Quando Chega a Hora

Zibia Gasparetto · Capítulo 2 de 4 · parte 3/4

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Quando Chega a Hora

- Não tenho essa intenção. Estou apenas…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

- Por que se sentiria?

- Ele se casou com ela. Jurou amá-Ia, protegê-Ia pelo resto da vida.

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- Essa é uma ilusão. Quem é que pode garantir que vai amar uma pessoa pelo resto da vida? E se o amor acabar?

- Resta o dever, a palavra empenhada.

- Eu não gostaria de viver com um homem que ficasse a meu lado por haver empenhado sua palavra. Eu me sentiria humilhada.

- Pois eu não. Se Norberto chegasse e dissesse que iria me abandonar, eu faria tudo para que isso não acontecesse. Ele tem a obrigação de manter a união da família. - Mudemos de assunto.

- Por quê? Vamos ser práticas. Quando me casei com Norberto, não o amava. Mas agora, se ele quisesse pular fora, eu não permitiria. Onde já se viu? Tirou-me da casa de meus pais, arranjou dois filhos e depois largaria tudo com essa desculpa de amor? - Ele nunca faria isso. Vive para a família.

- É. Tem razão.

Liana respirou fundo. A situação que estava vivendo oprimia-a. Precisava ganhar forças para poder sair de casa e acabar de vez com aquela angústia. Na sala de estudos, o professor depois de programar as matérias para a aula do dia seguinte despediu-se.

- Professor, o senhor vai passar perto da casa da minha mãe? - indagou Nico. - Vou, Nico. Quer alguma coisa?

- É que eu vou até lá ver como andam as coisas.

- Pode ir comigo.

- Você volta logo? - indagou Eurico.

- Antes de escurecer.

Eles saíram, e uma vez no carro o professor considerou:

- Eurico não fica sem você.

- Ele tem medo da alma do coronel.

- Ele tem aparecido?

Nico relatou a última experiência, quando tentara conversar com o coronel Firmino. Alberto interessou-se muito:

- Tem certeza de que ele disse mesmo tudo isso?

- Tenho. Nós ficamos tentando entender o que ele queria dizer. Mas acho que ou o Eurico não ouviu bem ou ele está muito confuso e não explicou direito. - Vou lhe pedir uma coisa. Leve um caderno e um lápis para o quarto. 155

Se acontecer isso de novo, escreva tudo quanto Eurico lhe disser. Entendeu? - Entendi. Mas, mesmo sem escrever, tenho boa memória. Sei cada palavra que ele disse naquela noite.

- Não estou duvidando de você. Mas será melhor escrever. Você está certo. Se descobrirmos o que ele deseja, se pudermos conversar com ele, talvez possamos conseguir que ele vá embora e deixe de assustar os outros. Liana vive apavorada. - O Eurico também. Eu queria vê-Io, mas só o Eurico vê. - Porque ele tem essa capacidade. Algumas pessoas conseguem ver outras dimensões da vida além da faixa de nossos cinco sentidos. - Ele não gosta. Sente medo. - Porque não entende como isso se dá. As pessoas criam muitas fantasias com relação aos mortos.

- Também acho. Eu não sinto medo.

- Isso mesmo. Chegamos. Até amanhã, Nico.

- Até amanhã, professor, e muito obrigado.

Nico desceu e Alberto continuou seu caminho, pensativo. O espírito do coronel Firmino dissera claramente que sua mulher estava de volta à mansão em outro corpo. Estaria falando de reencarnação? Fora Liana quem o vira perto da escada. Seria Liana a reencarnação da mulher do coronel?

Ele a queria com ele. Estaria pretendendo que ela morresse? Não acreditava que ele pudesse literalmente tirar-lhe a vida, mas poderia roubar-lhe energias para dominá-Ia e arruinar-lhe a saúde, aproveitando-se das fraquezas dela. Liana andava muito debilitada ultimamente, desde que vira o coronel. Teria uma coisa a ver com a outra? Nico estaria descobrindo a verdadeira causa dos problemas de Liana? Precisava ter certeza. Mas como? Só Eurico via o coronel, e acontecia durante a noite, quando ele não se encontrava na casa. Quanto mais pensava no assunto, mais suspeitava que isso fosse mesmo verdade.

A pressa de Liana em abandonar aquela casa não estaria também relacionada com isso? Embora ela tivesse problemas com Norberto, ele ficava fora a semana toda e quando estava em casa era discreto. Bastava ela cortar definitivamente o laço com ele e pronto, estaria tudo resolvido. Ele não se atreveria a insistir. Ficaria até mais calmo sabendo-a livre. Com o tempo, a situação poderia se resolver sem que ela precisasse partir para um casamento sem amor.

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À medida que pensava no assunto, mais se convencia de que Nico havia descoberto o fio da meada. Se Liana fora mesmo a esposa do coronel, e ele estivesse procurando levá-Ia ao desencarne acreditando que assim a teria a seu lado, tudo ficava claro: a fraqueza dela, a angústia, a vontade de fugir, o mal-estar que a acometia de vez em quando e do qual os médicos não conseguiam descobrir a origem.

Ele havia estudado os processos de obsessão por espíritos desencarnados e sabia que em determinadas circunstâncias eles podiam obter êxito. O fato de Liana haver se envolvido com o cunhado e sentir-se culpada, acreditando que precisava ser punida por isso, baixara o teor de suas energias e permitira o envolvimento do espírito do coronel. Se ela houvesse compreendido que esse caso não fora proposital, se rompesse com ele sem se sentir culpada, o coronel nada teria conseguido.

Alberto sabia que cada ato é medido pela atitude que o determinou, não pelo fato em si. E o pior é que ela não havia ainda superado o caso e, por isso, a cada dia mais o coronel a dominava. Uma coisa era certa: ela precisava mesmo sair daquela casa. Não tinha certeza se isso seria o bastante. O espírito do coronel estava ligado a ela e poderia acompanhá-Ia quando ela saísse.

Além disso, ela precisava receber ajuda espiritual de pessoas que entendessem e pudessem esclarecer o espírito do coronel e afastá-Ia. Como fazer isso? Eulália era católica e nunca permitiria que ele sequer falasse no assunto. Seria difícil convencer a própria Liana.

Ele não podia contar que fora Eurico quem se comunicara com a alma do coronel. Conhecia Eulália. Ela seria até capaz de afastar o filho de Nico, suspender as aulas, e tudo estaria pior. Quanto a Norberto, talvez fosse mais receptivo, mas como tocar no assunto sem revelar o que sabia?

Alberto foi para casa e não conseguia pensar em outra coisa. Afinal, ele não tinha nada com isso, por que se preocupava tanto? Talvez fosse melhor deixar tudo como estava e não se envolver. Gostava da vida que estava levando, o dinheiro das aulas permitia-lhe escrever com calma seus livros, sem se preocupar com as despesas do dia-a-dia. Depois, gostava dos meninos e queria ensiná-Ios a viver melhor, ajudando-os a descobrir e desenvolver seus talentos.

Entretanto, apesar de pensar nisso, nos dias que se seguiram Alberto não conseguia esquecer. Liana estava abatida, desanimada, cansada, sem vontade, o que preocupava Eulália, que procurava entusiasmá-Ia para marcar nova data para o casamento. Contudo, vendo-lhe o semblante pálido, não insistia.

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Mário mostrava-se triste, e Alberto notava que ele a cada dia ficava mais calado, notando a indiferença de Liana, que, apesar de esforçar-se em recebê-Io com alegria, não conseguia disfarçar o que lhe ia no coração.

Foi Norberto quem conversou com Eulália:

- Acho que está na hora de resolver esse noivado. Liana não está apaixonada por Mário e ele está cada dia mais triste. Qualquer um pode ver isso. Ela não gosta dele, e esse noivado pode ser a causa de seu abatimento.

- Que idéia, Norberto! Ninguém a obrigou a nada. Se ela quiser, pode acabar com isso. Claro que ela gosta dele! O fato é que Liana está doente e os médicos não conseguem descobrir o que ela tem.

- Ela poderia ir passar algum tempo em São Paulo. Precisa de distrações. Vive metida em casa.

- Já sugeri, mas ela não quer. Só vai se eu for. E eu não posso ir, levar Eurico para lá. Ele está melhorando tanto! Tenho medo de que lá ele volte a sentir-se mal. O clima não é bom como o daqui.

- Ela está mais abatida a cada dia. Temos de fazer alguma coisa. - Também acho. Mas o quê?

Ele não soube responder. Sentia-se culpado. Deveria ter se controlado. Liana não conseguia suportar o remorso. Ele acreditava que era isso que a estava perturbando. Estava arrependido, mas o que fazer? Não podia voltar atrás.

Dias depois, Alberto estava no jardim com as crianças estudando ciências quando foram surpreendidos por um grito vindo de dentro da casa. Correram assustados, e Maria, que passava pela copa, explicou assustada:

- Dona Liana desmaiou. Está lá na sala, parece morta!

Eles correram para a sala onde Liana estava estendida no sofá enquanto Hilda e Eulália tentavam reanimá-Ia, esfregando seus pulsos, tomando a temperatura. Vendo-os chegar, Eulália tomou:

- Já mandei chamar o Dr. Marcílio.

Nico aproximou-se do professor, dizendo-lhe baixinho: - O Eurico está vendo o coronel do lado dela! Está morrendo de medo! Vou levá-Io embora.

Eurico puxava Nico pela mão e estava pálido. Eulália notou e pediu: - Hilda, leve os meninos embora.

- Pode deixar - disse Alberto -, eu saio com eles.

Uma vez na copa, pegou um copo com água e deu a Eurico, dizendo: - Não tenha medo. Ele não pode lhe fazer mal.

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O menino bebeu a água e seus olhos encheram-se de lágrimas quando disse: - Ele a estava segurando. Eu vi. Ela não queria ir com ele, estava com medo, mas ele a estava obrigando. Ele quer levá-la embora! Por favor, professor, não deixe que ele leve tia Liana! Ajude!

- Ele não vai levá-la. Acalme-se, Eurico. Vamos dar as mãos e rezar. Juntos havemos de afastá-lo de Liana.

Sentaram-se ao redor da mesa e deram-se as mãos enquanto o professor murmurava uma prece, pedindo ajuda para Liana. Quando terminou, ele disse: - Lembre-se, Eurico. Deus tem todo o poder. Quando sentir medo, peça ajuda. Sente-se mais calmo agora?

- Sim. Eu vi que aquela mulher apareceu e o levou embora. - Como é que você viu se a tia está na sala e nós estamos aqui? estranhou Amelinha. Foi Alberto quem respondeu:

- Isso é possível porque Eurico enxerga com os olhos da alma e, nesse caso, pode ver através das paredes.

- Puxa! - disse Nico. - Eurico tem esse poder?

- Tem, sempre que ele estiver enxergando com os olhos da alma. - Eu também quero enxergar com os olhos da alma! - reclamou Amelinha. - Pois eu não queria ver nada disso - respondeu Eurico.

- Porque você é medroso! - retorquiu ela.

- Só porque ele não sabe bem como isso acontece - disse Nico. - É verdade. Quando ele compreender melhor essa sua capacidade, vai perder o medo. Principalmente quando perceber o quanto está ajudando Liana a sarar. Ela não está doente do corpo, e por isso os médicos não sabem curá-la. Ela está sendo subjugada por uma alma do outro mundo. Para isso temos de usar outros métodos. - Minha mãe não acredita. Se eu contar, ela me leva ao médico de novo. - Por isso temos de pensar em um outro jeito. Fiquem aqui, que vou ver como ela está. Ele voltou à sala e Liana, pálida, estava sentada no sofá enquanto Eulália tentava fazê-la engolir um chá que ela recusava.

- Meu estômago está enjoado. Não quero tomar nada agora. Depois eu tomo. - Está bem. Vamos esperar um pouco. E o médico, que não chega? 159

- Estou melhor. Não precisava incomodar o Dr. Marcílio. - O certo mesmo era você ir a São Paulo ver o Dr. Caldas. Esses médicos do interior não sabem nada. Até agora ele não conseguiu curá-Ia. Vem com uma conversa maluca de má influência, etc. Não confio nele.

- O Dr. Marcílio é muito considerado. Tem curado muita gente, Dona Eulália - disse Alberto.

- Um médico da roça. Se ele fosse bom, estaria na capital, teria subido na vida. Mas não temos outro remédio senão chamá-Io.

Enquanto Eulália ia até a copa ver as crianças, Alberto sentou-se na poltrona ao lado do sofá, perguntando:

- Conte, Liana, o que você sentiu?

- Eu estava bem. Um pouco desanimada, mas a isso já me acostumei. Minha vida é assim mesmo. De repente senti uma tontura e perdi os sentidos. - Não se recorda do que aconteceu enquanto esteve desmaiada? - Não. Só sei que acordei oprimida, apavorada. TIve a sensação de que alguém me agarrava e eu queria fugir.

- E agora, sente-se melhor?

- Sim. Estou bem. Só um pouco assustada. E se acontecer de novo? - O que você precisa é decidir sua vida. Acabar com esse noivado, assumir sua profissão e esquecer o passado. - Está difícil.

- Engano seu. Você pode assumir o controle de sua vida. Esqueça o que passou e já não tem remédio. O que importa é o que você está fazendo de sua vida agora. Acredite: só você pode mudar sua vida. Enquanto ficar na culpa, na depressão, no desgosto, julgando-se errada, vai atrair o mal. Precisa reagir, tentar sair dessa tristeza, confiar no futuro, lutar para conseguir felicidade. Não se entregue assim, como se fosse incapaz. Você é uma mulher forte, cheia de qualidades, tem de reaver sua alegria.

. - Não consigo.

Eulália voltou em companhia do médico. Alberto levantou-se e depois de cumprimentá-Io afastou-se para que ele examinasse Liana. Ficou. No jardim com as crianças e, quando o Dr. Marcílio saiu, meia hora depois, ele perguntou:

- E então, doutor?

O médico fez um gesto evasivo.

- O caso dela torna-se difícil, porquanto eles não acreditam na verdadeira causa do problema.

Alberto interessou-se:

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- Sabe qual é?

- Sei. Mas esse é um assunto delicado. Se me permite, preciso ir. Estou sem carro e tenho hora em casa.

- Posso levá-lo com o maior prazer. Precisamos conversar. Espere só eu me despedir. Alberto entrou, despediu-se e, uma vez no carro com o médico, foi direto ao assunto: - Liana está sob a influência de um espírito desencarnado. - Você notou?

- Sim. O espírito do coronel Firmino. Ele a está molestando e, segundo sei, quer levá-Ia. Diz que ela é sua esposa. - Então é isso! Bem que eu desconfiei. Mas não tinha certeza de que era ele. Como é que sabe disso?

Alberto contou-lhe como descobrira e Marcílio não se conteve: - Que mediunidade desse menino!

- É verdade. Mas os pais não aceitam e por isso ele não recebe esclarecimentos. Fica apavorado. Sua saúde é delicada e, se não fosse por Nico, poderia ficar pior. O médico balançou a cabeça pensativo:

- Não sei como poderemos ajudar. Tenho alguns amigos médiuns e reunimo-nos em minha casa duas vezes por semana para contatos espirituais. Vou colocar o nome dela no livro de orações.

- Isso é ótimo, mas penso que, no ponto em que está, o caso dela precisa de um atendimento mais direto. Liana está com problemas emocionais, tem um desgosto e se deprime. Por isso ele consegue dominá-Ia.

- Se as pessoas soubessem que quando entram na queixa, na culpa, na depressão, baixam o teor de suas energias e se tornam presa fácil dos espíritos infelizes, nunca se deixariam levar pela tristeza. Estariam sempre lutando para manter a alegria, mesmo quando os acontecimentos não são como elas gostariam.

- Fico feliz em encontrar alguém que pensa como eu. Gostaria muito de ir às suas sessões. - Quinta-feira à noite, estaremos reunidos às sete horas. Apareça em casa. Será bem-vindo. - Obrigado. Irei.

Depois que deixou o médico, Alberto não conseguiu parar de pensar no assunto. O caso de Liana era grave. Se ele não conseguisse ajudá-Ia, o coronel poderia conseguir o que pretendia. No dia seguinte tentaria falar com Eulália. Ela precisava compreender. 161

Entretanto, ela não entendeu. Assim que ele começou a falar em influências espirituais, ela foi logo dizendo:

- Com certeza foi o doutor quem colocou essas idéias em sua cabeça. Não quero ouvir nada desse assunto em minha casa. Meu filho é de saúde delicada. Tem alucinações e isso lhe tem minado a saúde. Se quiser continuar vindo a esta casa, nunca mais fale nisso. Alberto calou-se. Nesse instante teve a sensação de que um vulto passava rindo ao lado dele. Voltou-se rápido, mas não viu nada. Sentiu vários arrepios. Teve certeza de que o espírito do coronel estivera ali, ouvindo-os conversar.

Voltou para casa e não pôde dormir. Por mais que desejasse esquecer Liana e repetir que nada poderia fazer para ajudá-Ia, ela não lhe saía do pensamento. Levantou-se de madrugada, abriu a janela e respirou o ar fresco que vinha de fora. Depois, olhou o céu cheio de estrelas. Dirigiu a Deus ardente prece pedindo que o inspirasse em como proceder. Quando terminou, deitou-se e finalmente conseguiu dormir. Na manhã seguinte, depois da aula, foi ter com Liana na sala. - Sente-se melhor? - indagou.

Ela sorriu levemente.

- Sim.

- Podemos conversar um pouco?

- Claro.

- O que lhe disse o médico? - Bom, ele veio com aquela conversa de sempre. Que estou sob a influência de um espírito e que os remédios não vão me ajudar.

- Você não acha que ele pode ter razão?

- Não sei. Parece um tanto fantasioso. Um médico não pode falar essas coisas. - Você sabe que Eurico viu o espírito que a fez desmaiar? - Viu? O que foi que ele viu? Ele falou para Eulália?

- Ele tem medo de que ela lhe dê remédios. Por isso, ficou calado. Só falou para Nico.

- Nico também viu?

- Não. Estou lhe contando, mas peço que não fale nada à sua irmã. Ela me proibiu de tocar nesse assunto. Se souber o que estou lhe contando, despede-me. - Ela não gosta de falar nisso mesmo.

- Mas eu tenho de lhe falar. Não posso deixá-Ia nessa situação e me omitir. 162

- Mas Eurico tem alucinações. Não pode acreditar no que ele diz. - Você também viu um espírito. Já esqueceu?

- Nunca vou esquecer. Foi horrível.

- Para Eulália foi uma alucinação. Você acha que foi?

- Não. Eu o vi. Ele estava lá, perto da escada. Fico arrepiada só em lembrar. - Eurico vê sempre e ninguém acredita. Já pensou como ele sofre com isso? - Se tudo que ele dizia for verdade... puxa... pode ser mesmo. - Eu tenho certeza. Ele viu o mesmo homem que você e diz que ele quer levá-la para o outro mundo.

- Quer me matar?

- Sim. Ele quer que você vá viver ao lado dele.

- Que horror! Tenho pavor dele.

- Nesse caso tem de reagir, lutar para reconquistar sua alegria, afastar sua influência. - É isso que não consigo. Eu tento, mas quando Mário aparece sinto vontade de fugir. - Escute. Tenho um plano. Se concordar, ficará livre de tudo isso. - De que forma? - Case-se comigo. Sou viúvo agora. Nosso casamento será apenas de aparência. Só para que você deixe esta casa. Depois de algum tempo, quando estiver bem, houver resolvido o que fazer de sua vida, nós nos separaremos. Você irá para onde quiser. Estará livre. - Faria isso por mim?

- Gosto de você. Desejo ajudá-ia. Se ficar aqui, nunca sairá dessa situação angustiosa. - Não posso aceitar. Iria arruinar sua vida.

- Por quê? Sou livre. Não pretendo mais me casar. Depois, é só por algum tempo. Creia, Liana, é a única forma de você resolver todos os seus problemas. Uma vez em minha casa, estaremos livres para procurar a ajuda espiritual de que você precisa. - Só em pensar em libertar-me do compromisso com Mário, sinto-me mais leve. - Então! Pense em minha proposta. Acabe com esse noivado e poderemos nos casar e resolver tudo sem que você precise ir viver com alguém que não ama. - Vou pensar.

- Ficarei feliz se aceitar.

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Naquela noite, Nico acordou com Eurico sacudindo-o:

- Nico! Nico! Ele está lá de novo.

Nico levantou-se e foram para a cama de Eurico.

- Ele está aí mesmo?

- Está.

- Vou pegar o caderno e o lápis.

- Não me deixe sozinho com ele.

- Está aqui, na gaveta da sua mesa.

Eurico deitou-se, cobriu a cabeça e Nico tomou:

- Por que cobre a cabeça? Não adianta mesmo.

- Sei lá. Assim acho que fico mais protegido. Ele está rindo e dizendo que vai me perseguir a vida inteira.

- Vai nada. Deus não vai deixar. Olhe aqui, seu coronel, você morreu e não tem o direito de vir assustar os vivos. Se não parar com isso, vou chamar aquela mulher e ela leva você embora já. Você assusta o Eurico, mas eu não tenho medo de você. Por que não aparece para mim!

- Ele disse que você é bobo e que precisa sair do caminho dele. Já chega o que você fez com ele.

- É mentira dele. Eu nunca o conheci.

- Ele disse que você esqueceu, mas ele não. Que você ainda vai pagar por isso.

- Ele quer me assustar, mas eu não tenho medo. Não acredito em nada que ele fala de mim.

- Ele disse que um dia vai provar, que é melhor sair do caminho dele.

- Enquanto ele não deixar de perseguir as pessoas desta casa, eu não vou sair. - Ele disse: dê um recado àquele professorzinho de meia-pataca que não tente se meter, senão vai sobrar para ele. Que ele não vai permitir o casamento. - Será o casamento com o Dr. Mário?

- Não. É o casamento com o professor.

- Com o professor? Tem certeza? Quem vai se casar com a Liana é o Dr. Mário.

- Ele disse: dê o recado e não se meta. Ele nunca vai se casar com Liana. Eu vou impedir. Você vai ver.

- Já escrevi. O que mais ele disse?

- Mais nada. Ele sumiu.

- Puxa! Acho que ele não está dizendo coisa com coisa. Tem certeza que ele falou tudo isso mesmo?

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- Tenho. Eu escutei tudinho.

- Bom, nesse caso não estou entendendo nada. Ele foi embora mesmo? - Foi.

- Então vamos dormir. Estou com muito sono.

- Deite-se aí do meu lado. Não quero ficar sozinho.

- Está bem. Vou ficar até você pegar no sono. Depois vou para minha cama. Sua mãe não gosta que eu durma no seu quarto.

Nico esperou e, quando percebeu que Eurico estava dormindo, levantou-se e foi para sua cama.

Na manhã seguinte, quando mostrou ao professor o que havia escrito, Alberto emocionou-se. Aquela era uma prova conclusiva de que Eurico realmente via o espírito do coronel. Ninguém sabia nada a respeito da proposta de casamento que ele fizera a Liana. As crianças nunca poderiam ter inventado aquele recado. Estava no caminho certo. Realmente o coronel estava ao lado de Liana, ouvindo tudo, tentando manter seu domínio sobre ela. Claro que ele iria tentar atrapalhar o casamento. Sabia também que Eulália não iria gostar da idéia, uma vez que preferia Mário e sempre demonstrava seu interesse em ver Liana casada com o engenheiro. Parecia-Ihe também que ela, apesar de tratá-Io com afabilidade, não o desejava como cunhado. Iria opor-se, com certeza. Havia ainda Norberto, que, fosse qual fosse o pretendente de Liana, estaria contra.

Apesar de tudo isso, ele pensava que podia contar com o mais importante, que era a ajuda espiritual. Era um homem de fé, interessado em ajudar uma pessoa. Além do mais, pediria o apoio do Dr. Marcílio, já que contava com ele para tratar espiritualmente de Liana, quando ela estivesse em sua casa.

Por isso, o recado do coronel não o preocupou. Ele confiava e sabia que o bem é sempre mais poderoso do que o mal. Se ele estava no bem, quem poderia vencê-Io? 165

Capítulo 12

Alberto chegou em casa disposto a encontrar um jeito de levar adiante seu plano. Tinha certeza de que, se conseguisse tirar Liana daquela casa, poderia, com a ajuda espiritual, libertá-Ia daquela obsessão. Entretanto, diante das dificuldades que certamente encontraria, precisava de apoio.

Lembrou-se que era quinta-feira. Consultou o relógio: seis horas. Tinha tempo para tomar um banho e ir para a casa do Dr. Marcílio.

Faltavam quinze para as sete quando ele tocou a campainha da casa do médico. Foi recebido pela esposa dele, que imediatamente o conduziu à sala, onde algumas pessoas conversavam alegres. O médico abraçou-o apresentando-o aos presentes: - O professor veio para participar de nossa reunião. É um estudioso do assunto. Depois dos cumprimentos, sentaram-se ao redor da mesa, sobre a qual havia uma toalha bordada, alguns livros de Allan Kardec, papel, lápis, uma bandeja com uma jarra de água e alguns copos.

Alberto sentiu-se bem naquele ambiente. A sala simples porém mobiliada com gosto era muito aconchegante. Havia flores nos vasos e as pessoas mostravam-se muito agradáveis. Todos sentados ao redor da mesa, Marcílio abriu um livro e leu um trecho. Depois cada pessoa comentou o tema. Por fim, as luzes apagaram-se, ficando acesa apenas pequena lâmpada azul. Adélia, esposa do médico, proferiu ligeira prece, solicitando a ajuda dos espíritos superiores para todos os presentes, trazendo esclarecimentos e orientação. Imediatamente uma das senhoras suspirou fundo e em seguida começou a falar: - Finalmente conseguimos reuni-Ios todos aqui. Sinto-me grata por isso. Saber que posso contar com a ajuda de vocês emociona-me e enternece-me. É a primeira vez que venho, trazida pelo carinho do Dr. Neves, mentor deste trabalho. Ele se prontificou a ajudar-me a vencer nesta luta em que venho me empenhando há muitos anos. Para que possam me entender, preciso contar o drama que envolveu nossas vidas no passado e que até agora continua nos infelicitando, apesar das oportunidades que a misericórdia divina vem nos oferecendo e que alguns dos envolvidos, presos ainda às suas amigas ilusões, se recusam a aproveitar.

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Muitos anos atrás, minha filha muito amada reencarnou em uma importante cidade da Europa, com o espírito cheio de esperança e uma vontade louca de vencer. Nós vivemos em um lugar no astral onde a beleza, a arte são fundamentais. Lá os espíritos têm o senso do belo desenvolvido, tendo aprendido a enxergar nas belezas do universo a grandeza de Deus. Apesar disso, ela precisava desenvolver outros lados de sua personalidade. Reencarnada, procurou a carreira artística, e conseguiu fama como cantora e atriz. Teve sucesso, dinheiro, popularidade. Foi famosa.

Conheceu um pintor muito talentoso, mas que não foi compreendido em sua época, não tendo vendido seus quadros em vida e só sendo reconhecido como um gênio muitos anos mais tarde.

Considerando-se fracassado, ele sofria muito, principalmente porque Helena, famosa e rica, custeava suas despesas. Ela valorizava o imenso talento dele e não se importava com dinheiro. Tinha certeza de que um dia ele conseguiria o reconhecimento público. Contudo, ele se sentia infeliz, incompreendido. Mergulhou nas drogas, o que prematuramente o matou. Helena sofreu muito por isso. Ela o amava com loucura. A vida sem ele parecia-lhe sem nenhum sentido. Estava grávida, mas nem isso conseguia confortá-Ia.

Afundou-se na bebida, tentando esquecer. Bebia a princípio para poder dormir, depois para poder suportar seu desespero. Até que uma noite, no auge de sua loucura, atirou-se pela janela do terceiro andar do prédio onde residia.

Inútil dizer de seu sofrimento quando acordou e descobriu que a morte não conseguira destruir seu espírito nem, o que é pior, seu inferno interior. Só que agora havia o espírito de um jovem agarrado a ela. Era o filho que ela não deixara nascer. Chorando, dizia que a odiava, chamando-a de assassina, cobrando sua necessidade de reencarnar que ela cortara com seu tresloucado gesto.

Apavorada, ela percebeu que em seu egoísmo havia assassinado seu próprio filho e que ele lhe cobrava seu direito à vida. Debalde Helena tentou explicar-lhe, fazê-Io entender sua loucura. Quanto mais ela tentava desculpar-se, mais ele se enraivecia, não lhe dando paz em nenhum momento.

Fiz o que pude para ajudá-Ios, mas eles haviam escolhido o próprio caminho e nada pude fazer senão os acompanhar e esperar que estivessem prontos para receber ajuda. 167

Durante anos, Amadeo e Helena vagaram pelo astral qual duendes enlouquecidos, sem se encontrar, cheios de amargura e desilusão. Por fim, chegou um momento em que, cansada, arrependida de seu gesto de revolta, Helena resolveu optar pela paz. Aceitou seus erros e dispôs-se a esperar que a vida lhe ensinasse o que ela precisava aprender.

Finalmente sentiu-se aliviada. Pensou em Deus, suplicou ajuda, orou por seu filho, implorando que a perdoasse. Abriu seu coração, colocou-se na posição de aceitar tudo que Deus lhe mandasse, sem revolta. Descobriu o quanto fora arrogante, pretendendo comandar os desígnios da vida e da morte, colocando seu julgamento frágil e deficiente nos fatos imponderáveis da sabedoria divina.

Seu filho acalmou-se, adormeceu, pôde ser desligado dela e conduzido a um local de refazimento. Helena foi recolhida a uma colônia de recuperação, onde se esforçou para melhorar e aprender.

Entretanto, quanto mais ela melhorava e aprendia, mais a consciência de seu gesto a incomodava. Descobriu que Amadeo, o homem amado, apesar de ser visto como suicida, estava bem melhor do que ela e havia reencarnado. Teve uma encarnação curta, apenas para eliminar resíduos e restabelecer o equilíbrio de seu corpo astral. Com ajuda de amigos espirituais, Helena tomou conhecimento do passado e descobriu que Amadeo e Salvatore eram inimigos havia longa data, tendo sempre se digladiado, alimentando um ódio que não vem ao caso agora mencionar. Ele havia prejudicado muito Amadeo e tudo fazia para seu fracasso. Por isso, a vida havia programado que ele deveria reencarnar como seu filho, e, uma vez juntos, acabar com aquela inimizade. Helena soube que, se Amadeo não houvesse afundado nas drogas e Salvatore tivesse tido oportunidade de nascer, tudo teria sido diferente. Amadeo teria tido mais chance de obter sucesso e a alegria de ver suas obras valorizadas em vida. Claro que os dois, como pai e filho, teriam problemas de relacionamento, mas o amor filial teria aliviado essas diferenças, transformando-as em amizade.

Contudo, eles não tiveram paciência para esperar. Com sua rebeldia, truncaram o bem programado e encontraram a infelicidade.

A médium fez ligeira pausa, respirou fundo e continuou: - Depois de algum tempo, tanto Helena quanto Amadeo compreenderam que cada pessoa tem uma missão no mundo. Quem reencarna na Terra, enquanto experiencia desafios que visam a desenvolver sua consciência, amadurecendo, deve retribuir os benefícios que essa oportunidade oferece, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida do planeta, utilizando os dons que já conquistou para isso.

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Há os que nascem com o dom de curar, seja na medicina ou na mediunidade, os que possuem sabedoria para facilitar as conquistas sociais; os que têm talento para desvendar os mistérios da natureza, descobrindo meios de aliviar o sofrimento humano. Há muitas e diversificadas tarefas para as quais o ser é criado. Desempenhá-Ias bem traz alegria e prazer.

A nós, artistas, que já desenvolvemos o senso da beleza e da arte, cabe a tarefa de levar as pessoas a perceber a espiritualidade através do belo, seja na música, na pintura, na literatura, na arquitetura, na ecologia, enfim, em tudo quanto glorifica a grandeza de Deus e concorre para sensibilizar, embelezar e tornar agradável este mundo. Certos de que não haviam realizado esse trabalho, Helena e Amadeo desejaram voltar a nascer, para desta vez cumprir sua missão. Contudo, Salvatore não compartilhava da mesma opinião. Continuava cultivando o ódio passado, não desejando esquecer, recusando qualquer sugestão deles. Para o sucesso de seus projetos, era imprescindível conseguir pelo menos o perdão de Salvatore. Sem isso, ele, mesmo distante, continuaria enviando energias destrutivas, o que, além de dificultar a nova vida programada para o casal, ainda lhes oferecia o risco de um novo fracasso.

É fácil, quando estamos aqui no astral, imaginarmos uma vida boa na Terra. Mas quando reencarnados, esquecidos do passado, presos às energias viciosas que alimentamos sem pensar, tudo se torna muito mais complicado e difícil.

Por causa disso, eles foram aconselhados a esperar mais um pouco. Salvatore nasceria primeiro, o que os libertaria temporariamente de sua influência, e eles iriam mais tarde. Amadeo reencarnaria dois anos antes de Helena, que nasceria como filha de Salvatore para que ele, pressionado pelo amor de pai, pudesse transformar o sentimento que nutria por Helena em amizade.

Entretanto, com receio de se deixar envolver novamente pelas tentações da fama e da bebida, Helena pediu para nascer em lugar tranqüilo, longe das grandes cidades, no que foi atendida.

Salvatore nasceu na capital de São Paulo, em uma família abastada. Desde cedo revelou-se autoritário e irascível. Quando se casou, aos vinte anos, comprou uma fazenda no interior e mandou construir a mansão que vocês todos conhecem nesta cidade. Foi nela que colocou sua mulher e a mantinha fechada. Mariquita, jovem de rara beleza, não amava o marido. Casara-se obrigada pelo pai e sua vida era um tormento constante, porquanto o coronel Firmino, como Salvatore se tornou conhecido nessa vida, era ciumento, exigente, mal-humorado.

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Suas atitudes feriam a sensibilidade de Mariquita, moça delicada e fina. Entretanto, educada de maneira dura pelo pai, nem sequer pensou em rebelar-se. Passou de um senhor a outro e procurou acomodar-se acreditando que a vida era isso mesmo e nada havia para fazer.

Quando Helena nasceu, deram-lhe o nome de Maria e logo o apelido de Mariinha. Ela se tornou o enlevo de Mariquita, que fez de seu amor pela filha sua razão de viver. Tudo seguia relativamente calmo quando Mariinha se apaixonou por um jovem filho de lavradores da fazenda, rapaz bonito e cheio de sonhos que tocava e cantava com maestria, fazendo serenatas, sonhando com a carreira artística.

Foi correspondida. Entretanto, quando o coronel Firmino descobriu, foi acometido de ódio. Ele não suportava a presença de Ângelo, chamando-o de vagabundo, sem profissão, proibindo a filha de vê-Io. Mas o casal continuou encontrando-se às escondidas. Quando ela descobriu que ia ser mãe, eles combinaram a fuga. Uma noite, enquanto a mansão dormia, Mariinha, levando apenas pequena trouxa com algumas roupas, fugiu em companhia de Ângelo, deixando um bilhete amoroso para a mãe. Enfurecido, Firmino procurou os dois por toda parte. Mariquita, pela primeira vez na vida, insurgiu-se contra o domínio do marido e tentou fugir para ir ao encontro da filha. Ele a prendeu no quarto, ameaçando-a de morte caso tentasse fugir novamente, jurando encontrar os dois para vingar-se.

Tanto fez que descobriu finalmente o casal e contratou dois capangas para matar Ângelo e trazer sua filha de volta. Quando os dois homens, empunhando uma arma, entraram na pequena casa onde o casal vivia, Mariinha colocou-se entre Ângelo e as espingardas e eles tentaram tirá-Ia do caminho. Não podiam ferir a filha do coronel. Enquanto um deles tentava arrastá-Ia, o outro se preparava para atirar. Ângelo agarrou uma escultura que estava trabalhando na pedra e arremessou-a sobre ele, que caiu ao chão disparando a arma, cuja bala se perdeu.

Os dois rolaram pelo chão enquanto Mariinha lutava como podia, mordendo o outro, resistindo, até que ele, cheio de raiva, a atirou ao chão e ela perdeu os sentidos. Depois, vendo que seu colega estava estirado no chão, tirou a faca e pulou sobre Ângelo em uma luta de vida e morte.

Ângelo foi ferido. Quando Mariinha recuperou os sentidos, apanhou a arma, fez pontaria e atirou.

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O homem rolou por terra e ela correu para Ângelo, que sangrava na altura do ombro esquerdo e no braço. Assustada, ela apanhou um lençol e tentou estancar o sangue. - Vamos sair daqui antes que eles acordem. Você precisa de um médico. - Estou atordoado.

- Está perdendo muito sangue. Vamos, antes que seja tarde. Abraçou-o decidida e saíram em busca de ajuda. Socorrido, Ângelo quase perdeu a vida, mas conseguiu superar. Entretanto, Mariinha, por causa do choque, perdeu o filho, tendo ficado muito mal. Finalmente, recuperados, mudaram-se para São Paulo, onde conseguiram continuar juntos.

Entretanto, o coronel Firmino não se conformou. Jurava vingança e sempre que podia tentava encontrar os dois fugitivos, sem conseguir.

Mariquita nunca mais saiu do quarto. Quando ela morreu, ele não queria que tirassem o corpo dela de lá para ser enterrado. Foi preciso que as autoridades de outra cidade o prendessem para que o enterro pudesse ser realizado.

Sem disposição para cuidar da fazenda, ele loteou as terras, conservando apenas a casa, onde continuou vivendo de suas lembranças.

Quando a morte o vitimou, recusou-se a sair de lá. Agora que Mariquita está de volta, ele tem a chance de compreender. Para isso, contamos com a ajuda de vocês todos, a quem agradeço do fundo do coração.

A médium calou-se e o Dr. Marcílio perguntou:

- Como podemos ajudar?

- Tirando Liana, que é Mariquita reencarnada, daquela casa. Ela foi atraída para lá por uma necessidade natural de acabar suas ligações com o coronel. Bem como Amadeo, que é Nico; Amelinha, que é Helena; e Eurico, que é o filho que ela perdeu quando reencarnou como filha do coronel Firmino.

Juntos no astral, combinamos dissolver velhos ressentimentos, ilusões dolorosas que estão dificultando a que todos possam viver melhor. É por isso que agora estão todos reunidos naquela casa.

Alberto não se conteve:

- Quer dizer que Nico é aquele famoso pintor?

- Isso mesmo. Seu carisma, seu conhecimento é inegável. Claro que vem de outras vidas - respondeu a médium.

- Quer dizer que estou certo em desejar tirar Liana daquela casa, ainda que precise casar-me com ela?

171 - Não lhe pedimos tanto, mas, se se dispõe a fazer isso, ficarei muito agradecida. Agora, preciso ir. Mas preciso dizer que Firmino vai fazer tudo que puder para impedir que Mariquita deixe a casa. Você precisa ficar atento, manter a ligação conosco, não se deixando envolver pelas dificuldades que surgirem. Estaremos a seu lado. Não deixe de comparecer às nossas reuniões aqui. Juntos haveremos de vencer. Alberto, comovido, calou-se. Marcílio agradeceu, proferiu ligeira prece e encerrou a reunião.

Todos os presentes, comovidos em desvendar o passado da mansão que eles haviam ouvido contar de diversas formas pelos colonos da região, prontificaram-se a cooperar para que o desfecho pudesse desta vez ser cumprido e o entendimento entre os envolvidos viesse a prevalecer.

Quanto a Alberto, sentia-se mais do que nunca disposto a envolver-se no caso. Faria tudo para que Liana aceitasse sua proposta.

Foi para casa disposto a tratar do assunto no dia seguinte. Liana parecia mais fraca e deprimida a cada dia. Tinha de agir o quanto antes.

Contudo, no dia seguinte não conseguiu falar com Liana. Eulália não a deixara um só momento, preocupada com sua palidez, desejosa de alegrá-Ia, tentando conversar. No sábado ele combinou uma aula extra com as crianças só para ver se conseguia aproximar-se dela. Estava com as crianças no jardim quando Mário chegou e, logo em seguida, Norberto. Depois de cumprimentá-Io, conversou com Nico, inteirando-se de seus progressos.

Liana estava lendo na sala, e Mário dirigiu-se a ela. Sentia-se triste, desanimado. - Então, Liana, sente-se melhor?

- Sim - respondeu ela tentando dissimular o mal-estar.

Mário olhou seu rosto pálido, seu ar abatido, e disfarçou a tristeza. - Você parece melhor - mentiu.

Norberto aproximou-se com Eulália:

- Você continua na mesma, Liana - disse ele.

- Norberto acha que os ares de Sertãozinho não lhe fizeram bem. Quer que vá ficar algum tempo em São Paulo.

- Eu estou bem. Não quero viajar agora.

- Você está definhando aqui - respondeu Norberto com tristeza. - Uma jovem cheia de vida como você não pode ficar aí, nessa apatia, nessa depressão. Vou levá-Ia para São Paulo e lá o Dr. Caldas vai dar jeito em sua saúde. O que não pode é ficar como está. A cada dia que passa está mais magra e mais triste. 172

- Impressão sua. Estou bem. Quero ficar aqui com Eulália e as crianças. Eulália fez ligeiro aceno ao marido para que se calasse. Sabia que com Liana era contraproducente insistir. O melhor seria esperar um momento mais oportuno e voltar ao assunto.

Depois do almoço, os dois casais, em companhia do professor, foram sentar-se no caramanchão para o café.

Alberto notava que Liana fazia tudo para esquivar-se de Mário, que ia ficando cada vez mais desanimado.

Houve um momento em que ele não suportou mais a pressão e saiu. Alberto acompanhou-o, andando de seu lado.

- Calma - recomendou ele.

- Não consigo entender o que há de errado com ela. Primeiro aceitou meu pedido, agora parece que se arrependeu. Vive se esquivando, não permite nenhuma intimidade. Afinal, somos noivos, pretendemos nos casar logo. Há momentos em que chego a duvidar de seu amor. Acho que ela se arrependeu de haver aceitado meu pedido. Não pode haver outra explicação.

- Pode ser.

- Ela não age como uma noiva. É fria, desinteressada. Quando fala de nosso casamento, parece falar de um enterro.

- Se sente assim, por que não fala francamente com ela? Em um relacionamento deve haver sinceridade. Não dá para começar uma vida a dois sem que haja entendimento, - Tem razão. Eulália garante que está tudo bem, que Liana me ama, que ela está doente. Mas, nesse caso, por que se recusa a ir tratar-se em São Paulo? - São perguntas que só ela pode responder. Se eu estivesse em seu lugar, não iria embora sem ter uma conversa franca com ela.

-É. Acho que tem razão. Vou tentar fazer isso. Obrigado pelo conselho. Quando os dois voltaram ao caramanchão, Eulália tentou alegrar o ambiente falando sobre as crianças, principalmente de como Eurico estava melhorando, aprendendo. - Eurico é um menino muito inteligente - esclareceu Alberto. - Até que enfim escuto alguma coisa boa em relação a ele - comentou Norberto. - É um alívio ver que ele aos poucos está acompanhando os outros dois, interessando-se pelas coisas. Para mim, é um verdadeiro milagre. Graças a você, Alberto. 173

- E a Nico. Esse menino, além de muito bom e prestativo, tem um carisma especial. Na vila todos gostam dele.

- É muito bem-educado, nem parece filho de gente tão humilde. O pai é um ignorante - disse Eulália.

- Mas a mãe dele é muito educada - respondeu Alberto.

- Isso é. Esteve aqui, sabe como se portar.

- Do jeito que eles estão, dentro de um ano, ou pouco mais, poderão tirar o diploma do primário.

- Já? - indagou Eulália com satisfação. - Amelinha também? - Sim. Ela os acompanha com facilidade. É uma menina muito viva e inteligente.

- Acho que a melhor coisa que fizemos foi contratar você para ensiná-Ios. Na escola, eles teriam de esperar mais tempo para terminar os estudos - tomou Norberto. - É o método que o professor usa - interveio Liana. - Ele tem um método de ensino revolucionário e muito eficiente. Eu mesma, se voltasse a lecionar, tentaria aplicá-Io. Mário olhou surpreendido para o professor. Fora para falar dele que Liana se interessara no assunto. Sentiu uma ponta de ciúme. Enquanto ele ficava o tempo todo ausente, o professor estava lá todos os dias. Esse pensamento o incomodou. Certamente eles conversariam bastante. Liana parecia bem informada das atividades de Alberto. Mordeu os lábios nervoso. E se fosse isso? E se ela estivesse se interessando pelo professor?

Olhou-o com atenção. Teve de reconhecer que era um homem bonito, bem-posto, elegante. Passava serenidade, segurança, como se soubesse o que fazer em qualquer circunstância. Era culto, inteligente. Um escritor. Não seria perigoso deixá-Io ali, em convivência diária com Liana? Falaria com Norberto a respeito.

No fim da tarde, quando o professor se despediu, ele esperou que as mulheres se recolhessem antes do jantar para conversar com Norberto.

- Você não se preocupa, estando sempre ausente, em deixar o professor aqui, freqüentando sua casa diariamente?

- Por que pergunta isso?

- Por que ele é muito moço, inteligente, prestativo. Qualquer mulher pode interessar-se por ele.

- Não estou entendendo aonde quer chegar.

- Liana interessou-se em nossa conversa só para elogiá-Io. - Você está com ciúme. O professor foi muito bem recomendado, trata-se de pessoa séria e de confiança.

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Além disso, Eulália nunca notou nada nele que a desagradasse. Tem se mostrado discreto, educado e tem cumprido bem sua tarefa de educador.

Mário inquietou-se, a expressão de seu rosto modificou-se um pouco quando ele disse: - Sinto que precisamos tomar cuidado com ele. Acho que está interessado em Liana. Gostaria que o afastasse desta casa.

Norberto olhou-o surpreendido. Mário havia se modificado. Nem parecia a mesma pessoa. Sua voz estava mais dura, seus olhos mais abertos, falara em um tom agressivo que nunca usara.

Tentou contemporizar. Se o professor estivesse interessado em Liana, Eulália teria percebido. Depois, não tinha por que o afastar, justamente quando as crianças estavam aproveitando tanto. Alberto nunca dera motivos para isso. - Não posso fazer isso - respondeu com voz firme. - Você está enganado. Alberto tem sido impecável. Não temos nenhum motivo para despedi-lo. Ao contrário, precisamos muito dele. As crianças estão aprendendo e, o que é melhor, sentindo prazer em estudar. O ciúme é mau conselheiro. Não se deixe envolver por ele. Não há nada entre Liana e o professor. - Espero que você não venha a se arrepender mais tarde.

- Você está assim porque Liana está desmotivada ao casamento. - Às vezes, apesar de Eulália afirmar o contrário, penso que ela não me ama.

- Para ser bem franco com você, que é meu amigo, eu também penso assim. - Pensa o quê?

- Que ela não o ama o suficiente para consumar o casamento. Não parece interessada nem na cerimônia, que sempre motiva uma moça. Mário empalideceu. Norberto continuou: - Se eu fosse você, daria a ela chance de romper o compromisso. - Acha isso? Por.quê? Ela falou alguma coisa?

- Não. Ela nunca diria nada, principalmente para mim. Estou falando baseado nas atitudes que ela vem mantendo quanto ao casamento. Depois, ela não me parece uma noiva amorosa, ansiosa para a chegada do noivo. Noto nela até uma certa frieza quando você chega. Desculpe dizer isso, mas você é meu amigo e não desejo que continue iludido. - O que você está me dizendo tenho repetido a mim mesmo várias vezes. Só não tenho coragem de colocar.

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- Por quê? Prefere viver nessa angústia? Eu teria acabado logo com a situação. Apesar de tudo, a verdade é sempre melhor que a ilusão.

Mário respirou fundo:

- É, tem razão. Amanhã mesmo falarei com ela. Ou marcamos o casamento para o mês que vem ou acabamos tudo.

Norberto tentou contemporizar:

- Não precisa ser tão radical.

- Tenho de fazer as coisas do meu jeito. Ou ela marca a data ou rompemos definitivamente. Não vou mais aceitar desculpas para protelar.

Norberto mordeu os lábios e não respondeu. E se Liana marcasse o casamento? Ele sabia que ela desejava sair daquela casa para fugir do remorso.

- Talvez convenha não pressioná-Ia desse jeito. Ela está doente. É preciso ter paciência.

- Não entendo você. Há pouco me aconselhou a buscar a verdade. - Descobrir se ela o ama. Depois, conforme o resultado, você toma sua decisão. - Vou pensar.

- Pense. Se chegar a uma conclusão, avise-me. Farei tudo para ajudá-lo. - Obrigado.

Depois dessa conversa, Mário sentiu-se mais inquieto. Ele sentia que Liana não o amava, mas teimava em não aceitar essa idéia. Norberto, com suas palavras, havia expressado o que ele não desejava admitir.

Apesar disso, ele temia conversar com Liana sobre o assunto. E se ela, aproveitando a ocasião, rompesse definitivamente com ele?

No início do namoro, ele sentia que a amava e esse sentimento era prazeroso, mas, nos últimos tempos, quanto mais ela se esquivava, mais ele se inquietava e esse amor havia se transformado em paixão, deixando-o infeliz, mas ao mesmo tempo sem coragem para um rompimento. Só em pensar nisso ele sentia aumentar sua agonia. Ele nunca se sentira assim por nenhuma mulher. O que estava acontecendo com ele? Por que não se sentia com forças de terminar tudo de uma vez?

À noite, Mário não conseguiu dormir. O dia estava clareando já quando ele resolveu: não iria embora sem uma conversa franca com ela. O domingo amanheceu nublado, embora ainda um pouco quente, e Mário acordou já passava das dez. Levantou-se apressado. Arrumou-se e desceu. Hilda estava na copa e, vendo-o, aproximou-se:

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- Bom dia, Mário. Venha, vou mandar servir-lhe o café.

- Desculpe, Dona Hilda, perdi a hora.

- Domingo é dia de descanso. Sente-se, por favor.

Depois do café, Mário foi até a sala onde Liana se encontrava lendo. Aproximou-se: - Bom dia, Liana. Sente-se melhor?

Continuar: parte 4 de 4