Quando Chega a Hora

Zibia Gasparetto · Capítulo 3 de 4 · parte 1/4

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Quando Chega a Hora

Liana havia vestido a roupa com a…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Liana havia vestido a roupa com a qual saíra da casa da irmã na noite anterior, o que fez Alberto observar.

- Quando as coisas se esclarecerem, iremos apanhar suas roupas e pertences na mansão. Se precisar, poderemos comprar alguma coisa enquanto isso. - Vamos esperar. Estou ansiosa para pedir a Eulália que me perdoe e não fique magoada comigo.

Alberto concordou e levou-a ao escritório, fazendo-a sentar-se em uma poltrona. Em seguida apanhou algumas folhas de papel entregou-as a Liana, dizendo: - Leia e diga o que pensa.

Enquanto ela mergulhava na leitura, ele se sentou em frente à maquina de escrever, colocou papel e começou a escrever.

Marcílio chegou à mansão, pediu para falar com Eulália e foi logo recebido por ela. - Ainda bem que apareceu, Dr. Marcílio. Estou desesperada. Liana desapareceu. Não consigo encontrá-la. Ela não estava bem ultimamente. Ai, meu Deus! Aonde terá ido? Ela está fraca e não agüenta andar muito. Já procurei por toda parte. Em casa ela não está e ninguém a viu sair! - Acalme-se, Dona Eulália. Liana está muito bem. Estou aqui justamente para conversar sobre isso.

- O senhor? Por quê? Ela piorou?

- Ao contrário. Ela está muito bem e em boas mãos.

- Não compreendo.

- Posso explicar. Ela saiu de casa durante a noite para se casar. - O quê? Casar?! Tem certeza do que está afirmando?

- Tenho. Fui padrinho de seu casamento ontem à noite. Ela está muito bem casada e feliz. Eulália olhou para ele sem entender. Ouviu mas não quis acreditar. - Não pode ser. Ela rompeu o noivado com o Dr. Mário e não tinha nenhum namorado. Como pode ter se casado?

- Casou-se com o professor Alberto.

- Com o professor? Não acredito! Assim, de repente, fugindo de casa no meio da noite como uma adolescente? Não pode ser verdade. Liana foi sempre muito cordata e obediente. Nunca me faria uma desfeita dessas! Logo com o professor! 200 - O coração tem suas razões, Dona Eulália. Nunca lhe ocorreu que Liana estava sofrendo por amor?

- Como assim?

- Estava noiva de Mário, mas amava Alberto. Esse conflito a estava infelicitando muito. - O que me diz? Por isso andava tão triste... Por que ela não me contou? - Ela achava que você preferia o Dr. Mário e não aprovaria a troca. - Nunca a obriguei a fazer nada que não quisesse. Fica parecendo que eu fui muito autoritária com ela. Isso não é verdade!

- Nós sabemos. Liana tem por você muito amor e respeito, e só fala bem. Não foi por sua causa que ela resolveu casar-se de repente.

- Não?

- Não. Ela teve medo da reação de Mário. Ele ficou muito abalado com a desistência dela, suspeitou a verdade, ficou com raiva de AIberto. Acho até que ele o ameaçou. Para evitar uma briga entre eles, resolveu casar-se de surpresa. Com o casamento consumado, Mário terá de se conformar.

- Ela poderia ter feito isso com ele, mas comigo não. Estou desapontada e muito magoada com essa atitude.

- Ela nunca pretendeu magoá-Ia. Está apaixonada, quer ser feliz. Depois, disse que não queria um casamento pomposo, cheio de rituais.

Sempre preferiu uma cerimônia simples.

Eulália cobriu o rosto com as mãos e respirou fundo.

- Isso me parece um pesadelo. Vou acordar de repente e encontrar Liana em seu quarto, como sempre.

- Ela está muito feliz. Finalmente conseguiu o que desejava. Sua única preocupação é com você. Queria vir vê-Ia o quanto antes, mas não permiti. Afinal, foi sua primeira noite de núpcias. Não achei justo. Pedi a ela que me desse permissão para vir dar-lhe a notícia. - Eles me enganaram direitinho. O que dirá Norberto quando souber? Vai ser uma vergonha.

- Eles estão casados, Dona Eulália. Não há nenhuma vergonha. Eu e Adélia fomos testemunhas, assinamos todos os documentos, e o juiz Otaviano oficializou a cerimônia. Eulália não conteve as lágrimas:

- Um juiz! Junto com estranhos! Como ela pôde fazer isso comigo, sua irmã? - Ela virá aqui mais tarde para lhe explicar.

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- Não é preciso. Se ela foi capaz de cuidar de tudo e se casar às escondidas, pode continuar sem mim pelo resto da vida. De hoje em diante não quero vê-Ia nunca mais! E esse professor traidor nunca mais porá os pés nesta casa!

- Não leve as coisas dessa forma! Liana cuidou da própria felicidade. Ela tinha esse direito. Não deseja que ela fique curada?

- A saúde de Liana não tem nada a ver com esse casamento equivocado. - Verá que tenho razão. Com a realização desse casamento, ela já melhorou de aparência. Não fique contra ela! Saiba compreender...

- Não vou aceitar isso nunca. Esse traidor que foi recebido em minha casa como um amigo me apunhalou pelas costas. - Alberto é um homem correto. Seu filho melhorou muito com a convivência dele. Seja mais cordata. Saiba compreender a situação dela. Deixe-a vir explicar tudo e procure entender.

- Não. Diga-lhe que fique onde está. De hoje em diante, esqueça que é minha irmã. Eles que não apareçam aqui. Não vou recebê-Ios.

- Ela precisa vir apanhar seus pertences. Quer conversar com você. - Ela que fique por lá. Hoje mesmo vou arrumar todas as suas coisas e as mandarei entregar na casa do professor.

- Está cometendo uma injustiça, Dona Eulália. Com certeza vai se arrepender. - Assumo a responsabilidade por meus atos. Não quero vê-Ia mais. Marcílio ainda tentou convencê-Ia a mudar de idéia, mas Eulália estava irredutível. Depois que ele saiu, reuniu os criados e disse com voz irritada:

- Liana fugiu esta noite para se casar com o professor sem meu consentimento. De hoje em diante, tanto ela como ele estão proibidos de entrar nesta casa. Você, Hilda, arrume o que é dela e mande Nequinho levar tudo à casa de Alberto.

- As crianças vão achar falta deles! - comentou Maria.

- Eu mesma falarei com eles. Vocês estão proibidos de falar o nome deles aqui. Para mim os dois morreram.

Quando ela saiu da sala, antes que Maria comentasse alguma coisa com a copeira, Hilda foi logo dizendo:

- Vamos subir e arrumar tudo conforme Dona Eulália mandou. Não quero nenhum comentário com ninguém. Nós não temos nada com isso. Enquanto elas subiam para o quarto de Liana, Eulália ligou para Norberto. Apesar da força que fazia para suportar a situação, sentia-se agoniada, traída. 202

Tantos anos de dedicação, e Liana abandonara-a sem consideração. - Norberto, aconteceu uma coisa horrível! Gostaria que você viesse imediatamente. Estou desnorteada!

- O que foi? Eurico piorou?

- Não é nada disso. Liana fugiu de casa ontem à noite para se casar. Norberto guardou silêncio por alguns instantes. Ela repetiu:

- Liana fugiu de casa e se casou.

- Não pode ser! Casou-se como? Com quem? Mário não saiu de São Paulo. - Ela se casou com o professor. Os dois planejaram tudo com a cumplicidade daquele médico metido que teve a desfaçatez que vir hoje dar-me a notícia. Arranjaram um juiz, fizeram tudo às escondidas. Não posso me conformar. Tenho vontade de cometer uma loucura! Onde já se viu tanta ingratidão?

- Tem certeza do que está dizendo? Você falou com ela, viu os documentos? Será que não estamos sendo vítimas de alguma mentira?

- Por que fariam isso? Ela o mandou na frente para não ter de me enfrentar. Está lá, na casa de Alberto, casada desde ontem à noite.

- Você precisa conversar com ela, saber se é verdade mesmo. Ninguém se casa assim, de repente. Essa história está mal contada. Vá até lá verificar a verdade. - Eu não. Proibi-os de entrarem aqui. Para mim, ela está morta. Não desejo vê-ia nunca mais. Se ela foi capaz de fazer tudo isso sozinha, não precisa de nós para nada. - Você está errada, Eulália. Liana não estava bem de saúde. E se eles a coagiram? Esse médico, você não gosta dele. Não terá dado a ela alguma bebida e induzido ao casamento? - Ele disse que eles se casaram por amor. Ela era noiva de Mário e gostava do professor. - Você acreditou em tudo que ele disse! Eu duvido. Temos o dever de verificar se tudo isso é verdade. Você não pode abandonar Liana confiando no que lhe contaram. Tem de falar com ela.

- Não me sinto com coragem. Por que não vem para cá me ajudar? - Está bem. Vou ultimar alguns negócios e hoje mesmo estarei aí. - Estarei esperando ansiosa. Só você pode me ajudar nesta hora.

- Acalme-se, Eulália. As coisas podem ser diferentes do que lhe contaram. - Não creio. Ele parecia tão convicto!

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- As aparências enganam. Tenha calma, que logo estarei aí. Eulália desligou o telefone no momento em que as crianças entravam na sala.

- O professor não veio para a aula hoje. Por que será? Ele nunca falta... - tornou Eurico, procurando esconder a curiosidade.

- O professor não virá mais para aula nenhuma - respondeu Eulália com voz ríspida. - Foi despedido.

- Despedido? - exclamou Amelinha. - Por quê?

- Porque não serve mais para dar aulas aqui. Seu pai vai chegar hoje à noite e vamos arranjar outro professor para vocês. Esse não volta mais. - Eu não quero outro, quero o professor Alberto! - reclamou Eurico com voz chorosa. - Vão brincar agora. Aproveitem a folga. Depois falaremos sobre isso. - Onde está tia Liana? - perguntou Amelinha.

- Ela viajou. Agora vão brincar e me deixem em paz. Tenho coisas importantes a fazer e não posso ficar jogando conversa fora.

Os três saíram e foram para o jardim, sentando-se no caramanchão. - Mamãe já sabe e não quer nos contar - disse Amelinha.

- Claro que sabe. O Dr. Marcílio ficou falando com ela um tempão. - Ela está com uma cara! Acho que não perdoou os dois. Ouvi quando ela conversou com o pessoal na cozinha e proibiu o professor e a Liana de vir aqui - esclareceu Nico. - Ela não pode fazer isso. Eles estão casados - disse Amelinha. - Se ela não deixar o professor vir para as aulas, vai ver comigo! - ameaçou Eurico com raiva. - Não seja vingativo. Minha mãe diz que a vingança só piora as coisas, porque o diabo escuta, fica do seu lado e sua vida só vai para trás - asseverou Nico. - Vire sua boca para lá! Não quero nada com o diabo. Cruz credo! Você nem sabe do que está falando. Nunca vê nada! - disse Eurico.

- Não vejo e não tenho medo de nada. Nem do diabo. Estou com Deus e pronto. Ele me protege de tudo.

- Nico não tem medo de nada. Não é como você...

- Cale essa boca, Amelinha. Onde já se viu? Quando a alma do coronel aparecer, vou falar para ele vir puxar sua perna de noite.

- Eu não quero que o coronel venha! Tenho medo! - choramingou ela. - Não faça isso com ela, Eurico. Minha mãe diz que quando você está amolando os outros, fazendo malcriações, está deixando o bem de lado.

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E, quando você deixa o bem de lado, em sua vida só acontecem coisas ruins. - Então ela que me deixe em paz. Não fique me criticando. - Ela não vai mais fazer isso - respondeu Nico. - Temos que dar um tempo, ter calma, esperar que as coisas se acalmem. Sua mãe está muito chocada. Ela vai pensar melhor e mudar de idéia, vocês vão ver. - Espero que isso aconteça, senão vou fazer tudo de que ela não gosta - ameaçou Eurico.

- Vamos esperar - contemporizou Nico.

- Será que vão se lembrar do bolo? - disse Amelinha.

- Estou pensando em sair hoje e ir até a casa do professor saber como estão as coisas - tornou Nico.

- Ah, se eu pudesse ir com você... - respondeu Eurico.

- Sua mãe iria desconfiar. Vou sozinho e depois conto tudo. - Quero saber todos os detalhes - exigiu Amelinha.

- Pode deixar comigo. Não me esquecerei de nada.

- Puxa, não vejo a hora que você volte! - exclamou ela.

- Não sei por que minha mãe não me deixa sair com você pela cidade - disse Eurico. - Você já pediu para ir na minha casa comigo mas ela não deixou. Ela tem medo que você se sinta mal.

- Estou muito melhor. Quero ir com você.

- Vamos ver, Eurico. Agora com tudo isso acontecendo não é uma hora boa para tentar nada. Eu prometo que falo com ela quando tudo ficar mais calmo. Hilda apareceu no caramanchão chamando-os para almoçar. Eles obedeceram imediatamente. Queriam que o tempo passasse logo, para que Nico pudesse sair e saber as novidades.

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Capítulo 15

No fim da tarde, assim que conseguiu sair, Nico foi até a casa do professor. Gislene abriu a porta, convidando-o a entrar.

Alberto e Liana estavam conversando no escritório. Nico entrou e foi logo dizendo: - Vim saber como estão as coisas.

- Não muito bem - respondeu Liana, triste.

- Eu sei. A Dona Eulália ficou muito sentida. Mas isso passa, tenho certeza - tornou Nico.

- Essa é minha opinião. Ela está chocada, mas vai passar. Logo tudo ficará bem - disse Alberto.

- Conheço Eulália. Quando diz uma coisa, não volta atrás. - Ela chamou o Dr. Norberto. Ele vai chegar ainda hoje.

Liana olhou para Alberto preocupada:

- Como será que ele vai reagir?

- Acredito que com mais bom senso que ela. Afinal, já estamos casados, e eles terão de se conformar.

- Como foi o casamento? Os dois lá em casa estão doidinhos para saber todos os detalhes. Querem que eu pergunte tudo.

- Foi uma cerimônia muito bonita. O Dr. Marcílio tirou algumas fotos e vai mandá-las a vocês quando estiverem prontas - contou Liana.

- Oba! Eles vão ficar contentes, mas não vão agüentar esperar pelas fotos para saber tudo. Como é que foi?

Alberto procurou descrever a mesa, os convidados, o bolo, até o vestido da noiva.

- Nós guardamos um pedaço do bolo para vocês - lembrou Liana.

- Vou ter que esconder. Se a Dona Eulália souber, vai brigar comigo - disse Nico.

- Ela não precisa saber. Eu levo você de volta e daremos um jeito - propôs Alberto.

- Ela disse que teremos outro professor. O Eurico está muito revoltado. Garantiu que de hoje em diante vai fazer tudo que ela não gosta.

- Ele não deve fazer isso - disse Liana.

- Foi o que eu disse para ele. Mas sabe como é: toda vez que não fazem o que ele quer, pronto: ele pinta o sete.

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- Você, Nico, que é mais ajuizado, converse com ele, diga-lhe que tenha paciência. Vocês não podem parar de estudar logo agora que estão próximos dos exames - aconselhou Liana, preocupada.

- Isso mesmo, Nico. Vocês precisam ter paciência, saber esperar. Logo tudo ficará bem.

Eles conversaram mais alguns minutos, depois Alberto pegou a caixa em que estava acondicionado um grande pedaço do bolo, dizendo:

- Vou levar Nico até a mansão. Volto logo.

- Cuidado para que ninguém os veja juntos. Se Eulália souber que Nico esteve aqui, pode mandá-Io embora também. Sabe como ela é... - Não se preocupe, ninguém nos verá - garantiu Alberto. Liana levantou-se dizendo:

- Espere um pouco.

Foi até o quarto, apanhou uma pequena caixa e entregou-a a Nico: - Leve para Amelinha. É o enfeite que havia sobre o bolo. Quero que ela guarde como recordação. Que ela não deixe Eulália saber. Diga que estou morrendo de saudade dos dois. - Direi, sim, Liana.

Quando eles saíram, Liana deixou-se cair pensativa em uma cadeira. Sentia-se triste. Por que se envolvera com o cunhado? Não fora isso, ela ainda estaria em casa com a família. Sentia-se triste e infeliz. Mas preferia isso a que um dia Eulália pudesse descobrir toda a verdade.

E Norberto, como teria recebido a notícia de seu casamento? Teria entendido que ela o fizera para evitar novas tentações e para preservar o bem-estar da irmã e dos sobrinhos? Ou teria acreditado que ela estivesse apaixonada pelo professor? Era difícil dizer. Contudo, ela preferia que ele imaginasse que ela o houvesse esquecido. Dessa forma, nunca mais falaria do passado, e assim seria muito mais fácil esquecer.

Já havia escurecido quando Alberto parou o carro no portão dos fundos da mansão. Nico desceu, e Alberto perguntou:

- Como vai fazer com o bolo? - Pode me dar a caixa. Tenho um esconderijo aqui, do lado de fora. Eu e o Eurico o fizemos para guardar nosso tesouro. Deixo lá e depois, quando ninguém perceber, pego do lado de dentro.

- Está bem. Sempre que for ver sua mãe, passe em casa para nos contar as novidades. - Vou ficar atento. Amanhã mesmo eu volto.

- Não. Eulália pode desconfiar. Você tem de fazer tudo como sempre. 207

Precisamos ter cuidado. Se ela descobrir, você não poderá mais nos visitar. - Deixe comigo. Farei tudo direitinho. Só achei a Liana meio triste. Tem certeza que ela vai ficar feliz?

- Tenho, Nico. Ela está triste por causa da família. Mas, se Deus quiser, logo tudo estará em paz.

- Vou rezar para vocês serem muito felizes.

- Obrigado, Nico. Você é um bom amigo.

Depois de um abraço, Nico, segurando as caixas com cuidado, dirigiu-se a um ponto do muro, e, afastada uma planta com cuidado, apareceu uma abertura onde ele as colocou. Depois, acenando para Alberto, deu a volta e entrou no portão principal. Eles já haviam jantado. Sempre que ele ia visitar a mãe, jantava com ela, e por isso não guardaram nada para ele. Mas Nico não se importou. Estava com fome, mas pensava no bolo e sua boca enchia-se de água.

Logo que se viu a sós no quarto de Eurico, este o cravou de perguntas, mas ele respondeu: - Vamos esperar a Amelinha, senão vou ter que repetir tudinho. - Vai demorar! Papai chegou e eles ainda estão conversando no quarto. A luz está acesa, dá para ver por debaixo da porta.

- Você ouviu alguma coisa do que eles disseram? Prometi contar tudo que acontecer aqui para a Liana e para o professor.

- Só sei que mamãe estava muito nervosa. Tentei ficar na sala, fingindo que estava brincando, mas ela me mandou embora.

- Você não ouviu nada?

- Ouvi-a reclamando de ingratidão, dizendo que não queria mais ver tia Liana. - E seu pai?

- Ele dizia que não podia ser assim. Que ela precisava ir conversar com ela, saber a verdade, porque ela nunca dissera que gostava do professor. Sabe de uma coisa? - Não.

- Ele desconfia que tia Liana se casou enganada. Que o Dr. Marcílio deu alguma droga para ela e quando ela acordou estava casada.

- É nada. Ela se casou acordada, com vestido novo, buquê e tudo. Ele está enganado.

A porta abriu-se e Amelinha entrou sussurrando:

- Não agüentei esperar que eles apagassem a luz. Não param mais de conversar! Estou morrendo de curiosidade.

208 - Psiu! - fez Eurico. - Se mamãe vê você aqui, pode desconfiar. - Que nada. Ela está tão preocupada com o caso da tia que nem vai perceber. Depois, se ela vier, eu digo que estava com medo e pronto.

- Vamos para o meu quarto. Fica mais longe do quarto deles - pediu Nico. - Assim você vai poder contar tudo - disse Eurico.

- É. Vou falar bem baixo. Tem bolo e um presente que a Liana mandou para você, Amelinha. Depois que todos dormirem, iremos buscar. - Puxa, o que será? - exclamou Amelinha curiosa.

- Coisas de mulher, com certeza - adiantou Eurico.

- É. Acho que é.

- Mas conte logo. Vamos... - pediu Amelinha.

Os três sentaram-se na cama de Nico e ele contou tudo, fazendo suspense e detalhando um pouco mais para causar admiração.

Eulália, em seu quarto, estava inconformada. Aquela história da paixão de Liana pelo professor não lhe saía da cabeça.

- Pensando melhor, bem que eu desconfiei que ele andava de olho em Liana. Cheguei a comentar sobre isso. Você me tirou da idéia.

- Não me pareceu verdade.

- Mas era. Pensando melhor, recordo-me que ela vivia defendendo-o, dizendo que era um homem excepcional. Lia seus livros. Ele a envolveu.

- Ainda não acredito que ela estivesse apaixonada por ele. - Tem de estar! Para ela fazer a loucura que fez... Como explicar essa fuga, assim, na calada da noite? Ela rompeu o noivado, estava livre, poderia ter dito que estava gostando dele. Por que não o fez?

- Ela sabia que você não gostava dele e não aprovaria.

- Se ela me houvesse consultado, eu teria feito tudo para impedir esse casamento. Um homem que já foi casado, que foi até suspeito de causar a morte de sua mulher. .. Acha que servia para marido de Liana?

- Ela não pensava assim, uma vez que fugiu com ele.

- Isso é o que me intriga. Ela estava tão enfraquecida. Não se importava com nada. Como encontrou forças para fazer o que fez?

- É o que me intriga também. A cumplicidade do médico parece-me suspeita. Eles bem podem havê-Ia induzido, forçado o casamento.

- Com que fim? Liana não tem fortuna própria.

- O professor pode ter se apaixonado por ela e ter tramado tudo. É por isso que você não pode ser tão radical. Tem de procurá-la, saber como aconteceu e por quê.

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- Não posso fazer isso.

- É sua única irmã. Você tem o dever de saber como foi. Depois você toma a decisão que quiser. Mas temos de descobrir a verdade. Ela pode mesmo estar sendo uma vítima. - Você acha mesmo?

- Acho. Amanhã você vai até a casa do professor e conversa com Liana. - Não. Na casa dele, não.

- Talvez seja melhor chamá-Ia aqui. Ela queria vir e você não permitiu. - Não mesmo. Mandei arrumar tudo que é dela, e Nequinho vai levar amanhã logo cedo. - Não faça isso. Mande Nequinho dizer a ela que venha até aqui para conversarmos. Aqui teremos mais liberdade para dialogar.

- Tem razão. Faremos isso.

- Agora estou cansado. Vamos dormir.

- Não sei se vou conseguir. Estou tão nervosa!

- Acalme-se. Amanhã conversaremos com ela. Se o que penso for verdade, se ela foi coagida de alguma forma, trataremos da anulação do casamento. - Acha possível?

- Acho. Seria a melhor solução. Pode ser até que a estas horas Liana já esteja arrependida e desejando voltar para casa.

- Deus o ouça!

Depois que eles se deitaram e apagaram a luz, Nico entreabriu a porta e, notando que estava tudo às escuras, disse baixinho:

- Vou pegar as caixas.

- Vou com você - respondeu Eurico.

- Eu não fico aqui sozinha. Também vou - exclamou Amelinha. - Psiu!!! Querem acordar todo mundo? Vamos sem fazer barulho. Pé-ante-pé, saíram, apanharam as caixas e subiram novamente para o quarto. Assim que fecharam a porta, Amelinha disse: - Acenda o abajur. Quero ver o presente de tia Liana.

Eurico obedeceu e ela abriu a caixa: sobre papel de seda branco estava um casal de noivinhos, e Amelinha não se conteve:

- Que lindo! É do bolo da noiva!

- Fale baixo, senão estamos fritos - pediu Nico.

- Eu não disse que era coisa de mulher? - comentou Eurico. 210

- Eu também gosto. É muito bonito! - respondeu Nico.

- É lindo! Olha só o vestido dela! Tem o buquê, a aliança, tudo. - É... reconheço que é bonito. Para um bolo de noiva até que fica bem - concordou Eurico. - Vamos comer o bolo. Estou morrendo de fome. Não jantei -lembrou Nico. Eurico pegou uma faca e cortou um pedaço e experimentou: - Está uma delícia!

Os outros dois fizeram o mesmo. Comeram até se fartar. - Estou com sede - disse Amelinha. - Vou descer e beber água. - Não precisa. Escondi aqui duas garrafas de guaraná - tomou Eurico com satisfação. - Você pensa em tudo! - comentou Nico.

- Bolo tem de ser com guaraná. Por isso, quando subi trouxe estas garrafas. Sabia que você traria o bolo e pensei na sede.

- Fez muito bem - concordou Amelinha, bebendo alguns goles no gargalo da garrafa. Depois, limparam as migalhas que haviam caído no chão e esconderam no armário a caixa com a sobra que pretendiam comer no dia seguinte. Só depois de tudo arrumado foram cada um para seu quarto, satisfeitos e com sono.

Na manhã seguinte, Nequinho foi à casa do professor levando um bilhete de Eulália para Liana, pedindo-lhe que fosse até lá conversar. - Dona Eulália pediu resposta - pediu Nequinho.

- Espere um pouco. Já volto.

Liana deixou Nequinho esperando na sala e foi falar com Alberto, que estava no escritório entregando-lhe o bilhete.

- Norberto convenceu-a. Iremos, com certeza.

Depois que Nequinho foi embora, Liana procurou Alberto. - Este bilhete me deixou nervosa.

- Sem razão. Você não queria conversar com eles, tentar convencê-Ios a aceitar nosso casamento?

- O que mais desejo é fazer as pazes com Eulália. Mas, não sei por quê, só em pensar em ir até lá sinto um arrepio... um medo...

- Se eles desejam conversar, é sinal de que desejam entender melhor nossa atitude. É uma boa oportunidade de reconquistarmos a compreensão deles. Não há o que temer. Nossos papéis estão corretos, somos casados legalmente.

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- Apesar de desejar muito que eles compreendam, não sinto vontade de ir até lá. - Hum... Não me parece natural esse seu receio. Pensando bem, talvez não seja ainda o momento de voltarmos à mansão.

- Por quê? Você mesmo disse que é um bom presságio.

- Falar com eles, sim. Mas o espírito do coronel Firmino continua lá. Talvez você sinta receio de tornar a encontrá-Io.

- Credo! Não me fale nesse homem. Não quero vê-Io nunca mais. Liana estava pálida e seu corpo tremia. Alberto aproximou-se segurando suas mãos geladas, tentando infundir-lhe coragem.

- Acalme-se, Liana. Se você não quiser ir, pediremos a eles que venham aqui. - Será melhor. Não me sinto com coragem de entrar naquela casa de novo. E se ele estiver me esperando e aparecer?

- Ele não poderia fazer-lhe mal. Estamos protegidos. Vamos conversar com o Dr. Marcílio. Ele nos dirá como agir. O que você não pode é alimentar esse medo. O espírito do coronel Firmino está dementado, preso em um tempo que já passou, tentando manter seu poder sem perceber que isso só aumenta o próprio sofrimento.

- Se ele sofre, deveria aprender a não ser maldoso com os outros. - Ele não pretende ser maldoso. Quer resolver seus problemas pessoais como se estivesse ainda naqueles tempos. - Se os espíritos bons estão nos ajudando, por que não o esclarecem e acabam logo com o sofrimento dele? Assim nos deixaria em paz.

- Não é assim que as coisas funcionam. Ele precisa perceber a verdade, aprender algumas coisas para evoluir. Esse é um trabalho interior que só ele poderá fazer. Ninguém, por mais poderoso que seja, conseguirá fazer por ele. O amadurecimento do espírito, o desenvolvimento da consciência é trabalho individual e intransferível. Ele tem o dele, eu o meu, e você o seu. Para crescer em espírito, todos teremos de pagar o preço da aprendizagem. Por isso, por mais que os bons espíritos desejem nos ajudar, precisam esperar o momento certo para que obtenham bons resultados. E esse momento depende de nossas atitudes.

- É desanimador. No caso do coronel, então... Ele está morto há tantos anos e continua igual. - Parece, mas não é. O sofrimento cansa, a alma deseja renovar, crescer. Chega uma hora em que ela atrai situações, pessoas, desafios que provocam as catarses necessárias e a abertura da consciência. Tenho certeza de que todos nós estamos vivendo um momento desses.

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- Todos nós?

- Sim. De alguma forma estamos ligados ao coronel.

- Nem o conhecemos!

- Nesta vida.

- Você já me falou nisso. A reencarnação às vezes me parece tão racional, mas outras tão fantasiosa. Não sei como classificar.

- É um fato natural. Todos passamos por várias reencarnações na Terra. Só assim poderemos entender as diferenças sociais e físicas entre as pessoas. - Esse é o lado racional. Mas o outro, morrer, sobreviver à morte em outro lugar, ficar pequeno de novo e voltar ao mundo como bebê, crescer, fazer tudo de novo, não será uma ilusão criada por nosso desejo de evitar a morte?

- Não. Há muitas provas científicas da sobrevivência do espírito após a morte do corpo. Assim como as há também da volta desses espíritos em outros corpos de carne. Há pessoas que até se recordam de passagens de outras vidas conseguindo provas materiais sobre suas vidas passadas.

- De que forma?

- Investigando se suas recordações de outras vidas são verdadeiras. Verificando nomes, lugares, muitos conseguiram provas irrefutáveis.

- Mesmo que isso seja verdade, não temos nada a ver com o espírito do coronel. - Aí que você se engana. Se não estivéssemos ligados por laços de vidas passadas, ele não teria se fixado em você. Ele acredita que foi seu marido.

- Que horror! Eleestá completamente louco. - É... pode ser. Mas, se o atraímos em nossas vidas, é porque de alguma forma estamos envolvidos em seu passado.

- Tenho horror desse homem! Não posso recordar sua aparição naquela noite sem sentir muito medo.

- Esse medo pode ter origem em fatos que aconteceram em outros tempos. - Não gosto de pensar nisso. O que eu quero mesmo é me livrar dele. Que nunca mais me apareça.

- Penso que chegou o momento de desligá-Io de você. Vamos conseguir isso com a ajuda espiritual.

- E se ele não estiver maduro?

- A vida faz tudo certo. Se não houvesse chegado a hora, vocês não teriam se reencontrado. Não se deixe levar pelo medo. Ele agora não tem mais condições de prejudicar ninguém. 213

Ao contrário, precisa de ajuda. Nós temos de rezar por ele, para que perceba como tem perdido tempo agarrando-se ao passado e para que se disponha a enfrentar o presente, trabalhando pela própria melhoria interior. - Você acha que vamos nos libertar dele?

- Tenho certeza. Ele vai ser ajudado, e a mansão ficará livre de sua presença. - Esse pensamento me deixa mais calma.

- Vou conversar com o Dr. Marcílio. A manhã está bonita, quer me acompanhar até lá? Andar um pouco lhe fará bem.

- Não. Ainda me sinto fraca, nervosa. Prefiro ficar em casa. Depois, não estou disposta a enfrentar a curiosidade das pessoas que vamos encontrar pelas ruas. - Nosso casamento criou uma auréola romântica muito a gosto deles. Tenho certeza de que estão do nosso lado.

- Pode ser. Mas ainda não me sinto forte para enfrentar isso. - Como quiser. Depois que Alberto saiu, Liana sentou-se pensativa na poltrona da sala. Estava vivendo uma situação que lhe parecia irreal. Não se sentia casada, muito menos com Alberto. O que fizera de sua vida? Por que se entregara à paixão e pusera a perder sua paz? Até quando viveria uma vida de mentiras tentando acobertar sua traição? Ela não merecia ser feliz. Se pelo menos conseguisse esquecer, talvez pudesse encarar a irmã com naturalidade, sem se culpar.

Alberto chegou à casa do médico, que, vendo-o, cumprimentou-o com alegria. - Vim conversar com você - disse ele. - Eulália quer que Liana vá até a mansão para conversar. Não sei se será conveniente Liana voltar lá agora. Ela sente receio. - Hoje à noite traga Liana para um tratamento espiritual. Assim, perguntaremos o que será melhor.

- Eu já havia mandado o recado de que iríamos hoje até lá. - Transfira para amanhã. Assim ganharemos tempo.

Alberto despediu-se, havendo combinado de voltar com Liana às sete da noite. Chegando em casa, ficou preocupado com o ar triste e abatido dela. Sentou-se a seu lado tentando distraí-la, mas Liana sentia-se distante e dispersiva. 214

Apesar das insistências dele e de Gisele, mal se alimentou, permanecendo prostrada, em grande apatia.

Com paciência, Alberto redobrou a atenção procurando de vários modos interessá-Ia, sem grande sucesso.

- São seis e meia, está quase na hora de irmos à casa do Dr. Marcílio. É melhor ir se arrumar.

Liana balançou a cabeça, dizendo:

- Vá você. Não estou me sentindo bem.

- Nada disso. Você precisa ir. Eles vão rezar para você ficar boa logo. - Não adianta. Por mais que rezem, nunca vou esquecer a mágoa e o remorso que tenho dentro de mim. - Não diga isso. Você é jovem, tem uma longa vida pela frente. Tudo isso vai passar e você vai ficar bem. Vamos, vá se vestir.

- Não quero! Por que insiste? Só desejo um pouco de paz. Não entende isso? Vendo as lágrimas que começavam a cair dos olhos dela, seu rosto contraído, Alberto não insistiu. Não poderia levá-Ia à força. Seria melhor ele ir sozinho e pedir ajuda espiritual. - Então eu vou. Gislene poderá fazer-lhe companhia até eu voltar. - Não precisa. Ela pode ir embora.

- Nada disso. Ela ficará, não é, Gislene?

- Fico sim, professor.

Quando Alberto chegou à casa do médico, já encontrou os quatro médiuns que freqüentavam as sessões. Ele explicou que Liana se recusara a ir, ao que Marcílio respondeu:

- Eu temia isso. O espírito do coronel Firmino a influencia mesmo à distância. - É possível isso? - indagou Alberto.

- Claro. Ele pensa nela e manda energias controladoras. Pretende chamá-la de volta. - Ele pode conseguir?

- Se não fosse a proteção que já a envolveu, ela voltaria, ou ele iria até onde ela se encontra. Para o espírito não há distância.

- Nesse caso, sair da mansão não adiantou muito.

- Engana-se, Alberto. Foi muito bom. Lá a ascendência era mais forte. Afastando-a, alguns amigos espirituais conseguiram protegê-Ia, evitando que ele a encontre pessoalmente de novo. Ele não se conforma de havê-Ia perdido de vista. Pensa nela todo o tempo, chamando-a de volta. Isso a perturba, mas por enquanto nossos amigos espirituais estão conseguindo mantê-Ia afastada.

215

Contudo, é importante iniciarmos logo um tratamento espiritual para que ele não venha a conseguir o que pretende.

- Há esse risco?

- Há. Infelizmente ela se deixa impressionar muito pelo medo, e ele se aproveita disso. - O que faremos, então? Ela se recusa a vir.

- Vamos pedir ajuda.

Marcílio reuniu os médiuns e pediu:

- Vocês comecem a sessão. Adélia assume a direção. Orem por Liana, pedindo ajuda aos amigos espirituais. Enquanto isso, eu e Alberto iremos buscá-Ia. Ela precisa vir. Enquanto eles se reuniam ao redor da mesa e iniciavam as orações, os dois foram à casa do professor.

- Onde está Liana? - indagou Alberto a Gislene.

- Foi se deitar. Disse que estava com muito sono.

- Temos de acordá-Ia - tornou o médico.

Os três foram até o quarto. Gislene tentou acordá-Ia, mas não conseguiu. Ela parecia dopada.

- Segurem a mão dela, cada um de um lado, e coloquem a outra mão em minhas costas e rezem.

Gislene postou-se junto à cabeceira da cama e os outros dois fizeram o que ele pediu. Marcílio colocou as mãos sobre a testa de Liana e fechou os olhos em oração. O corpo da moça estremecia de quando em quando, até que ele abriu os olhos dizendo: - Vamos esperar um pouco. Podem largar.

Alguns minutos depois, Marcílio aproximou-se de Liana chamando: - Liana! Liana! Acorde.

Ela abriu os olhos, fitando-o admirada.

- Aconteceu alguma coisa?

- Viemos buscá-Ia. Levante-se, vamos.

- Agora?

- Sim. Nós vamos sair e Gislene vai ajudá-Ia a vestir-se.

Assim que se viram fora do quarto, Alberto não se conteve: - Ela vai obedecer?

- Vai. Conseguimos afastar por um pouco a magnetização do coronel Firmino. - Era ele que não a deixava ir?

- Sim. Ele a chamava e dominava, mantendo-a sob seu controle. Foi preciso afastar a força dele para que ela agisse por si mesma. 216

- Não podemos afastar a energia dele de vez?

- Ainda não. Eles estão ligados pelo passado, por assuntos não resolvidos. Os fatos indicam que está na hora de se libertarem. Mas isso vai ocorrer quando eles aprenderem o que a vida pretende ensinar com essa experiência.

- Nesse caso, o tratamento espiritual pode não surtir o efeito que esperamos. - Pode. Às vezes até acontece. Principalmente com quem busca a ajuda dos espíritos, acreditando que eles vão intervir, resolver tudo, sem que precisem fazer nada. Basta orar, freqüentar sessões, tomar passes e pronto. Tudo ficará resolvido. Há até quem decida dedicar-se ao trabalho da mediunidade em benefício do próximo, pensando assim livrar-se de todas as dores.

- O trabalho de assistência ao próximo é abnegado. O que vocês estão fazendo por Liana tem grande valor.

- Tem mesmo. Todos nós temos muitos amigos que intercedem em nosso favor no plano espiritual. Entretanto, isso não nos garante o equilíbrio, o bem-estar, a felicidade. É preciso mais. É preciso cada um fazer a parte que lhe cabe no desenvolvimento da própria consciência.

- Concordo plenamente.

- Esse é um trabalho interior de cada um.

- Sinto que os problemas aparecem quando já estamos maduros para enfrentá-los. - É uma idéia interessante.

- A vida é perfeita, é Deus em ação. Quando podemos agir melhor e teimamos em manter atitudes que não condizem mais com nosso nível de conhecimento espiritual, a vida tenta nos alertar por todos os meios. Se teimamos em não ouvir, então surgem os problemas como desafios que nos empurram para onde temos de ir. - Quando aprendemos, tudo se resolve.

- Só aprendemos quando identificamos a atitude que está causando nossos problemas e a substituímos por outra melhor.

- A mudança interior, de que os espíritos sempre falam.

- Que depende exclusivamente de nós. Assim como criamos crenças que geram as atitudes, podemos modificá-las em qualquer tempo. Basta querer. A porta do quarto abriu-se e Liana, pálida, apoiada no braço de Gislene, apareceu. Imediatamente Alberto aproximou-se dela.

- Que bom que você vai!

217

Vamos embora - disse Marcílio tomando o braço de Liana, fazendo-a apoiar-se nele. - Você vai ficar bem.

Quando chegaram à casa do médico, entraram na sala iluminada por delicada luz azul, onde as pessoas sentadas ao redor da mesa oravam em silêncio. Marcílio conduziu Liana para uma cadeira vazia ao redor da mesa, fazendo-a sentar-se. Alberto acomodou-se discretamente em um canto da sala. - Vamos fazer uma corrente - pediu Marcílio.

As pessoas deram-se as mãos e Liana tentou se levantar assustada. Mas o médico, segurando-a pelos ombros, fê-Ia sentar-se novamente, dizendo: - Não tenha medo. Relaxe.

- Não quero ficar aqui - respondeu ela. - Preciso ir embora. - Agora não pode. Tenha paciência. Logo, tudo vai passar. Liana caiu em pranto convulsivo enquanto todos, de mãos dadas, continuavam orando silenciosos. Aos poucos os soluços foram diminuindo, até que ela se calou.

De repente um rapaz que estava em oração estremeceu e deu um soco na mesa, gritando enfurecido:

- Finalmente a encontro! Não adianta vocês se meterem entre nós! Não vão conseguir nos separar. Desta vez isso não vai acontecer! Largue-me! Tenho de sair daqui levando-a comigo! Ela é minha, me pertence. Sou seu marido! Vocês não podem impedir. - Acalme-se! - disse Adélia com voz firme. - Ninguém aqui deseja prejudicá-lo. Ao contrário, queremos que você se liberte do passado. Chega de sofrer! Chega de reviver um tempo que passou e não volta mais.

- É mentira! Quero-a de volta. Tenho esperado durante tanto tempo e agora que a encontrei não vou perdê-Ia.

- O tempo passou. Tudo mudou. Por que resiste e quer continuar sofrendo? Seu corpo já morreu há muitos anos e você continua aqui, resistindo a deixar a casa onde viveu, preso às emoções daqueles tempos, quando as pessoas que você ama já estão em outras experiências, em outros corpos, desejando aprender a viver melhor. Só você continua rebelde, machucando-se, desejando voltar no tempo. Isso é impossível. - Eu morri, mas continuo o mesmo. Quero minha mulher. Ela morreu antes de mim. Não sei por que se escondeu nesse corpo jovem, mas eu a vejo como sempre foi. Ela se esconde de medo de mim. Mas não desejo fazer-lhe mal. Eu a amo! Só não admito que me contrarie. Ela ficou contra mim, ajudou aqueles dois traidores, e isso não posso perdoar. Eu, o chefe da família, que preciso ser respeitado, fui duas vezes ofendido. 218

Por minha mulher e por minha filha. Acha que poderia deixar passar? Eu sou o coronel Firmino! O dono destas terras, o homem mais rico deste estado! Todos me temem e respeitam. Como ser traído pela própria filha?

- Sua filha não o traiu. Ela se casou com o homem que amava. - Um camponês miserável, sem eira nem beira. Um aventureiro que estava de olho em nossa fortuna. - Você se engana. Eles se amavam de verdade.

- Todos eles me pagam! Aqueles patifes se esconderam naqueles corpos de criança, mas não conseguem me enganar. Principalmente aquele Neco malandro. Chamam-no de Nico, mas eu vejo quem ele é! Continua arrogante, enfrentando-me. Vive dizendo que não tem medo de mim. Qualquer hora ele vai ver só. - Pare de ameaçar os outros. Você precisa mais é cuidar de sua vida, que está muito complicada. Vive infeliz, sente dores, está doente, passa mal, mas ainda assim quer se meter na vida dos outros.

- Foram eles que se meteram na vida de minha família.

- Ninguém é dono de ninguém. A união da família só acontece por meio do amor, nunca com tirania. Vamos, coronel Firmino, pense em quanto tempo perdido na lamentação, na revolta, no ódio. Chega! Está na hora de deixar de sofrer, hora de buscar a felicidade a que tem direito.

- Felicidade! - tornou ele com voz amarga. - Isso sempre me foi negado. Vivi anos de angústia e de solidão. Por que me negam o direito de ficar com minha companheira? - Porque você ainda não está pronto. Está doente. Precisa tratar-se primeiro. Depois, quando estiver melhor, poderá tomar suas decisões. Olhe, o médico está aí, a seu lado, desejando ajudá-lo. Vá com ele.

- Não vou. Não quero. O que ele quer é me afastar de minha casa, de minha família, e me internar. Não vou ficar preso de jeito nenhum. Logo agora que sei onde os meus se esconderam.

- Ele não deseja prendê-Io, apenas fazer um tratamento. Se for com ele, logo se sentirá aliviado, sem as dores que tanto o atormentam. Deixe o médico cuidar de você. - Isso é conversa. Sei o que ele quer. Já ouvi essa conversa antes. Ele me leva, depois vem com essa história de perdoar, esquecer tudo, nascer de novo. Isso nunca. Eu não vou nascer outra vez. Ser criança, não poder ter meu poder como sempre. Não, ninguém vai me tirar de minha casa.

- Não pode ficar lá para sempre. Chegará o dia em que a vida o obrigará a deixar tudo isso. 219

E, quando acontecer, será de uma forma mais dolorosa. Quanto maior a resistência ao bem e ao progresso, maior a dor que você atrairá em seu caminho. Estamos querendo ajudá-Io. Não torne as coisas mais difíceis do que já estão.

- É inútil. Ninguém vai me afastar de minha casa ou de minha família. Deixem-me em paz. Não me provoquem para que nada aconteça com vocês.

- Não temos medo de suas ameaças - interveio Marcílio, colocando a mão direita sobre a cabeça do rapaz. - Estamos no bem e somos protegidos pela luz divina, essa mesma luz que agora está envolvendo você. Sinta a beleza do amor divino, a alegria de viver no bem e na paz.

A cabeça do rapaz pendeu sobre a mesa e Marcílio proferiu uma prece em favor de Firmino. O corpo do moço estremeceu e ele abriu os olhos admirado. - Está tudo bem - garantiu Marcílio, batendo carinhosamente nas costas do jovem, que o olhava sem entender o que acontecera.

- Já passou - assegurou Marcílio, oferecendo um copo com água ao rapaz. Esperou alguns segundos até que ele estivesse em si, apanhasse o copo e bebesse a água. Depois pediu que duas pessoas fizessem imposição de mãos, doando energias positivas sobre Liana, que durante todo o tempo chorava baixinho.

Quando eles acabaram, ela havia parado de chorar. Bebeu a água que lhe ofereceram e Marcílio fez uma prece encerrando a reunião. Quando as luzes foram acesas, Alberto aproximou-se de Liana perguntando:

- Sente-se melhor?

- Um pouco. Foi terrível. Tive muito medo. Parecia que a qualquer momento ele iria se atirar sobre mim, aprisionando-me. Fiquei tão aterrorizada! Houve uma hora em que me vi deitada em uma cama e amarrada enquanto ele se aproximava e me beijava. Pensei enlouquecer de horror! Nunca mais quero ver esse homem! Marcílio, que se aproximara com Adélia, colocou a mão sobre o braço de Liana, dizendo sério:

- Você precisa ser forte e enfrentar isso para se libertar.

- Não entendo! Por que ele cismou comigo desse jeito?

- Você foi esposa dele. A seu modo, ele a ama e quer tê-Ia junto. - Não diga uma coisa dessas! Que horror! Não pode ser verdade.

- É melhor aceitar isso e não se impressionar. Aconteceu no passado, não foi uma boa experiência para você. Mas, de alguma forma, vocês ainda permanecem unidos. 220

- Se isso é verdade, por que ele não me deixa em paz? Eu não gosto dele. - Não é só o amor que cria laços de união entre as pessoas. O ódio, a revolta também unem. É por isso que precisamos trabalhar nossas emoções e compreender que cada pessoa é como é e só dá o que tem. Geralmente, a revolta, o ódio aparecem quando esperamos das pessoas mais do que nos podem dar.

- Não me conformo em ter de perdoar tudo, agüentar tudo. Isso é se anular. - Não é isso que estou dizendo. Você não é obrigada a agüentar tudo nem a conviver com pessoas que não aprecia, sejam seus parentes ou não. Defender sua paz é um direito. O que eu disse é que fazer exigências, esperar compensação dos outros, irritar-se quando eles não fazem do jeito que você quer é ilusão. A vida vai destruir todas as ilusões, porque nos levam a uma visão falsa, distorcida, que cria sofrimento. - Se eu não gosto do coronel Firmino, também não lhe tenho ódio. Só não quero que ele me atormente. Esse é um direito!

- Tem razão. Por isso estamos todos aqui, tentando esclarecer seu espírito para que compreenda a inutilidade de sua atitude.

- Nesse caso, se não o odeio, por que ele se ligou a mim? - Você não se recorda do passado. Não sabe como foi sua vida ao lado dele. Por sua repulsa, podemos perceber que tiveram problemas dolorosos em comum. Como você teria reagido a eles, ainda não sabemos.

- Alguma atitude sua, na vida atual, o atraiu - interveio Alberto. - A depressão, a culpa, a auto-imagem negativa podem ter acionado esse processo. - Pode ser. Quando estamos bem, positivos, cheios de vigor e força espiritual, nenhum espírito sofredor consegue nos envolver. Para que ele pudesse envolvê-Ia tão fortemente, se não foi porque você guardava por ele um ódio inconsciente, deve ter sido pela queda

de seu padrão energético.

- É o mais provável - concordou Alberto.

- Você entrou em depressão, atraiu problemas do passado. Para sair deles, terá de aprender a fazer o oposto: fortalecer-se através de pensamentos otimistas, cheios de vigor e de alegria.

Liana baixou a cabeça, pensativa. Sabia muito bem como entrara em depressão depois do que lhe acontecera com o cunhado. - Não fique triste, Liana. Você vai se libertar, ficará bem e terá ajudado a que esse espírito se esclareça - garantiu Adélia com entusiasmo. - Agora vamos tomar nosso café com bolo que já está na copa.

221

No trajeto de volta para casa, Liana estava pensativa e calada. Foi Alberto quem quebrou o silêncio:

- Como está? Melhorou?

- Um pouco. O peso, o sono irresistível, o atordoamento passaram. Estou conseguindo pensar com mais clareza. Isso torna mais aguda a sensação de culpa, de que estou sempre fazendo coisas erradas.

- Se continuar pensando assim, será difícil fugir às influências do coronel Firmino. - Não diga isso, por favor!

- Depois de tudo que conversamos, deve entender que, se deseja libertar-se da influência dele ou até de outros espíritos perturbadores, precisa mudar de atitude. Não ficar contra você, criticando-se, cobrando-se, julgando-se errada apenas porque se deixou levar por um instante de emoção e descontrole.

- Dito assim, parece que não fiz nada.

- Não fez mesmo. Quando aconteceu o fato, você foi envolvida, e nem teve tempo para lembrar-se de sua irmã ou de qualquer compromisso moral. Aconteceu. Não foi uma coisa boa, apesar de ter sido agradável. Mas depois você pesou o fato e decidiu que não deveria continuar.

Essa atitude foi pensada, reflete o respeito e o amor que sente por sua irmã e a vontade de não a prejudicar. Fazendo isso, você manteve sua dignidade. Apesar de amar seu cunhado, renunciou, resistiu a seu assédio, mostrou-se forte. Por que se culpa ainda? - É difícil apagar essa mancha.

- Isso é só um conceito moral tardio que não resolve nada, uma vez que não dá para voltar atrás e evitar o que aconteceu. Reflita, Liana.

Você errou, agiu impensadamente, mas teve forças para não persistir no erro. Não pode agora continuar punindo-se pelo resto da vida. Você continua digna. Não se anule nem desperdice a oportunidade de uma vida feliz por causa disso. Liana colocou a mão sobre a de Alberto que estava na direção do carro, acariciando-a. - Obrigada, Alberto. Você me faz bem. Nunca poderei pagar tudo que tem feito por mim. - Seja feliz. Essa será minha recompensa.

Ela sorriu. Haviam chegado em casa. Liana entrou e foi para a cozinha, dizendo: - Vou fazer um chá para nós.

- Acabamos de tomar café com bolo.

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- Não faz mal. Esse chá será como um mensageiro da paz. Sabe, quando eu tinha um problema, costumava sempre ir conversar com minha avó. Ela me abraçava, fazia um chazinho, servia e dizia: o chá é um ritual de amizade, ajuda a pensar, toma as pessoas mais íntimas e aconchegadas. E eu sentia que era verdade. Entre os goles de chá eu ia desabafando minhas mágoas e, ao terminar, sempre me sentia muito melhor. - Que seja. Vamos tomar nosso chá e trocar nossas confidências. Talvez eu também precise esquecer algumas mágoas.

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Capítulo 16

- Dona Eulália, Eurico não quer sair da cama.

Eulália suspirou contrariada, olhando para o marido, que terminava de almoçar. - Esse menino está me preocupando. Começou tudo de novo. Voltando-se para Hilda, que esperava uma resposta, continuou: - Diga-lhe que se não descer para o almoço não vou deixar Nico ficar no quarto dele hoje.

Hilda saiu apressada, e Norberto tornou:

- Sente-se e termine de almoçar. Ele está fazendo birra.

- Não sei, não. Tem andado deprimido, não se alimenta bem, estou começando a ficar com medo. E se ele piorar de novo?

- Esse menino é muito delicado. Não sei a quem saiu.

- Ele disse que quer que o professor volte. Isso é impossível. - Infelizmente. Apesar de tudo, Alberto tinha um jeito especial de lidar com ele. - Ele não é confiável. Não depois do que fez.

- Liana respondeu que viria para conversar, e até agora nada. - É. Ela mandou dizer que viria, mas não disse quando.

- Não podemos ficar sem saber o que está acontecendo com ela. Pode ser até que esteja mal e não possa vir nos ver.

- Não diga isso. Ela foi embora porque quis.

Continuar: parte 2 de 4