Quarto de despejo: diário de uma favelada

Carolina Maria de Jesus · Capítulo 1 de 3 · parte 3/7

Páginas do PDF

Quarto de despejo: diário de uma favelada

Quarto de despejo - Diário de um Favelada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

dar agua ia perder o seu filho para sempre, creio que ela estaria nos dando agua até hoje. O Pedro pagou em holocausto o orgulho de sua avó. E a maldade de sua mãe. E assim que Deus repreende.

9 DE JUNHO ...Eu saí. Quando eu estava catando papel em frente a Bela Vista eu tive um aviso que eu ia ter aborrecimento. Fiquei triste. Quando eu passava na rua Pedro Vicente um senhor deu uma bichiga de borracha para a Vera. Ela ficou contente e disse que ele ia para o céu.

...Quando nasceu a Vera eu fiquei sosinha aqui na favela. Não apareceu uma mulher para lavar minhas roupas, olhar os meus filhos. Os meus filhos dormiam sujos. Eu fiquei na cama pensando nos filhos, com medo deles ir brincar nas margens do rio. Depois do parto a mulher não tem forças para erguer um braço. Depois do parto eu fiquei numa posição incomoda. Até quando Deus deu-me forças para ajeitar-me.

...Eu já estava deitada quando ouvi as vozes das crianças anunciando que estavam passando cinema na rua. Não acreditei no que ouvia. Resolvi ir ver. Era a Secretaria da Saude. Veio passar um filme para os favelados ver como é que o caramujo transmite a

doença anêmica[16]. Para não usar as aguas do rio. Que as larvas desenvolve-se nas aguas. (...) Até a agua... que em vez de nos auxiliar, nos contamina. Nem o ar que respiramos, não é puro, porque jogam lixo aqui na favela.

Mandaram os favelados fazer mictorios.

11 DE JUNHO ...Já faz seis meses que eu não pago a agua. 25 cruzeiros por mês. E por falar na agua, o que eu não gosto e tenho pavor é de ir buscar agua. Quando as mulheres aglomeram na torneira, enquanto esperam a sua vez para encher a lata vai falando de tudo e de todos. Se uma mulher está engordando, elas dizem que está gravida. Se está emagrecendo elas dizem que está tuberculosa. Temos aqui a Dona Binidita que está com 82 anos. Começou engordar...

—É filho! A Dona Benidita está gravida.

—Não diga! Naquela idade?

—Isto é o fim do mundo!

—De quantos meses?

Seis, sete, a data que vinha na mente. E quando alguém ia levar roupinhas para a Dona Binidita ela chingava e rogava praga. Dizia:

—Eu sou mãe da que já saiu da circulação. Como é que eu posso ter filho? Eu já estou aposentada.

Quando eu ouvia os rumores pensava: quem teve filhos nesta idade foi só Santa Isabel, mãe de São João Batista.

Todos os dias há uma novidade aqui na favela. Quando inaugurou a Purtuguesa de Desportos os purtugueses que reside aqui por perto foram. E a Dona Isaltina esqueceu umas roupas no quintal. No outro dia não encontrou as roupas. A Dona Sebastiana disse para a Dona Isaltina que a ladra era a Leila. A Dona Isaltina foi chamar a Radio Patrulha. E ela interrogava a Leila com tanta energia que acabou descobrindo as roupas no fosso de excrementos. Pegaram um pau e retiraram as roupas. E a policia obrigou a Leila lavar. Um carro da Prefeitura que vinha trazer agua jogava agua e a Leila lavava. Ela dizia.

—Não fui eu quem tirou as roupas. Eu sou vagabunda, mas não sou ladra.

O povo da favela sempre achava tempo para presenciar estes espetáculos.

(...) O juiz pegou uma jovem debil mental. Disseram que ela havia fugido com um japonês. Hoje ela apareceu e disse ser mentira.

Eu fui na Dona Julita. Ela deu-me café, sabão e pão. Na Avenida do Estado 1140 ganhei muito papel. Recebi 98 cruzeiros. Deu para comprar oleo, carne e açúcar. Ganhei umas bananas, fiz doce. O José Carlos está mais calmo depois que botou os vermes, 21 vermes.

12 DE JUNHO Eu deixei o leito as 3 da manhã porque quando a gente perde o sono começa pensar nas misérias que nos rodeia. (...) Deixei o leito para escrever. Enquanto escrevo vou pensando que resido num castelo cor de ouro que reluz na luz do sol. Que as janelas são de prata e as luzes de brilhantes. Que a minha vista circula no jardim e eu contemplo as flores de todas as qualidades.

(...) E preciso criar este ambiente de fantasia, para esquecer que estou na favela.

Fiz o café e fui carregar agua. Olhei o céu, a estrela Dalva já estava no céu. Como é horrivel pisar na lama.

As horas que sou feliz é quando estou residindo nos castelos imaginários.

...O tal Valdemar hoje agrediu o senhor Alexandre com uma enxada. As mulheres interviram. Eu fico admirada do senhor Alexandre temer o Valdemar.

Porque as mulheres resulutas da favela expancam o Valdemar com vassouras e chinelos. Mas, quando alguém lhe teme, ele prevalece.

13 DE JUNHO ...Vesti as crianças e eles foram para a escola. Eu fui catar papel. No Frigorifico vi uma mocinha comendo salchichas do lixo.

—Você pode arranjar um emprego e levar uma vida reajustada.

Ela perguntou-me se catar papel ganha dinheiro. Afirmei que sim. Ela disse-me que quer um serviço para andar bem bonita. Ela está com 15 anos.

Epoca que achamos o mundo maravilhoso. Epoca em que a rosa desabrocha.

Depois vai caindo pétala por pétala e surgem os espinhos. Uns cançam da vida, suicidam. Outros passam a roubar. (...) Olhei o rosto da mocinha. Está com boqueira.

...Os preços aumentam igual as ondas do mar. Cada qual mais forte.

Quem luta com as ondas? Só os tubarões. Mas o tubarão mais feroz é o racional.

E o terrestre. E o atacadista.

A lentilha está a 100 cruzeiros o quilo. Um fato que alegrou-me imensamente. Eu dancei, cantei e pulei. E agradeci o rei dos juizes que é Deus.

Foi em janeiro quando as aguas invadiu os armazéns e estragou os alimentos.

Bem feito. Em vez de vender barato, guarda esperando alta de preços: Vi os homens jogar sacos de arroz dentro do rio. Bacalhau, queijo, doces. Fiquei com inveja dos peixes que não trabalham e passam bem.

Hoje eu estou lendo. E li o crime do Deputado de Recife, Nei

Maranhão[17]. (...) li o jornal para as mulheres da favela ouvir. Elas ficaram revoltadas e começaram chingar o assassino. E lhe rogar praga. Eu já observei que as pragas dos favelados pegam.

...Os bons eu enalteço, os maus eu critico. Devo reservar as palavras suaves para os operários, para os mendigos, que são escravos da miséria.

14 DE JUNHO .. .Está chovendo. Eu não posso ir catar papel. O dia que chove eu sou mendiga. Já ando mesmo trapuda e suja. Já uso o uniforme dos indigentes. E hoje é sabado. Os favelados são considerados mendigos. Vou aproveitar a deixa. A Vera não vai sair comigo porque está chovendo. (...) Ageitei um guarda-chuva velho que achei no lixo e saí. Fui no Frigorífico, ganhei uns ossos. já serve. Faço uma sopa. Já que a barriga não fica vazia, tentei viver com ar. Comecei desmaiar. Então eu resolvi trabalhar porque eu não quero desistir da vida.

Quero ver como é que eu vou morrer. Ninguém deve alimentar a ideia de suicídio. Mas hoje em dia os que vivem até chegar a hora da morte, é um heroi.

Porque quem não é forte desanima.

...Vi uma senhora reclamar que ganhou só ossos no Frigorífico e que os ossos estavam limpos.

—E eu gosto tanto de carne.

Fiquei nervosa ouvindo a mulher lamentar-se porque é duro a gente vir ao mundo e não poder nem comer. Pelo que observo, Deus é o rei dos sábios. Ele pois os homens e os animais no mundo. Mas os animais quem lhes alimenta é a Natureza porque se os animais fossem alimentados igual aos homens, havia de sofrer muito. Eu penso isto, porque quando eu não tenho nada para comer, invejo os animais.

...Enquanto eu esperava na fila para ganhar bolachas ia ouvindo as mulheres lamentar-se. Outra mulher reclamava que passou numa casa e pediu uma esmola. A dona da casa mandou esperar (...) A mulher continuou dizendo que a dona da casa surgiu com um embrulho e deu-lhe. Ela não quiz abrir o embrulho perto das colegas, com receio que elas pedissem. Começou pensar.

Será um pedaço de queijo? Será carne? Quando ela chegou em casa a primeira coisa que fez, foi desfazer o embrulho porque a curiosidade é amiga das mulheres. Quando desfez o embrulho viu que eram ratos mortos.

Tem pessoas que zombam dos que pedem.

Na fabrica de bolacha o homem disse que não ia dar mais bolacha. Mas as mulheres continuaram quietas. E a fila estava aumentando. Quando chegava alguém para comprar, ele explicava:

—O senhor desculpe o aspecto hediondo que este povo dá na porta da fabrica. Mas por infelicidade minha todos os sábados é este inferno.

Eu ficava impaciente porque queria ouvir o que o dono da fabrica dizia.

E queria ouvir o que as mulheres dizia. Que dilema triste para quem presencia.

As pobres querendo ganhar. E o rico não queria dar. Ele dá só os pedaços de bolacha. E elas saem contentes como se fossem a Rainha Elisabethe da Inglaterra quando recebeu os treze milhões em joias que o presidente Kubstchek lhe enviou como presente de aniversário.

O dono da fabrica vendo que elas não iam embora, mandou dar. A empregada nos dava e dizia:

—Quem ganhar deve ir-se embora.

Eles alegam que não estão em condições de dar esmola porque a farinha de trigo subiu muito. Mas os mendigos já estão habituados a ganhar as bolachas todos os sabados.

Não ganhei bolacha e fui na feira, catar verduras. Encontrei com a dona Maria do José Bento e começamos a falar sobre o custo de vida.

15 DE JUNHO ...Fui comprar carne, pão e sabão. Parei na banca de jornaes. Li que uma senhora e três filho havia suicidado por encontrar dificuldade de viver. (...) A mulher que suicidou-se não tinha alma de favelado, que quando tem fome recorre ao lixo, cata verduras nas feiras, pedem esmola e assim vão vivendo. (...) Pobre mulher! Quem sabe se de há muito ela vem pensando em eliminar-se, porque as mães tem muito dó dos filhos. Mas é uma vergonha para uma nação. Uma pessoa matar-se porque passa fome. E a pior coisa para uma mãe é ouvir esta sinfonia:

—Mamãe eu quero pão! Mamãe, eu estou com fome!

Penso: será que ela procurou a Legião Brasileira ou Serviço Social? Ela devia ir nos palacios falar com os manda chuva.

...A noticia do jornal deixou-me nervosa. Passei o dia chingando os politicos, porque eu também quando não tenho nada para dar aos meus filhos fico quase louca.

...Aqui na favela tem um quadro de foot-bol — O Rubro Negro. As camisas são pretas e vermelhas. O fundador é o Almir Castilho. O quadro não é conhecido pelo publico, mas já é conhecido pela policia. A dois anos atrás, o quadro foi jogar na Penha e brigaram com o quadro adversário e a briga transformou-se em conflito. Com a intervenção da policia os briguentos

renderam-se. E havia um morto e vários feridos. Não houve prisões. Mas abriram inquérito. Cada um teve que pagar dois mil cruzeiros ao advogado.

...Hoje teve uma briga. Na rua A residem 10 baianos num barracão de 3

por dois e meio. Cinco são irmãos. E as outras cinco são irmãs. São robustos, mal incarados. Homens que havia de ter valor para o Lampeão. Os dez são pernambucanos. E brigaram os dez com um paraibano. (...) Quando os pernambucanos avançaram no paraibano as mulheres abraçaram o paraibano e levaram para dentro do barracão e fecharam a porta. Os pernambucanos ficaram falando que matavam e repicavam o paraibano. Queriam invadir o barracão. Estavam furiosos igual os cães quando alguém lhes retira a cadela.

...Ela teve seis filhos: 3 do Manolo, e três de outros. Ela teve um menino que podia estar com 4 anos. Mas um dia eles embriagaram, e brigaram e lutaram dentro de casa. A luta foi tremenda. O barraco oscilava. E as panelas caiam fazendo ruidos. Na confusão, o menino caiu no assoalho e pisaram-lhe em cima.

Passado uns dias perceberam que o menino estava todo quebrado. Levaram para o Hospital das Clinicas. Engessaram o menino. Mas os ossos não ligaram. O

menino morreu.

Agora ela está com duas meninas. Uma de dois anos, e outra recém-nascida. O seu companheiro atual bebe e brigam. E as vezes rolam no assoalho.

Quando eu vejo estas cenas fico pensando no menino que morreu.

...Tinha um soldado que aparecia por aqui. Ele procurava agradar-me. E

eu, fugia dele. Caí na asneira de dizer para a Leila que achava o soldado muito bonito, mas não queria nada com ele porque ele bebe pinga. E um dia ele veio falar comigo, cheirando pinga. Uma noite apareceu e perguntou-me:

—Então, Dona Carolina, a senhora anda dizendo que eu bebo pinga?

Recordei imediatamente da Leila, porque eu tinha dito só pra ela.

Respondi:

Eu acho o senhor bonito, mas tenho medo do senhor beber pinga.

...Percebi que o soldado não apreciou minhas observações.

—O senhor sabe que o soldado alemão não pode beber?

O soldado olhou-me e disse:

—Graças a Deus, sou brasileiro!

16 DE JUNHO ...O José Carlos está melhor. Dei-lhe uma lavagem de alho e uma chá de ortelã. Eu zombei do remedio da mulher, mas fui obrigada a dar-lhe porque atualmente a gente se arranja como pode. Devido ao custo de vida, temos que voltar ao primitivismo. Lavar nas tinas, cosinhar com lenha.

...Eu escrevia peças e apresentava aos diretores de circos. Eles respondia-me:

—É pena você ser preta.

Esquecendo eles que eu adoro a minha pele negra, e o meu cabelo rústico. Eu até acho o cabelo de negro mais iducado do que o cabelo de branco.

Porque o cabelo de preto onde põe, fica. É obediente. E o cabelo de branco, é só dar um movimento na cabeça ele já sai do lugar. E indisciplinado. Se é que existe reincarnações, eu quero voltar sempre preta.

...Um dia, um branco disse-me:

—Se os pretos tivessem chegado ao mundo depois dos brancos, aí os brancos podiam protestar com razão. Mas, nem o branco nem o preto conhece a sua origem.

O branco é que diz que é superior. Mas que superioridade apresenta o branco? Se o negro bebe pinga, o branco bebe. A enfermidade que atinge o preto, atinge o branco. Se o branco sente fome, o negro também. A natureza não seleciona ninguém.

17 DE JUNHO Passei a noite assim: eu despertava e escrevia. Depois eu adormecia novamente. As 5 da manhã a Vera começou vomitar. Eu dei-lhe um calmante, ela dormiu. Quando a chuva passou eu aproveitei para sair. Catei um saco de papel. (...) Eu recebi só 12 cruzeiros. Catei uns tomates e um pouco de alho e vim para casa correndo porque a Vera está doente. Cheguei ela estava dormindo. Com os meus ruidos ela despertou-se. Disse estar com fome. Fui comprar leite e fiz um mingau para ela. Ela tomou e vomitou um verme. Depois levantou-se e andou um pouco e deitou-se outra vez.

...Eu fui no Seu Manuel vender uns ferros para arranjar dinheiro. Estou nervosa com medo da Vera piorar, porque o dinheiro que eu tenho não dá para pagar medico. (...) Hoje eu estou rezando e pedindo a Deus para a Vera melhorar.

18 DE JUNHO Hoje amanheceu chovendo. A Vera, ontem pois dois vermes pela boca. Está com febre. Hoje não vai ter aulas, em

homenagem ao Principe do Japão[18].

19 DE JUNHO ...A Vera ainda está doente. Ela disse-me que foi a lavagem de alho que eu dei-lhe que lhe fez mal. Mas aqui na favela varias crianças está atacadas com vermes.

O José Carlos não quer ir na escola porque está fazendo frio e ele não tem sapato. Mas hoje é dia de exame, ele foi. Eu fiquei com medo, porque o frio está congelando. Mas o que hei de fazer?

Eu saí e fui catar papel. Fui na Dona Julita, ela estava na feira. Passei na sapataria para pegar o papel. O saco estava pesado. Eu devia carregar o papel em duas viagem. Mas carreguei de uma vez porque queria chegar em casa, porque a Vera estava doente e sosinha.

20 DE JUNHO ...Dei leite para a Vera. O que eu sei é que o leite está sendo despesas extras e está prejudicando a minha minguada bolsa. Deitei a Vera e saí. Eu estava tão nervosa! Acho que se eu estivesse num campo de batalha, não ia sobrar ninguém com vida. Eu pensava nas roupas por lavar. Na Vera. E se a doença fosse piorar? Eu não posso contar com o pai dela. Ele não conhece a Vera. E nem a Vera conhece ele.

Tudo na minha vida é fantástico. Pai não conhece filho, filho não conhece pai.

...Não tinha papéis nas ruas. E eu queria comprar um par de sapatos para a Vera. (...) Segui catando papel. Ganhei 41 cruzeiros. Fiquei pensando na Vera, que ia bradar e chorar, porque ela quando não tem o que calçar fica lamentando que não gosta de ser pobre. Penso: se a miséria revolta até as crianças...

21 DE JUNHO ...Vesti o José Carlos para ir na escola, Quando eu estava na rua, comecei ficar nervosa. Todos os dias é a mesma luta. Andar igual um judeu errante atraz de dinheiro, e o dinheiro que se ganha não dá pra nada.

Passei no Frigorífico, ganhei uns ossos. Quando eu saí a Vera recomendou-me para trazer os sapatos. Deixei o João brincando com ela, porque hoje não tem aula para o segundo ano. Percorri varias ruas e não havia papel. Quando ganhei 30 cruzeiros, pensei: já dá para pagar os sapatos da Vera. Mas era sabado e precisava arranjar dinheiro para o domingo. E Vera já estava idealizando o cardapio de domingo. Na Avenida Tiradentes eu ganhei uma folhas de flandres e fui vender no deposito do Senhor Salvador Zanutti, na rua Voluntários da Patria.

Eu estava de mal com ele. Mas ele não me fez mal nenhum. Até emprestou-me dinheiro quando eu fiquei doente. Quando eu fiquei doente eu andava até querendo suicidar por falta de recursos.

...O senhor Salvador perguntou-me porque foi que eu sumi de lá. Eu fiquei envergonhada com a sua acolhida tão gentil (...) Ele deu-me 31 cruzeiros.

Fiquei alegre. Saí correndo. Ia comprar os sapatos para a Vera. lembrei que havia deixado a sacola no deposito. Mas o transito estava impedido. Consegui atravessar para pegar a sacola. Ele disse-me:

—Você saiu correndo e esqueceu a sacola.

Catei mais um pouco de papel e recebi 10 cruzeiros. Fiquei com 71

cruzeiros. Dei 30 para os sapatos, fiquei com 41. E não ia dar para comprar café, pão, açúcar e arroz e gordura. Pensei nos ossos. Eu ia fazer uma sopa. Tem um pouco de arroz, um pouco de macarrão. Eu misturo tudo e faço uma sopa. E a Vera se quizer comer come, se não quizer que se aperte. A epoca atual não é de ter preferencia e nem nojo. Cheguei em casa para ver a Vera. Ela estava brincando. Pensei: Ela já está melhor.

Ela estava coçando-se e com a pele toda irritada. Acho que foi o chá de alho que lhe dei. Jurei nunca mais dar-lhe remedios indicados por lavadeiras de hospitais. Mostrei-lhe os sapatos, ela ficou alegre. Ela sorriu e disse-me: que está contente comigo e não vai comprar uma mãe branca. Que não sou mentirosa.

Que falei que ia comprar os sapatos, e comprei. Que eu tenho palavra.

...Eu estava tão cançada. Eu queria sair para arranjar mais dinheiro. Mas a canceira dominou-me. Ouvi as crianças gritar que estão dando cartões. Corri como flexa. A canceira sumiu. Encontrei o João que já vinha com um cartão acenando na mão. Todos estavam sorrindo como se tivesse ganhado um prêmio.

Li o cartão. Era para ir buscar um prêmio e uma surpresa para seu filho na rua Javaés 171.

22 DE JUNHO Deixei o leito as 5 horas, preparando as crianças para ir na festa na rua Javaés (...) Dei comida para a Vera. O João não quiz a minha comida. Disse:

—Eu vou comer lá na festa. A comida de lá deve ser melhor do que a da senhora.

Ele não gosta de festa. Mas se ele sabe que vai ter comida é o primeiro a insistir e faz questão de levar a sacola. (...) Passei na Dona Julita para dizer-lhe que nós iamos numa festa. Pensei: deve ser banquete porque São Luiz Rei de França quando convidava o povo para comer preparava um banquete. Tomei o bonde. O dinheiro não dava. Cheguei lá as 2 horas. A fila estava enorme. Podia ter umas 3 mil pessoas. Quando eles vieram nos convidar os favelados ficaram contentes. Os que não ganhou cartão ficou chorando e dizendo que não tinha sorte. Percebi que povo da favela gosta de ganhar esmolas. Puzeram umas tabuas na calçada e forraram com jornaes e puzeram os pães em cima. Ouvi uma mulher dizer:

—Não é ruim ser pobre.

Todos usava roupas humildes. Alguns calçados outros descalços.

Apareceu um preto alto e gordo como se fosse decendente de elefante. Falava para todos ouvir.

—Eu não sou deputado. Sou simplesmente amigo do povo humilde.

Comecei a escrever o que observava daquela agromeração. O senhor Zuza viu-me escrevendo. Porque eu sou alta e estava toda de vermelho. Fui falar-lhe. Perguntei-lhe:

—Quem é o senhor?

—Ô gente! Eu sou o Zuza! A senhora nunca ouviu falar no Zuza? Pois o Zuza sou eu!

—Com que finalidade o senhor faz esta festa?

—Faço esta festa para o povo.

—Eu vou por o senhor no jornal.

—Você pode me por onde você quizer...

Não simpatizei com o tal Zuza. Falta qualquer coisa naquele homem,

para ele ser um homem completo. Ele notando a impaciência do povo, dizia:

—Espera! Vocês estão mortos de fome?

Vi mulher gravida desmaiar. O Zuza deu uns pães para as mulheres, e mandou elas erguer os pães para o ar, para ser fotografadas. Os

carros e os ônibus da CMTC[19] encontrava dificuldades para percorrer a rua devido as crianças que atravessavam a rua de um lado para outro. A qualquer instante eu esperava um atropelamento. Alguns reclamava:

—Se eu soubesse que era só pão, eu não vinha.

O senhor Zuza mandou dois violeiros tocar e apareceu um palhaço. Que festa sem graça.

Era domingo e o povo ficou expantado quando viu os indigentes superlotar o ônibus Bom Retiro. Tivemos sorte. Fomos com um cobrador que aceitava a quantia que nós davamos. Uns dava 1 cruzeiro, outros dava só um passe. Tinha uma mulher com crianças que vieram de Santos e ganhou só um pão e um saquinho de bala e uma regua escolar que estava escrito Lembrança do Deputado Paulo Teixeira de Camargo.

Tinha mulher que gastou vinte cruzeiros nas conduções. E não ganharam nada. Onde estava a fila estava frio por estar na sombra. Eu saí da fila e passei para o outro lado. Devido eu ter bajulado inconcientemente o senhor Zuza, ele deu-me vários pães. Contei até seis. Depois parei e pedi a Deus para ele não dar-me mais pães. Ouvi varias mulheres lhe rogando praga. Tivemos sorte ao voltar.

Era o mesmo condutor. Eu estava com cinco crianças, e eu, seis. Porisso eu fui obrigada a suplicar ao condutor que deixasse nós voltar por três cruzeiros. Era o unico dinheiro que eu tinha. A Vera ficou com os pés inchados de tanto andar.

Quando eu cheguei na favela vi as mulheres rogando praga no Zuza. As mulheres que estavam com crianças não ganharam pão, porque não ia entrar no meio do povo que dizia:

—Vamos pegar alguns pães para não perder a viagem.

Encontrei o senhor Alexandre brigando com o Vicente por causa de um metro que emprestou-lhe.

Era 6 horas quando apareceu um carro. Era um senhor que havia casado e veio nos dar os sanduíches que sobrou. Eu ganhei alguns. Depois os favelados invadiram o carro. Os moços foram embora e disse que iam jogar os sanduíches

no lixo que gente de favela são estúpidos e quadrúpedes que estão precisando de ferraduras.

23 DE JUNHO ...Passei no açougue para comprar meio quilo de carne para bife. Os preços era 24 e 28. Fiquei nervosa com a diferença dos preços. O

açougueiro explicou-me que o filé é mais caro. Pensei na desventura da vaca, a escrava do homem. Que passa a existência no mato, se alimenta com vegetais, gosta de sal mas o homem não dá porque custa caro. Depois de morta é dividida.

Tabelada e selecionada. E morre quando o homem quer. Em vida dá dinheiro ao homem. E morta enriquece o homem. Enfim, o mundo é como o branco quer. Eu não sou branca, não tenho nada com estas desorganizações.

...Quando cheguei na favela os meninos estavam brincando. Perguntei-lhes se alguém havia brigado com eles. Responderam-me que só a baiana. Uma vizinha que tem 3 filhos. E que a Leila brigou com o Arnaldo e queria jogar a sua filha recem-nascida dentro do rio Tietê. E foram brigando até a rua do Porto.

E a Leila jogou a criança no chão. A criança tem dois meses. (...) As mulheres queriam ir chamar a policia para levar a menina no Juizado. Eu estava cançada, deitei. Não tive coragem nem de trocar roupa.

24 DE JUNHO Quando eu cheguei na favela encontrei com a Vera que estava na rua. Ela já sabe contar tudo que presencia. Disse-me que a policia tinha vindo avisar que a mãe do Paredão tinha morrido.

Ela era muito boa. Só que bebia muito.

...Eu estava fazendo o almoço quando a Vera veio dizer-me que havia briga na favela. Fui ver. Era a Maria Mathias que estava dando seu espetáculo histérico. Espetáculo da idade critica. Só as mulheres e os médicos é quem vai entender o que eu disse.

...Os favelados todos os anos fazem fogueiras. Mas em vez de arranjar lenha rouba uns aos outros. Entram nos quintaes e carregam as madeiras de outros favelados. (...) Eu tinha um caibro, eles levaram para queimar. Não sei porque é que os favelados são tão nocivos. Alem deles não ter qualidades ainda surgem os maus elementos que mesclam-se com eles. Quem vem perturbar é o Chico, o Bom-Bril e o Valdemar. O Valdemar levanta de manhã e vem para a favela.

Porque este homem não vai trabalhar? Ele não gosta de mim. (...) Eu gostava imensamente da mãe dele. Mas a Dona Aparecida disse-me que foi nos os favelados quem deturpamos o seu filho. Mas os homens da favela alguns vão trabalhar. Os outros quando não trabalham ficam na favela. Ninguém chama o Valdemar aqui. E que ele já nasceu com o espirito inferior. (...) Se a gente pudesse escrever sempre elogiando! Se eu escrever que o Valdemar é bom elemento quando alguém lhe conhecer não vai comprovar o que eu escrevi.

...Eu sentei ao redor da fogueira. O Joaquim e sua esposa Pitita brigaram.

Pobre Joaquim. Demonstrou tolerância para não desfazer o lar.

25 DE JUNHO Fiz o café e vesti eles para ir na escola. Puis feijão no fogo. Vesti a Vera e saimos. O João estava brincando. Quando me viu correu. E o José Carlos assustou-se quando ouviu a minha voz. Vi uma pirua do Governo do Estado. Serviço de Saude que vinha recolher as fezes. O jornal disse que há 160

casos positivos aqui na favela. Será que eles vão dar remedios? A maioria dos favelados não há de poder comprar. Eu não fiz o exame. Fui catar papel. (...) Ganhei só 25 cruzeiros. É que agora tem um homem que cata na minha zona.

Mas eu não brigo porisso. Porque daqui uns dias ele desiste. O homem já está dizendo que o que ele ganha não dá nem para a pinga. Que é melhor pedir esmola.

...Passei na fábrica (...) e catei uns tomates. O gerente quando vê repreende. Mas quem é pobre deve fingir que não ouve. Quando cheguei na favela fiz uma salada para os meninos.

Ouvi as crianças dizendo que estavam brigando. Fui ver. Era a Nair e a Meiry. A Nair é branca. A Meiry é preta. Já faz tempo que a Meiry anda prometendo que vai bater na Nair. A Meiry é temida porque anda com gilete. E

ela foi bater na Nair e apanhou A Nair rasgou-lhe as roupas, deixando-lhe nua.

Que gargalhada sonora! Que espetáculo apreciadissimo para o favelado que aprecia profundamente tudo que é pornográfico. As crianças sorri e batem palmas como se estivessem aplaudindo. Depois as crianças se dividem em grupos e ficam comentando:

—Eu vi.

—Eu não vi.

—Eu queria ver.

Atualmente as crianças não mais emocionam quando vê uma mulher nua.

Já estão habituadas. As crianças acham que nas mulheres os corpos são iguais. A diferença é a cor. Os meus filhos vem perguntar-me porque é que o corpo da mulher tem isto ou aquilo. Eu finjo que não compreendo estas perguntas incomodas. Eles dizem:

—A mamãe é boba. Ela não compreende nada.

26 DE JUNHO ...Ouvi uns buatos que os fiscaes vieram requerer que os favelados desocupem o terreno do Estado onde eles fizeram barracões sem ordem. Varias pessoas que tinham barracões aqui na favela transferiram para o terreno do Estado, porque lá quando chove não há lama. Eles disseram que vão construir parque infantil. O que eu acho esquisito é que o terreno tiniu alvenaria.

E foi desapropriado. E agora o Zé Povinho está construindo barraco.

27 DE JUNHO Hoje a Leila está embriagada. E eu fico pensando como é que uma mulher que tem duas filhas em idade tenra pode embriagar-se até ficar inconciente. Dois homens vieram nos braços. E se ela rolar na cama e esmagar a recem nascida?

...O que eu acho interessante é quando alguém entra num bar ou emporio logo aparece um que oferece pinga. Porque não oferece um quilo de arroz, feijão, doce etc.?

...Tem pessoas aqui na favela que diz que eu quero ser muita coisa porque não bebo pinga. Eu sou sozinha. Tenho três filhos. Se eu viciar no álcool os meus filhos não irá respeitar-me. Escrevendo isto estou cometendo uma tolice. Eu não tenho que dar satisfações a ninguém. Para concluir, eu não bebo porque não gosto, e acabou-se. Eu prefiro empregar o meu dinheiro em livros do que no álcool. Se você achar que eu estou agindo acertadamente, peço-te para dizer:

—Muito bem, Carolina!

28 DE JUNHO ...Hoje a noite vai ter uma corrida aqui na favela. A corrida é promovida pelo Rubro Negro. Tipo corrida São Silvestre. Compraram pinga para fazer quentão. Quentão para os adultos e batata doce para as crianças.

Fizeram uma fogueira. Puzeram 4 luzes na praça. Estou aguardando a corrida

para ver quem vai vencer. Para o primeiro colocado o prêmio é uma medalha, e uma garrafa de vinho e doce para o segundo. E para o ultimo ovos podres e uma vela. O trajeto é da favela até a igreja do Pari. O unico que está alcoolisado é o Valdemar. Há decencia na favela.

...Na favela tem muitas crianças. As crianças são sempre em maior numero. Um casal tem 8 filhos, outro tem 6 e daí por diante.

...O senhor Alfredo fez um baile. Está tocando vitrola. Dança só os nortistas porque os paulistas aborreceram de ouvir e dançar Pisa na fulô. Aproveitei enquanto o povo dança para pegar agua. Arrumei a cozinha e fui para a fogueira.

Quando faltava 10 para as nove iniciaram a corrida. Enquanto eu aguardava o retorno dos corredores fiquei passeando. A Dona Ida Cardoso fez fogueira. Eu disse que no centro da cidade não fazem fogueiras. Uma senhora respondeu-me que na cidade a fogueira é de outra forma. Retorna os corredores.

O primeiro colocado é o Joaquim. Quando foi para premiar o terceiro colocado, o Armim, que era o juiz, encontrou dificuldades porque havia dois homens que dizia ter chegado em primeiro lugar. E as mulheres entraram como juiz. E

exaltaram tanto que o Armim acabou premiando os designados pelas mulheres atrabiliarias que predominam. Serviram quentão e vinho. Eu bebi duas xicaras.

Fiquei alegre. Dancei com o senhor Binidito. E com o Armim. Quando eu percebi que o álcool estava desviando o meu senso eu fui deitar. Antes de deitar dei uma surra no João, porque ele está muito malcriado.

Esqueci de citar que quando eu estava esquentando fogo as mulheres começaram a falar que haviam visto o retrato do Zuza no jornal. E estavam alegres. Percebi que o senhor Zuza com a festa que fez para o povo em vez de atrair amigos atraiu inimigos. Eis o que estava escrito no jornal do dia 26 de junho de 1958:

"ZUZA, PAI DE SANTO, EM CANA

‘Zuza’ está em cana desde ontem, pois ele, que se chama na realidade José Onofre, e tem uma aparência realmente imponente, mantinha para lucros extraordinários uma tenda de Umbanda no Bom Retiro, a Tenda Pae Miguel Xangô. É também diretor de uma industria de cadeiras suspeita de irregularidades na Delegacia de Costumes. “Zuza” (foto), foi autuado em flagrante."'

Eu disse ao Zuza que ele ia sair no jornal. Eu ouvi um senhor dizendo

que o Zuza era malandro. Mas foi as pragas das mães que gastaram dinheiro e não ganharam nada que pegou igual o visgo.

29 DE JUNHO ...Na igreja eu ganhei dois quilos de macarrão, balas e biscoitos. Comprei 3 sanduiches para os meninos. Quando eu retornava para a favela encontrei com o senhor Aldo. Quando cheguei na favela estavam organizando uma corrida só para mulheres. Na rua “A” tem um baile. Depois que a favela superlotou-se de nortistas tem mais intriga. Mais polemica e mais distrações. A favela ficou quente igual a pimenta. Fiquei na rua até nove horas para prestar atenção nos movimentos da favela. Para ver como é que o povo age a noite. Eu já ia retirando quando surgiu a Florenciana e o Binidito. A Florenciana, a morta de fome. Vinha reclamando que a sua filha Vilma não havia ganhado nada. E havia participado da corrida, precisava uma medalha. Quem chegou em primeiro lugar foi a Iracema. A Florenciana é preta. Mas é tão diferente dos pretos por ser muito ambiciosa. Tudo que ela faz é visando lucro.

Creio que se ela fosse dona de matadouro havia de comer os chifres e os cascos dos bois.

...Que descontentamento na corrida das mulheres. Todas queriam ser classificadas. Eu fico só olhando. Não interfiro-me porque eu não gosto de polemica. (...) A dona Rosa que aluga barracões aqui na favela é arranca couro.

Veio dizer o senhor Francisco para arranjar-lhe quatro mil cruzeiros, que ela está com as lições dos terrenos.

—E esse dinheiro que já dei não pode ser íncluido na venda do barraco?

—Não. Não pode. Esse dinheiro fica para pagar o aluguel. Foi a resposta de dona Rosa ao senhor Francisco. Pobre senhor Francisco. Ele está doente na Caixa de Aposentadoria e paga 700,00 por mês de aluguel e 100,00 de luz.

Sustenta 4 pessoas. Eu vou deitar. Creio que já é 1 da manhã. Quando eu ia deitar ar ouvi uns rumores que na rua A, os baianos estavam brigando. Fui ver. É que o Sérgio havia feito um baile. E os nortistas havia feito outro. E

estavam dançando com a porta fechada. E a mulher do Chó foi dançar no baile dos nortistas. Mas ela dançava só com os bonitinhos. E um pernambucano convidou-lhe para dançar com ele. Ela não quiz dançar. Olhou o pernambucano minuciosamente e não quiz dançar com ele. O Pernambucano quando se viu preterido enfureceu-se. Arrancou a peixeira da cinta e investiu na mulher do Chó. A única coisa que eu vejo correr com rapidez são os ratos e coelhos. E os relâmpagos. Mas a mulher do Chó quando viu a peixeira na sua direção

suplantou o relampago. O povo arrebatou-lhe a peixeira. O pernambucano saiu correndo, fungando e bradando:

—Hoje eu mato, hoje corre sangue na favela.

Veio correndo para a Rua B e arrancou um pau da cerca do senhor Antonio Venancio e voltou para a Rua A. Chegou na casa do Chó e bradava:

—Sai pra fora! Sai pra fora, biscate vagabunda!

Deu-se uma confusão tremenda. Os nortistas falavam e eu não entendia nada. Se no Norte eles for assim, o Norte deve ser horroroso.

E naquela confusão a mulher do Chó desapareceu igual fumaça.

Outra coisa que observei hoje — noite de São Pedro. O que observei na favela e não está certo é isto: tem um soldado vulgo Taubaté. É o predileto de algumas mulheres aqui da favela. Ele passa as noites aqui. O soldado é turbulento. Que bom se o tenente retirasse este soldado da favela. Qualquer coisa para ele, é tiro. Já feriu dois da favela.

...Na rua B, na casa do extinto senhor Sebastião Gonçalves fizeram uma fogueira. Eu fiquei sem sono porque eu não posso beber álcool. E eu bebi quentão. Apareceu a R.P. 44. Eu segui os guardas. Como eu já expliquei, os nortistas falavam tanto que ninguém compreendia. (...) Os guardas foram-se. E

eu saí da Rua A e fui para a Rua B. Sentei perto da fogueira. Todos falavam. A conversa não me interessava, mas eu fiquei. Falavam

nas brigas. No jogo de foot-bol na Suissa[20]. E na pretenção do homem ir na lua. Uns dizia que o homem vai. Outros que não vai. E eu quando ouvi o vai não vai, já fiquei pensando numa briga, porque aqui na favela tudo inicia bem e termina com brigas.

Fiquei esperando a Purtuguesa de Desportos soltar os foguetes, porque se eu deitasse antes tinha que despertar com os foguetes. Uma senhora que esquentava fogo disse-me que a Angelina Preta bateu no seu filho Argemiro de oito anos e não quer que ele passe na Rua A para pegar agua.

30 DE JUNHO Fiz café e fui buscar agua. Ouvi um grito, fui ver o que era. Era a Odete brigando com o seu companheiro, Ela dizia:

—Dona Carolina, vai chamar a Policia!

Eu lhe aconselhava para ficar quieta:

—Odete, você está gravida!

Eles estavam atracados. Eu já estou na favela há 11 anos e tenho nojo de presenciar estas cenas. A Odete estava semi-nua com os seios a mostra.

Eles brigam sem saber porque é que estão brigando. As visinhas contou-me que a Odete jogou agua fervendo no rosto do seu companheiro.

...Hoje vários homens não foram trabalhar. Coisa de segundas-feiras.

Parece que eles já estão cançados de trabalhar.

1 DE JULHO .. .Eu percebo que se este Diário for publicado vai maguar muita gente. Tem pessoa que quando me vê passar saem da janela ou fecham as portas. Estes gestos não me ofendem. Eu até gosto porque não preciso parar para conversar. (...) Quando passei perto da fabrica vi vários tomates. Ia pegar quando vi o gerente. Não aproximei porque ele não gosta que pega. Quando descarregam os caminhões os tomates caem no solo e quando os caminhões saem esmaga-os.

Mas a humanidade é assim. Prefere vê estragar do que deixar seus semelhantes aproveitar. Quando ele afastou-se fui pegar uns tomates. Depois fui catar mais papéis. Encontrei o Sansão. O carteiro. Ele ainda não cortou os cabelos. Ele estava com os olhos vermelhos. Pensei: será que ele chorou? Ou vontade de fumar ou está com fome! Coisas tão comum aqui no Brasil. Fitei o seu uniforme descorado. O senhor Kubstchek que aprecia pompas devia dar outros uniformes para os carteiros. Ele olha-me com o meu saco de papel. Percebi que ele confia em mim. As pessoas sem apoio igual ao carteiro quando encontra alguém que condoi-se deles, reanimam o espirito.

Eu não gosto do Kubstchek. O homem que tem um nome esquisito que o povo sabe falar mas não sabe escrever.

...O baiano esposo de dona Zefa é meu vizinho e veio queixar-se que o José Carlos lhe aborrece. O que eu sei é que com tantos baianos na favela os favelados veteranos estão mudando-se. Eles querem ser superior pela força. Para ficar livre deles os favelados fazem um sacrifício e compram um terreno e zarpam-se. Eu disse-lhe:

—Teus filhos também aborrece-me. Abre as minhas gavetas e o que eles encontram carregam.

—Eu não sabia disso.

E nem ia saber porque eu não faço reclamações de crianças. Porque eu gosto das crianças.

...Aqui reside uma nortista que é costureira. Eu gostava muito dela. Lhe favorecia no que eu podia. Um dia o meu filho José Carlos estava brincando perto da casa dela e ela jogou-lhe agua. No outro dia veio um caminhão jogar abacaxi podre aqui na favela e eu perguntei a ela porque havia jogado agua no meu filho.

—Eu joguei fria. Mas se ele me aborrecer outra vez eu quero jogar é agua quente com soda para ele não enchergar mais e não aborrecer mais ninguém.

A minha simpatia pela dona Chiquinha arrefeceu. (...) No outro dia a dona Chiquinha veio perguntar se eu queria brigar com ela que ela ia buscar a peixeira. Não lhe dei confiança.

3 DE JULHO Eu estava escrevendo quando ouvi o meu visinho Antonio Nascimento repreendendo o meu filho José Carlos. Ele anda dizendo que vai bater no menino. Se fosse uma reprensão justa, mas a dele é impricancia. Onde é que já se viu um homem de 48 anos desafiar uma criança de 9 anos para brigar?

Mas o Antonio Nascimento nasceu com as idéias ao avesso.

...A filha da Dirce morreu. Era duas gemeas. Atualmente ela tem tido partos duplos. O ano passado morreu o casal de gemeos. O menino num dia, e a menina no outro. E agora fenece outra.

Quando morre alguém aqui na favela os malandros saem pelas ruas pidindo esmolas para sepultar os que falece. Embolsam o dinheiro e gastam na bebida.

Os favelados estão comentando o retorno dos jogadores.

4 DE JULHO ...Quando eu passava na rua Eduardo Chaves, uma senhora chamou-me e deu-me umas panelas de alumínio, papeis e um quilo de carne assada com batatas. Creio que ela deu-me a carne por causa da Vera, que disse-lhe que gostaria de levar o seu berço para o Mercado e morar lá. Porque lá tem muitas coisas boa para comer. Que ela gosta de carne e quer casar com o

açougueiro. Já percebi que minha filha é revoltada. Ela tem pavor de morar na favela.

...Um dia apareceu aqui na favela uma preta que disse chamar Vitoria.

Veio com um menino por nome Cezar. A preta disse-me que era empregada de Dona Mara, que dança na Boite Oásis na Rua 7 de Abril. Para eu emprestar-lhe um caderno de poesia e ir procurá-la na Avenida São João. A preta disse-me que estava estudando musica no Conservatorio Dramatico Musical. Quem indicou o meu barraco para a preta foi a Florenciana. Ela deu-me este endereço: Avenida São João 190, 82 andar apartamento 23. O que deixou-me preocupada foi o prédio ter 82 andar. Ainda não li que São Paulo tem prédio tão elevado assim.

Depois pensei: eu não saio do quarto de despejo, o que posso sabei o que se passa na sala de visita? Com a insistência da Florenciana, eu emprestei.

Quando fui na cidade procurar o numero 190 não encontrei. Fui na Boite Oásis procurar a Dona Mara para saber como é que eu poderia localisar sua empregada ordinaria. Informaram-me que Dona Mara frequenta a boite e que chegava a 1 da manhã. Deixei uma carta para a Dona Mara e não obtive resposta. Mas o dia eu encontrar esta tal Vitoria ela vai apanhar.

...Ensaboei as roupas. Depois fui acabar de lavar na lagoa. O Serviço de Saude do Estado disse que a agua da lagoa transmite as doenças caramujo.

Vieram nos revelar o que ignorávamos. Mas não soluciona a deficiência da agua.

...A Dona Alice está triste porque ela alugou o barracão da Dona Rosa. E

ela quer vender o barracão. Quer 4.000,00. E o seu esposo tem o dinheiro. E a Dona Rosa não lhe cumprimenta. (...) Eu nunca vi uma pessoa tão ambiciosa assim. Ainda se fosse só a ambição, mas a inveja é a sua sombra. Quando eu ganhei a minha saia vermelha ela ficou furiosa. Dizia:

—Só eu é que não ganho nada!

Agora ela faz outro barracão e alugou o outro que ela residia. É o que está residindo o senhor Francisco.

Quando os meus filhos eram menores eu deixava eles fechado e saía para catar papel. Um dia eu cheguei e encontrei o João chorando. Ele disse-me:

— Sabe mamãe, a Dona Rosa me jogou bosta no rosto.

Eu acendi o fogo, esquentei agua e lavei as crianças. Fiquei horrorisada com a maldade da Dona Rosa. (...) Ela sabe que aqui na favela não pode alugar

barracão. Mas ela aluga. E a pior senhoria que eu já vi na vida. Porque será que o pobre não tem dó do outro pobre?

5 DE JULHO ...O Frei Luiz hoje nos visitou com o seu carro capela.

Nos disse que vai ensinar o catecismo as crianças para fazer a primeira comunhão. E aos sabados vem nos ensinar a conhecer os trechos biblicos.

6 DE JULHO Despertei as 4 horas e meia com a tosse da Neide. Percebi que aquela tosse não ia deixar-me dormir. Levantei e dei-lhe um pouco de xarope porque fiquei com dó. Ela é orfã de pai. Quando o pai estava doente a mãe deixou-as. São treis filhas. (...) A mãe da Neide é uma desalmada. Não prestou para tratar do esposo enfermo e nem para criar as filhas que ficaram aos cuidados dos avós.

...Esquentei o arroz e os peixes e dei para os filhos. Depois fui catar lenha. Parece que eu vim ao mundo predestinada a catar. Só não cato a felicidade.

...Estendi as roupas para quarar. Ao meu lado estava a mulher do nortista que dormia com a mulher do Chó. Estava nervosa e falava tanto. Parece que tem a lingua eletrica. Parecia o Carlos Lacerda quando falava do Getulio. Dizia que era ela quem lavava as roupas da mulher do Chó. E o seu esposo é quem lhe dava dinheiro para ela lhe pagar.

...É 5 e meia. O frei Luiz está chegando para passar o cinema aqui na favela. Já puzeram a tela e os favelados estão presentes

As pessoas de alvenaria que residem perto da favela diz que não sabe como é que as pessoas de cultura dá atenção ao povo da favela

As crianças da favela bradaram quando iniciaram o cinema, representando trechos da Biblia. O nascimento de Cristo. Chegou o carro capela com o Frei Luiz. Um vigário que é util aos favelados. (...) Quando passava uma tela o Frei explicava. Quando passou os Reis Magos o Frei explicou que a denominação Magos é porque eles liam a sorte das pessoas nas estrelas. E se alguém sabia o nome dos Reis Magos. Que um é muito conhecido e chamava Baltazar.

—E o outro Pelé[21] — respondeu um moleque.

Todos riram. Chegou o caminhão com os jogadores na hora que o padre estava rezando. Resolvi tomar parte no coro. Os meus filhos chegaram do cinema e eu fui dar o jantar para eles. A Vera estava contente e contava as travessuras de José Carlos. O João perdeu os 11 cruzeiros que eu dei-lhe para ir no Rialto. Ele levava o dinheiro na carteira e foi com os meninos da favela. E

Continuar: parte 4 de 7