Quarto de despejo: diário de uma favelada

Carolina Maria de Jesus · Capítulo 1 de 3 · parte 6/7

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Quarto de despejo: diário de uma favelada

Quarto de despejo - Diário de um Favelada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

A I. está sendo disputada na favela. Ela abandonou o esposo. (...) A Leila numa briga é como a gasolina no fogo. Ela instiga e substitui a aranha com a sua teia.

...Quando a Pitita briga, todos saem para ver. É um espetáculo pornográfico. (...) As crianças começaram a falar que a Pitita havia erguido o vestido. Eu vim para dentro de casa. Eu já estava deitada e ouvia a voz da Pitita.

A tarde na favela foi de amargar. E assim as crianças ficaram sabendo que os homens fazem... com as mulheres.

Estas coisas eles não olvidam. Tenho dó destas crianças que vivem no Quarto de Despejo mais imundo que há no mundo.

20 DE NOVEMBRO ...Olhei o céu. Parece que vamos ter chuva. Levantei, tomei café e fui varrer o barraco. Vi as mulheres olhando na direção do rio. Fui ver o que era. Eu estava com umas Cebolas que a Juana do Binidito deu-me porque eu dei-lhe uns tomates. Mandei a Vera guardar os tomates e fui perguntar as mulheres o que havia no rio.

—É uma criança que não pode sair do rio.

Fui ver. Pensei: se for criança eu vou atravessar o Tietê para retira-la e se for preciso nadar eu entro na agua.

Corri para ver o que era. Era um jacá de queijo que flutuava. Voltei e fui escrever.

21 DE NOVEMBRO ...Vi várias pessoas no barracão da Leila. Fui ver o que havia. Perguntei para Dona Camila o que houve.

—É a menina que morreu.

—De que foi que morreu a menina?

—Não sei.

...O sono surgiu. Eu deitei. Despertei com um bate-fundo perto da minha janela. Era a Ida e a Analia. A briga começou lá na Leila. Elas não respeitam nem a extinta. O Joaquim intervio pedindo para respeitar o corpo. Elas foram brigar na rua.

...Hoje de manhã eu disse para o Seu Joaquim Purtuguês que a filha da D.

Mariquinha não sabia ler. Ele disse:

—F... elas aprendem. E aprendem sem professor.

Eu dei uma risada e disse:

—Purtuguês não presta!

Da minha janela eu vejo a filha da Leila no seu esquife. O diabo é que lá não há respeito no velorio. Parece até uma festa.

...O luar está maravilhoso. A noite tépida. Por isso o favelado está agitado. Uns tocam sanfona, outros cantam. Já rezaram um terço para a filha da Leila.

O esquife é branco. Eu vou deitar. O barulho é muito, mas eu vou deitar.

Aqui tudo é motivo para farra.

22 DE NOVEMBRO Deixei o leito as 5 horas e fui carregar agua. Olhei o barraco da Leila. Vi o José do Pinho no meio das vagabundas. Pensei: um moço tão bonito...

No terreiro todos queixavam que o velorio da filha da Leila foi de amargar. Que andaram a noite toda e não deixaram ninguém dormir.

...Chegou o carro para levar a filha da Leila. Ela começou chorar. Assim que a criança saiu a Leila foi beber.

O que eu fico admirada é das almas da favela. Bebem porque estão alegres. E bebem porque estão tristes.

A bebida aqui é o paliativo. Nas épocas funestas e nas alegrias.

23 DE NOVEMBRO ...Preparei uns ferros para ir vender no deposito de ferro velho. Dei duas viagens. Ganhei 178 cruzeiros. Telefonei

para as Folhas[40] para mandar uns repórteres na favela para expulsar uns ciganos que estão acampados aqui. Eles jogam excrementos na rua. As pessoas que reside perto dos ciganos estão queixando que eles falam a noite toda. E não deixam ninguém dormir. Eles são violentos e os favelados tem medo deles. Mas eu já preveni que comigo a sopa é mais grossa.

Devido as mocinhas ficar nuas, os vagabundos ficam sentados perto do barracão, observando-as. O diabo é que se alguém agredi-las os ciganos revoltam. Mas a nudez delas excita. Parece que já estou vendo um bate-fundo de cigano com favelado.

Mil vezes os nossos vagabundos do que os ciganos.

26 DE NOVEMBRO ...Fui pegar agua. Olhei o local onde os ciganos acamparam. Eles ficaram só treis dias. Mas foi o bastante para nos aborrecer.

Eles são nojentos. O local onde eles acamparam está sujo e exala mau cheiro.

Um odor desconhecido.

27 DE NOVEMBRO ...Eu estou contente com os meus filhos alfabetizados. Compreendem tudo. O José Carlos disse-me que vai ser um homem distinto e que eu vou trata-lo de Seu José.

Já tem pretensões: quer residir em alvenaria.

...Eu fui retirar os papelões. Ganhei 55 cruzeiros. Quando eu retornava para a favela encontrei com uma senhora que se queixava porque foi despejada pela Prefeitura.

Como é horrivel ouvir um pobre lamentando-se. A voz do pobre não tem poesia.

Para reanimá-la eu disse-lhe que havia lido na Biblia que Deus disse que vai concertar o mundo. Ela ficou alegre e perguntou-me:

—Quando vai ser isto, Dona Carolina? Que bom! E eu que já queria me suicidar!

Disse-lhe para ela ter paciência e esperar que Jesus Cristo vem ao mundo para julgar os bons e os maus.

—Ah! então eu vou esperar.

Ela sorriu.

...Despedi-me da mulher, que já estava mais animada. Parei para concertar o saco que deslisava da minha cabeça. Contemplei a paisagem. Vi as flores roxas. A cor da agrura que está nos corações dos brasileiros famintos.

28 DE NOVEMBRO Fui carregar agua. Não tinha ninguém. Só eu e a filha do T., a mulher que fica gravida e ninguém sabe quem é o pai de seus filhos. Ela diz que os seus filhos são filhos de seu pai.

29 DE NOVEMBRO ...Era 11 horas quando eu fui deitar. Ouvi vozes alteradas. Era 2 mulheres brigando. Ouvi a voz do Lalau. E que ele já saiu da cadeia. Já faz 3 dias que ele estava preso por causa do pato do Paulo. Acho que o Lalau nunca mais há de querer pato dos visinhos.

30 DE NOVEMBRO ...Vi um menino mechendo no pé. Fui ver o que havia. Era um espinho. Retirei um alfinete do vestido e tirei o espinho do pé do menino. Ele foi mostrar o espinho para o seu pai.

O menino olhou-me. Que olhar! Pensei: arranjei mais um amiguinho.

5 DE DEZEMBRO ...A Leila contou-me que a filha da Dona D. está presa, porque o seu esposo lhe pegou em adultério com um baiano que tem dois dentes de ouro.

...Hoje eu estou estreando um radio. Toquei o radio até as 12. Ouvi os programas de tango. O Orlando ligou a luz. Agora tenho de pagar 75 cruzeiros por mês, porque ele cobra 25 por bico.

6 DE DEZEMBRO Deixei o leito as 4 da manhã. Liguei o radio para ouvir o amanhecer do tango.

...Eu fiquei horrorisada quando ouvi as crianças comentando que o filho do senhor Joaquim foi na escola embriagado. É que o menino está com 12 anos.

Eu hoje estou muito triste.

8 DE DEZEMBRO ...De manhã o padre veio dizer missa. Ontem ele veio com o carro capela e disse aos favelados que eles precisam ter filhos.

Penso: porque há de ser o pobre quem há de ter filhos — se filhos de pobre tem que ser operário?

Na minha fraca opinião quem deve ter filhos são os ricos, que podem dar alvenaria para os filhos. E eles podem comer o que desejam.

Quando o carro capela vem na favela surge vários debates sobre a religião. As mulheres dizia que o padre disse-lhes que podem ter filhos e quando precisar de pão podem ir buscar na igreja.

Para o senhor vigário, os filhos de pobres criam só com pão. Não vestem e não calçam.

11 DE DEZEMBRO ...Começei queixar para a Dona Maria das Coelhas que o que eu ganho não dá para tratar os meus filhos. Eles não tem roupas nem o que calçar. E eu não paro um minuto. Cato tudo que se pode vender e a miséria continua firme ao meu lado.

Ela disse-me que já está com nojo da vida. Ouvi seus lamentos em silêncio. E disse-lhe:

— Nós já estamos predestinados a morrer de fome!

13 DE DEZEMBRO ...A nortista começou queixar-se que os seus filhos vão voltar para o interior porque não encontram serviço aqui em São Paulo. Vão colher algodão. Fiquei com dó da nortista. Eu já colhi algodão. Fiquei com dó da nortista.

14 DE DEZEMBRO ...De manhã teve missa. O padre disse para nós não beber, porque o homem que bebe não sabe o que faz. Que devemos beber limonada e agua. Varias pessoas veio assistir a missa. Ele disse que sente prazer de estar entre nós.

Mas se o padre residisse entre nós, havia de expressar de outra forma.

16 DE DEZEMBRO ...Quando eu estava conversando com o senhor Venancio presenciei uma cena repugnante. A mulher daquele mulato que mora de frente ao Sr. A. namorando o João Nortista. Aquele que tem dois dentes de ouro.

18 DE DEZEMBRO ...Eu estava escrevendo. Ela perguntou-me:

—Dona Carolina, eu estou neste livro? Deixa eu ver!

—Não. Quem vai ler isto é o senhor Audálio Dantas, que vai publicá-lo.

—E porque é que eu estou nisto?

—Você está aqui por que naquele dia que o Armim brigou com você e começou a bater-te, você saiu correndo nua para a rua

Ela não gostou e disse-me:

—O que é que a senhora ganha com isto?

...Resolvi entrar para dentro de casa. Olhei o céu com suas nuvens negras que estavam prestes a transformar-se em chuva.

19 DE DEZEMBRO Amanheci com dor de barriga e vomitando.

Doente e sem ter nada para comer. Eu mandei o João no ferro velho vender um pouco de estopa e uns ferros.

Ele ganhou 23 cruzeiros. Não dava nem para fazer uma sopa. (...) Que suplicio adoecer aqui na favela! Pensei: hoje é o meu ultimo dia em cima da terra.

...Percebi que havia melhorado. Sentei na cama e comecei catar pulgas. A idéia da morte já ia se afastando. E eu comecei a fazer planos para o futuro.

Hoje eu não saí para catar papel. Seja o que Deus quiser.

20 DE DEZEMBRO ...Dizem os velhos que no fim do mundo a vida ia ficar insípida. Creio que é historia, porque a Natureza ainda continua nos dando de tudo.

Temos as estrelas que brilham. Temos o sol que nos aquece. As chuvas que cai do alto para nos dar o pão de cada dia.

...Eu preparava para deitar quando surgiu a Duca, que pediu-me para eu dar parte do senhor Manoel, porque ele comprou uma televisão e a televisão captava toda a força eletrica e deixava favela sem luz. Equivoco. A televisão não estava ligada. Coisa que nunca hei de fazer é difamar o senhor Manoel. E o homem mais distinto da favela. Ele está aqui já faz 9 anos. Sai de casa e vai para o trabalho. Não falta ao serviço. Nunca brigou com ninguém. Nunca foi preso.

Ele é o homem mais bem remunerado da favela. Trabalha para o

Conde Francisco Matarazzo[41].

24 DE DEZEMBRO ...Hoje estou com sorte. Tem muitos papeis na rua.

(...) As 5 horas comecei vestir-me para eu ir no Centro Espirita Divino Mestre receber os donativos natalinos. Preparei os filhos e saí. (...) Eu ouvi vozes:

—Estão dando cartões!

Corri para ver. Vi os favelados rodeando um carro. E o povo correndo para ganhar cartões. No carro estava apenas o motorista e o povo pedia:

—Dá um para mim. Dá um para mim!

O motorista dizia:

—Vocês sujam o carro!

Perguntei-lhe:

—O que é que o senhor está distribuindo?

—Eu vim aqui trazer um homem. Nem sei o que este povo está pedindo.

—E que na epoca de Natal, quando vem um automovel aqui, eles pensam que vieram dar presentes.

—Nunca mais hei de vir aqui no Natal — disse o motorista nos olhando com repugnância.

Havia tantas pessoas ao redor do automovel que não pude anotar a placa.

...No centro Espirita a fila já estava enorme quando nós chegamos. (...) Os 10 filhos de uma nortista estavam pedindo pão. A Dona Maria Preta deu 15

cruzeiros para ela. Ela foi comprar pão.

O senhor Pinheiro, digníssimo presidente do Centro Espirita, saiu para conversar com os indigentes. (...) Passou um senhor, parou e nos olhou. E disse perceptível:

—Será que este povo é deste mundo?

Eu achei graça e respondi:

—Nós somos feios e mal vestidos, mas somos deste mundo.

Passei o olhar naquele povo para ver se apresentava aspecto humano ou aspecto de fantasma. O homem seguiu sorrindo. E eu fiquei analisando. Quando penetramos para receber os prêmios, o meu numero era 90. Eu e os demais

ganhamos presentes e generos: roupas, chá mate, batatas, arroz e feijão. O

senhor Pinheiro convidou-me para eu ir no Centro.

Era 9 e meia quando nós chegamos no ponto do bonde e fomos ver um presepio que fizeram na garagem que está vaga. Havia uma placa onde se lia: Entrada grátis. Mas no presepio tinha uma bandeja com cédula de 1 a 100.

Quando saí elogiei o presepio. Unica coisa que eu posso fazer.

Quando cheguei na favela encontrei a porta aberta. O luar está maravilhoso.

25 DE DEZEMBRO ...O João entrou dizendo que estava com dor de barriga. Percebi que foi por ele ter comido melancia deturpada. Hoje jogaram um caminhão de melancia perto do rio.

Não sei porque é que estes comerciantes inconscientes vem jogar seus produtos deteriorados aqui perto da favela, para as crianças ver e comer.

...Na minha opinião os atacadistas de São Paulo estão se divertindo com o povo igual os Cesar quando torturava os cristãos. Só que o Cesar da atualidade supera o Cesar do passado. Os outros era perseguido pela fé. E nós, pela fome!

Naquela epoca, os que não queriam morrer deixavam de amar a Cristo.

Mas nós não podemos deixar de comer.

26 DE DEZEMBRO ...Aquela senhora que reside na rua Paulino Guimarães, numero 308 deu uma boneca para a Vera. Nós iamos passando quando ela chamou a Vera e disse-lhe para esperar. A Vera disse-me:

—Acho que vou ganhar uma boneca.

Respondi:

—E eu acho que vamos ganhar pão.

Eu notava a sua anciedade e curiosidade de saber o que ia ganhar. A senhora saiu do interior da casa com a boneca.

A Vera disse-me:

—Eu não disse! Eu acertei!

E foi correndo pegar a boneca. Pegou a boneca e voltou correndo para mostrar-me. Ela agradeceu e disse que as meninas da favela iam ficar com inveja. E que ela ia rezar todos os dias para a mulher ser feliz. Que ela vai ensinar a boneca a rezar. E vai leva-la na missa para ela rezar para a mulher ir para o céu e não ter doença que dói muito.

27 DE DEZEMBRO ...Eu cancei de escrever, adormeci. Despertei com uma voz chamando Dona Maria. Fiquei quieta, porque não sou Maria. A voz dizia:

—Ela disse que mora no numero 9.

Levantei de mau humor e fui atender. Era o senhor Dario. Um senhor que eu fiquei conhecendo na eleição. Eu mandei o senhor Dario entrar. Mas fiquei com vergonha. O vaso noturno estava cheio.

...O senhor Dario ficou horrorizado com a primitividade em que eu vivo.

Ele olhava tudo com assombro. Mas ele deve aprender que a favela é o quarto de despejo de São Paulo. E que eu sou uma despejada.

28 DE DEZEMBRO ...Eu acendi o fogo puis agua para esquentar e comecei lavar as louças e vasculhar as paredes. Encontrei um rato morto. Já faz dias que eu ando atrás dele. Armei a ratoeira. Mas quem matou ele foi uma gata preta. Ela é do senhor Antonio Sapateiro.

O gato é um sabio. Não tem amor profundo e não deixa ninguém escravisá-lo. E quando vai embora não retorna, provando que tem opinião.

Se faço esta narração do gato é porque fiquei contente dela ter matado o rato que estava estragando os meus livros.

29 DE DEZEMBRO Saí com o João e a Vera e o José Carlos. O João levou o radio para concertar. Quando eu ia na rua Pedro Vicente, o guarda do deposito chamou-me e disse-me para eu ir buscar uns sacos de papel que estavam perto do rio.

Agradeci e fui ver os sacos. Eram sacos de arroz que estavam nos armazéns e apodreceram. Mandaram jogar fora. Fiquei horrorizada vendo o

arroz podre. Contemplei as traças que circulavam, as baratas e os ratos que corriam de um lado para outro.

Pensei: porque é que o homem branco é tão perverso assim? Ele tem dinheiro, compra e põe nos armazéns. Fica brincando com o povo igual gato com rato.

30 DE DEZEMBRO ...Quando eu fui lavar as roupas encontrei com algumas mulheres que estavam comentando a coragem da Maria, companheira do baiano. Que se separaram e ela foi viver com outro baiano, seu visinho.

A lingua das mulheres é um pavio. Fica incendiando.

31 DE DEZEMBRO ...Eu passei a tarde escrevendo. Os meus filhos estavam jogando bola perto dos barracões. Os visinhos começaram a reclamar.

Quando é os filhos deles que brinca eu não digo nada. Eu não implico com as crianças, porque eu não tenho vidraça e a bola não estraga as paredes de tabuas.

...O José Carlos e o João estavam jogando bola. A bola do Tonico. A bola caiu no quintal do Vitor. E a mulher do Vitor furou a bola do menino. E os meninos começaram a chingar. Ela pegou um revolver e correu atrás dos meninos.

E se o revolver disparasse!

...Eu não vou deitar. Quero ouvir a corrida de São Silvestre. Eu fui na casa de um cigano que reside aqui. Condoeu-me vê-los dormindo no solo. Disselhe para vir no meu barracão a noite que eu ia dar-lhe duas camas. Se ele fosse durante o dia as mulheres iam transmitindo a novidade, porque aqui tudo é novidade.

Quando a noite surgiu, ele veio. Disse que quer estabelecer, porque quer por os filhos na escola. Que ele é viuvo e gosta muito de mim. Se eu quero viver ou casar com ele.

Abraçou-me e beijou-me. Contemplei a sua boca adornada de ouro e platina. Trocamos presentes. Eu dei-lhe doces e roupas para os seus filhos e ele deu-me pimenta e perfumes. A nossa palestra foi sobre arte e musica.

Disse-me que se eu casar com ele que retira-me da favela. Disse-lhe que

não me adapto a andar nas caravanas. Ele disse-me que é poética a existência andarilha.

Ele disse-me que o amor de cigano é imenso igual o mar. É quente igual o sol.

Era só o que me faltava. Depois de velha virar cigana. Entre eu e o cigano existe uma atração espiritual. Ele não queria sair do meu barraco. E se eu pudesse não lhe deixava sair. Convidei-lhe para vir ouvir o radio. Ele perguntou-me se sou sozinha. Respondi-lhe que eu tenho uma vida confusa igual um quebra-cabeça. Ele gosta de ler. Dei-lhe livros para ele ler.

Fui ver o aspecto do barracão. Ficou mais agradavel depois que ele armou as camas. O João foi chamar-me, dizendo que eu estava demorando.

A favela está agitada. Os favelados demonstram júbilo porque findaram um ano de vida.

Hoje uma nortista foi para o hospital ter filhos e a criança nasceu morta.

Ela está tomando soro. A sua mãe está chorando, porque ela é filha unica.

Tem baile na casa do Vitor.

1 DE JANEIRO DE 1959 Deixei o leito as 4 horas e fui carregar agua.

Fui lavar as roupas. Não fiz almoço. Não tem arroz. A tarde vou fazer feijão com macarrão. (...) Os filhos não comeram nada. Eu vou deitar porque estou com sono. Era 9 horas, o João despertou-me para abrir a porta. Hoje eu estou triste.

4 DE JANEIRO ...Antigamente eu cantava. Agora deixei de cantar, porque a alegria afastou-se para dar lugar a tristeza que envelhece o coração.

Todos os dias aparece um pobre coitado aqui na favela, encosta num parente e vão vivendo. O Ireno é um coitado que está com anemia. Procura a esposa. A esposa não lhe quer. (...) Ele disse-me que a sua sogra instiga a esposa contra ele.

Agora ele está na casa do irmão. Ele foi passar uns dias na casa da irmã.

Retornou-se. Disse-me que lhe jogavam indiretas por causa da comida.

O Ireno disse que já está descontente da vida. Porque a vida com saude já é tão pungente...

5 DE JANEIRO ...Está chovendo. Fiquei quase louca com as goteiras nas camas, porque o telhado é coberto com papelões e os papelões já apodreceram. As aguas estão aumentando e invadindo os quintais dos favelados.

6 DE JANEIRO Deixei o leito as 4 horas, liguei o radio e fui carregar agua. Que suplicio entrar na agua de manhã. E eu que sou frienta! Mas a vida é assim mesmo. Os homens estão saindo para o trabalho. Levam as meias e os sapatos nas mãos. As mães prendem as crianças em casa. Elas ficam ansiosas para ir brincar na agua. As pessoas de espirito jocoso dizem que a favela é a cidade nautica. Outros dizem que é a Veneza Paulista.

...Eu estava escrevendo quando o filho do cigano veio dizer-me que o seu pai estava chamando-me. Fui ver o que ele queria. Começou queixar-se que encontra dificuldades para viver aqui em São Paulo. Sai para procurar emprego e não encontra.

Disse que vai voltar para o Rio, porque lá é melhor para viver. Eu disselhe que aqui ganha-se mais dinheiro.

—No Rio ganha mais — afirmou — Lá eu benzia crianças, vendia carne e ganhava muito dinheiro.

Percebi que o cigano quando conversa com uma pessoa, fala horas e horas. Até a pessoa oferecer dinheiro. Não é vantagem ter amisade com cigano.

...Quando eu ia sair, ele disse-me para eu ficar. Saí e fui no emporio.

Comprei arroz, café e sabão. Depois fui no Açougue Bom Jardim comprar carne.

Cheguei no açougue, a caixa olhou me com um olhar descontente. —Tem banha?

—Não tem.

—Tem carne?

—Não tem.

Entrou um japonês e perguntou:

—Tem banha?

Ela esperou eu sair para dizer-lhe:

—Tem.

Voltei para a favela furiosa. Então o dinheiro do favelado não tem valor?

Pensei: hoje eu vou escrever e vou chingar a caixa desgraçada do Açougue Bom Jardim.

Ordinaria!

7 DE JANEIRO ...Hoje eu fiz arroz e feijão e fritei ovos. Que alegria!

Ao escrever isto vão pensar que no Brasil não há o que comer. Nós temos. Só que os preços nos impossibilita de adquirir. Temos bacalhau nas vendas que ficam anos e anos a espera de compradores. As moscas sujam o bacalhau. Então o bacalhau apodrece e os atacadistas jogam no lixo, e jogam creolina para o pobre não catar e comer. Os meus filhos nunca comeu bacalhau. Eles pedem:

—Compra, mamãe!

Mas comprar como! a 180 o quilo. Espero, se Deus ajudar-me, antes deu morrer hei de comprar bacalhau para eles.

8 DE JANEIRO ...Encontrei com o motorista que veio despejar a serragem aqui na favela. Convidou-me para entrar no caminhão. O motorista loiro perguntou-me se aqui na favela é facil arranjar mulher. E se ele podia ir no meu barracão. O motorista disse-me que ele ainda estava em forma. O ajudante dizia que o motorista já havia aposentado.

Despedi do motorista e voltei para a favela. Acendi o fogo, lavei as mãos e comecei fazer comida para os filhos.

10 DE JANEIRO ...O senhor Manoel veio. Era 8 horas. Perguntou-me se eu ainda converso com o cigano. Respondi que sim. Que ele tem terreno em Osasco e que se acabar a favela e eu não tiver onde ir, poderei ir para o seu terreno. Que ele admira a minha disposição e se pudesse vivia ao meu lado.

O senhor Manoel zangou-se e disse-me que não retorna mais. Que eu posso ficar com o cigano.

O que eu admiro no cigano é a calma e a compreensão. Coisa que o senhor Manoel não possue. (...) O senhor Manoel disse-me que não mais

aparece. Vamos ver.

11 DE JANEIRO ...Não estou gostando do meu estado espiritual. Não gosto da minha mente inquieta. O cigano está perturbando-me. Mas eu vou dominar esta simpatia. Já percebi que ele quando me vê fica alegre. E eu também. Eu tenho a impressão que eu sou um pé de sapato e que só agora é que encontrei o outro pé.

Ouvi falar varias coisas dos ciganos. E ele não tem as más qualidades que propalam. Parece que este cigano quer hospedar-se no meu coração.

No inicio receei a sua amisade. E agora, se ela medrar para mim será um prazer. Se regridir, eu vou sofrer. Se eu pudesse ligar-me a ele!

Ele tem dois filhos. O menino acompanha-me sempre. Se eu vou lavar roupas, ele vai comigo, senta ao meu lado. Os meninos da favela tem inveja quando me vê agradando o menino. Agradando o filho, hei de conseguir o pai.

O nome do cigano é Raimundo. Nasceu na capital da Bahia. Mas não usa peixeira. Ele parece o Castro Alves. Suas sobrancelhas unem-se.

12 DE JANEIRO ...Fiz a janta. E dei jantar as crianças. A Rosalina surgiu. Veio buscar um pouco de feijão. Eu dei.

O senhor Raimundo chegou. Veio chamar os filhos. Olhou as crianças jantando. Eu lhe ofereci jantar. Ele não quiz. Pegou uma sardinha e perguntou se tinha pimenta. Não ponho pimenta na comida por causa das crianças.

Pensei: se eu estivesse sozinha dava-lhe um abraço. Que emoção que eu sentia vendo-o ao meu lado. Pensei: se algum dia eu for exilada e este homem indo na minha companhia, ele há de suavizar o castigo.

Mandei a Rosalina comer sardinha. Dei-lhe o feijão. O Raimundo disseme que vai embora para a sua casa. E que se um dia a favela acabar, para eu procurá-lo. Fez o mesmo convite a Rosalina. Eu não apreciei. Não foi egoismo.

Foi ciume. Ele saiu e eu fiquei pensando. Ele não estaciona. É o seu sangue cigano. Pensei: se algum dia este homem for meu, hei de prendê-lo ao meu lado.

Quero apresentar-lhe o mundo de outra forma.

14 DE JANEIRO ...Circulei pelas ruas. Fui na Dona Julita. Fui na Cruz Azul receber o dinheiro das latas. Cheguei em casa antes da chuva. O senhor Raimundo mandou sua filha chamar-me. Troquei-me e fui atendê-lo. Ele disseme que vai para Volta Redonda. Creio que vou sentir saudades. (...) Despedi-me dele dizendo que precisava escrever e que não podia demorar.

15 DE JANEIRO ...Deixei o leito as 4 horas e fui carregar agua. Liguei o radio para ouvir o programa de tango.

...O senhor Manoel disse que não vinha mais e apareceu. Ele penetrou na agua para chegar até o meu barracão. Resfriou-se.

Hoje eu estou contente. Ganhei dinheiro. Contei até 300! Hoje eu vou comprar carne. Atualmente quando o pobre come carne fica rindo atoa.

16 DE JANEIRO ...Fui no Correio retirar os cadernos que retornaram dos Estados Unidos. (...) Cheguei na favela. Triste como se tivessem mutilado os meus membros. O The Reader Digest devolvia os originais. A pior bofetada para quem escreve é a devolução de sua obra.

Para dissipar a tristeza que estava arroxeando a minha alma, eu fui falar com o cigano. Peguei os cadernos e o tinteiro e fui lá. Disse-lhe que tinha retirado os originais do Correio e estava com vontade de queimar os cadernos.

Ele começou citar as suas aventuras. Disse que vai para Volta Redonda. E

vai ficar na casa da jovem de 14 anos que está com ele. Se a menina saía para brincar, ele ia procurá-la, olhando-lhe com cuidados. Eu não apreciava os seus olhares com a jovem. Pensei: o que será que ele quer com esta jovem?

Os meus filhos entravam dentro do barracão. Ele estava deitado no assoalho. Eu perguntei-lhe se usava peixeira.

—Não. Prefiro um bom revolver como este.

Mostrou-me um revolver 32. Eu não simpatiso com revolver.

Deu o revolver ao João para segurar. Disse-lhe:

—Você é homem. E o homem precisa aprender lidar com essas coisas.

Recomendou-lhe para não dizer nada a ninguém, que ele não quer que o

povo da favela saiba que ele tem revolver.

—Eu mostro para a sua mãe porque ela gosta de mim. E mulher quando gosta de um homem não lhe denuncia. Quando eu era soldado eu comprei este revolver.

—O senhor já foi soldado?

—Já. Na Bahia. Deixei a farda porque ganhava muito pouco.

Mostrou-me o seu retrato fardado. Quando eu ia levantando-me para sair, ele dizia:

—É cedo!

Ele mandou fazer café. A mocinha disse que não tinha açúcar. Eu mandei o João buscar o açúcar e manteiga. Ele mandou o seu filho comprar 6 cruzeiros de pão. Disse:

—Eu nunca comi sem carne. Nunca comi pão sem manteiga. E aqui neste barracão eu comi. Este barracão deu-me peso.

O seu filho retornou-se com o pão. O José Carlos entrou e começou a brigar com o seu filho. Ele disse para eles não brigar, que todos somos irmãos. O

José Carlos protestou-se:

—Eu não sou irmão dele não!

—Vocês são irmãos por parte de Adão e Eva.

Ele segurou o José Carlos nos braços, obrigando a deitar-se ao seu lado no assoalho. O José Carlos desvencilhou-se e saiu para a rua.

Eu puis o olhar no caderno e comecei a escrever. Quando ergui a cabeça o seu olhar estava pousado no rosto da mocinha. Não gostei do seu olhar histérico.

...O meu pensamento começou a desvendar a sordidez do cigano. Ele tira proveito da sua beleza. Sabe que as mulheres se ilude com rostos bonitos. Ele atrai as mocinhas, dizendo que casa com elas. Satisfaz seus desejos e depois manda elas ir embora. (...) Agora eu compreendia os seus olhares com a mocinha. Isto me serve de advertência. Nunca hei de deixar a Vera na casa de quem quer que seja.

Olhei o rosto do cigano. O rosto bonito. Mas fiquei com nojo. Era um

rosto de anjo com alma de diabo. (...) Vim para o meu barraco. Eu estava pondo os cadernos em cima da mesa, quando senti que alguém me pegava pelas costas.

Era o cigano que me abraçava. Beijou-me na boca. Os seus braços me apertavam tanto. Disse-me:

—Eu vou-me embora. Deixo as minhas roupas. Você lave-as para mim.

Quando eu voltar dou-te uma maquina de costura. Eu não faço conta de dinheiro.

Sei que você vai pensar em mim e sei que você vai sentir falta de mim. Sei que vou ser hospede do teu coração. E você ainda vai ter oportunidade de dormir nos meus braços.

Enquanto ele me abraçava, eu pensava: este diabo devia estar era na cadeia. Eu sentei na cama, ele sentou-se ao meu lado. Eu fechei a janela e continuamos beijando-nos. O meu carinho representava interesse para descobrir suas atividades. Ele disse-me:

—Eu venho dormir aqui. Nós dois dormimos nesta cama e a minha irmã dorme no quartinho.

—Eu não durmo com ninguém perto dos meus filhos.

Ele olhou-me e disse-me:

—Você é boba. As crianças quando deitam dormem logo.

Ele saiu. Estava preocupado com a mocinha que ele dizia que era sua irmã, não querendo perdê-la de vista. Percebi que ele já está habituado a seduzir as mocinhas.

Ele vivia mechendo com elas. Estava interessado na Dirce. Ele não conseguio a Dirce porque ela não lhe viu de perto. Porque a sua beleza é igual o mel atraindo as abelhas.

Ele prometeu voltar. Quero apresentá-lo a Dona Lei. Eu fui chamar o José Carlos. O cigano estava na janela. A Pitita aproximou-se e disse-lhe:

—Você é muito bonito, mas parece que não gosta disso!

Ela ergueu o vestido. Ela estava sem calça!

As crianças olharam e ficaram serias. O unico que sorriu foi o cigano.

(...) Fiz a janta e fui procurar a Vera. Ela estava lá no emporio com o cigano, que comprou doces e mortadela para os seus filhos e os meus filhos. Mandou o José Carlos dizer que não vinha dormir aqui. Fiquei contente.

O senhor Manoel chegou. Percebeu que eu estava nervosa. Foi-se embora. Eu deitei nervosa com o José Carlos, que ainda estava na rua. Dormi até meia-noite. Despertei, pensei no filho que ainda estava na rua. Hoje eu estou descontente. O José Carlos chegou. Eu disse-lhe que não ia abrir-lhe a porta.

Que dormisse na rua. Ele sentou-se nos degraus. Depois começou a chorar.

Resolvi abrir-lhe a porta. Era 2 horas. Dei-lhe banho, esquentei comida para ele, ele foi deitar-se. Eu não adormeci porque estava super-nervosa. Estou decidida: quando o cigano voltar, hei de apresentá-lo a Dona Lei. Dizem que cigano não pode ficar parado. Mas a Dona Lei há de fazer ele estacionar uma temporada atrás das grades. Ele há de ter tempo para pensar e repensar no que disse-me:

—Você é boba!

Ele prometeu trazer-me um presente. E eu prometo dar-lhe um: a masmorra.

17 DE JANEIRO Deixei o leito as 4 horas, quando ouvi o radio do visinho tocando. Comecei escrever. Liguei o radio para ouvir o amanhecer do tango. Despertei pensando no cigano, que é pior do que o negro. Não aconselho ninguém a fazer amizade com eles.

Acendi o fogo, lavei as louças e fui carregar agua. (...) Encontrei com o senhor Adelino, perguntei pelo cigano.

—Ele brigou com o meu cunhado. Ele dizia que é baiano e o meu cunhado respondia. — Quem é baiano sou eu!

...Eu fui na Dona Julita. Ela deu-me comida, eu esquentei e comi. Acabei de comer, fiquei triste. E que a comida de lá é muito forte. Sopa, carne e outras iguarias. Quando o pobre come uma comida forte, dá tontura.

A Dona Julita me disse que eu estava triste por causado cigano.

20 DE JANEIRO Passei o dia na cama. Vomitei bilis e melhorei um pouco. Fui carregar agua. O João ficou contente. Perguntou-me se eu estou melhor. (...) Fiquei com tontura, deitei novamente.

...Os filhos estão com receio de eu morrer. Não me deixam sozinha.

Quando um sai, outro vem vigiar-me. Dizem:

—Eu quero ficar perto da senhora, porque quando a morte chegar eu dou uma porretada nela.

Eles estão tão comportados. Ficam confabulando:

—Se ela morrer nós vamos para o Juiz[42].

O José Carlos perguntou-me se a gente vê a morte chegar. A Vera me mandou cantar.

...O José Carlos foi na feira catar qualquer coisa. Catou milho, tomate e beringelas. Eu almocei, fiquei mais disposta. Quando eu dou um gemido os filhos choram com medo do Juiz. O José Carlos disse-me:

—Sabe, mamãe, quando a morte chegar eu vou pedir para ela deixar nós crescer e depois ela leva a senhora.

...Para tranquilizá-los eu disse que não ia morrer mais. Ficaram alegres e foram brincar. O senhor Manoel chegou. Veio ver se eu melhorei. Fiquei contente com a visita.

3 DE FEVEREIRO Tenho de dizer que eu não escrevi nos dias que decorreram porque eu fiquei doente. Vou recapitular o que ocorreu comigo nestes dias. (...) A Fernanda veio e perguntou-me se eu sei onde está o cigano. E

a mesma coisa que ela perguntar-me onde é a casa do vento.

Disse que ele é muito bonito e que ela ia lá comprar pimenta só para vê-lo.

Durante os dias que eu estive doente o senhor Manoel não me deixou sem dinheiro.

...O senhor Manoel disse-me que o cigano faz muito bem em seduzir as mocinhas de 14 anos. Elas dá confiança.

Estes dias eu fiz umas poesias:

Não pensas que vais conseguir

o meu afeto novamente

o meu odio vai evoluir

criar raizes e dar semente.

15 DE FEVEREIRO Hoje eu estou mais animada. Estou rindo.

Achando graça do sururu que houve aqui na favela. Esta noite a Leila começou insultar o baiano senhor Valdomiro. Chingou até as 2 horas. Ele resolveu espancá-la. Foi no seu barracão, arrebentou a porta. Quando a Leila foi saltar prendeu um pé no peitoril da janela.

...Hoje o tal Orlando Lopes veio cobrar a luz. Quer cobrar ferro, 25

cruzeiros. Eu disse-lhe que não passo roupas. Ele disse-me que sabe que eu tenho ferro. Que vai ligar o fio de chumbo na luz e se eu ligar o ferro a luz queima e ele não liga mais. Disse que ligou a luz para mim e não cobrou deposito.

—Mas o deposito já foi abolido desde 1948.

Ele disse que pode cobrar deposito porque a Light deu-lhe plenos poderes. Que ele pode cobrar o que quiser dos favelados.

16 DE FEVEREIRO ...Quando eu dirigia-me para casa vi varias pessoas olhando na mesma direção. Pensei: é briga! Corri para ver o que era. Era o Arnaldo e o baiano. O Arnaldo apanhava igual uma criança. Interferi e procurei separá-los. A Juana do Binidito Onça veio auxiliar-me. Vários homens olhavam e ninguém interferia. O baiano deu duas cacetadas no Arnaldo.

...Surgiu o Armim, que disse que ia matar o baiano. Tentei impedi-lo, segurando-lhe o braço. Ele deu-me um empurrão. Eu deixei ele ir, mas gritava:

—Não vai, que o baiano te mata!

Resolvi chamar a Policia. Saí correndo. Creio que corria mais

depressa do que o Manoel Faria[43]. Cheguei na 12ª Delegacia gritando: Briga na favela! Estão brigando a foice!

...Eu estava com nojo de retomar a favela. Mas precisava voltar, porque havia deixado os meus filhos.

Quando eu descia para o Inferno, as mulheres dizia:

—A Policia já desceu.

Quando cheguei na favela o povo me olhava. A Dona Sebastiana

chingava. Estava embriagada. Dizia que ela degolava o baiano. Eu dizia para ela não chegar, que ela ia morrer. Ela começou a chingar-me:

—Negra ordinaria! Você não é advogada, não é repórter e se mete em tudo!

O povo gritava. O baiano fugiu.

...Surgiu o Antonio, vulgo Bonitão. Pediu-me se eu tinha uma calça para emprestar-lhe, porque ele havia molhado quando saiu correndo atrás do baiano.

(...) Comecei a procurar a calça para o Bonitão. Dei-lhe a calça e saí. Fui no barraco do Arnaldo perguntar se ele havia retornado da Central, porque ele e o Armim havia ido na Assistência.

23 DE FEVEREIRO Na rua o povo perguntava o que houve na favela.

Eu explicava. (...) Eu estava impaciente porque não sabia o paradeiro do baiano.

Eu queria que ele se entregasse a Policia. Quando cheguei na favela os comentários ferviam. O povo dizia que o Armim tinha morrido.

...Fui na Estação do Norte. O baiano surgiu. Perguntou-me pela sua esposa, disse-lhe que estava comigo. Que ele podia ir para a favela que ninguém ia lhe fazer mal. Ele disse-me que estava sem comer. Dei-lhe 25 cruzeiros.

Perguntou se o Armim tinha morrido.

—Não. Está em Pirituba.

Ele disse pesaroso:

—Ah! Eu não presto. Está se vendo que eu não faço o serviço completo.

Esta historia de machucar só e não matar logo, só serve para arranjar inimigo. Eu não conheço o homem que eu dei a foiçada. Eu não quero ficar lá, porque ele há de querer me matar e a Policia há de querer me prender.

—Mas você tem que prestar declarações na Policia. Se você for preso e eu estiver perto, hei de favorecer-te.

29 DE ABRIL Hoje eu estou disposta. O que me entristece é o suicidio do senhor Tomás. Coitado. Suicidou-se porque cansou de sofrer com o custo da vida.

Quando eu encontro algo no lixo que eu posso comer, eu como. Eu não

tenho coragem de suicidar-me. E não posso morrer de fome.

Eu parei de escrever o Diário porque fíquei desiludida. E por falta de tempo.

1 DE MAIO Deixei o leito as 4 horas. Lavei as louças e fui carregar agua. Não havia fila. Não tenho radio, não vou ouvir o desfile. (...) Hoje é o Dia do Trabalho.

2 DE MAIO ...Ontem eu comprei açúcar e bananas. Os meus filhos comeram banana com açúcar, porque não tinha gordura para fazer comida.

Pensei no senhor Tomás que suicidou-se. Mas, se os pobres do Brasil resolver suicidar-se porque estão passando fome, não ficaria nenhum vivo.

3 DE MAIO Hoje é domingo. Eu vou passar o dia em casa. Não tenho nada para comer. Hoje eu estou nervosa, desorientada e triste. Tem um purtuguês que quer morar comigo. Mas eu não preciso de homem. Eu já lhe supliquei para não vir aborrecer-me.

...Hoje o Frei veio rezar a missa na favela. Ele pois nome na favela de Bairro do Rosário. Vem varias pessoas ouvir a missa. No sermão o padre pede ao povo para não roubar.

...O senhor Manoel chegou e começamos a conversar. Falei de uma menina de um ano e meio que não pode ver ninguém mover a boca, que pergunta:

— O que é que você está comendo?

E a ultima filha do Binidito Onça. Percebi que a menina vai ser inteligente.

4 DE MAIO Deixei o leito as 6 horas, porque o senhor Manoel quando dorme aqui não deixa eu levantar cedo.

...Eu não nasci ambiciosa. Recordei este trecho da Biblia: “Não acumules tesouros, porque lá estará o teu coração.”

Sempre ouvi dizer que o rico não tem tranquilidade de espirito. Mas o pobre também não tem, porque luta para arranjar dinheiro para comer.

5 DE MAIO Escrevi até as 2 horas. Depois fui carregar agua. Enchi a barrica e as latas. Fiz uma trempe de tropeiro e puis agua a ferver para pelar o porco. Comecei pensar no que ia preparar: chouriço, lombo assado e couro de porco no feijão. Fiquei contente. Eu ia comer carne, na realidade. Comecei cantar, cantei.

...Fiquei pensando: quanto tempo que eu não como carne de porco. Fui ver se o senhor Manoel estava em casa para matar o porco. Não estava. Fiquei nervosa. (...) Chegou o irmão do senhor Manoel, dono do porco. Vinha buscar a sua parte. Eu engordei o porco a meia. (...) Encontrei com o Orlando Lopes. Pedi se ele podia matar o porco para mim. Disse que sim. Eu voltei alegre.

O Orlando surgiu. Foi até o chiqueiro, olhou o porco. Assim que o porco lhe viu, deu um ronco. Ficou agitado. Comecei a agradá-lo, mas ele estava agitado. O Orlando amarrou-lhe uma corda no pé. Retiraram o porco para fora.

O Orlando deu-lhe uma punhalada. Vendo o sangue correr, peguei uma bacia para aproveitá-lo para fazer chouriço. Contemplava o extertor do porco, que não queria exalar o último suspiro. O Orlando deu-lhe outra facada. Esperamos ele morrer. Os minutos passavam.

Eles pelaram e quando abriram o porco eu fiquei contente. A criançada invadiu o quintal. As mulheres surgiram dizendo que queriam um pedaço. O

Chiclé queria as tripas.

Eu não vou vender nem dar. Eu engordei este porco para os meus filhos.

Eles protestavam. Surgiu a Maria mãe da Analia, pediu se eu podia vender um pedaço de toucinho.

—Não vou vender. Quando você engordou e matou o teu porco, eu não fui aborrecer-te.

Ela começou dizer que queria só o toucinho. Perpassei o olhar no povo que fitava o toucinho igual a raposa quando fita uma galinha. Pensei: e se eles invadir o quintal? Resolvi levar o toucinho para dentro de casa o mais depressa possível. Fitei as tabuas do barraco, que já estão podres. Se eles invadir, adeus barraco.

Juro que fiquei com medo dos favelados.

A Vera não foi no parque porque queria ver matar o porco.

Os filhos retornaram da escola e perguntaram:

—Mamãe, a senhora matou o porco?

—Matei.

—O Ninho disse que foi 3 facadas e 2 pauladas.

Os meus sorriam. Eu também. Dei uns pedaços para o Orlando e para o senhor Antonio Sapateiro. Fiz bifes para os filhos. A carne estava em cima da mesa. Cobri com um pano. O João disse:

—Parece uma pessoa morta.

Eu disse:

—Eu vou lavar a barrigada e você não sai daqui, por causa dos gatos.

A Vera acompanhou-me. Eu fui lavar na lagoa. O José Carlos surgiu, ensinei-lhe a virar as tripas. A Vera sorria vendo a agua circular dentro da tripa do porco. O José Carlos perguntava se o nosso corpo é igual o corpo do porco.

Afirmei que o interior do porco é igual ao do homem.

—Então o porco já foi homem?

—Não sei.

...Voltei para casa porque estava cançada. Percebi que a Maria estava com inveja por eu ter matado o porco. A Vera queria jantar, fiz arroz e ela comeu com carne. O João moeu o toucinho. Eu puis para fritar.

...O João adormeceu. Fiquei olhando seus pés sujos que estavam pendendo da cama. Lavei os meus braços e o meu rosto que estava gorduroso.

Escovei 05 dentes e fui deitar. Era 2 horas da manhã.

6 DE MAIO ...As 9 e meia o repórter surgiu. Bradei:

—O senhor disse que estaria aqui as 9 e meia e não atrasou-se!

Disse-lhe que varias pessoas queriam vê-lo, porque apreciam as suas

reportagens. (...) Entramos num taxi. A Vera estava contente porque estava de carro. Descemos no Largo do Arouche e o repórter começou fotografar-me.

Levou-me no prédio da Academia Paulista de Letras. Eu sentei na porta e puis o saco de papel a esquerda. O porteiro apareceu e disse para eu sair da porta. (...) O porteiro pegou o meu saco de catar papel, o saco que para mim tem um valor inestimável, porque é por seu intermédio que eu ganho o pão de cada dia. O

repórter surgiu e disse que foi ele quem me mandou eu sentar no degrau. O

porteiro disse que não tinha permissão para deixar que quem quer que fosse sentar-se na porta do prédio.

...Fomos na Rua 7 de Abril e o repórter comprou uma boneca para a Vera. (...) Eu disse aos balconistas que escrevi um diário que vai ser

divulgado no O Cruzeiro[44].

7 DE MAIO ...Lavei todas as roupas. Jurei nunca mais matar porco na favela. Eu estou tão nervosa que recordei o meu provérbio: não há coisa pior na vida do que a própria vida.

Favela, sucursal do Inferno, ou o proprio Inferno.

Para o jantar fiz feijão, arroz e carne. A Vera está tão contente porque temos carne! Quando as crianças me vê, pedem:

—Carolina, me dá carne!

Cães e gatos rondam o meu barracão. Eu estou cançada. Vou deitar.

Adormeci. Despertei com o Adalberto, que está ebrio. Batia no barraco e pedia:

—Carolina, me dá um pedaço de carne de porco!

Que odio! E eu com tanto sono! Fiquei ouvindo ele cantar. Depois adormeci novamente. Despertei com algo que passeava por cima das cobertas.

Acendi a luz. Era um gato. Não mais deitei. Fiquei escrevendo até o raiar do dia.

Quando ouvi aquele homem que passa dizendo:

—Olha o pão doce!

8 DE MAIO ...Fiz arroz e lombo de porco, porque não tenho feijão.

Tomei banho e trocava-me para ir na cidade. Quando eu ia saindo a Vera penetrou-se e disse que não tinha expediente no Parque.

Antes de sair recordei que devia dar comida para a cachorrinha. Olhei ela, que estava deitada. Dei-lhe um pedaço de carne e tentei despertá-la. Ela estava morta.

Morreu de tanto comer carne.

...Fui no Juiz. Receber o dinheiro que o pai da Vera me dá por intermédio do Juizado. (...) O advogado não quiz me dar a Ficha.

—Sem a ficha eu não atendo!

E bateu a porta no meu rosto. Fui falar com o advogado que o Dr. Walter não queria atender-me sem a ficha. Ele mandou um guarda acompanhar-me e disse-me:

Continuar: parte 7 de 7