Rei Davi
Livro Um
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
Eu desej ava poder partilhar da sua confiança. Em vez disso, argum entei com ele. Disse-lhe que a loucura de Saul era agora diferente, m ais entranhada. Disse que o m edo e o ressentim ento que Saul sentia em relação a m im tinham -lhe corroído a natureza; que nunca poderia voltar a am ar-m e; que m e via agora com o o instrum ento da vingança de Sam uel.
- Não quero fugir para o exílio - disse eu. - Não quero abandonar Mical. Não quero ser um fora-da-lei. Mas...
Deixam os aquele « m as» a pairar no ar. Jónatas com prom eteu-se a tentar reparar a situação. Eu não pensava que tal fosse possível, e despedi-m e.
- Aconteça o que acontecer - disse Jónatas -, nada nos poderá separar. Eu cuidarei de ti e dos teus, tal com o tu cuidarás de m im e dos m eus.
- Aconteça o que acontecer - respondi eu; e abraçam o-nos.
No entanto, dem orei-m e. Não conseguia fazer-m e aceitar o que sabia ser verdade: que tudo aquilo por que eu lutara estava prestes a ser-m e tirado. Eu estava com m edo, tam bém , com m edo de regressar à solidão que eu conhecera quando era m enino. Im plorei a Mical que se preparasse para m e acom panhar. Ela respondeu que o seu am or era grande, m as que não podia ver-se com o um a fugitiva num deserto.
- Muito bem - disse eu -, ficarei aqui e m orrerei. A idéia de te perder é pior do que a idéia de perder a vida.
- Retórica - disse ela. - Se perderes a vida, perder-m e-ás na m esm a.
Saul lutou e conseguiu sair da escuridão em que se encontrava. Notou a m inha ausência da sua m esa. Jónatas disse-lhe que eu fora a Belém para assistir a um a festa fam iliar e para participar num sacrifício. Por um m om ento - disseram -m e - Saul não disse nada, lim itou-se a enrolar o pão entre os dedos em ferida. Em seguida praguej ou contra Jónatas, cham ando-lhe louco, canalha e traidor.
- David enfeitiçou-te - gritou ele. - Colocas o desej o pelo teu catam ito acim a da lealdade para com o teu pai. , . *
Jónatas ficou sem palavras. Até Abner hesitou em Interpor-se entre O rei e a sua raiva.
- O rapaz tem de m orrer - disse Saul.
- Ele não fez nada para m erecer a m orte - protestou Jónatas. Pelo m enos é o que se conta; eu não sei. Gostaria de acreditar que ele falou em m inha defesa, m as Saul era terrível na sua raiva, e até Jónatas pode não ter ousado opor-se-lhe.
Saul enviou guardas a Belém para que m e prendessem . Eu deixei Mical e fugi, em brenhando-m e na noite. Chorei quando nos separam os, m as ela insistiu para que m e apressasse.
De um a caverna nas rochas nuas, vi a aurora rom per, e esquadrinhei a planície à procura de sinais de perseguição. Rezei ao Senhor, apelando-Lhe para que se lem brasse da m inha fidelidade e de que eu nunca servira outro deus, de que a m inha fé j am ais vacilara nos dias da m inha prosperidade, e de que eu confiava Nele apesar da m inha aflição. E em seguida adorm eci.
Quando acordei, o Sol beij ava a caverna. Fiz deslizar as m ãos ao longo das coxas, com prim i-as um a contra a outra, e ansiei por Mical. O m eu desej o era intenso, m as quando passou, encontrei alívio na m inha solidão. O Sol subiu ao seu zênite, queim ando a terra castanha e tostando as rochas. Olhei a vasta planície vazia. Um falcão pairava por cim a da m inha cabeça, m as não havia qualquer som que quebrasse o silêncio do m eio-dia. Invadiu-m e a sensação de um a paz duradoura à m edida que o m undo transbordava da luz essencial da glória do Senhor.
Descansei as costas contra a rocha quente e esperei. O falcão desceu subitam ente, m as voltou a subir, as garras vazias, tendo falhado a presa. Eu observava-o a pairar na calm a virgem daquele dia sem vento. Levei o odre aos lábios e bebi um pouco de vinho e de água; em seguida voltei a adorm ecer.
Quase ao final da tarde, desci a encosta da m ontanha, os pés a escorregarem no cascalho. Durante o dia eu deixara a m inha m ente de pousio; a ação, sem pre acreditei, não é determ inada da m elhor form a pelo pensam ento. Eu m ovia-m e com um leve cuidado ao longo da pequena linha de j unção do sopé das m ontanhas, até que, virando para um lado, vi luz no vale por baixo. E então voltei a fazer um a pausa, e esperei, até que o m anto da noite caísse e as tochas se extinguissem . Por baixo de m im , tanto quanto eu sabia, encontrava-se Nob, um a povoação de sacerdotes, governada por Aim élec, neto de Eli, m estre de Sam uel. Eu conhecia-o com o alguém que ficara ao lado de Sam uel contra Saul; no entanto, não ousei confessar que eu próprio fugia do rei, com receio de que Aim élec ou alguns dos outros sacerdotes pudessem aproveitar a oportunidade para encontrar favor j unto do rei, prendendo-m e. Mais do que isso, eu suspeitava de que o m edo poderia im pedi-los de aj udarem alguém que o rei condenara.
Foi o próprio Aim élec que avançou para m im , e, quando ouviu quem eu era, m ostrou sinais de alarm e. Disse-lhe que estava envolvido num a m issão secreta em nom e de Saul, e que era im perativo que ninguém soubesse da m inha visita. Ele lançou-m e um olhar de dúvida, e eu vi que o intrigava o fato de eu ter chegado sozinho e sem ser anunciado. Disse-lhe que com binara encontrar-m e com os m eus hom ens num local secreto ali perto, e viera à procura de m antim entos.
- Não tem os pão ordinário, só pão consagrado - disse Aim élec.
- Dá-m e então cinco pães da sem ana passada - disse eu.
- Tu e os teus hom ens estais puros ou im puros? É que, com o sabes, o pão da proposição só pode ser dado àqueles que se tenham guardado de m ulheres.
- Na verdade - disse eu -, há três dias que nos tem os guardado de m ulheres.
Então Aim élec, em bora ainda nervoso, ordenou que fossem buscar o pão, e isso foi feito por um hom em que eu conhecia, Doeg, um edom ita, um indivíduo com aspecto de vilão, um pouco estrábico, que servira antigam ente na casa de Saul.
Acondicionei o pão no saco, que trazia às costas, e parti. Aim élec estava desej oso de m e ver partir, e eu não desej ava dem orar-m e.
- O rei - disse eu - ficar-te-á agradecido pela aj uda que m e deste. - E, com isto, desapareci na noite.
Agora, finalm ente, adm itia para m im próprio para onde ia. Muitas vezes m e tenho perguntado sobre as partidas que a m ente nos prega, e sobre a m inha falta de vontade até de m encionar a m im próprio m eu refúgio destinado, enquanto não tenha obtido sustento para uns dias. Será que eu receava que de algum a form a m e traísse perante os sacerdotes, e que eles então m e trairiam perante o rei? não sei, m as suponho que algum a coisa desse tipo m e reprim ia.
Num a cam panha contra os filisteus, eu passara através de um vale estreito não m uito distante do vale de Elah, e ficara im pressionado com a estranha form ação da terra. Naquele vale, através do qual corria um riacho até de Verão, havia um a colina rochosa e íngrem e, um a fortaleza isolada separada da cordilheira central das m ontanhas de Judá. Próxim o do cum e havia um a série de cavernas profundas, e até naquela altura m e pareceu que o Senhor fizera daquele local um a fortaleza segura. Cham ava-se Adullam , e, em m archas noturnas, era por lá que eu seguia.
Adullam era um local com inúm eras vantagens, incluindo as próprias vantagens naturais. Situava-se para lá da terra que Saul controlava e vigiava, e, contudo, não fazia parte do território dos filisteus. Resum indo, situava-se em terra-de-ninguém , em terra de m alfeitores, j á que os únicos habitantes daquela região, com exceção de alguns pastores, eram hom ens arruinados e sem lei que não reconheciam qualquer senhor e que viviam das incursões que faziam aos seus pacíficos, m as ainda assim distantes vizinhos. Pensei que naquele lugar poderia encontrar um refúgio e que daqueles hom ens faria o m eu próprio grupo de guerreiros.
Mas prim eiro era necessário cham ar a m im aqueles em quem sabia que podia confiar. Era perigoso fazer a tentativa; não havia futuro a não ser que eu o fizesse. Durante alguns dias estive indeciso, a pensar na form a de consegui-lo. Não ousava ir eu próprio, pois sabia que a casa de m eu pai estava a ser vigiada pelos agentes de Saul. Então, regressando ao m eu refúgio após um a saída para caçar, deparei com um pastor que dava de beber ao rebanho no riacho. Observei-o por detrás de um a rocha. Tinha dois rapazes com ele. Desci vagarosam ente a m ontanha e saudei-o. Ele pareceu im ediatam ente ansioso. Um cão-pastor rosnou. Felicitei o hom em pelo cão atento e pelo rebanho.
- O que tens com isso? - perguntou ele.
- Nada, am igo, m as percebo de ovelhas.
Os olhos dele estavam fixos na pequena espada que eu trazia pendurada ao cinto. Tirei um as m oedas de prata da m inha bolsa e fi-las tinir.
- Procuro - disse eu - um hom em que m e leve um a m ensagem . Talvez o teu filho m ais velho o faça.
O rapaz franziu o sobrolho. Eu voltei a fazer tinir as m oedas de prata.
- Eu faria com que valesse a pena - disse eu.
O rapaz m ais novo puxou pela m anga do pai e sussurrou-lhe qualquer coisa ao ouvido. O hom em olhou-m e atentam ente.
- Eu podia ganhar m ais - disse ele.
O rapaz m ais novo abanou a cabeça, com o que para negar que aquele fora o conteúdo do que sussurrara. Coloquei a m ão sobre os copos da m inha espada.
- Podias - disse eu. - Ou talvez não. A distância é longa daqui até ao rei, m as o prim eiro passo seria o m ais perigoso.
- Sim - disse o pastor -, o que sei de ti é que és um hom em sanguinário. O rapaz irá se o preço for j usto.
Atirei-lhe algum as m oedas.
- O m esm o - disse eu - quando ele voltar. Ele deve ir a Belém , procurar a casa de Jessé, m eu pai, e perguntar pelo m eu irm ão Cham a. Deve, então, dizer a Cham a onde eu m e encontro e que ele deve vir ter com igo com o m aior núm ero de hom ens que conseguir reunir. Olhei o rapaz no rosto. - Se m e enganares - disse eu -, que o Senhor tenha m isericórdia da tua alm a, pois as tuas m ãos estarão m anchadas do sangue do teu irm ão e do teu pai. - Fiz sinal ao rapaz m ais novo. - Tu vens com igo. Traz um dos cordeiros do teu pai.
Teria eu agido de outra form a se o rapaz, Laís, não fosse belo? Provavelm ente não, pois era prudente levá-lo com o refém , m as, ao prim eiro olhar que lhe lancei, reparei nos olhos escuros, nos lábios carnudos e nas pernas direitas e fortes que a sua túnica curta revelava. Havia j á sete dias que eu estava sozinho. Sentia saudades de Mical, e sem pre detestei praticar o pecado de Onan. Nessa noite deitei-m e com ele depois de term os com ido. Ele entregou-se a m im com um desej o igual ao m eu.
- Tenho sonhado contigo, m eu Senhor David - disse ele -, desde que ouvi pela prim eira vez contar com o m ataste Golias - e as nossas línguas dançavam j untas à m edida que nos entrelaçávam os um no Outro. - Quando o m eu irm ão regressar - disse ele -, eu ficarei contigo. - soltou um riso abafado. - O m eu irm ão fá-lo com as ovelhas - disse ele.
- A m aior parte dos rapazes que são pastores faz isso - m urm urei eu -, m as eu nunca m e im portei com igo, e... - em purrei para trás o cabelo em aranhado que lhe encobria o rosto e beij ei-o. Ele voltou a rir:
- Eu preferia fazer de ovelha do que de carneiro - disse ele, e virou-se nos m eus braços, em purrando as nádegas contra m im . Mais tarde, eu disse:- Mas não faltará m uito para preferires o papel do carneiro, Laís. Es ainda um m enino. Quando os m eus am igos vierem , farei de ti m eu escudeiro.
Passados três dias, perto do final da tarde, Cham a chegou com m eia-dúzia de hom ens. Dei ao irm ão de Laís o que lhe prom etera e m andei-o em bora com um aviso do que lhe poderia acontecer se ele revelasse o nosso paradeiro. Ele parecia tão som brio com o antes, e perguntei-m e se não teria sido m ais sensato da m inha parte tê-lo despachado. Penso que Laís não se teria oposto, e via que alguns dos m eus novos com panheiros pensavam que eu fora im prudente ao confiar no seu silêncio. Mas sem pre preferi não derram ar sangue, a não ser que tal sej a im perativo. O Senhor am a aqueles que são m isericordiosos.
Cham a disse-m e que deixara m ensagens e instruções a outros am igos, e que esperava receber reforços em breve. Eu confiara que ele assim faria, pois sabia que a nossa posição continuava perigosa até eu reunir um a força suficientem ente grande que m e perm itisse fazer m ais do que esconder-m e nas cavernas - por m ais agradável que, noutros aspectos, Laís tornasse a m inha estada ali.
Passado pouco tem po, os hom ens prom etidos com eçaram a chegar. Os filhos da m inha m eia-irm ã Seruia -Joab, Abisai e Asael - encontravam -se entre os prim eiros que se j untaram a m im . Recebi Joab com um a m istura de sentim entos. Por um lado, nunca foi fácil lidar com ele. Independentem ente dos serviços que ele m e prestou, nunca consegui ultrapassar a sensação de repulsa que ele m e inspirava. Por outro lado, era prova da m inha reputação o fato de que um hom em tão capaz e am bicioso tivesse trocado o serviço de Saul pelo m eu. No entanto havia nele um ar perturbado e, ao m esm o tem po, perturbador. Ele era agora cruel ao denunciar Saul e toda a sua fam ília, e até dizia que desej ava tê-los m orto a todos antes de ter vindo j untar-se a m im .
Era característico de Joab o fato de não dem orar a dizer-m e que Saul j á dera Mical a outro hom em com o esposa, o fato de sugerir que ela não fora contrariada, e o fato de que ele tinha um prazer m alicioso em ser o portador de tais notícias. Era tam bém característico o fato de, após tê-lo feito, ter olhado Laís e ter dito:
- Mas vej o que a notícia tem m enos probabilidades de te m agoar do que eu pensava.
Os irm ãos dele tinham um caráter diferente. Abisai era calm o e totalm ente de confiança; Asael era vivo, coraj oso, belo e cheio de alegria.
O nosso pequeno grupo crescia em núm ero e coloquei Joab a treiná-lo. Apesar dos seus defeitos, nunca lhe neguei capacidade m ilitar, e sabia que ele com preendia o que eu queria dos m eus hom ens e que os prepararia de acordo com os m eus obj etivos.
Um dia, ao fim da tarde, quando os cozinheiros estavam a preparar o j antar, a sentinela gritou o aviso de que estava alguém a chegar. O hom em que subia a m ontanha estava exausto, tendo caído por duas ou três vezes e pondo-se em pé com dificuldade. Enviei Laís e Asael para o aj udarem , e, quando o trouxeram à m inha presença, o que restava das suas roupas verm elhas revelava que era sacerdote.
De início, ele nem conseguia falar, m as, depois de lhe terem dado sopa e vinho, ele recobrou ânim o suficiente para estar m ais consciente do lugar em que se encontrava. Ao ver-m e, caiu aos m eus pés e, quando eu o levantei, disse que era Abiatar, filho de Aim élec, sacerdote de Nob, e « o últim o da casa de Eli» . A história que ele contou, num a voz entrecortada de freqüentes soluços e m uitos suspiros, era terrível.
Saul, disse ele, reunira o conselho alguns dias após a m inha fuga. Sentou-se debaixo de um a tam argueira em Ram a, com um a lança na m ão, e am aldiçoou os seus conselheiros pela sua falta de êxito em prenderem -m e. Acusou-os de conspirarem contra ele, e de estarem coniventes com Jónatas, que o traíra e se aliara a m im .
- Não há um hom em - gritou ele - que sej a leal e m e aj ude a encontrar o m eu inim igo?
Nesse m om ento Doeg, o edom ita, avançou e aj oelhou-se perante o rei. Contou-lhe sobre a visita que eu fizera a Nob e que Aim élec m e dera m antim entos.
Assim , Saul m andou buscar Aim élec e os outros sacerdotes de Nob e acusou-os de aj udarem o seu inim igo. Aim élec protestou que, tanto quanto sabia, eu era um servo leal ao rei, e que acreditara que, ao aj udar-m e, estava a ir de encontro aos desej os do rei. Com o é que ele saberia que o m arido da filha do rei e assassino de Golias se tornara inim igo de Saul? A sua defesa enfureceu Saul ainda m ais, tanto m ais que, suponho eu, as suas palavras eram tão evidentem ente verdadeiras que, por isso, não tinham resposta. Gritando que não argum entaria com um traidor, Saul ordenou aos seus servos que o m atassem . Nenhum hom em se m oveu, até que Doeg, o edom ita, avançou e, puxando por um a espada, atingiu Aim élec no pescoço. Quando este caiu, Doeg cortou-lhe a cabeça, e em seguida virou-se para os outros sacerdotes, que estavam dem asiado aterrorizados para se m exerem . Este era o sinal para um m assacre geral. Segundo Abiatar, foram m ortos m ais de oitenta sacerdotes; e ele próprio só escapou porque fingiu estar m orto e fugiu, rastej ando, quando a noite caiu.
Esta história com oveu-nos a todos profundam ente.
Abracei Abiatar e disse:
- Um a grande parte da culpa é m inha: eu soube, quando vi Doeg, o edom ita, que ele contaria a Saul sobre a m inha visita, e, em bora não pudesse prever que Saul se vingaria de form a tão terrível daquilo que o teu pai fizera em toda a sua inocência, m esm o assim , fui eu a causa da m orte de toda a tua casa. Suplico, por isso, que fiques com igo, e prom eto que te m anterei em segurança.
Contudo, enquanto estava deitado sob as estrelas, com Laís a dorm ir a m eu lado, eu não podia fazer outra coisa senão refletir sobre os m isteriosos desígnios do Senhor, que asseguram que do m al vem o bem : é que ninguém que se encontrasse agora ao m eu serviço poderia ter qualquer dúvida sobre qual seria o seu destino se caísse nas m ãos de Saul. Assim , parecia-m e, a violência e a crueldade do rei tinham -m e prestado um serviço, prendendo os m eus hom ens firm em ente à m inha causa.
A pequena cidade de Queila - um a povoação israelita a cerca de um a hora de m archa das nossas cavernas - estava a ser cercada por um a força filisteia. Resolvi que devíam os libertá-la e fazer dela a nossa base. Era claro para m im que, se queria estar à frente de algo m ais do que um grupo de hom ens fora-da-lei, teria de estabelecer a m inha reputação com o um chefe capaz de ter êxito onde Saul falhava, e de proteger os nossos conterrâneos do terror dos filisteus. Tão-pouco podia eu esquecer que era o sucessor ungido de Saul. O rei virara-se contra m im por esse m otivo, recom pensando a m inha lealdade com a perseguição. Em purrara-m e para o deserto, m as eu faria do deserto o m eu ponto de partida e não o m eu destino.
- Podem os - disse eu aos m eus oficiais - estabelecer um principado nosso, um estado de fronteira, independente de Saul e seguro em relação aos filisteus.
A m inha determ inação não foi bem recebida. Isso surpreendeu-m e. Se os m eus seguidores não estavam preparados para tal aventura, porque é que, perguntava eu, se tinham j untado a m im ?
Seria sim plesm ente para atuarem com o salteadores e lacaios?
Para seu crédito, Joab, nunca dem onstrando falta de inteligência, m as, por vezes, falta de discernim ento, viu a força do m eu argum ento; e onde Joab ia à frente, outros, que reconheciam a sua calm a m as que receavam a m inha audácia, em bora a adm irassem , estavam prontos a segui-lo. Aborrecia-m e que Joab e eu estivéssem os tão íntim a e necessariam ente unidos; m as eu reconhecia o valor do laço que nos unia.
Atacam os o acam pam ento filisteu ao am anhecer. Observei m uitas vezes que aqueles que cercam um a cidade se encontram em condições precárias ou vulneráveis, a não ser que o seu com andante tenha tanto a inteligência com o os recursos para se proteger de um a força libertadora. Ao com andante filisteu, de cuj o nom e m e esqueci, faltava pelo m enos a inteligência. As suas forças estavam concentradas j unto às m uralhas de Queila, e parece que não lhe ocorreu guardar a retaguarda. Desbaratam os o seu exército antes do nascer do Sol. Houve pouca resistência e não perdem os um único hom em . As portas de Queila abriram -se-nos, e fom os recebidos com o heróis e libertadores. A gratidão dos habitantes da cidade sobreviveu até ao ataque que os m eus hom ens fizeram às adegas. Reuni os anciãos e inform ei-os de que dali para a frente se encontravam sob a m inha proteção; e que estavam dispensados da lealdade para com Saul, que os abandonara aos lobos filisteus, e que agora deviam considerar-m e seu senhor. Convidei-os a oferecerem donativos que satisfizessem as necessidades dos m eus soldados; e eles não recusaram .
Eu dava valor ao m eu pequeno triunfo por outra razão: ele lem brava aos filisteus que eu era um hom em a ter em consideração. É claro que eu sabia que havia poucas hipóteses de m e encontrar em breve em posição de m e defrontar com o exército filisteu em condições de igualdade; m as isso não m e preocupava. Eu via, em bora o escondesse até dos m eus oficiais, que poderia chegar a altura em que eu precisasse de fazer concessões am igáveis aos filisteus, se o obj etivo de Saul em relação a m im perm anecesse inalterável; e parecia bom que através desta pequena aventura independente eu m e tivesse m ostrado form idável.
Entretanto enviei um a m ensagem a Saul, na qual declarava que o sofrim ento de Israel forçara as m inhas ações, e que eu seguraria Queila para proteger a fronteira. Havia talvez um a insolência im plícita nesta declaração, que era provável que enfurecesse o rei. Novam ente, eu j ulgava que o efeito m oral da m inha expressão de confiança não m e prej udicaria entre aqueles que, no exército de Saul, estavam conscientes dos seus poderes em declínio, e que ficaram tam bém consternados com m inha expulsão e com a desonra de Jónatas.
A m inha satisfação foi de pouca dura. Queila era um sítio pequeno. Não era fácil acom odar os m eus hom ens, que, após a estada no deserto, não eram , confesso, os convidados m ais agradáveis para os habitantes da cidade, cuj a gratidão inicial depressa foi substituída por resm ungos entredentes. As relações entre eles e o m eu exército deterioraram -se. O adm inistrador de Queila, que viu a sua im portância dim inuída pela m inha presença, verificou-se obstrutivo. Para lhe ensinar m elhores m aneiras, e para im pressionar o povo com a m inha severidade, destituí-o do seu posto e coloquei-o sob prisão dom iciliária. Joab era todo a favor de o m andar açoitar, ainda m ais quando soube que o adm inistrador declarara que éram os hom ens im orais e ím pios: David com etia abom inação com Laís, e Joab com El-Hanan, filho de Dodo, de Belém . Eu era solidário com a raiva de Joab, m as, acreditando que açoitar o adm inistrador iria irritar os habitantes da cidade, recusei concordar com isso. Contentei-m e em levar a m ulher do adm inistrador para o m eu leito, certificando-m e de que ele soubesse que eu o fizera.
Este incidente, contudo, fez-m e refletir. Era natural, é claro, que. enquanto vivêssem os com o hom ens à m argem da lei - seiscentos hom ens sem m ulheres - houvesse vários de nós culpados daquilo que os sacerdotes consideram um a ofensa contra o Senhor; hom ens, especialm ente soldados, devem encontrar alívio, e, se estão privados de m ulheres, vão buscá-lo onde ele existe. De qualquer m aneira, eu não acreditava que a m inha ligação a Laís fosse im oral. Contudo, não m e enganei ao supor que os rum ores sobre as nossas relações não prej udicariam a m inha reputação, por m ais natural que os m eus hom ens os achassem . Os m eus sentim entos pelo rapaz eram de ternura e am or, assim com o de desej o; no entanto, m esm o quando o tinha nos braços, sob o céu noturno, eu tinha saudades de Mical, pois o hom em que gozou o am or de m ulheres, não pode encontrar nunca verdadeira satisfação num rapaz. O ato pode ser de prazer intenso, e, no entanto, há nele futilidade, pois existe apenas por si só e para si só. A m ulher do adm inistrador era gorda, m ais velha do que eu, inexperiente na arte do am or, e passiva nos m eus braços com o carne m orta. Mesm o assim , ela deu-m e o que o m eu pobre e encantador Laís não m e poderia nunca dar.
Chegou a notícia de que Saul m archava contra Queila; e era óbvio que a sua chegada seria bem -vinda pelos habitantes da cidade, cuj o ressentim ento contra a nossa presença e exigências estava j á a fazê-los esquecer que eu os libertara das m ãos dos filisteus. Joab era a favor de segurar a pequena cidade e desafiar Saul; m as era duvidoso que o pudéssem os fazer, a não ser que os hom ens de Queila estivessem ao nosso lado. E eu não acreditava que eles estivessem . Para persuadir Joab disso, m andei Abiatar, com o sacerdote, ler o oráculo, para que pudéssem os conhecer a palavra do Senhor. À m inha pergunta, se os hom ens de Queila estariam a m eu lado ou m e entregariam antes a Saul, a resposta foi inequívoca. Assim , preparam o-nos para partir, pegando prim eiro fogo aos telhados das casas para dar aos ingratos um a lição de boas m aneiras.
Retiram o-nos para o Sul, para Hebron, para fora do alcance de Saul, onde nos sustentávam os cobrando tributo aos agricultores cuj as terras nós, em troca, protegíam os de saqueadores.
O principal proprietário da zona era um hom em cham ado Nabal, rico em rebanhos de ovelhas e cabras. Por altura da tosquia, nós guardam os os seus hom ens através de Carm el, e, quando a tosquia term inou, enviei a Nabal um destacam ento dos m eus hom ens. Asael chefiava a delegação, sendo o que m elhor falava e o m ais apresentável dos m eus oficiais. Dei-lhe instruções para que falasse com Nabal de form a educada e diplom ática. Devia contar-lhe com o tínham os guardado a tosquia dos seus rebanhos e assegurado que decorresse sem perturbações; Nabal devia ter reparado que não perdeu nem um a única ovelha ou onça de lã. O cuidado com que as tínham os guardado devia agora ser recom pensado.
- Não há necessidade - disse eu a Asael - de proferir qualquer am eaça, m as não fará m al se o inform ares de quantos som os, e lem bra-o das m inhas façanhas, e diz-lhe tam bém que gênero de hom em sou.
Contudo, Nabal era louco, e enfureceu-se. « Quem era esse David?» , gritou ele. Um fugitivo do seu rei? Não era m elhor do que um reles fora-da-lei, segundo o que ele ouvira dizer. Que David saiba que ele, Nabal, nunca pagara qualquer proteção a nenhum salteador e não iria com eçar a fazê-lo agora.
Asael regressou com esta m ensagem insolente. Naturalm ente, eu coloquei a m inha resposta em m ovim ento. Não tinha alternativa, se queria m anter o respeito dos m eus hom ens, e nessa noite m archam os em direção às terras de Nabal.
Não íam os longe, no entanto, quando os m eus batedores relataram que um a caravana avançava para nós.
Pensando que talvez Nabal tivesse, m uito sensatam ente, m udado de opinião, dei ordem para pararm os, enquanto, prudentem ente, dava igualm ente ordem a Joab que preparasse os hom ens para com bater. A caravana aproxim ou-se, e um a figura separou-se do grupo e avançou para nós, sozinha. Havia luar, e o em issário ainda se encontrava a algum a distância, quando vi que se tratava de um a m ulher. Deixei-a aproxim ar-se de nós, m uito à frente da caravana, antes que m e m exesse para a saudar. Quando o fiz, ela aj oelhou.
Em seguida levantou a cabeça e falou, perguntando prim eiro se estava a dirigir-se a David, o futuro rei de Israel. Era Abigaíl, disse ela, esposa de Nabal, e trouxera-m e os presentes que o m arido m e negara. Im plorou-m e que o perdoasse pela sua loucura, que ela teria evitado, se tivesse estado presente quando os m eus hom ens se dirigiram a ele.
- Recebe o que te trago com o oferta de paz - disse ela -, para que não haj a qualquer rixa sangrenta entre a poderosa casa de Nabal e o m eu Senhor David.
É claro que eu não tinha qualquer desej o de derram ar sangue desnecessário, e m andei avançar os m eus hom ens para que trouxessem os j um entos em que ela carregava os seus presentes. Achando-os satisfatórios, enviei-a para casa com a certeza de que tinha evitado o derram am ento de sangue e, ao ganhar a m inha gratidão e am izade, preservara o m arido das conseqüências da sua própria estupidez e m aus m odos.
Mesm o assim , enviei um a escolta de cinqüenta hom ens com ela, para assegurar que ela não sofresse a raiva de Nabal, que eu tinha a certeza que as ações dela teriam provocado.
Abigaíl, de olhos orvalhados da excitação de ter traído o m arido, estava apreensiva em relação à raiva dele. Ao regressar, encontrou-o tão ébrio a ponto de não estar consciente. Pela m anhã, quando ele, crapuloso, estava deitado, ela contou-lhe o que fizera. Ele extravasou a sua raiva e bateu-lhe. Ela gritou, alertando os m eus hom ens. Eles em purraram para o lado o guarda que se encontrava j unto à porta do quarto, e, encontrando Nabal de pé em cim a da m ulher que estava no chão, a trem er, calaram o louco. Penso que não foi o golpe que o m atou, pois ainda se arrastou alguns dias antes de m orrer. Sem dúvida que foi a vontade do Senhor que fez com que ele sofresse pela sua falta de senso. Abigaíl assegurou-m e que ele tivera um ataque de apoplexia.
Quando eu soube da m orte de Nabal, m andei im ediatam ente buscar Abigaíl para fazer dela m inha m ulher. Ela concordou sem hesitar, e veio ter com igo com algum as das suas servas. Foi de um a destas, cham ada Aínoam , um a m enina sorridente de olhos pretos e travessos, que nasceu o m eu prim eiro filho, nove m eses depois. Dei-lhe o nom e de Am non.
Entreguei Laís a Asael, que havia m uito o adm irava, e que tam bém casou com um a das servas de Abigaíl.
A situação do m eu pequeno exército era ainda arriscada. Perm anecem os na terra rude a sul de Hebron, e vivíam os da necessária extorsão dos agricultores de lá, que, no entanto, beneficiavam de proteção contra m alfeitores que nós lhes fornecíam os. Contudo, sendo os agricultores por natureza ingratos, a nossa presença não era bem -vinda; e, na verdade, havia alturas em que eu lam entava o peso que nós lhes im púnham os. Mas as coisas não poderiam ter sido de outra form a. Éram os dem asiado fracos para desafiarm os Saul em cam po aberto, o que, de qualquer m aneira, eu estava relutante em fazer, devido ao respeito que ainda sentia por ele e tam bém por causa do m eu am or duradouro por Jónatas. No entanto, aborrecia-m e ser obrigado a viver assim . O tem po estava a passar, e eu, que fora durante tão breve e esplendidam ente um dos Grandes de Israel, via a m inha am bição a estagnar, o m eu gênio sem em prego satisfatório. As canções que eu cantava ao Senhor eram m elancolia nestes m eses desertos. Mais do que isso, alguns dos m eus hom ens sentiam -se oprim idos pela aparente futilidade do nosso m odo de vida. Joab resm ungava por causa da nossa inação, e isso perturbava-m e; o seu descontentam ento podia verificar-se contagioso, e eu sabia que a sua lealdade nunca foi m ais do que provisória.
Chegou a notícia de que Saul m archava contra nós, com um grande exército. Alguns diziam que eram cinco m il, outros dez m il. Não tínham os m eio de saber qual das estim ativas estava correta; m as era certo que a força do rei superava largam ente a nossa, e que não podíam os esperar defrontá-la em cam po aberto. De qualquer m aneira, eu não desej ava arrastar Israel para a guerra civil nem para um a luta fratricida. Apesar da im paciência de Joab, eu estava contente por esperar a m inha hora.
Aproxim ava-se o fim do Verão. As colheitas tinham sido feitas, e extraím os m antim entos suficientes aos relutantes agricultores. Eu sabia que não era provável que Saul m antivesse a cam panha pelo Inverno dentro, pois m esm o que a sua força igualasse apenas a estim ativa m ais inferior, ele não teria m eios de a agüentar no cam po quando chegassem as chuvas de Outono e o tem po frio se instalasse. Além disso, eu tinha razões para acreditar que Saul j á não era capaz de m anter um a cam panha longa. Aqueles que m e traziam inform ações secretas, interm itentem ente, do acam pam ento do rei, todos m e asseguravam que Saul sofria um declínio tanto m ental com o físico. Alguns diziam que ele todas as noites recolhia ébrio ao seu leito; se assim era, eu sentia pena dele, pois acredito que ele bebia para afastar ou dom inar os dem ônios que o atorm entavam . Outros diziam que ele caíra no hábito de consultar bruxas e necrom antes, abj etos patifes que fingem um conhecim ento do futuro que nenhum hom em ou m ulher pode possuir; pois o futuro só é conhecido do Senhor, que guarda de nós os Seus segredos pelos Seus inescrutáveis desígnios. Pelo m enos é o que crem os sacerdotes; pela m inha parte, acredito que o Senhor deixa a vontade do hom em livre e apenas intervém para guiar os contornos m ais latos do nosso destino. Ponderei m uitas vezes tais assuntos naqueles anos que passei no deserto, e desde então não encontrei m otivo para alterar a m inha opinião. O conhecim ento que o hom em tem de si próprio e dos seus condicionalism os não tem m aior alcance do que a luz de um a pequena vela num grande átrio.
A m inha estratégia de resposta à perseguição de Saul era retirar-m e antes de ele chegar, retirar-m e para o deserto de Zif e para as altas m ontanhas onde os m eus hom ens, agora acostum ados a um a vida dura, estariam em vantagem num a escaram uça que fosse forçada contra nós. Mas eu estava confiante de que podíam os evitar um a batalha e de que o exército de Saul depressa se cansaria da vã perseguição de um inim igo que parecia tão pouco real com o um a som bra. A m inha estratégia foi coroada de êxito. Encontrávam o-nos m uitas vezes a poucos quilôm etros de distância de Saul sem que ele se apercebesse da nossa presença. Alguns dos m eus hom ens ansiavam por um a batalha, m as a m aior parte apreciava o j ogo que eu estava a j ogar.
Ora aconteceu que, certa noite, no intervalo entre a Lua cheia e a nova, Saul estava acam pado a m eia hora de m archa do nosso próprio local de refúgio, ignorando, no entanto, quão próxim o se encontrava da sua presa pretendida. À m edida que fazia a ronda pelos nossos postos avançados, fui dom inado pelo im pulso de lem brar ao rei que tipo de hom em eu era. Assim o disse a Abisai, irm ão de Joab e que era o chefe da vigia noturno, e apontei para o trem eluzir das fogueiras do acam pam ento do rei no vale por baixo de nós. Abisai era um hom em sem im aginação, m as de absoluta fidelidade e confiança, tão pronto para m e seguir e confiar em m im com o os cães-pastores que eu costum ava treinar na m inha infância.
Assim , dando apenas um a breve palavra aos postos avançados, descem os a encosta a coberto do escuro da noite, sem usar qualquer luz, m as confiando na consciência de que a nossa experiência de vida de fugitivos fizera a nossa segunda natureza. Saul, sofrendo de excesso de confiança, ou sim plesm ente devido aos seus poderes em declínio, colocara no posto de vigia um a sentinela inadequada, e nós deslizam os sem dificuldade por entre o cordão exterior do seu acam pam ento. O excesso de confiança deve ter sido a razão, com o vim a concluir m ais tarde, pois Abner estava com o rei, e, com o estratego experiente e hábil que era, teria certam ente assegurado que a guarda fosse posicionada de form a m ais concentrada, se não tivesse sido vítim a de um a inteligência defeituosa.
No entanto, m esm o enquanto escrevo estas palavras, a dúvida surge-m e; pois a verdade é que, por essa altura, com o descobri m ais tarde, o com portam ento de Saul tornara-se tão irregular que nem sequer Abner ousava argum entar com ele nem corrigir sub-repticiam ente, com o estivera acostum ado a fazer, eventuais disparates em que o rei pudesse incorrer. Saul chegara, de fato, a um triste estado, em que a sua raiva era facilm ente estim ulada contra qualquer pessoa que parecesse não estar de com pleto acordo com ele. A verdade é que, neste estádio, Saul j á não se encontrava apto a ser nem rei nem general do exército; m as, um a vez que era am bas as coisas, Israel sofria.
Conhecíam os, é claro, a disposição do acam pam ento do rei, e, assim , Abisai e eu, um a vez no interior das linhas, m ovíam o-nos com a confiança e a liberdade de hom ens que tratavam naturalm ente dos seus assuntos; tal com portam ento não é, geralm ente, colocado em questão, e a noite era dem asiado escura para que alguém nos visse o rosto e nos reconhecesse. Seria exagero sugerir que, um a vez no interior das linhas, estávam os fora de perigo, pois o azar é sem pre possível. Contudo, fizem os o que pudem os para elim inar o risco de que alguém pudesse parar e interrogar-nos quanto à determ inação com que nos dirigíam os à tenda do rei.
Esse constituía um m om ento de perigo, pois era certo que a tenda estaria guardada por sentinelas. Mas um a grande e m iraculosa calm a pairava sobre tudo; era com o se o exército real inteiro fosse apanhado num sono provocado por drogas. Não havia sentinelas; entrám os na tenda sem serm os abordados, e dem os conosco de pé, j unto ao corpo adorm ecido do rei, que estava deitado na sua enxerga, um a lam parina de azeite em cim a de um a cadeira que se encontrava a seu lado, pois Saul experim entava agora todos os terrores da escuridão, e, com o um a criança pequena, receava estar sem luz, caso acordasse antes do rom per da m anhã.
Tinha a lança estendida no chão a seu lado, num local onde facilm ente lhe poderia chegar com a m ão no m om ento em que acordasse. Mas a sua dorm ência era profunda. Estava deitado de costas, ressonando, e dele soltava-se um forte odor a vinho. Abisai colocou a m ão na lança.
- David - sussurrou ele -, o Senhor entregou nas tuas m ãos o teu inim igo.
Levantou a lança do chão e estendeu-m a.
- Mata-o com a sua própria lança. Depois fugim os daqui, e pensarão que ele foi m orto por um dos seus próprios hom ens. Ninguém suspeita de que estam os aqui. Podem os sair daqui tão facilm ente com o entram os. Pensarão que alguém que estava farto da sua loucura e que j á não confiasse nele para estar à frente de Israel pôs fim à sua vida. Então ou Jónatas, que é teu am igo, será rei, e tu serás restabelecido na posição que de direito te pertence, ou o povo lem brar-se-á de Sam uel e cham ar-te-á com o o Ungido do Senhor.
Talvez ele não tivesse dito tudo isto. Talvez estes tenham sido apenas os pensam entos que lhe li no olhar. Talvez eu tenha atribuído ao pobre Abisai, calm o e desprovido de im aginação, os pensam entos que fluíam na m inha própria cabeça.
Deixai-m e ser honesto, com o nunca fui das m uitas vezes que tenho contado a história desta proeza - aborrecendo com isso os m eus filhos, receio eu, até o m eu am ado Absalão, e certam ente aquele frio e fastidioso Salom ão, a quem a idéia de resvalar por um a encosta abaixo e entrar no acam pam ento do inim igo deve parecer im pensável. Sem pre fingi ter rej eitado im ediatam ente a sugestão de Abisai (ao contar a história coloquei na boca de Abisai as palavras que aqui escrevi para ele, tornando-as, por vezes, de fato m ais fortes e m ais coloridas). Sem pre m e apresentei com o m agnânim o, com o alguém a quem a idéia de m atar Saul fosse totalm ente repugnante.
.„, Mas é claro que não foi assim . As histórias raram ente são com o gostam os de as contar. Peguei na lança que Abisai m e estendia e senti-lhe o peso na m inha m ão. Perguntei-m e, absurdam ente, se seria a m esm a lança que o próprio Saul m e atirara enquanto eu cantava para ele, naquela vã tentativa de curar a sua loucura. Encostei-lhe a ponta à garganta e piquei-lhe a pele, fazendo surgir um a gota de sangue, que cresceu com o um a cerej a a am adurecer. Saul não se m oveu no seu ébrio torpor; os seus roncos continuavam a repercutir-se, eu afastei a lança e segurei-a no ar, com am bas as m ãos, sobre o seu ventre agitado. Houve um m om ento - ainda sinto a excitação -em que estive prestes a atacá-lo.
O que m e im pediu? O que foi, de fato? Quem m e dera poder dizer que foi m edo do Senhor que nos deu o m andam ento: « Não m atarás.» Quem m e dera poder dizer isso, sem m entir. Pode ter sido por prudência. No m eu j uízo perfeito eu sabia que Saul estava agora lançado, dem oniacam ente em purrado, para um cam inho, um a form a de vida, que devia levar ao desastre, pois toda a realidade que ele reconhecia existia agora apenas na sua m ente perturbada. Posteriorm ente pensei que desisti por causa da m inha própria posição com o Ungido do Senhor, Se o rei de Israel fosse vítim a de um assassino, qual seria a esperança do seu sucessor? Mas penso que não foi isso. Penso que poupei Saul porque naquele m om ento m e veio à cabeça a im agem dele a avançar na m inha direção quando pela prim eira vez o curei da sua loucura, quando ele estendeu a m ão e m e tocou a face e eu senti os seus dedos quentes e a m ão firm e, à m edida que ele dizia: « Estive longe e tu trouxeste-m e de volta.»
Por isso eu disse a Abisai:
•- Não.
Ele olhou-m e sem com preender. •
- Não - repeti. - Não posso fazê-lo.
- Nesse caso, dá-m e a lança - disse ele - e eu acabarei com este assassino de sacerdotes.
- Não, Abisai - disse eu -, apaga aquela lam parina de azeite, e eu levarei a lança de Saul, e asseguro-te, em bora não m e com preendas agora, que terem os ganho um a vitória m uito m aior e um m aior renom e do que se tivéssem os de fato m orto Saul.
Era, talvez, um a atitude pouco am ável, sabendo eu, com o sabia, do pavor que Saul tinha da escuridão, ter-lhe apagado e depois retirado a lam parina, m as eu não via por que m otivo ele deveria escapar im pune, e, de qualquer m aneira, dorm ia tão profundam ente que não achei provável que acordasse antes da luz do dia.
Pela m anhã, quando o Sol tocou as m ontanhas com os seus dedos cor-de-rosa, eu avancei para um a saliência num a elevação da m ontanha que dava para o acam pam ento de Saul. Laís estava com igo, e soprou fortem ente um com o de carneiro para alertar aqueles que se encontravam no vale por baixo. Em seguida fechei as m ãos em concha e, no silêncio claro do ar da m ontanha, gritei com quanta força tinha para cham ar Abner. Passou algum tem po, e Laís voltou a soprar o com o, um a nota trocista e provocadora, e então vi Abner avançar para a extrem idade do acam pam ento. Levantei a voz e, usando a linguagem m arcadam ente retórica que é considerada adequada à com unicação form al entre personagens im portantes, gritei: