Rei Davi

Allan Massie · Capítulo 2 de 4 · parte 2/5

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Rei Davi

Livro Um

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

A m inha voz tornava-se m ais forte, m as o m eu coração batia m ais depressa, pois via a perspectiva de fracasso a abrir-se à m inha frente. Via fugir ingloriam ente esta grande oportunidade que m e fora concedida. Ouvia o escárnio dos m eus irm ãos e im aginei-m e a regressar na ignom ínia à casa de m eu pai. Eu podia ter chorado de dor, com o um anim al ferido, e, no m eu coração, am aldiçoei esta coisa que era, ou fora, Saul, pois não respondia à m inha m úsica, perm anecendo insensível com o as rochas entre as m ontanhas.

Cantei sobre o am or, sobre donzelas j unto ao poço, à m edida que o entardecer se alongava e elas olhavam , ansiosas, os pastores que ali tinham ido antes delas. Cantei a beleza terna dos seus avanços e retiradas, à m edida que a Lua se erguia no firm am ento e os j um entos se encontravam debaixo das oliveiras. E Saul não se m exeu.

Um edeci os lábios, e, arriscando tudo, cantei sobre a beleza e a força do próprio Saul na sua gloriosa j uventude. Cantei a sua grandeza na guerra e a sua m agnanim idade na vitória.

Grande am bição e feitos e o coroar de tudo;

O brilho do prazer que desce sobre o m aior,

O esplendor da m anhã, os dias que encantam ,

A glória e a beleza que fazem avançar o rei Saul.

A estas palavras, a cabeça voltou a erguer-se. Um a m ão - forte, escura, peluda - estendeu-se e tocou-m e a face. Os dedos trem iam -lhe com o os de um a m ulher nos prim eiros m om entos de um a paixão a acordar, m as eram frios com o o m etal num a m anhã de geada. Eu de form a algum a m e afastei. Em vez disso, forcei-m e a encontrar o seu olhar, e não encontrei nada. A m ão caiu, e eu continuei a cantar. Mas agora havia um a diferença; a raiva estava a abandonar Saul. Entoei um a canção de em balar com o se faria a um a criança, e as pálpebras caíram sobre aqueles olhos m ortos e Saul adorm eceu. Era, eu sabia, o sono de um hom em exausto que durante m uito tem po não ousara deixar-se escorregar para a inconsciência, com receio dos dem ônios que o assaltariam . Continuei a cantar, devagar, calm am ente; e em seguida tudo m ergulhou no silêncio, apenas quebrado pela respiração do rei.

Passado m uito pouco tem po, a cortina foi afastada para o lado, e Abner fez-m e sinal com a m ão.

- O rei dorm e - disse eu.

- É a prim eira vez desde há dias. Com o acordará ele?

- Quem é que pode adivinhar?

- Os dem ônios abandonaram -no?

- Talvez durm am tam bém - disse eu.

- Trabalhaste bem . Tu próprio pareces esgotado.

Bateu as palm as e um a escrava trouxe vinho e um prato de bolinhos de am êndoa.

Até hoj e, não sei qual foi a causa da perturbação de Saul, e não sei porque a m inha m úsica o acalm ou e pareceu efetuar um a cura. Alguns dos cortesãos do rei diziam que o seu estado era resultado de um golpe que recebera m eses antes de um a espada dos filisteus; isso fez com que o osso lhe pressionasse o cérebro, diziam eles. Pode m uito bem ser verdade; se assim for, é difícil im aginar que a m úsica pudesse ter qualquer efeito benéfico. Contudo, é de m ais supor que a m elhoria do seu estado foi apenas um a feliz coincidência com o fato de eu estar a tocar para ele. Pela m inha parte, sem pre pensei que a rej eição de Sam uel em relação a Saul desencadeou a devastação na sua m ente, dando origem a estranhos m edos. Talvez Saul nunca se tenha realm ente considerado m erecedor do seu papel de rei, e se tenha refugiado do seu aguçado sentido de im perfeição nestes acessos de loucura. Tal explicação - em bora do tipo que é m otivo de troça por parte de um hom em dom inado pelo senso com um com o é Joab - faz sentido para m im , pois sei da m inha própria experiência com o a m ente está suj eita a terrores que a razão pode pôr de parte, m as que não pode apaziguar.

Voltei a tocar para o rei no dia seguinte, e voltei a vê-lo m udar de um a coisa dom inada por terrores que não podia m encionar para um hom em capaz de fechar os olhos num sono pacífico. E assim foi durante seis dias, e as pessoas perguntavam -se sobre a m udança operada em Saul, m as continham -se, ainda receosas. Apenas Abner tinha confiança em que se estava a processar um a cura. Todos os dias m e encoraj ava, j á que antes de eu entrar no quarto de Saul, eu próprio era sem pre assaltado pelo m edo, pois parecia-m e que Saul continuava im previsível. Mais do que isso, eu receava que os dem ônios que o abandonavam se apoderassem de m im . É claro que tais m edos eram ridículos, com o os m edos de um a criança, ou aquele terror da noite, quando o viaj ante é obrigado a olhar para trás, em bora saiba e diga a si próprio que não pode haver ali ninguém . No entanto, um m edo que ele despreza obtém o dom ínio sobre ele. Todos os dias, durante os prim eiros m inutos, eu tinha dificuldade em soltar sons das cordas da m inha harpa.

Então, ao sétim o dia, perto do final da tarde, eu cantei ao Senhor um a canção que fizera desde a m inha chegada a Guibeá.

O Senhor é o m eu pastor, nada m e falta.

Em verdes prados m e faz descansar, e conduz-m e às águas refrescantes

Reconforta a m inha alm a, guia-m e pelos cam inhos retos, por Am or de Seu nom e.

Mesm o que atravesse os vales som brios, nenhum m al tem erei, porque estais com igo;

O Vosso bastão e o Vosso caj ado dão-m e conforto. Preparais-m e um banquete frente aos m eus adversários. Ungis com óleo a m inha cabeça e a m inha taça transborda. A graça e a bondade hão-de acom panhar-m e todos os dias da m inha vida. A m inha m orada será a casa do Senhor ao longo dos dias.

Mais um a vez, quando eu acabei de cantar e as notas da harpa m orreram , Saul estendeu a m ão e tocou-m e a face, m as, desta vez, os seus dedos estavam quentes e a sua m ão era firm e. ..,„.

- Estive longe - disse ele -, e tu trouxeste-m e de volta.

Assim , deixei-o com o coração a transbordar de alegria, pois sabia que tivera êxito com o nem sequer m e atrevera a sonhar poder ter. Disse a Abner que, na m inha opinião, o rei voltara a ser ele próprio.

Quando ele m e agradeceu e m e elogiou, deixou transparecer, pela prim eira vez, um a certa falta de confiança. Isso inquietou-m e. Não era o que eu procurara nele. Pela m inha parte, senti a m inha alegria a esvanecer-se. É um a sensação que desde então eu tenho vindo a reconhecer com o norm al, após um grande desgaste do espírito. É preciso descer-se da m ontanha; é com o a tristeza que se segue ao ato de am or. Tudo deveria ser diferente. No entanto, com o de um a caneca a verter, o triunfo escoa, e apercebem o-nos de que o m undo continua, é obrigado a continuar, o seu curso do costum e. O estado de espírito não era novo para m im , nem sequer nessa altura, m as na antecâm ara do palácio eu conheci-o m ais com pletam ente do que nunca.

Abner deixou-m e, com um pedido de desculpas m urm urado. Penso que ele estava contente por se ir em bora, subitam ente em baraçado pela m inha presença. Quanto a m im , atirei-m e para cim a de um a cam a e isso era tudo o que eu podia fazer para reprim ir as lágrim as. De repente, o horizonte encurtou, com o se a noite se abatesse sobre m im . Uns m om entos antes, eu sentira-m e capaz de qualquer coisa; agora era com o se eu tivesse entregue toda a m inha vitalidade a Saul. Talvez os m eus m edos se j ustificassem , e o espírito m aligno do desespero que o possuíra, e do qual eu o libertara, invadisse agora a m inha alm a. Rezei ao Senhor para que Ele não perm itisse que isso acontecesse, e em seguida penso que adorm eci.

Ou talvez não, talvez a m inha m em ória se recuse a fornecer-m e a confusão da m inha m ente. Nessa altura era quase noite, e eu ainda estava dom inado pela m elancolia, sentindo-m e inútil, quando um a escrava entrou trazendo um a lam parina; seguiam -na duas j ovens.

Pus-m e de pé atabalhoadam ente, e elas olharam -m e, sussurraram qualquer coisa um a à outra e soltaram risinhos.

- Peço perdão - disse eu -, talvez eu não devesse estar aqui. Não sei. O m eu senhor Abner disse-m e que esperasse, m as isso foi há m uito tem po.

- Ele é m uito bonito.

Isto disse a m ais baixa delas, um a rapariga m orena e atarracada com o tantas da nossa aldeia.

- Porque não deixas de olhar para m im ? - perguntou a outra.

- Peço perdão - repeti eu. Em seguida engoli em seco. - É porque nunca vi ninguém tão bonito.

A rapariga baixa voltou a soltar risinhos.

- Que im pertinência - disse ela.

Mas agora que eu pronunciara as palavras, era verdade que eu não era capaz de despregar os olhos da outra. Era alta e elegante com o um a gazela. Os seus olhos eram lagos escuros sob pálpebras coloridas de violeta. As sobrancelhas m arcadas a lápis form avam um arco por cim a deles e davam à aparência dela um ar de desdém inefável que a curva verm elha dos seus lábios não negava. Estava vestida de seda branca e usava um a faixa que ecoava a cor daqueles lábios, e os seus dedos eram brancos e esguios e inocentes de trabalho. Eu estava consciente de que, em com paração, eu parecia quente, confuso e grosseiro. Queria esconder as m inhas m ãos e esperava que ela não tivesse reparado no suor que m e escorria pela testa e pela parte de trás das coxas. Mas, ao m esm o tem po, eu conheci um a excitação com o nunca sentira antes, e estava aterrorizado com a idéia de que ela m e pudesse deixar antes que eu a pudesse im pressionar.

- Peço perdão - disse eu -, se pareço im pertinente, m as ninguém pode olhar para ti e ficar insensível perante tam anha beleza.

- Oh, isso - disse ela. - Todos os j ovens da corte fazem essa observação, quando se perm item a ousadia, e da m esm a form a. Os elogios feitos ao m eu aspecto aborrecem -m e. Viem os agradecer-te.

- E olha para ti - disse a outra, rindo m ais um a vez despropositadam ente. - Ver que tipo de pessoa é que conseguiu o que nenhum físico foi capaz de fazer!... Som os as filhas do rei. Eu sou Merab e esta é Mical.

Na m inha j uventude, eu era m uito dado a sonhar acordado, e agora veio-m e à cabeça, com o se vinda dos serafins alados do céu, a idéia de que Mical m e fora enviada com o recom pensa por eu ter curado Saul. Sabia que era um a idéia absurda, m esm o quando ela se apoderava de m im e não m e abandonava. Assim , com os olhos presos a Mical, respondi à irm ã.

- Eu não consegui nada. Na m elhor das hipóteses « ou um Instrum ento do Senhor.--Que coisa m ais idiota - disse Merab.

- E pretensiosa - disse Mical. - Eu esperava tanto que não fosses aborrecido, e agora vej o, com o de costum e, a m inha esperança esvanecer-se.

- Penso que ele não está a falar a sério - disse Merab.

- Claro que não. É sim plesm ente outra form a de se exibir. Que aborrecido!

- Não - disse eu, e corei ao dar com igo a contradizê-la. - Não

- continuei. - Não é assim . É que não sei o que fiz, ou m elhor, com o o fiz. Toquei harpa e cantei, e o rei está curado. Não podeis esperar que eu acredite que isso teve realm ente algum a coisa a ver com igo. Não com igo próprio. Sou pastor - disse eu -, e não com preendo estas coisas.

--Pastor, que curioso... - disse Mical.

- Ele de fato tresanda a ovelhas e a cabras - disse a irm ã. - É desagradável, Mical.

- Bem - disse eu -, peço perdão por isso, m as, com o estais a ver, não com preendo com o é que o rei está curado. É um m ilagre, e é por isso que eu digo que sou apenas um instrum ento do Senhor. Não estou a reclam ar grande coisa para m im quando o digo. Muito pelo contrário.

Olhando para o passado, com o eu adm iro a m inha astúcia espontânea! Estava desesperado para im pressionar Mical, e sabia, sem pensar, que não valeria a pena fingir ser um a pessoa que não era. Havia dem asiada inteligência no olhar dela para que eu tivesse esperança em enganá-la. Por isso exibi a diferença que eu constituía em relação a tudo o que ela conhecia. Eu não podia com petir com os j anotas perfum ados do palácio, nem com os grandes guerreiros do exército. Por isso apresentei-m e com o o pastor sim ples, o filho ignorante da natureza. E, é claro, em determ inado sentido, tudo isso era verdade. E era igualm ente verdade que, com o artista, eu não fazia idéia - tal com o os verdadeiros artistas nunca fazem - da form a com o conseguia os m elhores efeitos.

Por isso falei assim e sorri. Vi-m e a fazê-lo, e sabia que o sorriso com que a presenteei era um dos m eus sorrisos especiais, que usara toda a m inha vida para encantar a m inha m ãe e as senhoras da casa.

- Que m odesto! - disse ela, e, em bora eu tivesse ouvido a ironia da sua voz, eu sabia que ela estava im pressionada, se não fosse por m ais nada, pelo m enos porque ela tam bém reconhecia que eu era igualm ente dem asiado capaz de ser irônico, m esm o enquanto ela m e aceitava com o alguém ingênuo e im poluto.

- Toca para nós - pediu ela -, e então poderei j ulgar se estás a dizer a verdade.

Hesitei. Ela escorregou para a obscuridade e reclinou-se num canapé, num a atitude receptiva. Mas m esm o assim , eu continha-m e. Seria fácil fazer-lhe a vontade e eu podia tirar da m inha harpa m úsica que a encantaria; m as se o fizesse, seria assim que ela m e veria: um m úsico subm isso, e não era isso que eu queria. No entanto, não conhecia outra form a de a im pressionar, e não desej ava parecer enfadado.

Nessa altura a cortina foi afastada para o lado e um j ovem entrou na sala. Avançou para m im , colocou-m e as m ãos nos om bros e abraçou-m e, apertando-m e com força e beij ando-m e am bas as faces.

- Espero que as m inhas irm ãs tenham sido am áveis para contigo

- disse ele. - Sentim o-nos tão profundam ente em dívida para contigo que espero que se tenham estado a com portar m elhor contigo do que é seu costum e.

-Tem os sido perfeitam ente encantadoras, Jónatas - disse Mical -, em bora de um a form a m ais controlada do que tu. Acabei de pedir a David que toque para nós.

- Não há necessidade disso - disse ele. - Ele não é nenhum anim ador de festas profissional, sabeis, e, além disso, tenho a certeza de que está exausto, não é assim , David?

- Estou cansado - disse eu -, m as fico m uito feliz por tocar, se é isso que m e é pedido.

- Não - disse ele. - Em vez disso, tens de vir com er conosco. Colocou o braço em volta do m eu om bro, encostando-se a m im , e

conduziu-m e a outra sala, onde havia um a m esa posta.

Nessa refeição: não m e lem bro do que com em os, nem de que falam os, e isto não só porque o vinho era de um a qualidade que eu raram ente provara. De fato, eu bebi com m oderação, com o sem pre foi m eu costum e. Contudo, estava intoxicado pelo encanto e prazer da ocasião. Jónatas dispensara os escravos e ficam os só nós os quatro. A sua anim ação apoderou-se da tarde. Era, sem dúvida, um a expressão de alívio pelo fato de a escura fronteira da loucura do rei ter sido rem ovida, e todos se sentiam com o se tivessem sido libertados da prisão ou até da sepultura. Eu nunca estivera em tão agradável com panhia. Nunca fora recebido em tão agradáveis term os de igualdade, j á que à m esa de m eu pai eu estava eternam ente aprisionado entre o desej o dos m eus irm ãos de m e censurarem e de deitarem por terra as m inhas pretensões, e a ânsia da m inha m ãe e das outras m ulheres de m e m im arem . Mas aqui havia um fácil dar e receber de conversa que encoraj ava até Mical a ceder.

Se eu m e apaixonara perdidam ente por Mical, era agora seduzido pelo encanto de um a fam ília que m e oferecia algo que era com pletam ente novidade para m im . Gostavam tanto uns dos outros, e, de sua própria e espontânea vontade, convidaram -m e para ficar com eles naquela tarde. Eu poderia ter chorado de felicidade; em vez disso, dei com igo a rir e a falar com o nunca falara antes. Eu sabia que era brilhante, aquecido pelo Sol do encoraj am ento e do afeto natural de Jónatas.

É claro que eu sabia das suas façanhas. Ele era a j óia da tribo de Benj am im e, na verdade, de todo o exército. A sua coragem , audácia e espírito em preendedor nas guerras eram assunto de conversa em todo

o Israel. Eu sentira invej a do seu renom e quando este chegava até nós em Belém : era apenas cinco anos m ais velho do que eu, e conseguira tanto, enquanto eu apascentava ovelhas e fazia m úsica. Agora a m inha invej a era conquistada pelo seu encanto. A beleza dele era o contrário da de Mical, sendo franca e aberta. A curva de águia do seu nariz falava de orgulho, m as, quando ele sorria, o sorriso viaj ava-lhe até aos olhos, e o seu prazer era evidente. Arreliava as irm ãs, m as da form a m ais am igável. Tinham o hábito de falar por vezes em versos im provisados, e, para m eu grande prazer, fui atraído para esta conversa e não m e saí m al. Se Jónatas tivesse o obj etivo de m e fazer brilhar aos olhos de Mical, não teria executado a tarefa m ais m aravilhosam ente.

Por fim , espontaneam ente, eu disse:

- Gostaríeis m esm o que eu cantasse?

Mandaram buscar a m inha harpa e eu afinei-a, cantando em seguida um a canção pastoril sobre a saudade e um am or não correspondido. A m úsica com oveu-os. Silenciou a nossa alegria, e tocou-nos com a tristeza essencial da vida, da transitoriedade da j uventude e da beleza. Cantei sobre a m ortalidade de todas as alegrias terrenas, e nós, que estávam os tão alegres, conhecíam os um a alegria m ais profunda ao contem plarm os a hora inevitável em que cam inharíam os para a noite dos dias.

Pela m anhã, Jónatas puxou-m e para si e arrepiou-m e o cabelo, à m edida que eu pressionava o rosto contra o seu om bro.

- Quem m e dera, David, poder m anter-te j unto de m im .

O vento frio das suas palavras levou consigo a j ovem flor da m inha árvore.

- Ouve, David - disse ele, a voz doce e baixa -, ouve com atenção. O rei ordenou que regressasses a casa. A lem brança da sua loucura revolta-o e perturba-o. A tua presença lem bra-o dela. É um insulto à força que ele recuperou haver um testem unho vivo dos dias e das noites em que ele era m enos do que um hom em . O fato de te ver, diz ele, é para ele um a censura. Ele está grato pelo que fizeste, e carregar-te-á de presentes, m as é seu desej o que deixes a corte im ediatam ente.

Eu caí - não m e envergonho de o lem brar - de j oelhos. Agarrei-m e às pernas de Jónatas. Solucei o m eu desgosto e a m inha decepção e a raiva que m e consum ia. Queixei-m e da inj ustiça da ordem . Gritei que, se ele m e am asse verdadeiram ente, m e m anteria j unto de si. Agarrava-m e a ele e im plorava usando a sua carne, e, à m edida que sentia o desej o dele crescer, conheci a esperança. Mas ele afastou-m e e voltou a falar.- David, am ado, pois é esse o significado do teu nom e, ouve-m e. Não m e posso opor à vontade de m eu pai, por m uitas razões, e um a delas é por tua causa.

Eu não queria ouvir, m as o am or dele obrigou-m e.

- Tens dezesseis anos, apenas dezasseis anos, e foste apanhado num a Prim avera vacilante e incerta. com o tem po, regressarás hom em . Am ar-te-ei sem pre, e tu a m im , m as não desta form a.

- Receias os sacerdotes - disse eu.

- Não, David, é por te am ar que deves ir. O que aconteceu entre nós é bom , e não m au, m as se ficasses com igo, haverias de o sentir com o m al, saberias o que é a vergonha e desprezar-te-ias a ti próprio.

Em seguida pegou num pano e secou-m e as lágrim as, inclinou-se para a frente e beij ou-m e, um a vez, nos lábios.

Abner providenciou um a escolta que m e levasse a Belém . Havia duas m ulas carregadas de presentes da parte do rei. Ofereci-os ao m eu Pai e à m inha m ãe, m as passou m uito tem po antes que eu perguntasse que presentes eram .

Os m eus pais ficaram encantados com o m eu feito e com a honra que eu conseguira, e eu esforçava-m e para esconder deles o desgosto que m e dilacerava.

Então ponderei nas palavras de Jónatas e na estranheza dos m eus próprios desej os, que m e atraía tanto para ele com o para Mical, e, durante um tem po, atorm entei-m e, sabendo que os sacerdotes condenavam o que Jónatas e eu tínham os feito com o algo abom inável e contrário à natureza.

Mas eu correspondera a Jónatas naturalm ente com o um a flor se vira para o Sol.

Agora, chegado à velhice, m aravilho-m e com a m inha própria perplexidade e com a abnegação de Jónatas e o conhecim ento que tinha de si m esm o. Por um m om ento esquecido das m inhas enferm idades, olho com saudade a m inha j uventude ardente, e cham o Abisag para m e confortar.

Tenho conhecido m uitos desgostos, m as, no entanto, pergunto-m e se existe algum suplício que possa ultrapassar o de um j ovem consciente dos seus poderes e a quem sej a negada a sua existência a quem foi concedido espreitar a sua terra prom etida, e que depois tenha encontrado um a cortina corrida a ocultar o panoram a. Durante dois anos definhei em casa, um m ero pastor de ovelhas e de cabras. Na solidão da noite, gritei ao Senhor:

- Durante quanto tem po m e esquecerás, Ó Senhor? Para sem pre? Durante quanto tem po esconderás de m im o Teu rosto, e m e negarás o Teu favor? Pensa em m im e ouve-m e, Ó Senhor, m eu Deus: ilum ina os m eus olhos para que eu não sej a obrigado a dorm ir o sono da m orte. A form alidade da linguagem poética pouco fez para estancar a m inha desventura ou aliviar o m eu desespero. « O que pode» , dizia eu para m im próprio, « um poeta fazer a não ser canções?» Contudo, o m eu coração respondia que eu era m ais do que um poeta.

Conheci m uitas vezes a tentação durante estes m eses de saudade e havia raparigas na aldeia e em casa de m eu pai que teriam ficado felizes por satisfazerem as m inhas necessidades. Um a vez eu cedi, a um a rapariga m orena, um a escrava, descendente de quenitas; m as após um a breve rapsódia e um alívio m om entâneo, a vergonha apoderou-se de m im . É estranho recordar agora esse sentim ento, m as a m inha j uventude foi, por inclinação, casta, virtuosa, am biciosa. A rapariga chorava tam bém , talvez de felicidade. Agora nem sequer m e recordo do seu nom e.

Os m eus irm ãos perm aneceram no exército. As guerras continuavam , oscilando ora para um lado ora para outro, m as a m aior parte do tem po, apenas rum ores chegavam até nós. Um a vez um grupo de incursores filisteus passou por Belém , em fuga, m al parando para saquear. Eu observei « o pó a erguer-se atrás deles, à m edida que m e enroscava debaixo de um a oliveira, na m ontanha por cim a, tendo levado o m eu rebanho para um a cova, onde estava escondido.

Os m eus irm ãos - Eliab, Abinadab e Cham a - vieram a casa por duas vezes, quando houve calm aria na luta. Vangloriavam -se das suas façanhas, em bora Cham a m e confessasse que, na verdade, nenhum deles tinha alcançado grande glória. Contou-m e com o Joab subira na consideração de Saul, devendo agora ser o quarto hom em do reino, atrás de Saul, Jónatas e Abner. Quando ele m encionou Jónatas, eu fiquei aliviado por m e encontrar na som bra para que ele não visse o m eu rosto corar. Eu desej ava e, ao m esm o tem po, receava ouvir o seu nom e. Eu fazia com que os m eus irm ãos o m encionassem , e nessa altura afastava o olhar. Mas eram im agens de Mical que perturbavam e excitavam as m inhas noites.

Eliab, em especial, era caloroso ao falar de Joab com adm iração. Na sua opinião, o renom e de Jónatas era resultado não das suas próprias qualidades, m as do conselho e da capacidade organizativa de Joab.

- Encarem os os fatos - dizia ele -, Jónatas é só brilho e Joab fornece o valor sólido.

Estava corado do vinho, e, enquanto falava, batia na m esa. Era gordo, com placente e tinha o rosto verm elho. Era em Eliab que eu estava a pensar quando escrevi aquele verso que é m uitas vezes citado: « O insensato diz em seu coração: não há Deus.»

Ele afirm ava tam bém que Joab valia dois Abner.

« Se Abner não fosse prim o de Saul» - este era o seu refrão constante.

Eu sabia que isso era um disparate. Nunca neguei os talentos de Joab - na verdade foram -m e necessários - m as, com o m ostrarei, ele era inferior a Abner era tudo o que im porta aos olhos do Senhor. Abner era um grande cavalheiro (para usar um a palavra que eu próprio inventei com o form a de encoraj ar a espécie de virtude que adm iro), enquanto Joab, para ser sincero, era, é, e será sem pre um ser desprezível.

« Jónatas é só brilho» ... era este o gênero de calão m ilitar idiota com que Eliab se deliciava-Fazia-o sentir que era um hom em do m undo, um hom em que conhecia as coisas por dentro. Pobre Eliab. Por m uito pouco que eu sem pre tenha gostado dele, dou com igo agora a sentir pena dele. Há algo de patético num hom em que tão consistentem ente sobrestim a as suas capacidades e a sua im portância. Ele estava sem pre tão certo de que tinha razão, e, na verdade, raram ente a tinha.

Pressionei Cham a para que persuadisse o m eu pai de que agora eu j á tinha idade suficiente para deixar os rebanhos e tom ar o m eu lugar no exército. Quando ele m e contou que o m eu pai dissera que tinha de consultar Eliab, as m inhas esperanças desfizeram -se em cinza. Além disso, disse o m eu pai, a m inha m ãe estava ansiosa para que eu ficasse em casa.

Era difícil, m esm o com a vantagem da inform ação trazida pelos m eus irm ãos, com preender o curso da guerra. Na verdade, tal com o vej o as coisas hoj e, era na sua m aior parte, um a sucessão de confusa escaram uças na fronteira incerta entre os Filhos de Israel e as tribos dos filisteus: ataques de surpresa a celeiros e a eiras, queim a de colheitas, roubo de rebanhos, e o ataque ocasional a cidades m al defendidas. Saul e Jónatas conseguiram algum êxito, o suficiente, de qualquer form a, para fazerem com que os reis filisteus se unissem e, no ano em que fiz dezoito anos, lançassem um grande exército contra Israel, com o se estivessem determ inados a acabar com Saul e a reduzir Israel à subm issão. Espalhou-se a palavra de que o perigo nunca fora m aior, e depois, por m uito tem po, não se ouviu m ais nada.

Parecia que a cam panha chegara a um ponto decisivo, m as que os com andantes de am bos os exércitos receavam » dar o prim eiro passo Os m eus irm ãos m andaram dizer que estavam estacionados no vale de Elah com os filisteus posicionados nas m ontanhas em frente. E que tinham falta de provisões. Im ploravam ao m eu pai que lhes enviasse o que pudesse, e eu im plorei-lhe que m e deixasse tom ar conta da expedição. Ele estava relutante em fazê-lo, m as eu venci, principalm ente porque não havia m ais ninguém em quem ele^ pudesse confiar e ele estava dem asiado velho para em preender a tarefa ele próprio. Mas ordenou-m e que regressasse m al tivesse entregue as provisões, para que eu lhe desse inform ações sobre os m eus irm ãos. Penso que não deve ser considerado culpado de ter decidido secretam ente que não faria tal coisa.

Viaj am os de noite e avistam os o acam pam ento quando a brum a m atinal se elevava do fundo do vale. Eu estava adm irado, sendo ignorante em assuntos de guerra, de ver soldados debruçados sobre caldeirões de com ida, oleando os corpos, preparando as arm aduras, carregando baldes para as linhas. Eu não vira qualquer im agem verdadeira da vida m ilitar, e não m e ocorrera que os hom ens têm de realizar as tarefas norm ais da vida diária, m esm o no m eio de um a cam panha m ilitar. O fedor que se libertava das latrinas era repulsivo, a propósito, e não é de m ais dizer que a m inha prim eira experiência da vida no acam pam ento m e ensinou a im portância de tratar da higiene e das provisões. Muitos exércitos têm sido destruídos pela febre porque as latrinas eram escavadas num local inadequado.

Só a guarda noturna se m antinha firm e no posto. À m edida que eu cam inhava através do acam pam ento, perguntando-m e se algum a vez iria encontrar os m eus irm ãos naquela confusão de hom ens, soaram trom betas. Apressei o passo, ansioso por ver ação, m as alguém m e disse que aquilo era sim plesm ente o sinal para o render da guarda noturna e para a sua substituição por um novo destacam ento.

- Receio não estar a com preender - disse eu.

- Bem - disse um soldado de m eia idade com um a expressão bondosa -, não adm ira estares confuso, se és novo no acam pam ento. É um a posição bastante estranha. Estás a ver o rio lá em baixo. Ele é o m aldito no m eio disto tudo. Am bas as partes estão com m edo de o atravessarem em prim eiro lugar, porque no m om ento em que se fizer isso, está-se em desvantagem . Por isso estam os sim plesm ente aqui sentados e olham o-nos uns aos outros com m á cara por cim a do vale, com o dois linces, nenhum se atrevendo a avançar. Talvez tenham os apenas de ver qual dos lados m orre de fom e prim eiro. Isso que levas aí nesses j um entos, rapaz, são provisões?

- Sim - disse eu -, m as tenho de as entregar aos m eus irm ãos. No entanto, se tens fom e, posso dar-te alguns pães, se m e disseres onde posso encontrar os m eus irm ãos, os filhos de Jessé.

- Os filhos de Jessé? - coçou a cabeça. - Bem - disse ele -, não sei bem . Mas davam -m e j eito alguns pães.

Nesse m om ento soou um toque de trom betas do outro lado do vale, e gritos de incitam ento que alastravam ao longo das linhas dos filisteus. Dois hom ens surgiram à luz do Sol, o prim eiro carregando um grande escudo à sua frente, o segundo, m esm o àquela distância, um a figura enorm e. Avançou para o alto da colina, e levou à boca um grande corno.

- Lá está o sacana - disse o m eu novo am igo. - Todas as m alditas m anhãs, à m esm a hora m aldita.

- O que é? Quem é?

- Ouve e j á ficas a saber.

Um silencio caíra sobre o acam pam ento, com o se de vergonha. Apercebi-m e disso im ediatam ente, em bora não saiba com o. O filisteu soprou um poderoso ronco, am pliado com a aj uda do corno. Não fui capaz de apanhar todas as palavras, m as o m ais im portante era claro. Ele estava a desafiar o exército de Israel para que arranj asse um cam peão que lutasse contra ele e assim decidir a questão da guerra.

Avançou m ais em direção a nós, m antendo sem pre o olhar fixo, e não parecendo reparar com o o escudeiro se m ovim entava em harm onia com ele para o proteger de algum proj éctil que pudesse ser arrem essado. Avançou até se encontrar a m enos de cinqüenta m etros do riacho, e a um a distância nunca superior a essa, em linha reta, pelo ar, entre os dois exércitos.

Eu olhei-o com atenção. Tinha na cabeça um elm o de bronze e usava um a cota de m alha. As pernas estavam protegidas com perneiras de bronze; carregava um a longa lança e tinha um a espada curta e grossa presa ao cinto. E era certam ente m uito grande. Eu nunca vira um hom em tão grande. O m eu irm ão Eliab era o hom em m ais alto que eu conhecia, era m ais alto ainda do que o rei, e este filisteu tinha a cabeça e os om bros a m ais do que ele, e eram bem grandes. Agora ele erguia novam ente o corno e rugia, e, desta vez, eu consegui distinguir as palavras.

- Todos os hom ens de Israel são covardes e têm coração de m ulher, pois não há um que ouse aceitar o m eu desafio?

E riu, e desatou a dizer obscenidades e am eaças de com o ele esquartej aria o corpo de qualquer um que se lhe opusesse.

Eu fiquei interessado ao ouvi-lo falar daquela m aneira, pois parecia-m e que estas últim as am eaças tencionavam dissuadir um adversário e não encoraj á-lo, e, assim , o enorm e filisteu poderia não ser o herói que queria que nós pensássem os que era.

- Todos os m alditos dias - disse o soldado -, e fica ali, naquela pose, até que o Sol deixe de estar a pino, rindo de nós e praguej ando, até que ficam os enj oados.

- E ninguém aceitou o seu desafio? - perguntei.

- Olha para ele, m eu rapaz - disse outro soldado. - Olha para os braços e pernas que tem , olha para as arm as, sem m edo nenhum . Muito obrigado.

- Dizem até - disse um terceiro - que o rei prom eteu a filha em casam ento a qualquer hom em que m ate este Golias, m as eu digo, um hom em m orto não pode ser m arido, independentem ente do que lhe for prom etido. «

- Isso são disparates - disse o m eu prim eiro am igo. - O rei não fez tal prom essa, e por esta razão: é que ele sabe que não há um hom em no exército que possa derrotar este Golias, e ele sabe o efeito que teria sobre o exército o fato de enviar um cam peão para depois o ver m orrer.

- Sim - disse o segundo soldado -, m as e o efeito de não enviar nenhum ? E isso, heim ?

- Mas é vergonhoso - disse eu -, deixar que este bruto nos insulte desta m aneira.

- Oh, lá vergonhoso, é - disse o terceiro hom em . - Bem , falando por m im , m eu j ovem , eu prefiro ter vergonha a estar m orto. É claro que é contigo, se pensas de outra form a. Avança e vai lutar contra ele, se quiseres.

E riu. Era a troça que ria.

- Está bem - disse eu -, vou fazê-lo. E m atá-lo-ei. Se m ais ninguém defende a honra de Israel, fá-lo-ei eu.

- O rapaz está louco.

- Não, não estou - disse eu. Subi a um a rocha para m e dirigir à m ultidão que agora tinha crescido.- Aquele hom em , é Golias que lhe cham ais?, confia na sua força bruta e no terror que acredita que é capaz de inspirar. Mas eu não tenho m edo, não há terror em m im , pois eu confio no Senhor dos Exércitos, que conduziu Israel para fora do Egito e libertou os nossos antepassados das m ãos do faraó, tal com o Ele m e libertará deste filisteu.

Eu não pensara naquilo, pois estava na verdade a falar com o se as palavras não m e pertencessem e m e fossem dadas pelo Senhor, e por isso eu falava calm am ente, com toda a certeza, e as m inhas palavras e o m eu com portam ento silenciaram o riso, de form a que os soldados se renderam a m im e colocaram de lado as suas dúvidas. E o m eu com portam ento era, com o eu o teria desenhado se tivesse sido capaz de pensar, o perfeito contraste do palavreado fanfarrão do filisteu; e tam bém isso im pressionou aqueles que m e ouviam .

Nesse m om ento, ouvi cham arem o m eu nom e, voltei-m e e vi o m eu irm ão Eliab. Penso que ele não ouvira o m eu discurso, m as vi que ele estava furioso por m e encontrar a dirigir-m e aos soldados, e disse com brusquidão e secura:

- Por que estás aqui? Por que deixaste as tuas poucas ovelhas nas m ontanhas? Vieste ver a batalha, foi? Eu conheço-te, sem pre a m eter o nariz aonde não és cham ado.

- O que fiz eu agora? - perguntei. - E não há um a boa razão para aquilo que estou prestes a fazer?

Apontei para o outro lado do vale, para o filisteu, e, para fúria de Eliab, os hom ens davam vivas e gritavam :

- Levem os o rapaz ao rei!

Tive de esperar, é claro, no exterior da tenda de Saul, enquanto ele era colocado ao corrente da notícia de que se apresentara um voluntário. Eu não tinha dúvidas de que a m inha oferta seria aceite. Isso soa-m e agora estranham ente, pois no lugar de Saul, eu teria certam ente elogiado um cam peão tão j ovem , m as teria recusado educadam ente deixá-lo ser m orto. Contudo, a possibilidade de um a recusa nunca m e ocorreu. A m inha única inquietação era poder encontrar Jónatas, não porque não estivesse ansioso por vê-lo, m as porque sabia que ele iria certam ente intervir para m e tentar convencer, e, se tal não acontecesse, de convencer o pai, de que eu não devia defrontar Golias. Mas perguntei aos guardas sobre o seu paradeiro, e fiquei aliviado quando m e disseram que ele com andava a ala direita do exército e que estava agora ocupado a treinar os seus hom ens.

Finalm ente fui adm itido à presença de Saul. Ele não m ostrou sinais de m e ter reconhecido, m as franziu o sobrolho, e, por um m om ento, lem brei-m e do seu estado de espírito de desespero e loucura. Tinha covas nas faces e nos olhos um a orla verm elha da falta de sono ou de tanto chorar.

- Quer dizer - disse ele -, quer dizer que queres lutar contra este Golias, e és apenas um rapaz. É um a... - e fez um a pausa, com o que antes de pronunciar a palavra « loucura» , que ele não desej ava pronunciar, e substituiu-a por « idiotice» .

- Não, m eu rei e senhor - disse eu. - Não é idiotice, pois confio no Senhor Deus de Israel. Quando eu era criança, m eu rei e senhor, e cuidava dos rebanhos de m eu pai, veio um leão e de outra vez um urso, e abocanharam um cordeiro. E em bora eu fosse um a criança, agarrei o leão e tirei-lhe o cordeiro da boca; em seguida bati no leão e m atei-o, e, na outra ocasião, fiz o m esm o ao urso, e fui capaz de fazê-lo porque o Senhor estava com igo. E Ele defender-m e-á igualm ente contra este filisteu incircunciso que tem troçado do exército de Israel e do rei m eu senhor.

E nessa altura aj oelhei-m e perante Saul, e peguei-lhe na m ão, e beij ei-lha, para m ostrar a m inha lealdade e a m inha confiança, e para sugerir que tudo o que eu procurava dele era a sua bênção.

Mesm o assim , ele hesitou, e a m ão trem ia-lhe com o se a fosse retirar, m as eu m antive-m e firm e e esperei.

- Muito bem - disse ele -, é um a idiotice, m as...

- Meu rei e senhor - disse eu -, o Senhor Deus dos Exércitos protege os sim ples que depositam Nele a sua confiança, e derruba o hom em poderoso que confia apenas na sua própria força.

Saul m andou cham ar o seu escudeiro, e ordenou-lhe que m e trouxesse arm as e arm adura. Em seguida sentou-se à sua m esa e bebeu vinho (há incidentalm ente aqueles que dizem que Saul era um bêbado, ,e que a deterioração do seu caráter e das suas capacidades, tão evidente nos últim os anos da sua vida, era conseqüência deste vício do vinho; m as penso que isso não era absolutam ente verdade). Tentei im aginar em que estaria ele a pensar, se lam entava j á não ser capaz de enfrentar, ele próprio, o desafio de Golias, ou ter proibido (com o eu vim a descobrir) Jónatas de defrontar o filisteu. Eu perguntava a m im próprio se seria verdade que ele prom etera a filha a quem derrotasse Golias, e se ele cum priria a prom essa, e se ele estaria a pensar nisso. Na verdade, porém , ele estava m ais provavelm ente a considerar as conseqüências do m eu desafio, pois disse-m e que esperasse num a tenda contígua, após o que o ouvi cham ar Abner.

Coloquei o ouvido j unto a um a costura das peles de que era feita a tenda, para poder ouvir a conversa entre am bos.

Abner com eçou por perguntar se era verdade que um j ovem estava prestes a aceitar o desafio de Golias, e falava com o se achasse estranho o fato de Saul ter consentido.

- Eu tam bém achei que era um a idiotice - respondeu o rei -, e talvez, em bora o rapaz tenha um com portam ento im pressionante, esse sej a o j uízo sensato a fazer. Mas podem os virar o caso a nosso favor. Em prim eiro lugar, coloca Golias a ridículo. Já discutim os o assunto várias vezes, não é verdade? E dissem os que a derrota de um cam peão desm oralizaria o exército, e foi por isso que não perm itim os que alguém enfrentasse o filisteu. Mas, neste caso, trata-se apenas de um rapaz. Se ele for m orto, não tem m uita im portância, não há desonra. Na verdade, a im agem de um j ovem a ser chacinado por aquele bruto enorm e pode inspirar indignação nos nossos hom ens. Pensarão que ele é um herói e um m ártir, ao passo que... m as m esm o assim . Quero que dês ordem para que os hom ens peguem em arm as. Depois, no instante em que o com bate acabe, quando Golias estiver a exibir-se, triunfante, e os filisteus estiverem a exultar, lançarem os um ataque. É a única m aneira de poderm os ter esperança de superar a desvantagem do terreno, que nos tem im pedido até agora de o fazer. Tem os de quebrar o m arasm o, antes que o nosso exército desanim e, e esta é a m elhor oportunidade que podem os ter.

- bem - disse Abner -, lam ento pelo rapaz, m as concordo contigo.

Saul riu.

- O rapaz fala com entusiasm o do Senhor Deus dos Exércitos. Deixá-lo ser um sacrifício voluntário ao Senhor.

Não posso censurar Saul por pensar com o pensava, m as não era nada encoraj ador ouvir tal conversa, em bora m ais tarde eu viesse a adm irar a perspicácia com que Saul se apercebeu de que lhe fora dada um a oportunidade de vencer, e com o consegui-la.

Em seguida fui novam ente cham ado à tenda real, que Abner deixara. Saul disse-m e que m e fora destinada um a tenda, e que a m inha arm adura m e esperava lá. Disse que ainda m e voltaria a ver antes de eu m archar contra o filisteu, que eu, ao sair da tenda do rei, ainda via a exibir-se e a pavonear-se na m ontanha em frente.

- Não há tem po a perder - disse Saul -, se ainda queres lutar hoj e.

Os m eus auxiliares eram respeitosos, com o que fazendo j us à coragem que eu dem onstrava. A arm adura era m agnífica. Vesti um a túnica dourada de tecido rico que Saul tam bém enviara, e perm iti que os escravos m e cobrissem com a arm adura, e o elm o de bronze incrustado de j óias. Senti-m e um poderoso guerreiro, e sabia que estava tão esplêndido que desej ava, quando regressasse, apresentar-m e perante o rei e que Mical lá estivesse para m e ver.

Mas, quando m e encontrei de novo com Saul, tirei a arm adura e as finas roupas e fiquei à sua frente com um a túnica sim ples, de tecido grosseiro, um cinto de couro em volta da cintura e os pés descalços.

Continuar: parte 3 de 5