida de ter sido tão descrente. Será que eu poderia conversar com ela?

- Claro - respondeu Alberto sorrindo. - Tenho certeza de que sua visita será para ela um excelente remédio.

Eulália olhou para o médico, que disse:

- Pode ir, Dona Eulália. A alegria só faz bem.

Eulália olhou para o marido, que decidiu:

- Vá sozinha. Será melhor. Minha presença agora pode não ser muito agradável. Eulália foi até lá enquanto Alberto pedia a Gislene que servisse um café com aquele bolo gostoso que ela sabia fazer tão bem.

272

Capítulo 19

Eulália empurrou a porta do quarto de leve, enfiando a cabeça para ver se Liana estava acordada. Vendo-a, a moça teve uma exclamação de alegria: - Eulália! Você veio!

Ela entrou, aproximou-se da cama e disse:

- Eu vim, mas fui empurrada pela vida. Agora eu sei o que se passa com você e estou arrependida de ter sido tão dura. Será que pode perdoar-me? Liana sentou-se na cama, estendendo os braços:

- Perdoá-Ia? Eu é que tenho de lhe pedir perdão por haver saído de sua casa sem contar a verdade.

Eulália abraçou-a, e a emoção aflorou. Seja por ter estado tensa durante tantas horas, seja pelo reencontro com a irmã que ela queria bem, ou pela realidade espiritual de que estava tomando consciência naquele dia, as lágrimas apareceram e ela começou a soluçar. Liana abraçava-a com força, impressionada com o volume de suas emoções. Não se lembrava de tê-Ia visto chorar daquele jeito antes. Sempre a julgara rígida e indiferente, mais forte que a maioria das pessoas. Estava enganada. A mulher que a abraçava era tão sensível e frágil como qualquer outra.

Quando se acalmou, ela disse:

- Não foi só com Alberto que fui injusta, com o Dr. Marcílio também. Pensei que Norberto estivesse enlouquecendo, fez coisas terríveis. Veio aqui disposto a levá-Ia com ele. Não quis que o acompanhasse, mas eu vim assim mesmo. Quando cheguei, eles estavam reunidos e falando com Norberto. Ele estava possuído pela alma do coronel Firmino. Quando ele foi afastado, Norberto acordou como se nunca tivesse feito tudo aquilo. Compreendi a verdade. Eurico estava certo quando falava que via os espíritos. Fiquei chocada. Pobre Eurico, vendo esses espíritos sem ninguém que o apoiasse. Já pensou que horror?

Continuar: parte 4 de 4