Quando Chega a Hora
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Norberto beijou-a delicadamente na face e Liana abraçou-a com alegria. - Que bom vê-Ia - disse.
- Fizeram boa viagem?
- Estava um calor sufocante - reclamou Norberto. - Mas afinal chegamos. Estou morto de sede e louco por um banho.
- Vamos entrar - convidou Eulália.
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Depois de servir água fresca a ambos e Norberto subir para tomar seu banho, Eulália acompanhou Liana para o quarto de hóspedes.
- Então, conseguiu resolver seus negócios em São Paulo? - Quase. Sabe que eles não queriam me dar a transferência? Se não fosse a recomendação do Dr. Euclides, eu não teria conseguido.
- Quer dizer que saiu?
- Saiu. Vou lecionar em Ribeirão Preto.
Eulália abraçou-a contente.
- Que bom! Assim terei companhia. Sabe como é: Norberto passa a semana inteira longe e tenho me sentido muito sozinha.
- Eu não via a hora de vir para cá. Depois que mamãe morreu, tenho me sentido muito só. Fiquei indignada quando papai levou aquela mulher para nossa casa. Mesmo que vocês não tivessem me convidado para morar aqui, eu teria saído de casa, ido para algum lugar. - Agora ele pode até se casar com ela!
- Deus nos livre! Depois de tudo! Se ele fizer isso, mamãe vai se revirar no túmulo. Eulália ficou pensativa por alguns segundos, depois disse: - Ela nunca o perdoou por ter se apaixonado por outra.
- Sei disso.
Eulália olhou séria para a irmã e continuou:
- Não sei por que ela suportou.
- Talvez para não se tornar uma desquitada!
- É uma boa razão. Em nossa sociedade o adultério para o homem é visto até como sinal de virilidade, mas a mulher desquitada sempre é olhada com maus olhos, mesmo sem ter culpa de nada.
Os olhos verdes de Liana brilharam quando ela disse:
- Ela pode ter feito isso por amor, por não querer a separação. - Não tenho certeza se ela o amava tanto assim Não creio muito no amor. O casamento é sempre um jogo de interesses. Eu era muito nova quando me casei, você sabe que eu não amava Norberto. Foi para obedecer a mamãe. Mas agora, depois de treze anos de convivência, aprendi a gostar dele. Tenho sentido muito sua falta depois que nos mudamos para cá. É uma questão de costume.
- Eu não teria obedecido se fosse você. Só vou me casar por amor. Os olhos de Eulália brilharam quando respondeu:
- Esse é um sonho difícil de se realizar. Tem visto Mário? - Ele me ligou algumas vezes, convidando para sair, mas eu estava sempre ocupada. Queria resolver tudo logo para voltar.
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- Ele me parece interessado em você. Não se declarou?
Liana sorriu e deu de ombros.
- Não. Acho que quis ser amável comigo por eu estar sozinha em São Paulo. Quis ser atencioso, agradar Norberto.
- Hum... Eu acho que não é nada disso. Ele olha para você de um jeito... - Se estivesse interessado em mim, teria me procurado, insistido. - Pode não ter querido forçar. Ele é muito educado.
- Por causa disso é que eu acho que está apenas cumprindo as regras da boa educação. - Não creio. Se ele pedir para namorar, você vai aceitar?
- Não sei. Nunca pensei nisso.
- É excelente pessoa, um bom partido, muito bem-parecido, elegante. Eu diria até que é um homem bonito.
- Não nego que é bonitão. Mas não estou apaixonada por ele, se quer saber. Eulália riu bem-disposta e acrescentou:
- Quer apostar como ele logo virá nos visitar?
- O que é natural. É muito amigo de Norberto, fez um belo trabalho na reforma desta casa. - É verdade. Nenhum outro teria feito melhor. Restaurou tudo com perfeição. A casa não só ficou linda mas também muito confortável.
- Você gosta daqui.
- Gosto. Confesso que vim somente para ajudar Eurico. Mas agora estou apreciando muito o lugar. É calmo, sossegado, cheio de pássaros e flores. Depois, até Eurico está dando sinais de melhora. Isso para mim é o mais importante. A única pena é que Norberto não pode ficar aqui o tempo todo. É muito cansativo para ele vir todos os fins de semana. Reparou como ele estava cansado quando chegaram?
- É verdade. O calor estava muito forte e ele transpirou e reclamou o tempo todo. Está fazendo esse sacrifício pelo bem-estar de Eurico. Se ele está melhor, está valendo a pena. - Está. Já tem até um amigo: Nico.
- Sei quem é. Mário fala nele com admiração.
- É um menino muito prestativo e inteligente. Apesar de vir de uma família simples, é muito educado. Sabe portar-se.
- Ótimo.
As duas continuaram conversando até quase a hora do jantar. Eulália saiu para cuidar de seus afazeres.
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Liana acompanhou-a até as escadas e na volta, ao passar pelo quarto de Eurico, ouviu risadas. Bateu delicadamente na porta e entrou.
Nico estava com um pano colorido nas costas, à guisa de capa, e segurava uma vara na mão enquanto Amelinha, com uma coroa de flores na cabeça e uma fita colorida na cintura, trazia nas mãos um pedaço de papel. Eurico, sentado em uma cadeira, assistia. Vendo-a entrar, eles ficaram parados.
- Não quero interromper - foi logo dizendo Liana. - Vim apenas dar um abraço. Amelinha correu para ela, abraçando-a:
- Que bom, tia!
Depois de beijá-Ia, Liana aproximou-se de Eurico, abraçando-o e beijando-o na face. - Como vai? Está melhor?
- Estou - respondeu ele sem entusiasmo.
- Como vai, Nico?
- Bem. E a senhora, fez boa viagem?
- Muito boa, obrigada. Vocês brincavam e eu interrompi. - Estávamos representando para Eurico. Eu era a princesa Miriam, e Nico o rei. Ele não queria que eu me casasse com o príncipe. Então ele deu três coisas perigosas para o príncipe fazer. Ele só vai consentir no casamento se ele vencer as provas. - E o príncipe, quem é? - Bom, ele disse que deveria ser Eurico. Mas ele ainda não decidiu se quer. Se ele não quiser, vai ter de ser Nico mesmo. Ele vai ter de fazer os dois papéis. - O Eurico vai fazer, sim - disse Nico. - Ele vai ser o herói, vencer todas as provas e se casar com a princesa! Aí o próprio rei vai ter que fazer o casamento. - Vai ter bolo de noiva e tudo! - disse Amelinha, contente. - O casamento não vai ser hoje - disse Nico. - Está quase na hora de jantar e eu tenho que ir embora. Só fizemos o primeiro ato. Vamos continuar amanhã. Precisamos de tempo para preparar as roupas. Minha mãe sabe fazer roupas de papel crepom. - O da princesa tem de ser azul, da cor do céu! - disse Amelinha. - A coroa tem que ser dourada. Toda de ouro - completou Nico. - E a roupa do príncipe? - indagou Eurico. - Bom, ela pode ser da cor que você gostar. Agora, as jóias precisam ser brilhantes e a espada tem que ser de prata.
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- Onde vão arranjar o material? - indagou Liana.
- Vou pedir a mamãe para comprar o papel - disse Amelinha. - Eu tenho alguns colares e pulseiras que poderão ser transformados em jóias. Vocês querem?
- Oba! - fez Amelinha com entusiasmo.
- Que bom! - disse Nico. - Já pensou, Eurico? Esse príncipe vai ficar mais bonito que o rei! - Acho que vou querer ser ele! - concordou Eurico.
Depois de prometer arranjar material para eles fazerem as roupas da peça, Liana saiu e foi para o quarto. Estava bem impressionada com o que vira. - Puxa, se sua tia ajudar, poderemos fazer uma peça de verdade. - Como no teatro? - perguntou Amelinha, entusiasmada.
- Bom, teatro eu não sei como é, mas vi no cinema e no circo também. Podemos fazer tudo e depois representar de verdade.
- Não há ninguém para assistir - tornou Amelinha.
- Se a gente ensaiar bem, fizer tudo direitinho, podemos fazer uma apresentação para outras crianças da cidade. Isto é, se a sua mãe deixar.
- Puxa! Será que eles vão querer assistir?
- Claro que vão. Mas ainda é cedo para dizer. Vou escrever a história toda no papel e depois vamos fazer as roupas, ensaiar. Quando estiver tudo pronto, veremos. - Você precisa mesmo ser o príncipe, Eurico - disse Amelinha. Nico não vai poder ser os dois. Como é que ele vai fazer o casamento? - O Eurico vai fazer o príncipe, não é mesmo?
- Vamos ver. Você acha que eu vou acertar e vencer as provas? - Claro que vai. Estamos representando, e tudo é no faz-de-conta - Explicou Nico com entusiasmo. - Você vai saber direitinho o que fazer. Vai ensaiar bastante.
- Será que eu vou poder?
- Tenho certeza que vai - garantiu Nico com entusiasmo. - Só que nós vamos guardar segredo. Vamos pedir para sua tia que não diga nada a ninguém. Vamos fazer uma surpresa.
- Oba! Eu adoro segredos! - disse Amelinha batendo palmas de alegria. - O que acha, Eurico?
- Está certo.
Nico aproximou-se, pegou a mão de Amelinha, colocou-a sobre a de Eurico e pôs a sua em cima, dizendo:
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- Nesse caso, vamos jurar. Este segredo vai ficar guardado e quem falar dele aos outros é um bobão. E, se isso acontecer, não vamos fazer mais nada. Os três juraram solenemente.
- Agora, sim - disse Nico -, estamos juntos de fato nessa peça. Hilda entrou no quarto dizendo:
- Vamos descer. Está na hora do jantar.
- Eu preciso ir - disse Nico, despedindo-se dos amigos que forçosamente queriam que ele ficasse.
- Amanhã eu volto - prometeu ele.
Desceram juntos e ele discretamente esgueirou-se pela cozinha e saiu. A tarde estava findando e o sol já havia desaparecido, deixando apenas os reflexos de seus raios no céu cor-de-rosa, onde o brilho pálido das primeiras estrelas começava a aparecer. Nico olhou para o céu e sorriu. Aquele era um minuto mágico da natureza, e ele pensou: o que haverá lá em cima, no céu, além das estrelas?
Deu asas à fantasia, mas dentro de seu coração ele sabia que, apesar de não poder comprovar, havia a certeza da grandiosidade da vida e ele sentia em tudo o poder de Deus. 65
Capítulo 5
A partir daquele dia, Nico passou a fazer parte da família de Eulália. Mal chegava da escola, colocava os livros sobre a cama e ia para a mansão. Eurico apegou-se a ele de tal forma que não queria fazer nada enquanto Nico não aparecesse. Eulália procurava contentá-Io, uma vez que Nico exercia uma benéfica atuação sobre o comportamento do menino. Ao lado dele, concordava em comer, mostrava-se mais animado, mais interessado nas coisas. Havia engordado, estava mais corado e não se cansava como antes. A princípio Nico, em obediência à sua mãe, só ia para lá depois de haver almoçado. Mas Eulália pediu-lhe que fosse almoçar com Eurico e assim ele passou a fazer suas refeições lá. Ela pagava todas as semanas a modesta quantia que lhe prometera, mas, sentindo-se grata pela dedicação de Nico, mandava alimentos e roupas para sua família. Com isso, eles deixaram de passar necessidade e Ernestina não precisou mais trabalhar tanto para manter a família. Jacinto, satisfeito com a proteção de Dona Eulália, interessou-se pelos serviços que Nico prestava na mansão, desejando explorar a situação. Ernestina foi categórica:
- O Nico não vai fazer o que você está dizendo.
- Vai, sim. Dizem que o menino só come com o Nico e que a Dona Eulália está feliz com a melhora do filho. Vai dar pra ele o que ele quiser! Outra oportunidade dessas não vamos ter!
Ernestina, enraivecida, olhou para o marido e seus olhos faiscavam quando respondeu: - Não se mete com o Nico. A Dona Eulália é uma mulher muito boa. Não vamos nos aproveitar da situação, não. Não quero o meu filho fazendo uma coisa dessas! - Se eu quiser, ele faz! Tem que obedecer!
Ernestina aproximou-se dele, dizendo com voz ameaçadora: - Não vou tolerar que faça isso! Deixa o menino em paz! Você nunca se importou com ele. - Precisamos aproveitar a oportunidade. Ganhar dinheiro! - Por que não procura um serviço pra fazer? É o jeito de ganhar dinheiro, não é explorando os outros. O que devia fazer é arranjar um trabalho.
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Nossa terra está cheia de mato, por que não planta pelo menos um pouco? Jacinto reclamou e foi saindo, e Ernestina suspirou, tentando conter a raiva. Por que se casara com um homem tão preguiçoso? Não ia deixá-lo atrapalhar a vida de Nico. Queria que seu filho crescesse honesto, digno, respeitado pelas pessoas. Mas Jacinto não desistia, e quando Nico chegava ele logo aparecia, reclamando do dinheiro que o menino recebia na mansão, até dos donativos generosos de Eulália. Nico escapava desgostoso. Por que o pai era daquele jeito? Dona Eulália não tinha nenhuma obrigação de sustentar sua família. Entretanto, mandava donativos porque tinha um bom coração. Como ele podia ser tão ingrato? Era tão bem tratado na mansão que ele sentia até vergonha de receber o dinheiro que ela lhe pagava. Várias vezes teve vontade de não receber. Mas sabia que o dinheiro era necessário para as despesas de sua casa. Por isso, continha-se.
Depois, ele gostava de Eurico, de Amelinha e das demais pessoas da casa. Com Norberto era mais retraído, uma vez que ele só aparecia nos fins de semana e havia até alguns em que ele não ia.
De vez em quando Mário aparecia para ver como estavam as coisas na mansão. Abraçava Nico com carinho, e o menino notara o interesse do engenheiro pela irmã de Eulália. Mário ficava emocionado quando ela chegava, fazia um jeito de quem deseja agradar, e Nico sabia que o engenheiro gostaria de namorá-la.
Liana tratava-o com atenção, mas não parecia estar apaixonada. Ela era muito bonita, e Nico torcia para que eles namorassem. Gostava de Mário e queria que ele fosse feliz. Uma tarde, Eulália chamou Nico e pediu:
- Gostaria muito de conversar com sua mãe. Ela poderia vir até aqui amanhã? - Pode, sim, senhora. Só que tem um problema...
- Qual é?
- Minha mãe tem medo de entrar aqui na mansão.
- Medo? De quê?
Nico hesitou um pouco, depois respondeu:
- A senhora não sabe, mas é que aqui... bom... as pessoas dizem... - O quê? - Que esta casa é assombrada.
Eulália desatou a rir, depois perguntou:
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- Isso é crendice! Sua mãe parece-me uma mulher inteligente. Ela acredita nessas coisas? - Sabe como é, gente da roça acredita em almas do outro mundo.
Depois, teve gente que viu a alma do coronel andando por aqui. - Bobagem. Nós estamos aqui há quase um ano e nunca vimos nada. Mas, se ela tem medo, não precisa entrar. Peça a ela para vir e vamos conversar no caramanchão. No dia seguinte, Ernestina acompanhou Nico até o caramanchão, onde Eulália a recebeu. - Entre, Ernestina. Como tem passado?
- Bem, sim, senhora.
- Sente-se aqui a meu lado. Obrigada por ter vindo. Não fui à sua casa porque queria conversar a sós com você. Pode ir, Nico, Eurico está esperando. Ernestina acomodou-se no banco e esperou. Eulália, depois que Nico se foi, começou: - Gosto muito de seu filho. É um menino muito bom. E o mais importante é que Eurico está melhorando graças à dedicação dele. Chamei-a aqui para pedir-lhe um grande favor. - Pode falar, Dona Eulália.
- Como sabe, meu filho é doente. Temos tentado de tudo para que ele fique bom. Só agora, com a presença de Nico, ele começou a melhorar um pouco. Espero que com o tempo de venha a sarar. Por enquanto, embora esteja melhor, não tem condições de ser como os outros meninos, de ir à escola, por exemplo. Entretanto, meu marido e eu achamos que ele precisa estudar. Minha irmã que é professora, ensinou-o as primeiras letras. Aliás, com grande dificuldade. Não que ele não possa aprender. Isso não. É inteligente. Mas, como ele se sente mal, não se pode forçá-Io.
- Certamente.
- Fica cansado, não demonstra interesse pelos estudos. Para dizer a verdade, ele não se interessa por nada nesta vida. Agora, com Nico, ele começou a se interessar por alguma coisa. Seu filho é muito inteligente e sabe como cativar.
- Ele sempre foi assim. Todo mundo gosta desse menino. - Pois é. Desejo propor-lhe uma coisa. Quero pagar os estudos de Nico até ele ficar moço. Pode escolher a carreira que quiser.
O rosto de Ernestina iluminou-se e ela sorriu satisfeita:
- É o sonho dele! Poderá ir pra uma faculdade?
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- Claro. O que ele quiser!
Ernestina pegou a mão de Eulália e levou-a aos lábios entusiasmada: - Obrigada, Dona Eulália! A senhora não sabe o bem que está me fazendo. Vou ser grata pelo resto da vida. Posso lavar toda a roupa da sua casa de graça.
Eulália sorriu:
- Não será preciso! Ainda não acabei minha proposta. Quero que ele venha morar aqui! Ernestina surpreendeu-se:
- Como? Morar aqui? Mas ele pode vir todos os dias. Não precisa morar. - É que pretendo contratar professores que venham dar aulas aqui em casa. Quero que Nico saia da escola e venha estudar com Eurico. Para que tudo isso dê certo, é preciso que ele venha morar aqui.
Ernestina ficou um pouco inquieta. Nico era seu apoio em casa. Era com ele que conversava todas as manhãs sob a mangueira. A casa iria ficar muito triste sem eIe. Eulália prosseguiu:
- Não se preocupe, Ernestina. Nico poderá ir ver a família sempre que quiser. Não pretendo tirar seu filho de você. É que ele representa para mim uma porta para a cura de meu filho. Até agora nada deu resultado. Tenho esperança de que, se ele ficar com Eurico o tempo todo, estudando, brincando, vivendo, meu filho vai acabar melhorando. Por outro lado, gosto de seu filho e posso dar a ele uma carreira digna. Ele pode se formar, ganhar dinheiro, ajudar a família. Seria uma troca: ele me ajuda e eu os ajudo. Penso que todos nós vamos ficar satisfeitos.
Apesar da tristeza que a separação causava, Ernestina sentia que não podia ser egoísta. Nico tinha o direito de aproveitar aquela oportunidade. Por isso, respirou fundo e respondeu: - Da minha parte, concordo. A felicidade do Nico é tudo quanto desejo nesse mundo. Em todo caso, vamos perguntar a ele. Tenho medo que ele venha morar aqui... Teve vergonha de prosseguir. Eulália compreendeu e apressou-se a esclarecer: - Faz quase um ano que nos mudamos, e nunca vimos nada. Essa história de assombração é bobagem. Você não acredita mesmo nisso, não é?
- Eu acredito, sim. Tenho visto muitas coisas.
- Pois aqui nunca vimos nada. Não vai querer estragar a carreira de seu filho por causa de uma bobagem dessas.
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- É. Se a senhora garante que nunca viu nada... O povo fala muito mesmo. Seu marido também quer que o Nico venha morar aqui?
- Quer. Ele também notou o quanto Eurico melhorou. Também acha que ele precisa da companhia de um menino da mesma idade. E seu marido? Vai concordar? - Deixa ele comigo. Sei como lidar.
A criada apareceu trazendo uma bandeja com refrescos e alguns petiscos e deixou-a sobre a mesa. Eulália pediu:
- Peça a Nico que venha aqui.
Ela saiu e Eulália serviu o refresco e os docinhos para ambas. Quando Nico apareceu, ela lhe fez a proposta. Os olhos do menino brilharam de emoção, mas ele disse com delicadeza: - Não posso aceitar o convite, Dona Eulália. Não quero deixar a minha família. - Você não vai deixar a família. Vai ficar aqui mais perto de Eurico, mas poderá ir para casa ver sua mãe sempre que quiser.
- Minha mãe precisa de mim e eu quero ficar com ela. Mas posso vir bem cedinho todos os dias, estudar com o Eurico, fazer tudo que a senhora quiser. Olhos brilhantes de emoção, Ernestina disse:
- Eu quero muito ficar com você, mas pense um pouco, meu filho! Você vai poder estudar, se formar, ter tudo que sempre quis. - Você quer que eu aceite, mãe?
- Eu quero que você seja feliz. Vou sentir a tua falta, mas você vai me ver sempre. - Pode ir todos os dias, se quiser - prometeu Eulália.
- Bom, se é assim... eu aceito!
- Muito bem. Assim é que se fala. Tenho certeza de que não vai se arrepender. Vamos dar a boa notícia a Eurico e Amelinha. Nico abraçou a mãe, dizendo comovido:
- Vou ver você todos os dias. Pode esperar. E, quando eu for grande, vou comprar uma casa linda como essa para você morar com a família. Você vai ver. Ernestina sorriu alegre. Seu filho ia se libertar daquela vida triste de pobreza. Um dia ele seria importante e ilustrado. Valia a pena o sacrifício.
No dia seguinte mesmo Nico mudou-se para a mansão. Tinha pouca coisa: algumas peças de roupas, livros, alguns brinquedos que ele mesmo fizera. Seu irmão José olhou-o com inveja, mas não perdeu a chance de implicar:
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- Vai servir de criado pra aqueles grã-finos, vai ser escravo deles. Eu é que não aceitava uma coisa dessas! Agora vou ficar com a cama só pra mim. Nilce queria saber como seria seu quarto na mansão. Ele prometeu voltar para contar. Quando chegou à mansão sobraçando seus pacotes, Nico sentiu muita emoção. Ele ia morar naquela casa que tanto admirava! Nunca pensou que isso pudesse acontecer. Mas era verdade. Dali para a frente aquela seria sua casa!
Eurico queria que Nico ficasse em seu quarto. Eulália não concordou: - Nico precisa ficar bem instalado. Em seu quarto não há cama nem guarda-roupas para ele. Nico vai ficar no quarto ao lado do de Manuel.
Eurico não concordou:
- Fica muito longe. Fora da casa. Quero Nico aqui, perto de mim. - Já disse que não há lugar.
Mas Eurico irritou-se, exigiu:
- Há lugar, sim. Mande pôr a cama dele aqui.
Eulália não queria outra pessoa dormindo no mesmo quarto. O médico dissera que Eurico precisava ficar em um quarto bem arejado, e outra pessoa ali, respirando, poderia deixar o quarto abafado. Depois de alguma discussão, ela resolveu: - Vou desocupar o pequeno quarto ao lado e arrumar para Nico. Ele vai ficar bem perto, é só abrir a porta.
Ela foi até a porta que ligava os dois quartos e abriu-a, dizendo. - Está vendo? É como se ele estivesse no mesmo quarto. Finalmente Eurico concordou. Ela guardara naquele pequeno quarto malas, objetos sem uso, fizera dele um pequeno depósito. Precisava esvaziá-Io. Começaram a arrumação e ao anoitecer ele pôde instalar-se. O aposento era pequeno, coube uma cama, um criado-mudo, uma cadeira e um pequeno guarda roupas. Nico estava maravilhado. Não se cansava de olhar o abajur, o tapete ao lado da cama. Alisava a fina roupa de cama, o travesseiro macio, as toalhas de banho que Hilda trouxera, o sabonete perfumado, a escova e a pasta de dentes. Achou tudo lindo! Era a primeira vez que tinha um quarto só para ele!
Eulália entrou dizendo:
- O outro quarto era maior, mais arejado, mas Eurico é impossível! - Não se incomode, Dona Eulália. Eu adorei este quarto!
- Amanhã vou mandar colocar cortinas nessa janela e pedir a Liana que compre algumas roupas para você.
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- Não precisa, não, senhora.
- Precisa, sim. Você agora mora em minha casa, é amigo de meus filhos. Deve se vestir como eles.
Nico achava que não precisava, mas não se atreveu a recusar. Ele ia levar vida de rico! Assim ficaria conhecendo de perto como eles vivem. - Eu ainda preciso ir para a escola - esclareceu ele. - Estamos no fim do ano e, se eu não for mais, vou ser reprovado. Isso eu não quero.
- Amanhã irei com você até lá resolver tudo.
- A senhora vai à minha escola?
- Vou. Você não vai perder nada. Não vou deixar.
Depois de arrumar cuidadosamente seus poucos pertences no guarda-roupas, seguido de perto por Amelinha, que curiosa queria ver tudo que ele trouxera, foram ficar com Eurico. Eulália olhava-os com satisfação. A presença constante de Nico haveria de levantar o ânimo de seu filho e logo ele estaria curado. Contratara um professor para ensinar os três. Liana oferecera-se, mas Eulália não queria dar-lhe esse trabalho. Ela já se cansava bastante na escola. Depois, achava que alguém de fora seria levado mais a sério. Um amigo de Norberto em São Paulo indicara esse professor, principalmente porque ele era muito interessado em educação, tinha curso superior. Ele havia combinado com Norberto que acompanharia o currículo escolar e que, quando as crianças estivessem preparadas, poderiam submeter-se a um exame e conseguir o diploma. Norberto dissera-lhe que o professor Alberto era escritor, tinha alguns livros publicados, escrevia para um jornal de São Paulo, mas que desejava ir morar em um lugar sossegado no interior, onde continuaria a escrever. Sua renda era insuficiente para se manter, e ele aceitou o emprego que Norberto lhe oferecera.
Viria com Norberto no fim de semana para ficar. Dormiria no quarto de hóspedes até que encontrasse uma casa para alugar pelas vizinhanças. Durante a viagem, Norberto colocou-o a par dos problemas de Eurico, e Alberto interessou-se bastante. - Foi muito bom ele ter arranjado um amigo - disse.
- É, foi uma reação boa. Ele nunca havia se interessado por nada. Por isso, Eulália achou melhor que esse menino ficasse lá em casa. Ele é muito pobre, mas bem-educado. Tem boa aparência e minha esposa gosta muito dele. - Farei tudo para ajudar. Seu filho precisa tomar gosto pela vida. Tenho a impressão de que ele é muito triste.
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- Por que diz isso? Ele tem tudo que um menino da idade dele poderia ter! - Mas não tem alegria de viver!
- Por causa da doença. Sente-se muito mal.
Alberto não respondeu. Norberto continuou:
- É meu único filho homem! Gostaria muito que ele fosse diferente! Não sei por que aconteceu isso comigo!
Alberto olhou seriamente para ele e respondeu:
- Aceitar o que não pode modificar ajuda a conservar a paz. - É, eu aceito. Que remédio? Esperava um menino vivo, inteligente, esperto, que praticasse esporte, que fosse meu orgulho. Eurico é o oposto disso. Mas é filho e não dá para não ligar.
- Ele venceu a morte e está lutando para sobreviver, recuperar a saúde.
- Há momentos em que não sei se isso foi bom. Sinto-me tão desanimado olhando para ele... Há horas em que penso que ele nunca vai sarar. Depois, Eulália vive triste,
minha casa é um lugar sem alegria.
- Mas o senhor tem uma menina, muito saudável.
- É. Amélia é saudável até demais. Fala pelos cotovelos, como toda mulher. Olhando para ela, fico pensando na injustiça da vida. Um tão apagado e outro tão vivo!
Pelos olhos de Alberto passou um brilho de emoção, mas ele nada disse. Pensava em sua vida, nos problemas que carregava dentro do coração. Chegaram ao anoitecer, e Eulália recebeu-os com delicadeza, cercando-os de atenções. Simpatizou logo com os olhos escuros e profundos do professor. Sua figura elegante, seus cabelos castanhos ligeiramente ondulados, seu rosto moreno, seu queixo firme em que havia pequena covinha. Seus lábios abertos em um sorriso largo que mostrava dentes claros e bem distribuídos tornavam-no um homem bonito. Além disso, vestia-se muito bem. Quantos anos teria? Quando horas mais tarde perguntou ao marido, soube que beirava os trinta e cinco.
O que teria um homem como ele ido fazer em uma cidade do interior? Norberto disse que. ele era escritor. Mas à primeira vista ele não lhe pareceu nem um pouco excêntrico. Fazia votos de que ele se acostumasse e que tivesse paciência com as crianças. lnstalou-o no quarto de hóspedes já devidamente arrumado para esperá-Ia, deixando-o à vontade para tomar um banho e descansar da viagem. Mandaria avisar quando o jantar fosse servido.
Alberto não conheceu as crianças naquela noite.
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Por causa do cansaço da viagem, o jantar foi servido um pouco mais tarde e as crianças já se haviam recolhido.
Nico havia se deitado quando a porta do quarto se abriu e Eurico enfiou a cabeça perguntando:
- Já está deitado?
- Estou.
- Estou sem sono. Vamos conversar.
Nico levantou-se e foi até o quarto de Eurico, dizendo:
- A Dona Eulália pediu para irmos dormir cedo. Disse que você precisa descansar. - Ela disse. Mas não consigo dormir.
Nico suspirou:
- Ela pode brigar comigo. Dona Eulália é muito boa e só pensa no seu bem-estar. Melhor obedecer.
- Ela não precisa saber. Vamos deixar acesa só a luzinha da noite. - Você dorme de luz acesa?
- Não gosto de escuro. Não consigo dormir agora. Você vai ficar comigo? - Está bem. Vamos conversar até você sentir sono. Aí eu vou para o meu quarto. Sobre o que quer falar?
- Conte aquela história do caçador e da onça.
Mal ele começou a contar, a porta do quarto abriu-se e um vulto entrou. Os dois se assustaram, mas Amelinha sussurrou:
- Eu sabia que vocês não estavam dormindo! Quero conversar também. - Melhor você ir para seu quarto. Mamãe não pode saber - disse Eurico. - Eu posso guardar segredo! Ninguém me viu.
- Fale baixo e fique quieta. Estou sem sono. Nico está contando uma história. - Você está com medo de novo!
- É nada! - negou ele nervoso.
- Está, sim. Pensa que eu não sei? Vi como você chora de medo. Eurico ia revidar, mas Nico interveio:
- Ter medo não é nada de mais. Todo mundo tem: o rato do gato, o gato do cachorro, o cachorro da onça, a onça do caçador...
- Você também tem medo? - indagou Eurico com interesse. - Claro que tenho. - De quê?
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- De ficar embaixo de árvore quando tem trovoada.
- Por quê? - perguntou Amelinha.
- Porque árvore atrai raio. Se um raio pega uma pessoa, ela fica torradinha. - Que horror! Por que não põe pára-raios? - continuou a menina. - Porque isso é coisa da cidade. Aqui não usa.
- Você tem medo porque é criança. Gente grande não tem - comentou Amelinha. - Minha mãe tem medo de alma do outro mundo! - tomou Nico. Ela riu: - Hilda diz que isso é coisa de gente da roça.
- Não é, não. Eu também tenho medo deles - disse Eurico. Depois, dirigindo-se a Nico: - Você não?
- Eu não. Se me aparecesse uma alma penada agora, eu conversaria com ela. Dizem que as almas voltam quando querem alguma coisa. Quando a gente ouve e faz o que pedem, elas vão embora. Se aparecesse uma alma aqui...
- Você ia correr de medo! - disse Amelinha.
- Ia nada. Encarava ela e perguntava o que ela queria. O Dr. Mário me disse que tem mais medo de gente viva do que de morto.
- Por quê? - fez Amelinha.
- Porque o morto só assusta e não pode fazer nada; já os vivos roubam, matam. Eu prefiro encontrar uma alma penada do que um ladrão - completou Nico. - Chega de falar nisso! - reclamou Eurico. - Não gosto desses assuntos. Estou todo arrepiado! Depois acabo sonhando com eles.
- Você sonha com alma do outro mundo? - perguntou Nico, admirado. - Ele acha que tem gente no quarto. Hilda disse que o medo o faz ver coisas. - Vamos falar de outra coisa. Não vai continuar a história? Nico reiniciou a narrativa e logo Eurico bocejou, dizendo:
- Estou com sono, quero dormir. Vá para seu quarto, Amelinha. Cada um foi para seu quarto. Dali a alguns minutos, Eurico apareceu novamente no quarto de Nico. - Você está com sono? - indagou.
- Um pouco.
- Eu disse aquilo para Amelinha ir embora. As mulheres não sabem guardar segredo. Quero contar-lhe uma coisa.
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- Um segredo?
- Sim. Sabe por que eu durmo com a luzinha acesa? - perguntou ele sentando-se na cama. Nico balançou a cabeça negativamente. Ele prosseguiu: - Porque, quando eu apago tudo, as almas do outro mundo vêm me atormentar. Nico, que estava deitado, sentou-se na cama.
- Como sabe? Não é uma ilusão? O que a Dona Hilda disse é verdade. O medo faz você ver coisas que não existem.
- Se você visse o que eu vi, não duvidaria.
- O que foi que você viu?
- Muitas coisas. Quando eu apago a luz, os vultos começam a aparecer. Uma mulher zangada, um homem que ameaça me bater com um chicote. - Quando a luz fica acesa você não vê nada?
- Bem menos. Às vezes, mesmo com a luzinha eles aparecem. Então acendo tudo. Aí eles somem. São eles que não me deixam dormir. - Você não contou isso para a sua mãe? - Contei muitas vezes. Mas cada vez que eu contava ela me levava ao médico e ele me receitava um monte de remédios. Eu tomava e me sentia muito mal. Então achei melhor não contar mais. Eles não acreditam mesmo. Não quero tomar aqueles remédios que me deixavam tonto, porque aí as almas penadas me atormentam ainda mais. Impressionado, Nico balançou a cabeça.
- Essa história é esquisita. Será mesmo? Você jura que viu? - Juro.
- Sua mãe pode morrer seca se estiver mentindo?
Eurico não titubeou:
- Pode.
Nico passou a mão pelos cabelos:
- Então é verdade mesmo! Eu acredito.
- Não vai contar para ninguém?
- Não. Só se você deixar. Nunca perguntou o que eles queriam? . - Deus me livre! Dá para saber só vendo a cara deles!
- Você não reza? Pode esconjurá-Ios com uma oração!
- As que eu sei nunca deram certo. Depois, fico com tanto medo, suando, a cabeça roda, dá um enjôo. É horrível.
- Pois eu não tenho medo. Agora estou aqui. Quando eles aparecerem, você me chama. Eu vou conversar.
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- Você é forte. Por isso eu quis que ficasse comigo em meu quarto. - A Dona Eulália não quer. Não vamos abusar. Eu fico até você pegar no sono. Depois volto para o meu quarto. Se precisar, você me chama. Está bem assim?
- Está. Você é meu amigo mesmo!
Nico levantou-se e acompanhou Eurico até a cama com boa vontade. Depois deitou-se a seu lado, dizendo:
- Vou ficar acordado. Pode dormir sossegado.
Eurico sorriu contente. Depois de poucos instantes estava dormindo. Nico esperou-o ressonar um pouco. Depois, procurando não fazer ruído, foi para sua cama. Custou a dormir. A história de Eurico não lhe saía da cabeça. Começava a achar que sua mãe tinha razão dizendo que ele não tinha nenhuma doença, que precisava ir ao curador. Mas Eulália não iria deixar, ela não acreditava em almas do outro mundo!
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Capítulo 6
No dia seguinte pela manhã, após o café, as crianças foram apresentadas ao professor. Combinaram que logo após o almoço ele faria uma avaliação de seus conhecimentos. Pediu que cada um levasse os cadernos que possuíam. Amelinha, até eles se mudarem para Sertãozinho, estudara em um bom colégio. Eurico, entretanto, nunca tivera essa possibilidade. Aprendera a ler com ajuda da tia e de professores particulares, entre uma crise e outra, o que dificultava a aprendizagem. Ele era inteligente, aprendia com facilidade, entretanto não tinha entusiasmo, vivia indisposto e os médicos aconselhavam a não o forçar.
Alberto reuniu-se com eles em pequena sala que Eulália preparara para esse fim, tendo colocado nela uma mesa, cadeiras, um quadro-negro e um armário com material escolar. Depois de duas horas com eles, dispensou-os. Antes de sair, Nico quis saber se não corria o risco de perder o ano. Eulália havia procurado a escola e conversado com a diretora, que, percebendo o interesse de Eulália em ajudar Nico a fazer carreira, concordou que ele estudasse fora, havendo prometido ela mesma submeter os três aos exames no fim do ano. Era um caso especial e ela queria ajudar tanto Nico quanto o menino doente. - Se levar a sério os estudos, você vai passar. - Vou estudar muito, o senhor vai ver. Alberto sorriu.
- Vamos ver isso.
Quando as crianças saíram, ele procurou Eulália.
- Já conversei com as crianças e anotei alguns dados para a primeira avaliação. Pretendo ir falar à diretora da escola para acertar o currículo. Como a senhora sabe, os três estão em diferentes estágios. Nico está no terceiro ano, Amélia no segundo. Quanto a Eurico, penso que ele poderá encaixar-se no segundo ano com Amélia. Vamos ver. - Acha que ele tem possibilidade de acompanhar um currículo escolar? São várias matérias, e não sei se ele conseguirá.
- É um menino inteligente.
- Muito. Mas doente. Meu marido já deve ter-lhe contado. Nasceu assim. Até hoje não conseguimos saber por quê. Cansa-se à toa.
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Não se entusiasma com as coisas. Não sente motivação. Era até pior: nem conversava, vivia calado, triste, não se alimentava direito. Quando percebemos que ele gostava da companhia de Nico, tratamos de aproximá-los para ver se assim ele se interessaria mais pela vida. - Nico pareceu-me um menino muito vivo, educado, inteligente e interessado em aprender. - É um menino bom e muito dedicado. Nem parece filho de pais tão humildes. - Há pais que, embora de origem humilde, sabem educar bem os filhos. Não têm instrução, mas possuem sensibilidade, sabem conversar com eles e têm um bom senso prático. Isso é o mais importante em se tratando de boa educação.
- É verdade. A mãe dele é uma mulher admirável. Tem um marido preguiçoso, que não trabalha. Ela sustenta a casa lavando roupas para fora. Nico ajuda-a prestando pequenos serviços. Ele é muito trabalhador. Quando conversei com ela, fiquei impressionada. Ela sabe portar-se, e tem muito bom coração. - Sabe orientar o filho. Ele fala nela com muito carinho.
- Eu notei isso. Só aceitou mudar-se para cá depois que ela garantiu que não ficaria triste sem ele e que ele poderia vê-Ia quando quisesse. - Esse menino tem alguma coisa especial. Percebi logo no primeiro instante.
- Especial? Como assim?
Alberto não quis dizer o que estava pensando. Retrucou apenas: - Tem olhos expressivos, atitudes seguras.
- De fato. Quando pensa começar as aulas?
- O mais rápido possível. Vou pegar o currículo, conhecer os livros. Então montarei a disciplina das aulas. Vamos precisar de material específico além dos livros.
- Não se preocupe. Faça a lista, que Liana trará tudo de Ribeirão Preto. Quando ele saiu, Eulália ficou pensativa. Os médicos haviam-lhe dito que ser:ia bom criar Eurico igual a qualquer outra criança, sem mimos ou concessões. Como fazer isso se não podiam forçá-lo? Suspirou triste.
A atitude discreta e segura do professor granjeara-lhe a simpatia. Era educado e tranqüilo.
Nos dias que se seguiram, Eulália verificou com satisfação que não se enganara. Ele sabia lidar com as crianças, e era com prazer que elas se reuniam para estudar. Sua forma de lecionar era muito diferente dos professores que ela conhecera. 79
Contava-Ihes histórias engraçadas, faziam pesquisas da natureza ao ar livre, cantavam canções conhecidas cujas letras haviam sido reescritas por ele de acordo com a matéria que pretendia ensinar.
A princípio Eulália temeu que ele estivesse sendo condescendente demais, uma vez que se misturava com as crianças, falando como elas, brincando e parecendo também um menino. Mas logo começou a perceber que eles, além de gostar das aulas, estavam aprendendo com facilidade. Eurico tornou-se mais comunicativo e nunca se queixou de mal-estar durante a aula.
Uma noite conversara com Liana a respeito.
- Ele parece um menino. Não impõe nada. Será que está certo? Um professor deveria ser mais circunspecto. Você quando dá aulas não age assim. - Não. Aprendi que é preciso impor respeito aos alunos, conservando a seriedade para que eles não tomem liberdade demais.
- Então! O professor Alberto não é assim. As crianças adoram, mas não será uma maneira errada de ensinar?
Liana balançou a cabeça pensativa. Depois disse:
- Para dizer a verdade, apesar de todo o respeito que tento impor à classe, eles sempre abusam de mim. Falo com seriedade, dou castigo, mas eles nem ligam. Continuam indisciplinados. Às vezes tenho até de apelar para o diretor. Eles estão abusando muito dele? Amelinha é muito safada.
- Por incrível que possa parecer, eles estão muito comportados. Estou admirada. Adoram as aulas. Até Eurico estava cantando a tabuada do sete de cor. - Cantando? - É. Ele colocou a tabuada numa marchinha de carnaval, ficaram batucando em um pandeiro, cantando, e logo todos sabiam tudo muito bem. Liana sorriu alegre: - Que engenhoso! Vou pedir-lhe que me ensine a fazer isso. Por mais que eu tente que eles decorem as tabuadas, sempre engasgam. - Acha então que ele está certo? - Ensinar é uma arte. Se as crianças estão aprendendo, está tudo bem. Naquela noite mesmo, após o jantar, Liana procurou conversar com Alberto sobre seus métodos de ensino:
- Eulália contou-me que suas aulas são sempre muito movimentadas e que as crianças estão indo muito bem.
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Gostaria que me falasse a respeito. Apesar de fazer tudo que aprendi, meus alunos não têm aproveitado como eu gostaria.
Alberto sorriu, um pouco sem jeito:
- Não cursei o magistério como você. Sou autodidata. Tenho minhas próprias idéias sobre o assunto.
- Gostaria de ouvir.
- Eu procuro ensinar da forma como eu gostaria de ter aprendido. - Como assim?
- Quando eu era menino, a escola era para mim um lugar sem graça, que eu freqüentava por imposição de minha mãe e por obrigação. Ela me dizia: "Se não estudar, você não será ninguém na vida. Vai morrer de fome". Eu detestava aquelas horas que passava lá. Fazia as lições como quem se desembaraça de algo ruim, contando os pontos para poder passar de ano. Meus pais haviam se conformado, dizendo que eu não era muito inteligente, mas que se conseguisse me formar estava bom. - Muitos de meus alunos são assim mesmo.
- Sempre gostei de ler. Com o passar dos anos, acabei descobrindo que gostava de estudar, descobrir como as coisas são feitas ou acontecem. Percebi que tinha inteligência para aprender qualquer coisa que me interessasse. Notei também que minha falta de interesse na escola era falta de motivação, pela forma impositiva dos professores, impingindo regras rígidas, tratando os assuntos de maneira fria e distante. Quando resolvi lecionar, repensei o assunto. As pessoas não são iguais. Para passar a elas o conhecimento e despertar-lhes o interesse pela matéria a ser ensinada, é preciso usar a linguagem delas, aproximar-se o mais possível de sua idade mental, e, o que é mais importante, transformar as matérias em vivência.
Liana estava admirada. Nunca ouvira semelhante teoria. Apesar de tudo, reconhecia que tinha uma certa lógica. Se isso funcionasse mesmo, revolucionaria toda a didática e os métodos de ensino.
- As matérias são subjetivas. Como transformá-las em vivência?
- Engana-se. Todas as coisas que existem, e nós estudamos o mundo que nos rodeia, suas leis físicas e até os valores morais, são matérias vivas que podem e devem ser experienciadas.
- É preciso ser muito criativo. Eu não saberia fazer isso!
- É fácil. Tenho certeza de que, se experimentar, ficará fascinada. - Em todo caso, a idéia de musicar as tabuadas foi brilhante. Alberto sorriu e seus olhos brilharam alegres. - Eles aprenderam logo. Cantar é um enorme prazer.
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Por que não aprender com prazer? A curiosidade, a ansiedade de saber vive dentro de cada um de nós. O que nos desagrada e dificulta a aprendizagem é a forma sem graça de fazer isso. Mudando esse conceito, a dificuldade desaparece. Liana admirou-se das idéias do professor e mais tarde, ao recolher-se, comentou com Eulália, que ouvira toda a conversa com interesse:
- Esse homem é um sábio. De onde ele veio? Como Norberto o descobriu? - É escritor. Tem livros publicados.
- Gostaria de lê-los. Escreve a respeito de quê?
- Não sei. Norberto não disse.
Liana foi deitar-se pensativa. Decidiu que no dia seguinte iria conversar um pouco com as crianças e perceber como eles estavam nos estudos.
Naquele fim de semana, quando Norberto chegou, encontrou a família muito bem. Eulália foi logo contando os progressos de Eurico, que assistia às aulas regularmente e estava aprendendo sem maiores dificuldades.
- Ainda bem - considerou Norberto. - Passei a semana toda pensando se havia sido bom eu deixar um desconhecido aqui em casa enquanto eu estava ausente. - Não precisava se preocupar. O professor é discreto e é um cavalheiro. Tem se portado educadamente. Depois, já encontrou casa. Só ficará mais alguns dias, enquanto o proprietário a está pintando.
- Ótimo. Ele me foi muito bem recomendado. É um homem respeitado e tem posição social definida.
- É solteiro?
- Acho que sim. Por que pergunta?
- Curiosidade.
- Se fosse casado, teria se mudado com a família, não lhe parece? - É. Certamente. No jantar, a conversa fluiu animada com Norberto contando as notícias da capital, trocando idéias com o professor. As crianças, como de hábito, comiam em silêncio enquanto as duas mulheres ouviam com interesse.
Após a sobremesa, as crianças tiveram permissão para se recolher enquanto os demais sentaram-se na sala para o café e mais um pouquinho de prosa antes de dormir. Passava das dez quando o professor se recolheu.
Liana foi para o quarto e o casal também.
Liana acordou no meio da noite com sede. Tentou ignorar e dormir novamente, porém a sensação de sede não a deixava dormir. Levantou-se e resolveu ir até a copa, onde havia um filtro.
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Não acendeu a luz e procurou não fazer ruído para não incomodar. A noite era clara e ela podia enxergar muito bem o caminho.
Na copa, apanhou um copo, levou-o ao filtro e abriu a torneira. Foi quando ouviu ruído de passos. Alguém teria se levantado? Fechou a torneira, tomou a água com prazer, deixou o copo em cima da pia. Como não visse ninguém se aproximar, foi até a porta da copa, olhou e abriu os olhos assustada. Parado em frente à escada que ia ao pavimento superior estava um homem de idade, forte, cabelos brancos, botas e largo chapéu na cabeça.
Seria um ladrão? Não parecia. Por onde teria entrado? Alguém teria deixado alguma porta aberta? Ela precisava chamar alguém, avisar Norberto, mas eles estavam todos no andar de cima e ela teria de passar por ele.
Foi nessa hora que ele olhou para ela. Liana não se conteve: - O que está fazendo aqui? Como entrou?
Como ele não respondesse, ela repetiu:
- O que está fazendo aqui no meio da noite?
Ele deu alguns passos em direção a ela, que recuou assustada. Havia algo nele que a intimidava. Quando ele estava bem perto, disse com voz rouca: - Estou em minha casa. Finalmente você voltou! Também veio me cobrar? Só que desta vez você não vai mais me deixar!
Aproximou o rosto do rosto de Liana, olhos brilhantes de rancor, e ela assustada começou a gritar e gritou mais ainda depois que o viu desvanecer-se diante de seus olhos. Cobriu o rosto com as mãos e continuou gritando, sem poder sair do lugar. Em poucos segundos todas as luzes da casa se acenderam e o professor, Euláha e Norberto estavam diante dela. Eulália abraçou-a aflita:
- Calma, Liana! Estamos aqui. Calma! O que foi?
Liana abriu os olhos e, vendo-os, foi se acalmando. Seu corpo tremia, e ela mal conseguia suster o copo com água que Eulália lhe colocou entre as mãos. - Vamos, beba um pouco. Calma. Está tudo bem.
Quando ela conseguiu falar, contou em poucas palavras o que havia acontecido. - Você sonhou - disse Norberto. - Levantou-se ainda adormecida e sonhou. - Eu não estava dormindo! Estava até bem acordada. Senti sede e vim tomar um copo de água. Ele estava bem ali, em frente à escada.
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- Como era ele? - indagou o professor.
- Um homem de idade, forte, cabelos brancos, usava botas de cano alto, como essas de montaria, e um chapéu de obas largas na cabeça. O pior foi que, quando lhe perguntei por que estava aqui, ele me disse que esta casa era dele.
- Vamos perguntar aos criados se eles conheceram alguém assim - sugeriu o professor. Norberto interveio:
- É absurdo. Mesmo que houvessem conhecido, aqui não havia ninguém quando chegamos. Depois, as portas estavam bem fechadas, eu mesmo verifiquei antes de dormir. - Quando eu gritei de medo, ele sumiu diante de meus olhos e desapareceu. - O que prova que, se você não estava dormindo, teve uma alucinação - disse Norberto. - Eu. tenho certeza do que vi. Era uma pessoa. Ele estava aqui repetiu Liana. - Agora ele já se foi. Não precisa ter medo - disse o professor. - E se ele voltar? - perguntou Liana.
- As portas estão todas fechadas. Não há ninguém aqui. Pode ir dormir sossegada: ninguém entrou nem vai entrar. As crianças podem assustar-se. Eurico já é medroso sem acontecer nada - tomou Norberto.
- Mandei Hilda ficar com eles. Acho que nem ouviram. Estão dormindo. A custo Liana concordou em ir para o quarto e Eulália ficou com ela algum tempo até que estivesse melhor. Sentindo-se mais calma, ela disse:
- Vá dormir, Eulália. Agora já estou bem. Deixarei a luz acesa. Vá descansar. - Se sentir alguma coisa, pode me chamar.
- Está bem.