Quando Chega a Hora
- Não tenho essa intenção. Estou apenas…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
- Bom dia. Estou bem, obrigada.
- O que está lendo?
- Pelos Caminhos da Metafísica, do professor Alberto.
Mário sobressaltou-se. A situação era pior do que ele imaginava. Fingiu indiferença e considerou:
- É um assunto árido. Não pensei que se interessasse por essas coisas. - Engana-se. Trata-se de um tema muito interessante, ensina-nos a enxergar a vida de uma forma diferente de tudo que aprendemos.
É esclarecedor.
Mário mordeu os lábios. Ela defendia Alberto com calor. - Os intelectuais inventam teorias para justificar sua postura e ganhar dinheiro com elas. - Alberto não é um intelectual. É um homem simples, lúcido, de grande conhecimento. - Você o admira!
- É um bom amigo. Tem me ajudado muito em meus momentos de depressão. Mário aproximou-se e tomou as mãos dela, dizendo emocionado: - Você está apaixonada por ele?
Ela soltou as mãos e olhou-o admirada.
- Você está misturando as coisas. Ele é só um bom amigo. Nada mais. Ele não se conteve: - Esta situação não pode mais continuar. Precisamos esclarecer tudo. Tenho tido muita paciência, mas estou chegando ao limite de minha resistência. Eu amo você. Vivo sonhando com nosso casamento. Entretanto, não noto em você o mesmo entusiasmo. Vive se esquivando, há momentos em que me evita abertamente. O que está acontecendo? Você não me ama?
Liana empalideceu. Não queria perder a chance de deixar a casa da irmã, mas ao mesmo tempo havia algo dentro dela que sentia repulsa de Mário. Era impossível evitar isso. Tentou contemporizar:
- Mário, tente entender. Tenho estado doente, deprimida. De repente a vida perdeu todo o significado para mim.
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Nada mais me entusiasma. Parece que estou morta. Aliás talvez essa seja a melhor solução para mim.
- Por que diz isso? Você é jovem, bela, até há pouco tempo era cheia de vida, de entusiasmo. O que está acontecendo com você? Por que, de repente, perdeu toda a alegria e a vontade de viver? Sou seu noivo, eu a amo, estou disposto a fazer tudo para ajudá-Ia. Seja sincera, conte-me: o que foi que a deixou tão triste?
- Não aconteceu nada.
- Ainda não respondeu à minha pergunta. Você me ama? Liana olhou-o indecisa. A pergunta era direta e ela sentia que não podia mentir. Respirou fundo e respondeu:
- No momento estou incapaz de amar.
- Então é verdade mesmo. Você não me ama.
- Não me sinto capaz de qualquer sentimento.
- Pelo jeito nosso noivado tornou-se um fardo pesado para você. - Eu não disse isso. - Não, mas suas atitudes falam por você. Não precisa dizer mais nada. Liberto você do compromisso. Vou embora agora mesmo.
Liana colocou a mão sobre o braço dele, dizendo;
- Sinto muito, Mário. Não queria magoá-lo. Eu gosto de você. É um homem bom, generoso, sincero. No momento não estou em condições de retribuir seus sentimentos, nem de consumar um casamento que faria sua infelicidade. Por favor, perdoe-me. - Você gosta de outro?
- Não. Como eu disse, estou incapaz de amar quem quer que seja. Estou morta, Mário. E um morto não sente nada. Entendeu? - Não posso entender por que você age assim.
- Eu também não entendo o que está acontecendo comigo. - Se pelo menos você concordasse em se tratar, ir a São Paulo. Lá temos excelentes médicos. Falarei com Eulália. Você não pode continuar aqui deste jeito. Ela precisa fazer alguma coisa com urgência.
- Não se preocupe. No momento só desejo paz.
Eulália entrou na sala e vendo-os parou indecisa. Percebeu logo que algo havia acontecido entre eles. Ia retirar-se quando Mário tornou: - Venha, Eulália. Chegou em boa hora. Acabamos de ter uma conversa definitiva. Liana confessou que não me ama e por isso resolvemos romper nosso compromisso. Vou arrumar minhas coisas e voltar a São Paulo agora mesmo.
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Eulália aproximou-se olhando-os com preocupação. Tentou contornar a situação: - Não se precipite, Mário. Liana está deprimida, nervosa. Ela não quis dizer isso, tenho certeza.
- Ela foi delicada o bastante para dizer que no momento se sente incapaz de qualquer sentimento de amor.
- É por causa do estado dela.
- Eu sei, Eulália. Contudo eu também não me sinto capaz de suportar a indiferença dela. Eu a amo e respeito. Não quero ser um peso a mais em sua vida. Por isso, peço-lhe que desculpe minha fraqueza, mas nosso noivado está desfeito. Eulália tentou dissimular o desapontamento. Liana estava sendo muito precipitada aceitando o rompimento. Perder um partido daquele! Por certo iria arrepender-se. - Não fale como se esse fosse o único caminho. Por que não dá um tempo, até que Liana se restabeleça? Quando ela ficar boa, poderão voltar ao assunto. - Ela sabe que eu a amo e que, se um dia sentir que me ama, retomaremos nosso compromisso. Por enquanto, ela está livre. Vou arrumar minhas coisas. Com licença. Depois que ele saiu, Eulália voltou-se para a irmã, mas, antes que dissesse alguma coisa, Liana pediu:
- Não diga nada, por favor. Estou cansada demais para suportar mais uma cena. Deixe as coisas como estão. Foi melhor assim.
- Como pode dizer uma coisa dessas? Perder um partido desses, um engenheiro, bonito, rico, apaixonado. Um dia você vai se arrepender do que está fazendo. - Eu nunca poderia fazê-Ia feliz. Não posso estender minha infelicidade, prejudicando sua vida. Foi melhor assim.
Eulália impressionou-se com o tom com que Liana disse essas palavras. - Não posso vê-Ia se acabando desse jeito. Dizendo que é infeliz! Sempre fiz tudo por sua felicidade. Não posso entender sua atitude. - Você sempre foi tudo para mim. Sinto muito estar dando tanto trabalho. Infelizmente não posso evitar. Venho me sentindo tão mal, tão deprimida. Eulália abraçou-a com carinho.
- Você vai ficar boa. Tenho certeza.
Liana não respondeu. Sentia-se imersa em grande apatia, só pensava em ficar quieta, descansar, esquecer.
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Capítulo 13
A partir desse dia Liana passou a sentir-se mais fraca. Norberto, que a princípio ficara aliviado com o rompimento do noivado, preocupou-se mais. Tentou conversar com ela, aproveitando um momento em que Eulália se ocupava com o banho dos filhos.
- Liana, você precisa reagir. Não pode ficar desse jeito. Mário já se foi e você agora é livre. Pode viver sua vida em paz.
- Eu preciso sair desta casa. Agora, sem o casamento, ficou mais difícil. - Não tem de fazer isso. Escute, eu a amo muito. Quero que me perdoe pelo mal que lhe fiz. Eu estava louco. Não pude controlar-me. Por favor, não me castigue dessa forma. - Você não é culpado. Eu é quem devia ter me contido.
- Trate de esquecer. Juro que nunca mais a incomodarei com meu amor. Só peço que continue aqui. Eulália ama-a muito, as crianças adoram-na. Por favor, reaja. Estou disposto a cuidar melhor de minha família, esse é meu dever. Sossegue seu coração e esqueça o passado. Não se atormente com o que já aconteceu. Não podemos voltar atrás e mudar os fatos.
- Ah, se eu pudesse fazer isso!
- Mas não pode. De que adianta se atormentar? Não suporto vê-Ia se acabando desse jeito. Prometa que vai reagir, voltar a ser a mesma de antes, para a alegria de toda a nossa família.
Ele tinha lágrimas nos olhos, e Liana tentou sorrir:
- Farei o possível. Você vai ver. Vou melhorar.
Entretanto isso não aconteceu. Apesar de se esforçar, Liana sentia imensa fraqueza e muitas vezes um sono incontrolável. Tinha enjôos com. freqüência e mal-estar. Duas semanas depois do rompimento do noivado de Liana, Alberto foi a reunião em casa do Dr. Marcílio e eles receberam a visita do espírito interessado em ajudar Liana. Depois de identificar-se com o nome de Anita, ela chamou por Alberto: - Precisamos tomar algumas providências com urgência. A cada dia que passa Firmino consegue mais ascendência sobre Liana.
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Temos de impedi-lo. Alberto, você tem de tirar Liana daquela casa imediatamente. Não podemos mais esperar. Se demorar, poderá ser tarde demais. - Como fazer isso? Eulália não aceita sequer falar sobre espiritualidade naquela casa. - Dê um jeito. Faça qualquer coisa, mas tire-a de lá.
- Vou pensar em uma solução. Espero que me ajudem. - Estamos ajudando. Só precisamos que a tire daquela casa. - Vou ver o que posso fazer.
- Que seja o quanto antes.
- Amanhã mesmo tentarei uma solução.
Depois que terminou a reunião, eles ficaram conversando, tentando encontrar uma saída. Alberto, depois de muito pensar, propôs:
- Amanhã à noite, quando a casa estiver silenciosa, eu entro e retiro Liana de lá. Levo-a para minha casa.
- Vai ser um escândalo - disse Adélia. - No dia seguinte, toda a cidade vai comentar. Eulália vai buscá-Ia e levá-Ia para casa. Não vai adiantar.
- Vai, sim. Você, Marcílio, vai me ajudar. É amigo do juiz. Basta convencê-Io a realizar nosso casamento e pronto. Quando Eulália aparecer, estaremos casados. Não haverá nenhum escândalo e tudo estará resolvido. Poderemos fazer todo o tratamento de Liana livremente.
- Você está disposto a casar-se com ela? Não está indo longe demais? - Não. Será a única forma de fazer com que ela saia de lá e sua família deixe de intervir diretamente na vida dela. Só precisamos do juiz.
- Só há um problema. Casamento não se faz assim, de um dia para o outro. Há que ter certo tempo para os papéis.
- Não se você convencer o juiz e garantir que somos ambos livres. Tenho documentos em ordem. Sou viúvo. Liana é muito conhecida e é solteira. Acho que será a única forma de a retirarmos daquela casa.
- O professor tem razão - concordou Adélia. - Otaviano é seu amigo de longa data. Se você pedir, contar por quê, ele faz.
- Posso tentar. Mas pode demorar. Anita disse que é urgente. - Precisamos fazer isso. A meu ver, é o único caminho - tornou Alberto. - Amanhã cedo vou procurá-lo. Assim que tiver alguma notícia, eu aviso. Eles se despediram e Alberto custou a dormir, imaginando como faria para tirar Liana daquela casa sem que os outros soubessem.
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No dia seguinte, Alberto esperou ansiosamente notícias do médico. Ele passou em sua casa ao meio-dia. Depois de fazê-Io entrar, Alberto perguntou: - E então?
- Bem, ele a princípio recusou. Tem amizade com Norberto e receia que ele não aprove o casamento. Contei-lhe uma história que me ocorreu na hora. Deus vai me perdoar a mentira.
Alberto sorriu:
- O que foi que disse?
- Que vocês estão apaixonados. Como Liana rompeu o noivado para se casar com você, a família dela é contra porque Mário os ameaçou de morte. Esse é o motivo pelo qual vocês desejam casar-se à noite, às escondidas, para evitar a ira do engenheiro. Vendo o caso consumado, ele terá de se conformar.
- Puxa, você é bom nisso! Eu sou o escritor e você é quem tem a melhor história. - Bom, aí ele concordou. Conheço Otaviano. É um romântico. Até há pouco tempo fazia serenatas no meio da noite. Depois, eu não podia dizer que estávamos fazendo tudo isso por causa dos espíritos. Ele é descrente. Ia pensar que estamos loucos e se recusar. - Fez muito bem.
- Só que não dá para ser hoje à noite. Temos de apanhar os documentos e levar para ele preparar tudo. Terei de assinar como testemunha de que vocês são livres e podem se casar. - Meus documentos posso dar já. Os de Liana tenho de conseguir. - Como pensa convencê-Ia a participar? Acha que ela vai concordar com isso?
- Creio que sim.
Alberto apanhou todos os seus documentos e entregou-os ao médico. - Vou para a mansão daqui a pouco. Hoje à tarde mesmo levarei os documentos dela em sua casa. - Estarei esperando.
Enquanto Alberto se dirigia à mansão, ia pensando numa forma de conseguir o que pretendia. Não sabia onde Eulália guardava os documentos de que precisava. Talvez as crianças pudessem ajudar a descobrir.
Uma vez reunido com eles na sala de aula, Alberto começou: - Nós somos amigos e sei que posso contar com vocês. Eu e o Dr. Marcílio estamos empenhados em ajudar Liana. Ela está pior a cada dia.
- É a alma do coronel que a está perturbando - disse Nico. 182
- Ele garantiu que vai levá-Ia com ele - interveio Eurico. - Você acha que ele tem esse poder?
- Eu não quero que ele leve tia Liana embora! - lamentou-se Amelinha com voz chorosa. - O Dr. Marcílio sabe lidar com esses casos. Faz sessões em sua casa e tem a ajuda de alguns espíritos bons. Nós fizemos uma consulta para Liana e eles nos disseram que precisamos tirá-Ia desta casa o quanto antes.
- Ela não quer ir - disse Amelinha.
- O coronel não deixa - ajuntou Eurico.
- Foi isso mesmo que disseram na sessão. Mas eles vão nos ajudar para conseguir isso. Alberto contou seu plano, finalizando:
- O juiz concordou em fazer os papéis, mas preciso levar os documentos de Liana. - Mamãe guarda todos os documentos na gaveta da escrivaninha - disse Amelinha. - Tia Liana já sabe que você quer se casar com ela?- perguntou Eurico. - Ainda não. Pretendo conversar com ela ainda hoje.
- E se ela disser não? - ponderou Amelinha.
- Ela deseja melhorar. Vai dizer sim - contrapôs Alberto. - Mamãe vai ficar furiosa! - disse Amelinha.
- Ela não vai poder fazer nada quando descobrir que já estão casados. O difícil vai ser tirar tia Liana daqui. Se vocês vissem a cara do coronel quando diz que não vai deixar. - Eu sei, Eurico. Mas nós temos fé em Deus. Depois, os bons espíritos prometeram nos ajudar. Só preciso que vocês peguem esses documentos ainda hoje. - Eu vou fazer isso - propôs Amelinha.
- Quando você vai falar com tia Liana? - perguntou Eurico. - Hoje, depois de nossa aula. - Não vou conseguir prestar atenção em nada, com tudo isso acontecendo aqui! - tornou Amelinha. - Será que a alma do coronel vai aparecer de novo para ela? - Ele que não apareça para mim! Não quero mais ver a cara dele - reclamou Eurico. - Pois eu queria muito o ver - disse Nico. - Não tenho medo. Se ele aparecer, vou dizer-lhe poucas e boas. Onde já se viu judiar da Liana, sempre tão boa? 183
- Não é hora de brigar, Nico. Todos precisamos agora é rezar para que dê tudo certo. A alma do coronel é atormentada e precisa muito de oração. Vamos ajudá-Io a sentir o quanto está se prejudicando.
- Agora mesmo vou ver se posso pegar esses documentos - disse Amelinha.
- Cuidado. Sua mãe não pode perceber nada. Vamos agir como sempre. Esse é mais um segredo nosso.
- Você vai se casar com minha tia e vai ser meu tio. Que bom! tornou Amelinha, alegre.
- Você a ama? - indagou Eurico.
- Eu gosto muito de Liana. Mas nosso casamento não é de amor. Não estamos namorando, se é isso que quer saber. Só vamos nos casar no papel, por causa da maldade das pessoas. Se ela for morar em minha casa sem se casar, todos, a começar por sua mãe e seu pai, vão pensar que estamos agindo mal. Temos de casar para que nos deixem em paz e ela possa fazer esse tratamento.
- Se a Dona Eulália aceitasse o tratamento com os espíritos, vocês não iam precisar se casar - disse Nico.
- Isso mesmo. Eu gosto muito de Liana e desejo que ela fique bem. Quero levá-Ia para minha casa para poder ajudá-Ia do jeito certo.
- Mamãe vai se zangar. E se ela não deixar mais você vir aqui para dar aula? - perguntou Amelinha.
- Se ela fizer isso vai se arrepender - disse Eurico. - Vou ficar doente de novo.
- Você não precisa adoecer para conseguir o que quer. Pode fazer isso de outra forma.
- Como? Ela nunca me escuta! Nunca acreditou que eu vejo alma do outro mundo!
- É difícil para ela. Com o tempo ela vai saber que tudo quanto você dizia era verdade. Agora vamos estudar.
- Vai ser difícil prestar atenção. Minha cabeça está fervendo! retrucou Amelinha.
- A minha também - disse Eurico.
- Temos de fazer tudo como sempre. Ninguém pode desconfiar de nossos planos.
- O professor tem razão - concordou Nico. - Temos que enganar até a alma do coronel.
- Será que ele não está ouvindo nossa conversa? - perguntou Amelinha. 184
Não o estou vendo aqui agora - garantiu Eurico.
- Vamos pedir a Deus que ele não perceba - disse Alberto. Quando terminou a hora da aula, Alberto disse que iria conversar com Liana e enquanto isso Amelinha cuidaria de pegar os documentos da tia. Alberto encontrou-a na sala estendida no sofá, tendo nas mãos um livro que nem sequer abrira. Vendo Alberto aproximar-se, Liana tentou sorrir. - Como vai? - indagou ele com interesse.
- Bem. E você?
- Vim para conversar. Onde está Eulália?
- Na copa com Hilda.
- Temos de falar a sós. É importante. Gostaria de andar um pouco pelo jardim? Ela suspirou desanimada:
- Estou tão cansada! Não pode ser aqui?
- A tarde está muito bonita. Um pouco de ar far-Ihe-á bem. Você tem ficado muito dentro de casa.
- Não tenho ânimo para sair.
- Poderemos nos sentar no caramanchão. Venha. Vou ajudá-Ia a levantar-se. Ele apanhou sua mão e ajudou-a a levantar-se.
- Estou tonta - reclamou ela, apoiando-se nele.
- Segure-se em meu braço. Vamos andar um pouco.
Ela obedeceu e saíram. Alberto acomodou-a no banco do caramanchão e sentou-se a seu lado, fitando-a penalizado. Liana emagrecera bastante. Seu rosto estava pálido, olhos encovados, lábios sem cor. Estava muito diferente da moça cheia de vida que ele conhecera ao chegar ali. Sentiu que não havia tempo a perder. Depois de uma ligeira olhada para ver se não havia ninguém por perto, foi direto ao assunto:
- Fiz uma consulta para você na sessão na casa do Dr. Marcílio. Eles confirmaram tudo quanto Eurico tinha dito sobre a alma do coronel. - Então é mesmo verdade? - Claro. Ninguém lá sabia que Eurico o havia visto.
- Que horror! Eu não quero ver aquele homem horrível outra vez. Só em pensar nisso fico gelada.
- Calma, Liana. Os bons espíritos prometeram nos ajudar a libertá-Ia dele. Vão ajudá-Io também a esclarecer-se. Ele está iludido, preso no passado. Agora é hora de resolver problemas que vocês não conseguiram solucionar em outras vidas. 185
- Custo a crer! Eu nunca vi esse homem antes!
- Isso não importa agora. O importante é que ele se agarrou a você e está sugando suas forças e você não está conseguindo libertar-se.
- Eu não quero que ele fique perto de mim.
- Para isso é preciso que você saia desta casa o quanto antes. Uma vez fora daqui, que seja tratada pelo Dr. Marcílio, que conhece esse assunto, e pelos bons espíritos que o ajudam. - Não posso sair daqui!
Alberto apanhou a mão gelada de Liana e apertou-a com carinho: - Pode e vai sair amanhã à noite. O Dr. Marcílio e eu temos um plano para que você se liberte logo. Amanhã à noite virei buscá-Ia sem ninguém saber e você irá para minha casa. Lá, um juiz estará com os papéis prontos e fará nosso casamento. Você ficará morando comigo, até ficar em condições de cuidar de sua própria vida. Será um casamento de aparência. Para todos, estamos apaixonados, mas na intimidade, seremos como irmãos. Dessa forma, você estará livre de todos os problemas que a afligem e com sua situação regularizada perante sua família.
- Eulália vai ficar furiosa. - Norberto mais ainda. Apenas no princípio. Depois, com o tempo, tudo se normalizará. Afinal, eles desejam sua felicidade.
- Não sei... é arriscado. Não posso envolver você em meus problemas. - Já me envolvi o suficiente. Não tolero vê-Ia definhar dessa forma. Gosto muito de você. Deixe-me devolver-lhe a alegria e o bem-estar que você merece. - Só em pensar em sair daqui, me dá um medo...
- Eu sei. Mas a meu lado nada de mau vai acontecer. Não a deixarei um minuto sequer. Liana apertou a mão dele com força:
- Meu Deus! Estou me sentindo tão fraca!
- Você não é fraca. Ao contrário. Você é forte. Vai conseguir sair dessa, com ajuda de Deus.
- Não sei, não...
- Diga que sim e eu tomarei conta de tudo.
- Está bem. Irei. Quero terminar com essa situação, ainda que seja às custas da própria vida. - Você vai viver saudável e feliz. Amanhã depois da aula conversaremos para acertar o horário em que virei apanhá-Ia. É absolutamente necessário que guarde segredo. As crianças sabem e estão nos ajudando.
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Mas não convém conversar sobre isso, alguém pode ouvir. Todo cuidado é pouco. - O que eles dizem?
- Eles a amam muito e querem vê-Ia boa.
- Nunca pensei chegar a este ponto...
- Não se lamente. Você é muito querida e tem muitos amigos. Agora vamos voltar para a sala antes que alguém desconfie. Ela se apoiou no braço dele e dirigiram-se para a casa exatamente no momento em que Eulália saía olhando atenta para todos os lados. Vendo-os, suspirou: - Não a vi na sala e fiquei preocupada. Está bem?
- Estou melhor, obrigada.
- Liana precisa sair um pouco, respirar ar puro.
- Ele tem razão, Liana. Eu insisto, mas ela não quer.
Ele a conduziu até o sofá na sala, e quando estava se despedindo Nico apareceu perguntando:
- O senhor vai passar perto da casa da minha mãe?
- Vou, Nico. Quer carona até lá?
- Quero. Posso ir, Dona Eulália?
- Pode. Só não volte muito tarde. Eurico fica impossível enquanto você não chega. Nunca vi. Parecem irmãos siameses. Vivem um grudado no outro. - Não demoro. Vejo a minha mãe e volto logo.
Quando estava no carro, Nico tirou um envelope do bolso e entregou-o ao professor. - Veja se são esses os documentos que precisa.
Ele verificou e sorriu satisfeito:
- Está tudo certo. Quem pegou?
- A Amelinha. Ela é danada de esperta. Enquanto o Eurico dava trabalho para a Dona Eulália na cozinha, ela subiu e pegou tudo. Ninguém percebeu. - Ela é muito esperta.
- E a Liana, concordou?
- Relutou um pouco, mas concordou. Amanhã, quando todos estiverem deitados, voltarei para buscá-Ia, sem ninguém saber. Vou precisar da ajuda de vocês. Na aula de amanhã combinaremos tudo. Tenho de ver com o Dr. Marcílio o que é melhor fazer. - Puxa vida! O Eurico e a Amelinha vão gostar de saber. Eles pediram que eu perguntasse tudo.
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- Diga-Ihes que está tudo combinado. Amanhã trataremos dos detalhes. Depois de deixar Nico em casa, Alberto dirigiu-se à casa de Marcílio. Entregou-lhe os documentos com satisfação.
- Está tudo combinado. Liana aceitou. As crianças estão nos ajudando. - Como pensa tirá-Ia de lá?
- Amanhã à noite, depois que todos dormirem, irei buscá-Ia. Ficarei esperando do lado de fora. Vou pedir para Nico me fazer um sinal quando todos estiverem dormindo. - Precisa ir prevenido. Fazer prece antes. O coronel Firmino pode tentar impedir que Liana saia da casa.
- De que forma?
- Acordando alguém, aparecendo novamente para ela, ou mesmo fazendo-a perder os sentidos.
- Nesse caso seria melhor que você fosse comigo.
- Posso ir. O juiz ficou de estar em minha casa lá pelas nove horas. - É cedo. Eulália pode estar acordada ainda.
- Ele sabe que vocês vão fugir. Vai ficar esperando o quanto for preciso. Aliás, Adélia já preparou alguns quitutes e uma cervejinha gelada do jeito que ele gosta. - Está bem. Combinado. Passarei em sua casa às nove e iremos juntos até a mansão esperar o sinal.
Quando Alberto chegou em casa, foi ao quarto verificar se tudo estava em ordem. Desde que tivera a idéia de levar Liana para sua casa, transformara o quarto de vestir em um quarto de hóspedes. Mandara limpar tudo com carinho. No dia seguinte compraria flores para colocar sobre a cômoda. Queria que Liana se sentisse confortável em sua casa. Deitou-se mas não conseguiu dormir. Sentia-se emocionado e inquieto. Mais uma vez sua vida estaria se modificando na noite seguinte. Não tinha dúvida de que conseguiriam libertar Liana do assédio do coronel. Mas, quanto aos problemas íntimos que Liana carregava dentro do coração, só ela poderia resolver. Para isso precisava deixar o passado ir embora e retomar a alegria de viver.
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Capítulo 14
Na tarde seguinte, quando o professor chegou à mansão, encontrou as crianças ansiosas para saber os detalhes do plano daquela noite.
- Vamos precisar da ajuda de vocês - disse ele.
- Chi!... Ninguém pode saber. Se mamãe descobre... - lembrou Amelinha. - Não seja boba, ela não vai saber. Nós não vamos contar - garantiu Eurico. - E, depois, se ela descobrir já será tarde. Eles estarão casados e pronto. - A ajuda que vou precisar é pouca. Ninguém vai descobrir, a não ser que vocês contem. - Como vai ser? - perguntou Nico.
- Hoje, mais ou menos às nove, eu e o Dr. Marcílio viremos para buscar Liana. Ficaremos na rua dos fundos esperando todos irem dormir. Aí é que precisamos de ajuda. Vocês vão para a cama como sempre, mas fiquem acordados esperando. Quando perceberem que todos já se recolheram e todas as luzes se apagaram, acendam e apaguem a luz do quarto de Eurico três vezes. Esse é o sinal. Assim saberemos que é hora. Vão avisar Liana e ajudem-na a sair.
- E se o coronel aparecer e ela não puder ir? - perguntou Eurico. - Nesse caso vocês tornem a dar o mesmo sinal e nós entraremos para buscá-Ia.
- E a porta? Hilda costuma fechá-Ia bem -lembrou Amelinha. - Eu posso descer e abrir para vocês - propôs Nico.
- Não. Eu vou. Se mamãe descobre que foi você quem abriu a porta, pode não deixar mais você ficar aqui. Sabe como ela é. Comigo não vai poder fazer nada - interveio Eurico. - Aprecio sua coragem, Eurico. Acho que tem razão - concordou Alberto. - Não tenho medo - disse Nico. - Para ajudar a Liana faço tudo. Depois, sei como andar sem fazer barulho. Ninguém vai saber que fui eu. - Bom. Isso só vai acontecer no caso de Liana ter dificuldade em sair. Por isso o Dr. Marcílio virá junto. Deus vai nos ajudar. Vai dar tudo certo. - Ela vai ter que arrumar uma mala. Vou ter que ajudar a carregar, ela está tão fraca... -lembrou Nico.
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Não se preocupe com isso. Ela não precisa levar nada. O principal é sair e nos casarmos esta noite. Amanhã, quando todos souberem, viremos buscar os pertences dela. - Puxa! Eu queria estar lá na hora do casamento! - lamentou-se Amelinha. - Vai ter bolo de noiva?
- Deixe de ser boba - tornou Eurico. - Eles vão se casar sem nada disso. - Vai ter bolo, sim. A esposa do Dr. Marcílio preparou uma comemoração ligeira. É mais para comemorar a libertação de Liana.
- Está vendo só? - rebateu Amelinha. - O bobo é você. Todo casamento tem bolo e eu queria comer um pedaço do bolo de casamento de tia Liana. - Não sei como as coisas estarão amanhã. Mas se der jeito trago ou mando um pedaço do bolo para vocês. Afinal, sem a ajuda que nos deram, seria muito difícil conseguirmos realizar nossos planos.
Após a aula o professor despediu-se, lembrando:
- Agora vou falar com Liana para confirmar os detalhes. Estamos combinados. Quando todos estiverem dormindo e todas as luzes apagadas... - Nós acendemos e apagamos a luz de meu quarto três vezes.
- Aí vamos ao quarto da tia ajudá-Ia a sair ao encontro de vocês... - completou Amelinha. - Se houver alguma dificuldade, repetimos o sinal e vamos abrir a porta para que vocês entrem para buscar a Liana. - finalizou Nico.
- É melhor abrirem a porta dos fundos. Fica mais perto do local onde estaremos esperando - lembrou Alberto.
Ele saiu, dirigindo-se até a sala onde Liana costumava ficar. Porém Eulália estava com ela. Após os cumprimentos, ele disse com naturalidade: - Sente-se melhor, Liana? - Sim - respondeu ela com voz fraca.
- Estou aqui tentando convencê-Ia a consultar o Dr. Caldas em São Paulo. Poderemos ir neste fim de semana com Norberto.
- Não quero ir,Eulália. Não tenho nada. Só estou um pouco cansada. Logo estarei bem. Você vai ver.
- Ajude-me a convencê-Ia, professor. Ela quase sempre ouve o que você diz. - Você precisa se cuidar - disse ele. - Fazer aquele tratamento de que eu lhe falei. Garanto que vai ficar boa.
- Que tratamento? - quis saber Eulália.
- Um método novo que associa psicologia e medicina.
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- Ainda acho que seria melhor o Dr. Caldas, que é médico de nossa família - assegurou Eulália. - Você não pode continuar assim, desse jeito. Estou resolvida. Se não quer ir a São Paulo, vou pedir a Norberto que traga o Dr. Caldas aqui neste fim de semana. Hilda apareceu na porta dizendo nervosa:
- Dona Eulália, Eurico está impossível! Não quer tomar banho nem trocar de roupa. Só está brigando com Amelinha.
Eulália levantou-se imediatamente:
- Esse menino! A cada dia fica mais desobediente! Com licença, professor. Alberto acenou ligeiramente com a cabeça concordando, mas sorriu ligeiramente. Estava claro que Eurico estava fazendo manha para atrair a atenção da mãe e ele poder combinar tudo com Liana.
Assim que a viu distante discutindo na cozinha com Eurico, Alberto foi direto ao assunto: - Liana, está tudo pronto para esta noite. Depois que todos estiverem dormindo, eu e o Dr. Marcílio viremos buscá-Ia. Ficaremos esperando junto ao portão dos fundos. As crianças irão a seu quarto avisá-Ia quando chegar a hora. É só vir ao nosso encontro e cuidaremos de tudo.
Ela suspirou e não escondeu a preocupação:
- Não sei... Será preciso tudo isso mesmo? É melhor esperar um pouco mais... - É preciso e urgente. Não tenha medo. Vamos cuidar de você com muito carinho. O Dr. Marcílio, Dona Adélia, eu. Você ficará bem e dentro em breve estará livre do mal que a vitimiza. Só precisamos que confie em nós e coopere, aceitando a ajuda que oferecemos de coração. Temos pouco tempo. Eulália pode voltar a qualquer momento. Esteja pronta, que esta noite mesmo sairá desta casa. Diga que concorda.
- Está bem. Sinto-me atordoada. Não estou em condições de pensar. Minha cabeça está pesada. Farei o que você pede.
- Isso mesmo. Estou certo de que não se arrependerá.
Maria apareceu na.sala trazendo uma bandeja:
- Aceita um café, professor?
- Aceito, obrigado.
Eulália voltou à sala e após o café Alberto despediu-se. Eulália acompanhou-o até a porta. - Estou muito preocupada - disse. - A cada dia que passa Liana fica mais abatida. Não sei mais o que fazer.
- Já experimentou rezar?
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- Rezar? Não sabia que você era uma pessoa religiosa.
- Não sou, Eulália. Mas a ligação com Deus, a prece sincera acalma, ajuda e muitas vezes resolve nossos problemas. Eu tenho fé.
- Essas palavras, vindas de um professor, me surpreendem. - Por quê? Não sou só professor, mas uma pessoa que sente, que pensa. Deus vai ajudar Liana a recuperar a saúde. Tenho certeza. Tenha fé. - Seguirei seu conselho. Até amanhã, professor.
No caminho de casa, Alberto repassava o plano de logo mais. Se alguma coisa desse errado, tudo estaria perdido. Eulália não o deixaria mais freqüentar a casa, tinha certeza. Por isso, eles precisavam tomar o máximo cuidado. O espírito do coronel poderia estar trabalhando no sentido oposto.
O tempo custava a passar e ele esperava ansioso a hora marcada. Em sua casa tudo estava em ordem. Dona Adélia estivera lá durante o dia arrumando tudo para a cerimônia daquela noite. Apesar das circunstâncias, ela achava que uma noiva é uma noiva e precisava ter um mínimo de atenção: as flores na mesa onde o juiz faria o casamento, o buquê para a noiva segurar, o brinde com champanhe e o bolo. Se a tivessem deixado, teria até arranjado um vestido de noiva com véu e grinalda, o que AIberto a fez desistir de fazer. Às cinco para as nove, Alberto estava na casa do médico. Confirmados os detalhes, os dois saíram. Dentro em pouco o juiz deveria chegar e Adélia se encarregaria de acompanhá-Io até a casa do professor, onde esperariam a chegada dos noivos. Ela sabia que eles poderiam demorar, por isso havia deixado tudo pronto para que o juiz esperasse sem reclamar. A cervejinha gelada, os salgadinhos de que ele gostava e até o doce de leite especial de minas servido com queijo meia cura. Quando eles chegaram ao portão dos fundos da mansão, havia luz em algumas dependências da casa, e eles, dentro do carro, se dispuseram pacientemente a esperar. Pouco a pouco as luzes foram se apagando. Até que, por fim, viram o sinal combinado. As crianças haviam esperado no quarto de Eurico. Amelinha não se conformara em ficar sozinha em seu quarto e, assim que pôde, juntou-se a eles. Não queria perder nada. Quando acharam que era hora, deram o sinal combinado e foram pé-ante-pé até o quarto de Liana. Abriram a porta com cuidado e entraram.
Ela estava deitada e parecia dormir. Eurico aproximou-se, tocando-a levemente. 192
- Tia Liana! Acorde. Está na hora.
De repente, ele deu um pulo para trás, agarrando Nico:
- Ele está aí. Segurando-a!
- O coronel? - perguntou Nico, assustado.
- Sim. Ele está me ameaçando e disse que não vai deixá-Ia sair. Está nos mandando embora.
- Ele não pode fazer isso - garantiu Nico.
- Mas ele está - reclamou Eurico com voz trêmula. - Eu vou embora. Não vai adiantar nada. Ele não vai deixá-Ia sair daqui. - Pois eu não tenho medo dele. Ela vai sair e pronto. Vamos voltar para o seu quarto e avisar o professor.
- Eu também vou - disse Amelinha. - Não quero ficar aqui com ele. - Cuidado com o barulho. Venham.
Voltaram ao quarto e deram o sinal.
- Agora temos que abrir a porta dos fundos para eles entrarem disse Nico. - Eu vou. - Eu prometi, mas não quero ir sozinho.
- Eu também - tornou Amelinha.
- Vamos todos. Mas, pelo amor de Deus, sem fazer barulho. Cuidado quando descer a escada. Tem aquele degrau que range. Vamos devagar.
Nico foi na frente, andando com cuidado, Eurico agarrado nas costas dele e Amelinha no braço do irmão. Chegaram à porta dos fundos, saíram pelo jardim e foram ao portão combinado, onde Alberto e o médico esperavam.
- Onde está Liana? - perguntou o professor. - O que aconteceu? - Ela está dormindo e não quer acordar - respondeu Nico.
- Eu vi a alma do coronel segurando-a. Ele me ameaçou e nos mandou embora. Disse que não vai deixá-Ia sair.
- Vamos entrar - disse Marcílio. - Cuidado com o barulho. Ninguém pode acordar agora. Subiram cuidadosamente até o quarto onde Liana continuava dormindo. - Feche a porta com cuidado - recomendou o médico.
- Ele a está segurando - disse Eurico. - Disse que vai derrubar o primeiro que tocar nela. - Vamos rezar e pedir a ajuda de nossos amigos espirituais. O médico começou a proferir uma prece em voz baixa. Em certo momento, Nico não se conteve. Aproximou-se de Liana dizendo:
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- Eu não tenho medo dele. Vou acordá-la, sim.
- Não faça isso. Ele disse que vai pegar você - advertiu Eurico, assustado. - Pois a mim ele não engana. Estou com Deus e nada é mais forte do que eu agora. Enquanto Eurico torcia as mãos nervoso, Nico aproximou-se de Liana, sacudindo-a. - Acorde, Liana. Está na hora. Não o deixe dominar você. Ela abriu os olhos sem perceber o que estava acontecendo. Nico continuou: - Venha. Ele não tem nenhum poder sobre nós. Eu ajudo você. Ao mesmo tempo ele a sacudia e ela se esforçava para acordar e perceber o que estava acontecendo.
- Ele está ameaçando você - disse Eurico.
- Repita o que ele está dizendo - pediu o médico.
- "Eu pego você. Você já me fez sofrer muito, mas desta vez vai me pagar. Eu me vingo de tudo. De você e de Mariinha. Não é justo. Deixe minha mulher em paz. Ela é minha." - Vamos continuar rezando - pediu o médico.
- Aquela mulher que sempre vem chegou e está pegando-o pelo braço. Ela sorriu para mim e disse que vai levá-lo embora. Está agradecendo minha ajuda. - Graças a Deus! - disse o professor.
- Vai ficar tudo bem - concordou Marcílio.
- Ela o levou embora - disse Eurico.
Marcílio abraçou Eurico com carinho: - Meu filho, Deus o abençoe. Sua ajuda foi preciosa. Esse dom que você tem é uma bênção de Deus. Nunca se esqueça disso.
Eurico sentiu as lágrimas virem aos olhos. Nunca ninguém falara nada assim para ele. Tentou disfarçar:
- Nico é muito corajoso.
- De fato. Todos vocês estão nos ajudando muito.
Alberto conversava com Liana, que, embora ainda estivesse tonta e meio fora de si, obedeceu ao que eles disseram.
Conforme o combinado, ela havia dormido vestida e por isso foi fácil prepará-la para sair. Amelinha calçou os sapatos na tia enquanto os dois meninos saíram no corredor para verificar se não havia ninguém. Tudo estava calmo e às escuras. Ninguém havia acordado. Com cuidado eles saíram com Liana.
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O caminho até o portão dos fundos pareceu muito mais comprido do que de costume. Uma vez lá, as crianças beijaram-na com carinho e emoção.
- Tia Liana, quero ver você curada! - disse Eurico.
- Eu queria tanto ver seu casamento! - comentou Amelinha. - Você vai ficar bem e será feliz! - garantiu Nico.
- Amanhã vocês fingem que não sabem de nada. Não quero que sofram nenhum castigo - recomendou o professor.
- Ninguém vai desconfiar - garantiu Eurico.
- Quero só ver a cara de mamãe quando souber! Vai ser uma bomba!
- Não podemos despertar suspeitas. Eles terão que descobrir sozinhos onde ela está. Ninguém vai falar nada, está bem? - disse Nico.
- Isso mesmo. Não quero envolver vocês nisso. Eu assumo tudo sozinho - declarou Alberto. - Agora vão deitar antes que alguém acorde. Cuidado com o barulho. - Você vai nos dar notícias? - pediu Eurico.
- Contar como foi o casamento? - tomou Amelinha.
- Se for difícil para ele, eu venho e conto tudo quando sua mãe não estiver por perto - garantiu Marcílio. - É o mínimo que podemos fazer depois do que vocês fizeram. - E o bolo? -lembrou Amelinha.
- Darei um jeito de mandar - disse o professor. - Agora, vão. Eles entraram, fecharam a porta e os dois, amparando Liana, entraram no carro dirigindo-se à casa de Alberto. Durante o trajeto, o médico foi segurando a mão de Liana e rezando em pensamento. Aos poucos ela foi recuperando a lucidez e ao chegar à casa de Alberto sentia-se mais animada. Adélia, depois de abraçá-Ia, conduziu-a para o quarto de hóspedes, onde ela deveria ficar. Lá já havia um lindo vestido que ela providenciara para a ocasião.
- Vamos, Liana. Hoje é um grande dia. Precisa vestir-se de acordo com a ocasião. - Estou nervosa. Eulália vai ter um grande desgosto quando descobrir. O que estamos fazendo não é direito. Ela é como se fosse minha mãe. Não vai me perdoar nunca.
- Bobagem. O que ela quer mesmo é que você fique bem. Depois do primeiro susto compreenderá.
- Eu não tinha o direito de envolver Alberto em meus problemas. Ele pode ser prejudicado por esse casamento.
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- Não vejo em quê. Ele gosta muito de você. Nunca pensou que ele pode estar apaixonado? Liana não respondeu. Ela sabia que o professor estava apenas desejando ajudá-Ia. Nunca notara nele qualquer indício de amor. Se isso fosse verdade, não teria concordado em casar-se com ele. O que a animava era justamente a idéia de que aquele casamento era apenas aparente.
Depois de sua trágica aventura com o cunhado, Liana pensava que nunca mais seria capaz de amar ninguém. O arrependimento de seu ato impensado era maior do que qualquer sentimento que pudesse sentir por Norberto.
O que ela desejava mesmo era viver em paz. Apesar do nervosismo, reconhecia que a proposta de Alberto a salvara de um casamento sem amor e da desagradável situação familiar.
- Vamos. Vou ajudá-Ia a se preparar. Trouxe minha maleta de maquiagem. Você vai ficar linda!
- Não é preciso.
- É preciso, sim. Esse vestido eu comprei especialmente. É meu presente de casamento. O buquê, foi Alberto quem mandou fazer.
Liana corou levemente. Deixou-se conduzir por Adélia, que a arrumou com carinho. Vendo-a pronta, deu um passo para trás para admirá-Ia.
- Está linda, minha querida.
Abraçou-a emocionada, continuando:
- Algo me diz que você ainda terá muita felicidade.
Liana sentia o coração apertado e tentou sorrir.
- Agora vamos. Eles estão esperando.
Liana entrou na sala com Adélia, e Alberto olhou-a surpreendido. Ela parecia outra pessoa. A maquiagem reavivara as cores de seu rosto, tornando-o menos abatido. - Liana já reviveu - comentou Marcílio com satisfação.
A cerimônia foi realizada com simplicidade e, ao final, depois de os noivos assinarem o livro, o juiz foi o primeiro a desejar-Ihes felicidades.
Depois dos cumprimentos e abraços de Marcílio, Adélia e Gislene, a empregada de Alberto, abriram uma champanhe e os noivos cortaram o bolo.
Apesar do nervosismo, do receio e da insegurança que Liana sentia, o carinho daquelas pessoas fazendo tudo para que ela recuperasse a saúde e fosse feliz comovia-a muito. Sentia que eles estavam sendo sinceros, mostravam-se tão confiantes no futuro, que ela se esforçou para mostrar coragem e não os desapontar.
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- Não podemos esquecer de mandar bolo para as crianças - lembrou Alberto. - Eu prometi a Amelinha.
- Uma pena eles não terem podido vir. Estavam tão animados! Verão as fotos que tirei - respondeu Marcílio.
Passava da uma quando todos se despediram.
- Pode ir, Gislene. Obrigado por tudo - disse Alberto.
- A senhora precisa de alguma coisa mais? - indagou ela a Liana. - Não. Obrigada, Gislene. Depois que ela se foi, Liana aproximou-se de Alberto: - Obrigada por tudo. Você foi além do que eu esperava. Nunca pensei que a cerimônia pudesse ser tão bonita. Depois, o carinho das pessoas, tudo... Não sei como agradecer o que está fazendo por mim.
- Para mim não custou nada. Você agora está livre. Vai receber tratamento adequado, ficar bem e depois decidir o que quer fazer de sua vida. Estou feliz em tê-Ia em minha casa. Tenho certeza de que nos daremos muito bem.
- E Eulália? O que fará quando descobrir?
- Vamos tentar resolver o assunto com ela. Amanhã, quando acordarmos, iremos até lá contar-lhe a novidade.
- Ela ficará furiosa.
- Levaremos os documentos comprovando nosso casamento. Ela vai desabafar e depois perceberá que o melhor será aceitar. Ela a quer muito. - Não pode saber o verdadeiro motivo pelo qual eu quis sair de casa. - Não precisa saber. Diremos que nosso amor é tão grande que não pudemos mais esperar para nos casar.
- Ela vai pensar que mantivemos um relacionamento íntimo. - Será melhor do que descobrir a verdade. Afinal, estamos casados, o que eliminará da cabeça dela qualquer julgamento ruim.
Liana colocou a mão no peito, suspirando nervosa:
- Não vou conseguir dormir. Estou tão inquieta...
- É natural. O Dr. Marcílio deixou um vidro de calmantes na mesa de cabeceira, em seu quarto, com a receita indicando quantas gotas tomar. É suave, mas bom o bastante para você relaxar e dormir. Quer que eu o prepare?
- Eu mesma farei. Obrigada. Você já fez demais por hoje. - Adélia foi tão gentil que, além do vestido, comprou traje de dormir, chinelos, escova de dentes.
- São pessoas maravilhosas.
- Amigos que desejam nos ver felizes.
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Acompanhando-a ao quarto, Alberto perguntou:
- Acha que ficará bem?
- Sim. Pode ir descansar.
- Não passarei a chave na porta de meu quarto. Se precisar de alguma coisa, se não se sentir bem, ou mesmo se não conseguir dormir, pode me chamar. - Obrigada, Alberto.
Ele pegou a mão dela, apertando-a e dizendo:
- Quero que se sinta bem aqui. Pode ter certeza de que tudo farei para vê-Ia feliz, saudável e em paz.
Liana sorriu e respondeu:
- Deus o abençoe pelo bem que me fez.
Depois que ele saiu, ela fechou a porta e preparou-se para dormir. Sorriu ao vestir a fina camisola de seda cor de pérola, digna de uma noite de núpcias. Adélia sabia que aquele casamento não era de amor e que ela não teria nenhuma intimidade com o marido. Por que fizera questão de dar-lhe aquele presente? Estaria pensando que eles estivessem fingindo? Sorriu levemente, mas gostou do toque delicado da seda em seu corpo e da beleza de seu talhe, que vestiu como uma luva. Leu a receita, preparou o remédio e tomou-o. Depois se deitou. O calor das cobertas na cama macia, cheirando delicadamente a lavanda, foi-lhe muito agradável.
Suspirou e apagou a luz do abajur. Um calor gostoso acometeu-a e quase sem perceber Liana deixou-se ficar sem pensar em nada e em seguida adormeceu. Acordou na manhã seguinte, e pelas frestas da veneziana percebeu que o sol já ia alto. Olhando o quarto, recordou-se do que acontecera na noite anterior e sentiu um aperto no coração.
Eulália já teria dado por sua falta? Saltou da cama, vestiu o penhoar e foi ao banheiro. Ao passar pelo quarto de Alberto, viu que a porta estava aberta e ele já se havia levantado. O relógio da sala marcava dez horas, e ela se admirou. Dormira demais. Gislene, vendo-a, perguntou:
- Dona Liana, quer tomar o café na sala ou no quarto?
- Não se incomode. Estou sem fome.
- O professor disse que a senhora precisa se alimentar bem. O que gosta de comer pela manhã?
- Vou até a cozinha ver. Estou sentindo um cheiro tão bom de café. - Eu posso pôr a mesa na sala.
- Não. Eu vou comer na mesa da cozinha mesmo.
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Foi até a cozinha e sentou-se à mesa, enquanto Gislene colocava em sua frente, além do café com leite, várias guloseimas.
- O pão está fresquinho. Fui pegar logo cedo.
Apesar de não estar com fome, Liana tomou café com leite e comeu um pãozinho com queijo e manteiga.
- A senhora não vai provar essa geléia de goiaba? Foi minha tia que fez. Está uma delícia. Liana experimentou um pouquinho, e estava mesmo deliciosa. AIberto aproximou-se, olhando-a satisfeito:
- Você está com boa aparência. Dormiu bem?
- Por incrível que possa parecer, desmaiei. Fazia tempo que eu não dormia tão bem. - Você vivia dormindo ultimamente.
- Mas não do jeito que dormi esta noite. Eu dormia, mas ao mesmo tempo era um sono pesado, cheio de pesadelos. O remédio do Dr. Marcílio é milagroso. Tomei aquelas gatinhas e pronto. Só acordei agora.
Ela acabou de comer e ele a levou até a sala, dizendo:
- Nós havíamos planejado ir até a mansão, mas teremos de esperar. O Dr. Marcílio foi até lá falar com Eulália.
- Aconteceu alguma coisa?
- Ela logo cedo deu por sua falta e ficou desesperada.
- Eu sabia!...
- Aí, Nico, que não queria contar nada, telefonou discretamente ao Dr. Marcílio e ele foi até lá para explicar tudo. A esta hora, eles devem estar conversando. - Meu Deus! O que será que está acontecendo lá?
- Marcílio passou por aqui a caminho da mansão e prometeu passar de novo quando sair de lá e contar tudo. De certa forma, será melhor ele conversar com ela primeiro. Quando formos lá, ela já estará mais conformada. - Não sei, não. Às vezes ela é tão radical.
- Nada poderá fazer agora. Tudo está consumado. Norberto pode ficar mais revoltado do que ela. Ele tem ciúme de você.
- É bom que ele pense que nos amamos e trate de esquecer aquele nosso deslize. Eulália nunca poderá saber de nada.
- O passado está morto. Você está casada e eles pensam que você me ama. Tudo voltará ao normal, você vai ver.
- O que faremos agora?
- Teremos de esperar. Enquanto isso, venha até o escritório. Desejo mostrar-lhe as anotações de uma pesquisa que estou fazendo para o próximo livro. 199