Quarto de despejo: diário de uma favelada

Carolina Maria de Jesus · Capítulo 1 de 3 · parte 5/7

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Quarto de despejo: diário de uma favelada

Quarto de despejo - Diário de um Favelada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

Atualmente é difícil para pegar agua, porque o povo da favela duplica-se.

E a torneira é só uma.

13 DE AGOSTO ...Vieram queixar-se que a Zefa brigou com uma nortista e discutiram. Os calões entraram em ação. Eu só tenho dó das crianças que ouvem os impropérios. A Zefa é mulata. É bonita. É uma pena não saber ler.

Só que ela bebe muito. Ela teve duas filhas, e bebia muito. Esquecia de alimentar as crianças, e elas morreram.

...Eu mandei o João levar um bilhete no Circo Irmãos Mello pidindo se aceitava-me para cantar. Depois fui lavar as roupas. Eu estava preparando para ir no circo quando ouvi rumores que o Anselmo havia atirado no João Coque. Eu estava escrevendo, esperando o arroz secar. Guardei o caderno e fiquei girando, procurando o João. Encontrei ele sentado no campo da Purtuguesa, segurando as pernas com uma mão e a bola na outra. Perguntei-lhe se já tinha ido chamar a Policia. Ele disse-me que sim.

Queixou-se que a perna estava sem ação. Ele tentou calçar o sapatos e encontrou dificuldades. Dei-lhe os meus chinelos. Os curiosos aglomeraram.

Não havia comentários. O povo chingava o Anselmo. Vou contar quem é o Anselmo. Depois relato quem é o João.

O Anselmo apareceu aqui em 1950 com uma mulher que estava gravida.

Quando a mulher deu a luz, um menino, ele começou maltratá-la. Ela estava de dieta e ele lhe expancava e lhe expulsava de casa. Ela chorava tanto que o leite secou. (...) Agora impricou com o João porque ele está namorando a Iracema. E

O barracão da Iracema é perto do barraco do Anselmo. E o João conversa com a noiva perto da casa do Anselmo, que não quer. Deu ordem ao João para ir namorar perto do rio.

...O João estava na sua casa tomando café quando o Anselmo lhe chamou para conversar. O João disse-lhe que havia chegado do trabalho e não podia atendê-lo. Ia entrando quando o Anselmo lhe atirou. Ele não viu o Anselmo puchar a arma. O Anselmo visava o peito. Mas a bala atingiu a perna.

O Anselmo fugiu.

...O povo diz que vai reunir para expancar o Anselmo. (...) O João foi fazer curativo na Central e retornou-se. Perguntei-lhe se havia tomado anestesia.

Disse-me que tomou só ingeção contra o teto.

E assim é mais um processo para a Delegacia.

14 DE AGOSTO ...O Ditinho filho da Nena é um veterano da favela.

Mas é um pelado. Não aprendeu ler. Não aprendeu um ofício. Só aprendeu beber pinga. A Nena tinha um barracão na Rua do Porto. Bem construído. Mas o Tiburcio tapeou a pobre Nena. Trocou os barracões. Deu-lhe um mal construido e ficou com o dela. Depois, ele vendeu por quinze mil cruzeiros.

...Fui até o Deposito, ganhei 15 cruzeiros. Passei no sapateiro, para mandar ele concertar os sapatos da Vera. Fiquei percorrendo as ruas. Estava nervosa, porque estava com pouco dinheiro, e amanhã é feriado. Uma senhora que regressava da feira disse-me para eu ir buscar papéis na rua Porto Seguro, no prédio da esquina, 4 andar, 44.

Subi no elevador, eu e a Vera. Mas eu estava com tanto medo, que os minutos que permaneci dentro do elevador pareceu-me séculos. Quando cheguei no quarto andar respirei aliviada. Tinha a impressão que estava saindo de um tumulo. Toquei a campainha. Surgiu a dona da casa e a criada. Ela deu-me um saco de papéis. Os dois filhos dela conduziu-me no elevador. O elevador em vez de descer, subiu mais dois andares. Mas eu estava acompanhada, não tive receio.

Fiquei pensando: a gente fala que não tem medo de nada, as vezes tem medo de algo inofensivo.

No sexto andar o senhor que penetrou no elevador olhou-me com repugnância. Já estou familiarisada com estes olhares. Não entristeço.

Quiz saber o que eu estava fazendo no elevador. Expliqueis lhe que a mãe dos meninos havia dado-me uns jornaes. Era este o motivo da minha presença no elevador. Perguntei-lhe se era medico ou deputado. Disse-me que era senador.

O homem estava bem vestido. Eu estava descalça. Não estava em condições de andar no elevador.

Pedi ao jornaleiro para ajudar-me a por o saco nas costas, que o dia que eu estivesse limpa eu lhe dava um abraço. Ele sorriu e disse-me:

—Então já sei que vou morrer sem receber o teu abraço, porque você nunca está limpa.

Ele ajudou-me por os papéis na cabeça. Fui na fabrica, depois fui no senhor Rodolfo. Ganhei mais 20 cruzeiros. Depois fiquei cançada. Voltei para casa. Estava tão cançada que não podia ficar de pé. Tinha a impressão que ia morrer. Eu pensava: se eu não morrer, nunca mais hei de trabalhar assim. Eu estava com falta de ar. Ganhei 100 cruzeiros.

...Fui deitar-me. As pulgas não me deixou em paz. Eu já estou cançada desta vida que levo.

15 DE AGOSTO ...Eu ia catar esterco para levar na casa da Ivani, quando vi um caminhão na Rua A, parado na porta do Anselmo. A Florenciana e a Dona Lurdes vinha avisar o João Coque que o Anselmo ia mudar-se. Para ele ir chamar a policia. Ele não pode andar porque levou o tiro na perna. Eu fui.

Em cinco minutos a noticia circulou que eu tinha ido telefonar para a policia, para impedir a mudança do Anselmo. Eu cheguei antes da Policia e os favelados, assim que me viram perguntaram:

—Cadê a Policia, Carolina?

Se eu guardasse todo o dinheiro que já gastei telefonando para a Radio Patrulha, eu podia comprar um quilo de carne!

...O povo estava esperando o Anselmo aparecer para lhe expancar.

Reuniram homens e mulheres para o bate-fundo.

...Ouvi dizer que o Anselmo pulou a cerca e saiu pelo fundo. Eu disse que eu queria ser homem, porque assim eu podia quebrar e bater. Então um homem respondeu:

— Eu queria ser mulher, mas só de dia.

E todos sorriram.

...O Lalau e a sogra brigaram. Ela deu-lhe com o cabo da tesoura. Ela corria e lhe perseguia. Estavam bebados.

16 DE AGOSTO Passei na sapataria. O senhor Jacó estava nervoso.

Dizia que se viesse o comunismo ele havia de viver melhor, porque o que a fabrica produz não dá para as despesas.

Antigamente era os operarios que queria o comunismo. Agora são os patrões. O custo de vida faz o operario perder a simpatia pela democracia.

O saco de papéis estava muito pesado e um operário ajudou-me erguê-lo.

Estes dias eu carreguei tanto papel que o meu ombro esquerdo está ferido.

Quando eu passava na Avenida Tiradentes, uns operários que saíam da fabrica disse-me:

—Carolina, já que você gosta de escrever, instiga o povo para adotar outro regime.

Um operario perguntou-me:

—E verdade que você come o que encontra no lixo?

—O custo de vida nos obriga a não ter nojo de nada. Temos que imitar os animaes.

17 DE AGOSTO ...Quando eu fui almoçar fiquei nervosa porque não tinha mistura. Comecei ficar nervosa. Vi um jornal com o retrato da deputada Conceição da Costa Neves, rasguei e puis no fogo. Nas épocas eleitoraes ela diz que luta por nós.

18 DE AGOSTO ...As segundas-feiras eu não gosto de perder. Saio cedo porque encontra-se muitas coisas no lixo. Saí com a Vera. Eu tenho tanto dó da minha filha!

Fui na Dona Julita, peguei papel. Ganhei 55 cruzeiros. O que é que se compra com 55 cruzeiros?

Fiquei nervosa. Quando cheguei em casa deitei porque eu catei uns trinta quilos de ferros e latas. E conduzi na cabeça. Depois que eu descansei fui na

Rosalina pedir o carrinho para levar os ferros no deposito. Ela emprestou-me e eu carreguei o carrinho. Eu estava com frio. Fui recebida com alegria pelo senhor Manoel. Pesamos o material e eu recebi 191 cruzeiros.

Passei na Padaria Guiné e comprei uma guaraná e bananas. Puis a Vera no carrinho. Quando cheguei na favela estava moida. O João disse-me:

—Já que a senhora tem dinheiro, podia mandar arrancar o meu dente, porque está doendo.

Mandei ele vestir-se e lavar os pés.

Eu ia sair suja. Depois pensei: é melhor trocar-me. Troquei-me. Saí as pressas. Quando ia na rua Felisberto de Carvalho ouvi dizer que havia briga. Fui ver. Era a Meiry, a Pitita, o Valdemar e o Armim. O purtuguês tripeiro já havia terminado a venda dos miúdos e ia para casa. Ele conhece a Meiry e parou para conversar

Surgiu o Valdemar e lhe pediu a bicicleta para dar umas voltas. O

purtuguês respondeu:

—Quer bicicleta, compra.

E assim começou a troca de insultos. O Valdemar está habituado a dar nos favelados, deu um tapa no purtuguês. O purtuguês deu um soco no Valdemar e jogou-lhe no chão. O Armim foi a favor do Valdemar e jogou um tijolo no rosto do purtuguês, que caiu e a carteira caiu-lhe do bolso. Quando as faveladas viram a carteira ficaram loucas. E avançaram todos ao mesmo tempo para pegar a carteira. Quando cheguei perto da Ana do Tiburcio perguntei o que houve, ela começou explicar-me. E a Isabel sorria e dizia:

—Parecia chuva de dinheiro!

Eu corri e passei perto do Valdemar e do Armim que estavam Sorrindo como se tivessem praticado um ato nobre. De longe eu vi o purtuguês que estava cheio de sangue. E o Valdemar disse:

—Não foi nada, D. Carolina.

Eu disse para o Armim:

—Dá o dinheiro do purtuguês.

Ele respondeu-me:

—Eu não sei de nada!

Quando eu cheguei perto do purtuguês, a Meiry estava lhe entregando a carteira. E o purtuguês dizia:

—Está faltando dinheiro.

Tinha uma moça branca perto da Meiry. que lhe chamava:

—Vamos, Meiry.

O purtuguês deu um pouco de carne para a Meiry. Era um coração.

...Fui levar o João no dentista. Vi uma placa na rua Itaqui, 2. Dentista. Dr.

Paulo de Oliveira Porto.

Toquei a campanhinha e entrei. Uma senhora veio atender-me. Eu sentei para esperar. Mas estava aflita por causa dos filhos que haviam ficado sosinho. O

Dr. Paulo veio atender e eu disse-lhe que ele é o dentista que está mais perto da favela e queria que extraísse um dente do meu filho João. O João sentou-se na cadeira.

—Quanto é, doutor?

—Cem cruzeiros!

Achei o preço exagerado. Mas ele já estava sentado na cadeira.

Abri a bolsa e sentei. E comecei contar as notas de 5. Separei 20 notas de 5.

19 DE AGOSTO Eu não dormi. Saí do leito nervosa. Fui carregar agua.

O soldado Flausino disse-me que a C. era amante do pai. Que ela havia dito que ia com o pai e ganhava 50 cruzeiros.

Eu contei na torneira e as mulheres disseram que havia desconfiado.

Dia a dia a vida dos favelados piora com a fila de agua.

...A Vera estava alegre porque eu comprei uma alpargata para ela. De manhã ela havia chorado porque estava com os sapatos furados.

20 DE AGOSTO Saí e fui catar papel. Não conversei com ninguém.

Encontrei com o fiscal da Prefeitura que brinca com a Vera dizendo que ela é sua namorada. E deu-lhe 1 cruzeiro e pediu-lhe um abraço.

Penetrou um espinho no meu pé e eu parei para retirá-lo. Depois amarrei um pano no pé. Catei uns tomates e vim para casa. Agora eu estou disposta.

Parece que trocaram as peças do meu corpo. Só a minha alma está triste.

...Cheguei no ponto final do Canindé. Passei na COAP para comprar arroz. O mais barato, que já está velho e com gosto de terra.

21 DE AGOSTO ...Fiz café e mandei os filhos lavar-se para ir na escola.

Depois saí e fui catar papel. Passei no Frigorífico e a Vera foi pedir salchicha.

Ganhei só 55 cruzeiros. Depois voltei e fiquei pensando na minha vida. O Brasil é predominado pelos brancos. Em muitas coisas eles precisam dos pretos e os pretos precisam deles. (...) Quando eu estava preparando para fazer o jantar ouvi a voz da Juana que pediu-me alho. Dei-lhe 5 cabeças. Depois fui fazer o jantar e não tinha sal. Ela deu-me um pouco.

22 DE AGOSTO Deixei o leito as 5 horas e fui carregar agua. A fila já estava enorme. Eu tinha só 4 cruzeiros e um litro. Fui no senhor Eduardo, ele ficou com o litro e os 4 cruzeiros e deu-me um pão. Eu achei pequeno, mas o dinheiro era pouco.

...Fiz café e preparei os filhos para ir a escola. Fui catando papel. Catei estopas para vender. Passei numa casa da Avenida Tiradentes e levei 50 quilos de papel que uma senhora deu-me para vender para ela. Levei na cabeça e vendi.

Deu 100 cruzeiros Ela ficou alegre.

...Tem dia que eu invejo a vida das aves. Eu ando tão nervosa que estou com medo de ficar louca.

23 DE AGOSTO ...Hoje não tem aula porque é dia de reunião das professoras com os pais. Eu pretendo ir. Saí e levei os três filhos. Hoje eles estão distintos. Não estão brigando. Até eu estou mais calma. Noto transformação em mim.

Passei no Frigorifico para pegar os ossos. No inicio eles nos dava

linguiça. Agora nos dá osso. Eu fico horrorisada vendo a paciência da mulher pobre que contenta com qualquer coisa.

As crianças ficam contente porque ganham salchicha. Eu segui e fui para o deposito. Encontrei umas latas, ocultei no mato. Quando eu atravessava a linha do trem, olhei para ver se surgia algum trem e vi a Dona Armanda. Perguntei-lhe se o seu filho Aldo havia deixado um caderno para mim.

...Havia tanto papel nas ruas, que ganhei 100 cruzeiros. Comprei sanduiche para os filhos. Eles gostam de andar comigo porque compro algo para eles comer. A mãe está sempre pensando que os filhos estão com fome.

...Lavei as louças e varri o barraco. Depois fui deitar. Escrevi um pouco.

Senti sono, dormi. Acordei varias vezes na noite, com as pulgas que penetra nas nossas casas, sem convite.

24 DE AGOSTO ...Fui lavar roupas. O sabão era pouco. A Dona Dolores deu-me uns pedaços. Eu comecei sentir tonturas, porque estava com fome.

...Fui na Chica. Ela disse-me que o Policarpo veio brigar com a esposa porque ela deu parte dele no Juiz.

...A Dorça disse-me que o peixeiro que o Armim e o Valdemar já assaltaram, jogou um saco no rosto do Valdemar, e enquanto ele procurava livrar-se do saco, ele lhe arrebatou o porrete das mãos e vibrou-lhe umas cacetadas, e eles correram.

O João e o José Carlos foram no cinema da igreja do Pari. Hoje eu estou indisposta. Lavei as roupas de qualquer geito porque não sei se amanhã eu amanheço doente.

Não sei qual é o desgraçado que entra no barracão para roubar. Porque sumiu a minha machadinha.

25 DE AGOSTO Fui buscar agua e fiz café. Não comprei pão. Não tinha dinheiro. Eu ia levar os filhos, vi uma menina que ia na aula, perguntei-lhe se ia ter aula. Disse-me que sim. Eu vesti o José Carlos, e o João foi do geito que estava. Prometi levar-lhe um lanche. E saí com a Vera. Não havia papéis nas ruas porque apareceu outro homem para catar. Achei ferros e metaes.

26 DE AGOSTO ...Cheguei na favela e esquentei a comida. Estava indisposta. Almocei e deitei. Adormeci. Que sono gostoso! Sem sonho, sem pesadelos.

Despertei com a voz da baiana que estava chingando os meus filhos e jogando pedras nas crianças. Aqui na favela ninguém lhe dá confiança porque ela briga por causa de criança. Fui falar com a Dona Alice. Que estou muito triste. Ela disse-me que a Pitita estava brigando com um senhor e disse-lhe que a mãe dele é pior do que a galinha. (...) O homem deu parte e a policia veio procura-la. E ela fugiu.

27 DE AGOSTO ...A Dona Irene deu-me jornaes. Vendi, ganhei 30

cruzeiros. Vendi uns jornaes para uma professora. Ganhei 40 cruzeiros. Ela deu-me 20. Eu ganhei mais 5. Fiquei com 55. Passei na Fabrica (...) para catar uns tomates. Cheguei em casa e pedi o carrinho da Rosalina emprestado e fui buscar madeira para fazer o chiqueiro. Levei a Vera e o José Carlos. Depois fiquei vagabundando. Depois que eu trabalho e ganho dinheiro para os meus filhos, vou descançar. É um descanço justo.

28 DE AGOSTO Fui carregar agua. Que fila! Quando eu vejo a fila de latas fico desanimada de viver. Deixei as latas na fila e vim fazer café. Despertei o João. Ele abluiu-se e foi comprar pão. Eu lavei as louças e desinfetei o José Carlos. Troquei-lhe, dei-lhe café. Eles foram para a escola. Eu fui buscar agua.

Havia querelas por causa de umas passar na frente das outras.

30 DE AGOSTO ...Passei no Frigorífico, ganhei ossos. Cheguei no deposito, ganhei 10 cruzeiros. Depois circulei pela rua Porto Seguro. Encontrei com aquele moço loiro, alto e bonito. O tipo de homem que as mulheres gostam de abraçar. Ele trabalha no Transporte. Ele

parece o Nelson Edy[30]. Ele parou para comprimentar-me.

Fui no senhor Eduardo comprar querosene, oleo, e tinta para escrever.

Quando eu pedi o tinteiro, um homem que estava perto perguntou-me se eu sabia ler. Disse-lhe que sim. Ele pegou o lapis e escreveu: A senhora é casada? Se não for quer dormir comigo?

Eu li e entreguei-lhe, sem dizer nada.

31 DE AGOSTO ...Dizem que vai ter baile por causa do batisado da menina da Leila. Estão cantando e bebendo.

1 DE SETEMBRO ...Eu fui na feira, comprei uma laranja. Cheguei em casa a Vera estava no quintal. Dei-lhe uma sova.

2 DE SETEMBRO Acendi o fogo e esquentei comida para os filhos porque não tinha dinheiro para comprar pão. Troquei os filhos que foram para a escola. E eu saí com a Vera. Quase fiquei louca. Porque havia pouco papel na rua. Agora até os lixeiros avançam no que os catadores de papéis podem pegar.

Eles são egoístas. Na rua Paulino Guimarães tem um deposito de ferro. Todos os dias eles põe o lixo na rua, e lixo tem muito ferro. Eu catava os ferros para vender. Agora, o carro que faz a coleta, antes de iniciar a coleta vem na rua Paulino Guimarães e pega o lixo e põe no carro. Nogentos. Egoístas. Eles ja tem emprego, tem hospital, farmacia, médicos. E ainda vende no ferro velho tudo que encontra no lixo. Podia deixar os ferros para mim.

...Passei a tarde arranjando as latas. Depois fui na Bela Vista buscar um caixote. Quando eu passava perto do Frigorífico o caminhão de ossos estava estacionado. Pedi uns ossos para o motorista. Ele deu-me um que eu escolhi.

Tinha muita gordura.

...Fiz a sopa e comecei escrever. A noite surgiu. O João jantou-se e deitou-se. Puis a Vera no berço. O José Carlos estava na rua, com medo de apanhar, porque ele é muito porco. Sujou a camisa de barro. Eu fiz um chiqueiro e vou por ele morando com o porco. Hão de dar-se bem.

A Pitoca passou na rua convidando o povo para ir ver o cineminha. Chamou o João. Eu disse que ele já estava dormindo. Fui ver o cineminha. Era desenho da Igreja.

No Play Boy[31] que o Adhemar pois aqui para as crianças, a noite são os marmanjos que brincam. O Bobo fazia tanto barulho que deturpava o espetáculo.

Os favelados pizam no fio eletrico que liga a maquina. E a maquina desligava.

Os proprios favelados falam que favelado não tem iducação. Pensei: vou escrever.

Quando eu voltava encontrei com o Paulo que vive com a Dona Aurora.

Ela tem uma filha mulata clara. Ela diz que a filha é filha do Paulo. Mas, as feições não condiz.

...Eu durmi. E tive um sonho maravilhoso. Sonhei que eu era um anjo.

Meu vistido era amplo. Mangas longas cor de rosa. Eu ia da terra para o céu. E

pegava as estrelas na mão para contemplá-las. Conversar com as estrelas. Elas organisaram um espetáculo para homenagear-me. Dançavam ao meu redor e formavam um risco luminoso.

Quando despertei pensei: eu sou tão pobre. Não posso ir num espetáculo, porisso Deus envia-me estes sonhos deslumbrantes para minh’alma dolorida. Ao Deus que me proteje, envio os meus agradecimentos.

3 DE SETEMBRO Ontem comemos mal. E hoje pior.

8 DE SETEMBRO ...Hoje eu estou alegre. Estou rindo sem motivo. Estou cantando. Quando eu canto, eu componho uns versos. Eu canto até aborrecer da canção. Hoje eu fiz esta canção:

Te mandaram uma macumba

e eu já sei quem mandou

Foi a Mariazinha

Aquela que você amou

Ela disse que te amava

Você não acreditou.

9 DE SETEMBRO Não houve aula porque o presidente da Italia[32] vai chegar em São Paulo. Não saí porque está chovendo. (...) Passei o dia escrevendo. E a tarde fiz uma sopa de feijão com arroz.

14 DE SETEMBRO ...Hoje é o dia da pascoa de Moysés. O Deus dos judeus. Que libertou os judeus até hoje. O preto é perseguido porque a sua pele é da cor da noite. E o judeu porque é inteligente. Moysés quando via os judeus descalços e rotos orava pedindo a Deus para dar-lhe conforto e riquesas. É por isso que os judeus quase todos são ricos.

Já nós os pretos não tivemos um profeta para orar por nós.

18 DE SETEMBRO Hoje eu estou alegre. Eu estou procurando aprender viver com o espirito calmo. Acho que é porque estes dias eu tenho tido o que comer.

...Quando eu vi os empregados da Fabrica (...) olhei os letreiros que eles trazem nas costas e escrevi estes versos:

Alguns homens em São Paulo

Andam todos carimbados

Traz um letreiro nas costas

Dizendo onde é empregado.

19 DE SETEMBRO ...No Frigorífico eles não põe mais lixo na rua por causa das mulheres que catavam carne podre para comer.

20 DE SETEMBRO ...Fui no emporio, levei 44 cruzeiros. Comprei um quilo de açúcar, um de feijão e dois ovos. Sobrou dois cruzeiros. Uma senhora que fez compra gastou 43 cruzeiros. E o senhor Eduardo disse:

—Nos gastos quase que vocês empataram.

Eu disse:

—Ela é branca. Tem direito de gastar mais.

Ela disse-me:

—A cor não influi.

Então começamos a falar sobre o preconceito. Ela disse-me que nos Estados Unidos eles não querem negros nas escolas.

Fico pensando: os norte-americanos são considerados os mais civilisados do mundo e ainda não convenceram que preterir o preto é o mesmo que preterir o sol. O homem não pode lutar com os produtos da Natureza. Deus criou todas as raças na mesma epoca. Se criasse os negros depois dos brancos, aí os brancos podia revoltar-se.

23 DE SETEMBRO ...Fui na Dona Julita. Ela deu-me comida. Ela está nervosa porque o senhor João está doente. Ele disse que não odeia os que lhe lesaram. Que ele ficando pobre viu muitas nobresas nas pobresas.

Percebi que entre os ricos há sempre uma divergência por questões de dinheiro. Não posso esclarecer estas questões porque sou pobre como rato.

25 DE SETEMBRO ...Não dormi por estar exausta. Pensei até que ia morrer. Eu tenho impressão que estou num deserto. Tem hora

que eu odeio o repórter Audalio Dantas[33]. Se ele não prendesse o meu livro eu enviava os manuscritos para os Estados Unidos e já estava socegada.

Levantei-me duas vezes para matar os pernilongos.

...Quando eu estava conversando com a Chica a companheira do Policarpo chamou-me. Eu não fui. Ela dirigiu-se para o interior de sua casa e voltou com uma intimação e entregou-me. Para eu ir no Gabinete de Investigação amanhã, dia 26 e levar o João.

É que no dia 8 de julho de 1958 ela disse-me que o meu filho João de 11 anos havia tentado violentar a sua filha. Eu não vi porque eu estava trabalhando. E ela não apresentou testemunha.

26 DE SETEMBRO ...Preparei o almoço para os filhos. Eles chegaram da escola, almoçaram e eu troquei-me e fui no Gabinete. Levei os filhos. (...) No Gabinete resolveram alugar um automovel para nos conduzir até a Rua Asdrubal do Nascimento.

...Nós éramos sete pessoas no carro. Condoeu-me ver uma jovem que nos acompanhava. Ela disse-me que faz um ano que sua mãe faleceu. Que o seu pai lhe dirige uns olhares que lhe apavora. E que ela tem medo de ficar com ele em casa.

...Chegamos na Rua Asdrubal do Nascimento. (...) Eu fui falar com uma senhora que queria saber o que ocorria com o João.

Ela perguntou ao João se ele sabia o que era fazer porcaria. Ele disse que sabia.

E se ele havia feito porcaria na menina. Ele disse que não.

A funcionaria que interrogava parou de escrever e leu uns papéis. (...) Ela prosseguiu o seu interrogatório. Usava o calão com o menino. E as perguntas obcenas, querendo que o menino descrevesse e relatasse os prazeres sexuaes.

Achei o interrogatório horroroso. A Vera e o José Carlos ficaram perto para ouvir o que a mulher dizia. Quando a funcionaria falava eu tinha a impressão que estava na favela.

30 DE SETEMBRO ...Eu estou a espera do oficial de Justiça senhor Feliciano Godoy. Ele deu-me umas intimações para distribuir aqui na favela. A Isabel não foi porque quem bebe não obedece. Ela fez as pazes com o negro dela.

Para ela, hoje é dia de amor.

3 DE OUTUBRO Deixei o leito as 5 horas porque quero votar. (...) Na ruas só se vê cédulas pelo chão. Fico pensando nos desperdícios que as eleições acarreta no Brasil. Eu achei mais difícil votar do que tirar o titulo. E havia fila. A Vera começou chorar dizendo que estava com fome. O presidente da mesa disseme que nas eleições não pode levar crianças. Respondi que não tinha com quem deixá-la.

4 DE OUTUBRO Eu deixei o leito indisposta porque eu não dormi. O

visinho é ademarista roxo e passou a noite com o radio ligado.

...Passei no Frigorifico para pegar ossos. Graças as eleições havia muito

papel nas ruas. Os rádios estão transmitindo os resultados

eleitoraes. As urnas favorece o senhor Carvalho Pinto[34].

7 DE OUTUBRO Morreu um menino aqui na favela. Tinha dois meses.

Se vivesse ia passar fome.

12 DE OUTUBRO ...Houve briga aqui na favela porque o homem que está tomando conta da luz quer 30 cruzeiros por bico. A conta da agua atinge só 1.100 e ele quer cobrar 25 de cada barracão.

...Já faz tanto tempo que estou no mundo que eu estou enjoando de viver.

Também, com a fome que eu passo quem é que pode viver contente?

16 DE OUTUBRO ...Vocês já sabem que eu vou carregar agua todos os dias. Agora eu vou modificar o inicio da narrativa diurna, isto é, o que ocorreu comigo durante o dia.

17 DE OUTUBRO Eu fiz os meus deveres e saí com a Vera. Fui na Dona Julita buscar a cama que ela deu-me. Ela está mais alegre porque o seu esposo está melhorando. Enquanto eu estava conversando com a Dona Julita dentro de casa dois meninos carregaram a cama.

Corri e alcancei os meninos e tomei a cama. (...) Levei a cama e fui vender para um judeu que compra moveis usados. Ele examinou a cama e disse:

—Eu dá 20.

—É pouco! A cama vale mais!

—Eu dá 25.

—É pouco! A cama vale mais!

—Eu dá 30.

—É pouco! A cama vale mais!

—Eu dá 35.

—É pouco! A cama vale mais!

—Eu dá 40. Mais não dá.

Eu já estava começando a ficar nervosa com o nosso dialogo.

Ele deu 40 e eu fui embora e parei no portão para observar a Vera que queria mais dinheiro. E dizia:

—Se o senhor não dá mais dinheiro eu levo a cama.

O judeu deu um tapa no rosto da Vera e ela começou chorar. Ele disseme:

—A senhora dá um cruzeiro para ela, porque eu não tenho trocado.

...Depois que eu jantei fiquei indisposta e fui deitar. Sonhei.

No sonho eu estava alegre.

22 DE OUTUBRO ...O Orlando veio cobrar a água — 25 cruzeiros. Ele disse-me que não admite atraso com ele. Dei o jantar aos filhos, eles foram deitar-se e eu fui escrever. Não podia escrever socegada com as cenas amorosas que se desenrolavam perto do meu barracão.

Pensei que iam quebrar a parede!

Fiquei horrorizada porque a mulher que estava com o Lalau é casada.

Pensei: que mulher suja e ordinaria! Homem por homem, mil vezes o esposo.

Creio que um homem só chega para uma mulher. Uma mulher que casou-se precisa ser normal.

Esta historia das mulheres trocar-se de homens como se estivesse trocando de roupa, é muito feio. Agora uma mulher livre que não tem compromissos pode imitar o baralho, passar de mão em mão. 23 DE OUTUBRO ...O Orlando vivia fazendo biscate. Agora que passou a ser o encarregado da luz e da água deixou de trabalhar. De manhã ele senta lá na torneira e fica dando palpites. Eu penso: ele perde, porque a lingua

das mulheres da favela é de amargar. Não é de ossos, mas quebra ossos.

Até o Lacerda perde para as mulheres da favela!

24 DE OUTUBRO ...Eu fiz café e mandei o José Carlos comprar 7

cruzeiros de pão. Dei-lhe uma cédula de 5 e 2 de aluminio, o dinheiro que está circulando no paíz, Fiquei nervosa quando contemplei o dinheiro de aluminio. O

dinheiro devia ter mais valor que os generos. E no entretanto os generos tem mais valor que o dinheiro.

Tenho nojo, tenho pavor

Do dinheiro de aluminio

O dinheiro sem valor

Dinheiro do Juscelino.

...Eu descancei, fiz a sopa de lentilha com arroz e carne. Mandei o João comprar meio quilo de açúcar, o burro comprou arroz.

Ele passa o dia lendo Gibi e não presta atenção em nada. Vive pensando que é o homem invisível, Mandraque e outras porcarias.

25 DE OUTUBRO ...A favela hoje está em festa. Vai ter uma procissão.

Os padres enviaram uma imagem de Nossa Senhora. Quem quer, a imagem permanece 15 dias em cada barracão. Hoje estão rezando o terço na praça. A procissão vaiaté o ponto do bonde.

No barraco da Chica estão dançando.

28 DE OUTUBRO ... A I. separou-se do esposo e está morando com a Zefa. O esposo dela encontrou ela com o primo. Agora a I. veio comercializar o seu corpo, na presença do esposo. Penso: a mulher que separa-se do esposo não deve prostituir-se. Deve procurar um emprego. A prostituição é a derrota moral de uma mulher. É como um edifício que desaba. Mas tem mulher que não quer ser só de um homem. Quer ser dos homens. É uma unica dama, dançando quadrilha com vários homens. Sai dos braços de um, vai para os braços de outro.

A Dona Maria Preta trouxe a filha para eu desinfetá-la. Ela está com

boqueira.

29 DE OUTUBRO Deixei o leito as 6 horas. Fiquei nervosa porque não dormi. Passei a noite concertando o telhado por causa das goteiras. Concertava de um lado, pingava de outro.

Quando chove eu fico quase louca porque não posso ir catar papel para arranjar dinheiro.

...Eu sinto muito frio. Costumo vestir três palitó. E tem pessoas que me vê nas ruas e diz:

—Como você engordou!

Já se foi o tempo que a gente engordava.

A mulher do Zé Baiano primo do Ramiro contou-me e pediu-me para eu não dizer nada a ninguém que o José lhe expulsou de casa. Que já faz 20 dias que eles não falam.

Eu disse para ela fazer as pazes, que o José é muito bom.

30 DE OUTUBRO ...Saí com a Vera. Notei anormalidade porque a Policia está nas ruas. Fui conversar com um servidor municipal. Ele queixou-se que pagou 5 cruzeiros de ônibus.

Eu segui. Olhando os paulistas circular pelas ruas com a fisionomia triste. Não vi ninguém sorrir. Hoje pode denominar-se o dia da tristeza.

Eu comecei fazer as contas quando levar os filhos na cidade quanto eu vou gastar de bonde. 3 filhos e eu, 24 cruzeiros ida e Volta. Pensei no arroz a 30

o quilo.

Uma senhora chamou-me para dar-me papéis. Disse-lhe que devido o aumento da condução a policia estava nas ruas. Ela ficou triste. Percebi que a noticia do aumento entristece todos. Ela disse-me:

—Eles gastam nas eleições e depois aumentam qualquer coisa. O

Auro[35] perdeu, aumentou a carne. O Adhemar perdeu, aumentou as passagens.

Um pouquinho de cada um, eles vão recuperando o que gastam. Quem paga as despezas das eleições é o povo!

31 DE OUTUBRO Fui carregar agua. Que bom! Não tem fila. Porque está chovendo. Vi as mulheres da favela agitadas e falando. Perguntei o que havia. Disseram que o Orlando Lopes, o atual dono da luz havia espancado a Zefa. E que ela deu parte e de foi preso. Perguntei para o Geraldino se era verdade. Afirmou que sim.

...A Nena disse que o Orlando bateu na Zefa para valer. Eu fui catar papel. A Vera passou no Frigorífico para pedir a salchicha. Ganhei 106 cruzeiros.

A Vera ganhou 6 cruzeiros, porque ela entrou num bar para pedir agua e pensaram que ela estava pedindo esmola.

...O Povo está dizendo que o Dr. Adhemar elevou as passagens para vingar do povo porque lhe preteriram nas urnas.

Quando cheguei em casa os filhos já estavam em casa. Esquentei a comida. Era pouca. E eles ficaram com fome.

...Nos bondes que circulam vai um policial. E nos ônibus também. O

povo não sabe revoltar-se. Deviam ir no Palacio do Ibirapuera[36] e na Assembléia e dar uma surra nestes politicos alinhavados que não sabem administrar o país.

Eu estou triste porque não tenho nada para comer.

Não sei como havemos de fazer. Se a gente trabalha passa fome, se não trabalha passa fome.

Várias pessoas estão dizendo que precisamos matar o Dr. Adhemar. Que ele está prejudicando o paiz. Quem viaja quatro vezes de

ônibus contribui com 600,00[37] para a C.M.T.C. Deste geito, ninguém mais pode.

...De manhã, quando eu ia saindo o Orlando e o Joaquim Paraiba vinham voltando da prisão.

1 DE NOVEMBRO ...Achei um saco de fubá no lixo e trouxe para dar ao porco. Eu já estou tão habituada com as latas de lixo, que não sei passar por elas sem ver o que há dentro.

Hoje eu vou catar papel porque sei que não vou encontrar nada. Tem um velho que circula na minha frente.

Ontem eu li aquela fabula da rã e a vaca[38]. Tenho a impressão que sou

rã. Queria crescer até ficar do tamanho da vaca.

...Percebi que o povo continua achando que devemos revoltar contra os preços dos generos e não atacarmos só a C.M.T.C. Quem lê o que o Dr. Adhemar disse nos jornais que foi com dor no coração que assinou o aumento, diz:

—O Adhemar está enganado. Ele não tem coração.

—Se o custo de vida continuar subindo até 1960 vamos ter revolução!

2 DE NOVEMBRO Fui lavar roupas e permaneci no rio até as sete e meia. A Dorça foi lavar roupas e ficamos conversando sobre as poucavergonhas que ocorrem aqui na favela. Falamos da Zefa que apanha todos os dias. Falei das mulheres que não trabalham e estão sempre com dinheiro. Falamos do namoro do Lalau com a Dona M. E a dona M. diz que ele namora é com a Nena. A Nena é boba.

Lavei as roupas de cor e vim fazer café. Pensei que tinha café. Não tinha.

...A coisa que eu tenho pavor é de entrar no quartinho onde durmo, porque é muito apertado. Para eu varrer o quarto preciso desarmar a cama. Eu varro o quartinho de 15 em 15 dias.

...O almoço ficou pronto e os filhos não vieram almoçar. O João desapareceu. Percebi que ele foi no cinema. Eu almocei um pouquinho. Peguei um livro para eu ler. Depois senti frio. Fui sentar no sol. Achei o sol muito quente, fui sentar na sombra. (...) Conversei com um senhor. Disse-lhe que circula um boato que a favela vai acabar porque vão fazer avenida. Ele disse que não é pra já. Que a Prefeitura está sem dinheiro.

...O João chegou do cinema. Dei-lhe uma surra e ele saiu correndo.

3 DE NOVEMBRO ...Catei uns ferros. Deixei um pouco no deposito e outro pouco eu trouxe. Quando passei na banca de jornais li este slogan dos estudantes:

Juscelino esfola!

Adhemar rouba!

Jânio mata!

A Gamara apoia!

E o povo paga!

...Parei na linha do trem para pegar umas latas porque eu havia deixado perto da gurita e pedi ao guarda para guardar. O guarda perguntou quanto eu ia receber das latas. Respondi que era 300,00. Que já estou farta de biscates. Ele disse que antes isso do que nada. Eu disse-lhe que as latas de oleo eram a 70,00 e agora está a 60,00. Ele disse:

—Em vez de subir, desce.

Disse que a vida está muito cara. Que até as mulheres estão caras. Que quando ele quer dar uma f... as mulheres quer tanto dinheiro que ele acaba desistindo.

Fingi que não ouvi, porque eu não falo pornografia. Saí sem agradecê-lo.

Dei um banho nos filhos. Eles foram deitar-se. E eu fui lavar as louças.

Depois fui escrever. Senti canceira e sono. Fui deitar. Matei umas pulgas que estava circulando na cama e deitei. E não vi mais nada.

Dormi umas três horas seguidas. Despertei com a voz do Joaquim Paraiba, que estava reclamando que arrumou uma namorada que não quer namorar no escuro. Só lhe namora durante o dia, e a noite perto da luz.

Penso:

—Ele não está com boas intenções com a namorada.

4 DE NOVEMBRO ...Fui catar papel. (...) Quando eu voltava parei numa banca de jornais. Vi um homem chingando os policiais de burros. No clichê, um policial expancava um velho. O jornal dizia

que era um policial do DOPS[39] . Resolvi tomar o bonde e ir para casa. (...) Fomos falando do Dr.

Adhemar, unico nome que está em evidencia por causa do aumento das conduções. O homem disse-me que os nossos políticos são carnavalescos. Eu acho que o Dr. Adhemar está revoltado. E resolveu ser enérgico com o povo para demonstrar que ele tem força para nos castigar.

Eu acho que os espíritos superiores não se vingam.

...Cheguei em casa cançada e com dor no corpo. Encontrei a Vera na rua.

O bendito João, o meu filho manequim, não presta atenção em nada. O barraco estava aberto e os sapatos espalhados pelo assoalho. Ele não pois fogo no feijão.

(...) Era 6 e meia quando o João apareceu. Mandei ele acender o fogo. Depois dei-lhe uma surra. Com uma vara e uma correia. E rasguei-lhe os Gibis desgraçados. Tipo da leitura que eu detesto.

5 DE NOVEMBRO ...Passei no emporio, vendi um litro para o senhor Eduardo por 3 cruzeiros para pagar o ônibus. Quando cheguei no ponto de ônibus encontrei com o Toninho da Dona Adelaide. Ele trabalha na Livraria Saraiva. Disse-lhe:

— Pois é, Toninho, os editores do Brasil não imprime o que escrevo porque sou pobre e não tenho dinheiro para pagar. Por isso eu vou enviar o meu livro para os Estados Unidos. Ele deu-me vários endereços de editoras que eu devia procurar.

...Vinha pela rua catando os pedaços de ferro que encontrava. Passei na Dona Julita e pedi comida. Ela esquentou comida para mim. A dona Julita deu-me sopa, café e pão. Eu comi lá na Dona Julita. Era treis horas. Fiquei indisposta. Os moveis girando ao meu redor. É que o meu organismo não está habituado com reconfortantes.

...Preparei a sopa para os filhos. Eles dormiram antes da sopa cosinhar.

Quando ficou pronta despertei-lhes para comer. Jantamos e dormimos. Eu sonhei com a Dona Julita. Que havia dito para eu trabalhar para ela que ela pagava-me 4

mil cruzeiros por mes. Disse-lhe que eu ia internar os filhos. E levava só a Vera.

Despertei. Não adormeci mais.

Comecei sentir fome. E quem está com fome não dorme.

Quando Jesus disse para as mulheres de Jerusalem: — “Não Chores por mim. Chorae por vós” — suas palavras profetisava o inverno do Senhor Juscelino. Penado de agruras para o povo brasileiro. Penado que o pobre há de comer o que encontrar no lixo ou então dormir com fome.

Você já viu um cão quando quer segurar a cauda com a boca e fica rodando sem pegá-la?

E igual o governo do Juscelino!

6 DE NOVEMBRO ...Quando eu cheguei na Dona Julita era 8 e meia.

Ela deu-me café. A Vera começou a dizer que gostava de residir numa casa igual a da Dona Julita. Ela fez o almoço. E eu almocei. A Vera comia e dizia:

— Que comida gostosa!

A comida da Dona Julita me deixa tonta.

...Findo o serviço ela deu-me sabão, queijo, gordura e arroz. Aquele arroz agulha. O arroz das pessoas de posses.

8 DE NOVEMBRO ...Fui fazer compras no japonês. Comprei um quilo e meio de feijão, 2 de arroz e meio de açúcar, 1 sabão. Mandei somar. 100

cruzeiros. O açúcar aumentou. A palavra da moda, agora, é aumentou.

Aumentou!

Isto me faz lembrar esta quadrinha que o Roque fez e deu-me para eu incluir no meu repertório poético e dizer que é minha:

Político quando candidato

Promete que dá aumento

E o povo vê que de fato

Aumenta o seu sofrimento!

...Eu fui buscar o guarda-roupa velho. Quando cheguei para pegar o guarda-roupa, uma jovem que reside lá auxiliou-me a descer o guarda-roupa e deu-me um colchão.

Eu não conseguia travar o guarda-roupa no carrinho. O João já estava começando a ficar nervoso. Disse:

— Maldita hora que eu vim buscar este guarda-roupa!

O dono da loja de sapatos auxiliou-me a por o guarda-roupa no carrinho.

Caiu porque o carrinho deslisou-se. Tinha uns homens da Light trabalhando.

Surgiu um e deu-me uma corda. Comecei a amarrar. Mas não conseguia.

Começou afluir pessoas para ver-me. O João ficou nervoso com os olhares. Eu olhava os empregados da Light e pensava: no Brasil não tem homens! Se tivesse ageitava isto aqui para mim. Eu devia ter nascido no Inferno!

Eu puis o colchão dentro do guarda-roupa. Piorou. Os homens da Light olhavam a minha luta. E eu pensava: para olhar eles prestam. Pensei: eu não vim ao mundo para esperar auxilios de quem quer que seja. Eu tenho vencido tantas coisas sosinha, hei de vencer isto aqui! Hei de ageitar este guarda-roupa. Não estava pensando nos homens da Light. Eu estava suando e sentia o odor do suor.

Assustei quando ouvi uma voz no meu ouvido:

—Deixa, que eu ageito para a senhora.

Pensei: agora vai. Olhei o homem e achei ele bonito. Ele retirou o colchão de dentro do guarda-roupa e pois no carrinho. Depois pois o guarda-roupa por cima para não escorregar. Pegou a corda e amarrou. O João ficou contente e disse:

—Graças ao homem!

...Eu estava chingando o senhor Manoel quando ele chegou. Deu-me boa noite. Disse-lhe:

—Eu estava te chingando. O senhor ouviu?

—Não ouvi.

—Eu estava dizendo aos filhos que eu desejava ser preta.

—E você não é preta?

—Eu sou. Mas eu queria ser destas negras escandalosas para bater e rasgar as tuas roupas.

...Quando ele passa uns dias sem vir aqui, eu fico lhe chingando. Falo: quando ele chegar eu quero expancar-lhe e lhe jogar agua. Quando ele chega eu fico sem ação.

Ele disse-me que quer casar-se comigo. Olho e penso: este homem não serve para mim. Parece um ator que vai entrar em cena. Eu gosto dos homens que pregam pregos, concertam algo na casa.

Mas quando eu estou deitada com ele, acho que ele me serve.

...Fiz arroz e puis agua esquentar para eu tomar banho. Pensei nas palavras da mulher do Policarpo que disse que quando passa perto de mim eu estou fedendo bacalhau. Disse-lhe que eu trabalho muito, que havia carregado mais de 100 quilos de papel. E estava fazendo calor. E o corpo humano não presta.

Quem trabalha como eu tem que feder!

9 DE NOVEMBRO ...Preparei a refeição para os filhos e fui lavar roupas. Quem estava no rio era a Dorça e uma nortista que dizia que a nora estava em trabalho de parto. Há treis dias. E não conseguia hospital. Chamaram a Radio Patrulha para interná-la e ainda não havia dado solução. A velha dizia:

—São Paulo não presta. Se fosse no Norte era só chamar uma mulher, e pronto.

—Mas a senhora não está no Norte. Precisa providenciar hospital para a mulher.

O marido vende na feira. Mas não quer gastar com a esposa porque quer ir para o Norte e está ajuntando dinheiro.

12 DE NOVEMBRO Eu ia sair, mas estou tão desanimada! Lavei as louças, varri o barraco, arrumei as camas. Fiquei horrorisada com tantas pulgas.

Quando eu fui pegar agua contei para a D. Angelina que eu havia sonhado que tinha comprado um terreno muito bonito. Mas eu não queria ir residir lá porque era litoral e eu tinha medo dos filhos cair no mar.

Ela disse-me que só mesmo no sonho é que podemos comprar terrenos.

No sonho eu via as palmeiras inclinando-se para o mar. Que bonito! A coisa mais linda é o sonho.

Achei graça nas palavras da D. Angelina, que disse-me a verdade. O

povo brasileiro só é feliz quando está dormindo.

14 DE NOVEMBRO Deixei o leito às 5 horas e fui pegar agua. Era só homens que estavam na torneira. Ninguém falava. Enchiam as vasilhas e saíam.

Pensei: se fosse mulheres...

15 DE NOVEMBRO O dia surgiu claro para todos. Porque hoje não tem fumaça das fabricas para deixar o céu cinzento.

17 DE NOVEMBRO ...A I. e a C. estão começando a prostituir-se. Com os jovens de 16 anos. É uma folia. Mais de 20 homens atrás delas.

Tem um mocinho que mora na Rua do Porto. E amarelo e magro. Parece um esqueleto ambulante. A mãe lhe obriga a ficar só na cama, porque ele é doente e cança atoa. Ele sai com a mãe só para pedir esmola, porque o seu aspecto comove.

Aquele filho amarelo é o seu ganha pão.

Mas até ele anda atrás da I. e da C. Apareceu tantos jovens de 15 e 16

anos aqui na favela, que vou dar parte as autoridades

...Vi as moças da Fabrica de Doces, tão limpinhas. A I. c a C. podiam trabalhar. Ainda não tem 18 anos. São infelizes que iniciam a vida no lodo.

...Hoje eu estou triste. Deus devia dar uma alma alegre para o poeta.

...A Pitita saiu correndo e o seu esposo atrás. As crianças olham estas cenas com deleite. A Pitita estava semi-nua. E as partes que a mulher deve ocultar estava visivel. Ela correu, parou e pegou uma pedra. Jogou no Joaquim.

Ele desviou-se e a pedra pegou na parede, por cima da cabeça da Teresinha.

Pensei: esta nasceu de novo!

A Francisca começou dizendo que o Joaquim não prestava. Que é homem só para fazer filho. (...) A Leila gritou que a Pitita estava brigando com o Joaquim porque ele está dormindo com a I.

Continuar: parte 6 de 7