Quando Chega a Hora
- Não tenho essa intenção. Estou apenas…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Posso ser sincero?
- Faça o favor.
- Ela não ama Mário.
Eulália admirou-se:
- Isso não é possível! Ela sempre me dizia que só se casaria por amor. Depois, ninguém a está obrigando. Ela se casa porque quer. Você está enganado. - Se ela amasse o noivo, estaria feliz. Não é isso que está acontecendo. Anda triste, abatida. Quando ele aparece, ela fica nervosa, não gosta de ficar sozinha com ele. Nunca reparou nisso?
- Não. Ela é recatada, não gosta de demonstrar seu afeto na frente das pessoas. Você diz isso com tanta segurança... Ela lhe falou sobre o assunto? - Estou comentando o que observei. Só isso. Se deseja que sua irmã seja feliz, aconselhe-a a desistir desse compromisso.
- Por que faria isso? Mário é um excelente rapaz. Estou certa de que a fará muito feliz. - Ele é ótima pessoa, mas ela não o ama. Está cometendo um engano que vai infelicitá-Ia pelo resto da vida.
Eulália olhou desconfiada para ele. Por que Alberto estava tão contra o casamento? Estaria apaixonado por Liana? Algumas vezes percebera admiração nos olhos dele quando a fitava. Remexeu-se na cadeira sem saber o que dizer.
- Vou pensar no assunto. Obrigada por me ouvir.
- Não acreditou no que eu disse. Mas o futuro dirá que estou sendo sincero, que admiro Liana e penso que ela merece uma vida melhor.
Eulália deixou a sala intrigada. Como não percebera antes o interesse do professor por sua irmã? Liana estava sendo ingênua, tratando-o como amigo. Ele era um homem separado. Ainda bem que apareceu Mário, senão ela poderia ter se deixado envolver por Alberto. Reconhecia que ele, além de ser um homem bonito, inteligente, simpático, tinha um charme especial.
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Logo sua irmã estaria casada e tudo ficaria resolvido. Se dependesse dela, o casamento se realizaria na data marcada. Precisava convencer a irmã quanto aos preparativos. O que Liana desejava não tinha cabimento.
Quando Norberto chegou, no fim de semana, Eulália ficou sabendo que ele marcara a consulta conforme pedira. Assim que Mário chegou, conversou com ele reservadamente, pedindo-lhe para convencer Liana a ir ao médico fazer o exame pré-nupcial. Ela não podia se negar. Todas as noivas faziam esse exame.
Mário não queria, mas Eulália insistiu e ele a contragosto tocou no assunto. - Ontem fiz meu exame pré-nupcial. Está tudo em ordem comigo. Quando vai fazer o seu? - Comigo está tudo bem. Fiz vários exames há pouco tempo. - Gostaria que fosse a São Paulo com Norberto amanhã. Quero levá-Ia para ver a casa. Temos de ultimar os preparativos para o casamento, escolher convites, programar a recepção. Há também alguns prospectos de viagem. Onde deseja passar a lua-de-mel? Liana ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
- Não desejo viajar antes do casamento. Você entende muito mais do que eu de decoração. Tenho certeza de que fará tudo muito bem. Quanto à lua-de-mel, você pode trazer esses prospectos na próxima semana e decidiremos. Gostaria também que nosso casamento fosse realizado aqui mesmo, com simplicidade, apenas para nossas famílias. Mário olhou-a admirado. Seus pais eram pessoas de sociedade, sonhavam fazer de seu casamento um acontecimento.
- Meus pais ficariam decepcionados. Sou o único filho homem, e o primeiro que se casa. Não estou entendendo. Sempre pensei que gostasse de festas. - Acho perda de tempo convidar pessoas que não têm nada a ver com nossa felicidade. - Não concordo, Liana. Até agora tenho cedido a tudo quanto você pediu, mas desta vez não vai ser possível. Tenho parentes, amigos, gostaria de tê-los reunidos no dia mais feliz de minha vida. Você precisa compreender.
- Vou pensar.
- Não temos muito tempo. Tem de resolver depressa. Eulália, que se aproximara e ouvira parte da conversa, interveio: - Ela irá amanhã, sim.
- Só se você for comigo.
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- Pois eu vou. Hilda tomará conta das crianças. Ficaremos lá e resolveremos tudo de uma vez - respondeu Eulália, decidida.
Liana não teve mais argumentos. Ela esperava que Eulália recusasse. Por outro lado, se ela fosse junto, Norberto não teria como a pressionar para desistir do casamento, como fazia sempre que estavam sozinhos.
Era melhor mesmo ir, para evitar desconfianças. Teria de se sacrificar até o fim. Domingo à noite, preparou a mala. Eles iriam viajar bem cedo na manhã seguinte. Deitou-se pensando desanimada nessa viagem que não sentia vontade de fazer. Custou a dormir. No meio da noite acordou assustada. Alguém andava pelo quarto. Lembrava-se de haver fechado a porta à chave. Quem poderia ser? Acendeu o abajur e não viu ninguém.
- Acho que sonhei.
Deitou-se novamente, apagou a luz e então viu uma claridade nos pés da cama, e o mesmo homem daquela noite apareceu. Olhava-a admirado. Liana ficou paralisada de medo. Arrepios corriam-lhe pelo corpo. Tentou gritar, mas a voz não saiu. - Você não vai sair daqui - disse ele. - Eu não vou deixar. Desta vez você não vai escapar. Liana sentiu a cabeça rodar e perdeu os sentidos. Quando acordou, o dia havia amanhecido e alguém batia na porta do quarto. Tentou levantar-se, sentiu tontura, mas fez um esforço e abriu a porta.
Eulália, vendo-a, disse assustada:
- Liana, você está pálida. O que aconteceu?
- Ele voltou - disse. - Ameaçou-me. Estou tonta, com medo. Eulália amparou-a, fazendo-a deitar-se.
- Você sonhou.
- Não foi sonho. Ele veio e me ameaçou. Eu desmaiei. Foi antes de o dia amanhecer. Só acordei agora. Estou tonta, enjoada.
- Nesse caso não vai dar para viajar. Vamos chamar o médico. Iremos outro dia. Obrigou-a a deitar-se, tentando dissimular a preocupação. Chamou Hilda, pedindo-lhe que ficasse com Liana enquanto tomava as providências.
Procurou Norberto para dizer-lhe que iriam outro dia.
- Liana não me parece bem - disse ele. - Eu já disse: seria melhor adiar a data do casamento até que ela melhore. Ela não pode se casar com a saúde desse jeito - afirmou, tentando ocultar sua satisfação.
- Vamos ver. Pode ser coisa sem importância.
- Você mesma pediu uma consulta com Caldas.
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- Tem razão, ela não tem estado bem. Essas alucinações me preocupam. Julga ter visto aquele homem de novo. Acho que deveria insistir na viagem. Seria melhor ela ficar em São Paulo até o casamento.
- Ela não vai querer ir - disse ele pensativo.
- E eu não posso ficar lá o tempo todo.
- Nesse caso, não vejo outro remédio senão adiar o casamento para quando ela estiver melhor.
- Não sei o que pensar. Vamos aguardar alguns dias e ver como ela passa. - Está certo. Se eu não tivesse uma audiência importante em São Paulo, ficaria aqui mais alguns dias.
- Eu sei. Agradeço seu interesse. Falarei com o Dr. Marcílio. Não confio muito nele, é médico da roça. Se ela pudesse levantar-se, eu a levaria até Ribeirão Preto. - O Dr. Marcílio é médico formado. Poderá socorrê-Ia até que possa ir ao Dr. Caldas, que é de nossa confiança.
Eulália mandou uma empregada chamar o médico e subiu para o quarto de Liana. Mário estava ao lado dela, segurando sua mão com carinho.
- Mandei chamar o Dr. Marcílio. Como você se sente? - perguntou Eulália. - Mal. Não consigo respirar direito. A cabeça está tonta e o enjôo continua. - Tentou levantar? - indagou Eulália.
- Tentei, mas fico pior. O quarto roda, e parece que vou cair. - Nesse caso é melhor continuar deitada. Logo o médico estará aqui. Infelizmente não vamos poder viajar conforme combinamos. Iremos assim que ela melhorar.
- Ficarei também até que ela melhore - disse Mário.
- De forma alguma - disse Liana. - Você tem seus negócios e não pode ficar aqui. Ele a olhou nos olhos. Às vezes tinha a impressão de que ela o empurrava. Estaria enganado? Ela não vibrava de amor em seus braços, estava sempre procurando pretextos para não ficarem sozinhos. Seria recato ou falta de amor? Ele, no entanto, a cada dia mais e mais a amava e não via a hora de tê-Ia como esposa.
- Você não quer que eu fique? - perguntou.
Eulália olhou-os surpreendida e lembrou-se das palavras de Alberto. - Não se trata disso - respondeu ela. - Sinto-me culpada por não poder cumprir com o que planejamos. 134
Sei que é um homem muito ocupado. Não gostaria de atrapalhar seus afazeres. - Vou esperar pelo médico e ver o que ele diz. Depois resolveremos isso. Alberto estava dando aula para os meninos e no intervalo ficaram esperando Maria trazer a bandeja com refrescos e uma pequena merenda.
- Ela está demorando, vou ver se ela esqueceu - disse Amelinha, que saiu e foi até a copa, onde a bandeja estava arrumada. Ouviu que as duas criadas conversavam na cozinha: - Ela está mal. A Dona Eulália mandou chamar o Dr. Marcílio. Ela não bota fé nele, mas se tem alguém que pode curar a Liana é ele, que entende de alma do outro mundo. - Cruz credo! O que será que a alma do coronel quer com ela? Se eu visse ele, acho que tinha uma coisa...
- Pudera! A coitada está que faz pena. Não pode nem levantar da cama. Amelinha esqueceu a bandeja e voltou à sala de aula para contar a novidade. - Tia Liana viu a alma do coronel e ficou doente. Mamãe mandou chamar o médico. - Tem certeza? - indagou Alberto.
- Ouvi as empregadas conversando na cozinha. Elas disseram que tia Liana viu a alma do coronel e que está doente.
- Não seja linguaruda - disse Eurico. - Se mamãe ouve, não vai gostar. Ela não acredita em alma do outro mundo.
- Ela não acredita, mas tia Liana viu. E a tia não mente. Eu acredito que ela viu mesmo. - Claro que ela viu. Eu também o tenho visto. Não é, Nico? Lembra-se do outro dia? - O que foi que vocês viram? - indagou Alberto com interesse. - Ele viu o coronel e eu depois sonhei com ele - esclareceu Nico. - Lembra, professor? Eu contei para o senhor.
A empregada entrou com a bandeja, e Alberto perguntou: - Aconteceu alguma coisa com Liana?
- Ela não está bem. A Dona Eulália mandou chamar o médico e ele já chegou. Está lá em cima, no quarto.
Alberto deixou as crianças merendando e foi até a sala. Norberto e Mário estavam lá, calados, esperando.
- Soube que Liana não está passando bem. O que aconteceu? 135
- Ela está assustada. Julga ter visto outra vez aquele homem. Acho que ela sonhou - disse Mário.
- Ela não tem andado bem ultimamente. Emagreceu, anda nervosa, pálida - aduziu Norberto. Hesitou ligeiramente e concluiu: - Acho que vocês devem adiar a data do casamento. Pelo menos até ela melhorar.
- Se for preciso, faremos isso - respondeu Mário com voz triste. Norberto saiu para dar algumas ordens, e Alberto considerou:
- Não é isso que você deseja, não é?
- Não. Estou contando os dias que faltam para nosso casamento. Sabe, acho que ela pode estar sendo influenciada pelas crendices das pessoas daqui. Eles acreditam que quem morre pode voltar e aparecer aos vivos. Esta casa é tida por eles como assombrada. A mãe de Nico nem queria que ele entrasse aqui.
- Você não acredita em vida após a morte?
- Sei lá. De certa forma, quem morre deve ir para algum lugar. Não tenho certeza. Nunca pensei nisso. O que sei é que há muita ilusão, crendices, e as pessoas ficam assustadas. Liana está com muito medo.
Ele descreveu o que se passou com ela e concluiu:
- É o medo que a faz sentir-se mal. Ela acha que se sair daqui ele a vai perseguir. - Esse assunto é sério. Eu acredito que quem morre pode comunicar-se com os vivos. Há gente séria estudando esses fenômenos. O povo fantasia muito, mas, se Liana disse que viu o homem, eu acredito.
Ela viu mesmo.
Mário passou a mão pelos cabelos, nervoso.
- Isso não pode ser verdade. Nesse caso, ao invés do médico deveríamos ter chamado um padre.
- Eles não aprenderam a lidar com isso. Seria melhor chamar um bom curandeiro. Mário olhou-o assustado:
- Como pode dizer uma coisa dessas? Você é um professor, um homem de cultura. - Minha experiência ensinou que quem resolve esses casos é um bom médium. - Norberto e Eulália sabem que você pensa assim?
- Se ela não melhorar, serei o primeiro a informá-Ios.
Mário não respondeu. O que ele queria mesmo é que Liana ficasse bem e eles pudessem se casar na data marcada.
No quarto, o médico, segurando o pulso de Liana, examinava-a. 136
Era um homem alto, forte, de meia-idade, cabelos grisalhos, olhos pequenos e ágeis, rosto corado em que o bigode escuro contrastava.
Ouviu atentamente tudo quanto Liana lhe contou sobre a aparição. Por fim, disse calmo. - Ele não pode fazer-lhe nenhum mal. É seu medo que está abalando sua saúde. - Não pude evitar. Ele é horroroso. Quando ele aparece, o pavor toma conta de mim - disse Liana.
- Ela sonhou, doutor - interveio Eulália. - Está se deixando levar por uma ilusão. - Ela viu, ele falou com ela. Eu acredito.
- Não foi sonho, eu sei que não foi. Cheguei a sentir o hálito dele em meu rosto. - Só queria que soubesse que ele está se aproveitando de seu medo. Ele apareceu, mas não pode tocá-la nem lhe fazer mal. Entendeu? Vamos rezar juntos e você vai se acalmar. - E se ele voltar?
- Você reza, chama seu anjo da guarda e ele vai embora. - É que fico apavorada, não consigo rezar.
- Vamos rezar juntos e logo estará melhor. Pode arranjar-me um copo com água? Eulália, embora não concordasse, saiu para apanhar a água. Voltou em seguida, colocando o copo sobre a mesa de cabeceira. O médico segurou a mão de Liana, dizendo: - Feche os olhos. Pense em Deus.
Ela obedeceu. Ele permaneceu em silêncio por alguns minutos. Liana estremeceu e começou a tossir. Ele continuou imperturbável. Ela aos poucos foi se acalmando. Ele largou suas mãos. Ela abriu os olhos e ele perguntou:
- Então? Sente-se melhor?
Liana suspirou fundo, depois disse:
- Sim. Estou aliviada.
- Agora tome esta: água.
Ela obedeceu.
- Mande preparar um chá de cidreira, Dona Eulália. Ela vai tomar o mais que puder. - Não vai receitar? - perguntou Eulália.
- Já receitei. A cidreira é um excelente remédio para quem está nervoso, como ela. Vai lhe fazer bem. Ela precisa descansar.
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Eulália não se sentia satisfeita, mas não disse nada. Aproximou-se de Liana: - Então, como se sente?
- Bem melhor. O enjôo passou, a tontura também. Só estou sentindo fraqueza e vontade de dormir.
- Descanse, minha filha - disse o médico. - Está tudo bem. Uma vez fora do quarto, Eulália não se conteve:
- O que acha que ela tem, doutor?
- Só medo. Ela viu um espírito e não estava preparada para isso. Está chocada.
- Não é possível que o senhor acredite nessas coisas. Um médico! - Seria muito bom que a senhora começasse a aprender a lidar com isso. Quando começam a aparecer esses fenômenos, quanto mais depressa aprender como eles funcionam, melhor. Eulália não respondeu. Aquele homem era um simplório, da roça. Não podia levá-lo a sério. Acompanhou-o até a porta.
- Nós pretendíamos ir a São Paulo hoje. Acha que Liana pode viajar? - Ela deve repousar. Deixe-a dormir. Amanhã voltarei e veremos. - Obrigada, doutor. Depois que ele saiu, ela foi ter com Norberto na sala. - Não vamos poder ircom você. Liana precisa repousar. Se ela melhorar, iremos na próxima semana.
- O que disse o médico?
- Que ela viu mesmo a alma do coronel. Que ficou doente de medo. Pode uma coisa dessas? Um médico?
- Talvez tenha dito isso para acalmá-Ia. Como ela está?
- Parece melhor. O mal-estar passou, mas sente-se fraca e o Dr. Marcílio disse que ela precisa repousar. Assim, não iremos com você.
Norberto baixou os olhos para evitar que Eulália percebesse sua satisfação. - Nesse caso vou embora agora. Ele receitou?
Eulália meneou a cabeça inconformada e sorriu ligeiramente irônica ao responder: - Só um chá de cidreira. Ele mais parece um curandeiro do que um médico. - O pessoal do interior tem seus próprios métodos. Acho melhor fazer o que ele diz. Afinal, a cidreira é uma erva calmante que, se não trouxer a cura, também não lhe fará mal ao fígado.
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- Vou mandar preparar.
- Mário também vai?
- Não sei. Ele queria ficar, mas Liana não quer que ele se incomode. Tão perto do casamento, com tantas coisas a fazer, acha melhor que ele vá. Mário, que entrava na sala, ouviu o que ela disse. Aproximou-se dizendo: - Acho que vou mesmo. Liana está com sono e quer descansar. Amanhã telefono para saber como ela está.
Norberto olhou para o engenheiro e disse sério:
- Ela ficará bem. Embora Eulália não acredite no Dr. Marcílio, ele é muito conceituado aqui na cidade.
Mário abanou a cabeça preocupado:
- Não posso compreender. Liana era uma moça tão saudável. Tenho notado que de algum tempo para cá ela tem estado nervosa, indisposta, emagreceu. - Está emocionada com o casamento. É natural - respondeu Eulália. - Pode ser, Dona Eulália. Mas Liana sempre me pareceu uma moça moderna, que sabe o que quer.
Norberto olhou para os dois e não disse nada. O que ele desejava mesmo era que aquele casamento não se realizasse. Liana estava querendo se casar sem amor, apenas para sair daquela casa e impedir que Eulália percebesse o que estava acontecendo com eles. Várias vezes pensara em separar-se de Eulália para viver com Liana, porém sabia que ela jamais concordaria. Se ele deixasse a família, perdê-Ia-ia para sempre. E isso ele não queria que acontecesse. Liana havia se tomado uma obsessão para ele. Pensava nela todo o tempo, recordando os breves momentos de intimidade que haviam tido, e a paixão fazia-o estremecer de emoção. Só em pensar que ela poderia casar-se com Mário e que ele privaria de sua intimidade, ficava louco de ciúme.
Chegara até a pensar em acabar com a vida dele. Entretanto, apesar de tudo, não tinha coragem para cometer um crime. Ele haveria de encontrar uma forma de impedir aquele casamento, sem que ninguém soubesse. Enquanto colocava a mala no carro, Mário aproximou-se: - Estou preocupado, Norberto. Não quis falar diante de Eulália. - Preocupado com o quê? - Com Liana. Ela concordou com nosso casamento, mas às vezes desconfio que ela não me ama. Retrai-se quando me aproximo, às vezes parece que me evita. 139
Estamos perto do casamento e ela não me parece feliz nem entusiasmada. Isso está me incomodando muito. Não consigo pensar em outra coisa. Você é meu amigo, poderia ajudar-me.
- De que forma?
- Conversando com sua esposa. Tentando descobrir o que está acontecendo com ela. As duas são muito amigas.
- Se houvesse acontecido alguma coisa com ela, Eulália teria me contado. - Às vezes desconfio que seu mal-estar tem a ver comigo. Disseram-me que ela passa bem a semana inteira e que só fica ruim nos fins de semana.
- Liana está passando por um período ruim. Tem tido aquelas alucinações, está nervosa. - O que me aconselha?
- Ela doente, você cheio de dúvidas... O melhor seria adiar o casamento até que ela melhore e as coisas fiquem claras para você. Não adianta começar uma vida a dois com tantos problemas. Se fosse comigo, eu faria isso.
- Eu a amo tanto! Sonho com o dia em que seremos marido e mulher! - Quem ama espera. Depois, para casar-se você precisa estar seguro de que ela o ama. Um casamento sem amor nunca daria certo.
Mário baixou a cabeça, triste. Ficou alguns segundos em silêncio, depois disse: - Você tem razão. Se ela não melhorar, adiaremos.
Norberto sorriu e bateu ligeiramente nas costas de Mário, dizendo: - Assim é que se fala! Tenho certeza de que está tomando a melhor decisão.
Despediram-se, e cada um entrou em seu carro para começar a viagem. 140
Capítulo 10
A partir daquele dia Liana foi melhorando. Levantou-se, mas sentia-se fraca, sem vontade de fazer nada. Todos na casa faziam o possível para alegrá-Ia, sem resultado. Uma tarde ela estava no caramanchão, sentada no banco, tendo no colo um livro que não lia, olhando os galhos da trepadeira que o vento balançava de quando em vez, perdida em seus íntimos pensamentos.
Nico e Eurico aproximaram-se dela.
- Está um lindo dia - comentou Nico, olhando com satisfação os passarinhos que voejavam perto.
- É - concordou Liana.
Eurico chegou bem perto e tomou a mão dela com carinho, dizendo: - Tia, quer ver como os beija-flores fazem para tomar água?
Surpreendida, ela olhou para ele e sorriu. Notou que Eurico aos poucos estava se transformando. Perdera aquela palidez que tanto os preocupava, seu rosto ganhara expressão, colorido e até um pouco de gordura. Estava mais ágil, disposto, não se queixava como antes.
- Você gosta dos passarinhos, não é? - perguntou ela.
- Gosto, tia. Quando eu estava triste como você, eles me ajudaram a gostar da vida. Liana comoveu-se. Abraçou-o.
- Você é um menino adorável.
- Nico ensinou-me a ver a vida - respondeu ele.
- Nico é um menino muito inteligente. Vocês estão muito bem. Gosto de vê-Ios por perto. - Nico ajudou-me também a perder o medo do coronel. Quando ele aparece, ele conversa e pronto.
Liana assustou-se:
- Você já o viu?
- Já. Ele é meu conhecido. Sabe, mesmo antes de vir morar aqui, ele me aparecia. Estava junto com outras pessoas e eu sentia muito medo. - Não está inventando? Como é que você nunca disse nada? - Eu dizia para mamãe e ela me levava ao médico, dava remédios que me faziam ficar mal. Por isso eu nunca mais disse nada.
- Então era isso que acontecia com você?
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- Era. Mamãe não acredita em alma do outro mundo. Mas eu sim. Tenho visto muitas. - Por isso estava sempre com medo?
- É. Foi Nico quem me ajudou a não sentir tanto medo. Quando eles aparecem e eu não posso dormir, chamo Nico. Ele vem, conversa e pronto: eles vão embora. Liana voltou-se para Nico com interesse:
- Você também vê as almas?
- Não. Eu sinto um ar diferente, mas não vejo. De vez em quando eu sonho com elas. - De que jeito você conversa com as aparições? Não tem medo? - Não. Eles só querem assustar. Sempre ouvi dizer que as almas dos mortos voltam para este mundo quando querem alguma coisa, e só vão embora quando são atendidas. Minha mãe tem medo, mas eu não. Quando aparecem, eu pergunto o que eles querem. Já com o coronel eu senti que ele quer perturbar Eurico porque ele tem medo, e falei para ele ir embora e não assustar mais.
- Aí apareceu uma mulher que falou com ele, pegou no braço e levou embora - contou Eurico sério.
Liana balançou a cabeça pensativa. Depois disse:
- Custo a crer. Vocês falam disso com uma naturalidade! - O professor entende disso e tem nos ajudado muito - esclareceu Nico. - Ele conversa com vocês sobre isso?
- Conversa, sim, tia. Ele diz que a alma do coronel não pode nos fazer mal e que ele abusa porque temos medo.
- Foi isso que disse o Dr. Marcílio. Mas, na hora, não posso evitar. Aquele homem me olha de tal jeito que fico apavorada.
- Sei como é isso - concordou Eurico, alisando a mão da tia com carinho. Na manhã seguinte, quando Alberto chegou, encontrou Liana à sua espera. Depois dos cumprimentos, ela disse:
- Eurico contou-me que vê as aparições e que Nico conversa com elas. - Eurico tem mediunidade.
- Tem certeza? Criança gosta de chamar atenção, fantasiar. Eurico sempre usou sua fraqueza para dominar os pais. Eles fazem tudo que ele quer. - Ele vê mesmo.
- Isso não é perigoso?
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- Pode ser se você não souber controlar. Por isso tenho conversado com eles procurando esclarecê-Ios. Quando vim para cá, Eurico vivia apavorado. Agora melhorou muito, como você já deve ter notado. Nico é excelente companhia, ponderado, sincero, lúcido. Possui um raro bom senso e uma compreensão muito acima dos garotos de sua idade. Como Eurico é muito inseguro e medroso, Nico com sua segurança o tem ajudado muito. - Tem razão. Mas essa história de conversar com a alma dos mortos é muito mórbida. Não acho aconselhável para ninguém, quanto mais para crianças. Ficaria mais tranqüila se você pusesse um fim a isso.
- Não depende de mim. Não há como impedir a abertura da sensibilidade de uma pessoa. Quando acontece, o máximo que podemos fazer é aprender como conviver com ela de forma positiva.
- Isso não pode ser positivo. Só de pensar fico toda arrepiada. - Porque você tem da morte e dos espíritos uma visão muito dramática, sobrenatural. Assim como à borboleta deixa o casulo e voa, o espírito deixa o corpo de carne e vai para outros mundos. Tudo isso é da natureza. Quem morre continua sendo igual ao que era em vida. Nem melhor nem pior. Por isso, há no astral espíritos maldosos, atrasados, mas há os iluminados, os bons. A igreja católica santificou vários deles. Antônio de Pádua, Teresinha, Francisco de Assis. O que são eles senão almas de pessoas que viveram neste mundo e desencarnaram? Você tem medo deles?
- Claro que não. Eles são bons, só fazem o bem. Já o que eu vi... - Ele tem menos poder, se quer saber. Os espíritos de luz têm energia superior e por isso muito mais força, enquanto os atrasados não podem nada.
- Isso não. O olhar daquele homem tinha uma força estranha que me dominou. Fiquei paralisada!
- Você se paralisou com seu medo. Ele só pôde atingi-Ia por causa de sua fraqueza. Foi você quem lhe deu força. Se não lhe desse importância, ele não teria conseguido nada. Foi isso que ensinei aos meninos. E, como pode ver, eles estão encarando o processo com naturalidade.
- Preferia que eles não se envolvessem com isso.
- Não temos o poder de fazer essa escolha. Esses fatos ocorrem independentemente de nossa vontade. O melhor que podemos fazer é estudá-Ios e, como eu disse, aprender com eles.
- E se não der certo? E se lhes acontecer alguma coisa ruim? - Não vai acontecer nada. Não seja tão pessimista. Aliás, o pessimismo atrai o mal.
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Se deseja afastar a alma do coronel de seu caminho, o melhor que tem a fazer é procurar a alegria, o otimismo.
Liana sacudiu a cabeça pensativa, depois disse:
- Alegria é um sentimento que não conheço faz tempo.
- Praticar atos contrários a nossos sentimentos atrai dificuldades. Eu já lhe disse: está na hora de mudar isso, se quer ficar bem. - O que eu quero mesmo é ir embora daqui, livrar-me do problema emocional e do espírito do coronel. Quanto antes me casar, melhor.
Alberto olhou sério para ela e não respondeu logo. Depois de alguns segundos, como ela continuasse calada, ele tornou:
- Não direi mais nada sobre o assunto. Apenas renovo meu convite. Se quiser dar um basta a tudo isso, é só apanhar suas coisas e mudar-se para minha casa. Estou falando sério. Ela olhou admirada para ele.
- Não receia as conseqüências que esse ato lhe traria?
- Não. Sou um homem livre e gosto de agir conforme meus sentimentos. Estou percebendo que você está vivendo sob pressão. Até quando agüentará? Mário, Eulália, Norberto, eu e até você. Todos a estamos pressionando. Torno a dizer: se chegar um momento em que você queira se libertar, nem precisará me consultar, estarei de portas abertas. - Por que faria isso por mim, até em prejuízo de seus interesses? - Tenho o maior interesse em aprender sobre a vida, as pessoas. Sou um escritor. Essa é minha vocação. Além disso, gosto de você e teria muito prazer em vê-Ia deixar essa postura falsa que a está deprimindo e assumir sua verdade, sem medo, e ter a coragem de colocar sua felicidade acima das aparências e das regras de uma sociedade hipócrita, cujos valores invertidos conduzem ao sofrimento e ao fracasso os que se orientam por seus preceitos. - Você é um intelectual sonhador.
- Não. Sou um homem que deseja ver as pessoas bem. Agora devo ir ter com as crianças. Pense no que eu lhe disse.
Ele se afastou e Liana suspirou triste. Bem que ela gostaria de jogar tudo para o alto, de libertar-se de todas as pressões, mas não tinha coragem. Alberto estava no meio da aula quando foi chamado ao telefone. - É sua mãe - esclareceu Hilda. - Disse que é urgente. Alberto apressou-se em atender. Ela nunca lhe telefonava. Era ele quem de vez em quando ligava para saber de sua saúde e dar notícias. - Alô. Aconteceu alguma coisa? - O pai de Eugênia me ligou. Ela sofreu um acidente, está muito mal no hospital. 144
Quer vê-lo. Só faz chamar seu nome. Ele quer seu endereço. Eu disse que não me lembrava e que precisava procurar. Fiquei de ligar novamente.
- Ela não está fingindo?
- Acho que não. José estava apavorado. Ele disse que ia pedir para você vir o quanto antes, porque ela pode morrer de uma hora para outra e ele deseja satisfazer a última vontade dela. Acho que é sério mesmo. Se você quiser, posso ir até o hospital verificar. - Faça isso. Ou melhor, eu vou. Se é assim, não posso deixar de ir. Diga-lhe que hoje mesmo estarei lá.
Alberto desligou o telefone e procurou Eulália, contando-lhe o sucedido. - Faço votos de que ela melhore - disse ela.
- Obrigado.
- Pretende demorar-se?
- Dois ou três dias apenas. Vou aproveitar para visitar minha mãe e rever alguns amigos. - Faça boa viagem - desejou ela.
Ele se despediu das crianças, de Liana, e foi para casa. Uma hora depois estava na estrada para São Paulo.
No fim da tarde, Hilda procurou Eulália nervosa:
- As crianças não querem entrar. A senhora precisa ver como Eurico está sujo. Não quer me obedecer. TIrou os sapatos, meteu os pés na lagoa. Eu não queria, mas ele nem ligou. Ele vai ficar com febre, ter uma recaída.
- E Nico, não o impediu?
- A bola que eles estavam jogando caiu na lagoa e Nico tirou os sapatos e entrou para buscar. Aí, ele foi atrás. Eu gritei, Nico falou para ele sair, mas ele riu, jogou água nele e disse que estava com calor. Onde já se viu? Aquele lago sujo onde os patos nadam! Deve estar contaminado.
Eulália saiu rapidamente e quando chegou à pequena lagoa já os meninos haviam saído com a bola. Amelinha ria deles com as pernas e parte das calças cheias de lama. - Eurico, você está todo molhado! Você é doente, precisa ter cuidado. Vá tomar um banho imediatamente. Onde já se viu?
- Eu não sou mais doente, mamãe - disse ele. - Sou forte e igual a todo mundo. Não preciso que Hilda fique tomando conta de mim.
- Eu não disse? - tornou Hilda.
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Eulália olhou admirada para ele.
- Se não quer que tomem conta de você, tenha juízo e não fique fazendo o que não deve. Ande, vá tomar um banho.
Quando eles subiram, Hilda comentou:
- Desculpe, Dona Eulália, mas esse professor anda acostumando mal os meninos. Senta-se com eles no chão, sobe nas árvores, faz cada coisa... Nem parece que estão estudando. Vivem rindo, cantando, só quero ver quando eles forem prestar os exames. - As crianças estão muito bem. Liana disse que eles estão aprendendo muito. O professor tem métodos próprios de ensinar. Depois, Eurico está bem melhor. Já não passa mal como antes.
- Vamos ver depois de hoje - desafiou ela subindo as escadas para ver o que eles estavam fazendo lá em cima.
Eulália sorriu e confidenciou para Liana:
- Acho que Hilda está com ciúme do professor. As crianças preferem ficar com ele a ficar com ela.
- É que ela é tão prestativa que chega a incomodar. Está sempre querendo que eles façam isto ou aquilo. Acho que ela exagera.
- Fiquei admirada. Eurico me desafiou! Disse que não é mais doente, que é forte como todo mundo.
- Talvez seja mesmo. Ele está mais corado, disposto, comunicativo, engordou um pouco. Depois, os médicos nunca acharam doença nele.
- Queira Deus que você esteja certa. A saúde dele tem sido minha maior preocupação.
No dia seguinte chegou um telegrama de Alberto:
Eugênia faleceu hoje. Preciso ficar aqui mais alguns dias. Saudações a todos.
Imediatamente Eulália telefonou a Norberto contando tudo e pedindo-lhe para representar a família e dar apoio a Alberto.
Quando Norberto chegou, no fim de semana, contou que Eugênia fora atropelada e não resistira aos ferimentos. Alberto chegara a tempo de despedir-se dela, que se agarrara a ele desesperadamente pedindo que não a abandonasse. Ele ficara a seu lado até o fim e estava muito sensibilizado.
- Apesar disso, o pai dela não o vê com bons olhos, porque desde a separação Eugênia nunca mais foi a mesma. Vivia em depressão e ele desconfiava que ela se atirara em frente ao carro disposta a morrer. Tratou Alberto com desprezo e fez questão de dizer que só o chamou porque a filha pediu.
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- Alberto conversou com você sobre isso? - perguntou Eulália com interesse. - Ele estava muito triste. Disse que não se arrependia de haver se separado dela. Não a amava mais e não podia fingir um sentimento que não possuía. Ela tinha uma personalidade doentia, nunca se sentia satisfeita com nada, nem mesmo quando eles estavam vivendo juntos. Se ela havia cometido o suicídio, ele não se sentia culpado por isso. Lamentava, mas não podia fazer nada.
- Ele é um homem muito sincero - disse Liana pensativa. - E de bons sentimentos. As crianças o adoram. Hilda anda até com ciúme.
Eles riram, e, quando Norberto se viu a sós com Eulália no quarto, comentou: - Mário conversou comigo. Está inseguro com o casamento. - Por quê?
- Desconfia que Liana não o ama.
- Ele disse isso?
- Disse. Alega que ela não se entusiasma com nada que se refira ao casamento. Que se esquiva dos carinhos dele. Que faz tudo para não ficar a sós com ele. - É curioso. Ele também?
- Como ele também? Alguém já falou sobre isso?
- O professor. Ele me garantiu que Liana vai se casar sem amor. - Como é que ele sabe disso?
- Bom, ele me falou exatamente as mesmas coisas que Mário disse a você. Fez mais: garantiu que Liana está doente porque está se obrigando a fazer uma coisa contrária a seus sentimentos. Que ela deveria desmanchar o noivado se deseja ficar bem. - Mário teria se queixado a ele, como fez a mim?
- Pode ser. Eu cheguei até a pensar que ele estivesse dizendo isso porque estava interessado em Liana. Os dois conversam muito, são muito amigos.
- Você acha que ele esteja gostando dela?
- Não. Depois do que você me disse, tudo está explicado. Mário por certo desabafou com ele. Sabe, o professor é um filósofo. Tem muito conhecimento sobre a vida, diz coisas interessantes. Liana leu seus livros e ficou encantada.
- Eu acho que ele está certo. Diante do que Mário disse, eu o aconselhei a adiar o casamento, pelo menos até Liana melhorar.
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Durante esse tempo ele poderá certificar-se melhor dos sentimentos dela. Um casamento sem amor é horrível.
- Não concordo. Quando nos casamos, eu maIo conhecia. Não sabia o que era o amor. Se nosso casamento deu certo, por que Liana não pode fazer o mesmo? Mário é um bom moço, ama-a muito, será ótimo marido.
- Não duvido. Mas Liana é muito diferente de você. Tem outro temperamento. Eulália olhou-o admirada. Ele se apressou a completar:
- Bom, por enquanto são apenas suposições. Vamos ver como Liana reage. Pode ser que ela fique bem e tudo se arranje. Só não acho aconselhável ela se casar doente, ou sem saber se é isso mesmo que ela quer. Afinal, ela é livre para fazer o que quiser. Nós queremos sua felicidade, não é isso?
Eulália concordou, embora pensasse que, para a mulher,.o amor não era fundamental antes do casamento. O importante era conhecer o caráter, as qualidades do homem e a posição financeira. A falta de dinheiro dava muitos problemas entre os casais, assim como a infidelidade. Apesar de tudo, ela insistia em querer aquele casamento o quanto antes. Liana precisava definir sua vida, e um bom casamento era o melhor jeito. Depois, ela se sentiria muito mais tranqüila sabendo-a bem casada, amparada pelo resto da vida. No quarto, antes de dormir, Eurico comentou com Nico:
- Agora que a mulher do professor morreu, será que ele vai querer ficar aqui? - Acho que sim. Ele não morava com ela mesmo. Para ele não vai mudar nada. - Será? Eu quero que ele volte.
- Eu também. Sinto saudade dele. É nosso melhor amigo. - É mesmo. Se ele não voltar, vou ficar doente de novo.
- Nem fale uma coisa dessas! Ele vai voltar, você vai ver. Depois, eu estou aqui e vou ficar enquanto você quiser. Além disso, você não é mais doente. - Se eu ficar doente, minha mãe vai fazer tudo para trazê-Io de volta. Nico meneou a cabeça em desaprovação:
- Saúde é coisa séria e você não deve abusar. Se começar a fingir de doente sempre que quiser alguma coisa, a doença volta e não vai mais embora. Você vai sofrer. É isso que quer?
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- Eu não quero, mas quando fico contrariado, triste, logo fico doente. - O professor disse que quando você fica pensando mal, dando força à tristeza, à revolta, atrai tudo de ruim. Eu prefiro ficar alegre, para atrair só o bem. - Você tem saúde.
- Por causa disso. Eu acho que a alegria é o melhor remédio. - Como posso ficar alegre se estou sentindo tristeza?
- Você sente tristeza quando está pensando coisas tristes. Se resolver pensar só coisas alegres, a tristeza desaparece. É fácil. Quando vem um pensamento ruim que me deixa triste, eu logo digo: não gosto de me sentir assim. É ruim. Procuro alguma coisa que me deixe ficar alegre.
- O que você faz para ficar alegre?
- Vou olhar os passarinhos, jogar bola, pescar na lagoa. Às vezes sento embaixo da mangueira e imagino como será minha vida quando eu for muito rico: a casa bonita que vou comprar para minha mãe, o carro, as roupas, tudo. Vou viajar de trem, de barco e até de avião.
- Você é pobre. O que pensa fazer para ficar rico?
- Bom, eu sou trabalhador, estudioso, estou sempre procurando aprender. Eu sei que, quanto mais eu souber fazer coisas, mais dinheiro vou ganhar. - As pessoas vão pagar para você fazer coisas para elas?
- Vão.
- Você vai ficar muito cansado.
- Não vou. Sou curioso. Gosto de fazer coisas e de aprender. Eu esqueço de tudo quando estou olhando alguma coisa que me interessa ver como é. - Por isso você sabe como é a vida dos passarinhos. Ficou olhando para eles. - Fiquei. Todo mundo acha que os bichinhos não são inteligentes. Isso não é verdade. Eles fazem cada coisa! É só ficar olhando que você vê. - Será que o professor volta logo?
- Está vendo? Você também gosta de aprender. Eu acho que ele volta logo. - Que bom! Ele é tão animado.
- Vamos dormir, que já é tarde.
Nico foi para o quarto, deitou-se e logo adormeceu. No meio da noite acordou com Eurico em pé do lado de sua cama:
- Nico, acorde. Ele está no quarto e eu estou com medo.
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- Ele quem?
- A alma do coronel Firmino. Ele puxou meus lençóis e eu acordei sentindo um ventinho frio. Logo o vi nos pés da cama me olhando com aqueles olhos de fogo. Não volto mais lá, vou dormir aqui com você.
Nico sentou-se na cama.
- Bobagem, Eurico. Ele pode vir aqui também. Sabe o que eu acho? Que está na hora de você perder esse medo. Afinal ele aparece, incomoda a Liana, você, não me deixa dormir e não diz o que quer. Vamos lá acabar com isso. Nico levantou-se e Eurico agarrou-o pelo braço:
- Está louco? Eu é que não vou lá ver a cara dele.
- É uma alma penada. Está vagando e não tem poder de nos fazer nenhum mal. O professor disse isso e eu acredito. Ela só aparece e assusta quem tem medo. - Eu fico todo arrepiado só de falar nele.
- Vamos lá, Eurico. Se ele ainda estiver no quarto, vamos conversar. Eu quero perguntar o que ele quer, por que ele aparece aqui. Depois, é só fazer o que ele pedir e ele nunca mais volta para assustar ninguém.
- Você teria coragem? E se ele nos atacar?
- O professor disse que ele não pode. Que, se ele quisesse atacar e pudesse, já teria feito isso. Vamos lá, Eurico, acabar de vez com essa história.
- Puxa, Nico, você é corajoso!
- Sou mesmo. Vamos indo.
Ele segurou a mão de Eurico e foi andando em direção ao outro quarto. Eurico resistia. - E se ele ainda estiver lá? - Vamos ver. Está vendo? Ele já foi embora. Só de falar que não tenho medo dele, já o espantou. Deite-se e trate de dormir.
- É, ele não está aqui mesmo. Mas pode voltar. Vou deitar, mas você vai ficar comigo em minha cama.
- Eu fico até você dormir.
Eles se acomodaram e Eurico foi se acalmando, e logo os dois pegaram no sono. De repente, Eurico sacudiu Nico, dizendo:
- Acorde, Nico. Olhe ele aí de novo!
Nico abriu os olhos e não viu nada.
- Não estou vendo nada. Você sonhou.
- Não sonhei, não. Olhe ele aí, rindo e me apontando o dedo. Estou com medo. 150
Eurico deitou-se e cobriu a cabeça com o lençol. Nico tentou descobri-lo, mas ele segurava com força.
- Vamos, tire esse lençol, vamos conversar com ele.
- Eu estou de olhos fechados mas ainda o estou vendo! Como pode? - Nesse caso, de nada vale o lençol. Vamos, Eurico.
Enfim Nico conseguiu descobrir a cabeça de Eurico, que de olhos fechados, agarrado, tremia de medo.
- Onde ele está?
- Nos pés da cama.
Nico olhou para os pés da cama e disse em um tom firme: - Você é uma alma penada. Eu esconjuro. Está incomodando todo mundo. Por que está aqui? O que quer? Fale comigo e diga. Não estou vendo você. Fale para o Eurico. O menino agarrou-se mais a Nico.
- Então? Preste atenção, Eurico. Ele está dizendo alguma coisa? - Ele está me ameaçando. Diz para você não se meter na vida dele. - Eu quero ajudar. Ele já morreu e não pode mais fazer coisas neste mundo. Mas eu posso fazer por ele, é só falar. - Ele está rindo e diz que nós não vamos fazer o que ele quer. - Repita tudo que ele está falando.
- Está bom. Ele diz: eu quero Mariquita aqui comigo. Fiquei esperando durante muito tempo e, agora que ela está de volta, nunca mais a perderei. Ela vai vir para cá, morar comigo aqui.
- Aqui não tem nenhuma Mariquita - respondeu Nico. - Só tem a Maria, que é empregada. - Não sei quem é essa. Eu quero Mariquita. Ela é minha e não vai fugir de novo. - Não estou entendendo o que você fala. Desse jeito não vou poder ajudar. Precisa explicar melhor. Quem é a Mariquita?
- Minha mulher. Quando ela morreu e se foi, fiquei sem saber onde ela estava. Quando morri, fui procurar e não a encontrei. Fiquei aqui.
Eu sabia que um dia ela voltaria para casa.
- Ela voltou? - perguntou Nico.
- Voltou. Ela me viu perto da escada, mas ficou com medo de mim. Foi porque eu a prendi no quarto, mas agora não vou mais fazer isso. - Ela também é alma penada, como você?
- Não. Ela está escondida em outro corpo, mas isso não adianta nada.
Eu sei que é ela e a vejo como ela era. Eu tenho de ir agora, mas eu volto. Não se metam mais em minha vida, senão vão se arrepender.
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- Espere, vamos continuar conversando.
- Não adianta - esclareceu Eurico. - Aquela mulher apareceu e o levou. Foi embora. - Puxa. Eu precisava saber mais. Não entendi bem o que ele disse. - Eu falei que não ia adiantar. Ele não está dizendo coisa com coisa. Está querendo enganar.
- Não sei. Ele falou que a tal da Mariquita voltou. Será a mulher que você viu?
- Acho que não, porque ele fica contrariado quando ela aparece.
- Ele disse que a Mariquita se escondeu no corpo. O que será que isso é? - Sei lá. É muito complicado. Você quase me matou de medo. - Mas viu? Ele não fez nada de mais. Respondeu tudo.
- Mas disse que vai voltar. Isso de falar não adiantou.
- Porque ele não explicou direito. Quando ele fizer isso, não volta mais. - Se fosse verdade, seria muito bom.
- Claro que é. Agora vamos rezar para o nosso anjo da guarda. Sempre é bom.
Os dois ajoelharam-se e rezaram pedindo proteção. Depois Eurico pediu:
- Mas você vai ficar aqui comigo!
- Está bem! - concordou Nico deitando-se. - Estou com tanto sono!
Eurico deitou-se e dentro de alguns minutos eles estavam dormindo, e desta vez nada mais os acordou.
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Capítulo 11
O professor voltou uma semana depois e foi recebido com gentileza por Eulália. Depois da conversa que tivera com o marido sobre o casamento de Liana, ela pensava que estivera enganada, que o professor não estava apaixonado por sua irmã, não oferecendo perigo para a realização de seus planos.
Na sala, cercado pelas crianças que o abraçavam com alegria, ele considerou: - Estava com saudade. Não via a hora de voltar.
- As crianças viviam perguntando quando você voltaria - disse Liana sorrindo. - Não falavam em outra coisa. Tinham receio de que decidisse ficar na cidade - tornou Eulália.
- Isso não. Gosto daqui. Já me habituei a esta vida calma. Hilda apareceu na porta e Eulália tornou:
- Está na hora do lanche.
As crianças, excitadas com a chegada de Alberto, não queriam ir, mas Eulália insistiu: - Vão, sim. Enquanto isso, queremos conversar um pouco com ele. Hilda vai mandar servir café com bolo para nós.
- Você não vai embora, vai? - indagou Eurico, ansioso.
- Vai esperar? - ajuntou Amelinha. - Vou. Acham que eu perderia esse café com bolo?
Eles riram e foram para a copa. Sentados na sala, Eulália tornou: - Você deve estar cansado. Se desejar ir embora, nós entendemos. - Não. Eu quero mesmo conversar com eles, programar nossos estudos. Dentro em breve eles prestarão mais alguns exames. - A notícia da morte de sua esposa apanhou-nos de surpresa. Desejamos expressar nossos sentimentos.
- Obrigado, Dona Eulália. Norberto foi muito atencioso e ajudou-me a suportar esse momento desagradável.
- Estavam separados havia muito tempo? - indagou Eulália. - Uns quatro anos, mais ou menos.
- Mudemos de assunto - propôs Liana. - Estamos sendo indiscretas. 153
- Absolutamente - respondeu ele. - A curiosidade é natural. Falar nisso não me incomoda. Eugênia era uma mulher ciumenta, dominadora, inquieta, nervosa. Possuía um temperamento muito diferente do meu. Quando me certifiquei disso, optei pela separação. Nossa vida em comum era um inferno. Ela era infeliz a meu lado e infelicitava minha vida também. Preferi ficar só. Nunca ocultei esses fatos.
- Parece que ela o amava muito e nunca se conformou. Não é fácil para uma mulher ser abandonada - considerou Eulália, pensativa. - Não era amor o que ela sentia por mim. Era paixão.
- Paixão é mais do que amor!
- Não, Dona Eulália. O amor de verdade não aprisiona o ser amado, nem o atormenta. A paixão, sim, é como um vício: quanto mais você dá, mais a pessoa quer e nunca está saciada. Eu não desejo me apaixonar nunca e não quero que ninguém se apaixone por mim. Nunca mais.
- Pretende passar o resto da vida sozinho? - indagou Eulália, admirada. - Não sei. Estou bem como estou.
As crianças voltaram e rodearam o professor, conversando entusiasmadas. Ele se levantou e foi com elas para a sala de aula.
Eulália não se conteve:
- Esquisito esse professor. Pensa diferentemente de todo mundo. - É um homem inteligente. - Norberto disse que o sogro não gosta dele e o culpa pela morte de Eugênia. Acha que ela se atirou embaixo do carro de propósito. Será?
- Uma mulher desequilibrada, como ele disse que ela era, pode bem ter feito isso mesmo. Mas ele não tem culpa.
- Se estivesse ao lado dela, talvez ela não houvesse morrido. Liana abraçou a irmã, dizendo: - Pois eu acho que ela faria do mesmo jeito. As pessoas que se deprimem estão sempre procurando desculpas para se fazerem de vítimas. Se ele estivesse com ela, iria dizer que ele não a amava, que não lhe dava o carinho que ela queria. Não, Eulália, o problema dessa mulher não era o fato de ele a haver deixado, mas sua tendência a querer tudo do seu jeito, o fato de não se conformar quando as coisas não eram como ela planejara. Se ela se suicidou para punir o marido, só conseguiu punir a si mesma. - Parece que ele não se sente culpado mesmo.