Quando Chega a Hora

Zibia Gasparetto · Capítulo 1 de 4 · parte 4/4

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Quando Chega a Hora

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Apesar de fazer-se de forte, Liana não conseguiu dormir direito. Sentia sono, mas, quando estava quase adormecida, estremecia de susto e acordava. O dia já estava amanhecendo quando ela finalmente conseguiu dormir. Na manhã seguinte, o assunto já era do conhecimento dos criados, que comentavam abertamente. Entrando na cozinha, Eulália ouviu Maria dizer: - Foi a alma do coronel Firmino que voltou. Bem que tinham me avisado. 84

- O Maninho me contou que essa casa era assombrada. Eu não acreditei, mas agora... - respondeu Joana, a criada que viera de São Paulo com a família. Eulália não se conteve:

- Vocês estão inventando histórias. Liana teve um pesadelo. Foi só isso. Não quero que assustem as crianças com idéias disparatadas.

- Ela descreveu direitinho o coronel Firmino. Minha avó conheceu ele e me contou como era - respondeu Maria. - Foi a alma dele que apareceu aqui, tenho certeza. - Quem morre não volta mais. Deixe de ser boba. Se continuar repetindo isso, serei forçada a despedi-Ia. Eurico é medroso, e se ele se impressionar pode piorar. Liana teve um pesadelo e eu não quero ouvir mais ninguém falando em alma do outro mundo. - Sim, senhora. Não vou falar mais nada - garantiu Maria. Quando Eulália saiu da cozinha, ela disse baixinho para Joana: - Mas que era ele, isso era. - Melhor não comentar.

- Ele pode aparecer de novo.

- Cruz credo! Nem me fale!

Calaram-se, porque Hilda acabara de entrar.

Os meninos haviam tomado o café e se reunido na sala de aula à espera do professor. - Vocês ouviram os gritos ontem à noite? - perguntou Eurico. - Eu ouvi - respondeu Nico. - Me levantei e ia ver o que era quando a Dona Hilda apareceu e disse que não era nada de mais. Me mandou dormir.

- Foi tia Liana. Acho que ela estava com medo - tornou Eurico. - Ela viu alma do outro mundo - contou Amelinha.

Os dois se interessaram:

- Viu?

- Onde?

Amelinha, observando o interesse deles, fez uma pausa para valorizar mais o que ia dizer, depois considerou:

- A alma do coronel. Eu ouvi Maria contando para Joana que ela gritou porque viu a alma dele.

- Como é que ela sabe? Já o viu? - indagou Nico.

- A avó dela, que o conheceu, contou como ele era - respondeu Amelinha, satisfeita por dar a novidade.

- Então foi por isso. A Liana se assustou.

85 - Eu ia descer, mas Hilda entrou logo e não deixou. Ela nunca me permite fazer o que quero - tornou Eurico.

- Ela quis proteger a gente. E se a alma penada ainda estivesse lá! Você ia ficar com medo - respondeu Nico.

- Ia. Mas agora ela também viu e eles iam acreditar em mim.

O professor, que entrara na sala e ouvira parte da conversa deles, aproximou-se dizendo:

- Estão comentando sobre o que aconteceu esta noite?

- Sim - respondeu Nico.

- Ouvi Maria dizer que tia Liana viu alma do outro mundo - explicou Amelinha.

- E por isso ela ia acreditar em Eurico. Você também tem tido esses pesadelos? - indagou o professor dirigindo-se ao menino.

- Melhor não falar nisso. Sempre que eu falo, eles me levam ao médico e tenho de tomar remédios que me deixam tonto.

- Ele é medroso - interveio Amelinha. - Dorme de luz acesa, chora de medo. Alberto aproximou-se de Eurico e sentou-se a seu lado, dizendo:

- Não precisa ter medo de mim. Não vou mandá-lo ao médico. O que Amelinha está dizendo é verdade? Você sente medo do quê?

- Essa linguaruda não sabe guardar segredo. Não vou contar nada perto dela. - Se você pedir para ela não contar, tenho certeza de que ela vai atender. Amelinha é uma menina muito inteligente, vai respeitar sua vontade. Afinal o segredo é seu. Se dividir com ela, é porque confia. Voltando-se para a menina, perguntou: - Ele pode confiar em você! Sabe guardar um segredo?

- Sei.

- Foi o que pensei. Dividir um segredo é uma grande prova de amizade e de confiança. Ele pode não ser muito importante para quem escuta, mas sempre é muito importante para quem conta. Por causa disso, sempre que alguém confia em nós um segredo, devemos guardá-lo e nunca falar dele a ninguém - explicou Alberto.

- Eu entendi. Se alguém me contar alguma coisa e pedir segredo, não vou contar a ninguém - respondeu Amelinha.

- Nesse caso, Eurico, você pode contar do que é que tem medo disse o professor.

- Nico sabe guardar segredo. Ele já sabe de tudo. Mas vocês têm de jurar que não vão contar para Hilda, para mamãe ou papai.

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Depois que os dois juraram, ele continuou:

- Tenho medo de algumas pessoas que aparecem em meu quarto durante a noite. - Aparecem como? - perguntou Alberto.

- Aparecem. Um homem velho, de botas e chapéu, uma mulher com um chicote. Eles brigam. Às vezes querem que eu vá embora. Dizem que a casa é deles. Aí eu acendo a luz e eles desaparecem.

Alberto estava sério. Eurico descrevera o mesmo homem que Liana vira. Seria mesmo o espírito do coronel Firmino, como ouvira os criados comentar? Em todo caso, tudo levava a crer que o espírito dele estava mesmo andando por ali.

Ele acreditava na sobrevivência da alma após a morte. Estudara o assunto e sabia que os espíritos em determinadas circunstâncias podiam voltar e ser vistos por pessoas que possuíam essa sensibilidade. Eurico seria médium?

- Isso vem acontecendo desde que mudaram para esta casa? - indagou Alberto. - Eles me perseguem há muito tempo. Mesmo na outra casa. Eu sentia muito medo. - Você sabe rezar?

- Hilda ensinou o pai-nosso para fazer antes de dormir.

- Você faz?

- Não adiantava. Por isso eu parei.

- Repetir as palavras sem fé não vai mesmo adiantar. Precisa pensar em Deus e deixar seu coração falar. Uma oração sincera sempre dá resultado.

- Minha mãe fala isso - comentou Nico. - Eu sempre converso com Deus antes de dormir, pedindo proteção para as pessoas que eu gosto e para mim. Quando acordo, peço para ele abençoar e proteger o meu dia. Foi ela quem me ensinou. - Isso mesmo, Nico. Sua mãe sabe das coisas.

- Eu não sei conversar com Deus. Gostaria de aprender - disse Amelinha.

- Podemos treinar - concordou Alberto. - Hoje vamos fazer um exercício para pedir a proteção divina.

Alberto pediu que todos dessem as mãos, depois fez uma prece pedindo proteção e ajuda. Quando acabou, perguntou:

- Então? Aprenderam? Cada um deve fazer do seu jeito, com suas próprias palavras. 87

- Acha que Deus vai me ouvir? - perguntou Eurico. - Talvez ele esteja tão longe que nem escute.

- Ele está em toda parte. Mas está dentro de sua alma. Por isso ouve com facilidade tudo quanto seu coração fala. A alma sempre fala através do coração. - Meu coração não fala - disse Amelinha colocando a mão no peito. - Fala, sim. Mas não com palavras, e sim com sentimentos. Sempre que você sente alegria ou tristeza, é o coração que está falando.

- E quando a gente tem raiva? Também é o coração? - indagou a menina. - É, sim. Só que ele está dizendo para você olhar melhor as coisas e perceber que não está olhando do jeito certo.

- Hilda diz que é errado ter raiva - considerou Amelinha. - Você não é errada porque sente raiva. Ela só indica que está na hora de compreender que as coisas são do jeito que são e não adianta querer que sejam diferentes. Que você precisa aceitar os próprios limites, ser paciente consigo e dar-se tempo para aprender como chegar aonde você quer.

- Eu fico com raiva de Hilda porque tudo que eu quero fazer ela diz que eu não posso. Fica o tempo todo me vigiando - disse Eurico. Essa raiva também é do coração? - Claro. O que sua alma quer que você perceba quando mostra sua raiva e você sente? Você quer ser livre para fazer o que quiser sem ninguém que lhe diga o que e como fazer. Mas, como ainda é criança, precisa ser paciente e esperar crescer. Não adianta querer isso já. Só vai sentir-se impotente, incapaz. - A Dona Hilda só quer o seu bem - tornou Nico. - Ela cuida da sua saúde. É muito dedicada.

- Ela exagera. Bem podia me deixar em paz - respondeu Eurico. - Sua alma quer que você entenda também que, quando exagera os sintomas de sua doença para que todos façam o que você quer, está provocando mais a preocupação com sua saúde, aumentando a vigilância. Se mudar de atitude e não fizer mais desse jeito, Dona Hilda não vai mais vigiar e se preocupar com você e sua alma não vai mais criar o sentimento de raiva para que entenda isso.

- Eu faço isso para que eles me deixem em paz.

- Não é bem assim. Você exagera seus sintomas de doença para conseguir dominar, conseguir que todos façam como você quer.

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Seus pais ficam preocupados com sua saúde e Hilda aumenta a vigilância. Mas é você, com essa sua atitude, quem está provocando isso. Sua alma deixa que sinta raiva, perceba que é ruim, para que descubra e encontre um jeito melhor de obter o que deseja, sem tentar dominar os outros. A energia da raiva é a mesma força da coragem, da ousadia. Essa força, usada de forma inteligente, vai tornar você corajoso, forte, ousado. E esse sentimento é muito prazeroso.

- Todo mundo diz que ele é fraco! - disse Amelinha.

- Ele não é fraco, ele não encontrou ainda o jeito melhor de usar toda a sua força. Eurico é muito forte. Todos nesta casa só fazem o que ele quer. Mudaram-se para cá por causa dele. Só que ele não está usando sua força do jeito mais inteligente. - Por quê? Você não disse que eu sou forte? - indagou Eurico assumindo uma postura mais firme.

- Você é forte, mas, se estivesse usando sua força do jeito mais inteligente, estaria mais sadio e feliz. Você colocou sua força na fraqueza, mas sua alma quer que descubra que pode ser forte e viver melhor. É isso que ela está tentando dizer a você quando se sente incomodado e com raiva dos excessos de Hilda.

- Nunca pensei que a alma falasse com a gente! - tornou Nico. - Fala. Mas é preciso saber ouvir o que ela deseja dizer.

- Como aprender isso?

- É fácil. A alma sempre olha o lado bom. Só vê o bem.

- Mesmo quando faz sentir raiva? - indagou Amelinha.

- Sim. O bem é a linguagem da alma. É a linguagem de Deus. Qualquer sentimento que ela expresse e você sinta tem um recado para ensinar você a agir melhor e ser mais feliz. - Mesmo quando você acha que é um sentimento ruim?

- Mesmo. Até o ódio quer que você perceba a grandeza do bem. - Puxa! Eu não sabia disso - ajuntou Nico. - Não é errado odiar? - Não. Não é errado, mas não é bom. Faz mal. Deixa a pessoa infeliz. Já o amor é uma coisa boa. Dá alegria, bem-estar. Quando você sente ódio, a alma quer que perceba o quanto está longe da felicidade. Por isso, sempre que sentir ódio é bom se perguntar: o que eu quero agora, sentir-me mal ou ser feliz?

- Claro que ser feliz - tornou Amelinha. - Eu não quero me sentir mal. Quero ser sempre feliz. - Sua alma está ensinando que para isso precisa escolher a felicidade e jogar fora tudo que é ruim. Ficar com o bem.

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- Eu não gosto de sentir ódio - disse Nico, pensativo. - Você também sente ódio? - indagou Eurico.

- Faço força para não sentir, porque não gosto. Mas às vezes, quando percebo, já estou com tanta raiva... Aí, acho que estou errado, que sou um mau menino e que Deus vai me castigar por isso. Fico triste. Por isso, procuro esquecer, pensar em uma coisa boa. - O ódio é um sentimento muito desagradável. Quem o sente perde a paz, e isso acaba deixando o corpo doente. Mas você não é errado só porque sente ódio de vez em quando - esclareceu o professor.

- Não? Hilda diz que ter ódio é maldade e que Deus castiga - interveio Amelinha com convicção. - Eu tenho medo de ser castigada!

- Mas apesar disso você fica com ódio! Eu já vi! - disse Eurico. - Vamos conversar sobre nossos sentimentos. Quando as coisas ou as pessoas não fazem o que nós queremos, do jeito que nós pensamos que deveria ser, muitas vezes sentimos raiva. Isso nos faz mal, nos deixa tristes, contrariados, angustiados. Mas ficar com raiva só vai tirar nossa paz e não vai mudar nada. Apesar de nossa raiva, as pessoas e as coisas continuam do mesmo jeito.

- Isso é verdade - concordou Eurico. - Fico com raiva de Hilda, mas ela continua igual, e eu é que me sinto nervoso.

- Percebeu? - disse Alberto. - Você se maltrata, acaba com sua paz, fica indisposto, cria problemas com as pessoas, e os outros continuam do mesmo jeito. Quem é o maior prejudicado?

- Ele! - disseram os outros dois.

- Não só eu, vocês também - revidou Eurico.

- Todos nós fazemos isso quando não usamos bem a inteligência. - Eu quero ser inteligente! - disse Amelinha. - Mamãe diz que aprendo tudo com facilidade. - Todos aprendemos com facilidade. A inteligência é um dom que todas as pessoas têm - explicou Alberto.

- Minha mãe diz que se eu não estudar vou ficar burra e que vai nascer rabo e orelhas de burro igual ao Pinóquio.

- Você não vai ficar igual a um burro. Você é mulher, vai ficar igual a uma égua - interveio Eurico.

- Ninguém vai ficar burro. Todas as pessoas têm inteligência. Mas precisam aprender como a usar. Alguns já aprenderam e são mais felizes que os outros que ainda não sabem. - A gente pode aprender a ser inteligente? - indagou Nico interessado. - Eu quero ser inteligente, fazer muitas coisas boas e ajudar a minha família. 90

É por isso que às vezes sinto raiva de ser criança e de não saber fazer as coisas direito. - É por isso que sente raiva? - indagou o professor.

- É... mas às vezes fico com raiva do meu pai... - parou, envergonhado. - Pode falar - disse o professor. - Essa nossa conversa vai ser nosso segredo. Todos juramos e não vamos falar dela com ninguém.

- É... bem... ele bem que podia trabalhar, pelo menos um pouco! - Ficar com raiva dele por causa disso não vai fazer com que ele mude e resolva trabalhar. Sabe, Nico, a vida é como um jogo. Seu pai escolheu viver assim e pensa que está sendo inteligente vivendo sem trabalhar. Acredita que o trabalho é ruim e cansativo. Ainda não percebeu o quanto está perdendo nesse jogo.

- Mas eu penso diferente - considerou Nico. - Acho que trabalhar é gostoso e gosto de ser independente, ter o meu próprio dinheiro, não ser pesado para minha família. Por que meu pai não pensa como eu? - Porque as pessoas não são iguais. Cada um é diferente do outro. Seu pai é outra pessoa e vê a vida de outra forma.

- Por causa dele toda a nossa família sofre. Às vezes penso que ele não gosta de nós. - Não deve pensar assim. Ele gosta da família, do seu jeito. É o melhor que ele sabe fazer por agora. Não adianta você esperar que ele faça o que você acha que é certo porque ele não vê assim. Está acomodado, não percebe ainda as vantagens do trabalho. - Gostaria que ele mudasse...

- Um dia ele vai aprender. Todos nós aprendemos. A vida ensina. Você precisa ter paciência, compreender seu jeito de ser, não ficar esperando o que ele ainda não sabe fazer. Se não esperar que ele mude, não sentirá mais raiva por ele ser do jeito que é. Se você pegasse um livro e desse para alguém que nunca aprendeu a ler, ficaria com raiva se ele não conseguisse lê-lo?

- Claro que não - respondeu Nico.

- Pois é a mesma coisa. Seu pai ainda não sabe como é bom ganhar dinheiro, trabalhar, ser independente. Não adianta ficar com raiva dele só porque ainda não sabe disso. - É verdade, professor. Como não pensei nisso antes?

- Por outro lado, ser criança, não poder ainda fazer as coisas do jeito que você gostaria é só uma questão de tempo e de paciência. Você está crescendo e um dia estará adulto, livre para fazer tudo que quiser.

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Ao invés de ficar com raiva, é melhor aproveitar o tempo para aprender o mais que puder, preparando-se para quando for usar. Isso é ser inteligente! - Eu também quero ser inteligente! - tornou Eurico. - Mas não sei para que devo estudar se meu pai tem dinheiro, se sou doente e nunca vou precisar trabalhar. - De onde tirou essas idéias? Os médicos não encontram doença em você! - Sei que quer me animar, mas eu não tenho jeito mesmo. Nunca serei como os outros meninos. Todos em casa dizem que sou muito fraco, que não agüento nada. - Pois eu não acredito nisso. Você é um menino forte, inteligente.

Se quiser, vai poder fazer tudo que os outros fazem - afirmou o professor. Eurico abanou a cabeça negativamente:

- Não precisa tentar me encorajar. Já me conformei.

- Não quero que se conforme. O mundo tem muitas coisas boas a oferecer para quem tem a ousadia de buscar. Tenho certeza de que você vai reagir, sair dessa situação em que se colocou e querer tudo a que tem direito. Seu pai é rico, e, mesmo não precisando ganhar dinheiro para se sustentar, você não vai agüentar viver toda a vida sem fazer nada. É horrível. Interessar-se pelas coisas, criar, aprender, tudo isso faz parte de nossa natureza. É um prazer do qual você não vai querer se privar. Tenho notado que você gosta de aprender. - Ele ouve as minhas histórias com muito interesse! - disse Nico. - Suas histórias são diferentes! Você fala dos passarinhos, das plantas, conta do jeito que eles são. Aí, eu olho e vejo que é tudo verdade respondeu Eurico.

- Você aprecia a natureza! - disse Alberto, interessado. - Pode tornar-se um fazendeiro, criar gado ou ser um agricultor, plantar e colher.

- Ele pode ser fazendeiro, igual ao coronel Firmino, que construiu esta casa! - tornou Nico. - Não quero ser igual a ele. Era um homem mau - respondeu Eurico. - Como sabe? Você não o conheceu! - retrucou Amelinha. - Sei porque ele está sempre zangado. Não gosto da cara dele. - Você pode ser fazendeiro como ele foi, sem ser igual a ele. Fazer do seu jeito - interveio Alberto.

- Ser fazendeiro é viver sempre com os passarinhos, as plantas, os animais. Você ia gostar, tenho certeza - garantiu Nico. - Seu pai é rico mesmo, pode comprar uma fazenda e pronto. 92

- Mas para cuidar dos animais, da plantação, precisa estudar bastante - esclareceu o professor.

- Vou ter empregados para fazer tudo - resolveu Eurico.

- Os outros vão fazer do jeito deles. Você vai querer tudo do seu jeito. Por isso tem de aprender o modo de fazer as coisas para que fiquem como você quer. Hilda apareceu na porta avisando que era hora do almoço. O professor levantou-se, dizendo:

- Eu ia recapitular as aulas da semana, mas fica para segunda-feira. Vamos parar agora. Amelinha pôs o dedo nos lábios dizendo baixinho:

- Temos nosso segredo agora. Quem falar vai morrer seco. - Eu não falo - disse Eurico.

- Nem eu - disse Nico.

O professor aprovou com a cabeça e foram se preparar para almoçar. 93

Capítulo 7

Nico acordou sobressaltado. Eurico estava na frente dele, tremendo. - O que foi, Eurico? Está passando mal?

- É ele! Ele voltou e está querendo me pegar!

Nico sentou-se na cama de um salto.

- Alma do outro mundo não pega ninguém. Não pode!

Eurico agarrou-se a ele:

- Eu estava dormindo e ele puxou minhas cobertas. Então eu acordei e vi. Ele estava na minha frente. Estou com medo!

Nico abraçou o amigo, dizendo:

- Você estava sonhando! Não tem nada aqui. - Não estava. Eu o vi. Você também não acredita? É verdade. - Eu acredito. Mas não precisa tremer desse jeito. Pode se sentir mal..Acho melhor tomar um copo de água e se acalmar.

- Na cozinha eu não vou de jeito nenhum. Foi lá que tia Liana o viu naquele dia. - Pois eu não tenho medo. Eu vou buscar a água.

- Não quero ficar sozinho aqui. Você não vai.

- Não precisa me segurar. Eu não vou. Mas você está muito nervoso. Um copo de água com açúcar ia fazer bem. Quando a Nilce tem pesadelo, a minha mãe sempre dá água com açúcar e ela se acalma.

- Não quero ficar sozinho.

- Vamos juntos.

- Isso é que não. Ele pode estar lá.

- Se ele aparecer, eu falo com ele. Não tenho medo.

- Deus nos livre! Você não vai fazer isso!

- Faço. Ele que me apareça! Onde já se viu ficar assustando todo mundo? Minha mãe diz que as almas do outro mundo só aparecem quando querem alguma coisa. - Que coisa?

- Não sei. Alguma coisa que elas não fizeram quando estavam no mundo e querem que a gente faça para elas.

- Por que elas não fazem de uma vez?

- Porque não podem. Elas não têm mais corpo. Como é que iam fazer as coisas? 94

- Isso é mentira. Eu as vejo com corpo.

- Bom, isso eu não sei. O corpo de quem morre apodrece debaixo da terra. - Eu tenho medo! - lamentou-se Eurico.

- Puxa, você está gelado! Vamos para o seu quarto, quero ver se ele ainda está lá. Os dois foram ao quarto de Eurico, Nico na frente e o outro agarrado a ele. - Veja: não tem nada aqui. Ele já foi embora. Pode deitar e ficar sossegado. - Você vai ficar aqui comigo.

- Eu fico.

Eurico acomodou-se e Nico sentou-se na cama.

- Você vai embora quando eu pegar no sono! Aí ele vai voltar. - Vamos deixar a luzinha do abajur acesa. Qualquer coisa, você me chama.

- Não quero. Você vai dormir aqui, comigo.

- Sua mãe não vai gostar.

- Que me importa? Você é ou não é meu amigo?

- Está bem, mas vou para minha cama assim que amanhecer. - Está certo. De dia eles nunca aparecem.

Nico acomodou-se ao lado de Eurico.

- Não vá dormir antes de mim.

- Fique tranqüilo. Estou acordado.

Eurico suspirou aliviado. Sentia-se seguro com Nico a seu lado. Aos poucos foi se acalmando e adormeceu. Nico por sua vez fechou os olhos e logo pegou no sono. Sonhou que estava andando pelo quarto quando entrou um homem de idade, calçando botas de montaria e chapéu.

- É o coronel Firmino - pensou ele admirado.

Ele parou diante de Nico, dizendo irritado:

- Por que se mete em meu caminho? Quer que eu acabe com você de novo? Nico olhou-o como se já o conhecesse há muito tempo:

- Você não pode. Aquele tempo passou. Não tenho medo de você. O coronel fulminou-o com o olhar:

- Está me desafiando? Não aprendeu ainda que tenho poder e todos devem me obedecer? Nico olhou-o nos olhos, dizendo com voz firme:

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- Você já morreu. Tudo acabou. Agora você não pode mais nada. - Continua me desafiando?

- Não. Mas você está assustando um menino doente, e isso é covardia. - Ele agora é um menino, assim como você. Mas não conseguem enganar-me com esse corpo diferente. Eu não esqueci. Vocês desgraçaram minha vida e ainda voltam para rir de meus sofrimentos. Não posso permitir isso!

- Não estamos rindo de nada. Só queremos ficar em paz. Você já morreu. Por que não vai viver no seu mundo?

- Eu estou vivo! Não está vendo?

Nesse instante chegou uma mulher de rosto calmo e belo que se aproximou dele, dizendo com voz firme:

- Deixe-os em paz, Firmino. Vá embora.

Ele olhou para ela e estremeceu. Depois saiu e ela o acompanhou. Nico acordou, sentando-se na cama admirado. Fora um sonho! Mas ele ainda sentia a presença deles e recordava-se de todas as palavras.

Estaria tão impressionado com o que Eurico dissera que sonhara? Parecia-lhe que tudo acontecera mesmo, que ele havia conversado com a alma do coronel Firmino. Não compreendia por que ele lhe dissera aquelas palavras. Não sentira medo. Por que ele lhe parecera conhecido?

Talvez por ouvir falar muito dele.

O dia já estava amanhecendo e Nico continuava pensando no sonho, e quanto mais pensava mais lhe parecia que tudo acontecera mesmo.

Foi para seu quarto e continuou pensando no assunto, sem poder conciliar o sono. Na tarde do dia seguinte, Liana procurou o professor Alberto para conversar. Queria algumas informações sobre um tema que estava estudando. Admirava seu modo claro e direto de olhar as situações e a maneira simples e prática que ele usava para ministrar suas aulas.

- Quero aproveitar esses dias de folga para estudar um pouco mais. - Até quando estará de licença?

- Tenho um mês para me recuperar.

Ele olhou para ela com curiosidade.

- Não está doente.

- Não. O médico não encontrou nenhuma doença. Entretanto, ando nervosa, não consigo dormir. Acordo sobressaltada, com medo. Perdi o apetite, o prazer de trabalhar. Não sei o que está havendo comigo.

- Desde que você levou aquele susto na cozinha?

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- Foi. Às vezes penso que aquela aparição horrível está atrás de mim, ou que ele vai aparecer na frente da escada de uma hora para outra, como naquela noite. Alberto ficou calado por alguns segundos, depois disse:

- Você está muito impressionada com o que aconteceu.

- Estou. Com o passar dos dias, ao invés de esquecer eu fico mais nervosa. - Ele não lhe pode fazer nenhum mal.

- Como sabe? Você não o viu! Ele estava ameaçador.

- Não passa de um pobre infeliz, sofrido e amargurado.

- Como assim?

- Dizem que era o espírito do coronel Firmino. Ele morreu e continua preso aos problemas que tinha quando vivia no mundo. É um espírito sofredor, não tem poder de fazer mal. - Como pode dizer isso com essa calma? Você está falando da alma de quem já morreu! - E o que é que tem de mais? Todos nós vamos morrer um dia, e isso não nos fará melhores nem piores do que somos agora. Creia, Liana, o fato de ele estar morto não significa que tenha poderes especiais.

- Queria só ver se ele aparecesse para você!

- Não nego que deve ser assustador, principalmente pelo inesperado. Mas eu tentaria conversar com ele, rezar, não teria medo.

- Você parece entender do assunto!

- Tenho estudado certos fenômenos de mediunidade. Tenho certeza de que a vida continua após a morte do corpo de carne e que somos todos espíritos eternos. - Eu também acredito que, de certa forma, a algum lugar devem ir as almas dos que morreram neste mundo. Mas o que apavora é vê-Ias aqui, à nossa volta. - Isso ocorre porque você faz da morte uma idéia muito dramática. Pelo que tenho aprendido, a passagem desta para a outra dimensão da vida não é dolorosa. - Como pode saber?

- Há pessoas que têm sensibilidade e podem se comunicar com os espíritos desencarnados. - Ouvi falar, mas não acredito. Tudo não passa de alucinação. - Assim como você? - Eu vi aquele homem. Quem era, por que desapareceu, eu não sei. Mas eu vi e tenho certeza disso.

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- Pois é. Você viu. Só que por sua descrição as pessoas o reconheceram como sendo o coronel Firmino. Você viu o espírito de um morto!

- Não fale assim, que fico arrepiada.

- Deve aceitar essa realidade. Você o viu e esse fato pode se repetir. Não só com ele, mas também com outros espíritos.

- Não quero ver nada. Não gosto dessas coisas.

- A sensibilidade é um atributo natural do ser humano. Quando ela se abre, é inútil querer evitar. Por isso a aconselho a estudar melhor esses assuntos para saber lidar com a situação quando voltar a acontecer.

- Tenho vinte e dois anos e nunca tinha visto nada assim. Não quero e não vou ver mais nenhuma alma do outro mundo. - Há pessoas que gostariam muito de ter essa possibilidade. - Por quê? - Obter provas de que a vida continua depois da morte modifica toda a nossa maneira de compreender o mundo. A certeza de que as pessoas que nós amamos e que já morreram continuam vivas em algum lugar e que um dia tomaremos a ver alivia nosso sofrimento, conforta, mostra que a vida é muito mais do que podemos supor. - Pode ser. Mas esses assuntos me fazem mal. Fico inquieta, arrepiada, sinto frio. Agora quero esquecer o que aconteceu naquela noite. Infelizmente está sendo difícil. - Você está com medo, Liana. E o medo só desaparece quando é confrontado. - Como assim?

- Fazendo exatamente aquilo de que tem medo.

- Isso é loucura! Não quero nunca mais encontrar aquele homem! - Pois eu, se estivesse em seu lugar, se estivesse com medo dele, tentaria evocá-lo, falar com ele frente a frente, e descobrir o que ele deseja e por que está ainda circulando nesta casa tantos anos depois de sua morte.

- Você fala como se ele fosse uma pessoa como nós e pudesse compreender.

- Ele é uma pessoa e pode compreender. Mas é preciso conversar com ele, tentar saber.

- Ele estava reclamando de nossa presença. Disse que a casa é dele.

- É o que ele pensa, uma vez que continua aqui. A casa foi dele. É preciso que ele saiba que agora tudo é diferente. As coisas mudaram. - Eu não tenho coragem. Não quero vê-lo nunca mais.

- Vamos esperar que seja assim.

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No dia seguinte, durante a aula, de repente Nico perguntou: - Professor, o senhor acha que a alma de gente morta pode aparecer dentro do sonho e conversar com a gente?

- Depende, Nico. Por que pergunta?

Ele olhou indeciso para Eurico, que lhe acenou para que se calasse. - Não é nada, não. Só curiosidade.

Alberto não se deu por achado:

- O que é que Eurico não quer que você fale?

Nico olhou para o amigo e não respondeu.

- Olhem aqui, vocês dois. Nós fizemos um trato, temos nossos segredos, somos amigos. Se vocês não confiam em mim, como é que posso me sentir? Eu nunca traí nenhum de nossos segredos.

- É que o Eurico não gosta de falar desse assunto. Ele fica nervoso - esclareceu Nico. - Ele fica nervoso, e nesse estado fica difícil encontrar solução para o que o está incomodando. Se nós conversarmos sobre isso, juntos poderemos encontrar uma idéia boa que o ajude a ficar melhor.

- O que está acontecendo que eu não sei? - fez Amelinha. - Eu também tenho guardado os segredos. Não falei nada a ninguém.

- Está bem, Nico, pode contar - autorizou Eurico.

- É que anteontem ele me acordou nervoso, tremendo. Disse que a alma do coronel Firmino puxou as suas cobertas e apareceu do lado da sua cama.

- Você também o viu? - perguntou Amelinha. - Veja se não fala disso a ninguém. Senão você vai morrer seca ameaçou Eurico. - Ela não vai dizer nada - interveio Alberto. - Continue, Nico. - Pois é. O Eurico estava com muito medo e eu fui deitar na cama dele e prometi não dormir antes dele. Ele dormiu e depois eu peguei no sono e então eu sonhei que o coronel estava ali falando comigo.

- O que foi que ele disse? - indagou Alberto com interesse. Nico contou o que conversara com o coronel Firmino. E finalizou: - O engraçado é que eu tinha certeza de que o conhecia há muito tempo. Será que foi porque tenho pensado nele por causa do que tem acontecido? Minha mãe sempre falava nele e, agora, aqui também se fala. Será que fiquei impressionado?

- Pode ser, Nico. Mas eu gostaria que você prestasse atenção. Se sonhar de novo com ele, quando acordar, escreva em um papel tudo quanto conversaram. 99

- Para quê? - perguntou Eurico.

- Para nós estudarmos e descobrirmos a verdade, por que o espírito do coronel tem aparecido por aqui.

- O senhor acredita em mim? - tornou Eurico.

- Claro que acredito. Você é um menino inteligente e saudável. Não iria inventar essa história.

- Ele é doente - disse Amelinha.

- Ele foi doente - corrigiu o professor. - Ele agora não tem doença nenhuma. Quando ele acreditar nisso, vai ficar forte e muito bem. - O senhor acha que vou poder ser igual a Nico? - Você não vai ser igual a Nico porque cada pessoa é diferente. Mas você é tão saudável quanto ele.

- Vou poder subir em árvore como ele, correr e pular?

- Se acreditar que pode, vai acontecer.

- Puxa! Vou fazer tudo para acreditar.

- Agora vamos à nossa aula de hoje. Vocês trouxeram as sementes, os galhos e as folhas que eu pedi?

Eles concordaram com prazer e se interessaram pela aula. Antes que o professor se despedisse, Eulália procurou-o, convidando-o para jantar naquela noite.

- Norberto chega hoje à tarde com o Dr. Mário e nós teríamos muito prazer em que o senhor comparecesse.

- Virei, Dona Eulália. Obrigado pelo convite.

Ele havia se mudado para uma casa que decorara de maneira simples mas com bom gosto. No quarto mais espaçoso fizera seu dormitório; no outro, um pouco menor, o quarto de vestir; no terceiro, o escritório com seus livros e a inseparável máquina de escrever. Na sala, alguns objetos de arte, poltronas confortáveis e um sofá. Quando se mudou de São Paulo ele guardou seus móveis em um depósito. Tendo encontrado a casa para alugar, mandou buscá-los. Gostava de conforto e ordem. Não deixava faltar flores nos vasos e no pequeno jardim em frente à varanda.

Alberto era caseiro. Quando não estava na mansão, permanecia largo tempo escrevendo no escritório, lendo, estudando. Às vezes, à noite, sentava-se na varanda ouvindo música, ora lendo, ora deixando-se ficar pensativo, olhos perdidos em um ponto distante.

A princípio, despertara curiosidade nos habitantes da pequena cidade, mas depois, como ele era naturalmente reservado, acabaram acostumando-se com sua maneira de ser. Apesar de ser discreto, Alberto estranhou que Norberto chegasse naquela tarde. 100

É que ele costumava voltar só nos fins de semana. Por que teria vindo em plena quarta-feira? O engenheiro viria com ele, o que o fez pensar que o assunto se relacionasse com a manutenção da casa.

Apresentou-se pontualmente às sete, conforme Eulália pedira, e já os encontrou reunidos conversando na sala. As crianças estavam no quarto e só apareceriam na hora do jantar. Logo na chegada Alberto sentiu que havia alguma coisa diferente no ar. Norberto estava com certo ar solene, Eulália um tanto inquieta e Mário muito introspectivo. Liana, mais falante que seu natural.

Depois do jantar as crianças se recolheram, e, uma vez sentados na sala enquanto Norberto conversava com o professor, muito interessado no progresso das crianças, Eulália chamou Liana e Mário para ver uma escultura de bronze que ela ganhara de uma amiga e que mandara instalar no jardim.

Somente quando Eulália voltou sozinha alguns minutos depois foi que Alberto começou a desconfiar do que estava acontecendo. Quando Norberto saiu para apanhar um livro, Eulália aproveitou o momento e confidenciou:

- Estou tão nervosa! Mário pediu a Norberto a mão de Liana em casamento. Como nossa mãe morreu e nosso pai está fora do Brasil, ele achou por bem falar com Norberto. - E ela, aceitou?

- Não sei. Norberto disse sim, no que se refere a nós dois, mas é ela quem vai dizer se quer ou não. Por isso eu os levei para o jardim para que pudessem conversar. Tomara que dê certo. Mário é uma excelente pessoa.

Norberto voltou com um livro nas mãos, e Eulália calou-se. Sabia que ele não gostava que comentasse os assuntos de família com os amigos.

Alberto estava curioso. Liana era muito jovem e bonita, além de tudo inteligente. Bem que ele notara o interesse do engenheiro nas vezes em que estivera na mansão. Mas pensava que ela não se interessava por ele. Estaria enganado?

Era um cético com relação ao casamento. Saíra de uma experiência muito desagradável e havia jurado nunca mais se apaixonar. Seria uma pena que uma moça como Liana, tão cheia de vida, de beleza, se enterrasse em um casamento. Dentro de pouco tempo teria se transformado em uma matrona sem graça, às voltas com problemas domésticos. Seus pais, de família abastada, haviam se separado quando ele era criança. Mas ele se sentira melhor depois disso, porque eles viviam brigando. 101

Depois da separação, ele e a mãe conseguiram manter uma vida mais agradável, até que ela se apaixonou de novo, mostrando-se disposta a refazer sua vida, e foi morar com ele. Alberto, que já estava na faculdade e escrevia para um jornal, não quis morar com ela. Arranjou um emprego e foi morar sozinho. Sua mãe assumiu a nova vida, mas dentro de pouco tempo estava se queixando de novo.

Ele havia se apaixonado por uma colega e foi correspondido. Ficaram noivos e marcaram a data do casamento. Ele já havia escrito dois livros que tinham sido muito elogiados pela crítica. Pensando em casar-se, tratou de ajuntar dinheiro. Sua noiva era de família abastada e ele se esforçou para montar uma casa confortável e bonita. Casaram-se e ele se sentia muito feliz. Entretanto, logo descobriu que Eugênia não era como ele gostaria. Mimada, exigente, queria que ele ficasse todo o tempo a seu lado, cobrando atenção, cheia de ciúme, reclamando pelas mínimas coisas.

Dentro de pouco tempo ele já não suportava mais ouvir sua voz chorosa, sempre reclamando de alguma coisa. Por mais que ele se esforçasse para que ela ficasse feliz, nunca conseguia. A insatisfação dela era constante, responsabilizando-o por sua infelicidade, exigindo cada vez mais. Resolveu separar-se. Estava arrasado, sem energia, de mal com a vida, completamente perdido. Mas não foi fácil livrar-se dela. Dizendo-se infeliz, ameaçava suicidar-se, o que fazia a família dela procurá-lo para exigir, suplicar que ele voltasse. A primeira vez ele voltou, e ela jurou que iria mudar. Mas dentro de pouco tempo tudo estava como antes.

Por fim ele resolveu separar-se de uma vez. De nada adiantaram as ameaças dela, da família, nem os pedidos. Ele sentia que não tinha mais forças para suportar a presença dela. Irritava-o até o som de sua voz. Foi muito difícil para ele recuperar o equilíbrio. Durante mais de três anos eles o perseguiram para que retomasse o casamento. Mas Alberto resistiu. Até que aos poucos eles começaram a espaçar os contatos. Decidido a acabar de vez com esse problema, Alberto resolveu mudar-se sem dizer a ninguém o endereço. Só sua mãe sabia onde ele se encontrava e ele a fizera jurar que nunca diria a ninguém. Ali, em meio àquelas pessoas simples, a seus livros, a seus estudos e . às crianças, havia conseguido restaurar completamente sua paz interior. Sentia-se de novo de bem com a vida. Por isso, torcia para que Liana dissesse não ao Dr. Mário. Não tinha nada contra ele, mas pensava que seria uma pena eles se amarrarem no casamento. Quando Liana e Mário entraram novamente na sala, Alberto olhou os tentando descobrir se ela havia dado o sim.

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Como eles continuassem conversando normalmente, como se nada houvesse acontecido, ele se perguntou se Mário teria realmente feito o pedido. Uma hora mais tarde, ao se despedir, Eulália acompanhou-o até a porta e Alberto arriscou baixinho: - E então? Ela disse sim?

- Ela pediu alguns dias para pensar - sussurrou Eulália. - Vamos torcer. - Está bem. Boa noite, Dona Eulália, e obrigado pelo jantar. - Boa noite, professor.

Alberto voltou para casa pensativo. Liana não estava apaixonada por Mário. Se estivesse, teria dado o sim imediatamente. Isso lhe deu esperança de que ela não o aceitasse. Sentia que Eulália faria tudo para convencê-la a casar-se. Contudo, Liana parecia-lhe ser independente e não se deixar influenciar muito pela irmã. Na manhã do dia seguinte, quando chegou para a aula na mansão, Alberto encontrou Liana sentada em um banco no jardim. Parou para cumprimentá-la. - Estou lendo um livro muito interessante sobre comportamento - disse ela depois de responder seus cumprimentos. - Você nunca me falou a respeito de seus livros. - Você nunca perguntou.

- Norberto disse que você é um filósofo.

Ele riu com gosto.

- Eu não ousaria dizer isso. Sou um estudioso da vida, das pessoas. Acredito no potencial do ser humano.

- Olhando as limitações de muitas pessoas, os problemas da miséria e das desigualdades sociais, é difícil acreditar nisso.

- Você olha os reflexos daqueles que ainda não descobriram a própria força. Mas, mesmo que eles ainda não saibam, ela está lá. Quem descobre o próprio poder, a própria capacidade, acaba derrotando a pobreza e se tornando um vencedor. A dificuldade está em acreditar que tem capacidade. .

- Você é um otimista. Eu acredito que o meio seja elemento fundamental para o desempenho de alguém. Observando a pobreza de ideais, de perspectiva das famílias de meus alunos, acho difícil que eles venham um dia a conquistar uma vida melhor. Eles vão ser exatamente como seus pais: lavradores pobres, incultos, limitados. 103

- Vejo os fatos de forma diferente. O meio pode pressionar, mas só vai dominar aquele que ainda não descobriu a própria capacidade. Veja o caso de Nico, por exemplo. Ele é muito diferente do resto de sua família. Tenho certeza de que um dia ele vai conseguir tudo que deseja, tornar-se uma pessoa bem-sucedida.

- Ele é uma exceção.

- A exceção demonstra que as regras não são confiáveis. Nunca ouviu dizer que quem é bom já nasce feito?

- Já. Esse é um ditado popular antigo.

- Uma grande verdade. Quem tem evolução confia em si mesmo, acredita que é capaz e vai atrás de seus objetivos.

- Você acredita em evolução?

- Claro. Como explicar as desigualdades, os níveis de conhecimento das pessoas sem a evolução?

- Você está falando de Darwin?

- Estou falando de reencarnação. De vidas passadas.

Liana admirou-se:

- Vidas passadas? De onde tirou essa idéia?

- Observando. Estudando os fenômenos espirituais. Hoje, tenho absoluta certeza de que nós já vivemos outras vidas antes desta.

- Você me deixa arrepiada com esse assunto.

- Desculpe. Falemos de outra coisa.

- Não. Estou curiosa. Você é um homem inteligente, um escritor. Como pode acreditar em uma coisa dessas?

- Já disse. Pela experiência. Estudando certos fatos. Observando a vida, que sempre procura dar o melhor ensinando a cada um como encontrar o jeito certo de ser feliz. - Não é esse o conceito que eu tenho da vida. Pelo que tenho visto, há dor, sofrimento, violência, falsidade. É difícil acreditar no potencial do ser humano quando vemos tantos desencontros e tantos problemas no mundo.

- Você não está olhando com bons olhos. Quando valoriza o mal, está aumentando a desgraça do mundo. - Eu não valorizo o mal! De forma alguma. Estou justamente lamentando o estado caótico de nossa sociedade.

- Quando está lamentando, está vendo o lado ruim. Está valorizando o mal. Está dizendo para a vida que o mundo é mau.

- E isso não é a realidade?

- Não. Essa é a forma como você vê. Há muitas pessoas vivendo bem, estudando, aprendendo, desenvolvendo conhecimentos e aptidões, crescendo. 104

E as que estão enfrentando duros desafios certamente com eles estão desenvolvendo o próprio poder, aprendendo a lidar com situações, emoções. Creia, Liana, a vida é a melhor professora, porque ensina praticando, criando situações para que possamos experienciar e aprender qual o melhor caminho para cada um de nós.

- Há situações que criam desespero e dor.

- Mas há também nosso desejo de ser feliz, de encontrar uma vida melhor. E essa vontade dentro de nós nos impulsiona a buscar sempre um meio de vencer a dor, a infelicidade. Quando uma atitude nossa não dá o resultado que esperávamos, o jeito é repensar, é entender que ela não foi adequada, e procurar mudá-Ia, experimentando até encontrarmos outra melhor. É pelos resultados que descobrimos se estamos agindo a favor da vida ou não.

- Você tem idéias extravagantes. Como é agir a favor da vida?

- Respeitando a natureza. Sendo verdadeiro, natural. Não se sujeitando a papéis sociais. Quando você age de acordo com sua natureza, com o que é, as coisas deslizam com facilidade e tudo na vida dá certo.

- Às vezes é preciso agir pelo raciocínio. O coração é traiçoeiro. Costuma nos pregar peças.

- Ao contrário. O coração fala de nossa verdade. A cabeça, o raciocínio, quando voltado aos costumes da sociedade e distanciado do coração, cria ilusões, teorias, que acabam nos envolvendo em fracassos e frustrações.

- Aí é que está. Às vezes a gente se apaixona pela pessoa errada. Nesse caso, o coração não pode ser ouvido.

- O gostar de uma pessoa nunca é errado. O que fazemos em nome desse sentimento é que pode ser inadequado e trazer dor.

- O coração por vezes quer coisas impossíveis. Por isso, não concordo que é preciso seguir o que ele quer.

- Você tem medo dos próprios sentimentos.

- Falo em tese. Não estou colocando o que sinto.

- Vai se casar com o Dr. Mário?

- Ainda não decidi. Estou pensando.

- Você não o ama.

- Como sabe?

- Pela sua atitude.

- Ele é uma excelente pessoa. Qualquer mulher seria muito feliz a seu lado. - Se o amasse.

- Por que acha que não virei a amá-Io?

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- Porque em amor não entra o raciocínio. No casamento será preciso a intimidade. Como se entregar a ela sem amor?

- Você já foi casado?

- Já. Foi uma experiência infeliz.

- Estão separados.

- Sim.

- Você a amava?

- Eu acreditava amar. Meu sentimento não foi suficiente para agüentar as cobranças e as queixas dela. Nós éramos muito diferentes um do outro. Nunca daria certo. O relacionamento, a convivência acabaram me mostrando que nunca seríamos felizes juntos. - Sinto muito. Deve ter sido uma desilusão. Tem filhos?

- Não. Mas separar-me dela foi a melhor coisa que eu fiz. Retomei a posse de mim mesmo. - Não se sente só?

- Não. Gosto do que faço, cuido de mim muito bem. Não me falta nada.

- É disso que tenho medo. De acabar sozinha. Esse pensamento faz me pensar em aceitar o pedido de Mário.

- Você já deve estar se sentindo sozinha.

- É verdade.

- Se se casar com ele, esse sentimento não vai acabar. - Porquê? - Porque ninguém pode acabar com sua solidão, a não ser você mesma. - Como assim?

- Você pode estar em meio a muitas pessoas e mesmo assim sentir-se só. O sentimento de solidão aparece sempre que você se abandona, não faz o que sua alma quer. Creia, Liana, a solidão é olhar mais para fora de você, para as necessidades dos outros do que para as suas. É não ouvir seu coração.

- Por que está me dizendo tudo isso?

- Porque está prestes a tomar uma decisão importante para o resto de sua vida. Gostaria muito que optasse pelo melhor.

- O que você acha que eu deveria fazer?

- Eu não acho nada. É você quem precisa perguntar a seu coração qual seria a melhor resposta.

Liana olhou séria para ele e disse:

- Gostaria muito de ler um de seus livros. Poderia emprestar-me? 106

- Claro. Com prazer.

- Suas teorias são diferentes. Um pouco assustadoras.

- Nunca teorizo. Gosto mais de experimentar. Só escrevo sobre algum assunto quando tenho certeza. Não sou um intelectual. Interessa-me muito conhecer como as coisas funcionam.

- Por isso leciona de maneira tão diferente.

- O que me importa é que as crianças se interessem pelo conhecimento. Se eu teorizar, elas vão se entediar. No meu modo de ver, não são as crianças que precisam compreender o professor, mas o professor que deve mostrar os fatos ao nível delas. - Por isso você brinca com elas.

- Claro. Essa é a forma que lhes é familiar e lhes dá prazer. Descobrir a natureza, conhecer a história, aprender matemática, ciência, comportamento, é sempre interessante. - Nem todos os alunos entendem isso.

- Por causa da forma como esses assuntos são tratados. Sempre com arrogância, imposição, teorias e até falta de interesse do próprio professor. - Eu tenho muito interesse em ensinar. - Não me refiro ao interesse em ensinar, mas ao interesse pelos assuntos. Nós todos aprendemos de forma tão tediosa que perdemos o prazer de investigar, de pensar, de questionar as coisas e até de experimentar se elas são assim na prática. Repassamos conceitos, idéias que nos foram ditadas, e, de tanto repeti-Ias, acabamos por fazer isso sem nenhum prazer, apenas por obrigação.

- Você está sendo muito severo com os professores.