Ramo de Flores

João de Deus · Capítulo 20 de 24

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Ramo de Flores

Flores do Campo

 

DE

 

João de Deus

 

É indispensavel crêr na poesia como se crê no Evangelho, como

se acredita em Deus. No perpassar d'esta via dolorosa, cortada a todo o passo de agrestes sinuosidades, a poesia luzindo de quando em quando ao viageiro extenuado como um iris de bonança, significa a mais completa redempção da materia pelo espirito.

 

Aguia sobranceira que elevando-se até perder de vista o lodo em

que se immergem tantos e tantos seres, vae roçar com a fimbria da aza a crista das nuvens, confundindo os seus arrulhos mysteriosos com as melodias dos seraphins!

 

Creou Deus a poesia para que a primavera com os seus canticos

e perfumes, com a sua opulenta vegetação, encontrasse quem a comprehendesse, quem a cantasse: creou Deus a poesia para escarmento ao vicio, distanceando-nos do finito que é o começo do scepticismo, para o infinito que é Deus! Surgiu a poesia para que nas trevas de um mundo que ri de tudo como Democrito, que tudo amesquinha, brilhasse uma luz que só de vêl-a a alma se purificasse e o espirito adejasse para o ideal.

 

Não chamem á poesia trivialidade.

 

Estudem os seculos; contemplem as nações e digam se a poesia

teve ou não extraordinaria influencia nos grandes acontecimentos sociaes.

 

Quem, senão Roger de l'Isle, ergueu palpitante toda a França

com umas quantas estrophes, a Marseillaise?

 

Não foram os versos de Shakespeare, de Milton, de Pope, que

poderosamente concorreram a immortalisar a Inglaterra?

 

Portugal não deve a fama da sua gloria aos Lusiadas de

Camões?

 

Consintam os homens de algarismos, os materialistas que

antepõem a carne ao espirito, que fazem d'ella o seu credo, que os poetas, os sonhadores de chimeras deixem devanear a imaginação por esses horisontes de anil; deixem que reclinados á proa do baixel da vida namorem o azul das aguas depois de terem contemplado o dos céos.

 

Ai da humanidade, se o poeta deixar pender a fronte desalentada

ao partirem-se-lhe as cordas da lyra! a prosa invadirá o sanctuario dos mais nobres estimulos, e o sceptico exultará ao soltar a sua risada infernal como a dos condemnados do Dante.

 

Não sei quantas vezes temos lido as Flores do Campo,

exhaurindo sempre novos e exquisitos perfumes.

 

Tem isso a originalidade, que é o distinctivo d'este poeta.

Costumamos dizer com referencia a qualquer notavel escriptor nosso: aquelle talento tem a suavidade de Lamartine, o sentimento de A. de Musset, o mysticismo de Chateaubriand, a ironia de Byron, a energia apaixonada de Victor Hugo.

 

Porque não havemos de dizer que João de Deus tem o cunho

original da poesia portugueza na sua mais genuina expressão?! Quem se compraz em parodiar constantemente os usos e idiomas dos de fóra, deve uma vez por outra, ufanar-se do que tem de seu original e portuguez de lei, como o é João de Deus em todos os seus escriptos.

Atravez dos versos do mimoso poeta contemplam-se as noites

estrelladas de Portugal, o Tejo com as risonhas margens, Coimbra com a sua Fonte das Lagrimas, o clima emfim e a vegetação esplendida d'este pequeno eden.

 

Vê-se que este poeta é portuguez de feição, e comprehende-se

quanto na patria de Camões e Garrett a poesia se manifesta espontanea e esplendida na fórma e ideia!

 

Começa o livro com a poesia Camões e Byron, e termina com o

Cantico dos Canticos: abre pois com chave de prata para fechar com chave de ouro.

 

Ha estrophes de uma suavidade tão nimiamente infantil, tão

peculiarmente despretenciosa, que a ninguem senão a João de Deus poderiam attribuir-se, quando mesmo o seu nome não estivesse engrinaldando luxuosamente o adito d'este livro.

 

Citaremos, entre muitas, estas:

 

Maria! vêr-te á porta a fazer meia

Olhando para mim de vez em quando,

É o que n'esta vida me recreia.

..................................

 

Esses olhos azues... que olhar! Receio

E desejo estar sempre a contemplal-o;

Não ha mais doce e mais custoso enleio.

 

..................................

 

Bem poderas, Maria andar tapada

Só com o teu cabello, á similhança

Do sol em nuvem de manhã doirada.

 

...................................

 

A bôca é tão vermelha que, em te rindo,

Lembra-me uma romã aberta ao meio,

Quando já de madura está caindo.

Na poesia Innocencia revela o poeta, a par de uma finura de

sentimento e extrema sensibilidade, um preito á virtude, que toda a mulher que a lêr deve necessariamente sentir-se attrahida por um sentimento de gratidão para quem a escreveu:

 

Casta innocencia, de Deus filha e bella

Entre as mais bellas! virginal aroma!

Rosa ineffavel, que se á luz assoma,

Haste e raiz apodreceu com ella!

 

Percebemos tambem que João de Deus pertence ao numero dos

crentes, ainda tão mal limitado; prova-o exuberantemente as suas poesias Luz da Fé, Fragmento, e varias outras.

 

Deus era inda meu pae. E em quanto pude

Li o seu nome em tudo quanto existe;

No campo em flor; na praia arida e triste,

No céo, no mar, na terra e... na virtude!

 

Como o poeta adora a poesia e o quanto tem d'ella feito o seu

credo, dil-o eloquentemente esta quadra:

 

Oh! poesia, poesia altissima

Como o fecho do impyreo! eu me ajoelho

E beijo a tua base, harpa celeste!

O coração—a corda que nos deste.

 

Na alma d'este homem que tem na fronte uma estrella de fogo e

talvez um martyrio no coração, suspiram ternuras indiziveis que a sua lyra traduz em canticos suavissimos:

 

É do sangue e das mães que eu fallo, e certo,

Que ha na vida mais sancto? O sangue é vida;

E as mães fontes de vida: eu nunca esperto

Esta lampada d'alma, suspendida

Na abobada eterna e que tão perto

Parece ter a origem..............

....................senão quando

Vejo essa cara imagem suspirando.

 

Querem dizer, e talvez com razão, que João de Deus abusa da

rima deixando-a por vezes defeituosa.

 

A meu vêr esta pecha está na razão das manchas que o sol

contém, mas que os nossos olhos não descobrem sem o auxilio do telescopio, o que não obsta a que o sol seja o astro do dia.

 

«Marcar balisas á poesia, é impossivel, diz um illustre poeta e

critico, a poesia é livre como o pensamento, e grande como a immensidade.»

 

Eis-ahi está o segredo da culpa, e feliz culpa!

 

Se João de Deus pertencesse a um certo numero de poetas que

esgravatam na areia e folheiam livros alheios primeiro que possam rabiscar algumas insulsas linhas, talvez a rima lhe saísse menos incorrecta segundo a arte, mas acanhada e rachitica segundo o pensamento.

 

A verdadeira poesia, como diz C. de Figueiredo, surge livre como

a natureza; irrompe, inunda de luz de fogo, sem muitas vezes poder sujeitar-se aos acanhados moldes da arte.

 

Apparece-nos o poeta, namorado como Bernardim Ribeiro,

n'estas dulcissimas estrophes:

 

Não ha existencia alguma

Que não tenha amor, nenhuma;

Porque o amor, é, em summa,

Essencia de todo o ser.

Ha sempre quem nos attraia,

Mil vezes que a onda caia,

Ha uma rocha, uma praia

Aonde a onda vae ter.

Seria um nunca acabar se fossemos a exarar aqui todas as

preciosissimas joias d'esta corôa opulenta que veio enriquecer a nossa litteratura.

 

Apartamo-nos do livro com extrema saudade, recommendando á

leitora, que por acaso ainda o não possue, a prompta acquisiçao d'elle para collocal-o ao lado das rosas, jasmins e violetas com que, durante a formosa estação que se avisinha, ha de perfumar o seu

boudoir.9

 

D. Guiomar D. Torrezão.

 

9 Voz Feminina (1869) n.º 60.