Ramo de Flores

João de Deus · Capítulo 15 de 24

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Ramo de Flores

XIV Saudade

IV

 

E se algum dia

Deres abrigo

Ao desgraçado

Pobre mendigo

Expatriado,

Morto de fome,

Dize comtigo:

«Mais consolado

Se elle sentia

Lendo o meu nome!»

XIV

SAUDADE

 

Tu és o cálix;

Eu, o orvalho!

Se me não vales,

Eu o que valho?

 

Eu se em ti caio

E me acolheste

Torno-me um raio

De luz celeste!

 

Tu és o collo

Onde me embalo,

E acho consolo,

Mimo e regalo:

 

A folha curva

Que se aljofara,

Não d'agoa turva,

Mas d'agoa clara!

 

Quando me passa

Essa existencia,

Que é toda graça,

Toda innocencia,

 

Além da raia

D'este horizonte—

Sem uma faia,

Sem uma fonte;

O passarinho

 

Não se consome

Mais no seu ninho

De frio e fome,

 

Se ella se ausenta,

A boa amiga,

Ah! que o sustenta

E que o abriga!

 

Sinto umas magoas

Que se confundem

Com as que as agoas

Do mar infundem!

 

E quem um dia

Passou os mares

É que avalia

Esses pezares!

 

Só quem lá anda

Sem achar onde

Sequer expanda

A dôr que esconde;

 

Longe do berço,

Morrendo á mingoa,

Paiz diverso...

Diversa lingoa...

 

Esse é que sabe

O meu tormento,

Mal se me acabe

Aquelle alento!

 

Ah, nuvem branca

Ah, nuvem d'oiro!

Ninguem me estanca

Amargo choro;

 

E assim que passes

Mesmo de largo...

Vê n'estas faces

Se ha pranto amargo.

 

Tu és o norte

Que me desvias

De ir dar á morte

Todos os dias;

 

A larga fita

Que d'alto monte

Cerca e limita

O horizonte!

 

Tu és a praia

Que eu sollicito!

Tu és a raia

D'este infinito!

 

Se ha uma gruta

Onde me esconda

Á força bruta

Que traz a onda;

 

Á força immensa

D'esta corrente

D'alma que pensa,

Alma que sente;

 

Se ha uma véla,

Se ha uma aragem,

Se ha uma estrella,

N'esta viagem...

 

É quem eu amo,

A quem adoro!

E por quem chamo!

E por quem choro!