Quando Chega a Hora
- Vou pensar. Boa noite.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
- Boa noite.
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Alberto sentiu um aperto no coração, mas controlou-se. Por que tocara naquele assunto? E se ela resolvesse partir?
Percebeu que não queria que ela se fosse. O que faria de sua vida quando ela o deixasse? Estava acostumado a seu sorriso pela manhã, a seu olhar confiante e carinhoso, às conversas inteligentes no aconchego da sala de leitura, onde trocavam idéias a respeito da vida e de tudo.
Reconhecia que sua presença trouxera encanto nas pequeninas coisas, dera-lhe motivação para ornamentar o jardim, a casa, olhar a vida de forma mais otimista, interessar-se pela própria aparência. Quando saía, desejava voltar logo para casa para sentar-se a seu lado, naqueles momentos de intimidade na cozinha, tomando chá e conversando. Percebeu que uma lágrima caía, e ele a deixou fluir. Liana havia se tomado indispensável em sua vida. Ela era a mulher que sempre desejara ter a seu lado. Lembrou-se com clareza da força que precisava fazer para controlar o desejo de abraçá-Ia, de beijar-lhe os lábios, de se entregar àquele amor que descobria agora em toda a sua plenitude. Ele amava Liana! Sempre a amara, desde o dia em que a vira pela primeira vez. Como pôde ser tão cego? Como pôde confundir o amor com uma simples atração física e banal? Ele não podia demonstrar o que sentia. Ela era muito bondosa. Estava frágil e sensibilizada pelas emoções que passara. Se lhe contasse a verdade, ela o aceitaria por gratidão. Ficou ali, pensando. Se ela o amasse, seria a glória. Mas nunca notara nela nenhum traço desse sentimento. Ele era apenas o amigo que a ajudara no momento difícil. Por isso decidiu: ela nunca saberia de seus verdadeiros sentimentos. Ouviu o ruído de alguns trovões, a chuva despencou lá fora com força, lavando a poeira dos telhados e das ruas. Ele deixou também que as lágrimas lavassem sua alma naquele momento de descoberta e de amor.
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Capítulo 21
Liana entrou em casa satisfeita procurando Alberto. Ele estava no escritório trabalhando um artigo para o jornal. Vendo-o, ela foi logo dizendo:
- Começo a trabalhar na segunda-feira. Consegui.
- Como você queria?
- Isso. Ficarei como substituta por pouco tempo. Logo reassumirei a cadeira. Ele a fixou sério e perguntou:
- Tem certeza de que prefere lecionar em Ribeirão Preto? Se desejar, pode pedir transferência para São Paulo.
Ela se aproximou dele sustentando o olhar:
- Você quer que eu faça isso? Ultimamente tem sugerido que eu mude para lá. Tenho impressão de que deseja retomar sua privacidade.
Se for assim, pode dizer que irei embora.
Ele se levantou e colocou a mão no braço dela sem desviar os olhos: - Ao contrário. Se for embora, sentirei muito sua falta. Mas não se trata de mim. Às vezes penso que você fica aqui comigo por gratidão. Notou que gosto de sua companhia, quer cuidar de sua vida, mas fica só para me agradar.
- Você está enganado. Sou grata a você, sim, mas se desejasse ir embora iria. Você me ensinou a viver. A seu lado encontrei carinho, respeito, dedicação. Não penso em ir embora, não. Para onde iria? - Os olhos dela encheram-se de lágrimas, e ela continuou com voz trêmula: - Não consigo imaginar minha vida sem você. Pode parecer egoísmo, mas esta casa, nossas conversas, as sessões na casa do Dr. Marcílio tornaram-se indispensáveis. Gosto de ficar cuidando de minhas coisas sabendo que você está aqui, trabalhando. Que a qualquer momento vai me chamar para trocar idéias, contar-me alguma coisa boa ou para tomarmos um café juntos...
Ela parou, tentando conter as lágrimas. Alberto olhava-a sustendo a respiração, descobrindo não só em suas palavras mas na emoção que percebia em seus olhos que seu amor tinha chance de ser correspondido.
Abraçou-a, apertando-a de encontro ao peito, sentindo seu coração bater mais forte. Procurou seus lábios e beijou-a, extravasando toda a emoção de seu amor reprimido. 298
Sentindo que ela correspondia, ele a beijou repetidas vezes. - Eu amo você, Liana! Muito, muito!
Ela o apertou com força, dizendo baixinho:
- Quanto desejei este momento! Se estiver sonhando, não quero acordar! Beijaram-se muitas vezes. Alberto puxou-a para o sofá:
- Diga que também me ama! Que deseja viver para sempre a meu lado! - Amo! Amo! Amo! Tanto que estava difícil ficar perto de você sem o tocar. - Quando descobriu que gostava de mim?
- Logo depois que Norberto se libertou do espírito do coronel Firmino, comecei a notar que quando você estava ausente eu ficava ansiosa esperando sua volta. Quando você ficava muito próximo ou me tocava de alguma forma, minhas pernas tremiam, meu coração acelerava e eu queria ficar mais perto. Imaginava como seriam seus beijos, e estremecia só em pensar nisso. E você, desde quando soube que me amava? - Senti-me atraído por você desde que a vi, mas julgava que fosse apenas uma atração física. Você é bonita, inteligente, agradável. Lutei muito para vencer essa atração. Você amava outro homem e eu não queria misturar as coisas. Você estava muito machucada e eu não queria me aproveitar de suas fraquezas.
- Nunca notei seu interesse. Só amizade.
- Fiz tudo para que fosse assim. Depois da mudança de Norberto, quando ele reassumiu a família, seu problema estava resolvido. Ele nunca mais a incomodaria e Eulália nunca desconfiaria de nada. Havíamos alcançado nossos objetivos e você não precisaria mais ficar comigo, estava livre para ir embora. Então descobri que a amava de verdade. Talvez a tenha amado desde o primeiro dia. Se olhar bem no fundo do meu coração, talvez possa até dizer que por trás de minha proposta de casamento já havia a esperança de vir um dia a conquistar seu amor. Só que não confessava nem a mim mesmo. - Eu quero falar de meus sentimentos.
- Há uma pergunta que sempre tive medo de lhe fazer. Você ainda sente alguma coisa por Norberto?
Ela sacudiu a cabeça negativamente:
- Não. O que eu sentia por ele não era amor. Foi mera atração. Ficamos os dois sozinhos na mesma casa durante algum tempo. Ele longe da esposa e eu sonhando com um amor, querendo descobrir a vida. Não estou querendo justificar minhas fraquezas. 299
Eu errei e paguei um preço alto por meus erros. Mas hoje já posso compreender como nos deixamos levar em um jogo perigoso e traiçoeiro. Envolvemo-nos em uma paixão que nos tornou infelizes enquanto durou.
- Aconteceu o mesmo comigo e Eugênia. Só que éramos livres e casei-me com ela, para arrepender-me em seguida. Foi paixão, e a paixão provoca sofrimento enquanto dura. - Senti-me aliviada quando percebi que Norberto havia mudado. Não me olhava mais com aquele fogo de antes, mas até com certa reserva, como querendo dizer-me que não sentia mais por mim nenhuma atração, que eu podia ficar em paz porque ele não iria mais me perturbar.
- Notei isso também. Tanto que às vezes me pergunto até que ponto o que houve entre vocês dois teria sido provocado pelo espírito do coronel Firmino. - Você acha possível?
- Não quero com isso tirar a responsabilidade que lhes cabe nos fatos. Claro que poderiam não ter se deixado envolver pelas energias dele. Mas ele sabendo que Norberto em outra vida havia se interessado por você pode tê-Io envolvido para conseguir seus propósitos. Quando ele finalmente foi afastado, Norberto voltou ao normal, desejando dedicar-se à sua família.
- Você pode estar certo. Norberto mudou completamente depois que o coronel foi afastado. Voltou a ser como era quando se casou com Eulália. Pelo menos da parte dela, não foi por amor, mas agora acho que ela aprendeu a gostar dele.
- Apesar do que houve, não há como negar que ele tem muitas qualidades. - Uma família! Vê-Ios bem é meu maior desejo.
- Agora falemos de nós. Preciso saber o que você pensa, se quer ser minha esposa de verdade e ficar comigo pelo resto da vida.
Liana passou as mãos ao redor do pescoço dele e beijou-o nos lábios com amor. Depois disse:
- Quero ficar com você para sempre, seja onde for.
Emocionado, Alberto apertou-a de encontro ao peito, beijando-a nos lábios. Depois se levantou, tomou-a nos braços e levou-a para o quarto de casal, onde ela durante todos os meses de casamento dormira sozinha.
Deitou-a sobre a cama, dizendo emocionado:
- Hoje é o dia mais feliz de minha vida!
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Ela o puxou para si e esqueceram tudo o mais, entregando-se completamente aos sentimentos que os uniam, assustados diante da profundidade e do volume das emoções que nunca haviam experimentado antes, percebendo a importância daquele amor em suas vidas. As semanas que se seguiram foram de encantamento. Estavam felizes e radiosos. O Dr. Marcílio notou a mudança, e, quando eles lhe contaram o que acontecera, comentou: - Eu sabia que vocês se amavam. Vocês foram feitos um para o outro. Serão muito felizes. Fazia apenas um mês que Eulália havia voltado com a família para São Paulo e mandava notícias regularmente.
Apesar de estarem no segundo semestre, as crianças haviam conseguido matricular-se em um bom colégio e estavam acompanhando regularmente as aulas. Tudo para eles era novidade. Principalmente para Nico, sempre entusiasmado com tudo que via. Sua inteligência, alegria, disposição, boa vontade encantavam professores e até colegas. Claro que havia os que o invejavam e tentavam aproveitar-se dele, percebendo tratar-se de um menino do interior que nunca havia estado em uma grande cidade. Mas, apesar de encantado com as novidades, ele era muito arguto, tinha bom senso e não se deixava enganar. Acabava levando a melhor.
Os três eram inseparáveis. Eurico não fazia nada sem ele e às vezes ficava com ciúme dos colegas que, atraídos por seu carisma, estavam sempre à sua volta convidando-o para jogos ou brincadeiras.
Mas Nico não dava importância ao mau humor de Eurico nesses momentos. Ao contrário, conversava com ele, fazendo com que participasse também, colocasse para fora suas idéias, e ficava feliz quando ele conseguia mostrar-se inteligente e criativo. Eulália sentia-se realizada. Finalmente seu filho estava levando vida normal. À noite, depois que as crianças se recolhiam, Eulália ficava conversando com Norberto. Falavam dos filhos, dos livros espiritualistas que estavam lendo, comentavam o que lhes acontecera, e Norberto surpreendia-se com a lucidez da esposa. Ela tinha idéias práticas, objetivas e claras. Reconhecendo isso, aos poucos ele começou a conversar com ela sobre seus negócios.
Obteve dela colaboração eficiente, e isso o deixou orgulhoso e agradecido. Nesses momentos, arrependia-se amargamente do que fizera. Tendo a seu lado uma mulher tão maravilhosa como Eulália, por que se deixara iludir, envolvendo-se naquela paixão terrível?
Nesses momentos, olhando-a tão segura, confiante e fiel a seu lado, tão companheira, sentia terrível remorso.
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Prometia a si mesmo que nunca mais a trairia.
Uma noite em que ele estava pensando no assunto, Eulália aproximou-se dizendo: - Há momentos em que me pergunto para onde vai seu pensamento. Você fica tão distante! - Impressão sua.
- Agora que temos conversado mais, posso dizer que muitas vezes cheguei a pensar que você se arrependeu de haver se casado comigo.
Ele a olhou admirado. Durante todos aqueles anos de casamento, Eulália nunca havia levado a conversa para o lado pessoal. Teria percebido alguma coisa? - Por que diz isso? Sempre fui dedicado a você e à família. - Não estou me queixando de nada. Mudemos de assunto. - Não. Sinto que precisamos conversar sobre nossos sentimentos. Nunca falamos sobre eles.
- É difícil para mim.
- Posso compreender. Você foi educada de maneira antiquada e muito rígida. Notando isso, nunca toquei no assunto.
- Nem sei por que comecei a falar de nós. Você tem sido um marido muito dedicado e não quero que pense que estou insatisfeita com alguma coisa. O único problema que tínhamos era a saúde de Eurico. Graças a Deus vencemos. Ele está bem. Norberto aproximou-se dela, segurou sua mão e disse:
- Embora você nunca me tenha dito, sei que se casou comigo sem amor, apenas para obedecer a seus pais.
- É. De fato. Eu era muito nova, tinha a cabeça cheia de ilusões, fazia do amor alguma coisa distante. Não pode considerar isso. Eu não sabia o que queria. Penso que meus pais sabiam o que era melhor e fizeram a escolha certa.
- Eu preferia que tivesse sido diferente.
- Diferente como?
- Que você me tivesse amado desde o princípio. Que houvesse se casado comigo por amor, conforme seus pais me disseram.
- Por quê? Eu não o conhecia como agora. Não podia amá-lo. Era tímida e minha mãe nunca falou comigo sobre o amor, a não ser de maneira superficial durante nosso noivado. - Alguma vez gostou de alguém, antes de me conhecer?
Eulália corou um pouco mas sustentou o olhar.
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- Não. Mas desde que minha mãe falou comigo sobre como deveria ser uma boa esposa, tenho me esforçado para não o decepcionar. Do jeito que fala, você dá a entender que esperava mais... - calou-se, um pouco embaraçada.
- Não nego que tinha minhas ilusões. Sonhava ser amado com paixão. Sabe como é, fantasias da mocidade.
- Eu não sabia.
- Você não me amava mesmo. Percebi logo no início de nosso casamento. - Sempre o tratei com carinho e atenção.
- Eu sei. Mas faltava o fogo do amor.
Eulália olhava-o surpresa. Na educação rígida que recebera, sua mãe sempre dizia que a paixão carnal era pecado. Que a mulher precisava preservar sua pureza mesmo no casamento para ser digna da família e dos filhos.
Eulália nunca se permitira qualquer gesto que pudesse revelar seus desejos de contato e relacionamento sexual. Nunca tivera qualquer iniciativa nesse sentido. Esperava que o marido a procurasse e entregava-se a ele preocupada que ele se sentisse satisfeito e feliz. - Esperava isso de mim?
- No início. Mas não era do seu temperamento.
- Sempre pensei que estivesse sendo uma boa esposa...
- E é. Nem sei por que estou falando isso. Você tem sido excelente mãe, boa esposa e companheira. Talvez melhor do que eu mereça. Estou feliz com a família que construímos. Eulália não respondeu. Mas a partir daquele dia não podia esquecer aquelas palavras. Norberto estava mudado. Ela sentia. De vez em quando percebia em seus olhos um brilho emotivo diferente do habitual. E pensava: se ela não fora a mulher que ele desejava, ficara decepcionado. Como seria a mulher que ele idealizara? O que ele esperava de uma mulher que o amasse?
Mas ela sentia que amava o marido e o quanto ele era importante em sua vida. Mas seria amor mesmo ou apenas convivência, hábito, apoio?
Eulália, que antes nunca questionara seus sentimentos, que sempre aceitara resignada o que a vida lhe dera, começou a prestar atenção às suas emoções, tentando entender o que o marido dissera.
Tinha vontade de conversar com alguém que pudesse ajudá-la a esclarecer seus sentimentos. Mas não se sentia com coragem de abrir-se. Antes do Natal eles decidiram passar férias na mansão.
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Estavam satisfeitos, porquanto as crianças finalmente haviam conseguido completar o quarto ano primário e preparavam-se para o ginásio.
Foi com alegria que se prepararam para essas férias. Liana, que durante esse tempo supervisava os trabalhos dos caseiros da mansão, sentiu-se feliz com a vinda deles. Foi com alegria que avisou a mãe de Nico e cuidou de tudo para que eles fossem recebidos com carinho.
No dia da chegada, Liana mandou preparar um bom jantar na mansão e colocou arranjos de flores pela casa. Desde cedo ela e Alberto haviam ido lá cuidar dos preparativos. Quando os dois carros chegaram com a família, os criados e as malas, eles estavam na porta esperando.
Abraçaram-se contentes. As crianças falavam sem parar, querendo saber como estava tudo, fazendo tanto ruído que Eulália lhes pediu que saíssem e fossem conferir pessoalmente o jardim, os passarinhos, as plantas.
Liana acompanhou Eulália até o quarto, onde as malas já estavam, e, uma vez lá, cobriu a irmã de perguntas, sobre a escola, as crianças.
Eulália contava feliz os progressos dos filhos, dizendo que sua melhor decisão foi colocar Nico ao lado deles. A certa altura, ela perguntou: - E você, como vai? Estou vendo que está muito bem de saúde. - É verdade. Estou feliz.
- Olhando para você posso perceber. Há uma luz em seus olhos que eu gostaria muito de ter.
- Noto que há uma ponta de tristeza em sua voz. O que foi, não se sente feliz? - Reclamar seria até pecado. Tudo está bem em nossa vida agora. - Então o que é? Eulália hesitou um pouco, depois respondeu: - Ultimamente venho questionando muito meus sentimentos. Sinto-me angustiada, insegura.
- Você? Sempre foi uma pessoa prática, que sabe o que quer. - Não é bem assim. Sou ignorante em questões de amor. - Seu rosto cobriu-se de rubor e ela continuou: - Viu? Só em falar nisso fico encabulada. Não sei mais o que é certo e o que é errado. Não tenho sido para Norberto a esposa que ele esperava. Liana sobressaltou-se. Segurou a mão da irmã e disse:
- De onde tirou essa idéia? Você é uma mulher maravilhosa. - Norberto deu a entender que ficou decepcionado comigo porque eu não o amava como ele deseja.
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- Ele não pode dizer isso... Você tem se dedicado exclusivamente a ele. Está sendo injusto. - Ele não reclamou, e foi isso que mais me impressionou. Ele se conformou em viver com uma mulher que não tem, como ele disse, "o fogo do amor" que ele desejava quando se casou.
- Ele disse que você é uma mulher fria? É isso que ele pensa? - Não disse assim, mas deixou transparecer.
- Pois eu penso o contrário. Você era uma menina tímida e inexperiente quando casou. Ele é quem precisava saber despertar esse fogo de amor que desejava. Eulália meneou a cabeça negativamente:
- Não sei o que dizer. Ele pode estar certo. Venho tentando descobrir se um dia eu seria capaz de amar da forma como ele gostaria. - É difícil querer ser como os outros desejam. - Nesse assunto me sinto perdida. Eu mesma não sei como eu sou. - Ninguém pode saber isso se não experimentar.
- Fica difícil. Não teria coragem para tentar uma experiência dessas. - Por que não?
- Teria vergonha. Ele pode pensar que sou uma mulher vulgar. - Você é ingênua, Eulália. Além de tudo, preconceituosa. Norberto é seu marido. Entre vocês o amor deve ser livre. Não tenha vergonha de mostrar seus sentimentos.
- A vida inteira não me permiti sentir. Quando ele me beija, fico tentando não desagradá-Io. Nunca digo o que sinto.
- Quando ele não a procura, nunca sentiu vontade de fazer amor? - Bem, já. Mas controlo. Não fica bem a uma mulher procurar. O papel da mulher é ser passiva.
Liana olhou admirada para ela e pensou: se Eulália houvesse sido diferente, o incidente entre Norberto e ela teria acontecido?
- Você está enganada, Eulália. O amor não existe de um lado só. É uma parceria em que os dois se descobrem e trocam experiências. - Não sei se saberia amar dessa forma.
Liana sorriu:
- Você está longe de ser uma mulher fria. Antigamente eu pensava que você fosse equilibrada, controlada. Mas descobri que é uma mulher forte, cheia de vida e de vontade. Dentro de você há uma fogueira que já começa a arder. Quando ela emergir, não poderá segurar.
- Não diga isso. Não quero fazer nada errado.
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- A única coisa errada no amor é tentar impedir sua manifestação. - Não sei como fazer isso sem ir contra meus princípios.
- É hora de entender seus sentimentos, não de agarrar-se em princípios e regras que a educação errada colocou em sua cabeça.
Eulália baixou os olhos pensativa e Liana continuou:
- O mais importante é saber se você ama Norberto.
- Claro que amo. Não poderia viver sem ele.
- Estou falando de amor, não de companheirismo ou de convivência. Precisa observar o que você sente quando ele a toca, que emoções surgem quando ele a acaricia. Não dar ouvidos aos pensamentos que passam por sua cabeça, mas ao que seu coração está sentindo, o que seu corpo quer nessa hora. Se fizer isso, saberá diferenciar amor de amizade. É isso que precisa descobrir.
- E se for só amizade, e se eu não for capaz de amar?
- Por que se precipita? Não pense nada. Experimente apenas. Sinta. Observe. - É. Talvez possa fazer isso. Ele nem vai notar.
Liana sorriu ao responder:
- Vamos ver o que acontece. Experiência é experiência. Não deixe que a cabeça interfira. Nessa hora, deixe-se apenas sentir e abra mão de qualquer controle. Permita-se fazer apenas o que sente.
- Não me parece tão fácil como você diz. Às vezes percebo que estou dividida em duas. Sempre que estou fazendo alguma coisa, tomando alguma atitude, há um lado meu observando, criticando, julgando, dando opinião. Mamãe costumava dizer que em tudo precisávamos ter discernimento. Analisar para evitar erros. - Eu me lembro. Ela dizia que os olhos de Deus estavam sempre nos observando, conhecendo nossos pensamentos mais íntimos. Durante anos me senti como você, dividida entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, entre a crítica e a aprovação. - Então pode entender como me sinto.
- Entendo e sei que essa maneira de pensar impede nosso progresso como pessoa, apaga nossa luz natural, anula a ousadia, a criatividade, e nos transforma em pobres prisioneiros de nosso próprio juiz. Um juiz severo que a pretexto de evitar erros e sofrimentos futuros nos deixa parados no tempo, fracos e sem coragem de viver. - Você me assusta.
- Mas é verdade. Eu era assim como você, hoje mudei. Alberto abriu-me os olhos. Por isso me maravilhei quando liseus livros.
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Eles me libertaram dessa prisão. A vida é muito diferente dos acanhados e limitantes conceitos que nos ensinaram na infância.
- É, você mudou! Seus olhos brilham, vem de você uma alegria gostosa e uma calma que me encanta. Sua mudança foi como um milagre. Você renasceu! - Sou feliz. A felicidade é uma bênção. Sei que você também pode transformar sua vida para melhor. Dá para notar que você, apesar de ser mais velha que eu, ser mãe e haver experimentado coisas que nunca experimentei, continua presa às regras aprendidas. Desconhece sua verdadeira natureza e o manancial de forças que estão adormecidas dentro de você.
- Gostaria muito de começar a aprender. Acha que posso? - Claro. Vou emprestar-lhe um dos livros de Alberto. Fará a você o mesmo bem que me fez. Mostrará com clareza tudo que já pode saber sobre si mesma. - Lerei com atenção.
- Não basta ler com atenção, é preciso questionar os conceitos, experimentar. Você se surpreenderá com os resultados.
Enquanto elas conversavam no quarto, Norberto já havia descido e estava na sala com Alberto. Apesar de haver mantido contato à distância, era a primeira vez que se encontravam depois que eles havia se mudado para a capital. Agora, depois do tempo decorrido, Norberto se sentia um pouco tenso tendo de enfrentar novamente o antigo problema que tanto o perturbara.
Bastou um olhar para perceber o quanto Liana mudara. Estava radiante. Não teve mais dúvida de que ela encontrara o amor.
Enquanto esperavam, ele e Alberto conversaram sobre outros assuntos, mas nenhum dos dois conseguia deixar de pensar no passado.
Apesar da tensão, uma coisa estava clara para Norberto. Ele se sentia aliviado com o rumo que os acontecimentos haviam tomado. A única coisa que ainda o incomodava era o receio de voltar a sentir a atração pela cunhada e o ciúme que tanto o perturbara. Estava inseguro, com medo da própria reação.
Elas desceram sorridentes e alegres, e a conversa fluiu com naturalidade. As crianças estavam entusiasmadas e o jantar decorreu agradável. Eles foram para a sala tomar café e as crianças subiram para o quarto.
Passava das dez quando Liana e Alberto se despediram. Depois que eles saíram, Eulália ficou pensativa.
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- O que foi? - indagou Norberto.
- Estava pensando em Liana. Estou contente com a melhora dela. - De fato. Ela voltou a ser como antigamente.
- Está melhor do que antes, muito melhor. Irradia felicidade. Norberto sorriu bem-disposto ao perceber que a felicidade de Liana e Alberto não o incomodava. Ao contrário, dava-lhe uma sensação de alívio, de liberdade. Um pensamento de euforia passou em sua mente. Estaria curado daquela insana paixão? Teria vencido para sempre aquela fraqueza?
Ainda era cedo para dizer, mas ele começava já a acreditar que havia conseguido. Disse apenas:
- Alberto era o marido certo para ela.
- Tem razão. Lamento ter demorado para descobrir isso.
- Cada pessoa tem o direito de decidir e escolher o próprio caminho. Nosso erro foi querer decidir por ela.
- Fui criada assim. Achava que os mais velhos têm mais experiência e por isso podem intervir para ajudar a felicidade dos filhos. Como mais velha, habituei-me a ver Liana como uma filha. Hoje percebi o quanto estava errada.
- Por que hoje? - Porque conversando com ela aprendi algumas coisas. Ela está mais amadurecida, mais segura de si mesma. Gostaria de ter a mesma clareza de idéias que ela tem. - Não diga isso, Eulália. Você é uma mulher inteligente, lúcida, prática, segura. Tem me ajudado até nos negócios.
Ela levantou para ele os olhos, que tinham um brilho diferente quando respondeu: - Falar, elaborar teorias e idéias nunca foi difícil. Mas olhar para dentro de mim e me situar, saber como eu sou de verdade, nunca me pareceu tão difícil. - Tenho notado que você tem mudado. Eu também mudei. O tempo passa e nós amadurecemos. Houve um tempo em que eu também não sabia analisar meus sentimentos. Esse tempo passou. Agora já me conheço melhor e sei o que desejo da vida. - Claro que eu desejo a felicidade de nossa família, mas eu, pessoa, às vezes me sinto incapaz de escolher, sabe, pequenas coisas. De sentir prazer com elas ou de não gostar e dizer não. Parece uma coisa boba, difícil de explicar, mas que ultimamente vem me incomodando. Tenho a sensação de que a vida está passando e estou perdendo alguma coisa importante.
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- Já me senti assim. Parece que a sensibilidade desaparece. É como se fôssemos um boneco sem sentimentos passando pela vida, obedecendo às regras estabelecidas. Ela se levantou:
- Vamos subir. Quero ver se as crianças já se deitaram. Se deixar, eles ficam conversando até tarde.
Norberto aproximou-se dela e passou o braço sobre seus ombros com naturalidade. Ele não tinha o hábito de abraçá-Ia dessa forma. Eulália estremeceu. Foram subindo as escadas abraçados e conversando. Ela sentia a proximidade, e o calor que vinha dele acelerava as batidas de seu coração. Teve medo. Sentiu vontade de esquivar-se, porém lembrou-se das palavras de Liana e controlou-se.
Parou no quarto de Eurico e conforme previra os três estavam juntos na mesma cama conversando animadamente.
- Está na hora de dormir. Vamos. Amanhã vocês têm todo o tempo livre para brincar. A custo conseguiu que obedecessem. Quando viu cada um em seu quarto, foi ter com Norberto. A sensação de momentos antes perturbava-a. E se ele a abraçasse de novo, o que faria?
Ele já havia vestido o pijama e preparava-se para deitar. Silenciosamente, Eulália procurou sua camisola e foi ao banheiro para se trocar. Ela nunca tirava a roupa na frente do marido. Quando voltou, ele já se havia deitado. Ela se deitou e, vendo que ele não apagava a luz do abajur, perguntou:
- O que foi, está sem sono?
- Estou pensando no que conversamos. Você tem razão.
- Em quê?
- Na dificuldade de discernir nossas emoções. É que elas muitas vezes fogem completamente ao que esperávamos.
- Explique melhor.
- Nós formamos opinião dizendo que diante deste ou daquele fato faríamos isto ou aquilo. Aí acontece alguma coisa e agimos muito diferentemente do que havíamos pensado. Quando acontece, dá para notar o quanto ainda ignoramos a nosso respeito.
Eulália suspirou conformada:
- Ainda bem que não sou apenas eu quem se sente assim. Liana vai emprestar-me um livro de Alberto. Disse que ele é especialista em comportamento e que ela aprendeu muito com ele.
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- O que não me surpreende. Lembra-se como ele conseguiu que as crianças tomassem gosto com os estudos? Acho que vou ler também. Vamos dormir. Boa noite. - Boa noite - respondeu ela, satisfeita com o que ele dissera. Norberto apagou a luz e acomodou-se virando de lado para dormir. Eulália, sentindo o calor que vinha do corpo dele, teve vontade de encostar-se, de abraçá-Io, mas não se moveu. Ficou ali, do lado, sentindo esse desejo, lutando para conter-se até que, cansada, virou-se para o outro lado e conseguiu finalmente adormecer. 310
Capitulo 22
Eulália queria que Liana e Alberto fossem almoçar todos os dias com eles para passarem juntos o maior espaço de tempo. Eles aceitaram ir no dia seguinte e no domingo, quando teriam também a companhia do Dr. Marcílio e de Adélia. No domingo, Norberto acordou alegre, bem-disposto, interessando-se até pelas brincadeiras das crianças, entretendo-se com eles como nunca fizera. Apesar de ser um pai responsável e dedicado, habitualmente era formal com os filhos.
Fora criado com disciplina. Na casa de seus pais as crianças não podiam conversar durante as refeições e ninguém lhes dirigia a palavra, a não ser o mínimo indispensável. Seu pai chamava isso de respeito. Para ele, criança não tinha querer nem opinião. Qualquer manifestação de vontade era considerada rebeldia. Por isso, a figura do pai para Norberto era sisuda, séria, disciplinar. Jamais participava das brincadeiras com os filhos. Conversava pouco com eles e deixava para Eulália participar mais da vida deles. Essa era a parte da mulher. Ela podia transigir algumas vezes, mas ele não. Tinha de manter o respeito e a disciplina em família.
Eulália, vendo-o conversar animadamente com Alberto e as crianças no caramanchão, interessando-se pela opinião delas, trocando idéias, participando, surpreendeu-se muito. Comentou com Liana:
- Norberto está mudado. Veja como ele conversa com as crianças. Está até brincando com elas.
- É que a alegria deles é contagiante. Alberto adora entreter-se com eles. Norberto está descobrindo esse prazer.
- Sabe que é verdade? Às vezes eles também me surpreendem. Falam cada coisa. Bom, com Nico não estranho. Esse menino sempre foi assim, inteligente, criativo. Mas Eurico você nem imagina. Está cada dia mais surpreendente.
- Ele agora está bem e começando a revelar sua verdadeira personalidade. Vocês ainda vão se orgulhar dele. Alberto sempre diz isso. Um brilho de prazer passou pelos olhos de Eulália: - Eurico está curado. Esse foi o maior presente que a vida me deu. O médico chegou com a esposa e eles os receberam com alegria. A conversa fluiu agradável. 311
Depois do almoço foram conversar no caramanchão. Uma brisa fresca soprava, apesar do sol de verão. As crianças brincavam do lado de fora.
De repente, Liana levantou-se e foi até a entrada do caramanchão. Alberto notou que ela empalidecera. Imediatamente foi ter com ela, indagando: - O que foi? Não se sente bem?
- Fiquei tonta e pensei que fosse desmaiar.
- Dr. Marcílio, Liana não está bem...
O médico levantou-se e tomou-lhe o pulso.
- Está passando. Acho que foi o calor... - disse ela.
- Você está pálida - tomou Eulália, preocupada.
- Vamos entrar - propôs o médico. - Quero examiná-Ia.
As crianças haviam se aproximado, e Eurico disse assustado: - Ele voltou! A alma do coronel voltou! É ele quem está ao lado dela! Eulália empalideceu. Norberto sobressaltou-se. Liana olhou para o médico aterrorizada.
- Calma - pediu ele. - Não há o que temer. Vamos lá para dentro. Uma vez na sala, Marcílio examinou Liana cuidadosamente e disse: - Ela não tem nada. Está tudo bem.
- Mas e o coronel? - indagou Eulália, inquieta.
- Acalme-se. Ele não nos pode fazer mal. Chame as crianças, por favor.
Os três estavam do lado de fora da porta tentando ouvir o que se passava lá dentro. Eurico dizia:
- Eu vi. Era ele de novo! O que vamos fazer agora?
- Calma, Eurico. Ele não vai fazer nada. Calma.
Assim que Alberto abriu a porta, eles entraram. Marcílio, dirigindo-se a Eurico, perguntou: - Você viu o coronel Firmino?
- Vi, doutor. Ele ainda está aí, ao lado dela.
- Vamos descobrir o que ele deseja. Enquanto conversamos com ele, vocês procurem nos ajudar fazendo uma oração.
Vendo que eles fechavam os olhos e rezavam, Marcílio disse: - Coronel Firmino, por que você voltou?
- Ele está triste - disse Eurico. - Acho até que está com medo. - Ele está diferente do que era?
- Sim. Não me olha mais com raiva. Parece pedir alguma coisa. 312
- Estamos aqui, coronel Firmino. Pode falar. Por que voltou? - Ele disse que foi para pedir perdão. Está arrependido de tudo que fez. Precisa muito do perdão de tia Liana. - Se ela o perdoar, ele irá embora? - tornou o médico.
- Vou repetir as palavras dele: "Depende".
- Do quê? - De ela me perdoar de coração e não para se ver livre de mim. - E você, Liana, o que diz? - tornou Marcílio. - Sente-se capaz de perdoar?
- Sim - respondeu ela. - Quero esquecer. Não lhe desejo mal. Quero que me deixe em paz.
- Eu preciso de mais. Todas as portas se fecharam para mim. Ninguém mais quer me ajudar. Apesar de tudo que eu fiz e de você haver me rejeitado a vida inteira, ainda a amo. Reconheço meus erros, sofro muito por saber que nunca poderá ser minha esposa outra vez. Seu destino é outro. Mas apesar disso quero provar que estou mudado. Tenho aprendido muito. Por favor, não me negue a oportunidade que lhe peço. - Ela disse que o perdoa - interveio Marcílio. - O que mais quer? - Preciso voltar! Quero nascer! Por favor, Liana, não feche a porta de seu coração para mim. Você foi mãe amorosa, cuidou de nossa filha com carinho. Já que não posso ter você como mulher, acolha-me em seu coração e permita que seja seu filho!
Grande emoção acometeu os presentes e Eurico disse com voz embargada: - Aquela senhora veio e o levou! Ele já foi embora.
Marcílio fez comovida prece de agradecimento. Quando se calou, Liana soluçava nos braços de Alberto, as crianças tinham lágrimas nos olhos, Eulália e Norberto entreolhavam-se admirados. A segurança de Eurico transmitindo as palavras do coronel Firmino, o assunto inesperado, deixou-os emudecidos.
Marcílio disse sério:
- O espírito do coronel Firmino deseja uma oportunidade para reencarnar. Compete aos futuros pais decidirem.
- Liana é quem vai decidir. De minha parte, não faço objeção. - Apesar do que ele disse, ainda sinto medo. Como conviver com ele se sua proximidade já me fez mal? Como tê-Io a meu lado, unido a mim gerando um corpo em minhas entranhas se a simples lembrança de seu nome me aterroriza?
Eurico aproximou-se de Liana, colocando a mão em seu braço: 313
- Tia, posso falar?
- Fale.
- Eu também sentia muito medo dele. Mas hoje, quando vi como está mudado, triste, senti pena. Está abatido, eu queria que você o tivesse visto. Nem parece o mesmo. Estava com os olhos cheios de lágrimas. Ele mudou, tia, mudou muito.
- Ele tomou consciência da verdade. Arrependeu-se. Apesar disso, é você quem precisa decidir se concorda ou não em tê-lo como filho - esclareceu Marcílio. Liana olhou-o indecisa:
- Não precisa resolver nada agora. Reflita, ouça seu coração e decida. - O senhor não acha arriscado ela o ter como filho sabendo de seu temperamento, das coisas que ele fez no passado?
- Se ela se sentir capaz de recebê-lo como um necessitado que precisa de ajuda e o amar de verdade, esquecendo o passado, ajudando-o em sua reeducação, passando-lhe os verdadeiros valores do espírito que ela já possui, só terá a ganhar. Porém, se não conseguir perdoar de verdade, esquecer a multidão dos pecados que ele cometeu, então será melhor adiar esse reajuste para quando se sentir mais forte. - Da forma como fala, doutor, o senhor acredita que a união entre eles será inevitável. Hoje ela poderá protelar mas um dia terá de acontecer. É isso? - interveio Norberto. - Os relacionamentos inacabados sempre voltam para que os laços de ligação se desfaçam e os envolvidos se libertem.
- Quer dizer que apesar de ele ter ido embora, de certa forma seu espírito continua ligado a ela. Nesse caso - reconheceu Alberto -, será melhor enfrentar logo do que protelar. - Enfrentar os medos é o caminho dos vencedores. Pense, Liana. Sinta seu coração. Não se obrigue a fazer nada, mas fique atenta a seus sentimentos. Estou certo de que saberá escolher o melhor a fazer agora - esclareceu o médico.
Eulália abraçou o filho, dizendo comovida:
- Meu filho! Você viu a alma do coronel, conversou com ele! Portou-se como um homem. Muitos não teriam sua coragem.
- Graças a ele pudemos mais uma vez contribuir para a harmonização desta família. Então, Liana, sente-se melhor?
- Sim, doutor. Estou bem. Só um pouco assustada. Pensei que nunca mais teria esses achaques.
314
- Amanhã vá a meu consultório. Desejo fazer alguns exames. - Irei, pode esperar. Eulália mandou servir um café com bolo e as crianças foram à copa tomar um lanche. Eurico estava pensativo. Amelinha tomou:
- O que foi agora? Você ficou quieto de repente. Está vendo alguma coisa? - Não. Estou pensando.
- No quê?
- No que o coronel disse.
- Ele quer nascer outra vez - esclareceu Nico.
- E o pior é que ele quer ser nosso primo. Já pensou? É isso que está me preocupando. - Ele vai ser criança de novo? - indagou Amelinha.
- Claro. Você sabe o que é reencarnação - disse Eurico e continuou: - Ele vai dar trabalho, vai querer mandar em tudo.
- Bobagem, Eurico. Nós é que vamos mandar nele. Somos mais velhos. Quando ele tiver nossa idade, já seremos adultos, e as crianças precisam obedecer aos mais velhos. Não é isso que nos ensinam todos os dias?
- É mesmo! Vai ser divertido nós mandarmos nele - concordou Amelinha. - Bom, pensando bem, nós não podemos fazer isso. Os pais é que vão ter que mandar nele. Os primos e os amigos não. Depois, ele vai nascer e esquecer o passado. Não vai saber quem nós somos. Lembra que o professor ensinou que quando reencarnamos nos esquecemos de tudo?
- É mesmo! Eu não lembro nada de minha encarnação anterior concordou Eurico. - Nem eu - concluiu Amelinha.
- Em todo caso, é bom saber que quando ele tiver nossa idade já seremos adultos, e ele, mesmo que queira ser mandão, não vai poder fazer nada - afirmou Nico, satisfeito. - Será que tia Liana vai concordar em ser a mãe dele? - indagou Amelinha. - Eu não aceitaria.
- Eu tinha medo dele, mas agora não tenho mais - tomou Eurico. - Você fala, mas quando ele apareceu ficou tremendo - lembrou Amelinha. - Fiquei, mas não foi de medo. É que quando vejo uma alma do outro mundo me dá arrepio. Até com aquela senhora bonita eu sinto isso. Eu me alegro quando a vejo, mas me arrepio. - Você ficou com pena do coronel - observou Nico.
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- Fiquei, sim. Ele me olhou pedindo ajuda. Estava acabrunhado, humilde, ele mudou muito. Pensando bem, acho até que, se ele nascer, não vai querer mais mandar em ninguém. - Não sei, não, Eurico. Se ele vai esquecer o passado, pode esquecer também por que tudo deu errado em sua vida e começar de novo ajuntou Nico. - Vamos perguntar ao professor o que ele pensa de tudo isso - sugeriu Eurico, ao que Nico respondeu:
- É bom, mas vamos deixar para quando ele vier conversar conosco. Ele está cuidando da Liana.
Apesar de sentir-se melhor, Liana não conseguia esconder a preocupação. Alberto, atencioso, cercava-a de carinho, e os demais não tocaram mais no assunto, porém todos se sentiam um tanto inquietos.
Só o Dr. Marcílio e Adélia se sentiam serenos e, compreendendo o que se passava com os amigos, contavam casos alegres procurando aliviar-lhes a tensão. À noite, quando Liana voltou para casa, foi logo dizendo: - Convidei-os para vir almoçar aqui amanhã. Não me sinto com coragem de voltar àquela casa.
- Você está nervosa. Vai passar.
- Eu estava muito bem. Foi só começar a ir lá que o espírito do coronel Firmino voltou. Acho até que ele nunca saiu de lá!
- Não foi isso que o Dr. Marcílio falou. Depois, Eurico constatou que ele está mudado. Não deseja mais obrigá-Ia a nada. Não precisa ter medo.
- Sempre desejei ter filhos, mas agora não quero mais. Só em pensar que ele ficaria muito tempo ligado a mim, fico toda arrepiada. Não posso. Não estou pronta. Não quero. - Está bem. Faremos como você decidir. Se não quer, não teremos filhos e pronto. O que eu desejo é vê-Ia feliz. Vamos esquecer esta história.
- Dr. Marcílio disse que posso escolher. Já escolhi.
- Tudo bem. Acho que devemos tomar nosso chá e retomarmos nossa paz. Alberto foi à cozinha, esquentou a água, preparou tudo e chamou-a. Liana sentou-se à sua frente em silêncio. Alberto serviu-a e tentou conversar. Porém Liana não estava prestando atenção ao que ele dizia.
A certa altura, rompeu em soluços e Alberto levantou-se, abraçando-a preocupado: - O que foi, Liana?
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- Estou sendo vingativa, maldosa. Ele pediu perdão e eu perdoei, mas estou me sentindo culpada. Não foi de coração.
- Por que se atormenta dessa forma? Sei que, apesar do que ele fez, você não lhe deseja nenhum mal. Mas tem o direito de preservar sua intimidade se sua presença lhe é penosa. Você ainda não superou o medo que sente dele.
- Mas ele disse que eu sou a única porta para que possa nascer. Terei o direito de fechá-Ia? - Seu compromisso maior é com o próprio bem-estar. De nada valerá aceitar uma situação e fazer dela um inferno para ambos. Marcílio foi bem claro. Precisa consultar seu coração e aceitar a incumbência se perceber que pode desempenhá-Ia com serenidade. Enquanto sentir medo, horror à simples presença do coronel, não conseguirá ajudá-Io e com certeza estará infelicitando-se também.
- Eu queria que ele me esquecesse, que nunca mais me procurasse. Que fosse feliz longe de mim.
Alberto passou a mão carinhosamente pelos cabelos de Liana, acariciando-a: - Ele a ama. À sua maneira, é verdade, mas ama. Essa talvez seja a única porta para abrir o coração dele e fazê-Io mudar. O amor tem muita força. Talvez seja por isso que.a vida o esteja colocando novamente em nosso caminho.
- Eu gostaria de poder fazer isso, mas está muito difícil.
- Você não tem de resolver nada agora. Vamos dar tempo ao tempo. Não quero que adoeça novamente. Eu estou aqui e a amo mais que tudo no mundo. Depois, lembre-se que, quando não podemos resolver alguma coisa, Deus pode. Entregue o assunto nas mãos dele e acalme seu coração. Tenho certeza de que a vida já tem uma boa solução para o problema. Vamos guardar serenidade e esperar que ela se manifeste.
Liana abraçou-o um tanto aliviada.
- Bendita hora em que você apareceu em minha vida!
Ele riu bem-humorado e retrucou:
- Eu não disse que a vida faz tudo certo? Juntou-nos para sermos felizes. Não acha que merece um crédito de confiança?
Liana assentiu e sorriu. A crise havia passado. Mas no fundo ambos sabiam que, quando fosse o momento, o assunto voltaria e teriam de decidir.
Nos dias que se seguiram, Liana não quis voltar à mansão. Eulália estava inconformada. 317
- Liana, pensei que íamos ficar juntas todos os dias e aproveitar esses momentos. Compreendo o que aconteceu, mas não é bom você alimentar esse medo de ir à nossa casa. - Foi lá que ele apareceu de novo - justificou-se ela.
- Pelo que tenho aprendido nos livros, os espíritos podem ir a toda parte. Ele pode estar aqui sem que nós saibamos.
- Não diga isso. Se ele estivesse, eu sentiria. Depois, Eurico teria visto. Ele gosta é de ficar lá, e eu não desejo encontrá-la.
À noite, reuniram-se na casa de Marcílio para a sessão costumeira, e Eulália voltou ao assunto:
- Dr. Marcílio, Liana não quer mais ir à minha casa com medo do coronel Firmino. Não acho que seja uma boa atitude. Afinal nós estamos lá todo o tempo, inclusive Eurico, a quem ele costumava perturbar, e ele não tem aparecido.
- Se eu for, ele pode voltar.
- Você sabe que o coronel Firmino mudou. Sofreu. Arrependeu-se. Aprendeu. Tornou-se mais humilde. Já não é mais violento e aproximou-se para lhe dizer isso. Não creio que sua presença possa fazer-lhe mal.