Rei Davi

Allan Massie · Capítulo 2 de 4 · parte 5/5

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Rei Davi

Livro Um

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

- Não és um hom em coraj oso, Abner, e um digno defensor do rei Saul? Vai à tenda do rei e procura a lança que estava no chão j unto à cam a e a lam parina que velava por ele de noite. Vai, procura-as e pergunta para onde foram ...

Nesse m om ento recuei, fazendo sinal a Laís para que fizesse o m esm o, com receio de que algum arqueiro destem ido atirasse um a seta, pois, em bora eu pense que nos encontrávam os fora do alcance de todos os arqueiros, se é que talvez não do m ais forte deles, é sem pre sensato tom ar precauções. Mas eu estava, no entanto, consciente de um a grande correria e de um a grande agitação no acam pam ento por baixo, e não pude deixar de rir ao ver hom ens a correrem de um lado para o outro em pânico e confusão.

O acam pam ento m ergulhou no silêncio, e vi hom ens a recuarem , com o se envergonhados, e um a voz ergueu-se em direção às m ontanhas onde nos escondíam os, um a voz que trem ia, incerta, m as que, m esm o assim , reconheci com o a voz de Saul.

- És tu, David? - gritou ele. - És tu, David, m eu filho?

E eu dei um passo em frente, entrando no cam po de visão do rei, e tive a certeza de que Saul estava dom inado pela vergonha e de que, de m om ento, eu estava seguro e que podia deixar que m e vissem ; e gritei um apelo:

- Sou eu, David, quem fala para Saul, m eu Senhor e m eu m estre, e olha, esta lança que tenho na m ão é aquela que a noite passada fui buscar à tenda em que dorm ias. Toca o pescoço, m eu rei e senhor, e sente o local em que te piquei quando te encontravas à m inha m ercê. Se eu desej asse fazer-te m al, nada a não ser a m inha vontade e a m isericórdia do Senhor m e poderiam im pedir. Isso não te prova que não sou teu inim igo? Porque é que, então, m e persegues nas m ontanhas com o a um anim al selvagem ?

Fez-se um longo silêncio. Saul estava sentado num a rocha e cobriu o rosto com as m ãos com o se se debatesse com os dem ônios que lutavam para o m anter sob o seu poder. E o exército observava, im óvel, enquanto eu estava consciente dos m eus próprios hom ens escondidos nos rochedos por cim a, e senti que os ouvia a susterem a respiração, à m edida que esperavam a resposta do rei.

Finalm ente, o rei, vacilando, pôs-se de pé. Avançou, encostado a Abner, até se encontrar fora do acam pam ento e ao alcance dos m eus arqueiros.

- Perdoa-m e, David, m eu filho - gritou ele. - Volta para m im , e j uro que não tocarei num cabelo da tua cabeça, e que podes cum prir o teu destino.

Em seguida soluçou novam ente e cam baleou, e teria caído, não fosse o apoio de Abner.

Acredito que ele foi sincero nesse m om ento, e que o am or que ele outrora sentira por m im surgira de novo no seu peito - e quem m e dera ter confiado nele. Mas eu sabia que ele falava apenas sob a em oção do m om ento. Por isso gritei a Abner e disse-lhe que m e enviasse um j ovem , um dos seus oficiais, para vir buscar a lança do rei e « a lam parina de azeite» , disse eu, « que guarda o rei dos terrores da noite enquanto as suas sentinelas dorm em » .

com o olho da m inha m ente, vi Abner corar de vergonha, em bora, é claro, àquela distância eu não pudesse ver tal coisa. No entanto, conhecia-o suficientem ente bem para com preender com o ele se sentia, e um a parte de m im lam entava a hum ilhação a que eu o expusera.

Abner baixou a cabeça, e levou o rei dali, e, pouco depois, surgiu do acam pam ento um oficial, que subiu a m ontanha até m im . Reconheci-o com o sendo Adonias, um am igo de Jónatas, e por isso, sabendo que nada tinha a recear, avancei para ele e abracei-o. Enviei Laís m ontanha acim a para ir buscar vinho, e Adonias sentou-se a m eu lado na saliência do rochedo que dava para o acam pam ento do rei. Perguntei por Jónatas e se ainda sofria de desonra.

- Saul nunca m ais voltará a confiar nele - foi a resposta -, por tua causa, David.

Laís trouxe o vinho, e m andei-o em bora.

- Diz a Jónatas - pedi eu - que m e lem bro das prom essas que tocam os.

Adonias disse:

- Eu devia ter ciúm es de ti, David. Ninguém pode ocupar o teu lugar na vida de Jónatas. Ele tem am antes, é claro, m as ninguém pode ocupar o teu lugar.

- Eu era um rapaz - disse eu. - Agora sou um hom em . Jónatas com preende isso.

- Sim - disse ele -, Jónatas com preende de m ais, e a si próprio dem asiado bem , para sua própria felicidade ou conforto.

Passei o odre a Adonias, e observei-o enquanto bebia. Era um j ovem belo, com tristeza nos olhos.

- Havia um a m ensagem para m im naquilo que disseste. Se o rei não pode confiar ou não confiará m esm o em Jónatas, então eu não posso confiar no que ele acabou de m e dizer.

- Eu m orreria por Jónatas - disse ele. - Posso ter de o fazer. O rei é com o um vento que nunca sopra da m esm a direção dois dias seguidos. Quando ele estava louco, David, e tu o curaste, era diferente. Eu era dem asiado j ovem para estar no acam pam ento nessa altura, m as ouvi falar nisso, e o próprio Jónatas m e contou o que fizeste. A form a com o a tua m úsica e algo em ti afastaram os dem ônios da sua alm a. Mas agora eles dom inam -no com firm eza. São dem ônios astutos e perm item que ele tenha um a aparência de sanidade. Por vezes, certos dias. Mas, bem no fundo, Saul está tão louco com o um a raposa astuta. Não confia em ninguém , nem sequer nos hom ens da sua própria tribo de Benj am im , nem sequer em Abner, que o am a. Saul encontra-se nas m ãos de terrores que não com preende e até Abner o observa com horror. Sabes porque conseguiste entrar tão facilm ente na tenda do rei ontem à noite? Porque as suas vozes lhe disseram que tivesse cuidado com os seus próprios guardas, e, por isso, ele dispensou-os. A chacina dos sacerdotes de Nob aflige-o. Ouvi-o dizer que está tão profundam ente atolado em sangue que... não m e lem bro da continuação. Algo terrível, algo louco. Há dias em que só fala do velho Sam uel e da m aldição que o sacerdote lhe lançou, e depois diz, por vezes: « Um a vez que estou am aldiçoado, agora nada m e pode ser proibido.» E em seguida inverte a frase e declara que, por causa da m aldição, não é capaz de nada. Tudo, nada, para ele é a m esm a coisa. Digo-te, David, se tivesses m orto o rei quando ele estava deitado à tua m ercê, e se tivesses então m archado abertam ente sobre o acam pam ento e tivesses anunciado o que tinhas feito, até Abner se teria sentido aliviado pelo fato de o torm ento de Saul e o m edo que Saul inspira terem term inado.

- Eu sou o Ungido do Senhor - disse eu -, e a prom essa que fiz a Jónatas de não causar m al à sua casa e à sua fam ília deve incluir Saul.

-- Com preendes-te a ti próprio, David?

- Não, será que alguém se com preende a si próprio? Só o Senhor sabe ler os nossos corações.

Adonias abanou a cabeça. Bebeu m ais algum vinho, devolveu-m e o odre e estendeu as pernas ao Sol.

- Sabes o que Jónatas diz sobre ti? Que todos os hom ens te desej am , e todas as m ulheres tam bém . Ele diz que até m esm o se Saul não acreditasse na história de que Sam uel te ungiu com o o Eleito do Senhor, que ele sabe que é verdadeira, pois o testam ento de Sam uel foi descoberto após o assassinato dos sacerdotes de Nob, ele sentiria a m esm a coisa que sente em relação a ti, que os seus sentim entos por ti são um a m istura de am or, invej a, m edo e ódio. Mas Jónatas diz que é o próprio Saul que Saul receia e odeia. Foi um dia m au para Saul quando foi ter com Sam uel à procura daqueles j um entos perdidos que pertenciam a seu pai, Quis. - E, em seguida, disse, abruptam ente: Nunca m e deitei com um a m ulher. Deves achar estranho.

- Estranho, sim .

- E repreensível?

- Há um rapaz na m inha com panhia, o rapaz que nos trouxe o vinho, que sente o m esm o que tu, e é um dos lutadores m ais coraj osos entre os m eus hom ens. Nós som os o que som os, Adonias. Jónatas é um bom hom em . Eu sou o Eleito do Senhor, sim , a história sobre o velho Sam uel e a unção é verdadeira, assim , se Sam uel falou as palavras do Senhor, eu sou, de fato, o Seu Eleito; e, no entanto, eu não sou um bom hom em com o Jónatas é. Com preendes o que eu estou a dizer? A natureza do hom em é m isteriosa, com plexa, torcida com o um a oliveira velha. Apenas alguns hom ens raros, com o Jónatas, crescem direitos com o um pinheiro.

- Ele tem um filho deficiente - disse Adonias -, um rapaz estropiado cham ado Mefiboset. Ele é tão dócil com ele. O m enino não é com o os outros, a sua m ente divaga, m as Jónatas é tão dócil e carinhoso para com ele. Haverias de ver com o ele o trata, com o o segura nos braços. Gostaria de m e j untar a ti, David, e partilhar o teu destino, m as não posso deixar Jónatas, em bora receie que Saul nos conduza ao desastre.

-Jónatas - disse eu - tem sorte em te ter a ti. E agora deves regressar ao teu exército, senão Saul pensará que estam os a conspirar contra ele. Assegura a Jónatas que eu o am o com o sem pre am ei e que o m eu coração está com ele nas suas dificuldades.

Nessa altura ele levantou-se e abraçam o-nos, e as suas longas pestanas estavam úm idas das lágrim as.

- Espera - disse eu -, esqueceste-te da lança e da lam parina de Saul.

Ele pegou-lhes e disse:

- Saul estaria m elhor e nós poderíam os estar todos m ais seguros, se eu deixasse a lança contigo.

- Mesm o assim - respondi eu, e fiquei a vê-lo descer a m ontanha em direção ao exército e ao rei que ele receava.

Não voltei a vê-lo m ais. Tom bou ao lado de Jónatas, na fatídica batalha do m onte Guilboa, sobre a qual escreverei em porm enor m ais à frente. Mas aquela conversa ficou com igo, assim com o a m em ória de um j ovem generoso e infeliz, cuj o nom e escolhi para dar a um dos m eus filhos.

É m anhã. Abisag espreguiça o seu encanto que desperta, e bocej a. « Oh, quem m e dera voltar a ser j ovem !» , penso, enquanto egoistam ente a cham o para m e beij ar. « Oh, quem m e dera estar m orto!...» , penso, enquanto observo a sua beleza nua a cam inho do banho. •>;

O período seguinte da m inha vida é um período de que sem pre preferi não falar. Contudo, a verdade é que não houve nada de que m e envergonhe ao longo do cam inho que percorri, pois tudo foi ditado pela necessidade. Há nações, tanto quanto sei, que reconhecem a Necessidade com o um a deusa, e, no entanto, por força da m inha educação e experiência, não reconheço qualquer deus senão o Senhor Deus dos Exércitos, o Deus de Israel, que m e conduziu através do som brio vale do m edo e do perigo terrível para as terras altas e soalheiras - abençoado sej a o Seu nom e -, em bora confesse que houve m om entos em que senti a tentação de invej ar aqueles povos que têm um a pletora de deuses e deusas, cada um a proteger um a determ inada atividade ou parte da vida. Rezo para que o Senhor dos Exércitos m e defenda de ceder a tal tentação, m as adm ito que, se o fizesse, a Necessidade seria um a deusa que eu reconheceria prontam ente.

Felizm ente não é preciso fazê-lo. Se a Necessidade não é um a deusa, a Necessidade é, m esm o assim , um a coisa, um fato, tão duro e rígido e doloroso com o a rocha contra a qual podem os dar um a topada com um dedo do pé no escuro da noite. Ninguém , j á o disse m uitas vezes, serve para com andar um exército, se não reconhecer a Necessidade, assim com o a prim eira e a m ais rara qualidade que se exige a um general é a coragem e a sabedoria de saber quando deve retirar.

Essa era agora a m inha posição. Na m inha conversa com aquele j ovem infeliz, Adonias convencera-m e de que o arrependim ento de Saul do seu zelo a perseguir-m e até à m orte, não duraria m uito. A perturbação do seu espírito colocá-lo-ia m ais um a vez, e em breve, contra m im , pois eu sentia que, bem no fundo da sua m ente atorm entada, espreitava a suspeita de que, se m e m atasse, provaria, até para sua própria satisfação, que Sam uel não falara as palavras do Senhor. Se eu, a quem Sam uel ungira com óleo com o sendo o sucessor de Saul, pudesse ser retirado de cena, deve, então, ter parecido a Saul, na sua confusão louca, que o fato de Sam uel o ter rej eitado deixara de ser a expressão da vontade do Senhor, assim com o o fato de Sam uel m e ter ungido tam bém j á não o era. Desta form a, eu não m e conseguia convencer de que Saul não renovaria em breve a sua perseguição, e, à m edida que as sem anas passavam , e as dificuldades de m anutenção da m inha pequena força nas m ontanhas inóspitas de Judá aum entavam , eu receava que a próxim a investida de Saul pudesse term inar m enos bem para m im .

A necessidade obrigava-m e a deslocar as nossas posições, e parecia-m e que não tinha outra alternativa senão oferecer os m eus serviços aos filisteus. Eu conhecera Aquis, rei de Gat, durante um as negociações enquanto ainda gozava do favor de Saul, e ele im pressionara-m e por ser um hom em sincero, em bora lim itado, com o eu disse a Joab, Abisai e Asael, que cham ei para consultar em relação à situação difícil em que nos encontrávam os; um hom em com quem eu podia negociar. Joab tinha dúvidas e levantou obj eções, tal com o eu esperava. Abisai ficou em silêncio; assuntos de política de alto nível ultrapassavam -no sem pre; e eu incluíra-o na conferência apenas porque ele teria ficado ofendido se eu não o tivesse convidado, e porque, no fim , eu sabia que a confiança que ele depositava em m im o levaria a concluir que eu tinha razão. O perspicaz Asael viu logo a força do m eu argum ento. A rapidez da sua com preensão era a sua grande virtude, em bora aliada a um ardor im aginativo que, por vezes, o conduzia a atos de im prudente im petuosidade. Joab, no entanto, bateu o pé e recusou ser persuadido.

- Eu sem pre disse - opinou ele - que o único filisteu bom é o que está m orto.

Abafei o aborrecim ento que esta entoação característica de um a banalidade j á gasta inspirou em m im . Joab sem pre foi fértil nestas opiniões de frases feitas. Suponho que é m ais fácil repetir este tipo de coisas do que pensar-se por si próprio.

-Joab - disse eu -, sabes em quão elevada consideração eu tenho a tua opinião, e, especialm ente, quanto eu confio em ti em m atéria de estratégia e táctica. A qualidade da tua força de luta é inteiram ente resultado da tua capacidade a treinar hom ens. Sei o quanto trabalhaste arduam ente e durante quantas longas horas, e sei que a m inha posição seria, na verdade, desesperada, não fossem os teus esforços. É inteiram ente com preensível que, ocupado com o tens estado, não tenhas tido o tem po que a tua diligência m e concedeu para considerar o aspecto m ais lato da nossa situação. Mas a verdade é que estam os aqui encurralados entre as forças de Saul e as forças da Filisteia, por um lado, e as da necessidade, por outro lado; à m edida que o Inverno se aproxim a, os nossos dias aqui estão contados. Em breve chegará a altura em que não poderem os satisfazer as necessidades básicas dos nossos hom ens. Aí, alguns desertarão, e o teu trabalho terá sido perdido.

- Não tenho m ais am or pelos filisteus do que tu. Acredita-m e, há um único em quem eu confiaria, e se abro um a exceção para Aquis de Gat, é apenas porque j á vi o suficiente para estar convencido de que ele não é o teu filisteu típico, m as um hom em digno e decente. Mesm o assim , não ousaria aproxim ar-m e dele a não ser por um a coisa: e essa coisa é aquilo que tu conseguiste ao fazeres dos nossos hom ens um exército tão form idável. Tem os algo para lhe oferecer que nenhum rei rej eitará, e, ao m esm o tem po, um a força suficientem ente bem treinada e disciplinada para o dem over da traição, caso a avaliação que faço do seu caráter estej a errada. Mas a nossa opção, m eu caro Joab, é clara: devem os confiar-nos, a nós próprios, e à segurança das nossas m ulheres, filhos e entes queridos, ou a Aquis ou a Saul. Conheces Saul dem asiado bem para crer que qualquer hom em , j á sem falar daqueles que o ofenderam com o, principalm ente, tu e eu fizem os, possa confiar nele no estado perturbado e atorm entado em que se encontra. Assim , em bora relutante, tenho de insistir para que concordes com igo em que, dos dois m ales, um a aproxim ação de Aquis é o m enos perigoso.

Naturalm ente que as palavras lisonj eiras que proferi surtiram o seu efeito. Joab, que sem pre acreditou que lhe era atribuído m enor valor do que realm ente m erecia, ficou, de m om ento, apaziguado. É claro que, por algum tem po, continuou a resm ungar e a protestar, m as fê-lo apenas por um a questão de form a, para enfatizar a força da sua vontade e a independência do seu espírito, tendo, no entanto, am bas sido subvertidas pelas m inhas palavras.

As negociações com Aquis foram tão fáceis e agradáveis quanto eu esperava. Aquis era um hom em suficientem ente inteligente para se aperceber de que a sua ligação ao m eu pequeno exército bem treinado fortaleceria grandem ente a sua própria posição na rivalidade, que era endêm ica, entre os reis da Filisteia, sendo as divisões entre estes, graças ao Senhor, a salvação dos Filhos de Israel. A força e a continuada superioridade m ilitar dos filisteus eram suficientes -apesar das reform as que eu iniciara no exército de Saul - para destruir totalm ente os Filhos de Israel e subj ugar o nosso povo, especialm ente agora que Saul não era o que fora anteriorm ente; só a incapacidade dos filisteus de m anterem a unidade e a harm onia entre si é que im pediu que isso acontecesse - testem unho, com o eu sem pre soube, da superioridade do Senhor Deus de Israel sobre os ídolos que os filisteus adoram ; porque, com o eu escrevi, « a não ser que o Senhor guarde a cidade, a sentinela acorda em vão» . Em m om entos m ais prosaicos, no entanto, reconheço que a discórdia entre os nossos inim igos, até m esm o entre os que pertencem à m esm a raça, é um a grande aj uda para a proteção com que o Senhor dos Exércitos nos envolve.

A m inha confiança j ustificava-se. Residia, estou inclinado a adm itir, não só na certeza de que a inteligência de Aquis seria suficiente para o deixar aperceber-se do valor da força que eu lhe trazia, m as tam bém na consciência que eu tinha da adm iração que ele desenvolvera por m im no nosso encontro anterior.

Assim , foi com verdadeiro calor que ele m e abraçou e com sinceridade que se declarou encantado por m e ter j untado a ele. Além disso, acrescentou que nada o poderia gratificar m ais do que a confiança que eu depositava nele.

- Tem os lutado encarniçadam ente um contra o outro, David, e aprendido, em batalha, a reconhecer as virtudes um do outro. Tendo sido os m elhores inim igos, que possam os ser, a partir de hoj e e para sem pre, os m elhores am igos.

Naturalm ente que eu concordei com esta proposta e disse-lhe que a sua generosidade m e enchia o coração de alegria.

Aquis deu um grande festim de boas-vindas, tendo ele próprio ficado sentim ental e agradavelm ente ébrio. Joab ficou som brio e em brutecido pela em briaguez, m as, m esm o naquele estado, não deixou de estar alerta e desconfiado. Eu bebi com m oderação, com o sem pre foi m eu hábito, m as não perm aneci tão ofensivam ente sóbrio de form a a colocar em dem asiada evidência a m inha superioridade em relação aos m eus com panheiros. Além disso, tal com o Joab, em bora talvez por razões m ais subtis, perm aneci alerta. Eu sabia que havia entre os filisteus m uitos chefes que tinham m otivos para se sentirem ressentidos com igo, pois eu tirara-lhes filhos, irm ãos ou pais, e, em algum as ocasiões, levei-lhes as filhas. Sabia tam bém que entre eles havia aqueles que tinham invej a de Aquis e que não perderiam tem po a aproveitar a m ínim a oportunidade para o afastar. Realm ente, neste ponto, a hostilidade de Joab para com os filisteus era j ustificada. São, por natureza, traiçoeiros, pois não há entre os seus deuses e deusas um a divindade que exij a deles a verdade, com o faz o Senhor Deus de Israel. E, por esta razão, pensam que não é desonra nenhum a faltarem à palavra dada, e não com preendem o conceito de lealdade. Aquis era um a exceção rara entre eles, e creio que a sua m ãe era um a israelita que foi capturada da m inha própria tribo de Judá, tendo sido escrava e concubina do pai do rei.

Não levou m uito tem po que eu não m e tivesse apercebido de m urm úrios contra nós. Nesse ponto eu calculara m al, não tendo contado com o caráter m au e egoísta dos filisteus. Eu pensara que Aquis não seria o único a reconhecer o valor da m inha presença à cabeça de um exército de seiscentos hom ens; m as qualquer reconhecim ento desse tipo era im pedido pelo ressentim ento, e depressa m e apercebi de que não só corríam os algum perigo, com o a am izade que Aquis nutria por m im constituía um a am eaça à sua própria posição. Os filisteus não têm qualquer problem a em assassinar um rei. De fato, é um a prática com um entre eles, por m ais aberrante e vil que nós, israelitas, a considerem os.

Assim , abordei Aquis e sugeri que poderia ser vantaj oso para am bos se ele m e concedesse um posto independente, de preferência na fronteira com os am alecitas (inim igos tanto de Israel com o da Filisteia), onde eu o podia servir de um a form a em que as probabilidades de irritar a sua nobreza e os seus capitães fossem m enores.

Aquis, sendo, com o eu disse, tão inteligente quanto reto, respondeu de im ediato à força do m eu argum ento. Atribuiu-m e o com ando da pequena cidade de Ciclag, a m eio dia de m archa de Gat, e perpetuam ente am eaçada pelos am alecitas e pelas outras tribos hostis que habitavam a zona da fronteira sul. Tom ei a m eu cargo a proteção dos habitantes de Ciclag, lançando incursões punitivas contra os inim igos que os tinham atorm entado durante tantos anos. Estas incursões serviam o obj etivo duplo de m anter a qualidade de luta do m eu pequeno exército e de m e tornarem estim ado aos olhos dos cidadãos de Ciclag, a quem eu não só libertei do m edo com o tam bém enriqueci através dos despoj os de guerra. Eles depressa se tornaram apegados a

m im , a tal ponto, na verdade, que, quando finalm ente m e estabeleci com o rei, prim eiro de Judá, e depois de todo o Israel, eles continuaram a aceitar-m e com o seu senhor.

Um a vez que nunca pretendi que a m inha estada entre os filisteus fosse duradoura, e nunca esqueci que era o Ungido do Senhor, era natural que m e esforçasse por lim itar as m inhas incursões ao território daquelas tribos que há m uito eram inim igas dos israelitas e dos filisteus. Se ocasionalm ente eu tam bém lançava incursões contra as cidades de Judá, era m eram ente porque j ulgava necessário fazê-lo para persuadir Aquis da m inha lealdade sincera, e de que tinha de todo cortado os laços que m e uniam ao m eu próprio povo.

Mas depressa surgiu um a nova crise. Saul, vivendo raros m om entos de lucidez, alcançara recentem ente algum êxito nas escaram uças fronteiriças com os filisteus, enquanto Jónatas fizera um a incursão audaciosa e coroada de êxito contra algum as das suas cidades a norte. Isso despertou os filisteus e persuadiu-os a colocarem de lado as disputas entre os seus pequenos reinos e a unirem -se num grande exército em penhado em , com o eles colocavam a questão, « exterm inar a víbora que era Saul e toda a sua descendência» .

Logicam ente que Aquis m e cham ou, com o seu vassalo, para que m e j untasse ao exército filisteu, não sentindo qualquer hesitação em fazê-lo, porque acreditava que as incursões que eu fizera a Judá, e que lhe tinham sido relatadas, m e tivessem separado com pletam ente do m eu próprio povo. Alguns dos m eus hom ens, entre eles o nobre Asael, ficaram consternados perante a idéia de lutarem ao lado dos nossos inim igos tradicionais contra conterrâneos israelitas. Joab, no entanto, deu um m urro na m esa e disse:

- É a oportunidade por que esperávam os. Aniquilam os Saul e a prom essa de Sam uel será cum prida. - E acrescentou, num j eito superficial: - Abençoado sej a o nom e do Senhor.

Eu com preendia Joab. Quando desertou de Saul para se j untar a m im , ficara decepcionado com o lento crescim ento do nosso exército; pensara que David e Joab atraíssem m ais dissidentes, e não im aginara que a nossa perm anência no deserto fosse tão prolongada e perigosa. Resistira à m inha proposta de que nos devíam os aliar a Aquis, em parte porque não gostava e não confiava nos filisteus, e em parte, sim plesm ente, porque era um a idéia nova; e Joab precisava sem pre de tem po para se adaptar a idéias novas. Agora, em bora não tivesse ultrapassado a repugnância que sentia pelos filisteus, reconciliara-se com a nossa opinião. O ódio que nutria por Saul e por toda a sua fam ília - incluindo até o m eu querido Jónatas - era tão intenso que acredito que ele teria achado bem -vinda um a aliança com Satanás, se isso assegurasse a destruição de Saul. Ele via agora chegar esse tão ansiado m om ento. E, no seu entusiasm o, não se apercebia das dificuldades que, para m im , eram evidentes. É claro que a derrota de Saul e, talvez, a sua m orte em batalha deixariam livre o trono de Israel. Contudo, eu não podia estar confiante de que todas as tribos m e aceitariam com o o sucessor de Saul - em bora eu lhes proclam asse que Sam uel m e ungira com óleo com o o Eleito do Senhor - se eu tinha lutado no exército filisteu contra Saul e Israel. Era possível que Aquis m e estabelecesse com o rei-m arioneta de Israel, e que, um a vez rei, eu pudesse, gradualm ente, ser capaz de m e libertar dos laços filisteus; m as m esm o essa não m e parecia ser um a solução feliz. Não era assim que eu desej ava tornar-m e rei de Israel.

Rezei longas horas ao Senhor para que Ele guiasse os m eus passos no cam inho da j ustiça e assim m e perm itisse cum prir a prom essa que eu Lhe fizera através da m ediação de Sam uel. Acalm ei os m edos e incertezas dos m eus hom ens dizendo-lhes que confiassem no Senhor dos Exércitos, cuj a m ente hom em algum poderia conhecer, m as cuj o obj etivo era fixo e que guiava as nossas saídas e entradas. Lem brei-os do sofrim ento dos nossos antepassados quando vaguearam quarenta anos no deserto, após terem sido libertados do Egito. Observei igualm ente a Aquis que, em bora fosse seu vassalo e estivesse plenam ente consciente da dívida de gratidão que tinha para com ele, eu cum priria, naturalm ente, de bom grado ou não, qualquer tarefa de que ele m e incum bisse, m as não estava tão certo de que todos os seus conterrâneos ficassem felizes de m e verem a m archar com eles contra o m eu próprio povo. Aquis, disse eu, não tinha m otivos para duvidar da m inha lealdade para com ele; m as outros podiam pensar de m aneira diferente.

- Abordo este assunto, m eu caro Aquis - disse eu -, apenas com o um aviso. Não gostaria que a m inha presença no teu exército fosse razão para perturbar as tuas relações com os outros reis da Filisteia, ou até para os persuadir a depositarem m enos do que toda a confiança em ti.

- David - respondeu ele, abraçando-m e -, com o sem pre, falas com o um hom em digno. Mas a m inha confiança em ti é absoluta, e assegurarei aos com andantes m eus com panheiros que é bem fundada.

Naturalm ente que m e confessei contente pela confiança que Aquis dem onstrava para com igo. No entanto, eu esperava ter possivelm ente feito surgir um a pequena dúvida na sua nobre m ente.

As coisas aconteceram do acordo com o aviso que eu lhe fizera. Quando os outros reis filisteus souberam que eu ia m archar com eles, e que Aquis pretendia até dar-m e o com ando da ala direita do exército, explodiram de raiva. David, diziam eles, enganou Aquis; David enfeitiçou Aquis; David seduziu Aquis, David é o inim igo da Filisteia; a desavença entre Saul e David foi m ero fingim ento; David ainda está a trabalhar para Saul, que o enviou para as fileiras dos filisteus para que os traia quando a batalha estiver no seu auge; David, diziam alguns, deve ser condenado à m orte com o espião; m esm o que Aquis não concorde com isso, diziam eles, todos nós nos recusam os a m archar, se David e os seus hom ens fizerem parte do exército.

Aquis contou-m e tudo isto. Estava irritado e envergonhado.

- Eu não podia im aginar - disse ele - que até o rei de Ascalon, que tem tanto de repugnante com o de estúpido, pudesse descer tão baixo e acusar-m e das abom inações de que m e acusa. Nunca lhe perdoarei, em bora sej a m eu prim o, e um dia terá a m inha vingança, m as agora, David, para m inha vergonha total, tenho de te pedir que deixes, tu e os teus hom ens, o exército, e que te retires para Ciclag, onde conquistaste tão grande êxito a defender a nossa fronteira sul, com o convenceria, penso eu, qualquer pessoa com um a ínfim a parte da tua virtude e lealdade. Perdoa-m e, David, por este pedido, e fica na certeza de que ele não trai qualquer dúvida que m e tenha surgido no espírito em relação à tua absoluta lealdade para com igo e virtude inata. Foi um discurso nobre e eu tive pouca dificuldade em responder de form a adequada. Pestanej ei rapidam ente por várias vezes para que as lágrim as com eçassem a j orrar, em bora eu im agine que Aquis supôs que eu estava a tentar refreá-las.

Abracei-o e agradeci-lhe, num a voz em bargada, a confiança em m im que ele tinha expressado, e assegurei-lhe que m e lem braria da sua nobreza até ao dia da m inha m orte. Com o, de fato, tenho feito. Além disso, consegui reprim ir um sorriso até sair de perto dele.

Assim , estive ausente do últim o ato da tragédia de Saul. E o que sei dela, sei-o apenas pela m istura de rum ores, boatos e especulação que com põe aquilo a que os hom ens cham am história, ou, por vezes, lenda.

Saul, nestes últim os dias, foi visitado, segundo parece, por um a nova e estranha perturbação do espírito. Já não sofria aquela aniquilação da m ente que o fechava num a nuvem de noite; era m ais com o se se m ovim entasse, pesado e vacilante, através de um nevoeiro úm ido e pegaj oso, não vendo nada, não ouvindo nada, não com preendendo nada, e, no entanto, ainda em m ovim ento.

Foi nesta estranha disposição que ele se escapou, assim que lhe chegou aos ouvidos a form a com o os filisteus se uniam contra ele, para consultar um a m ulher que se dizia possuir o poder, por arte necrom ântica, de cham ar os m ortos para que se revelassem aos vivos e falassem com eles. Nos seus tem pos de apogeu, Saul prom ulgara leis que expulsavam do reino aqueles que afirm avam ter conhecim ento de m agia negra. Cham ara-lhes m entirosos e charlatães que levavam os hom ens à m aldade através de artim anhas que fingiam e conhecim ento do que é proibido saber. A sua tentativa foi em vão, com o tais esforços devem sem pre ser. O desej o de certos hom ens de penetrar, ou de acreditar que penetraram , para além das realidades da rocha e da pastagem , da terra arada, do vento, da chuva e da m udança das estações, nunca pode ser erradicado.

Nos m elhores hom ens, este desej o tom a a form a de com unhão com o Todo-Poderoso em locais desertos; noutros, incapazes da hum ildade da alm a que o Senhor exige, ele expressa-se de um a m aneira que- prom ete certezas m ais im ediatas, ilusões e enganos, em bora a realidade tenha de provar que assim é. Apenas o cultivo da virtude, através da com unhão com o Todo-Poderoso, pode salvar aquele que procura conhecim ento a partir das som bras do engano. E contudo, m esm o ao escrever isto, sei que não é a verdade com pleta, que tem m ais a ver, com o eu aprendi, com provar a água da am argura; que se passa com o hom em o m esm o que com a árvore: quanto m ais ele procura elevar-se até à luz clara do conhecim ento, tanto m ais deve enterrar as raízes na terra, no escuro, no profundo, no m al. O insensato diz em seu coração: « Não há Deus» ; m as aquele que procura conhecer Deus deve prim eiro aprender de que m al é, ele próprio, capaz, que horrores se escondem dentro dele.

Assim , o pobre Saul, m iserável farrapo de um hom em e de um rei, passou fom e um dia e um a noite, e aventurou-se a ir até Endor para consultar um a m ulher que se vangloriava da sua capacidade de evocar os espíritos dos m ortos para os interrogar. E ele assim fez, im agino, num estado de desprezo e repugnância por si próprio.

Ela penetrou facilm ente no disfarce dele.

- Não é o rei que m e suplica que evoque o espírito de Sam uel? perguntou ela. - E não é este o m esm o rei que proclam ou a perversidade de artes com o a m inha, e m e teria m andado apedrej ar até à m orte ou expulsar de Israel?

E Saul deitou-se no chão em frente dela, e lam beu o pó.

Então ela riu, de vê-lo tão abj eto, e concordou em fazer com o ele lhe pedia, pois nada inspira m ais estes necrom antes com o o reconhecim ento do seu poder por aqueles que, em seu j uízo perfeito, o negariam .

Por que m eios ela evocou a aparência do falecido sum o sacerdote, não sei. Mas é certo que aqueles que acom panharam Saul afirm aram m ais tarde que a figura de Sam uel se ergueu perante ele num a nuvem de nevoeiro verm elho.

Saul, ainda estendido na terra nua da cabana, derram ou o desespero que lhe rasgava a alm a. Gritou que o Senhor o abandonara no seu sofrim ento e que era o m ais m iserável dos hom ens. Os filisteus tinham trazido um grande exército contra ele, e, quando ele procurou orientação j unto do Senhor, ouviu apenas o vento no deserto. Por isso viera ter com Sam uel para lhe im plorar que intercedesse j unto do Senhor em seu nom e, pois só assim Israel poderia ser salvo.

Resum i o que m e foi relatado com o palavras incoerentes, m as acredito que foi esta a essência da prece triste e dolorosa de Saul.

Tam bém não sei por que m eios a m ulher de Endor conseguiu a form a que evocara em resposta a Saul. Suponho que, com o tantas outras pessoas do seu vil tipo, ela possuía a capacidade de colocar a voz de tal m aneira que as palavras que pronunciava pareciam não vir dela m as de outro lugar, e dos lábios de outro ser ou daquilo que parecia

um ser.

As palavras que ela dirigiu a Sam uel eram duras. Nisso, pelo m enos, ela foi honesta, pois respondeu com o eu tenho a certeza que o próprio Sam uel, aquele hom em severo e am argo, com um a m em ória longa e im placável, teria respondido. Saul - dizia a m ensagem - fora colocado de lado pelo Senhor por causa da sua desobediência à palavra do Senhor, cuj a vontade ele desafiara ao poupar os am alecitas. Por isso o Senhor rej eitara Saul e toda a sua casa, e, se Saul continuasse e entrasse na batalha, deveria ir sem esperança, pois j á fora tudo dito. Saul estava condenado, e pereceria no m onte Guilboa.

Nessa altura a visão esvaneceu-se e o rei chorou. A m ulher deu-lhe pão e vinho e a carne de um vitelo gordo. Agradar-m e-ia pensar que ela o fez por piedade de Saul, m as é m ais provável que ela desej asse prolongar o seu triunfo e saborear a im agem do grande rei reduzido ao estado de um a criança desesperada que falava sem nexo. Sej a com o for, Saul com eu e bebeu, e foi-se em bora, agradecendo à m ulher de um a form a que continha vestígios da sua antiga m aj estade. Mas o seu sem blante, dizem os hom ens, era vazio com o a rocha que surge, a pique, das areias do deserto. E foi nesse espírito que ele avançou para a sua últim a batalha.

Quando m e trouxeram a Ciclag a notícia da sua derrota e da m orte de Jónatas e dos seus outros filhos, senti a sua agonia e o m eu coração ficou desolado. Saul caíra sobre a sua própria espada para evitar, em prim eiro lugar, ser capturado pelos filisteus e, depois, tornar-se m otivo de chacota para eles. A notícia foi trazida por um j ovem que fugiu do cam po de batalha e que trazia consigo o diadem a e o bracelete de Saul. Contou-m e o que eu m ais tarde descobri que não era verdade: que ele próprio m atara Saul - que caíra, ferido - a pedido do próprio rei. Sorriu ao aj oelhar-se à m inha frente, saudando-m e com o rei, e voltou a sorrir com o se procurasse um a farta recom pensa. Olhei-o com horror.

Vanglorias-te – disse eu – por teres m orto o Ungido do Senhor. Olha bem para a luz do dia, j ovem , pois não voltarás a vê-la.

Em seguida dei ordens para que o levassem da m inha presença, e lhe tirassem os olhos, pois, disse eu, “ Que a escuridão sej a daquele que enviou Saul para a noite eterna. Mas que viva – acrescentei –, para que venha a conhecer a dor da hum ilhação, e que suplique o seu pão àqueles que o conhecerão com o vil. Desta form a, aquele que se vangloria de crueldade sentirá a dor de receber a m isericórdia; e, enquanto viver, será para todos os hom ens um a lem brança perpétua de que o Senhor é j usto “.

Ele gritava horrivelm ente à m edida que o ato estava a ser realizado. Quando ouvi os seus gritos, estrem eci, e, em seguida, cancelei a m inha prim eira ordem ,

e decretei que ele devia ficar perto de m im . Desta form a, disse para m im próprio, terei j unto a m im um exem plo e um aviso das profundezas a que os hom ens podem cair. Ele ficou na m inha casa durante sete anos, sofrendo o desdém de todos. Entreguei-o, então, aos sacerdotes, com a instrução de que lhe fosse concedida um a cela, e que o alim entassem a pão e água, j untam ente com a oportunidade de fazer as pazes com o Todo-Poderoso. Pode ainda lá estar a viver. Não sei.

Nessa noite, nos m eus aposentos, recordei Saul, tal com o fora na sua força gloriosa. Recordei com um a dor ainda m ais aguda o am or que Jónatas sentia por m im , e fiz um poem a :

 

A Honra de Israel pereceu sobre as colinas !

Tom baram os heróis !

Não o conteis em Gat, nem o descrevais nas ruas de Ascalon,

Para que não se regozij em as filhas dos filisteus,

Nem saltem de alegria as filhas dos incircuncisos !

 

Montes de Guilboa, não caia sobre vós orvalho nem chuva,

Cam pos traiçoeiros,

Pois aí foi desonrado o escudo dos heróis.

O escudo de Saul não foi ungido com óleo,

Mas com o sangue dos feridos e a gordura dos guerreiros.

O arco de Jónatas não recuou j am ais,

E a espada de Saul j am ais deu golpe em vão.

 

Saul e Jónatas, am ados e gloriosos, j am ais se separaram ,

Nem na vida nem na m orte,

Mais velozes do que as águias,

 

Mais fortes do que os leões.

 

Filhas de Israel, chorai sobre Saul!

Ele vestia-vos de púrpura suntuosa ;

E ornava de ouro as vossas vestes.

 

Tom baram os heróis no cam po de batalha!

Jónatas, m orto sobre as tuas colinas!

 

Jónatas, m eu irm ão, que angústia sofro por ti!

Com o eu te am ava!

O teu am or era um a m aravilha para m im

Mais excelente que o das m ulheres.

 

Com o tom baram os heróis e se destruíram as arm as de guerra!

 

Depois de ter com posto esta canção, senti um grande cansaço a invadir-m e m as o m eu desgosto foi atenuado, pois sabia que os honrara e que as m inhas palavras lhes tinham dado toda a im ortalidade que estava em m eu poder atribuir. Então, um a vez que tinha a m ente cheia da m em ória do am or que Jónatas sentira por m im , e eu por ele, e um a vez que não desej ava a com panhia de m ulheres, m as receava a idéia da solidão, m andei cham ar Laís.

Cantei-lhe a m inha lam entação, e ele desatou a chorar.

Quando ele se recom pôs, disse:

- Mas, David, Saul procurava-te para te m atar, e agora cantas tão m aravilhosam ente a sua glória.- Sim - disse eu -, achas que sou hipócrita, Laís?

- Se assim fosse, não teria chorado.

- Mas não com preendes?

Ele abanou a cabeça.

- Eu próprio não com preendo - respondi eu. - Fiz a canção que tinha de fazer. Não sei m ais nada. Por vezes, Laís, penso que cada um de nós é duas pessoas, com o Saul era. A cisão, a divisão da sua natureza era nele clara e indubitável. Mas existe em todos nós. Mesm o quando eu ordenei que cegassem aquele infeliz, eu estava a pensar que vantagem eu poderia retirar da m orte de Saul e de Jónatas e do desastre que se abateu sobre Israel. Estava a considerar que efeito é que tudo isso teria na m inha relação com Aquis. E, no entanto, quando m e retirei para os m eus aposentos, conheci apenas o desgosto, e fiz o que fiz. Nessa altura lam entei a sua perda. Mas nunca m e perm iti a ignom ínia de o odiar, com o ele m e odiava a m im . Contudo, acredito que ele lutasse tam bém contra esse ódio. Laís, a natureza do hom em é com plexa. Por m im próprio, tinha de fazer esta canção, para m e preservar da corrupção ao honrar Saul.

- E Jónatas - disse Laís.

-Jónatas - disse eu, e tom ei-o nos m eus braços.