Quando Chega a Hora
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Deixa o menino. Ele estava trabalhando até agora.
- Trabalhando! Imagine só! Uma criança. Não sei como esse doutor tem tanta paciência com ele.
Ernestina olhou para ele com raiva. Queria gritar sua revolta, dizer que, se ele fosse trabalhador como Nico, ela estaria bem e não precisaria fazer tanto esforço para sustentar a família. Mas preferiu não dizer nada. De que adiantaria? Ela iria se irritar mais e implicar mais ainda com Nico. Não ia resolver nada. Ela olhou para Nico e disse: - Vai se lavar antes de dormir.
- Está bem.
Nico tomou banho, entrou no quarto e deitou-se. Olhos abertos no escuro, enquanto ouvia Nilce cantarolar tentando fazer Neusinha dormir, ele pensava:
Um dia ele teria seu próprio quarto, onde poderia acender a luz, ler revistas sem que ninguém reclamasse. Começou a imaginar como seria seu quarto, sua casa. 35
E, dando vazão à sua fantasia, todos os cômodos que idealizava eram parecidos com os da mansão.
A casa estava silenciosa, todos já estavam dormindo, porém Nico continuava pensando em seus sonhos, vendo-se rico, rodeado de todas as coisas de que ele gostava. Sua mãe, vestida como aquela mulher do retrato que ele vira na revista, bonita e alegre. Sua irmã Nilce, Jaiminho e Neusinha eram lindos e educados. Em seus sonhos não estavam nem José nem Jacinto. Às vezes ele achava que estava sendo injusto não os incluindo e tentava visualizá-Ios na riqueza, mas logo desistia. Por mais que desejasse, não conseguia vê-Ios progredir. Era muito tarde quando finalmente conseguiu adormecer. 36
Capítulo 3
Alguns dias depois, Norberto chegou com a família. Mário esperava-os na entrada da mansão. Nico, no jardim com Aurélio, não perdia nada da movimentação. Os dois carros entraram no jardim e pararam na porta principal. Em um viajavam Norberto e a esposa, acompanhada de uma moça. No outro, os filhos, em companhia de uma jovem e o motorista.
Nico olhou com curiosidade para as crianças. O menino era um pouco mais alto do que ele, mas muito magro e pálido. A menina, um pouco menor, era bonita, corada e alegre. Dona Eulália desceu do carro e imediatamente foi para o lado do filho, perguntando: - Hilda, ele está bem?
- Sim, senhora.
- Está abatido. Parece cansado. Sente-se bem, meu filho? O menino fez que sim com a cabeça, e ela continuou:
- Leve-o para cima, Hilda. Lave suas mãos e troque essa roupa, que deve estar empoeirada. Ele é alérgico a poeira, você sabe.
- Não quero ir - reclamou ele. - Quero ver o jardim.
Eulália abanou a cabeça:
- Nada disso. Não agora. Vamos, Hilda, o que está esperando? Hilda pegou a mão do menino, dizendo com voz firme:
- Vamos, Eurico. Sua mãe está mandando.
Enquanto os empregados cuidavam da bagagem, Eulália entrava com o marido para ver como a casa havia ficado. A menina correu pelo jardim, aproveitando a distração dos pais. Chegou perto de Nico, olhando-o com curiosidade:
- Você também mora aqui? - perguntou.
- Não. Tenho trabalhado no jardim.
- Meu nome é Amélia, e o seu?
- Nico.
- Que engraçado! Nico?
O menino levantou a cabeça um pouco irritado com o tom dela. - Meu nome é Antônio; Nico é só para os meus amigos.
Ela o fitou com os olhos brilhando maliciosos. Depois riu dizendo: 37
- Pois eu gosto mais de Nico. Antônio é um nome muito bobo. Antes que Nico respondesse, uma das criadas chegou dizendo: - Amelinha, sua mãe está perguntando por você. Quer que tome um banho e descanse um pouco da viagem.
- Agora não. Não estou cansada, e quero conhecer o resto do jardim. - Venha logo. Sua mãe não gosta de esperar. Quer servir o lanche logo mais, e você tem que estar pronta.
- Pois eu não vou. Não quero e não vou.
Quando a criada se aproximou irritada para pegá-Ia, ela saiu correndo e Nico ficou olhando para as duas. Amelinha era rápida, e, embora a criada se esforçasse, não conseguia alcançá-Ia.
- Venha. Chega. Vamos, Amelinha. Sua mãe vai ficar zangada. A menina ria e respondia: - Venha me pegar, se quiser.
Nico divertia-se acompanhando as duas com o olhar, até que Norbert apareceu na porta. Imediatamente Amelinha obedeceu e acompanhou a criada. Aurélio chamou Nico, dizendo:
- Vamos acabar de tirar o mato que falta. Até lá o sol terá diminuído e poderemos aguar tudo antes de irmos embora.
Nico obedeceu prontamente. Enquanto arrancava os matinhos que teimavam em brotar no canteiro muito bem adubado, sua atenção estava ligada ao movimento do interior da casa, onde os criados iam e vinham, providenciando para que nada faltasse. De repente, Nico assustou-se. Alguma coisa bateu em suas costas. Ele olhou e viu que era um apontador de lápis. Imediatamente olhou para cima. Amelinha estava na janela. Ele apanhou o apontador e mostrando-o a ela perguntou:
- É seu?
- É - respondeu ela. - Estava apontando meus lápis de cor e derrubei. Foi sem querer. - Vou entregar na cozinha.
- Nada disso. Traga aqui em cima para mim.
Nico olhou para suas roupas de trabalho e para seus pés sujos de terra e respondeu: - Estou com os pés cheios de terra, não posso entrar assim. - Então guarde para mim. Depois, quando eu descer, irei buscá-la. Nico concordou e, colocando o apontador no bolso, voltou ao trabalho. Contudo, sentia que Amelinha continuava na janela.
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De vez em quando ele olhava para cima, e ela continuava lá. Até que ele ouviu a voz de Hilda chamando-a. Iam servir o lanche.
Nico estava curioso para ver os arranjos da mesa e as deliciosas guloseimas que seriam servidas. Ele passara perto da porta da cozinha e sentira o cheiro gostoso dos bolos e do café. Como não foi possível chegar mais perto, teve de se conformar.
No fim da tarde, lavou-se e trocou de roupa, como sempre fazia ao terminar o serviço, embrulhando a roupa suja para lavar em casa. Aurélio dispensou-o, dizendo: - Pode ir, Nico.
- Precisa de mim amanhã?
- Tem algumas mudas que precisamos tirar e replantar. Vou fazer isso à tarde, quando o sol estiver mais suave.
- Posso vir assim que sair da escola.
- Pode ser depois das duas. Vai dar tempo pra tudo.
Quando Nico foi saindo, ainda pôde ver de relance o lanche sendo servido ha copa e toda a família reunida ao redor da mesa. Mário estava com eles, conversando animadamente. Como ele gostaria de poder ficar ali, ouvir tudo quanto eles diziam, ver como eles comiam, saber como era a vida das pessoas da cidade. Mas ele não podia. Teve de se conformar e ir para a casa.
Na tarde do dia seguinte, Nico compareceu na hora combinada e Aurélio, satisfeito, colocou numa cesta várias plantas para o menino separar as mudas. Nico aprendera a fazer isso tão bem que Aurélio se habituara a dar-lhe essa tarefa. Sentado sob uma árvore, Nico, com gestos precisos e calmos, ia separando as mudas e colocando-as com cuidado em outra cesta. Estava quase terminando quando viu Hilda acompanhada de Amelinha e Eurico se aproximando.
Amelinha parou junto dele, perguntando:
- O que é isso?
- Mudas para replantar.
- Mudas de quê?
- Margaridas. .
Amelinha apanhou uma e revirou-a entre os dedos.
- Parece um matinho. Acha que isso vai dar flor mesmo? Nico riu bem-humorado:
Claro que vai. Nunca viu uma margarida?
- Já. Mas não sabia que nascia disso. Quero ver você plantar. Vai fazer agora? 39
- Só depois que o sol ficar fraco, senão elas vão morrer. Amelinha virou-se para Hilda, que parara e esperava por ela, e disse: - Está vendo? Você diz que Eurico precisa tomar sol. Se faz mal para as plantas, faz mal para nós.
- Deixe de bobagem, menina - respondeu Hilda sacudindo a cabeça. - O sol da manhã faz bem, o sol muito forte é que faz mal.
- Como é que as pessoas ficam na praia o dia inteiro tomando sol? - Deixe de besteira. Vamos continuar.
- Estou cansado - disse Eurico. - Vá buscar minha cadeira, que eu quero sentar um pouco aqui embaixo da árvore.
- Você precisa fazer exercício - alegou Hilda. - Caminhar faz muito bem. - Estou cansado e não quero caminhar. Vá buscar minha cadeira. Hilda suspirou contrariada, mas foi apanhar uma cadeira de preguiça e abriu-a onde Eurico pediu, embaixo da árvore onde Nico trabalhava. O menino sentou-se e fechou os olhos. Nico olhou-o penalizado. Eurico parecia mesmo muito doente. A vitalidade que faltava a Eurico, Amelinha tinha-a de sobra. Não parava um instante, perguntando sobre as plantas, o tempo que demoravam para dar flor, se margarida era cheirosa, se fora ele quem plantara tudo que havia naquele jardim.
Nico respondia com naturalidade. Ele gostava da natureza. Falar sobre isso era-lhe fácil e ele discorria prazerosamente.
- Hoje de manhã havia um passarinho em minha janela. Se eu tivesse uma gaiola, poria miolo de pão dentro e deixaria a porta aberta para ele entrar. Assim poderia vê-lo e ouvi-lo cantando todos os dias.
- Para isso não precisa prender. Deve ser horrível ficar preso sem poder voar. - Mas ele foi embora e nunca mais o verei.
- Se colocar água, alpiste ou farelo para eles comerem, e se não assustar, eles estarão sempre por perto. Com o tempo, chegarão a comer na sua mão. - Eu queria que um passarinho viesse comer em minha mão! disse Amelinha, entusiasmada. Eurico abrira os olhos e ouvia a conversa com interesse. Nico continuou: - Na minha casa tem uma mangueira que eu coloquei um banco embaixo. Todos os dias eu levanto cedinho e tomo o meu café ali, vendo o dia clarear. As migalhas de pão caem no chão e tem algumas rolinhas que se acostumaram a comer comigo. 40
Sempre quando eu chego, elas vêm cantando alegres, sobem em cima das minhas pernas, comem as migalhas. Eu estendo a mão e elas vêm comer o meu pão. Amelinha ouvia maravilhada.
- Você acha que elas viriam comer comigo também? - indagou a menina. - Se tiver paciência de esperar e não assustar os passarinhos, eles vêm. - Hilda, vá buscar um pedaço de pão. Quero ver se eles vêm aqui agora - disse Amelinha. - Não é hora. Não há nem passarinho aqui - respondeu ela. - Porque não tem comida nem água - disse Nico. - Se eles descobrirem que tem, vão aparecer, pode ter certeza. - Vá, Hilda - insistiu Amelinha.
Ela, que havia se sentado em um tronco de árvore que lhe servia de banco, levantou-se e lentamente dirigiu-se à cozinha.
Estava acostumada a obedecer às ordens das crianças. Trabalhava para a família desde antes de Amelinha nascer, cuidando de Eurico, cuja saúde delicada exigia atenção constante. Como não tinha família, quando o médico recomendara uma mudança de clima para o menino, não se importara em mudar-se para o interior.
Quando ela voltou com o pedaço de pão, Nico levantou-se e apanhou um pedaço, dizendo.
- Veja, vou mostrar como se faz.
Ele caminhou uns dez passos, e Amelinha acompanhou-o com interesse.
- Vamos começar daqui. No começo eles não sabem que você não vai prender eles. Precisa ganhar a confiança dos passarinhos.
Enquanto falava, Nico ia esfarelando o pão e aproximando-se da árvore.
- Agora segure o pão e esfarele em volta de você.
Amelinha obedeceu e foi esfarelando o pão em volta deles, colocando sobre as pernas de Eurico. O menino, calado, observava.
Não demorou muito, alguns passarinhos se aproximaram, permanecendo há alguma distância do lugar onde começavam os farelos de pão. Aos poucos, alguns mais ousados foram se aproximando e começaram a comer, saltitantes, olhando em volta com seus olhinhos ágeis e curiosos.
Amelinha sustinha a respiração com medo de que eles se assustassem. Aos poucos foram se aproximando e, não vendo nenhuma reação das pessoas, foram se tornando mais ousados. 41
Alguns chegaram aos pés de Eurico e Amelinha, enquanto outros, mais cautelosos, olhavam a certa distância.
As crianças, fascinadas, nem se mexiam. Até que um dos pássaros pousou na perna de Eurico, comendo as migalhas que havia. O menino, emocionado, seguia todos os seus movimentos. Foi muito rápido, mas foi o bastante para que os olhos dele se enchessem de lágrimas.
Hilda, preocupada, levantou-se, aproximou-se dele e perguntou: - O que foi, não se sente bem?
- Por que se intrometeu? Você os espantou! - disse Eurico, indignado. - Por que não me deixa em paz?
Hilda olhou assustada para ele. Eurico nunca a tratara daquele jeito. Ela colocou a mão em sua testa para ver se ele estava com febre.
- Quero que vá embora - disse Eurico com raiva. - Você espantou os passarinhos. - Fiquei assustada com você. Por que estava chorando?
- Não é de sua conta. Deixe-me em paz! - respondeu o menino. Hilda, indignada, retrucou: - Vamos entrar. Essa história de passarinhos lhe fez mal. Você não pode se emocionar. - Deixe-me - disse ele irritado. - Vá embora. Não quero entrar agora. - Vou falar com sua mãe. Se você piorar, não será por minha culpa. Não quer me obedecer. Ela se afastou contrariada e Amelinha aproximou-se do irmão, dizendo alegre: - Muito bem. Você tem de fazer o que gosta. Não pode aceitar tudo que ela quer. Não é mais um bebê.
O menino fechou os olhos, dizendo:
- Sim, mas acho que vou entrar mesmo. Sinto-me muito cansado. Nico aproximou-se dele, dizendo:
- Não fique triste por eles terem ido embora. Se você quiser, amanhã podemos fazer de novo. Você já viu um beija-flor?
- Não - disse Eurico.
- Ele fica parado no ar, enquanto tira o néctar da flor. É muito colorido, é lindo! Aqui tem muitos deles. Sei como atrair. Você quer? Os olhos de Eurico brilharam ao responder: - Quero!
- Então descanse bastante para amanhã ficar bem forte e poder ver os beija-flores. 42
Antes que ele respondesse, já Eulália e Hilda se aproximaram. - Você está bem, meu filho?
Eurico abriu os olhos devagar e respondeu:
- Só um pouco cansado.
- Não pode abusar, para não se sentir mal. Tem de obedecer Hilda. Ela sabe cuidar de você muito bem.
Eurico não respondeu. Levantou-se e vagarosamente dirigiu-se para dentro de casa acompanhado dos demais. Nico seguiu-os com os olhos, pensativo. Qual seria a doença de Eurico?
Na manhã do dia seguinte, enquanto tomavam o café embaixo da mangueira, Nico disse para a mãe:
- Ontem fiquei com pena do Eurico. Ele é tão fraco... Não pode andar um pouco que fica cansado. Dizem que ele é doente. O que será que ele tem? - Não sei. Esse povo da cidade é muito enjoado. Tem medo de tudo. Criança precisa engatinhar no chão, brincar com terra, aprender a viver. Os filhos de pobre são fortes e agüentam tudo, até comer só feijão com farinha. Mas na cidade eles são cheios de nove-horas, e é isso que dá.
- Não sei, não, mãe. Não é isso, não. O Eurico tem doença mesmo. É pálido, quase não sai da cama. O Dr. Norberto se mudou para a mansão por causa dele. Os médicos disseram que o clima daqui pode fazê-lo melhorar.
- Se fosse meu filho, levava logo no Seu Zé das Rosas e pronto. Ele daria jeito. É.o melhor curador desse interior.
Nico calou-se pensativo. Seu Zé sempre dera jeito nas doenças e problemas da família, mas Nico perguntava-se se ele poderia saber mais que os médicos da cidade. - Os médicos da cidade sabem das coisas - disse ele. - Estudam muito e conhecem todas as doenças. O Seu Zé nunca saiu daqui e nunca estudou.
Ernestina olhou para ele escandalizada:
- Não diga isso, Nico. Ele nunca estudou o que os médicos estudaram, mas ele tem os guias, que sabem mais do que todos os médicos da Terra. - Por que acha isso, mãe?
- Por que esses guias são espíritos de luz que Deus colocou pra ajudar a aliviar o sofrimento no mundo. E eles podem olhar dentro do corpo das pessoas e enxergar qual é o problema que elas têm.
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Depois, mostram ao Seu Zé e ensinam até o remédio. Que médico da Terra pode fazer isso? Nico balançou a cabeça admirado.
- Não tinha pensado nisso! Nesse caso eles podiam mesmo descobrir o que é que o Eurico tem e ensinar o remédio!
Ernestina sacudiu a cabeça:
- Foi o que eu disse. Mas o difícil é fazer com que eles acreditem no Seu Zé. - Vou falar com a Dona Eulália.
- Não faça isso, Nico. Gente da cidade não acredita nessas coisas da roça. Ela pode não gostar.
- Eu queria tanto ver o Eurico melhorar! Morar em uma casa tão bonita, ter um quarto tão grande só para ele, poder comer tudo que quiser, sem poder aproveitar nada disso... é uma tristeza!
- Minha mãe dizia que Deus dá nozes a quem não tem dentes. Nico começou a rir sem parar.
- O que foi, menino? Eu disse alguma coisa engraçada?
- Não, mãe. É que eu fiquei imaginando o Seu João jornaleiro tentando mastigar as nozes sem um dente na boca. Ia se machucar. Ernestina desatou a rir. - Só você mesmo pra dizer uma coisa dessas!
Na tarde daquele mesmo dia, quando o sol já estava mais fraco e Nico regava as mudas de margaridas que Maninho havia plantado, Hilda aproximou-se dele: - Eurico quer falar com você. Desde cedo não me dá sossego. - Já vou, Dona Hilda. Estou acabando.
- Deixe isso, menino, e vá logo.
- Falta pouco. Não vou demorar.
- Ele está sentado perto da janela da sala.
- Eu vou até lá.
Nico rapidamente acabou sua tarefa, lavou-se e foi até a janela onde Eurico, sentado do lado de dentro, o esperava.
- Você me chamou? - indagou curioso.
- Chamei. Quero ver os beija-flores. Pode ser hoje?
- Podemos tentar. Você descansou bem?
- Se eu for esperar estar descansado, nunca verei um beija-flor. - Você está sempre cansado?- perguntou Nico, admirado.
- Sempre. Já me acostumei.
Amelinha aproximou-se, dizendo alegre:
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- Eu também quero ver os beija-flores.
- Precisamos de um pouco de água com açúcar e um pedaço de pão. Eurico levantou-se enquanto Amelinha correu à cozinha em busca do que Nico pedira. Quando voltou carregando o pão em uma mão e a pequena vasilha com água e açúcar, Hilda aproximou-se dizendo:
- Vão a algum lugar?
- Vamos com Nico ver os beija-flores - esclareceu a menina. - Está bem, eu vou com vocês. Eurico pode se sentir mal.
Nico lembrou-se das palavras de sua mãe. Intimamente concordou com ela que gente da cidade tinha medo de tudo. Eurico iria só até o jardim. Se não se sentisse bem, era só voltar para casa.
Ficou esperando do lado de fora. Quando eles saíram, Nico tornou: - Vamos perto daquela trepadeira do caramanchão. Está florida. Os três acompanharam-no. Lá chegando, Nico colocou a vasilha com água encaixada entre os galhos da trepadeira, depois espalhou os farelos de pão ao redor.
- Agora vamos entrar no caramanchão e esperá-Ios chegar. - Você acha que eles vêm? - perguntou Amelinha, interessada. - Vamos ver. Se eu tivesse alpiste, seria melhor. Mas eles gostam muito de água com açúcar. Temos que esperar calados. Não podemos fazer barulho.
Entraram no caramanchão, e começou a espera. Lá dentro havia dois bancos e uma pequena mesa. Hilda fez sinal a Eurico que sentasse, mas ele nem ligou. Seus sentidos estavam todos na escuta. Alguns minutos se passaram sem que nada acontecesse. Os dois irmãos olhavam para Nico e para fora na expectativa. Hilda não tirava os olhos de Eurico, com receio de que ele se sentisse mal. Por que ele não se sentava? Finalmente, Nico colocou o dedo nos lábios recomendando silêncio. Os outros pássaros já haviam comido quase todo o farelo de pão quando um beija-flor se aproximou. Por entre os galhos da trepadeira, os quatro seguiam todos os movimentos do irrequieto animal que voejava em círculos indo aos poucos se aproximando da vasilha com água. Nico a havia colocado encaixada entre os galhos, inclinada para que ele pudesse beber com facilidade. Por fim, o pássaro encontrou a vasilha e batendo as asas permaneceu parado no ar enquanto bebia a água. Eurico e Amelinha estavam fascinados. Olhos brilhantes, não perdiam nenhum movimento do beija-flor, que foi embora quando se fartou. - E então - indagou Nico, contente. - Gostaram?
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Puxa, que beleza! - disse Amelinha.
- Como é que ele consegue parar no ar? - considerou Eurico, admirado. - Ele foi feito para isso - respondeu Nico com naturalidade. Na natureza tudo é perfeito. Cada coisa no seu lugar.
- Será que não vai vir outro? - indagou Eurico.
- Agora chega por hoje - disse Hilda. - Você nem sequer se sentou! Eles nem pareceram ouvir.
- Vamos esperar outro! - pediu Amelinha.
- O sol já se pôs - disse Nico. - Eles foram procurar os ninhos para dormir. - Tão cedo? - perguntou Amelinha.
- As aves dormem quando o sol se põe - esclareceu Nico. - Vai ver que têm medo da noite, como Eurico.
- Eu durmo cedo porque fico cansado - rebateu o menino. - Não fale assim com seu irmão, Amelinha. Ele é doente e precisa deitar cedo para descansar.
- Os passarinhos precisam descansar como Eurico?
- Eles dormem cedo porque a natureza os fez assim - respondeu Nico. - Para eles, dormir quando o sol se põe é o seu jeito de ser. Fazem isso por instinto. - Vamos entrar. Estou sentindo uma corrente de ar. A poeira pode levantar e fazer mal a Eurico - determinou Hilda.
Caminhando de volta à casa, Nico disse:
- O Seu Aurélio já foi embora e eu preciso ir.
- Não vá, não. Fique mais um pouco - pediu Amelinha.
- Ele tem de ir para casa. A mãe dele está esperando - lembrou Hilda. - Isso mesmo. Eu preciso ir - reforçou Nico. Bem que ele gostaria de ficar, mas não queria abusar. Depois, era hora de jantar e sua mãe sempre dizia que ele não podia ficar na casa dos outros nessa hora para não incomodar.
Quando chegaram à porta da casa, Eurico disse:
- Amanhã poderemos ver os beija-flores de novo?
- Se você quiser, depois que eu acabar o serviço.
- Precisa ser antes que o sol vá embora - disse Amelinha. Nico sorriu ao responder: - Não se preocupe. Vai dar tempo para tudo.
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Nico foi embora e eles entraram. Amelinha correu para a mãe, que na sala se entretinha lendo uma revista.
- Mamãe, você tinha de ver! Nico é mágico! Sabe tudo de passarinho. O beija-flor é o mais lindo de todos!
- E ele fica parado no ar! - comentou Eurico, que vinha mais atrás.
Eulália olhou-o admirada. Seu filho nunca abria a boca para dar opinião. Nada conseguia tirá-Io da indiferença. Levantou-se olhando-o com atenção. Pareceu-lhe ligeiramente corado. Virou-se para Hilda, dizendo:
- Ele parece um pouco corado. Estará com febre?
Imediatamente Hilda colocou a mão na testa do menino.
- Não parece, Dona Eulália. Por causa desses passarinhos eles não escutam nada. A senhora precisava ver. No caramanchão, Eurico nem quis se sentar. O rosto de Eulália abrandou-se, e voltando-se para o filho perguntou: - Você gostou de ver o beija-flor?
- Gostei. Amanhã quero ver de novo.
- Nico disse que vai chamá-Ios amanhã - comentou Amelinha com entusiasmo. - Está vendo só, Hilda? Você disse que os meninos da roça são caipiras e não sabem de nada. Nico sabe fazer coisas que eu nunca vi na cidade. Ele conhece tudo das plantas, das borboletas e até dos passarinhos.
Eulália olhou para Hilda admirada e ela enrubesceu. Essa diabinha não precisava repetir um comentário que ela fizera no dia da chegada, quando Amelinha quisera brincar com Nico e ela não havia deixado.
- Eu só disse a eles que não deveriam esperar que um menino da roça soubesse brincar como os da cidade.
- Ele sabe muito mais - disse Amelinha com entusiasmo. - Ele sabe atrair os passarinhos e eles vêm comer em nossa mão. Não é, Eurico? - É.
- Bem, agora chega de conversa. É melhor irem tomar banho para se preparar para o jantar.
Enquanto Hilda se afastava com os dois, Eulália acompanhou-os com olhar triste. Depois, sentou-se mas não abriu novamente a revista. Seu pensamento perdia-se nas lembranças. Filha mais velha de abastada família, ela recebera esmerada educação. Tocava piano, falava francês, diplomara-se como professora primária. Sua família tudo fez para que ela encontrasse um bom marido, e, quando Norberto, recém-formado em advocacia, começou a freqüentar a casa de sua tia, eles logo viram nele um ótimo pretendente para Eulália. 47
Moço elegante, bem-parecido, inteligente, rico, seria o marido ideal para ela. E, para coroar os sonhos deles, Norberto interessou-se por ela assim que a viu. Do interesse ao namoro, levou apenas um mês.
Eulália, quando soube, não quis aceitar. Achava Norberto um bom partido, mas não gostava dele o suficiente para chegar ao casamento.
Quando disse isso à mãe, esta foi categórica:
- Como não gosta? Que bobagem é essa, menina? Você já completou vinte anos e até agora nunca namorou. Quer ficar para titia? Depois, um partido como esse não aparece todos os dias. Você tirou a sorte grande e não percebeu ainda!
- Mas eu não o amo! - Isso é besteira. Quando me casei, também não amava seu pai. Estamos indo muito bem. O amor vem depois.
- Mas eu não quero!
- Deixe de história. Você vai se casar com ele e pronto. Eu e seu pai já decidimos. Logo vamos combinar tudo com a família.
Eulália chorou mas obedeceu. No dia do noivado, depois do jantar de família, Norberto tomou-lhe o braço e levou-a ao jardim. Sentando-se com ela em um banco, segurou sua mão, beijando-a. Depois, tomou-a nos braços e beijou-lhe os lábios. Eulália começou a chorar. Surpreendido, ele se afastou um pouco e perguntou: -O que foi? Ofendi-a de alguma forma?
Ela meneou a cabeça negativamente, mas continuou chorando. Todo o pranto que havia represado naqueles dias explodiu.
- Eulália, você me assusta! Aconteceu alguma coisa? Por que está chorando desse jeito? -Não quero me casar. Não estou preparada para o casamento. Ele passou a mão pelos cabelos, tentando conter a decepção. Sentiu-se irritado. Pouco havia conversado com ela, mas os pais tinham lhe garantido que ela o amava e que estava feliz com seu pedido. Tentou contornar:
- Por que está pensando isso? Já é uma moça. Sua mãe disse-me que você nunca teve um namorado.
- É. Nunca namorei.
Mais tarde Norberto procurou os pais de Eulália para uma explicação. - Eulália pareceu-me contrariada com nosso casamento. Pensei que ela me amasse. Não posso me casar com uma mulher que não me ama.
Enquanto o pai de Eulália conversava com o futuro genro, tentando convencê-Ia de que sua filha era tímida e que sentia vergonha de mostrar que estava apaixonado por ele, a mãe procurou por ela e repreendeu-a severamente.
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- Mamãe, ele me beijou! - justificou-se ela.
- O que esperava? São noivos agora. E depois do casamento ele vai querer muito mais. Você terá de se esmerar para agradá-lo. É a mulher que tem de garantir a felicidade da família. Nunca mais faça o que fez hoje. Ele precisa pensar que você o adora e que fará qualquer coisa para deixá-lo feliz!
- Terei de mentir?
A mãe olhou-a com ar de comiseração. Logo um moço bonito como aquele e ela com aquelas bobagens!
- Pois minta. A mulher precisa aprender a viver bem. Se para sua felicidade tiver de mentir, que seja. Será para uma boa causa. Daqui para a frente não só terá de aceitar o carinho dele como demonstrar amor, ser atenciosa, agradável.
Eulália fez o que pôde para se acostumar. Norberto era um homem educado, de boa índole, atencioso e que gostava de viver bem. Assim, depois de algum tempo de casamento, Eulália acostumou-se. Acabou respeitando o marido e sentindo-se feliz por desfrutar da vida a seu lado.
Quando engravidou, foi uma festa. Norberto redobrou as atenções. Ter um filho era seu maior sonho. Eulália, que sempre fora saudável, na gravidez teve vários problemas de saúde que a obrigaram a fazer repouso para não perder o bebê.
Quando o menino nasceu, apresentou um problema de RH negativo e sofreu uma icterícia perigosa, diferente das que ocorrem normalmente com os bebês. Seu sangue precisou ser todo trocado para que ele sobrevivesse. Sua saúde delicada necessitou de muitos cuidados. Eurico era alérgico a muitas coisas. Para tomar qualquer medicamento, era preciso fazer testes cuidadosos.
Eulália suspirou. Por que seu filho nascera daquele jeito? A princípio o marido a culpara dizendo que ela não se cuidara direito durante a gestação, uma vez que vivia doente. Esse assunto a revoltava. Ela sempre fora saudável. Que culpa poderia ter de haver dado à luz uma criança doente?
Quando ela engravidou de novo, Norberto não queria. Tinha receio de que também nascesse doente. Entretanto, surpreendentemente Eulália passou bastante bem daquela vez. Ligeiro enjôo nos primeiros meses, mas depois tinha disposição, apetite, alegria, parecia até haver remoçado.
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Amelinha nasceu saudável e forte. Seu choro encheu o quarto do hospital. Ela era o oposto do irmão. Corada, alegre, dormia bem, comia, sorria, era cheia de vida e energia. Eulália não podia entender. Por que um era tão diferente do outro se os pais eram os mesmos? Às vezes, percebia que Norberto olhava para Amelinha com certa implicância. Ela sabia que ele desejava filho homem e que não ligava para a menina. Talvez se perguntasse por que justamente Eurico nascera tão debilitado enquanto Amelinha vendia saúde e disposição.
Desde que Eurico nascera, Norberto envidara todos os esforços para que ele se tornasse saudável. Tudo que a medicina do Brasil e até do exterior podia oferecer ele procurou. Nenhum exame de Eurico indicava qualquer lesão em seus órgãos internos. Tudo parecia normal, entretanto ele continuava alérgico, debilitado, sem interesse pela vida. Por fim, um especialista de Viena que ele consultara dissera-lhe que era preciso estimular a saúde, procurando um clima quente, já que ele piorava no inverno. Receitou fortificantes, ambiente alegre e tranqüilo.
Norberto comentou desanimado:
- Como podemos fazer com que ele se alegre? Não se interessa por nada! Ele precisa sair de São Paulo. Aquele clima instável não serve para ele.
- Talvez possamos ir para o interior - sugerira Eulália. - Há cidades que têm bom clima. Norberto pensou um pouco e respondeu:
- Acho que tem razão. Há aquela casa antiga em Sertãozinho que herdei de meu tio-avô. - O coronel Firmino?
- Sim.
- Está fechada há muito tempo. Dizem que é assombrada. Norberto soltou uma gargalhada. - Que bobagem! Meu pai foi passar férias lá quando criança e os criados inventaram essas histórias para assustá-los. Vamos ver como está. É uma bela casa. O coronel Firmino ganhou muito dinheiro com o café, mas, quando houve a crise, desistiu da fazenda. Loteou as terras, conservando apenas a casa. Ele não foi feliz lá, mas nunca se mudou. - Houve uma tragédia. Sua mãe contou-me a história.
- O povo exagera. Gosta de fazer tragédia. Vamos ver a casa e o lugar. Se servir, mudamo-nos para lá.
- E seu escritório?
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- Terá de continuar aqui. Você fica lá com as crianças e irei todos os fins de semana. Precisamos nos sacrificar em favor da saúde de Eurico.
Eulália concordou. Ela se sentia muito só, mesmo estando ao lado do marido. Dedicava-se aos filhos para ver se conseguia preencher o vazio que sentia no coração. Levantou-se e foi até a cozinha para verificar como ia o jantar.
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Capítulo 4
Hilda entrou no quarto de Eurico, abrindo as cortinas. Depois se aproximou do leito, dizendo:
- Levante-se, Eurico. Está uma linda manhã. Depois de tomar seu café, vamos dar uma volta pelo jardim.
O menino abriu os olhos sem muita disposição.
- Vamos - insistiu ela, tentando entusiasmá-Io. - O dia está tão bonito! - Nico já chegou?
Hilda surpreendeu-se. Eurico nunca perguntava por ninguém. - Ele só vem depois do almoço.
- Então vou ficar dormindo. Acorde-me quando ele chegar. - Nada disso: Você não pode ficar só na cama. Precisa reagir, tomar ar, andar. - Não quero.
- Vou buscar seu café. Você pode tomá-Io na cama, mas depois vai se levantar e vamos passear um pouco.
- Só vou sair da cama para ir olhar os passarinhos com Nico. - Vamos ver. Vou buscar seu café.
Ela desceu e procurou Eulália.
- O que foi, Hilda? Eurico não está bem?
- Não me pareceu mal. Só que não quer se levantar. Disse que vai ficar na cama. - Ele precisa sair um pouco. O doutor disse que ele precisa fazer exercícios, senão acaba ficando cada vez mais fraco.
- Foi o que eu disse, porém ele não quer ouvir. Disse que só vai se levantar quando Nico vier.
- Nico? Ele disse isso?
- Perguntou por ele assim que acordou.
- Hum... Ele gosta desse menino. Nunca vi se interessar por ninguém. - É mesmo. Lá em São Paulo, quando os meninos de Dona Albertina vinham nos visitar, ele se fechava no quarto. Não gostava deles.
- Eurico nunca quis conviver com outras crianças. Sempre foi assim. Só tolera a irmã, assim mesmo quando está bem.
52 - É essa história de passarinhos. Ele ficou muito interessado. - Não diga! Isso é muito bom. Precisamos trazer esse menino para brincar com ele. Vamos mandar buscá-Io. - De manhã ele está na escola.
- Quero falar com ele. Avise-me quando chegar.
Quando Nico chegou, Hilda foi logo dizendo que Eulália queria conversar com ele. Nico foi encontrá-Ia na copa.
- Licença, Dona Eulália.
- Entre, Nico.
Ele entrou e esperou.
- Quero conversar com você.
- Sim, senhora. Estou ouvindo.
- Eurico gostou muito de brincar com você. Hoje cedo perguntou se você já havia chegado. - Depois que eu acabar o serviço posso brincar com ele.
- O serviço pode esperar. Eurico é um menino muito doente. Não tem vontade de viver. Não se interessa pelas coisas, como você ou Amelinha. Viemos para cá para ver se ele melhora.
- Ele é um menino triste. Sofre de tristeza.
Eulália surpreendeu-se:
- Não. Ele é doente. Está sempre indisposto. Por isso você pensa que ele está triste. - Desculpe, Dona Eulália, mas eu acho que é a tristeza que o deixa doente. - Eurico é um menino muito querido, tem tudo de que precisa. Por que estaria triste? Não há motivo.
- É isso que eu tenho me perguntado. Com uma família tão boa, uma casa tão linda como esta, um quarto tão bom, por que será que ele é triste? Quando olho nos olhos do Eurico, sinto uma tristeza que vem do coração dele. Nunca reparou como os olhos dele são tristes? - Talvez por ser doente e não poder viver como os outros meninos. - Não fique triste, Dona Eulália. O Eurico vai ficar bom, se Deus quiser.
Eulália olhou para Nico comovida. Ele dissera aquilo com tanto carinho que ela se emocionou. Ficou silenciosa por alguns instantes, depois disse: - Você é um bom menino, Nico. Eurico gosta de você. Pela primeira.vez ele perguntou por uma pessoa. Desejo pedir-lhe que venha fazer companhia a ele todos os dias. 53
- Eu também gosto dele. Mas preciso trabalhar. Tenho que ajudar a minha mãe e pagar os livros da escola. Por isso, não posso ficar o tempo todo com ele. Mas, depois do horário de trabalho, eu fico o quanto ele quiser.
Eulália olhou-o admirada. Ele levava o trabalho a sério.
- Nesse caso, vou falar com Aurélio para contratar outro ajudante e eu contrato você. Vai ficar todo o tempo com Eurico.
Nico sorriu:
- Isso não é trabalho, é prazer. Não gostaria de cobrar por isso. - Mas eu quero pagar. Se estou tirando você de seu trabalho, é justo que eu pague. Depois, para mim, a felicidade de meu filho está acima de tudo. Pagaria muito mais do que seu salário para dar alegria a ele. Aceite e ficarei muito grata. - Se é assim, eu aceito. Vou falar com o Seu Aurélio. - Eu mesma falo, pode deixar. Eurico hoje não quis sair da cama. Está lá em cima deitado, esperando você. Vou mandar dizer que já chegou. Você já almoçou? - Sim, senhora. Obrigado.
Eulália chamou Hilda, dizendo:
- Avise Eurico que Nico já chegou. Ele almoçou?
- Não, senhora. Não quis comer nada. Não sei mais o que fazer para que ele tenha mais apetite. Vou falar com ele - disse, saindo da copa. Nico olhou para Eulália e, vendo-a triste, tornou:
- Vai ver que ele tomou café tarde. Quando eu não me levanto cedo, tomo café tarde e não almoço.
- Seria bom mesmo que ele se levantasse cedo, fosse andar um pouco no jardim. Por certo teria mais apetite.
- Quando a minha irmã Neusinha esteve com gripe, perdeu a vontade de comer, e a minha mãe levou-a no Seu Zé das Rosas. Ele deu um remédio e ela comia o dia inteiro. Foi preciso a minha mãe parar, senão ela ia ficar uma baleia. - Quem é Zé das Rosas?
- É o médico da roça. Ele não tem diploma, mas sabe mais do que os médicos da cidade. Ele reza, faz o remédio com as ervas e cura.
- Ah! - fez Eulália.
Ficou pensativa. Esse deveria ser o curandeiro do lugar. Coisas do interior, de gente simples. Seu filho fora tratado pelos mais renomados especialistas e nenhum conseguira curá-Io. Não seria um curador da roça que iria fazê-Io.
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Vendo-a pensativa, Nico continuou:
- Minha mãe disse que gente da cidade não acredita nos remédios da roça. Mas eu tenho visto o Seu Zé curar muita coisa. Ele é bom mesmo.
Eurico entrou na sala com Hilda.
- Eu estava dizendo que ele precisava comer pelo menos um pouco antes de sair. Ficar sem almoço, onde já se viu?
- Hilda tem razão, meu filho - reforçou Eulália.
- Não tenho vontade.
- Você quer brincar com Nico? - indagou Eulália.
- Quero ir ver os passarinhos.
- Ele agora vai ficar com você a tarde inteira. Vocês poderão brincar do que quiserem. - Desde que não seja nada que tenha poeira - interveio Hilda. - Pode deixar, Dona Hilda. Vou tomar cuidado - prometeu Nico. - Por que não deixam para mais tarde? O sol agora está muito forte, pode fazer mal- pediu Hilda.
- Não se preocupe, Dona Hilda. Vamos ficar na sombra. Se o Eurico quiser, levamos a cadeira para o caramanchão.
Os dois saíram e logo Amelinha, que brincava no jardim, os acompanhou alegremente. Nico carregava a cadeira e colocou-a na sombra, do lado de fora do caramanchão.
- Do que quer brincar? - perguntou Nico.
- Gostei de ver os passarinhos - respondeu ele. - Você acha que eles voltariam a comer em minha mão?
- Acho. Mas nós podemos brincar de outras coisas também. Você já viu um ninho de passarinho?
- Só no livro.
- Eu também vi - comentou Amelinha.
- Eles vão buscar a comida, levam no bico e depois, quando chegam no ninho, colocam na boca dos filhotes.
- Eu queria ver isso - disse Eurico.
- Só que para isso você precisava poder subir na árvore. Está vendo aquele galho ali naquela laranjeira?
- Onde?
- Ali em frente, bem na forquilha. Lá tem um ninho de passarinho. - Eu estou vendo - disse Amelinha.
- É - concordou Eurico. - Há passarinhos lá?
Sim. Como não podemos subir, vamos olhar todos os dias. 55
Os filhotes ainda são muito pequenos, por enquanto só comem, mas logo os pais deles vão ensinar a voar e nós podemos ver daqui mesmo.
- Eles não nascem sabendo voar? - perguntou. Amelinha. - Eles nascem com o instinto de voar, mas precisam treinar e aprender. Nós também: nascemos com o instinto de andar, mas precisamos aprender. - Você acha que daqui vamos poder ver quando eles forem começar a voar? - indagou Eurico.
- Claro. Às vezes eles caem, e então nós podemos cuidar para que nenhum gato chegue primeiro.
- Como você faz isso? E se ele cair e um gato aparecer? - perguntou Eurico. - Você o segura com delicadeza, mas tem que ser firme para ele não escapar. Depois o põe sobre um galho de árvore. Nessa hora, com certeza os pais dele vão estar em volta tentando ajudar e logo vão tomar conta dele.
- Que engraçado! - disse Amelinha. - Igual à gente. Eles também pensam, como nós? - Eles não pensam como nós, mas como passarinhos. Cada bicho tem o seu mundo, e vive de acordo com ele. Cachorro pensa como cachorro, porco pensa como porco, galinha pensa como galinha, passarinho pensa como passarinho.
- Como é que serão os pensamentos de um cachorro? - perguntou Amelinha. - Uma vez eu li uma história escrita como se fosse pelo cachorro. Ele falava de como via as pessoas, o mundo, os seus donos, tudo. Era uma beleza. Os cachorros devem pensar assim.
- Como você sabe, se nunca foi cachorro? - indagou Eurico. - Quando eu li, imaginei que era. Pensei: se eu fosse um cachorro, como eu ia ver as coisas? E percebi que a história bem que podia ser verdade.
- Você sabe contar essa história? - perguntou Amelinha.
- Sei.
- Então conte - pediu Eurico.
- É! Conte, conte - reforçou Amelinha.
Nico sentou-se no chão ao lado da cadeira de Eurico e começou a contar a história. Os dois ouviam com interesse e nem sequer percebiam que de vez em quando Hilda aparecia para ver o que estavam fazendo e entrava em seguida.
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- E então? - indagou Eulália em uma dessas entradas.
- Eles estão lá, conversando. Nico fala e os dois ouvem. Amelinha, como sempre, entusiasmada; Eurico, atento.
- Vamos ver se ele se interessa por alguma coisa. Esse menino me parece muito bom. - Um menino da roça, Dona Eulália. Só espero que os dois não peguem o sotaque do interior.
- Nico fala muito bem. Nem parece que nasceu aqui. O Dr. Mário gosta muito dele. Depois, Eurico parece gostar de sua companhia. Só quero que ele se interesse pela vida. - Desculpe, Dona Eulália, mas ainda acho que um menino da roça não é companhia para Eurico. Ele não tem o mesmo nível. Pode dar problemas de educação. - Bobagem, Hilda. Até agora ele tem sido muito educado. Depois, nada mais me importa do que a saúde de Eurico. Farei tudo para que ele fique bom, igual aos outros meninos de sua idade.
Hilda baixou os olhos, dizendo:
- A senhora é quem sabe. Só quis alertar.
Meia hora depois, Nico entrou na cozinha com Amelinha, que disse para a cozinheira: - Vamos fazer um piquenique. Precisamos de uma cesta com tudo. - Vou falar com a Dona Hilda.
Logo Hilda apareceu na cozinha.
- O que vocês querem?
- Vamos fazer um piquenique. Você já fez algum? - perguntou Amelinha. - Não sei se será bom. Comer fora de hora... Melhor não. Eulália apareceu na cozinha e Amelinha pediu:
- Mamãe, nós queremos fazer um piquenique. Hilda não quer nos deixar. Eulália aproximou-se.
- Se eles comerem agora, não terão fome ao jantar - justificou-se Hilda. Nico esclareceu:
- Eu tive a idéia do piquenique porque o Eurico não almoçou, e assim ele poderá comer pelo menos um pouco.
- Eu nunca fiz piquenique. Quero fazer um - reclamou Amelinha. - Está bem - concordou Eulália. - Nico tem razão. Quem sabe assim Eurico come um pouco mais. O que querem levar?
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- Vamos precisar de uma cesta, toalha, coisas dentro - disse Amelinha, entusiasmada. - Não temos uma cesta - disse a empregada. - Só aquela grandona das compras do mercado. - Não faz mal, tornou Nico. - Hoje fazemos um tipo de piquenique, sem cesta. Amanhã eu trago uma de casa com tudo e vamos fazer um como se deve. - Oba! - disse Amelinha. - Amanhã vamos fazer outro! Que bom! E agora, o que vamos levar?
- O que o Eurico gosta - disse Nico.
- Ele não gosta de nada - disse Hilda, mal-humorada. - Então vamos levar algumas bananas, pão e queijo. - Só? - perguntou Amelinha.
- É bom demais - respondeu Nico.
- Pão, queijo, bananas vão deixar o Eurico ficar forte depressa. Depois, banana é uma fruta que você pode inventar muitas formas de comer. Já experimentou cortar quadradinho com a faca e ir comendo?
- Não - respondeu Amelinha.
- Pois tem muito mais. Você vai ver que esse piquenique vai ser muito bom. Quando eles saíram segurando a sacola com o lanche que pediram, Eulália sacudiu a cabeça admirada. Aquele menino tinha cada idéia! Comer banana cortando em quadradinhos com a faca ela nunca havia feito. Seria bom mesmo?
Curiosa, ia de vez em quando à janela observar os três brincando. Estavam lá há mais de três horas e Eurico não se sentira cansado. Várias vezes o vira em pé, conversando, coisa rara. Ele nunca participava da conversa, ficava alheio.
Passava das cinco e meia quando Hilda foi chamá-Ios para tomar banho antes do jantar. - É cedo - disse Amelinha. - Ainda está claro.
- Não é, não. O jantar será servido às sete e vocês têm de estar prontos. Sua tia Liana chega hoje com seu pai. Ele não gosta de atrasos. Vamos embora. - Vou ficar mais um pouco - tornou Eurico, olhando-a desafiador. - Eu também - concordou Amelinha.
- Nada disso. Olhem como vocês estão sujos. Meu Deus! Como foi que se sujaram desse jeito?
- Nós sentamos na terra para o piquenique - esclareceu Amelinha. 58
- Eurico, que horror! Você não pode fazer essas coisas. Onde já se viu? Vai ficar doente, com certeza!
- Ele não vai ficar doente nada! - disse Amelinha. - Ele está muito bem! Hilda fulminou-a com os olhos. Seu rosto cobriu-se de um rubor de indignação. - Você deveria tomar conta de seu irmão ao invés de deixá-Io fazer o que não deve. Vou contar tudo para sua mãe. Se ele adoecer, não será por minha culpa. Eu fui contra essa idéia de piquenique desde o começo. Vamos andando, senão vou chamar Dona Eulália. Nico levantou-se, juntando os objetos espalhados sobre a toalha e dizendo: - Vamos obedecer a Dona Hilda. Chega por hoje. Vamos entrar. - Não quero que você vá embora. Ainda não é de noite! - reclamou Amelinha. - Vocês têm que tomar banho e se preparar para esperar a sua tia e o Dr. Norberto. Quando eles chegarem, vão ficar alegres vendo vocês arrumados e contentes. - Eu não vou me arrumar. Vou ficar no quarto e pronto - disse Eurico com raiva. - Se você ficar no quarto, não vai ouvir a conversa deles e não vai saber as novidades da cidade. Se fosse eu, não ficaria no quarto. Ficaria junto para saber tudinho. - Eu vou ficar com eles! Tia Liana sempre traz presentes para nós. O que será que vai trazer hoje?
- Ela é aquela moça bonita que chegou com vocês no dia da mudança e foi embora dois dias depois? - indagou Nico.
- É.
Eles foram andando de volta à casa, onde Eulália os esperava atenta. - Eles não queriam entrar, Dona Eulália. São quase seis horas, e o Dr. Norberto pode chegar a qualquer momento.
- Estava tão bom lá fora! - comentou Amelinha. - Depois, eu não quero que Nico vá embora. Peça para ele ficar, mamãe.
- Não seja egoísta, minha filha. Nico tem outras obrigações em casa. Ele se levanta muito cedo para ir à escola e também tem de estudar. Não podemos abusar dele. - Eu quero que ele fique aqui - disse Eurico.
Eulália olhou surpreendida para o filho. Ele nunca emitia opinião e muito menos pedia alguma coisa. Ficou sem saber o que dizer.
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Olhou para Nico e perguntou:
- Você pode ficar mais um pouco, Nico? Não tem de fazer lição ou estudar?
- Já fiz a lição de casa e posso ficar mais um pouco, até a hora do jantar. Eurico olhou para ele e convidou-o:
- Venha até meu quarto. Eu achei uma revista que gostaria de lhe mostrar. Nico olhou para Hilda e Eulália sem saber o que fazer.
- Não adianta agora, Eurico - respondeu Hilda. - Você vai tomar banho e se arrumar. Ele espera você descer.
- Se ele não subir, eu também não subo. Não tomo banho nem me arrumo. Eulália olhou admirada para o filho. Ele sempre foi apático e nunca se rebelava. Ficava prostrado e acabava sempre fazendo o que queria. Vendo-o pálido e sem forças, ninguém se atrevia a contrariá-lo.
- Está vendo só, Dona Eulália? Este menino só faz o que quer. Viu como está com a roupa suja? Sentaram-se na poeira. Já pensou se ele passar mal? - Vá tomar banho, meu filho. Nico pode ir com você. Não há nada de mal ele lhe fazer companhia lá em cima.
- Eu também quero ficar no quarto de Eurico - tomou Amelinha. - Você é menina. Eurico vai tomar banho e você não pode ficar com ele. Vá para seu quarto, tome seu banho, arrume-se e depois poderá ficar com eles - determinou Eulália. Hilda lançou um olhar de reprovação e subiu com eles. Eulália ficou pensativa. Era natural que Eurico desejasse ter um amigo. Pela primeira vez ele demonstrara interesse em alguém. Isso era bom. Ela, quando tinha a idade dele, tinha uma amiga da qual nunca se separava. Estavam sempre juntas. Era promissor que finalmente ele desejasse se relacionar. Eulália teve o fio de seus pensamentos cortados pelo ruído de um carro que chegava. Saiu para recebê-Ios.