Quarto de despejo: diário de uma favelada

Carolina Maria de Jesus · Capítulo 1 de 3 · parte 7/7

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Quarto de despejo: diário de uma favelada

Quarto de despejo - Diário de um Favelada

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 7 partes.

—Muito bem, Carolina! Põe todo o mundo no Diário.

Acompanhei o guarda, que disse para o Dr. Walter Aymberê que devia atender-me sem a ficha.

—Não atendo! Se não trazer a ficha vou falar com o advogado chefe.

A Vera assustou-se e disse:

—Que homem! Porque é que a gente precisa de advogado, mamãe?

Eu disse para o guarda deixar. Eu vou embora. O Dr. Walter já está no meu Diário. Ele é muito grosseiro.

...Fui na Tesouraria para receber o dinheiro. Quando chegou a minha vez não encontrei o dinheiro. A Vera queria comprar um vestido. Eu disse-lhe que o seu pai não havia levado o dinheiro. Ela ficou triste e disse:

—Mamãe, o meu pai não presta!

10 DE MAIO Eu não dormi porque o visinho tocou o radio toda a noite.

E a L. fez um fuá dos diabos. Ela estava dormindo com o Valdemar quando o Arnaldo chegou. Era 2 horas. O Arnaldo dizia:

—Vai embora, Valdemar! A negra é minha!

O Valdemar respondia:

—A negra é nossa! Eu cheguei primeiro.

12 DE MAIO ...Eu fui na Dona Julita e ela deu-me café e arroz. Quando eu retornava encontrei com a Dona Maria, aquela que cata papel na fabrica de pudim. Ela disse-me que roubaram-lhe um saco de papel. Fiquei com dó.

Encontrei com o Capitão. Perguntei-lhe porque havia abandonado o seu lar. Ele disse-me com a voz triste:

—Sabe, Carolina, eu não pretendia deixar o meu lar. Mas a ingratidão da minha esposa obrigou-me a tomar esta decisão.

E contou-me o motivo. Eu disse-lhe:

—Ela não fez bom negocio trocando-te por outro.

Ele disse-me:

—Se eu continuasse no meu lar, um dia ou outro eu tinha que matar aquele canalha.

Eu acho que aquele homem que interferiu-se no lar do Capitão para destrui-lo não presta.

28 DE MAIO ...A vida é igual um livro. Só depois de ter lido é que sabemos o que encerra. E nós quando estamos no fim da vida é que sabemos como a nossa vida decorreu. A minha, até aqui, tem sido preta. Preta é a minha pele. Preto é o lugar onde eu moro.

29 DE MAIO ...O Adalberto errou o quarto. Em vez de entrar no dele entrou no quartinho da Aparecida. E os favelados queriam retirá-lo de lá, porque se o Negrão chegasse havia de espancá-lo. Eu fui retirá-lo de lá porque ele me obedece. Resolveu sair. Quando eu fui deitá-lo, ele disse:

—Sabe, Carolina, eu sou um homem infeliz. Depois que morreu Marina nunca mais ninguém me quiz.

Eu dei uma risada, porque percebi que ele havia falado e formado uma quadrinha. Parei de rir, porque a tristeza de sua voz comoveu-me. Marina foi uma mulher negra que viveu com ele. Bebia muito. E morreu tuberculosa com 21 anos.

1 DE JUNHO Hoje eu não fui trabalhar, porque a Vera e o José Carlos estão doentes. Eu fui vender uns ferros e um pouco de estopa. Ganhei só 31

cruzeiros.

2 DE JUNHO Hoje eu não vou sair porque os filhos ainda estão doentes. As quatro da manhã a Vera começou tussir. Levantei e fiz um mingau de fubá para ela.

3 DE JUNHO De manhã eu carreguei só um caldeirão com agua. Fiz café. Mandei o João comprar um tinteiro e duas agulhas. O José Carlos está melhor e vai para a escola. Eu deixei a Vera. Vou sair porque eu tenho só um pouquinho de feijão, sal e meio quilo de açúcar.

4 DE JUNHO ...O senhor Manoel chegou. Agora eu estou lhe tratando bem, porque percebi que gosto dele. Passei vários dias sem vê-lo e senti saudades. A saudade é amostra do afeto.

A Dona Adelaide veio trazer a minha blusa de lã e ficou admirada vendo o senhor Manoel dentro de casa. Ele é quieto. Fala baixinho e anda muito bem vestido. Ela me olhava e olhava ele. Ele com seus sapatos reluzentes. E eu suja parecendo um marginal de rua. Ela ficou horrorizada porque eu durmo com ele.

Ela me olhou com repugnância quando eu disse que ele vai me dar uma maquina de costura e um radio.

—O senhor é solteiro?

—Sou.

—Para a senhora ele está bem, porque ele é solteiro e a senhora também.

...Percebi que a sua intenção era diminuir-me aos olhos dele. Mas ela chegou tarde demais, porque a nossa amizade é igual uma raiz que segura uma planta na terra. Já está firme.

Dormi com ele. E a noite foi deliciosa.

5 DE JUNHO ...Quando cheguei em casa fiz sopa de aveia. A Vera chorou. Não queria comer aveia. Dizia:

—Eu não gosto.

Dei-lhe uma surra e ela comeu.

...Fomos deitar. As 10 da noite começou o espetáculo na favela.

Aparecida, a nova visinha, bebeu muito e começou a brigar com a Leila. Os homens da Leila queriam invadir o barracão dela. Ela foi chamar a cavalaria. O

Adalberto levantou-se para socorrer a Leila. Começou falar. Quando ouviram o tropel da cavalaria silenciaram.

O Euclides, o negro preto que mora com a Aparecida é horrivel quando bebe. Fala por cem.

—Eu dou tiro. Eu mato!

Quando ele parou de falar era 3 horas da manhã. O visinho ligou o radio.

Eu não dormi com o sururu da favela. Até as crianças despertaram. Ouvi no radio o desastre da Central.

De manhã o José Carlos disse que tinha vontade de ver um encontro de trens.

Eu disse-lhe;

—Não pense nisso. Coitados dos operários!

8 DE JUNHO ...Quando cheguei e abri a porta, vi um bilhete. Conheci a letra do repórter. Perguntei a Dona Nena se ele esteve aqui. Disse que sim. (...) O

bilhete dizia que a reportagem vai sair no dia 10, no Cruzeiro. Que o livro vai ser editado. Fiquei emocionada.

O senhor Manoel chegou. Disse-lhe que a reportagem vai sair 4ª feira e que o repórter quer levar o livro para imprimir.

—Eles ganham dinheiro nas tuas costas e não te pagam. Eles estão te embrulhando. Você não deve entregar-lhe o livro.

Eu não imprecionei com as ironias do senhor Manoel.

9 DE JUNHO ...Eu disse para a Mulata e a Circe que a reportagem vai sair amanhã.

—Eu vou gastar 15 cruzeiros para comprar o Cruzeiro e se eu não encontrar a reportagem, você me paga!

Eu disse para a Dona Celestina que a mulher do Coca-Cola disse que tudo que eu escrevo ela escreve também. A Dona Celestina disse que não sabe se ela escreve. Que eu, ela sabe que escrevo. ...Eu estava ensinando contas para os filhos quando bateram na janela. O

João disse:

—Mamãe, atende o homem de oculos.

Fui ver. Era o pai da Vera.

—Entra!

—Por onde entra aqui?

—Dá a volta.

Ele entrou. E perpassou o olhar pelo barracão. Perguntou:

—Você não sente frio aqui? Isto aqui não chove?

—Chove, mas eu vou tolerando.

—Você me escreveu que a menina estava doente, eu vim visitá-la.

Obrigado pelas cartas. Te agradeço porque você me protege e não revela o meu nome no teu diário.

Ele deu dinheiro aos filhos e eles foram comprar balas. Nós ficamos sozinhos. Quando os meninos voltaram a Vera disse que quer ser pianista. Ele sorriu:

— Então você quer ser granfina.

Ele sorriu porque os filhos dele são músicos. A Vera pediu um radio. Ele disse que dá um no Natal. Quando ele saiu eu fiquei nervosa. Depois cantei e fui comprar pão para os filhos. Eles comeram. E fomos deitar. Eu disse para o pai da Vera que ia sair no Cruzeiro.

Ele deu 100 cruzeiros. O José Carlos achou pouco, porque ele estava com notas de 1.000.

10 DE JUNHO Hoje eu não vou sair porque o barraco está muito sujo.

Eu vou limpá-lo. Varri o assoalho e as teias de aranha. Pentiei os meus cabelos.

Os filhos foram na escola. Quando os filhos chegaram, almoçaram. O João foi levar almoço para a Vera. Eu disse para ele olhar se a reportagem havia saido no Cruzeiro. Eu estava com medo da reportagem não ter saido e as pessoas que eu avisei para comprar o Cruzeiro dizer que eu sou pernóstica.

O João quando retornou-se disse que a reportagem havia saido. Vasculhei os bolsos procurando dinheiro. Tinha 13 cruzeiros. Faltava 2. O senhor Luis emprestou-me. E o João foi buscar. O meu coração ficou oscilando igual as molas de um relogio. O que será que eles escreveram a meu respeito? Quando o João voltou com a revista, li —

Retrato da favela no Diário da Carolina.

Li o artigo e sorri. Pensei no repórter e pretendo agradecê-lo. (...) Troquei roupas e fui na cidade receber o dinheiro da Vera. Na cidade eu disse para os jornaleiros que a reportagem do O Cruzeiro era minha. (...) Fui receber o dinheiro e avisei o tesoureiro que eu estava no O Cruzeiro.

...Eu estava impaciente porque havia deixado os meus filhos e na favela atualmente tem um espirito de porco. Tomei o ônibus e quando cheguei no ponto final a jornaleira disse que as negrinhas da favela havia me chingado, que eu estava desmoralizando a favela. Fui no parque buscar a Vera. E mostrei-lhe a revista.

Eu fui comprar meio quilo de carne. Quando voltei para a favela passei no Emporio do senhor Eduardo. Mostrei a revista para os operários do Erigorifico.

O João disse-me que o Orlando Lopes, o atual encarregado da luz, havia me chingado. Disse que eu fiquei devendo 4 meses. Fui falar com o Orlando. Ele disse-me que eu puis na revista que ele não trabalha.

—Que historia é esta que eu fíquei devendo 4 meses de luz e agua?

—Ficou sim, sua nojenta! Sua vagabunda!

—Eu escrevo porque preciso mostrar aos políticos as péssimas qualidades de vocês. E eu vou contar ao repórter.

—Eu não tenho medo daquele puto, daquele fresco!

Que nojo que eu senti do tal Orlando Lopes. (...) Vim para o meu barraco. Fiz uns bifes e os filhos comeram. Eu jantei. Depois cantei a valsa Rio Grande do Sul.

11 DE JUNHO Levantei e fui carregar agua. Depois fui fazer compras.

Troquei os filhos, eles foram para a escola. Eu não queria sair, mas estou com pouco dinheiro. Precisei sair. Quando circulava pelas ruas o povo abordava-me para dizer que havia me visto no O Cruzeiro.

...Eu fui na banca e comprei uma revista. Mostrei para o farmacêutico.

Eu comprei outra revista e fui levar para o José do Bar dos Esportes. Ele comprou a revista, Eu passei na banca e comprei outra. Mostrei para o sapateiro.

Ele sorriu. (...) Passei no emporio do José Martins e falei se ele queria ler a revista.

—Deixa aí. Depois vamos ler.

...Dei jantar para os filhos e sentei na cama para escrever. Bateram na porta. Mandei o João ver quem era e disse:

—Entra, negra!

—Ela não é negra, mamãe. E uma mulher branquinha e está com 0 Cruzeiro na mão.

Ela entrou. Uma loira muito bonita. Disse-me que havia lido a reportagem no O Cruzeiro e queria levar-me no Diário para conseguir auxilio para mim.

...Na redação, eu fiquei emocionada. (...) O senhor Antonio fica no

terceiro andar, na sala do Dr. Assis Chatobriand[45]. Ele deu-me revista para eu ler. Depois foi buscar uma refeição para mim. Bife, batatas e saladas. Eu comendo o que sonhei! Estou na sala bonita. A realidade é muito mais bonita do que o sonho.

Depois fomos na redação e fotografaram-me. (...) Prometeram-me que eu vou sair no Diário da Noite amanhã. Eu estou tão alegre! Parece que a minha vida estava suja e agora estão lavando.

13 DE JUNHO Eu saí. Fui catar um pouco de papel. Ouço varias

pessoas dizer:

—E aquela que está no O Cruzeirol

—Mas como está suja!

...Conversei com os operários. Desfiz as caixas de papelão, ensaquei outros papéis. Ganhei 100 cruzeiros. As moças do deposito começaram a cantar: Carolina, hum, hum, hum...

O Leon disse:

—Ela saiu no O Cruzeiro. Com ela agora é mais cruzeiro.

—Eles te pagaram?

—Vão dar-me uma casa.

—Vai esperando!

...Fiquei pensando num preto que é meu visinho. O senhor Euclides. Ele disse-me:

—Dona Carolina, eu gosto muito da senhora. A senhora quer escrever muitos livros?

—Oh, se quero!

—Mas a senhora não tem quem te dê nada. Precisa trabalhar.

—Eu preciso trabalhar e escrevo nas horas vagas.

—Eu vejo que a sua vida é muito sacrificada.

—Eu já estou habituada.

—Se a senhora quizer ficar comigo, eu peço esmolas e te sustento. E de dinheiro que as mulheres gostam. E dinheiro eu arranjo para você. Eu não tenho ninguém que gosta de mim...

Eu sou aleijado. Eu gosto muito da senhora. A senhora tá dentro da minha cabeça. Tá dentro do meu coração.

Quando ele ia me dar um abraço, afastei.

16 DE JUNHO ...Hoje não temos nada para comer. Queria convidar os filhos para suicidar-nos. Desisti. Olhei meus filhos e fiquei com dó. Eles estão cheios de vida. Quem vive, precisa comer. Fiquei nervosa, pensando: será que Deus esqueceu-me? Será que ele ficou de mal comigo?

18 DE JUNHO ...O barraco da Aparecida é o ponto para reunir os pinguços. Beberam e depois brigaram. O Lalau disse que eu ponho varias pessoas no jornal, mas ele eu não ponho.

—Se você me por no jornal eu te quebro toda, vagabunda! Esta negra precisa sair daqui da favela.

A Aparecida veio dizer que o João mandou ela tomar no...

Eu disse:

—Vocês são as professoras. Quando bebem falam coisas horríveis.

19 DE JUNHO ...O senhor Manoel apareceu. Disse que comprou a revista, para ver o meu retrato. Quiz saber se o repórter deu-me algo.

—Não, mas vai dar.

—Eu não acredito. Só creio quando eu ver.

Eu disse-lhe que só depois que o livro circular é que o escritor recebe.

22 DE JUNHO ...Saí triste porque não tinha nada em casa para comer.

Olhei o céu. Graças a Deus não vai chover. Hoje é segunda-feira. Tem muitos papéis nas ruas. No ponto do bonde, eu me separei da Vera. Ela disse:

—Faz comida, que eu vou chegar com fome.

A frase comida ficou eclodindo dentro do meu cerebro. Parece que o meu pensamento repetia:

Comida! Comida! Comida!

Dizem que o Brasil já foi bom. Mas eu não sou da epoca do Brasil bom.

...Hoje eu fui me olhar no espelho. Fiquei horrorizada. O meu rosto é quase igual ao de minha saudosa mãe. E estou sem dente. Magra. Pudera! O medo de morrer

de fome!

25 DE JUNHO ...Voltei para o meu barraco imundo. Olhava o meu barraco envelhecido. As tabuas negras e podres. Pensei: está igual a minha vida!

Quando eu preparava para escrever, o tal Orlando surgiu e disse que queria o dinheiro. Dei-lhe 100 cruzeiros.

—Eu quero 250. Quero o deposito.

—Eu não pago deposito porque já foi abolido pela Light.

—Então eu corto a luz.

E desligou-a.

27 DE JUNHO ...O tal Orlando Lopes passava de bicicleta. Os meus filhos falaram:

—Olha o Orlando!

Eu disse-lhes:

—Eu não vou olhar este nojento.

Ele ouviu e respondeu:

—Nojento é a puta que te pariu!

...Eu disse-lhe que ia escrever e não podia perder tempo com vagabundos. Fechei a porta.

29 DE JUNHO Hoje eu amanheci rouca. Era 4 horas quando eu fui pegar agua, porque o tal Orlando Lopes disse que não deixa eu pegar agua. Puis agua para fazer café. Estou só com 18 cruzeiros. Estou tão triste! Se eu pudesse mudar desta favela! Isto é obra do Diabo.

Aqui já morou homens malvados, mas este tal de Orlando suplanta-os.

Hoje eu passei o dia escrevendo. Contei quantos barracões tem na favela para ver quanto este tal Orlando Lopes vai arrecadar se os favelados pagar-lhe os 150

cruzeiros de deposito. Contei 119 barracões com luz.

O céu está maravilhoso. Azul claro e com nuvens brancas esparsas. Os balões tom suas cores variadas percorrem o espaço. As crianças ficam agitadas quando um balão vem desprendendo-se. Como é lindo o dia de São Pedro.

Porque será que os santos juninos são homenageados com fogos?

O tal Orlando Lopes passou na minha rua. Ele disse que tudo que eu falo dele as mulheres lhe conta. São umas idiotas. Eu quero defendê-las, porque há ladrões de toda especie. Mas elas não compreendem.

30 DE JUNHO ...Aquele preto que cata verdura no Mercado veio vender-me umas batatas murchas e brotadas. Olhando-as, vi que ninguém ia comprar. Pensei: este pobre deve ter vagado inutilmente sem conseguir dinheiro para a refeição. Perguntei-lhe se queria comida.

—Quero!

Dirigiu-me um olhar tão terno como se estivesse olhando uma santa.

Esquentei macarrão, bofe e torresmo para ele.

1 DE JULHO ...Eu estou cançada e enojada da favela. Eu disse para o senhor Manoel que eu estou passando tantos apuros. O pai da Vera é rico, podia ajudar-me um pouco. Ele pede para eu não divulgar-lhe o nome no Diário, não divulgo. Podia reconhecer o meu silêncio. E se eu fosse uma destas pretas escandalosas e chegasse lá na oficina e fizesse um escandalo?

—Dá dinheiro para a tua filha!

2 DE JULHO ...Levantei, acendi o fogo e mandei o João comprar 10 de açúcar. Bateram no barracão. Os filhos falaram:

—E o pai da Vera.

—É o papai — ela sorria para ele.

Eu é que não fiquei com a tal visita. Ele disse-me que não levou o dinheiro lá no Juiz porque não teve tempo. Mostrei-lhe os sapatos da Vera que estão furados e a agua penetra.

—Quanto pagou isto?

—240.

—É caro.

...Ele deu-me 120 cruzeiros e 20 para cada filho. Ele mandou os filhos comprar doces para nós ficarmos sozinhos. Tem hora que eu tenho desgosto de ser mulher. Dei graças a Deus quando ele despediu-se.

3 DE JULHO ...Não tem gordura. Hoje acabou-se a gordura do porco. E

agora tenho que comprar gordura.

...Tomei banho e fui deitar. Que noite horrivel! A tal Terezinha e o companheiro não nos deixou dormir. Eu não sei onde eles arranjaram uma galinha. E discutiam:

—Vai, Euclides, depenar a galinha!

—Vai você!

E ficaram nesta lenga-lenga até as 2 da madrugada.

6 DE JULHO O senhor Manoel saiu. E eu fiquei deitada. Depois levantei e fui carregar agua. Que nojo. Ficar ouvindo as mulheres falar. Falaram da D., que ela namora qualquer um. Que a R., irmã do B., pertence aos homens.

Falamos do J. P., que quer amasiar-se com a sua filha I. (...) Ele mostra para a filha e convida...

—Vem minha filha! Dá para o seu papaizinho! Dá... só um pouquinho.

Eu já estou cançada de ouvir isto, porque infelizmente eu sou visinha do J. P. (...) É um homem que não pode ser admitido numa casa onde tem crianças.

Eu disse:

—E por isso que eu digo que a favela é o chiqueiro de São Paulo.

Enchi minha lata e zarpei, dando graças a Deus por sair da torneira. A C.

disse que pediu dinheiro ao seu pai para comprar um par de sapatos, e ele disse:

—Se você me dar a... eu te dou 100.

Ela deu. E ele deu-lhe só 50. Ela rasgou o dinheiro e a I. catou os

pedaços e colou.

Por isso que eu digo que a favela é o Gabinete do Diabo.

...Fiz o almoço, depois fui escrever. Estou nervosa. O mundo está tão insipido que eu tenho vontade de morrer. Fiquei sentada no sol para aquecer.

Com as agruras da vida somos uns infelizes perambulando aqui neste mundo.

Sentindo frio interior e exterior.

Percebi que estava me reanimando. Quando anoiteceu eu fiquei alegre.

Cantei. O João e o José Carlos tomaram parte. Os visinhos ebrios interferiram com suas vozes desafinadas.

Cantamos a Jardineira.

7 DE JULHO ...A Dona Angelina Preta estava dizendo que vai vender o seu barraco e vai mudar para Guaianazes. Que não suporta mais morar na rua A.

Fiquei contente ouvindo ela dizer que vai mudar.

Até eu, o dia que me mudar hei de queimar incenso para agradecer a Deus. Hei de fazer jejum mental, pensar só nas coisas boas que agradam a Deus.

11 DE JULHO ...Era 7 horas da noite. Os filhos estavam na rua. O João penetrou veloz como se estivesse sendo impelido pelo foguete

russo[46]. Disse:

—Mamãe, o José Carlos vai para o Juiz de Menores!

—Porque?

—Ele jogou uma pedra na vidraça da fabrica de peças de automovel e quebrou. E o nortista que toma conta da fabrica disse que vai manda-lo para o Juiz.

Pensei: uma vidraça qualquer mãe pode pagar. Levantei, vesti o casaco, peguei o dinheiro e puis no bolso. Peguei a revista com a minha reportagem e saí. Fui ver a vidraça. Estava quebrada. E a pedra foi arremessada com estilingue. E o furo na vidraça ficou oval.

O vigia da fabrica abriu a janela e viu o João e perguntou:

—O que é que você está fazendo aqui?

—Sou eu, que vim ver o furo da vidraça.

O nortista começou a falar. Eu dizia para o José Carlos o que ele foi fazer lá, que anda atoa e arranja encrenca. Perguntei ao nortista se havia batido nele.

Respondeu-me que não. O José Carlos dizia que ele havia lhe apertado o braço.

Eu acreditei no meu filho. Em geral, as mães acreditam nos filhos.

12 DE JULHO ...Minha luta hoje foi para fazer almoço. Não tenho gordura. Deixei a carne cosinhar e puis linguiça junto para fritar e apurar gordura para fazer o arroz e o feijão. Temperei a salada com caldo de carne. Os filhos gostaram.

Quando a Vera come carne fica alegre e canta.

13 DE JULHO ...Comprei 30 cruzeiros de carne e fiquei nervosa porque os 30 que sobrou não vai dar para comprar gordura e arroz. Estava apreensiva receando que meus filhos brigassem com os visinhos.

Quando cheguei eles estavam sentados dentro do chiqueiro, lendo gibi.

Ouvi a voz da Dona Adelaide. Dizia aos meus filhos:

—Vocês pararam de brigar?

Perguntei a Vera o que havia e com quem brigaram. Ela relatou que o João e o José Carlos brigaram. Que deixaram o violão cair no chão e puseram perfume no fogo para acender. Quebraram a escova de lavar o assoalho e abriram um pacote de tinta verde que eu estou guardando. Não sei pra que, mas estou guardando.

...Puis brasas no ferro, passei a minha saia verde, lavei a blusa de renda que eu achei no lixo, tomei banho e troquei-me. Troquei a Vera e fomos para a cidade. Eu estava só com 6 cruzeiros. Pensava: e se o pai da Vera não levou o dinheiro, como é que eu vou voltar?

...Fui receber o dinheiro da Vera. Que fila! Era as mulheres que iam receber as mensalidades dos esposos e dos pais de seus filhos. Eu tenho que dizer nossos filhos, porque eu também estava no núcleo. Dizem que quem entra na restea vira cebola.

As mulheres falavam dos esposos. E lá que os homens tomam nomes de

animaes.

—O meu é um cavalo bruto e ordinário!

—E o meu é um burro. Aquele desgraçado! Outro dia ele viajou na Central e eu pedi a Deus para acontecer um desastre e ele morrer e ir pro Inferno.

Perguntei a uma mulher que estava atrás de mim:

—Quem é o seu advogado?

—Dr. Walter Aymberê.

—Ele é o meu também. Mas eu não gosto dele.

...Eu recebi o grande dinheiro. 250 cruzeiros. A Vera sorria e dizia:

—Agora eu gosto do meu pai.

Passei na sapataria e comprei um par de sapatos para a Vera. Quando o senhor Manoel, um nortista, lhe experimentava os sapatos, ela dizia:

—Sapato, não acaba, porque depois a mamãe custa a comprar outro. E eu não gosto de andar descalça.

...Passei no emporio do senhor Eduardo e comprei um quilo de arroz.

Sobrou só 7 cruzeiros. Só na cidade eu gastei 25. A cidade é um morcego que chupa o nosso sangue.

15 DE JULHO Quando eu deixava o leito a Vera já estava acordada e perguntou-me:

—Mamãe, é hoje que eu faço anos?

—É. E meus parabéns. Desejo-te felicidades.

—A senhora vai fazer um bolo para mim?

—Não sei. Se eu arranjar dinheiro...

Acendi o fogo e fui carregar agua. As mulheres reclamavam que a agua é pouca.

...Os lixeiros já haviam passado. Catei pouco papel. Passei na fabrica

para catar estopas. Comecei sentir tontura. Resolvi ir na casa da Dona Angelina pedir um pouco de café. A Dona Angelina deu-me. (...) Quando eu saí disse-lhe que já estava melhor.

—É fome. Você precisa comer.

—Mas o que se ganha não dá.

...Já emagreci 8 quilos. Eu não tenho carne, e o pouco que tenho desaparece. Peguei os papéis e saí. Quando passei diante de uma vitrine vi o meu reflexo: Desviei o olhar, porque tinha a impressão de estar vendo um fantasma.

...Eu fritei peixe e fiz polenta para os filhos comer com peixe. Quando a Vera chegou viu a polenta dentro da marmita e perguntou:

—E o bolo? Hoje eu faço anos!

—Não é bolo. E polenta.

—Polenta, eu não gosto.

Ela trouxe leite. Eu dei-lhe leite com polenta. Ela comeu chorando.

Quem sou eu para fazer bolo?

18 DE JULHO ...Quando eu ia catar papel encontrei a Dona Binidita mãe da Nena preta. Eu digo Nena preta porque nós temos aqui na favela a Nena branca. (...) Começamos a falar do menino que morreu nos fios da Light. Ela disse-me que foi o filho da Laura do Vicentão.

—Oh! — exclamei. Porque conhecia o menino e a sua historia de filho engeitado. Aí vai a historia do infausto Miguel Colona:

Quando a Laura foi para a maternidade ter filho, o seu nasceu e morreu.

Ela ficou triste, porque queria criar o filho. E chorava. Ao seu lado, uma mulher jovem teve um filho. E chorava com inveja da Laura. Ela é que desejava que o seu filho nascesse e morresse. Mas o seu filho estava vivo. Aquelas lagrimas preocupou a Laura, que interrogou-lhe:

—Porque chora, se o teu filho está vivo e é bonito?

A mulher disse que veio do Norte. Virgem. Chegou em São Paulo arranjou aquele filho. E o pai da criança não queria casar-se com ela. Que seus

pais queriam que ela voltasse para o Norte. E ela ia voltar para o Norte, mas não queria levar o filho. Se a Laura queria o menino ela dava-o.

A Laura aceitou. Ficou tão contente como se tivesse ganho todo o ouro que existe no mundo. Quando ela saiu da maternidade revelou que o seu filho morreu e ela ganhou aquele. Ela era boa para ele. Comprou televisão porque ele insistiu. Ele estava com 9 anos e no 2º primário. E agora foi arrebatado tragicamente pela morte.

Temos só um geito de nascer e muitos de morrer.

...Hoje tem muito papel no lixo. Tem tantos catadores de papéis nas ruas.

Tem os que catam e deitam-se embriagados. Conversei com um catador de papel.

—Porque é que não guarda o dinheiro que ganha?

Ele olhou-me com o seu olhar de tristeza:

—A senhora me faz rir! Já foi o tempo que a gente podia guardar dinheiro. Eu sou um infeliz. Com a vida que levo não posso ter aspiração. Não posso ter um lar, porque um lar inicia com dois, depois vai multiplicando.

Ele olhou-me e disse-me:

—Porque falamos disso? O nosso mundo é a margem. Sabe onde estou dormindo? Debaixo das pontes. Eu estou doido. Eu quero morrer!

—Quantos anos tem?

—24. Mas já enjoei da vida.

Segui pensando: quem escreve gosta de coisas bonitas. Eu só encontro tristezas e lamentos.

22 DE JULHO Eu estava deitada. Era 5 horas quando a Teresinha e o Euclides começaram a falar.

—Adalberto! Levanta e vai comprar pinga.

O Euclides disse:

—Você não vai escrever? Não vai catar papel? Levanta para você escrever a vida dos outros.

Eu levantei, peguei um pau de vassoura e fui falar-lhe para não aborrecer-me que eu estou cançada de tanto trabalhar. E dei umas cacetadas no barraco. Ele calou e não disse mais nada.

26 DE JULHO ...Era 19 horas quando o senhor Alexandre começou a brigar com a sua esposa. Dizia que ela havia deixado seu relogio cair no chão e quebrar-se. Foi alterando a voz e começou a espancá-la. Ela pedia socorro. Eu não imprecionei, porque já estou acostumada com os espetáculos que ele representa. A Dona Rosa correu para socorrer. Em um minuto, a noticia circulou que um homem estava matando a mulher. Ele deu-lhe com um ferro na cabeça.

O sangue jorrava. Fiquei nervosa. O meu coração parecia a mola de um trem em movimento. Deu-me dor de cabeça.

Os homens pularam a cerca para impedi-lo de bater na pobre mulher.

Abriram a porta da frente e as mulheres e as crianças invadiram. O Alexandre saiu lá de dentro enfurecido e disse:

—Vão embora, cambada! Estão pensando que isso aqui é a casa da sogra?

Todos correram. Era uns 20 querendo passar na porta. As crianças, ele chutou. A Vera recebeu um chute e caiu de quatro. Os filhos da Juana foram chutados. Os favelados começaram a rir.

A cena não era para rir. Não era comedia. Era drama.

28 DE JULHO .. .Eu fui escrever. Ninguém aborreceu-me hoje. Quando o crepúsculo vinha surgindo eu fui procurar a Vera. Os favelados estavam reunidos na rua apreciando a briga da Leila e da Pitita com uma negrinha que apareceu por aqui. Mas eu já estou enfastiada de brigas. E tantas brigas na favela!

A luz da favela estava acesa. E a porta do barracão da Leila estava fechada. Vi varias crianças olhando pela fresta. Queria ir ver. Mas há certas coisas que desabonam o adulto. Quando o José Carlos entrou, disse:

—Eu tenho uma coisa para contar.

—O que é?

—Eu vi o Chico fazendo bobagem com a P.

Não dei margem ao assunto. Ele prosseguia:

—O Chico fazia bobagem com a P. e a Vanilda estava perto olhando.

A Vanilda tem 2 anos!

30 DE JULHO ...Escrevi até tarde, porque estou sem sono. Quando deitei adormeci logo e sonhei que estava noutra casa. E eu tinha tudo. Sacos de feijão. Eu olhava os sacos e sorria. Eu dizia para o João:

—Agora podemos dar um ponta-pé na miséria.

E gritei:

—Vai embora, miséria!

A Vera despertou-se e perguntou:

Quem é que a senhora está mandando ir-se embora?

31 DE JULHO ...Comprei 20 de carne gorda, porque eu não tenho gordura. Passei no emporio do senhor Eduardo para comprar 1 quilo de arroz.

Deixei os sacos na calçada. A Vera pois a carne em cima do saco, o cachorro pegou. Chinguei a Vera.

—Ordinaria, preguiçosa. Hoje você vai comer m...

Ela dizia:

—Deixa, mamãe. Quando eu encontrar o cachorro eu bato nele.

...Quando cheguei em casa estava com tanta fome. Surgiu um gato miando. Olhei e pensei: eu nunca comi gato, mas se este estivesse numa panela ensopado com cebola, tomate, juro que comia. Porque a fome é a pior coisa do mundo.

...Eu disse para os filhos que hoje nós não vamos comer. Eles ficaram tristes.

1 DE AGOSTO Eu deitei, mas não dormi. Estava tão cançada. Ouvi um ruido dentro do barraco. Levantei para ver o que era. Era um gato. Eu ri, porque

eu não tenho nada para comer. Fiquei com dó do gato.

4 DE AGOSTO Amanheceu chovendo. Eu fiz café e mandei o João comprar 15 cruzeiros de pão. Emprestei 15 para o Adalberto. Não carreguei agua. Já enjoei de ficar naquela fila desgraçada.

Deixei a Vera deitada. Estava chovendo uma chuva miudinha e fria. Eu achei um par de sapatos no lixo e estou usando. (...) Quando eu ia catar papel a Dona Esmeralda pediu-me 20 emprestado. Dei-lhe

30 cruzeiros, porque ela tem 7 filhos e o esposo está no Juqueri[47].

Saí e fui no roteiro habitual. Fui catando papel, ferros e estopas.

...Encontrei um cego:

—Há quantos anos perdeste a vista?

—10 anos.

—Achou ruim?

—Não. Porque tudo que Deus faz é bom.

—Qual foi a causa da perda visual?

—Fraqueza.

—E não teve possibilidade de cura?

—Não. Só se fizer transplantação. Mas é preciso encontrar quem me dê os olhos.

—Então o senhor já viu o sol, as flores e o céu cheio de estrelas?

—Já vi. Graças a Deus.

6 DE AGOSTO Hoje é o aniversário do José Carlos. 9 anos. Ele é de 1950. Tempo bom! Mas ele quer ter 10 anos, porque quer namorar a Clarinda.

Eu saí. Levei a Vera. Catei papéis, achei um par de sapatos no lixo. Vendi por 20 cruzeiros. Voltei para a favela. Comprei meio quilo de carne. Fiz bife.

Almocei.

7 DE AGOSTO ...Catei 2 sacos de papel e ganhei 45 cruzeiros. Fiquei desesperada. O que é que eu vou fazer com 45 cruzeiros? Catei um pouco de estopa e voltei. Eu fui no ferro velho vender as estopas. Ganhei 33 cruzeiros.

Estava indecisa, pensando o que ia fazer para comer. Eu estava lavando as louças quando bateram na porta. O José Carlos disse:

—E a Dona Teresinha Becker!

Ela deu-me 500 cruzeiros. Eu disse-lhe que ia comprar sapatos para o José Carlos e agradeci. Lhe acompanhei até o automóvel. (...) Eu fui conversar com a Chica e mostrei-lhe os 500 cruzeiros e disse-lhe que a Dona Teresinha é a minha mãe branca.

8 DE AGOSTO ...Morreu um menino aqui na favela. O sepultamento foi 9 horas. Os negros que iam acompanhar o extinto alugaram um caminhão e levaram violão, pandeiro e pinga. O Zirico dizia:

—Japonês quando morre os vivos cantam. Então vamos cantar também.

...A pior praga da favela atualmente são os ladrões. Roubam a noite e dormem durante o dia. Se eu fosse homem não deixava os meus filhos residir nesta espelunca. Se Deus auxiliar-me hei de sair daqui, e não hei de olhar para trás.

12 DE AGOSTO ...Troquei-me e fui receber o dinheiro da Vera. O

senhor Luiz emprestou-me 3 cruzeiros. Achei 1 no bolso, ficou 4 cruzeiros. Eu queria ir de ônibus, encontrei com um favelado muito bom, pedi 1 cruzeiro emprestado. Ele deu-me 2 cruzeiros. Fui de ônibus.

...Fui na chuva, porque eu não tenho guarda-chuva. Na cidade eu ouvia o povo reclamar contra a falta de feijão. Que os atacadistas estão sonegando o produto ao povo. E os preços atuais?

Isto não é mundo para o pobre viver.

Quando cheguei no Juizado, o senhor J. A. M. V., o pai da Vera, não levou o dinheiro.

O pai da Vera sempre me pede para eu não por o nome dele no jornal.

Que ele tem vários empregados e não quer ver o nome propalado. Mas ele não contribui para eu ocultar o seu nome. Ele está bem de vida e dá só 230 cruzeiros para a Vera. Ele só aparece quando eu saio nos jornais. Vem saber quanto eu ganhei.

13 DE AGOSTO Levantei as 6 horas. Estava furiosa com a vida. Com vontade de chorar, porque eu não tenho dinheiro para comprar pão. (...) Os filhos foram na escola. Eu saí sozinha. Deixei a Vera porque vai chover. Fui catar estopas e fui catar papelões. Ganhei 30 cruzeiros. Fiquei triste, pensando: o que hei de fazer com 30 cruzeiros? Estava com fome. Tomei uma media com pão doce. Voltei para a favela. Quando eu cheguei, a Vera estava na janela,

olhando as maquinas da Vera Cruz[48]que vieram filmar o Promessinha. Vi varias pessoas olhando as cenas. Fui ver. Quando eu ia chegando, os vagabundos disseram:

—Olha a Elisabety Thaylor.

—Vão criticar o Diabo!

Voltei e fui esquentar comida para os filhos. Arroz e peixe. O arroz e o peixe era pouco. Os filhos comeram e ficaram com fome. Pensei:

Se Jesus Cristo pudesse multiplicar estes peixes!

O senhor Manoel apareceu. Quando eu voltava do deposito de papel, ele vinha acompanhando-me. Deu-me 200 cruzeiros, eu não quiz aceitar.

—Você não me quer mais?

—Eu tenho muito serviço. Não posso preocupar com homens. Meu ideal é comprar uma casa decente para os meus filhos. Eu, nunca tive sorte com homens. Por isso não amei ninguém. Os homens que passaram na minha vida só arranjaram complicações para mim. Filhos para eu criá-los.

Ele despediu-se e pegou os 200 cruzeiros e saiu.

Lavei as louças. Depois fui no deposito de ferro velho vender estopas e ferros. Ganhei 21 cruzeiros.

...Fui ver a filmagem do documentário do Promessinha. Pedi os nomes dos diretores do filme para por no meu diário. (...) As mulheres da favela perguntavam-me:

—Carolina, é verdade que vão acabar a favela?

—Não. Eles estão fazendo uma fita de cinema.

O que se nota é que ninguém gosta da favela, mas precisa dela. Eu olhava o pavor estampado nos rostos dos favelados.

—Eles estão filmando as proezas do Promessinha. Mas o Promessinha não é da nossa favela.

Quando os artistas foram almoçar os favelados queriam invadir e tomar as comidas dos artistas. Pudera! Frangos, empadinhas, carne assada, cervejas.

(...) Admirei a polidez dos artistas da Vera Cruz. E uma companhia cinematográfica nacional. Merece deferencia especial. Permaneceram o dia todo na favela. A favela superlotou-se. E os visinhos de alvenaria ficaram comentando que os intelectuais dão preferencia aos favelados.

As pessoas que olhavam a filmagem faziam tanto barulho. O Bonito veio ver a filmagem. Perguntei-lhe se já foi filmado, porque ele é cantor.

—Não, porque não sou popular.

15 DE AGOSTO ...As mulheres chingavam os artistas:

—Estes vagabundos vieram sujar a nossa porta. As pessoas que passavam na via Dutra e viam os bombeiros vinham ver se era incêndio ou se era alguém que havia morrido afogado. O povo dizia:

— Estão filmando o Promessinha!

Mas o titulo do filme é Cidade Ameaçada[49] .

16 DE AGOSTO ...Passei a tarde escrevendo. Lavei todas as roupas.

Hoje eu estou alegre.

Tem festa no barraco de um nortista. E a favela está superlotada de nortistas. O Orlando Lopes está girando pela favela. Quer dinheiro. Ele cobra a luz no cambio negro. E tem pessoas aqui na favela que estão passando fome.

26 DE AGOSTO A pior coisa do mundo é a fome!

31 DE DEZEMBRO ...Levantei as 3 e meia e fui carregar agua.

Despertei os filhos, eles tomaram café. Saimos. O João foi catando papel porque quer dinheiro para ir no cinema. Que suplicio carregar 3 sacos de papéis.

Ganhamos 80 cruzeiros. Dei 30 ao João.

...Eu fui fazer compras, porque amanhã é dia de Ano. Comprei arroz, sabão, querosene e açúcar.

O João e a Vera deitaram-se. Eu fiquei escrevendo. O sono surgiu, eu adormeci. Despertei com o apito da Gazeta anunciando o Ano Novo. Pensei nas corridas e no Manoel de Faria. Pedi a Deus para ele ganhar a corrida. Pedi para abençoar o Brasil.

Espero que 1960 seja melhor do que 1959. Sofremos tanto no 1959, que dá para a gente dizer:

Vai, vai mesmo!

Eu não quero você mais.

Nunca mais!

1 DE JANEIRO DE 1960 Levantei as 5 horas e fui carregar agua.

---O---

É comum a expressão "voz do povo". Também se popularizou a expressão "voz do morro", uma referência à musicalidade nem sempre carnavalesca dos sambistas favelados do Rio de Janeiro. Não seria injusto que se falasse em "porta-voz” da favela, se se quisesse explicar em poucas palavras quem é a autora de Quarto de despejo.

Ao escrever um diário — um gênero de texto, em princípio pessoal e intransferível —, Carolina Maria de Jesus ultrapassou os limites individuais e deu voz à coletividade miserável e anônima que habita os barracos e os vãos das pontes nas grandes cidades brasileiras.

A partir da narração de seu dia-a-dia, acabou por traçar um painel variado da vida dos favelados e de sua luta pela sobrevivência. Mais do que isso, com sua linguagem simples e objetiva, a que os erros gramaticais apenas conferem maior realismo, atingiu momentos de grande lirismo e força expressiva, inscrevendo-se, sem sombra de dúvida, na literatura brasileira.

Carolina Maria de Jesus nasceu em Minas Gerais, por volta de 1915. Foi empregada doméstica em São Paulo, onde, mais tarde, passou a catar papel e outros tipos de lixo reaproveitáveis, para sobreviver.

Em reportagem sobre a favela do Canindé, onde vivia Carolina, o repórter Audálio Dantas a conheceu e descobriu que a favelada escrevia um diário.

Surpreso com a força do texto, o jornalista apresentou-o a um editor. Uma vez publicado, o livro trouxe fama e algum dinheiro para Carolina. O suficiente para deixar a favela, mas não o bastante para escapar à pobreza. Quase esquecida pelo público e a imprensa, a escritora morreu num pequeno sítio na periferia de São Paulo, em 14 de agosto de 1977. A entrevista que segue foi organizada a partir de

depoimentos e textos da autora, e reproduz fielmente a linguagem dos originais.

Por que a senhora começou a escrever?

Quando eu não tinha nada o que comer, em vez de xingar eu escrevia. Tem pessoas que, quando estão nervosas, xingam ou pensam na morte como solução. Eu escrevia o meu diário.

Como surgiu seu interesse pela literatura?

Seria uma deslealdade de minha parte não revelar que o meu amor pela literatura foi-me incutido por minha professora, dona Lanita Salvina, que aconselhava-me para eu ler e escrever tudo que surgisse na minha mente. E consultasse o dicionário quando ignorasse a origem de uma palavra. Que as pessoas instruídas vivem com mais facilidade.

O que significou a literatura para sua vida?

A transição de minha vida foi impulsionada pelos livros. Tive uma infância atribulada. É por intermédio dos livros que adquirimos boas maneiras e formamos nosso caráter. Se não fosse por intermédio dos livros que deu-me boa formação, eu teria me transviado, porque passei 23 anos mesclada com os marginais.

QUANDO EU NÃO TINHA NADA O QUE COMER, EM VEZ DE XINGAR EU

ESCREVIA.

Como é que uma pessoa que não teve educação escolar consegue compreender e expressar tão

bem a realidade dos pobres e dos miseráveis?

Não é preciso ser letrado para compreender que o custo de vida está nos oprimindo.

A senhora pensava em publicar o que escrevia? Como é que a senhora fazia e como foi que

conseguiu a publicação afinai?

Cansei de suplicar às editoras do país e pedi à editora Seleções [do Reader's Digest] nos Estados Unidos se queria publicar meus livros em troca de casa e comida e enviei uns manuscritos para eles ler.

Devolveram-me... Depois que conheci o repórter Audálio Dantas tudo transformou-se. E eu enalteço o repórter por gratidão.

A FAVELA É O QUARTO DE DESPEJO DE UMA CIDADE. NÓS, OS POBRES, SOMOS OS TRASTES VELHOS.

O que a senhora sentiu quando viu o livro Quarto de despejo pronto, encadernado, com seu texto em letras de imprensa?

Fiquei alegre olhando o livro e disse: "o que eu sempre invejei nos livros foi o nome do autor". E

li o meu nome na capa do livro. "Carolina Maria de Jesus. Diário de uma favelada. Quarto de despejo".

Fiquei emocionada. É preciso gostar de livros para sentir o que eu senti.

 

De onde veio a idéia para o titulo de seu livro?

E que em 1948, quando começaram a demolir as casas térreas para construir os edifícios, nós, os pobres, que residíamos nas habitações coletivas, fomos despejados e ficamos residindo debaixo das pontes.

É porisso que eu denomino que a favela é o quarto de despejo de uma cidade. Nós, os pobres, somos os trastes velhos.

Ao que a senhora atribui o sucesso de público do seu Quarto de despejo?

Eu não sei o que eles acham no meu diário. Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados.

Fico pensando o que será Quarto de despejo?, umas coisas que eu escrevia há tanto tempo para desafogar as misérias que enlaçavam-me igual o cipó quando enlaça as árvores, unindo todas.

Depois da publicação, a senhora ficou famosa. Passou a frequentar ambientes diferentes do da

favela. Conheceu intelectuais, políticos, gente rica. Foi difícil seu contato com esse outro tipo de gente?

Não. Conversamos e eu fui perdendo o acanhamento e tinha a impressão de estar no céu. A minha cor preta não foi obstáculo para mim. E nem os meus trajes humildes. Chegavam repórteres, entrevistavam-me, fotografavam-me, ficavam lendo trechos do meu diário.

E o seu relacionamento com o pessoal da favela mudou depois da fama?

Muita gente passou a achar que eu fiquei rica. Procuravam-me como se eu fosse dona de uma fortuna. Queriam propor negócios malucos. Queriam pedir empréstimos, pedir auxílios descabidos. O que me dói é que se aproximam fantasiados de honestos. Pedem, exigem quase, como se eu não fosse apenas mãe da Vera, do João e do José Carlos, mas a mãe de todos. Pedem e depois não pagam.

A atriz Ruth de Souza, à esquerda, interpretou Carolina de Jesus na versão teatral de O quarto de despejo ESCREVO A MISÉRIA E A VIDA INFAUSTA DOS FAVELADOS.

Mas foi bom mudar de vida, escapar da miséria e conhecer um mundo diferente daquele da

favela?

Decepção. Pensei que houvesse mais idealismo, menos inveja. Mas aqui há não só muita ambição, mas também o desejo de vencer a qualquer preço. Mesmo que os meios empregados sejam podres.

Quando matei um porco, lá na favela do Canindé, alguns vizinhos exigiram um pedaço de carne. Rondavam meu barraco feito bicho que fareja presa. Lá na favela era o porco, aqui é o dinheiro. No fundo é a mesma coisa. Lembrei do meu provérbio: "Não há coisa pior na vida do que a própria vida".

Em seu livro, a senhora, além de mostrar a realidade dos favelados, falo mal dos políticos, dos

poderosos. A senhora, sendo pobre e desprotegida, não tinha medo de fazer essas denúncias e acusações?

Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser. Eu escrevi a realidade.