Quarto de despejo: diário de uma favelada
Quarto de despejo - Diário de um Favelada
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.
alguns deles ja sabem bater carteira.
7 DE JULHO ...Fui na dona Juana, ela deu-me pães. Passei na fabrica para ver se tinha tomates. Havia muitas lenhas. Eu ia pegar uns pedaços quando ouvi um preto dizer para eu não mecher nas lenhas que ele ia bater-me. Eu disse para bater que eu não tenho medo. Ele estava pondo as lenhas dentro do caminhão. Olhou-me com desprezo e disse:
— Maloqueira!
— Por eu ser de maloca é que você não deve mecher comigo. Eu estou habituada a tudo. A roubar, brigar e beber. Eu passo 15 dias em casa e quinze dias na prisão. Já fui sentenciada em Santos. Ele fez menção de agredir-me e eu disse-lhe:
—Eu sou da favela do Canindé. Sei cortar de gilete e navalha e estou aprendendo a manejar a peixeira. Um nordestino está dando aulas. Se vai me bater pode vir.
Comecei apalpar os bolsos.
—Onde será que está minha navalha? Hoje o senhor fica só com uma orelha. Quando eu bebo umas pingas fico meio louca. Na favela é assim, tudo que aparece por lá nós batemos e roubamos o dinheiro e tudo que tiver no bolso.
—O preto ficou quieto. Eu vim embora. Quando alguém nos insulta é só falar que é da favela e pronto. Nos deixa em paz. Percebi que nós da favela somos temido. Eu desafiei o preto porque eu sabia que ele não ia vir. Eu não gosto de briga.
...Quando eu voltava encontrei com o Nelson da Vila Guilherme. Disse algo que eu não gostei. Fingi que não compreendia o que ele dizia.
—Mas você é tão inteligente e não compreende porque é que eu ando atrás de você?
Quando eu cheguei na favela os meus filhos não estavam. Gritei. Não
apareceu ninguém. Fui no senhor Eduardo e comprei meio litro de óleo e 16.00
de linguiça. Encontrei o dinheiro que o João recebeu quando vendeu os ferros.
46 com 20, 66. Quando eu voltava fiquei olhando os homens da favela. A maioria não trabalha as segundas-feiras. (...) Fui no senhor Manuel vender os ferros que eu achei pelas ruas e ver se via os meus filhos. Quando eu ia chegando no senhor Manoel vi o João que retornava. Disse-me que catou umas latas e ganhou 4,00. Perguntei-lhe pela Vera. Disse-me que deixou em casa. E
que ela estava com o José Carlos.
Quando eu retornava ouvi a voz da Vera. Ela dizia:
—José Carlos, olha a mamãe!
Veio correndo na minha direção. Disse que ela e José Carlos tinham ido pedir esmolas. Ele estava com o saco nas costas. Eu vinha na frente e dizia que ele devia era fazer lições. Eu precisava ir na cidade.
Enquanto eu vestia ouvia a voz do Durvalino que discutia com um bêbado desconhecido por aqui. Começou surgir as mulheres. Elas não perdem estas funções. Passam horas e horas contemplando. Não lembram de nada, se deixou panela no fogo. A briga para elas é tão importante como as touradas de Madri para os espanhóis. Vi o Durvalino agredindo o bêbado e tentando enforca-lo. O bêbado não tinha forças para reagir. O Armim e outros retirou as mãos do Durvalino do pescoço do bêbado e levaram ele para o outro lado do rio. E o Durvalino ficou comentando o seu feito.
...Fui trocar o meu titulo de eleitor. Quando cheguei na rua Seminário fui tirar fotografia no Foto Lara. 60,00. Enquanto eu esperava as fotografias eu conversava com as pessoas presentes. Todas agradaveis. Recebi as fotografias e fui para a fila. Conversei com uma senhora que o seu esposo é funcionário da Prefeitura. E quis saber em quem eu ia votar. Disse-lhe que vou votar no Dr.
Adhemar. (...) Deixei o tribunal e tomei o bonde. Quando desci no ponto final fui no açougue comprar carne moida. Passei na
COAP[22] e comprei meio quilo de arroz. Perguntei a jornaleira se ela tem titulo de eleitor. Eu pensava nos filhos que devia estar com fome. (...) A Vera começou pedir comida. Esquentei e dei-lhe. O João jantou e o José Carlos também. Contou-me que o cunhado da Dona Aparecida havia chegado na assistência. Que foi atropelado. Que estava engessado.
Quando eu vou na cidade tenho a impressão que estou no paraizo. Acho sublime ver aquelas mulheres e crianças tão bem vestidas. Tão diferentes da
favela. As casas com seus vasos de flores e cores variadas. Aquelas paisagens há de encantar os olhos dos visitantes de São Paulo, que ignoram que a cidade mais afamada da America do Sul está enferma. Com as suas úlceras. As favelas.
8 DE JULHO Eu estava indisposta, deitei cedo. Despertei com a algazarra que fazia na rua. Não dava para compreender o que diziam porque todos falavam ao mesmo tempo e era muitas vozes reunidas. Vozes de todos os tipos. Eu queria levantar para pedir-lhe que deixasse o povo durmir. Mas percebi que ia perder tempo. Eles já estavam alcoolizados. A Leila deu o seu shou. E os seus gritos não deixou os visinhos dormir. As quatro horas comecei escrever.
Quando eu desperto custo adormecer. Fico pensando da vida atribulada e pensando nas palavras do Frei Luiz que nos diz para sermos humildes. Penso: se o Frei Luiz fosse casado e tivesse filhos e ganhasse salario minimo, ai eu queria ver se o Frei Luiz era humilde. Diz que Deus dá valor só aos que sofrem com resignação. Se o Frei visse os seus filhos comendo generos deteriorados, comidos pelos corvos e ratos, havia de revoltar-se, porque a revolta surge das agruras.
...Mandei o João comprar 10,00 de queijo. Ele encontrou-se com o Adalberto e disse-lhe para ele vir falar comigo. E que eu ganhei umas tabuas e vou fazer um quartinho para eu escrever e guardar os meus livros. Eu sai e fui catar papel. Pouco papel nas ruas, porque outro coitado também está catando papel. Ele vende o papel e compra pinga e bebe. Depois senta e chora em silencio. Eu estava com tanto sono que não podia andar. A Dona Anita deu me doces e ganhei só 23,00. Quando cheguei na favela o João estava lendo gibi.
Esquentei a comida e dei-lhes. O barulho noturno que ouvi: as mulheres estavam comentando que os homens beberam 14 litros de pinga. E a Leila insultou um jovem e ele espancou-a. Lhe jogou no solo e deu um ponta-pé no rosto. O ato é selvagem. Mas a Leila quando bebe irrita as pessoas. Ela já apanhou até do Chiclé um preto bom que reside aqui na favela. Ele não queria espancá-la. Mas ela desclassificou-lhe demais. Ele deu-lhe tanto que até arrancou-lhe dois dentes.
E por isso o apelido dele aqui na favela é Dentista. A Leila ficou com o rosto tão inchado que foi preciso tomar pinicilina. (...) Hoje é dia das choronas. Aqui reside uma nortista que quando bebe torra a paciencia. O filho da nortista arranjou uma namorada. Uma mulher que pode ser a sua avó. A futura esposa veio residir com a sua mãe. Quando a velha bebe fica aborrecendo e discutem. E
a velha não lhes dava socego. Ele fugiu com a mulher. E a velha está chorando.
Quer o retorno do filho.
...E cinco horas. José Carlos chegou. Vou troca-lo para ir na Casa Gouveia comprar um par de sapatos para ele. Na Casa Gouveia ele escolheu o sapato. 159,00. O senhor Gouveia deixou por 150,00. Ele está contente. E olha as pessoas que passam para ver estão notando seus sapatos novos.
Quando eu cheguei na favela encontrei com o senhor Francisco. Ele emprestou-me a carrocinha e eu fui buscar as tabuas. Levei a Vera dentro da carrocinha. O José Carlos e o Ninho. Para ir foi facil. A carrocinha deslisava no asfalto como se fosse automatica. Coloquei as madeiras de vários modos. Ora ficava dianteira ora trazeira. Percebi que precisava trazer em duas vezes. O que é preciso fazer eu faço sem achar que é sacrifício. Na rua Araguaia com a rua Canindé tem muita lama e eu encontrei dificuldade porque eu estava descalça e os meus pés deslizava na lama. Não havia possibilidade de firmar os pés. Eu escorregava. Apareceu um senhor e empurrou a carrocinha para mim. Disse-me para eu ageitar as tabuas. Agradeci e segui. No ponto do bonde as tábuas escorregaram da carrocinha. E o José Carlos vendo a minha luta disse-me:
—Porque é que a senhora não casou-se? Agora a senhora tinha um homem para ajudar.
...Dei graças a Deus quando cheguei na favela. Uma senhora estava esperando-me. Disse-me que o João havia machucado a sua filha. Ela disse-me que o meu filho tentou violentar a sua filha de 2 anos e que ela ia dar parte no Juiz. Se ele fez isto quem há de interná-lo sou eu. Chorei.
...Deitei o José Carlos e saí com o João. Fui no Juizado para saber se havia possibilidade de interná-lo. Preciso retira-lo da rua porque agora tudo que aparecer de mal vão dizer que foi ele. (...) No Juizado o Dr. que estava de plantão disse para eu voltar dia 10 que o dia 9 era feriado. Saí do Juizado e fui tomar o bonde por ser mais barato. No ponto do bonde o João plantou-se na porta da pastelaria e eu sentei para descançar um pouco. Quando cheguei na favela era meia noite. Eu estava nervosa.
9 DE JULHO Tive sonhos agitados. Eu estava tão nervosa que se eu tivesse azas eu voaria para o deserto ou para o sertão. Tem hora que eu revolto comigo por ter iludido com os homens e arranjado estes filhos.
...Quando eu estava preparando-me para sair a Dona Alice veio dizer que dois meninos do Juiz estava vagando aqui na favela. Fui ver. Estavam com roupas amarelas. Descalços e sem camisa. Só com aquele blusão em cima da
pele. Eles estavam desorientados. Perguntei se queriam café. Responderam que não.
Eu entrei e fui preparar para sair para a rua. O José Carlos acompanhou os meninos. Depois veio perguntar-me se eu podia arranjar umas roupas para os meninos.
— Vá chamá-los!
Ele foi e voltou com os meninos. Um era mulato claro. Um rosto feio.
Um narigão. O outro era branco bonito. Contaram-me os horrores do Juizado.
Que passam fome, frio e que apanham initerruptamente. Perguntaram se eu podia arranjar-lhes umas camisas. Dei-lhes as camisas e as calças. Perguntei-lhes os nomes. O mulato é Antonio e o branco é Nelson. Perguntei-lhes se sabiam ler.
Responderam que sim. Dei-lhes café. Falaram que residem na Vila Maria e que tem mãe. Aconselharam meus filhos para ser bons para mim. Que os filhos estão melhor com as mães. Que a coisa melhor do mundo é a mãe. Eles pegaram as roupas que eu dei-lhes. A calça do Nelson tinha tantos remendos que podia pesar 3 quilos. Quando eles sairam olharam o numero do meu barracão e pediu-me para não internar o João que a comida é deficiente. Que eles era obrigado a lavar louça. Que se uma criança jogar fora o resto da comida do lixo, que eles obriga a criança catar e comer.
Os meus filhos ficaram horrorisados com a narração dos fugitivos.
Decidi não internar o João porque ele tem apetite. O que eu observei é que eles queriam livrar-se das roupas amarelas.
Os meninos perguntaram o meu nome e sairam sorrindo para mim.
Penso: porque será que os meninos que fogem do Juizado vem difamando a organisação? Percebi que no Juizado as crianças degrada a moral. Os Juizes não tem capacidade para formar o carater das crianças. O que é que lhes falta?
Interesse pelos infelizes ou verba do Estado?
...Em 1952 eu procurava ingressar na Vera Cruz e fui no Juizado falar com o Dr. Nascimento se havia possibilidade de internar os meus filhos. Ele disse-me que se os meus filhos fossem para o Abrigo que ia sair ladrões.
Fiquei horrorisada ouvindo um Juiz dizer isto.
...Quando existia a saudosa Rua Itaboca, eu digo saudosa porque vejo tantos homens lamentando a extinção da zona do meritricio. Quando eu ia lá e via as mulheres mais nogentas e perguntava:
—Onde vocês foram criadas?
—No Abrigo de Menores.
—Vocês sabem ler?
—Não! Porque? Você é padre?
Eu parava a interrogação. Elas não sabiam ler, nem cuidar de uma casa. A unica coisa que elas conhecem minuciosamente e pode lecionar e dar diplomas é pornografia.
Pobres orfãs do Juiz!
Fui catar papel. Estava indisposta. O povo da rua percebe quando eu estou triste. Ganhei 36,00. Voltei. Não conversei com ninguém. Estou sem ação com a vida. Começo achar a minha vida insipida e longa demais. Hoje o sol não saiu. O dia está triste igual a minha alma. Deixei o João fechado estudando.
Disse-lhe que o homem que erra está vacinado na opinião publica. O que eu observo é que os que vivem aqui na favela não podem esperar boa coisa deste ambiente. São os adultos que contribue para delinquir os menores. Temos os professores de escândalos: A Leila, a Meiry, a Zefa, a Pitita e a Deolinda.
...Quando eu cheguei na favela encontrei com um nortista que estava com uma peixeira procurando o meu filho. Quando me viu não disse nada. Mas eu conversei com ele.
Ouvi as mulheres do deposito dizer que o senhor João da Rua do Porto faleceu e que ficou dois dias aguardando recursos para ser sepultado. Eu ia vê-lo.
Mas comecei sentir indisposição e resolvi deitar um pouco. Já faz uns dois anos que eu não deito durante o dia. Penso no senhor João que já ha tempos estava doente. Paralisia. Ele dizia que queria morrer porque não apreciava ser sustentado pela esposa. Que a vida sem doença já é dura de conduzir. A sua esposa dona Angelina é quem trabalhava para os dois. Ela tinha um auxilio das vicentinas, mas fizeram tanta intriga e as vicentinas deixou de auxiliá-la.
Injustiça.
Eu dormi um pouco. Depois comecei escrever. A dona Alice deu-me um prato de sopa. O dia que eu mudar da favela vou acender uma vela para São Sebastião. Ouço a Deolinda brigando com seu esposo.
Eles eram amasiados e as vicentinas aconselhou-os a casar. Ele bebe muito e ela o dobro. Ela disse que o seu estomago não aceita café de manhã. Que
se beber vomita. De manhã, ela bebe pinga e passa o resto do dia chupando o dedo. E nojento ver uma mulher de 50 anos chupando o dedo. Ela foi chamar a Radio Patrulha porque ambos estão com a cabeça quebrada. A sogra também bebe. E forma o trio mais escandaloso da rua C.
Eu guardei as roupas dos meninos do Juizado, para comprovante. Fiquei horrorisada com o cheiro de suor. E achei desmazelo.
10 DE JULHO Deixei o leito as 5 e meia para pegar agua. Não gosto de estar entre as mulheres porque é na torneira que elas falam de todos e de tudo.
Estou tão indisposta que se eu pudesse deitar um pouco! Mas eu não tenho nada para os meninos comer. O unico geito é sair. Deixei o João estudando. Ganhei só 10,00 e achei metais. Achei um arco de pua e um estudante pediu-me. Dei-lhe.
Ele deu-me 3 cruzeiros para um café. (...) Passei na feira. Comprei batata doce e peixe. Quando cheguei na favela era 12 horas. Esquentei a comida para o João e fui ajeitando o barracão. Depois fui vender umas latas e ganhei 40 cruzeiros.
Retornei a favela e fiz o jantar.
A Deolinda e o seu esposo que foram na Radio Patrulha ainda não voltaram. Será que ficaram presos.
Cai a tarde lentamente. Já estão chegando os crentes, com seus instrumentos musicaes para louvar Deus. Aqui na favela tem um barracão na rua B onde os crentes vem rezar treis vezes por semana. Uma parte do barracão é coberto com folha de flandres e a outra de telha. Tem dia que eles estão rezando e os vagabundos da favela jogam pedras no barracão e quebram as telhas. As que cai em cima das folhas faz barulho. Mesmo sendo insultados eles não desanimam. Aconselha os favelados para não roubar, não beber e amar ao proximo como a si mesmo. Os crentes não permite a entrada das mulheres que usa calças e nem vestidos decotados. Os favelados zombam dos conselhos.
Fui buscar uma lata de agua e uma senhora estava lamentando:
— Se eu fosse jovem eu não residia nesta favela nem um dia. Mas eu já sou velha. E velho não se governa.
Aqui nesta favela a gente vê coisa de arrepiar os cabelos. A favela é uma cidade esquisita e o prefeito daqui é o Diabo. E os pinguços que durante o dia estão oculto a noite aparecem para atentar. Percebo que todas as pessoas que residem na favela, não aprecia o lugar.
11 DE JULHO Deixei o leito as 5 e meia. Já estava cansada de escrever e com sono. Mas aqui na favela não se pode dormir, porque os barracões são úmidos, e a Neide tosse muito, e desperta-me. Fui buscar agua e a fila já estava enorme. Que coisa horrivel é ficar na torneira. Sai briga ou alguém quer saber a vida dos outros. Ao redor da torneira amanhece cheio de bosta. E quem limpa sou eu. Porque as outras não interessam.
...Quando cheguei na favela estava indisposta e com dor nas pernas. A minha enfermidade é física e moral.
12 DE JULHO ...Fui no Frigorifico, ganhei uns ossos. Estou indisposta.
Comprei dois pães doce para o João e a Vera. Catei tomates. Encontrei um preto iducado e elegante no falar. Disse-me que reside em Jaçanã. Eu ia perguntar-lhe o nome mas fiquei com vergonha. Ele deu dois cruzeiros ao João e eu comprei querozene. Cheguei em casa, fui no senhor Manoel vender os ferros. O deposito já estava fechado. Cheguei em casa e deitei. Estava com frio e mal estar. O povo da favela já sabe que eu estou doente. Mas não aparece ninguém para prestar-me um favor. Não deixo o João sair. Ele passa o dia lendo. Ele conversa comigo e eu vou revelando as coisas inconvinientes que existe no mundo. Já que o meu filho já sabe como é o mundo, a linguagem infantil entre nós acabou-se.
O José Carlos foi na feira. Eu servi os ossos para fazer uma sopa. A Vera não quiz. O Frei Luiz está pondo a tela, para passar o cineminha. Não vou comparecer porque estou doente. O João pediu-me para irmos. Disse-lhe que enquanto nós residirmos aqui na favela ele não há de brincar com mais ninguém.
Antes eu falava e ele revoltava. Agora eu falo e ele ouve. Eu pretendia conversar com o meu filho as coisas serias da vida só quando ele atingisse a maioridade.
Mas quem reside na favela não tem quadra de vida. Não tem infancia, juventude e maturidade.
O meu filho, com 11 anos já quer mulher. Expliquei-lhe que ele precisa tirar o diploma de grupo. E estudar depois, que o curso
primário[23] é muito pouco.
13 DE JULHO ...Estão chegando as enfermeiras do Frei Luiz, que vem curar as chagas dos favelados. Elas estão ensinando as crianças rezar. (...) Eu
queria saber como é que o Frei Luiz descobriu que os favelados tem chagas.
Esquentei o jantar para as crianças. Ouço a Meire convidando a Nair para ir no baile da Rua A. A Vera está tussindo. Levanto-me para dar-lhe um comprimido. Estou com febre. Não posso levantar. Estou esperando o José Carlos chegar. Quando ele chegou deu-me a caixa onde eu guardo os remedios e tomei uma Salofeno e a dor foi desaparecendo e eu adormeci. Despertei as 2 da madrugada com o Arnaldo e a Leila brigando.
14 DE JULHO Passei o dia deitada por estar com febre e dor nas pernas. Não tinha dinheiro, mas eu havia deixado uns ferros lá no senhor Manoel e mandei o José Carlos ir pesar e receber.
Ganhou 22 cruzeiros. Comprei 5 de pão e 5 de açúcar e comprimido.
Levantei só para preparar as refeições. Passei o dia deitada. O José Carlos ouviu a Florenciana dizer que eu pareço louca. Que escrevo e não ganho nada.
15 DE JULHO Hoje é o aniversário de minha filha Vera Eunice. Eu não posso fazer uma festinha porque isto é o mesmo que querer agarrar o sol com as mãos. Hoje não vai ter almoço. Só jantar.
...Estou mais disposta. Ontem supliquei ao Padre Donizete[24] para eu sarar. Graças a Deus que atualmente os santos estão protegendo. Porque não sobra dinheiro para eu ir no medico.
...Fui catar papel, levei os filhos. Eu agora quero ter o João debaixo dos meus olhos. Fui na Dona Julita. Ela está em SantoAndré. Cheguei em casa fiz o almoço. Fui no Senhor Manoel vender os ferros. Ganhei 25 cruzeiros. Comprei pão. Quando cheguei na favela tinha um purtuguês vendendo miudo de vaca.
Comprei meio quilo de bucho. Mas eu não gosto de negociar com purtuguês.
Eles não tem iducação. São obcenos, pornográficos e estúpidos. Quando procura uma preta é pensando explora-la. Eles pensam que são mais inteligentes do que os outros. O purtuguês disse para a Fernanda que lhe dava um pedaço de fígado se ela lhe aceitasse. Ela não quiz. Tem preta que não gosta de branco. Ela saiu sem comprar. Ele deixou de vender por ser atrevido.
16 DE JULHO ...Não havia papel nas ruas. Passei no Frigorifico. Havia jogado muitas linguiças no lixo. Separei as que não estava estragadas. (...) Eu
não quero enfraquecer e não posso comprar. E tenho um apetite de Leão. Então recorro ao lixo.
17 DE JULHO A Leila e o Arnaldo brigaram toda a noite. Não nos deixou dormir. Deixei o leito às 5 e meia e carregueiagua. Na torneira sempre sai encrenca:
— Você passou na minha frente!
— Não passei!
E daí prossegue. Um dia o esposo da Dona Silvia estava na torneira e discutiram, ele e um nortista, o senhor Manoel pai do Zé Maria. Enquanto eles trocavam insultos eu presenciava. O nortista tirou a peixeira. O Antonio de Andrade tem 65 anos. Mas quando viu a
peixeira reluzir saltou igual ao Ademar Ferreira no salto triple[25].
...Saí e fui catar papel. Ganhei 60 cruzeiros. Parei para conversar com a Dona Anita. Ela está preocupada com as noticia de guerra... Que a guerra é ingrata para os jovens. Que é pungente a condição dos pracinhas. Que herói são os jogadores de fut-bol. Os pracinhas são venerados pelas mulheres. E que os pracinhas são nossos filhos.
Eu ouvi dizer que o General Teixeira Lot[26] não vai enviar tropas para o Oriente Medio. Se for assim creio que devemos considerar e venerar o nosso general que já demonstrou o seu desvelo pelo povo e o paíz.
18 DE JULHO ...Saí e fui catar papel. Ouvia as mulheres lamentando com lagrimas nos olhos que não mais aguenta o custo de vida. (...) Levei o João para evitar encrenca. Passei na banca de jornal na Avenida Tiradentes e parei para conversar com uns senhores e com o jornaleiro.
Cheguei na favela era 12 e meia. O Durvalino passou com um pedaço de carne na mão. Parou para brincar com a Neide e começou falar do Bobo. Que ele não presta e vai ser um péssimo esposo. Deu um pedaço de carne para a Dona Aparecida.
19 DE JULHO ...Fui na bolacha. O dono disse que não dava mais
bolacha. Voltei catando tudo que encontrava. Está chovendo e eu não quiz catar papel. Quando cheguei na favela a Vera contou-me que a baiana havia lhe chingado. Uma mulher de 32 anos brigar com uma criança de 5 anos! Uma visinha que viu a baiana chingando a Vera confirmou. Assim que a nojenta viu-me começou insultar-me. Mostrou uma peixeira para o José Carlos e disse que pretende lhe picar.
Fui no senhor Manoel vender uns ferros. Ganhei 55 cruzeiros. Levei pouco material e achei que era muito dinheiro. Perguntei ao senhor Manoel se não errou no troco.
...Fui na feira, comprei 1 quilo de feijão e 1 rim. O resto eu catei. Quando um purtuguês jogou uns pés de alface no chão e eu peguei, o purtuguês gritou:
— Chegou a freguesia do Bastião!
...Hoje eu não lavo as roupas porque não tenho dinheiro para comprar sabão. Vou ler e escrever.
A Leila pegou machado e repicou o fundo da bacia. A bacia é da Ivone Horacio, que deu-me as 5 canivetadas em 1952.
O processo foi cancelado porque ela não compareceu no foro. A Ivone pediu a bacia, a Leila não queria devolver. Picou o fundo. Eu fiquei horrorisada e com dó.
...Dois nortistas brigaram. Só procuram insultos. O Vitor Franquistém, o valentão, apanhou do Valdemar Espadela. Todos gostaram porque o Vitor quer ser o Lampeão da Favela. Foram 2 cacetadas. Agora as mulheres estão dizendo que vão cotisar e comprar uma camisa de lã para dar de presente ao Valdemar para comemorar o seu grande feito.
20 DE JULHO ...Eu estava escrevendo quando ouvi a voz do senhor Binidito. Mandei ele entrar. Ele conduziu um senhor do Centro Espirita Divino Mestre, localisado na Rua Oriente, que veio dar cartão para a gente buscar agasalho para as crianças, dia 23. Fiquei tão contente que sai da cama com rapidez. E expliquei ao senhor o que é que eu escrevo.
...Ia recomeçar escrever quando o Adalberto chegou. Veio fazer uma cerca para mim. Para evitar a entrada dos nortistas que por qualquer motivo vem aborrecer. Quem trabalhou na cerca foi o Adalberto, o Luiz, hospede recente da favela e o José da Dona Rosa. Compraram pinga e eu fiz caipirinha. E fiz almoço para eles. Era 1 hora quando eu ia recomeçar escrever. O senhor Alexandre começou a bater na sua esposa. A Dona Rosa interviu. Ele dava ponta-pé nos filhos. Quando ele ia enforcar a Dona Nena, a Dona Rosa pediu socorro. Então o soldado Edison Fernandes foi pedir ao senhor Alexandre para não bater na sua esposa. Ele não obedeceu e ameaçou o soldado com uma peixeira. O Edison Fernandes deu-lhe uns tapas. O Alexandre avoou que nem balão impelido pelo vento.
O soldado Edison mandou-me telefonar para a Radio Patrulha. Eu fui avuando. Telefonei e voltei correndo. Quando cheguei na favela a briga estava quente. O Alexandre chingava as crianças que iam olhar e avançou para o meu filho João. E desacatava o soldado Edison, querendo bater-lhe no rosto e dizendo-lhe:
—Leva a minha mulher para você! Mulher depois que casa é para suportar o marido e eu não adimito soldado dentro da minha casa. Você está interessado na minha mulher?
Assim que os favelados me viram, gritaram:
—Cadê a Policia?
—Já telefonei.
Em 5 minutos a Radio Patrulha apareceu. Eu e a Vera entramos no carro.
A Vera começou sorrir achando delicioso andar de carro. Quando o povo da alvenaria me viram na Radio Patrulha gritaram:
—Crime na favela!
E corriam na direção da favela. Vi entre as pessoas o meu compadre José Nogueira.
...O José Carlos regressou do cinema e eu contei-lhe o shou do seu Alexandre. Ele disse-me que o Alexandre estava no ponto do bonde. Não acreditei. Será possível que a Policia ia soltar um homem tão turbulento que não respeita as crianças?
Como eu já estava previnida, não assustei quando ouvi a voz do Alexandre discutindo com a mãe do soldado Edison. Eu intervi porque ela está gestante. Eu saí para procurar o Bobo para ele retirar o Alexandre de dentro da casa. Mas o Binidito já havia empurrado o Alexandre para fora. Ele entrou no
seu barraco e fechou a porta. Estava tão bêbado que não podia parar de pé.
Deitamos. Eu estava agitada e nervosa porque queria passar o dia escrevendo. Custei durmir. Eu fiquei cançada de tanto correr para ir chamar a Radio Patrulha. Despertei as 4 horas da manhã com a voz do Alexandre que estava maltratando a sua esposa e chingando o soldado Edison. Dizia:
—Aquele negro sujo me bateu. Mas ele me paga! Eu me vingo!
Vendo que o Alexandre não parava de falar, eu fui na Delegacia. O
soldado que estava de plantão disse:
—Favela é de morte!
Disse-me que se o Alexandre continuasse a perturbar para eu voltar as 6
horas. Voltei para a favela, ele estava na rua insultando. Resolvi fazer café. Abri a janela e joguei um pouco dagua no Alexandre.
—Você chamou a Radio Patrulha para mim. Negra fidida! Mas você me paga!
21 DE JULHO ...Fui catar papel. Estava horrorisada com a cena que o Alexandre representou de madrugada. Catei muitos ferros e pouco papel.
Quando eu estava perto da banca de jornal tropecei e caí. Devido eu estar muito suja, um homem gritou:
—É fome!
E me deram esmola. Mas eu caí porque estava com sono.
Pensei no Alexandre porque ele não precisa pensar no trabalho. Porque obriga a esposa a pedir esmola. Ele tem uma filha: a Dica. A menina tem 9 anos.
Ela pede esmola de manhã e vai para a escola a tarde. A menina conhece as letras e os números. Mas não sabe formar palavras. Quando escreve ela põe qualquer letra que lhe vem na mente. Mistura números com letras. Escreve assim:
ACR85CZbo4Up7Mnol0E20.
E já faz dois anos que ela está na escola.
...Enquanto eu estava na rua o Alexandre maltratou a mãe do soldado Edison. Quando eu cheguei ele começou insultar-me:
—Negra suja. Ordinaria. Vagabunda. Lixeira.
Eu não tenho paciência, lhe chinguei, joguei-lhe um vidro no rosto. Ele fechou a janela. Abriu outra vez, eu lhe joguei uma escova de lavar casa. Ele fechou a janela. Depois abriu e começou descompor o soldado Edison. O
soldado Edison foi falar com ele. Quando ele viu o soldado assustou-se e disse:
—Aquele tapa que você me deu, você vai me pagar.
O soldado Edison disse-lhe:
—Então vamos resolver isto logo.
Ajuntou a criançada para presenciar a cena que eu reprovo. Espetáculo improprio. Enquanto o soldado discutia com o Alexandre eu fui catar pedras. O
soldado Edison deu-lhe um tapa no rosto. E a criançada deu uma vaia.
...O Alexandre ficou com medo do soldado, entrou para dentro e fechou a porta. Apagou a luz e não perturbou durante a noite.
22 DE JULHO ...Eu fui trabalhar e avisei os visinhos:
—Se o Alexandre aborrecer, avise!
Saí pensando na minha vida infausta. Já faz duas semanas que eu não lavo roupa por falta de sabão. As camas estão sujas que até dá nojo.
...Não fiquei revoltada com a observação do homem desconhecido referindo-se a minha sujeira. Creio que devo andar com um cartas nas costas: Se estou suja é porque não tenho sabão.
Cheguei no Frigorifico. Os meninos entraram e cada um ganhou uma salchicha. Quando eu estava catando o papel surgiu o espanhol que faz a limpesa e começou gritar comigo. Hoje eu estou nervosa e não adimito que um extrangeiro grite comigo.
...Tem uma espanhola que vai no Frigorifico catar carne no lixo e quando vê o espanhol diz:
—Este non é de mi tierra. Isto é purtugués!
E tem uma purtuguesa que diz:
—Esta besta não é de Portugal!
E eu, para arrematar digo:
—Graças a Deus, ele não é brasileiro!
23 DE JULHO Deixei o leito as 7 horas. Estava indisposta. Graças a Deus o Alexandre socegou.
...Esquentei comida para os meninos e comecei preparar para irmos no Centro Divino Mestre, para ganhar roupas para as crianças. Quando o povo via as mulheres da favela nas ruas perguntava se nós iamos no Gabinete prestar declarações.
—Houve um conflito — respondi.
E as mulheres sorriam.
No Centro Divino Mestre o senhor Pinheiro nos recebeu sorrindo. Não havia preconceitos nem distinção de classe. Eu ganhei duas blusas de malha.
Uma para a Vera e outra para o José Carlos. Quando nós iamos para o Centro Espirita Divino Mestre o João ganhou um pulôver. As palavras do senhor Pinheiro reanimou-me.
24 DE JULHO Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei até em suicidar. Eu suicidando-me é por deficiência de alimentação no estomago. E por infelicidade eu amanheci com fome.
Os meninos ganharam uns pães duro, mas estava recheiado com pernas de barata. Joguei fora e tomamos café. Puis o unico feijão para cosinhar. Peguei a sacola e saí. Levei os meninos. Fui na Dona Guilhermina, na Rua Carlos de Campos. E pedi para ela um pouco de arroz. Ela deu-me arroz e macarrão. E eu fiquei conversando com o seu esposo. Ele deu-me umas garrafas para eu vender.
E eu catei uns ferros.
Depois de conseguir algumas coisas para os meninos comer. Reanimei-me. Acalmei o espirito. Fui no senhor Manoel vender as garrafas. Ganhei 22
cruzeiros. Comprei 10 de pão e um cafezinho
...Cheguei na favela, fiz o almoço e fui lavar roupas. 3 semanas sem lavar roupas por falta de sabão. As visinhas ficaram horrorisadas vendo a quantidade
de roupas que eu lavei. A Dona Geralda esposa do senhor João da Purtuguesa veio procurar a Fernanda dizendo que havia roubado a sua bacia de roupas. E foi vasculhar a casa da mãe da Fernanda. A Fernanda lhe acompanhou até a sua casa e encontraram a bacia na cosinha. Ela pediu desculpas a Fernanda e deu-lhe uma garrafa de pinga. Quando recebeu a garrafa de pinga, ela ficou tão contente.
Sorria contemplando a garrafa. Veio elogiando a Dona Geralda.
— Que mulher boa!
O rancor da Fernanda desapareceu porque a pinga entrou como intermediaria.
25 DE JULHO ...Achei o dia bonito e alegre. Fui catando papel.
26 DE JULHO ...Eu estava tonta de fome devido ter levantado muito cedo. Fiz mais café. Depois fui lavar as roupas na lagoa, pensando no departamento Estadual de Saude que publicou no jornal que aqui na favela do Canindé há 160 casos positivos de doença caramujo. Mas não deu remedio para os favelados. A mulher que passou o filme com as demonstrações da doença caramujo nos disse que a doença é muito difícil de curar-se. Eu não fiz o exame porque eu não posso comprar os remedios.
...Mandei o João ir no senhor Manoel vender os ferros. E eu fui catar papel. No lixo do Frigorífico tinha muitas linguiças. Catei as melhores para eu fazer uma sopa. (...) Vim pelas ruas catando ferros. Quando cheguei no ponto do bonde encontrei o José Carlos que ia na feira catar verduras.
...O Adalberto veio procurar roupas. Não lhe atendi porque ele está ficando muito confiado. Ontem falou pornografia perto da Vera. E está aborrecendo-me.
...O senhor Manoel chegou. Deu-me 80 cruzeiros, eu não quiz pegar.
Procurei as crianças para tomar banho. Ficaram alegre quando viu o senhor Manoel. Eu disse para o senhor Manoel que ia passar a noite escrevendo. Ele despediu-se e disse:
—Até outro dia!
Nossos olhares se encontraram e eu lhe disse:
—Vê se não volta mais aqui. Eu já estou velha. Não quero homens.
Quero só os meus filhos.
Ele saiu. Ele é muito bom e iducado. E bonito. Qualquer mulher há de gostar de ter um homem bonito como ele é. Agradavel no falar.
...O Frei Luiz apareceu e deu aula de catecismo para as crianças. Fizeram uma procissão. Eu não compareci.
27 DE JULHO ...Esquentei a comida para os meninos e comecei escrever. Procurei um lugar para eu escrever socegada. Mas aqui na favela não tem estes lugares. No sol eu sentia calor. Na sombra eu sentia frio. Eu estava girando com os cadernos na mão quando ouvi vozes alteradas, fui ver o que era, percebi que era briga. Vi o Zé Povinho correndo. Briga é um espetáculo que eles não perdem. Eu já estou tão habituada a ver brigas que já não impreciono. E que haviam jogado fogo dentro do automovel do senhor Mario Pelasi. Queimou a chuteira, as meias e os tapetes do carro. Os meninos viu a fumaça no carro e foi avisá-lo. Ele estava jogando fut-bol.
28 DE JULHO ...Deixei o João e levei só a Vera e o José Carlos. Eu estava tão triste! Com vontade de suicidar. Hoje em dia quem nasce e suporta a vida até a morte deve ser considerado heroi(...)
O verso preferido era este:
Ouço o povo dizer
O Adhemar tem muito dinheiro
Não tem direito de enriquecer
Quem é nacional, quem é brasileiro?
Bem: vamos deixar o Dr. Adhemar em paz porque ele está com a vida mansa. Não passa fome. Não come nas latas de lixo igual os pobres. Quando eu ia na residência do Dr. Adhemar encontrei um senhor que deu-me este cartão: Edison Marreira Branco.
Estava tão bem vistido que atraiu os olhares. Disse-me que pretendia incluir-se na política. Perguntei-lhe:
—Quais são suas pretensões na política?
—Quero ficar rico igual ao Adhemar.
Fiquei horrorisada. Ninguém mais apresenta amor patriótico.
Quando passei no Frigorífico encontrei com a dona Maria do José Bento que disse-me:
—Se a gente não catar um pouco vamos acabar ficando loucos. Só Deus pode ter dó de nós, os pobres.
Ensinei-lhe a catar os alhos. E eu catei um pouco de carvão. Despedi da dona Maria e segui. Encontrei com a dona Nenê, a diretora da Escola Municipal, professora do meu filho João José. Disse-lhe que ando muito nervosa e que tem hora que eu penso em suicidar. Ela disse-me para eu acalmar. Eu disse-lhe que tem dia que eu não tenho nada para os meus filhos comer.
30 DE JULHO ...Ganhei 30 cruzeiros e passei no sapateiro para ver se os sapatos da Vera estavam prontos, porque ela reclama quando está descalça.
Estava pronto e ela calçou o sapato e começou a sorrir. Fiquei olhando a minha filha sorrir porque eu já não sei sorrir.
...Encontrei a Rosalina que estava discutindo com o Helio. Ele não quer que fala que ele e a Olga pede esmola. A Rosalina dizia que ela é sosinha e sustenta 3 filhos. É que ela não sabe que o seu filho Celso anda dizendo que quer fugir de casa porque tem nojo dela. Acha a mãe muito barbara e avarenta. Ele diz que queria ser meu filho. Então eu lhe digo:
—Se você fosse meu filho, você era preto. E sendo filho de Rosalina você é branco.
Ele respondeu-me:
—Mas seu eu fosse teu filho eu não passava fome. A mamãe ganha pão duro e nos obriga a comer os pães duro até acabar.
Segui pensando nas desventuras das crianças que desde pequeno lamenta sua condição no mundo. Dizem que a Princesa Margareth da Inglaterra tem
desgosto de ser princesa[27]. São os dilemas da vida.
31 DE JULHO Acendi o fogo e fui buscar agua. Mandei o João Carlos buscar 6 de açúcar. O Luiz que fez a cerca para mim entrou e sentou-se. Eu disse-lhe que eu ia sair e quando saio gosto de deixar os meus filhos sosinhos.
Eu saí correndo e fui catar papel. Havia pouco papéis nas ruas. Eu já estou aborrecendo de catar papel, porque quando eu chego no deposito tem a Cicilia que trabalha lá e é muito bruta. Insulta-me e eu finjo não ouvir. Diz que sou fidida. Dia 27 a Cicilia não deixou o José Carlos ir no mitorio. A Cicilia é tão bruta que a sua presença afasta o dono no deposito.
Hoje eu não estou nervosa. Estou triste. Porque eu penso as coisas de um jeito e corre de outro. O Antonio Nascimento que residia aqui na favela mudou-se. Ele e a sua companheira. Eles estavam mal colocados aqui na favela.
Ninguém apreciava eles aqui favela, Porque ele abandonou os 4 filhos, e ela os 3
filhos. 7 crianças sofrendo por causa dos pais. O que ela lucrou deixando o seu esposo e os filhos? Largou um homem calçado e pegou outro descalço.
1 DE AGOSTO ...A Assistência[28] estava chegando. Vinha examinar o Purtuguês que vende doces. Dia 28 de julho eu fui visita-
lo. Ele queria uma Assistência. Aludiam que ele não paga IAPTC[29] e não vinham. Quando cheguei na favela fui visitá-lo. Ela estava gemendo e tinha duas senhoras purtuguesas que lhe visitava. Perguntei-lhe se estava melhor. Disse-me que não.
A purtuguesa perguntou-me:
—O que é que a senhora faz?
—Eu cato papel, ferro, e nas horas vagas escrevo.
Ela disse-me com a voz mais sensata que já ouvi até hoje:
— A senhora vai cuidar de sua vida!
2 DE AGOSTO Vesti os meninos que foram para a escola. Eu saí e fui girar para arrancar dinheiro. Passei no Frigorifico, peguei uns ossos. As mulheres vasculham o lixo procurando carne para comer. E elas dizem que é para os cachorros.
Até eu digo que é para os cachorros...
3 DE AGOSTO ...Hoje os meninos vão comer só pão duro e feijão com farinha. Eu estou com tanto sono que não posso parar de pé. Estou com frio. E
graças a Deus não estamos com fome. Hoje Deus está ajudando-me. Estou indecisa sem saber o que fazer. Estou andando de um lado para outro, porque não suporto permanecer no barracão limpo como está. Casa que não tem lume no fogo fica tão triste! As panelas fervendo no fogo também serve de adorno.
Enfeita um lar.
Fui na dona Nenê. Ela estava na cosinha. Que espetáculo maravilhoso!
Ela estava fazendo frango, carne e macarronada. Ia ralar meio queijo para por na macarronada!
Ela deu-me polenta com frango. E já faz uns 10 anos que eu não sei o que é isto.
...Na casa de dona Nenê o cheiro de comida era tão agradavel que as lagrimas emanava-se dos meus olhos, que eu fiquei com dó dos meus filhos.
Eles haviam de gostar daqueles quitutes.
Quando cheguei na favela a Leila e o Arnaldo estavam dando os seus espetáculos. E a criançada estavam apreciando.
Eu estava escrevendo quando a Vera veio avisar-me que estavam dando cartões e que havia muitas pessoas na rua. Fui correndo para ver. Varias pessoas acompanhava um senhor alto e loiro que conduzia um menino de 10 anos pela mão. Ele usava calças cinza claro e paletó azul anil. Passou por mim e deu-me um abraço. Fiquei perplexa com aquele abraço sem apresentação. É a primeira vez que vejo o homem.
A cunhada do Coca-Cola disse-me:
—Este é nosso deputado. Dr. Contrini.
Quando ela disse deputado federal pensei: é época de eleições, porisso é que eles está tão amavel.
...O senhor Contrini veio nos dizer que é candidato nas eleições. Nós da favela não somos favorecidos pelo senhor. Não te conhecemos.
6 DE AGOSTO Fiz café para o João e o José Carlos, que hoje completa 10 anos. E eu apenas posso dar-lhe os parabéns, porque hoje nem sei se vamos comer.
7 DE AGOSTO Deixei o leito as 4 horas. Eu não dormi porque deitei com fome. E quem deita com fome não dorme.
...Vi o fiscal circulando e falando. Fui ver do que se tratava. Estava procurando o senhor Tiburcio. Ele faz barracão para vender. Ele pede esmola na rua Direita. Ele não precisa e não reside na favela. Ele já construiu sete barracões e vendeu. O Tiburcio tem o físico defeituoso e a alma também.
Quando o João chegou da escola dei-lhe almoço. Depois fomos na cidade. Fomos a pé porque não tinha dinheiro para pagar a condução. Levei uma sacola e ia catando os ferros que encontrava nas ruas. Passamos pela rua da Cantareira. A Vera olhava os queijos e engulia as salivas.
...A dona Alice contou-me que o Policarpo nortista que reside aqui na favela pois uma preta para residir na sua casa. Disse para a mulher que ela era sua prima. E a mulher é muito boa e aceitou a prima em casa com prazer. E a prima ficou em casa varios dias. A mulher do Policarpo saía e ele ficava com a prima. E um dia, a dona Maria ao chegar em casa, encontrou o Policarpo e a prima, na copola. Ela não gostou e brigaram. E o Policarpo saiu de casa com a prima e foi para Descalvado. Levou os moveis e deixou só a cama.
8 DE AGOSTO Saí de casa as 8 horas. Parei na banca de jornais para ler as noticias principais. A Policia ainda não prendeu o Promessinha. O bandido insensato porque a sua idade não lhe permite conhecer as regras do bom viver.
Promessinha é da favela Vila Prudente. Ele comprova o que eu digo: que as favelas não formam carater. A favela é o quarto de despejo. E as autoridades ignoram que tem o quarto de despejo.
...Fui lavar as roupas. Na lagoa estava a Nalia, a Fernanda e a Iracema, que discutiam religião com uma senhora que dizia que a verdadeira religião é a dos crentes.
A Fernanda diz que a Biblia não manda ninguém casar-se. Que manda crescer e multiplicar. Eu disse para a Fernanda que o Policarpo é crente e tinha varias mulheres. Então a Fernanda disse que o Policarpo não é crente.
— É quente!
Achei graça no trocadilho e sorri. Dei uma gargalhada. E coisa que eu não discuto é religião.
Terminei as roupas e deixei a discussão no auge. (...) Hoje a Assistência esteve aqui duas vezes, porque a Aparecida teve um aborto.
A Quita veio no meu barracão reclamar que o José Carlos havia jogado bosta no rosto da Marli, e que eu devo dar mais iducação ao meu filho.
9 DE AGOSTO Deixei o leito furiosa. Com vontade de quebrar e destruir tudo. Porque eu tinha só feijão e sal. E amanhã é domingo. ...Fui na sapataria retirar os papéis. Um sapateiro perguntou-me se o meu livro é comunista. Respondi que é realista. Ele disse-me que não é aconselhável escrever a realidade.
...Aqui na favela está um reboliço. E que o deputado Francisco Franco deu material para terminar a sede do Rubro Negro. Deu as telhas e as camisas e o povo da favela fala diariamente neste deputado. Vão fazer uma festa para homenageá-lo.
10 DE AGOSTO Dia do Papai. Um dia sem graça.
11 DE AGOSTO ...Eu estava pagando o sapateiro e conversando com um preto que estava lendo um jornal. Ele estava revoltado com um guarda civil que espancou um preto e amarrou numa arvore. O guarda civil é branco. E há certos brancos que transforma preto em bode expiatório. Quem sabe se guarda civil ignora que já foi extinta a escravidão e ainda estamos no regime da chibata
?
Assustei quando ouvi meus filhos gritar, Conheci a voz da Vera. Vim ver o que havia. Era o Joãozinho, filho da Deolinda, que estava com um chicote na mão e atirando pedra nas crianças Corri e arrebatei-lhe o chicote das mãos. Senti o cheiro de álcool. Pensei: ele está bêbado porque ele nunca fez isto. Um menino de 9 anos. O padrasto bebe, a mãe bebe e a avó bebe. E ele é quem vai comprar pinga. E vem bebendo pelo caminho.
Quando chega, a mãe pergunta admirada:
—Só isto? Como os negociantes são ladrões!
12 DE AGOSTO Deixei o leito as 6 e meia e fui buscar agua. Estava na fila enorme. E o pior de tudo é a meledicencia que é o assunto principal. Tinha uma preta que parece que foi vacinada com agulha de vitrola. Falava do genro que brigava com sua filha. E a Dona Clara ouvia porque era a unica que lhe dava atenção.