Quando Chega a Hora
- Não tenho essa intenção. Estou apenas…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Não tenho essa intenção. Estou apenas tentando entender porque eles por vezes se tornam tão ineficientes, desmotivando as crianças ao estudo. Falta-Ihes o prazer de lidar com as matérias, a criatividade, o questionamento. Diplomam-se e pensam já terem feito o bastante para ganhar a vida. Só que tudo muda a todo minuto, e quem fica parado atravanca o progresso, perde o brilho, acaba no tédio.
- Isso é verdade. A maioria dos estudantes espera o diploma com ansiedade, na crença de que dali para a frente sua vida estará resolvida. A descoberta de que isso não basta para conduzir ao sucesso profissional não será a causa do tédio que você mencionou? - Pode contribuir, mas o fator principal é a falta de interesse pelas coisas. Foi assim que eles aprenderam na escola. Certamente desconhecem que a vida pode ser muito mais interessante quando vista de outro modo.
- Como assim?
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- Veja o caso de Eurico. Ele vivia entediado, manipulando todo mundo com seus achaques. Como é que ele está melhorando?
- Eurico sempre foi doente. Você não está sendo cruel dizendo que ele manipulava? Ele não fingia. Passava muito mal mesmo. Eu vi muitas vezes.
- Ele não fingia sentir-se mal. Ele passava mal mesmo. Mas o caso dele é todo um processo que estou estudando ainda e não estou em condições de falar inteiramente. O que é notório é como ele está melhorando.
- É verdade. Está muito melhor. Corado, o mal-estar espaçou muito, acho que até engordou um pouquinho.
- E como aconteceu isso? Você já viu como Nico é interessado pelas coisas?
- É observador, inteligente, habilidoso.
- É mais que isso. Em alguns momentos, tem uma sabedoria que só espíritos muito evoluídos possuem.
- Ele é diferente mesmo.
- Eurico melhorou quando Nico começou a interessá-Io na observação de fatos interessantes da natureza. A vida dos pássaros, das plantas, seus ciclos e fenômenos. Ele usou a fórmula certa para motivar o interesse dele. É isso que estou tentando fazer. Interessá-Ios nos mecanismos da vida, nas maravilhas da natureza, nas ciências que estudam esses fenômenos.
- Reconheço que é um trabalho maravilhoso. Estou pensando seriamente em começar a aplicar isso com meus alunos.
- Se está, deve começar por descobrir como se motivar mais à observação e à experimentação. A vivência desperta a criatividade e a certeza de nossos conceitos.
- Vou tentar.
- Preciso entrar. Está na hora. As crianças já devem estar me esperando. Depois que ele entrou, Liana permaneceu pensativa. Alberto era um homem bonito, interessante, culto, capaz de despertar interesse. Por que, preferia viver só? Guardaria no coração um amor impossível como ela?
Era por causa disso que ainda não recusara o pedido do engenheiro. Casar com ele poderia ser a melhor solução para afastá-Ia daquela casa sem provocar uma tragédia. Tudo aconteceu depois que Eulália se mudou para Sertãozinho. Liana ficou aguardando a transferência para Ribeirão Preto e durante aqueles meses morou em São Paulo em companhia de Norberto.
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Todas as noites ele a procurava para conversar e uma noite não se conteve e declarou sua paixão por ela.
- Há muitos anos guardo em meu coração este amor impossível declarou ele emocionado. - Pretendia levá-Io para o túmulo. Mas estou sofrendo muito. Abraçou-a e beijou-a com paixão. Liana sentiu profunda emoção. Conseguiu afastá-Io a custo, .fechou-se no quarto e soluçando desconsolada chegou à conclusão de que também se sentia atraída por ele, sem nunca ter querido confessar. Desejou ir embora para sempre, mas para onde? Eulália era sua única família. No dia seguinte reuniu todas as suas forças e teve uma conversa séria com Norberto. Disse-lhe que ele deveria esquecê-Ia e que nunca mais falariam no assunto. Ele, triste, cabisbaixo, disse emocionado:
- Nunca senti tanto amor por uma mulher. Perdoe-me. Não pensava perturbá-Ia. Concordo que nunca mais falemos deste assunto, mas, antes, há uma coisa que me está queimando e que eu gostaria de saber. Ontem senti que você estremecia de amor a meu contato. Diga-me: é verdade? Você também me ama?
- Melhor não falarmos nisso.
- Eu preciso saber. Não vou exigir nada. Acato sua decisão. Sei que é preciso. Mas saber que me ama vai ser o conforto de que preciso para aceitar a separação definitiva. Será a última vez que falaremos no assunto.
- Sim. Sempre gostei de ficar a seu lado, conversar, admirá-la. Mas ontem descobri que também o amo. Confesso, mas não diga nada. Essa constatação já basta para nos separar para sempre.
- Ah, se eu pudesse! - disse ele abraçando-a com paixão, procurando seus lábios, apertando-a de encontro ao peito.
Liana não conseguiu resistir. Entregou-se ao beijo, sentindo o coração descompassado, mergulhada em uma emoção antes nunca experimentada. Norberto não parou nem mesmo quando ela pediu que ele a deixasse ir. Beijou-a repetidas vezes e arrastou-a para o quarto, onde se entregaram completamente ao amor.
Quando passou, deitados um ao lado do outro, Liana disse num soluço: - Isso não podia ter acontecido. Estou envergonhada, arrependida. Como vou agora encarar minha irmã? Vou-me embora para sempre.
- Perdoe-me, Liana. Eu deveria ter me controlado. Mas eu a amo. Se quiser, posso me separar de Eulália e ficar com você para sempre. 109
Liana sentou-se na cama tentando compor as roupas.
- Nem diga uma coisa dessas! Que horror! Eu separar a família de minha única irmã, que sempre foi como uma mãe para mim? Como isso pode passar por sua cabeça? - Nós nos amamos. Não é justo que passemos o resto de nossas vidas separados, agora que descobrimos nosso amor.
- Estou me sentindo a pior pessoa do mundo. Não quero me sentir assim. Amo Eulália, as crianças, isso não podia ter acontecido. Mas aconteceu. Agora vamos esquecer. Nunca mais quero falar sobre esse assunto. É como se nunca houvesse acontecido. Proíbo-o de falar alguma coisa a Eulália. Nunca mais quero que se aproxime de mim. Acabou. - Pense bem. Falaremos com Eulália. Explicaremos que foi uma coisa que aconteceu. Quem pode segurar os sentimentos?
- Absolutamente. Está acabado. Nunca mais toque nesse assunto. Eu o proíbo. Amanhã mesmo pedirei uma licença na escola e irei ter com Eulália a pretexto de não estar me sentindo muito bem. Lá esperarei a transferência.
- Perdoe-me, Liana. Não queria prejudicá-Ia.
- Não se preocupe comigo. Estou bem.
Ele pegou a mão dela, apertou-a com força e, olhando-a nos olhos, disse: - Nunca esquecerei este momento enquanto viver. Pode ter certeza de que a amarei sempre. Ela se desvencilhou e saiu sem responder. A partir daquele dia nunca mais voltaram a falar no assunto, mas a ferida ainda sangrava dentro do peito dela. Além do amor impossível, havia a vergonha pela traição, a culpa, a infelicidade por haver permitido que as coisas chegassem àquele ponto. Quanto mais Eulália a tratava com carinho, atenção e amor, mais ela se sentia culpada e infeliz.
Casar-se com Mário seria deixar aquela casa e refugiar-se para sempre ao lado de uma pessoa que a respeitava e a amava e na qual poderia confiar. Decidiu aceitar o noivado. Era a melhor solução. Não havia outra coisa a fazer.
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Capítulo 8
Na manhã do domingo, Liana confidenciou à irmã:
- Resolvi me casar com Mário.
Eulália abraçou-a com carinho, exclamando com alegria: - Que bom! Parabéns! Tenho certeza de que será muito feliz com ele. - Obrigada. - Quando vai dar-lhe o sim?
- Hoje à tarde, após o almoço.
- Ele virá logo mais para passar o dia conosco. Por que não fala antes do almoço com ele? Assim poderemos comemorar, abrindo um vinho especial. A ocasião merece! - Eu prefiro deixar as comemorações para o casamento. - Nada disso! Imagine... Norberto não vai concordar. Seu noivado é importante e merece uma comemoração.
Liana não respondeu. Como Norberto reagiria a seu sim? Ela não queria pensar nisso. O que estava fazendo era o certo. Iria embora para sempre e tudo estaria resolvido. Mário tinha uma bela carreira, ela levaria uma vida boa e sem preocupações. Quando Norberto entrou na sala, Eulália foi logo dizendo com um sorriso: - Liana vai aceitar o pedido de Mário. Eles vão se casar! Não acha que precisamos comemorar?
Norberto olhou para elas, ficou calado alguns segundos e depois respondeu: - Claro. Por que não?
- Parece que você não se entusiasma com a idéia. Não gosta de Mário? Norberto sorriu levemente:
- Mário é um homem inteligente e agradável. Resta saber se Liana o ama o suficiente para casar-se.
Eulália olhou-o admirada. Nunca o ouvira falando em amor. Liana interveio: - Claro que gosto dele. Se não gostasse, não aceitaria seu pedido. - É estranho você dizer isso, Norberto - tornou Eulália. - Liana é livre, só se casará se quiser.
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- Certamente - concordou ele.
- Eu disse a ela que desse a resposta logo, para que pudéssemos festejar ao almoço. O professor também virá almoçar. Assim aproveitamos para celebrar. - Está bem - resolveu Liana. - Falarei com ele assim que chegar. Liana sentia o olhar de Norberto pesando sobre ela e queria resolver o assunto logo, sair dali. Sentiu-se aliviada quando Eulália a chamou para resolver alguns detalhes do almoço. Ela queria caprichar. Aquele seria um dia inesquecível para a família.
Depois, Liana subiu para o quarto a pretexto de se preparar. Na verdade, ela queria evitar a presença do cunhado. Pensativa, sentou-se em uma poltrona. Percebera que Norberto estava nervoso e temia que alguém notasse. Por que fora acontecer isso com ela? Por quê?
Precisava casar-se o quanto antes. Verdade é que Norberto iria embora no dia seguinte e só voltaria no fim da semana, mas ela só se sentiria segura quando estivesse fora daquela casa, casada com outro homem.
Eulália bateu na porta chamando-a para ver um arranjo que fizera, e Liana acompanhou-a, procurando demonstrar alegria e disposição. Tudo pronto, como os convidados ainda não haviam chegado, Liana apanhou um livro e foi sentar-se no caramanchão. Não queria ficar na sala onde Norberto lia os jornais.
Abriu o livro e tentou ler, porém não conseguia concentrar-se na leitura. Deu um pequeno grito quando viu Norberto em pé a seu lado dizendo baixinho: - Liana! Por favor! Diga que não vai se casar com ele! Eu não vou suportar! - O que está fazendo aqui? Pelo amor de Deus! Vá embora. Já pensou se Eulália desconfia? - Quero ouvir de seus lábios que não ama aquele sujeito. - Isso não interessa a você. Vou me casar com ele. Decidi e pronto. Será melhor para todos nós.
- Você não o ama! Diga.
- Eu não amo. Agora vá embora.
- Você não vai aceitar o pedido dele. Se fizer isso, juro que cometerei uma loucura. Prometa que não se casará com ele.
- Por que está fazendo isso comigo? Você tem sua família. Deixe-me em paz. Quero cuidar de minha vida!
- Enquanto você está sozinha eu posso suportar essa separação. 112
Mas imaginá-Ia nos braços de outro homem me enlouquece - disse ele tentando abraçá-Ia. - Aquela noite não sai de meu pensamento. Não consigo pensar em outra coisa. - Largue-me! Por favor! Saia daqui já se não quer que eu o odeie pelo resto da vida. - Você não vai casar-se com ele! Eu não vou deixar! Prometa isso e irei embora. - Está bem. Não me casarei com ele. Agora vá!
Respirando fundo, Norberto saiu do caramanchão e Liana cobriu o rosto com as mãos, soluçando.
Nico abraçou Eurico colocando o dedo entre os lábios recomendando silêncio. Eles, escondidos atrás do caramanchão à espera dos beija-flores, não haviam sido vistos pelos dois e sem querer escutaram a conversa deles.
Eurico estava pálido e teria caído se Nico não o houvesse amparado, abraçando-o com força, fazendo-lhe sinal para ficar calado. Permaneceram assim, abraçados, em silêncio, até Liana parar de chorar, enxugar os olhos e sair do caramanchão. Ela pretendia ir até o quarto refazer o rosto, sem que alguém a visse.
Quando ela estava longe, Nico disse baixinho:
- Não devemos falar a ninguém o que aconteceu aqui.
- O que meu pai tem com tia Liana? Ele a está namorando? - Claro que não.
- Ele falou aquelas coisas, queria abraçá-Ia.
- Ele pode estar apaixonado por ela, mas ela não quer nada com ele. É uma moça boa. - Por que ele está fazendo isso? E se mamãe souber?
- Ela não vai saber. Nós não vamos contar nada.
- Isso não é direito! Mamãe tem de saber.
- De jeito nenhum. Já pensou a confusão que pode dar? O melhor é a gente não se meter nisso.
- Não posso ficar calado. Meu pai está traindo minha mãe com a própria cunhada. Acha justo isso?
- Ele não está traindo ninguém. A Liana não quer nada com ele. - Por que ele pedia a ela para dizer que o amava?
- Ela não disse. Logo, ela não ama. Sabe de uma coisa? Um homem pode se apaixonar e ficar louco por causa de uma mulher. Quando acontece isso, é um horror. O filho do Seu Joaquim começou a beber por causa disso e hoje vive jogado na rua. Ele amava uma moça que o trocou por outro.
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Antes ele era trabalhador, andava direito, depois ficou do jeito que está, perdeu a alegria, o emprego, tudo se acabou.
- Pode acontecer isso a meu pai?
- Seu pai é um homem estudado, tem mais conhecimento do que o filho do Seu Joaquim, que era um ignorante. O que eu quero dizer é que a paixão acontece e é duro se livrar dela. - E se meu pai der para beber?
- Isso não vai acontecer. Por que fui contar essa história para você? Ela vai se casar com o Dr. Mário e pronto, tudo fica resolvido. - Ele a fez prometer que não casará.
- Ela prometeu só para ele ir embora. Minha mãe faz isso com o meu pai. Promete mas depois dá um jeito de fazer tudo como ela quer. - Será que tia Liana vai se casar com o Dr. Mário?
- Vamos ver... Hum... Você está com uma cara! Pálido, nervoso. Faz tempo que não ficava assim. É melhor esquecer essa história. Nós não podemos fazer nada mesmo. Quando não dá para fazer nada, é melhor deixar de lado. - Estou assustado. Se ela disser sim, o que ele pode fazer? Será que vai matar o Dr. Mário? - Que horror, Eurico. Vai nada. Ele falou, mas na hora vai ter que aceitar. O que ele pode fazer? Acha que vai ter coragem de falar alguma coisa na frente da sua mãe? - É. Acho que ele não tem.
- Então! Vamos nos acalmar. Esse é um segredo nosso. Não devemos nos meter na vida dos outros. Minha mãe sempre diz isso.
- Não sei se vou agüentar.
- Terá que fazer força. Senão nós vamos ficar numa encrenca danada. Já pensou? - Estou começando a pensar que tem razão.
- Tenho, sim. Nunca me arrependi de ficar calado. Tenho visto muita coisa por aí. É melhor deixar para lá. Não vale a pena.
- Será que meu pai não gosta mais de minha mãe?
- E isso, agora? Sei lá. Já vi homem com três mulheres dizer que gosta delas todas. - Isso é sem-vergonhice.
- Pode ser, mas ele estava feliz da vida.
- Meu pai não pode ser assim.
- Vai ver que foi só uma tentação. Passa. Não tem nada de mais. - Você acha?
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- Acho. Sabe como é, a tentação vem, mas depois passa. Amelinha chegou correndo: - Vocês estão aí! Faz tempo que estou procurando. Mamãe está chamando. Está na hora de se lavar para o almoço. Os convidados já chegaram.
- Que convidados? - perguntou Eurico.
- O Dr. Mário e o professor. É um almoço de comemoração. Maria disse. Os dois meninos se olharam sem dizer nada. Amelinha prosseguiu: - O que foi? Vocês não sabem da novidade? Tia Liana vai se casar com o Dr. Mário. Vamos ter uma festa. - Vamos nos lavar - disse Nico.
- Vamos - concordou Eurico.
Eles estavam ansiosos para verificar se Liana estava ficando noiva ou não.
Na sala, as pessoas conversavam com naturalidade, e se eles não houvessem ouvido aquela conversa não desconfiariam de nada.
A certa altura, Mário levantou-se, dizendo em tom solene:
- Hoje é um dia especial para mim. Liana aceitou meu pedido. Vamos nos casar. Sinto-me honrado e feliz.
Eulália levantou-se e abraçou a irmã com alegria:
- Tenho certeza de que serão muito felizes! Faço muito gosto nesse casamento.
Abraçou Mário com carinho. Norberto levantou-se e cumprimentou os noivos. O professor fez o mesmo.
Os dois meninos olhavam o rosto de Norberto e, apesar de ele dissimular, notaram o rubor na face e o brilho de contrariedade nos olhos.
Amelinha bateu palmas, abraçando a tia e dizendo:
- Oba! Tia Liana vai se casar!
Eulália mandou abrir uma garrafa de vinho do Porto e Norberto, a um olhar da esposa, levantou o brinde, desejando felicidades aos noivos. O almoço foi servido em seguida, mas o professor percebeu que Liana não estava feliz. Por que ela resolvera aceitar aquele casamento? Mário era excelente pessoa, mas ele sentia que não tinha elementos para fazer Liana se apaixonar. Ele sabia que esse casamento não iria dar certo.
Foi antes de iniciar a aula do dia seguinte que Alberto começou a encontrar a resposta. Naquela noite Eurico não havia passado bem e não se levantara ainda. Amelinha havia ido acordá-lo. Nico já estava na sala e Alberto perguntou:
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- O que foi que Eurico teve?
- Ele se sentiu mal, como antigamente.
O professor ficou pensativo por alguns instantes, depois disse: - Ele estava muito bem. Não pensei que fosse recair. Deve ter acontecido alguma coisa que o desequilibrou. O que foi?
- Nada.
- Pela sua cara estou percebendo que aconteceu algo mesmo. - É melhor não falar nisso. - Eu sou amigo de vocês. Tenho feito tudo para que Eurico se recupere. Se eu souber o que foi, vou poder ajudá-Io a ficar bem. Depois, nós não temos segredos entre nós. - É que o assunto é muito sério! Tenho medo de contar. Se alguém descobrir, vamos ser castigados. Juro que não foi de propósito. Estávamos lá brincando.
- Sou seu amigo e quero ajudar. Seja o que for, não tenha medo de contar.
Nico resolveu e contou tudo que eles tinham ouvido. Quando ele terminou, Alberto disse:
- Nico, você agiu muito bem! Parabéns! Eu teria feito a mesma coisa. Então foi isso! Ele ficou assustado, com medo. É um menino muito mimado e isso o deixa muito fraco, incapaz de enfrentar a verdade com calma. Nós dois vamos fazer com que ele aprenda a olhar a vida com mais naturalidade. Ele é muito dramático. Pessoas assim exageram tudo e sofrem muito.
- Sofrer por isso é besteira. Quando as pessoas querem alguma coisa, mesmo sabendo que é errado, nós não podemos fazer nada. Elas não ouvem o que nós falamos. Minha mãe sempre me ensina isso.
- Sua mãe é muito sábia. Qualquer dia vou conversar um pouco com ela. Garanto que ela tem muito a me ensinar.
- Isso ela tem! Toda vez que ela fala e eu não escuto, dá errado.
Ela é sabida mesmo.
Amelinha entrou dizendo:
- Eurico disse que não vem. Ele não quer levantar. Mamãe foi lá saber o que ele está sentindo, mas ele não quer nem falar com ela.
- Eu vou conversar com ele. Vocês esperem aqui.
Alberto entrou no quarto de Eurico, onde Eulália e Hilda tentavam convencê-Io a se levantar. Ele, deitado, pálido, olhos fechados, não respondia ao que elas diziam.
- Deixem-me a sós com ele - pediu Alberto.
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Depois que elas saíram, ele fechou a porta, sentou-se ao lado da cama e disse com voz calma:
- Isso que você está fazendo não vai adiantar nada.
Eurico não respondeu, e o professor continuou:
- Sua tia Liana vai ficar muito triste e zangada com você se souber que descobriu o segredo dela.
Eurico abriu os olhos assustado, sentando-se na cama:
- Como você sabe? Foi Nico! Ele não tinha nada que contar. - Ele só contou porque eu pressionei. Eu estava querendo saber por que você teve essa recaída. Aliás, ficar doente não vai mudar os fatos. Pode até piorar. Você vai se sentir mal, ficar pior, sua mãe vai querer saber por quê, e no fim acabará descobrindo o motivo. E aí pode acontecer o pior. Ela se separar de seu pai, brigar com sua tia e você ficar com remorso e adoecer de verdade.
- Não quero que aconteça nada disso - lamentou-se Eurico, chorando. - Se não quer, Eurico, não deve intrometer-se nos assuntos das outras pessoas. - Nico disse isso.
- Ele está certo. Cada um é responsável pela própria vida. Você não pode mudar os sentimentos dos outros. O que pode é aprender a controlar os seus e cuidar só dos assuntos de sua vida.
- Eu queria que meu pai amasse minha mãe! Ela é tão boa! Faz tudo por ele e por nós. - Você está achando que seu pai não gosta de sua mãe. Como pode dizer isso? Você não sabe o que vai no coração dele. Depois, ele vai gostar do jeito dele e não do jeito que você gostaria que ele gostasse. Por isso, o que você tem a fazer é reconhecer que não pode intervir no relacionamento deles. Esse é um assunto só deles. Se você ama sua mãe, reconhece o quanto ela tem sido dedicada à família, o que você pode fazer é reconhecer isso, sendo amoroso com ela, mostrando o quanto é grato pela dedicação com que ela tem cuidado de você. Do jeito que está agindo, ao invés de amor você a está deixando preocupada, aflita. É isso que você quer?
- Não.
- Então levante-se, vista-se e vamos estudar. Hoje tenho assuntos muito interessantes para discutir.
- Amelinha não pode saber! Ela é muito linguaruda.
- Ela não sabe. O segredo ficará só entre nós, homens.
117 - Assim é melhor. Estou um pouco tonto. Você acha que meu pai ama mesmo tia Liana? Tenho medo de que ele brigue com o Dr. Mário.
- Sua tia Liana é uma moça muito atraente. Além disso, muito inteligente. Ele pode ter se sentido atraído, isso é até natural nos homens. Mas isso não quer dizer que ele pense em abandonar a família por causa de sua tia. Depois, ela agora é noiva, vai se casar. Sua mãe nunca vai saber dessa pequena fraqueza de seu pai. Esqueça isso. Pense em você, em sua saúde. Seu pai já voltou para São Paulo, não vai acontecer nada. Vamos. Você é um menino forte. Vai se levantar e estudar, cuidar de seu futuro. Aprender as coisas boas da vida.
Eurico concordou. Levantou-se, vestiu-se e quando o professor abriu a porta ele já estava pronto.
- Você vai tomar seu café enquanto nós esperamos. Tem de se alimentar bem para ficar cada dia mais forte.
Eulália suspirou aliviada enquanto Hilda corria a colocar o café com leite para de. Naquela manhã o professor levou as crianças ao jardim para falar dos ciclos da natureza, do acasalamento dos animais, de sua procriação, ilustrando a aula com os elementos que ia encontrando à sua volta e com as gravuras do livro que levara. As crianças se interessaram tanto que na hora do almoço já Eurico estava corado e bem-disposto, como sempre. Ao se despedir do professor, Eulália perguntou: - Como conseguiu fazer Eurico reagir? Gostaria de aprender seu método.
- Não fiz nada de mais. Apenas provei a ele que se entregar ao desânimo causa doença.
- Um menino dessa idade! Por que será que fica desanimado? - Coisas da cabeça dele! Agora que ele já está mais forte, melhor, seria bom que todos nós começássemos a torná-Io mais independente. - Como assim?
- O excesso de cuidados torna-o mais fraco e delicado. Ele precisa aprender a enfrentar a vida como ela é. A senhora sabe, um dia ele terá de viver em sociedade, trabalhar, vencer os próprios desafios. Se ficar muito protegido, nunca vai aprender.
- Liana às vezes me fala isso! Mas ele é tão frágil, tão delicado. Tenho medo de perdê-Io!
- Compreendo Dona Eulália. Mas ele está melhor. Aos poucos, conforme ele vai melhorando, podemos fazer com que ele confie mais nas próprias forças. Desde que nasceu ele tem ouvido dizer que é um doente.
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Está na hora de começarmos a dizer que ele é forte, que tem saúde. Isso vai ajudá-Io a se fortalecer.
- O senhor acha? Farei tudo para que ele seja saudável!
- Tenho certeza de que a senhora, como mãe, vai encontrar o melhor jeito de fazer isso! Dois dias depois foi que Alberto se encontrou com Liana. Percebeu logo que ela estava longe de ser a noiva feliz. Embora tentasse aparentar alegria, ele percebia um brilho triste em seu olhar. Vendo-a sozinha, tentou conversar.
- Você vai mesmo se casar com Mário?
Ela se sobressaltou ligeiramente e respondeu:
- Vou. Por que duvida?
- Porque você não o ama. Um casamento sem amor é uma cruz difícil de carregar. - Por que diz isso? - Porque já passei por essa experiência. Não foi nada bom. Nunca mais quero passar por isso de novo.
- Você é desanimador.
- Só quero que reflita. Você não precisa casar-se com ele se não o ama. Há outras formas de resolver os problemas que a preocupam.
- Por que acha que tenho problemas?
- Eu sei que vai se casar para fugir de uma situação desagradável. - Você parece que sabe mais do que eu. Onde conseguiu essa informação?
- De seus olhos. Não sabe que eu leio seus pensamentos? - Estarei dando a perceber tanto assim?
- Não. Você até que dissimula muito bem. Para os outros. Para mim, não. - Por que se interessa tanto pelo que penso? Sinto que você vive me observando. - Sou um estudioso do comportamento. O que me interessa são os sentimentos, as reações, como trabalhamos nossas emoções.
- Está me olhando como uma cobaia.
- Eu não diria isso. Eu a admiro. Você é uma mulher forte, inteligente, criativa. Eu gostaria muito que encontrasse o caminho da felicidade. Você tem tudo para isso. - Não penso assim. O que eu queria mesmo é ficar em paz, tocar minha vida. Ser independente para poder ir embora.
- Mas você já é independente e está tentando se escravizar. 119
- Eu quero é fugir, deixar este lugar, desaparecer.
- Sair de uma situação ruim para uma pior só vai agravar sua infelicidade. - Você diz isso porque não sabe. Ah, se você soubesse!
- Eu sei de tudo.
Ela se assustou:
- Sabe? O quê?
- Tudo. Sei quem é seu amor impossível.
- Como soube? Alguém contou? Quem mais sabe?
- Calma. Ninguém contou. Eu deduzi. Fique tranqüila, sei guardar segredo. Só quero que pense melhor e não faça uma bobagem por causa disso.
- Estou envergonhada!
- Isso acontece. Não tem do que se envergonhar.
Os olhos de Liana encheram-se de lágrimas. Sua dor, represada tanto tempo, transbordou e ela não conseguiu dominar o pranto. Ele a abraçou respeitoso. De repente ela tentou enxugar os olhos, dizendo:
- Meu Deus! Se alguém vir!
Ele tirou o lenço do bolso e deu-o a ela, dizendo:
- Não se preocupe. Estamos sozinhos no caramanchão. As crianças estão lá dentro e não sabem que cheguei.
- Desculpe, não consegui controlar-me.
- Desabafar faz bem. Alivia a alma.
- Sinto-me confortada com seu apoio. Eu o admiro muito. Gostei muito de seu livro. Fez-me pensar sobre a vida, mudou um pouco algumas de minhas idéias. - Quero ser seu amigo. Prometa que vai pensar melhor e não consumar um casamento sem amor.
- Que outra coisa posso fazer? Eulália é muito dedicada. Eu a amo muito. Tem sido como uma mãe para mim. Prefiro morrer a pensar que ela venha um dia a saber a verdade. Entendeu?
- Sim.
- Já pensei em ir embora para outra cidade, mas Eulália nunca concordaria. Iria desconfiar. Sempre acatei suas sugestões.
- Vamos pensar e procurar outra solução para você.
- Você tem horror a casamento!
- Tenho mesmo.
- Não pensa mais em casar-se?
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- Não. Estou muito bem. Para que iria me escravizar novamente? Liana olhou curiosa para ele. Alberto era um homem bonito, culto, jovem ainda e bastante atraente. Conseguiria escapar?
- Viver sozinha me atemoriza - disse ela. - Mário pode ser um bom companheiro. - Pode. É um homem culto, de bons princípios e a ama.
- Isso me basta.
- Não creio. Você não o ama, e sentir o amor é fundamental. Não é o amor do outro que nos alimenta, mas o nosso.
- O amor para mim só trouxe sofrimento. Não preciso dele. - O amor nunca provoca dor, mas prazer, alegria, bem-estar. O que aconteceu com você pode ter sido tudo, menos amor.
- Se eu não amasse, nada disso teria acontecido. Tenho sido assediada muitas vezes, por homens interessantes e atraentes. Sempre resisti. Por que teria cedido se não fosse por amor?
Alberto olhou-a hesitante por alguns instantes, depois decidiu:
- Você é uma mulher inteligente. Posso falar claramente? Não vai se ofender?
- Não. Fale.
- Eu não creio que esteja amando nem que se entregou por amor. Você é uma mulher ardente, cheia de vitalidade, pronta para amar de verdade. Ele, homem experiente, apaixonado, soube abordar você de tal forma que despertou seu desejo, sua fome de amor.
Liana ruborizou-se:
- Você acha que sou tão venal?
- Não. Acho que é uma mulher saudável, livre, cheia de vida, normal. A mulher tem tanto desejo quanto o homem. A educação, a sociedade, criaram barreiras de tal forma que vocês sentem vergonha de admitir isso. Mas a sedução, a tentação, acontecem com todas as pessoas, independentemente do sexo.
- Você acha que fiquei com ele sem amor?
- Isso é você quem pode avaliar. Mas, percebendo sua reação depois do fato, acredito que o que sentiu foi atração sexual mesmo.
Liana levantou-se corada. Alberto aproximou-se, segurou a mão dela e continuou: - Não se envergonhe. É melhor perceber a verdade do que estragar sua vida acreditando em um amor impossível, fechando a porta para a felicidade. Algum dia, alguém vai despertar seus sentimentos para um amor verdadeiro. Sentirá no corpo o ardor do desejo, nos lábios a vontade de beijar, nas mãos o desejo de acariciar.
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Mas estará presa a uma pessoa que não ama, terá de se controlar e perder a suprema ventura de expressar seus sentimentos.
Alberto falara com o rosto bem próximo ao seu, e ela podia sentir seu hálito. Estremeceu, olhou-o nos olhos e perguntou:
- Você alguma vez já amou assim?
- Não. Eu pensei que estivesse amando. Mais tarde compreendi que estava enganado. Por isso me separei. Um dia, eu sei que vai acontecer comigo. Não sei quando, mas, quando ocorrer, quero estar livre para viver plenamente minha vida. - Tem certeza de que será correspondido?
- Não. Se for correspondido, será a felicidade máxima. Entretanto, se não for, continuarei amando e expressando meu amor. Eu sei que só o amor incondicional pode alimentar nossa alma. Não quero entrar na angústia da paixão, da esperança, da dúvida. Eu quero sentir essa energia maravilhosa que tudo transforma e dá alegria de viver, entusiasmo, prazer.
Os olhos de Alberto brilhavam e Liana sentiu seu coração bater mais forte:
- O que diz é um sonho impossível. Esse amor não existe. Você mesmo falou que todos nos deixamos levar pelo desejo, pelo sexo.
- A incapacidade de amar das pessoas não impede que o amor exista. Tenho visto coisas horríveis em nome do amor. E por causa delas as pessoas sofrem. Repito: o amor verdadeiro não é dor; é prazer, bem-estar. O resto são ilusões, sonhos que a vida vai destruir. Você está enganada. O amor incondicional é a única verdade da vida e a chave da felicidade. - Você acredita mesmo nisso?
- Sim. Por isso, conservo minha liberdade. Pense nisso, Liana, não feche seu coração ao amor. Não se contente com menos. Você merece ser feliz. - Vou pensar - disse ela retirando a mão e saindo do caramanchão. Alberto ficou pensativo, parado, vendo seu vulto caminhar lentamente rumo à casa. Que mulher!, pensou. Vendo-a tão perto, ouvindo sua respiração, sentira vontade de abraçá-Ia e beijar seus lábios carnudos. Controlou-se a custo. Não podia deixar-se levar pela atração que ela exercia sobre ele. Não queria complicações em sua vida. Gostava das crianças. O dinheiro que ganhava dando aulas, somado ao que recebia pelos artigos que mandava para um jornal, permitia que ele continuasse usufruindo da vida calma daquela cidade e que pudesse dedicar-se a escrever seus livros.
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Não queria pôr tudo a perder, criando uma situação constrangedora. Preferia continuar como amigo, ajudando Liana a compreender seus problemas e procurar melhor solução. Ele se sentia nervoso só em pensar que ela poderia mesmo casar-se com Mário. Liana era mulher ardente, precisava de um homem à altura. O engenheiro não lhe parecia adequado. Faria o possível para desfazer esse noivado.
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Capítulo 9
A chuva caía fina e Liana, desanimada, olhava pela janela da sala, sem ver a beleza das flores do jardim nem o verde viçoso das folhagens. Fazia seis meses que ela ficara noiva, e Mário insistia em marcar a data do casamento.
Ele comparecia religiosamente todos os fins de semana para vê-Ia, sempre lhe trazendo uma lembrança delicada: um perfume, algumas flores, um adereço. Cada dia que passava ele ficava mais impetuoso e estava sendo difícil controlar seus arroubos apaixonados. Liana não queria ficar a sós com ele, a fim de evitar que a beijasse. Alberto observava suas atitudes e não perdia ocasião para sugerir que acabasse com o namoro. A princípio ela se esforçara para gostar do noivo, mas seu beijo era-lhe desagradável e sua proximidade incomodava-a. Sentia vontade de empurrá-Io, mandá-Io embora, e algumas vezes chegara a irritar-se, pretextando indisposição a fim de que ele não se aproximasse. Nas últimas semanas a situação ficara pior. Liana, que passava bem durante a semana, quando ia chegando o sábado, dia de Mário visitá-Ia, sentia-se mal, com falta de ar, dores no estômago.
Eulália estava assustada.
- Precisamos ver o que você tem. Esse mal-estar não é natural. Está emagrecendo, tem a fisionomia cansada, perdeu o apetite.
Apesar dos protestos de Liana, chamou o médico, que receitou alguns calmantes e fortificantes, não tendo encontrado nenhuma doença. Eulália não se conformava e ficava inventando pratos apetitosos para ver se ela se alimentava melhor, cuidando que não esquecesse o fortificante.
O carinho e a dedicação da irmã faziam-na sentir-se mais culpada pelo deslize que cometera e davam-lhe forças para continuar a manter o noivado como a única forma de deixar aquela casa sem que ela desconfiasse. .
"Se ao menos ele não viesse hoje por causa da chuva...", pensou ela. - Um doce por seu pensamento!
Ela se voltou e sorriu:
- Alberto! Não vi seu carro no pátio. Pensei que não tivesse vindo hoje. - Eu precisava. As crianças vão prestar um exame na segunda-feira. Precisam estar afiadas. 124
- Eles vão muito bem.
- São muito inteligentes. Trabalhar com eles é um prazer. Tenho aprendido também. Liana sorriu.
- Gosto de ver o interesse deles, estão sempre querendo descobrir como as coisas funcionam, fazendo experiências. Quando estão brincando, conversam sobre ciências, história, geografia, até física. Contam tantas histórias que eu me delicio ouvindo-os. - As crianças são naturalmente interessadas em aprender, em cooperar. Quando você sabe motivá-las, o conhecimento torna-se um prazer, uma necessidade. Acredito que irão passar. Mesmo assim, voltarei amanhã cedo para repassar algumas coisas.
- Eulália está muito contente com a melhora de Eurico. Está mais corado, engordou e já não se queixa como antigamente.
- Em compensação ela anda preocupada com você, que está cada dia mais abatida. Quando é que vai criar coragem e resolver de vez esse noivado infeliz?
Liana passou a mão pela testa, como querendo afastar os pensamentos desagradáveis.
- Ao contrário. Acho que vou marcar a data do casamento. Mário quer casar dentro de dois meses.
- Se está disposta a se suicidar, faça isso.
- Não tenho outro caminho.
Liana olhou preocupada para o corredor que levava à cozinha. Temia que alguém ouvisse. - Não se preocupe. Dona Eulália está lá em cima com os meninos. Quando acabei a aula, ela os levou para cima dizendo que ia fiscalizar o banho deles e a arrumação dos quartos. Se você não se libertar dessa opressão, vai adoecer de verdade. - O médico disse que não tenho nada. Só estou um pouco anêmica e sem apetite. É que meu estômago parece que está sempre cheio, como se eu tivesse acabado de comer. Por isso não tenho me alimentado direito.
- Seu problema é só emocional. O estômago é o órgão da aceitação. Quando você se obriga a alguma coisa da qual não gosta, ele registra. Todo problema de estômago vem da contrariedade, da não-aceitação.
- É difícil acreditar que um órgão do corpo reaja às emoções. - Por quê? Nós somos espíritos, mas somos o corpo também. No momento, estamos integrados. O corpo possui a sabedoria da natureza, e a natureza é a essência divina.
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Sempre que estamos fazendo alguma coisa contrária à nossa natureza, ele tenta nos chamar a atenção.
- Não estou entendendo.
- Seu estômago está avisando que esse noivado é contra sua natureza. Você não gosta de Mário. Está forçando uma situação que sua alma não aceita. - De onde tirou essa teoria?
- Da vida. Observando. Faça uma experiência: acabe o noivado, e seu estômago não lhe dará mais problemas.
- Custo a crer. Você é contra meu noivado. Não está dizendo isso só para me convencer? - Estou dizendo isso porque gosto de você e desejo vê-la bem. Se insistir, vai acabar com uma úlcera ou coisa pior.
- Por que o estômago?
- Cada parte do corpo tem uma função definida no equilíbrio da saúde. O estômago é a aceitação dos alimentos; os intestinos, a seleção; os braços, o dar e receber; as pernas, o apoio. Seu estado emocional reflete-se diretamente no local correspondente do corpo que começa a se ressentir.
- Em seu livro você fala que o mundo é energia e que nós somos seres energéticos. Que temos corpo físico e corpo astral. Que captamos e exalamos energias. É por isso? - De certa forma é. A energia vital é só potência. Somos nós que, conforme nossas atitudes, a formatamos desta ou daquela forma. Elas refletem nossas crenças, permanecem fazendo parte de nosso corpo astral, influenciando nossa vida, automatizando nossos atos, criando situações que se repetem enquanto não modificarmos as atitudes que lhes deram origem. - Por isso você diz que se eu não acabar o noivado não vou sarar? - É. - Você quer dizer que a vida é inteligente?
- Claro. A vida é Deus em ação.
- Isso acontece com todas as pessoas?
- Só com as que já têm conhecimento para agir melhor e não o fazem. Em meus estudos tenho observado que a natureza age de forma relativa ao grau de desenvolvimento de cada um. Um espírito mais primitivo não somatiza as emoções com a mesma rapidez e facilidade do que outro que é mais evoluído.
- Isso não seria ser parcial, protegendo uns mais que outros? - Ao contrário. Ela age como os pais com os filhos. Só protege enquanto são incapazes de agir por si.
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Depois, deixa que cada um assuma a responsabilidade pela própria vida. - A vida é cruel.
- Não é verdade. Ela sempre faz o melhor. Se estamos neste mundo para amadurecer, aprender a viver melhor, temos de usar nossos re cursos, buscar o jeito
certo de formatar as energias vitais, desenvolver nosso mundo interior, criar o lugar e a maneira como desejamos viver. Esse é um direito nosso. Todos somos livres e vivemos no mundo que criamos. Se ele não está bom, temos o recurso de mudá-Io, revendo nossas atitudes, observando os fatos da vida, experimentando até conseguirmos um resultado melhor. A felicidade é conquistada assim.
- O que fazer com as emoções que não podemos controlar? - Não se faça de fraca. O que invalida sua força é a maneira como você interpreta os fatos. Está iludida pela vontade de amar, pelo sonho impossível. Tenho observado e sei que não ama Norberto. O que a está empurrando para esse casamento é a culpa, a necessidade de se punir pelo ato impensado que cometeu.
- Isso não. Reconheço minha culpa, mas quero evitar uma recaída com ele e um atrito com Eulália. Se ela souber o que aconteceu, como terei coragem de encará-Ia? - E por isso se atormenta, quer inutilizar sua vida, cometer um ato que vai infelicitar não só você mas Mário também. Pense, não é justo com ele.
- É, eu sei. Às vezes me sinto duplamente culpada.
- Pretende levar sua vida carregando esse peso? Não percebe que está se destruindo? - Agora é tarde. A decisão está tomada. Vou marcar a data e resolver logo. - Lamento que pense assim. Garanto que vai arrepender-se. - Farei qualquer coisa para deixar esta casa sem que Eulália desconfie de nada. - Nós poderíamos arranjar outro jeito.
- Como?
Alberto animou-se. Uma idéia louca passara-lhe pela cabeça. - Você disse que faria qualquer coisa. Nesse caso tenho uma solução melhor. Você acaba esse noivado e vai morar comigo, em minha casa. Liana olhou-o assustada e seu rosto enrubesceu:
- Não estou entendendo.
- Você pode dizer a Eulália e a Norberto que estamos apaixona dos e vai para minha casa. 127
Será apenas para que você possa se livrar do noivo indesejado e dos problemas de família. - Está brincando comigo?
- Absolutamente. Estou falando sério.
- Você não é casado?
- Sou separado.
- Isso iria criar muitos problemas com Eulália. Ela é conservadora. Brigaria comigo. Além do mais, você não tem nada com meus problemas. Iria invadir sua privacidade, atrapalhar sua vida amorosa. Moramos em uma cidade pequena, já pensou o escândalo? - Pensei que fosse mais corajosa e não tivesse preconceitos. Sua liberdade não vale esse pequeno sacrifício?
- Se isso acontecesse, você não poderia mais morar aqui. Eulália não o deixaria mais dar aulas para as crianças. Seria o caos. Tenho de resolver meus problemas do meu jeito. Não posso envolvê-Io nisso.
Alberto aproximou-se dela olhando-a nos olhos:
- Gosto muito de você, Liana. Não desejo vê-Ia infeliz.
- Obrigada pelo apoio. Na verdade, você é meu único amigo. Nem imagina o bem que me tem feito.
Um carro passou lá fora e Liana olhou imediatamente. Apesar da chuva, Mário havia chegado. Seu rosto empalideceu, mas ela procurou sorrir tentando dissimular. Alberto olhou-a penalizado, mas não disse nada.
Naquela mesma tarde eles marcaram o casamento para dali a três meses. Mário estava radiante. Havia comprado uma bela casa em São Paulo e queria que Liana a decorasse a seu gosto. Eulália estava feliz, mas AIberto percebeu a angústia de Norberto, que inquieto a custo se esforçava para esconder o desgosto.
Ele mesmo sentiu-se triste. Havia falado sério quando a convidara para morar em sua casa. Quando pensava nesse casamento, sentia-se angustiado, misturando sua experiência pessoal com os problemas que imaginava que Liana iria ter. Se fosse solteiro, não teria hesitado em casar-se com ela para libertá-Ia desse odioso compromisso. Gostava de conversar com ela, sua presença era um prazer, admirava sua inteligência, sua beleza. Poderia usufruir de sua companhia sem compromissos nem cobranças. Ele não pensava mais em amar. Uma vez fora o bastante.
De todos, só Eulália estava feliz. Casar bem a irmã sempre fora sua preocupação. Gostava de Mário e acreditava sinceramente que eles seriam felizes. Não duvidava que Liana o estivesse amando. Ela sempre lhe disse que só se casaria por amor. 128
Mas sentia que alguma coisa não estava bem com ela, que lhe parecia um tanto apática quando se tratava dos assuntos do casamento.
Eulália estava entusiasmada, queria que o casamento se realizasse em São Paulo, com uma grande festa. Três meses era pouco para terminar o enxoval, providenciar os convites, ultimar os arranjos e a cerimônia. Depois, Mário queria que Liana fosse a São Paulo ver a casa e determinar a decoração a seu gosto. - Você vai para São Paulo com Norberto na próxima semana. Vai ver a casa, o enxoval, tudo - disse Eulália.
- Não quero ir a São Paulo agora. Mário tem muito bom gosto. O que ele fizer está bem-feito.
- E o casamento?
- Quero me casar aqui mesmo. Com simplicidade, sem pompa nem nada. - Isso não pode ser. Mário é um engenheiro de família importante. Tem muitos amigos. Aqui não há um bom hotel, e em nossa casa não teríamos acomodações para todos. Depois, há o vestido de noiva. Em São Paulo você vai comprar tudo do melhor. - Para que tudo isso? Chamamos o juiz de paz aqui em casa e pronto. Casamo-nos e tudo estará terminado. Para que tanta confusão?
Eulália abriu a boca, admirada. Liana sempre fora moderna, gostava do luxo, de vestir-se na moda, de estar em evidência. Ela não lhe parecia bem. Havia emagrecido, estava pálida, sem apetite. O que estaria acontecendo?
- O que há com você? Está doente?
- Não. Estou bem.
Eulália colocou a mão na testa dela.
- Febre você não tem. Mas tem emagrecido, não come, está pálida. Está assim desde que teve aquela alucinação.
- Aquilo me fez mal.
- Precisa ficar bem para o casamento. Talvez seja melhor ir para São Paulo e consultar o Dr. Caldas.
- Não estou doente. Estou só um pouco cansada.
- Vou falar com Norberto para marcar uma consulta com o Dr. Caldas. Quero que esteja muito bem no dia de seu casamento. Será o dia mais feliz de sua vida! Vai se casar com o homem que ama!
- Não quero que faça isso! Não irei a São Paulo antes do casamento. Está decidido e pronto. Eulália olhou-a assustada. Liana sempre fora cordata, aceitava suas determinações. 129
Decididamente, ela não estava bem. Naquela noite mesmo, telefonou para Norberto, desabafando:
- Estou preocupada com Liana.
- Por quê?
- Emagreceu, está pálida, sem apetite. Gostaria que fosse consultar o Dr. Caldas na próxima semana. Ela não quer, mas marque a consulta para a semana que vem. Quero que ela volte com você neste fim de semana e vá ao médico.
- Está bem. Farei o que me pede.
- Peça a Mário que nos ajude a convencê-Ia.
- Não o tenho visto. Estou trabalhando muito e não me sobra tempo. - Telefone para ele e peça que nos ajude. Ela está tão indisposta que nem quer festa de casamento. Isso não é natural.
- Se ela não está bem, deveríamos mudar a data, esperar que ela se sinta melhor. Casar sem estar com saúde não é bom.
- Ela quer se casar o quanto antes. Parece que tem pressa. Não sei se vai querer mudar a data. Mas, se o médico achar que ela precisa de um tratamento, faremos isso. - Está certo. Falarei com Caldas.
Eulália desligou, mas não disse nada a Liana. Achou melhor esperar uma ocasião favorável. No dia seguinte, Eulália procurou conversar com Alberto. Durante aqueles meses aprendera a admirar o professor não só pelos resultados obtidos com as crianças mas também por sua postura delicada, discreta, educada. Sabia que Liana o apreciava e o tinha em alta conta. Estavam sempre conversando e ela algumas vezes até tomara parte nas conversas, aprendendo como educar os filhos ou lidar com os problemas do dia-a-dia. Quando ele acabou a aula e as crianças foram brincar no jardim, Eulália levou-lhe uma xícara de café. - Gostaria de conversar um pouco com você.
- Estou à disposição. Sente-se, por favor.
Ela se acomodou e começou:
- Estou preocupada com Liana. Está doente e recusa-se a ir ao médico. Queria pedir-lhe que me ajude a convencê-Ia.
- É um assunto muito pessoal.
- Eu sei. Aliás, ela sempre me ouviu, mas agora está diferente. Não quer festa no casamento nem vestido de noiva. Está abatida, indisposta. Como é que pode se casar desse jeito? Precisa tratar-se.
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Já telefonei a Norberto para marcar uma consulta com nosso médico para a semana que vem. Só que temos de convencê-Ia a ir. Pela primeira vez ela não quer obedecer-me. - Talvez seja o casamento que a esteja preocupando.
- Isso seria natural. Toda noiva fica nervosa à medida que a data do casamento se aproxima. Com ela acontece o oposto. Ela anda apática, diferente.