Rio de Janeiro: o território fluminense
Quais mudanças estão em curso no campo fluminense?
Quais mudanças estão em
curso no campo fluminense? 1
Glaucio José Marafon
1. Introdução
A análise das atuais transformações no campo brasileiro torna-se fundamental, pois, além de desempenhar as funções tradicionais − como referência de permanência de atividades, de fornecer mão-de-obra para a cidade, matérias primas e consumir produtos oriundos da cidade −, o campo abriga, cada vez mais, atividades não agrícolas − como a produção industrial, os serviços associados às atividades de turismo que valorizam as áreas com aspectos naturais e que remetem as mudanças em curso. Há de se destacar o contínuo processo de migração rural-urbano, pois as pessoas buscam sua inserção no mercado de trabalho e uma melhor qualidade de vida. O campo, além de ser o local da produção agropecuária, transforma-se em um espaço no qual inúmeras atividades não agrícolas são efetuadas, como o trabalho de caseiros, diaristas, jardineiros etc.
Soma-se a essa complexidade de situações, a presença de pessoas oriundas da cidade, que muitas vezes desempenham atividades que não propriamente a agrícola. Tal fato decorre do desenvolvimento tecnológico representado pela melhoria e expansão das vias de comunicação, como estradas, telefonia e meios de transporte. O espaço rural torna-se mais complexo, pois, além das atividades agrícolas, passa a sediar inúmeras outras que não o são. Entende-se, aqui, que a complexidade do espaço rural é decorrente das profundas transformações ocorridas recentemente, responsáveis pela subordinação desse espaço aos interesses da cidade.
Entre as atividades não agrícolas presentes atualmente no campo, merecem destaque as turísticas, devido à proliferação de áreas de lazer. O desenvolvimento dessas está associado ao processo de urbanização e ao transbordamento do espaço urbano para o rural (Graziano da Silva, 1998). Para esse autor, “novas” formas de ocupação passaram a proliferar no campo. Entre elas, destacam-se um conjunto de profissões tidas como urbanas (trabalhadores domésticos, mecânicos, secretárias etc.); moradias de segunda residência; atividades de conservação; áreas de lazer (hotéis-fazenda, fazenda-hotéis, pesque-pague etc.). Essas “novas” atividades demandaram um número crescente de pessoas para dar sustentação à expansão das atividades turísticas no espaço rural, o que possibilitou que os membros das famílias, liberados das atividades rotineiras da exploração agrícola, pudessem ocupar as vagas geradas na expansão do turismo rural.
Para Rua (2007), o espaço rural, há algum tempo, vem sendo percebido como terra-mercadoria capaz de gerar outros produtos. Surgem novas territorialidades resultantes da interação campo-cidade. Essa hibridez está presente nas diversas atividades que encontramos no campo e está associada às atividades rurais. Ainda segundo o autor, existem duas vertentes da teoria social crítica que analisam as relações entre o campo e a cidade. Uma procura trabalhar com a noção de urbanização do rural, com a incorporação do rural ao urbano, associada à ideia de um continuum, ou seja, haveria graus distintos de urbanização do território. Outra, que postula a urbanização no rural e entende a manutenção de especificidades nesse espaço − mesmo com a crescente impactação advinda do urbano − da metropolização do espaço.
Nesse sentido, concordamos com Ferrão (2000) ao sinalizar que deveremos levar em consideração que o espaço rural não é somente agrícola. Rompe-se deliberadamente e explicitamente com dois elementos secularmente associados ao rural: sua função principal não é mais, necessariamente, a produção de alimentos, nem a atividade predominante é a agrícola, reforçando assim a noção de hibridez do espaço rural. A dimensão não agrícola vem aumentando, muitas vezes, associada à noção de patrimônio, com a renaturalização da paisagem. Enfatiza-se a preservação e a proteção da natureza, valoriza-se a busca da autenticidade dos elementos paisagísticos locais, a conservação e a proteção dos patrimônios históricos e culturais, o resgate da memória e da identidade. Dessa forma, há a mercantilização das paisagens, com a consequente expansão das atividades de turismo e de lazer.
Esses processos ocorrem no estado do Rio de Janeiro, porém não com a mesma intensidade. Em função do seu alto grau de urbanização, dificuldades de mecanização de seus solos e expansão imobiliária em decorrência, sobretudo, das atividades turísticas, temos muito mais mudanças que permanências no campo fluminense. Estas seguem o padrão brasileiro de concentração fundiária, precariedade nas relações de trabalho, conflitos pelo acesso à terra e mudanças associadas à valorização do espaço rural por meio da presença crescente de pessoas oriundas da cidade em busca de áreas de lazer ou de segunda residência, com a valorização das terras e o surgimento de atividades não agrícolas (em geral de baixa qualificação) que passam a ser ocupadas pelos integrantes das famílias de produtores rurais.
A diversificação das fontes de renda e a combinação de atividades agrícolas e não agrícolas têm possibilitado à população do meio rural elevar seu poder aquisitivo, “passando a demandar uma variada gama de bens de consumo” (Scheneider, 1999, p. 174).
Entre as diversas possibilidades que se manifestam no espaço rural e que possibilitam a complementação de renda nas unidades familiares de produção, encontramos as atividades associadas à prática do turismo rural, que vem se expandindo cada vez mais no território brasileiro. A valorização do mundo rural e as transformações que têm ocorrido nas unidades familiares de produção, como a diminuição do tempo destinado às atividades agrícolas, a diminuição da renda agrícola, a busca de outras atividades para complementação da renda e o retorno para as áreas rurais de pessoas oriundas do urbano − sobretudo aposentados, que passam a se dedicar não somente a atividades agrícolas − têm levado a uma busca de caracterização desses fenômenos, e que genericamente se denominam de unidades familiares de produção pluriativas. Destarte, o objetivo central deste trabalho é o de identificar algumas das mudanças em curso no campo fluminense, sobretudo associadas ao turismo rural. Essa identificação ocorre, sobretudo, na perspectiva qualitativa por meio da realização de inúmeros trabalhos de campo nos municípios fluminenses nos últimos anos.
O turismo rural como possibilidade de
complementação de renda para as unidades
familiares de produção.
O desenvolvimento de atividades turísticas no espaço rural está associado ao processo de urbanização que ocorre na sociedade e no transbordamento do espaço urbano para o rural (Graziano da Silva, 1997). Para esse autor, “novas” formas de ocupação passaram a proliferar no campo. Entre elas, são destacadas: conjunto de profissões tidas como urbanas (trabalhadores domésticos, mecânicos, secretárias etc.); moradias de segunda residência; atividades de conservação; áreas de lazer (hotéis-fazenda, fazenda-hotéis, pesque-pague etc.). Essas inovações demandaram um número crescente de pessoas para dar sustentação à expansão das atividades turísticas no espaço rural, o que possibilitou que os membros das famílias, liberados das atividades rotineiras da exploração agrícola, pudessem ocupar as vagas geradas na expansão do turismo rural.
Na literatura, encontramos os anos 1980 como sendo o marco inicial da exploração do turismo rural no Brasil. Nos anos 1990, com a intensificação das atividades no espaço rural e com a crescente valorização da natureza, tivemos a expansão dessas práticas nesse meio.
As atividades associadas ao turismo rural têm contribuído para a complementação da renda familiar das unidades de produção, familiar ou não, pois o seu incremento gera a demanda por novos postos de trabalho, além de contribuir na melhoria da logística que proporciona suporte ao fluxo de turistas. A EMBRATUR (1994) considera que o turismo rural inclui todas as atividades – alternativas, domésticas, agroturismo, turismo –, organizado para e pelos habitantes do país, e é “compreendido como sendo toda maneira turística de visitar e conhecer o ambiente rural, enquanto se resgata e valoriza a cultura regional” (Mendonça et al., 2002). O turismo rural designa atividades diversas como, hotéis-fazenda, fazenda-hotéis, agroturismo, turismo de aventura, e que Rodrigues et al. (2001) classifica como tradicional (de origem agrícola, pecuária e colonização) e contemporânea (hotéis fazendas, spas rurais, segunda residência). Cavaco (2001) faz uma importante observação ao afirmar que o turismo em “espaço rural tem pouco significado em termos de turismo e seus efeitos econômicos” (pp. 28-9).
A constatação da referida autora é um item importante para reflexão, uma vez que nos leva a indagar até que ponto os agricultores familiares se beneficiam dos resultados dessas atividades de turismo no espaço rural na atualidade? As suas atividades são somente uma possibilidade de uma “nova” ocupação, que permite sua inserção no mercado de trabalho, através de ocupações como diaristas, caseiros, jardineiros etc.? São atividades que complementam a renda familiar, mas efetuadas fora de sua propriedade em hotéis-fazenda, fazendas-hotel e nas áreas em que se proliferam as casas de segunda residência, caracterizando o turismo rural contemporâneo e de modo diferente do que ocorre com o turismo rural tradicional, no qual o turista vivencia as atividades desenvolvidas na propriedade rural.
No entanto, o turismo rural no Brasil não está livre de problemas como apontam Mendonça et al. (2002), e, entre eles, estão a falta de planejamento e gestão, baixa capacidade econômica da população e dificuldade de acesso a informações. São necessárias uma melhor capacitação profissional e políticas de estímulo a essa prática no território brasileiro. Acrescentaríamos ainda a necessidade de inclusão de forma mais efetiva dos agricultores familiares, além da capacitação efetuada pelos técnicos da EMATER, como do estado do Rio de Janeiro, na orientação de desenvolvimento de artesanato e doces caseiros.
Destarte, no nosso entendimento, o turismo rural se afirma como mais uma alternativa que se coloca para os agricultores familiares venderem sua força de trabalho e complementar sua renda reforçando o caráter pluriativo das unidades familiares de produção e inseridos no processo de produção do espaço, no qual, de acordo com Lefebvre (1999), estaríamos sob o signo de uma sociedade urbana. Essa urbanização, por sua vez, estruturaria o território, o que Santos (1993) aponta como passagem da urbanização da sociedade para a do território. O turismo rural contemporâneo reflete essa prática, uma vez que os hotéis-fazenda, spas rurais e casas de segunda residência se localizam, preferencialmente, próximas às grandes concentrações urbanas.
Assim, entendemos que a pluriatividade é um fenômeno que tem se aprofundado em função da diminuição da renda agrícola e se torna um caminho a ser percorrido pelos membros das unidades familiares de produção, sobretudo em áreas próximas aos grandes centros urbanos, onde o fluxo de turistas em direção ao espaço rural tem sido mais intenso, com a revalorização do espaço rural e da natureza. Nesse sentido, essas atividades complementares podem ser vistas como necessidades que se colocam para complementação da renda familiar. Esse fenômeno pode estar associado em áreas de colonização e de industrialização como muito bem analisado por Schneider (1999), antigas áreas de exploração de café e cana de açúcar como no estado do Rio de Janeiro ou ainda em áreas próximas as metrópoles onde proliferam hotéis, pousadas e casas de segunda residência, como na Região Serrana Fluminense, e estudado por Teixeira (1998).
2. Agricultura familiar, pluriatividade e
turismo: o que muda no território
fluminense?
O estado do Rio de Janeiro é o segundo polo industrial do Brasil, produz cerca de 71,0% do petróleo nacional, sendo também o maior produtor de gás natural do país. Além disso, sua produção de pescado é significativa, assim como a olericultura, horticultura e produção de leite. A sua paisagem natural é bastante diversificada, mas também bastante degradada devido às atividades socioeconômicas vivenciadas em seu território. Corresponde ao estado mais urbanizado do país e, de acordo com Rua (2002), o território fluminense é marcado por eixos de urbanização, nos quais esta ocorre de forma mais densa. Limonad (1996) e Santos (2003) mencionam que no espaço fluminense há uma redistribuição populacional em consonância com as atividades produtivas.
O estado apresenta muitos problemas em relação ao meio rural. A vasta concentração de população, de renda, de poupança, de condições de desenvolvimento na Região Metropolitana do Rio de Janeiro gerou um forte desequilíbrio inter-regional, com exclusão política e social de parte da população do interior (Moreira, 2001). Segundo os resultados do Censo Demográfico 2010 (IBGE), aproximadamente 75% da população de 15.989.929 residem nos limites da área metropolitana. Constituída por 21 municípios, a Região Metropolitana ainda se mantém como um marco polarizador de recursos (Ribeiro, 2002), de população e de bens e serviços.
Apesar da ainda enorme concentração da população fluminense em sua região metropolitana, surgem nos anos 1990 algumas alterações em relação à dinâmica demográfica do estado do Rio de Janeiro. A mais importante refere-se à simultaneidade de um movimento tendente à despolarização espacial, com a emergência de novos centros de porte médio no interior do estado, e de outro, em sentido inverso, de consolidação dos centros urbanos metropolitanos (Santos, 2003). Apesar da expansão demográfica nas bordas metropolitanas manifestar-se desde, pelo menos, a década de 1950, esse movimento não implicou uma desconcentração da população em direção ao interior. Os dados do censo de 2010 apontam o crescimento populacional, em direção às regiões ao norte da RMRJ, onde “a Região das Baixadas Litorâneas aumentou seu percentual de participação (de 3,2% para 4,3%), seguida da Região Norte Fluminense (de 4,9% para 5,4%). Ocorre também uma pequena diminuição na participação tanto do núcleo metropolitano como de sua periferia, no entanto, a preponderância da população da metrópole ainda é muito grande” (Observatório das Metrópoles, 2011). Esse crescimento está atrelado, sobretudo, às atividades de turismo e lazer na Região das Baixadas Litorâneas e da exploração do Petróleo na Região Norte Fluminense, o que tem provocado mudanças no espaço rural, como o decréscimo da produção agrícola na Região das Baixadas devido ao aumento do preço da terra, que passa a ser destinada a atividades do turismo, como a construção de hotéis e condomínios. As mudanças na região Norte Fluminense estão associadas à proliferação de sítios e de condomínios para residência. Essas atividades acabam impactando a produção agrícola e proporcionando o surgimento de atividades não agrícolas.
Rua (2002, p. 47-8) assinala que no estado do Rio de Janeiro “prevalece a projeção da metrópole carioca que intensifica o processo de urbanização” e esse processo marca intensamente o território fluminense nas “dimensões política, cultural, comportamental, econômica, onde o significado dessa área urbana torna-se esmagador”. Na verdade, assiste-se a um espraiamento da metrópole, e no dizer de Lencione (2015, p. 8) “nessa metamorfose os padrões de comportamento, signos e hábitos metropolitanos veiculados pelas redes de comunicações chegam a todos os lugares. A antiga distinção entre campo e cidade, tão clara no passado, torna-se mais embaciada e, onde se faz ainda nítida, ganha opacidade quando se examina o comportamento social pautado por um modo de ser que emana da metrópole e invade o campo”.
Esse processo é intenso no interior fluminense, que vem se destacando, não somente em termos de crescimento demográfico (ainda pequeno), mas no abastecimento de produtos agropecuários (hortigranjeiros, leite e produtos com nicho de mercado especializado, como orgânicos, ervas-finas, leite de cabra, trutas etc.), além de estar servindo como área de lazer para a prática de turismo rural, de ordem contemporânea, com a proliferação de hotéis-fazenda, pousadas, spas e casas de segunda residência. A prática desse turismo rural é uma alternativa ao turismo intenso que ocorre nas Costas Verde e do Sol, voltado para o segmento de praia (Ribeiro, 2003).
De acordo com Ribeiro (2002, p. 21), apesar de o estado do Rio de Janeiro apresentar baixos totais em relação aos nacionais, quanto às variáveis− pessoal ocupado, valor da produção, quantidade colhida e modernização − o seu quadro agrário apresenta relevância e contrastes no âmbito estadual. Esses contrastes são decorrentes de uma agropecuária tradicional que domina a maior porção do território fluminense, diante de outra de caráter moderno. De um lado, produtos tradicionais, exemplificados pela cana-de-açúcar, além de cultivos de subsistência; do outro, culturas que requerem técnicas aprimoradas, como o tomate, a horticultura, a fruticultura e a olericultura, marcando o Cinturão Verde da metrópole, ocupando municípios integrantes das regiões Serrana, Centro-Sul, e Noroeste Fluminense.
A maioria dos estabelecimentos agrícolas do estado possui área de até cem hectares (cerca de 80%), o que imprime uma significativa importância à produção familiar e às estratégias que esses agricultores encontram para fazer frente à queda na renda agrícola e ao intenso processo de urbanização.
Os agricultores familiares, em sua maioria, passam por uma grave crise devido à concentração de renda e à falta de políticas agrícolas efetivas. As grandes propriedades sempre ocuparam uma parcela considerável do estado do Rio de Janeiro, tendo desempenhado papel relevante nas exportações agrícolas do país. Entretanto, após encerrar as atividades econômicas de exportação do açúcar e do café (respectivamente, 1900-1930 e 1970-1980) em seu território, a maioria das grandes propriedades voltadas para a comercialização desses produtos passou a se caracterizar pela falta de dinamismo das atividades agrárias nelas desenvolvidas, devido à descapitalização decorrente da decadência das grandes lavouras comerciais. Isso contribuiu para que extensas áreas do estado apresentassem um nível de aproveitamento agrícola muito inferior ao potencial produtivo das terras, podendo-se mencionar o Vale do Paraíba, no qual predomina a pecuária bovina caracterizada por índices muito baixos de produtividade.
Por outro lado, verifica-se que os pequenos proprietários têm poucas possibilidades de realizar investimentos em suas terras, uma vez que operam com retornos muito reduzidos para permitir a capitalização de suas unidades de produção. Esse é o caso daqueles fornecedores de leite às Cooperativas do Noroeste Fluminense, do Médio Vale do Paraíba e Centro Sul Fluminense, os quais, embora detenham a propriedade da terra, têm uma forma de inserção na produção regional que implica reduzida autonomia na condução do processo produtivo e limitações quanto à possibilidade de investir em suas unidades de exploração. Em outros casos, como na Região Serrana, onde há o predomínio da produção de hortigranjeiros em pequenas propriedades, a pluriatividade surge como uma alternativa de fonte de renda para os agricultores. Muitos, além de realizarem suas funções na propriedade agrícola, exercem atividades não agrícolas (como caseiros, motoristas, empregados domésticos, fiscais de rodovia etc.) nas casas de veraneio, nos hotéis e para as prefeituras da região.
Constata-se que, em território fluminense, as transformações no rural, como a prática do turismo e a oferta de empregos não agrícolas, encontram-se associadas ao processo de urbanização, cuja influência metropolitana é intensa. Pode-se considerar que a projeção da metrópole, em direção ao interior, ocorre por meio de eixos. O eixo que se desloca da RMRJ em direção a Angra dos Reis e Paraty, a região da Baía da Ilha Grande, também conhecida como Costa Verde, no qual se destacam as atividades de turismo, tem provocado intensas transformações, com apelo intenso para o turismo de praia, histórico e ecológico. Essa região concentra em seu território grandes reservas de Mata Atlântica, inúmeras ilhas (entre elas a Ilha Grande) e cidades históricas como Paraty e Angra dos Reis. Grande parte do território integra áreas de proteção ambiental, o que inibe a prática de atividades agrícolas. A intensa ocupação por grandes hotéis de luxo e resorts e condôminos fechados tem provocado uma forte especulação imobiliária e expulsado os produtores familiares de suas terras. A eles resta a inserção no mercado de trabalho urbano ou a prática de uma agricultura extrativista, com a exploração da banana e do palmito, assessorados por técnicos governamentais da EMATER e IBAMA, além do exercício de atividades não agrícolas, trabalhando nos hotéis/resorts e condomínios.
O outro eixo que tem no turismo um forte vetor de crescimento é o que segue da RMRJ em direção a Cabo Frio, Armação dos Búzios e Macaé, percorrendo a região das Baixadas Litorâneas conhecida turisticamente como Costa do Sol. Observa-se, nesse segmento, um intenso crescimento de turismo de massa em direção ao litoral norte do estado do Rio de Janeiro (Ribeiro, 2003), provocando uma intensa urbanização e a proliferação de segundas residências, o que conduziu ao fracionamento da terra e expulsão das atividades agropecuárias para a criação de loteamentos e condomínios. A presença da Petrobras em Macaé representa na constatação de Rua (2002 p. 48) “uma avassaladora especulação imobiliária com profundas marcas de segregação socioespacial”.
Outro eixo de urbanização é o que ocorre no “topo da serra” (Rua, 2002), e os principais representantes desse eixo são os municípios de Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis. Essa área é marcada pela produção de hortigranjeiros e flores, e que abastece a RMRJ. Apresenta também um tradicional e significativo polo industrial (com destaque para a moda íntima), além da presença de inúmeros sitos de veraneio, casas de segunda residência, hotéis-fazenda, pousadas e spas, que associam seus estabelecimentos aos aspectos naturais da região. Corresponde a uma área de turismo alternativa ao de praia da Costa Verde e do Sol. Nessa área, ocorre uma intensa produção agrícola em bases familiares, centrada em pequenos estabelecimentos, na mão de obra familiar e na baixa tecnificação da lavoura. Produzem alface, brócolis, couve-flor, tomate etc. e acabam tendo uma baixa remuneração pelas suas atividades agrícolas. Na complementação da renda familiar, inserem-se no mercado de trabalho não agrícola, exercendo atividades de jardineiros, caseiros, domésticos, ou trabalhando em empresas sediadas nos municípios da região. Essa área também disponibiliza produtos, como os orgânicos e os hidropônicos, para um mercado consumidor restrito, principalmente à Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Na Região Serrana Fluminense, nota-se a presença marcante de atividades relacionadas ao turismo rural contemporâneo em sintonia com a produção familiar.
O território que engloba as regiões do Médio Vale do Paraíba e Centro Sul Fluminense, além da produção leiteira, contribui com a produção de hortigranjeiros para o abastecimento da RMRJ, mas apresenta como marca na paisagem a atividade cafeeira, com presença das grandes casas nas sedes das fazendas, o que levou os municípios da região a organizarem o “Festival do Vale do Café”. Todavia, não apresenta interatividade com os produtores familiares, que continuam a buscar sua complementação de renda nas indústrias da região, que por sua vez concentra um grande número de empresas do setor metal-mecânico, tendo por exemplo a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) localizada no município de Volta Redonda.
As regiões Norte e Noroeste Fluminense, em função do distanciamento da Região Metropolitana, apresentam fortes características rurais, com a produção de leite, cana-de-açúcar, café e frutas. Esse quadro tem sido alterado com a presença da Petrobrás e seus royalties, que têm proporcionado empregos também para os agricultores dessas regiões. O estabelecimento de um roteiro turístico associado à atividade canavieira é incipiente e encontra resistência por parte dos proprietários das fazendas.
Umas das saídas para os produtores familiares poderia ser a atribuição de indicações geográficas por meio das de procedência e denominação de origem, pois essas “contribuem para a preservação da biodiversidade, do conhecimento e dos recursos naturais. Trazem contribuições extremamente positivas para as economias locais e para o dinamismo regional, pois proporcionam o real significado de criação de valor local” (Giesbrecth et al., 2014, p. 19). No estado do Rio de Janeiro, esse é um processo inicial, com a indicação geográfica para as aguardentes de Paraty, cuja produção “obedece a uma normativa técnica rígida, com produção artesanal, familiar, limites máximos de produção estabelecidos e uma tradição secular” (Giesbrecth et al., 2014, p. 15). Assim como essa tradição de produção de cana de açúcar e cachaça, muitos outros produtos de origem familiar poderiam obter a indicação geográfica.
Outra possibilidade de valorização dos produtores seria o incremento da inserção destes no Programa Nacional de Alimentação Escolar (Lei Federal 11.947/2009), o que possibilitaria a venda de seus produtos às escolas. Esse ainda é um desafio para os produtores fluminenses para que possam inserir seus artigos em mercados locais.
Verificam-se, assim, algumas mudanças em curso na área rural fluminense e que são fortemente marcadas pelo intenso processo de urbanização presente no estado do Rio de Janeiro. Para além das atividades associadas ao turismo, despontam outras possiblidades como a indicação geográfica e a venda em mercados locais com o Programa Nacional de Alimentação Escolar.
Considerações finais
O território fluminense encontra-se marcado por um intenso processo de urbanização (Ribeiro, 2002; Rua, 2002; Santos, 2003), que tem provocado profundas transformações socioespaciais. Entre elas, destacamos as atividades associadas ao turismo rural contemporâneo, com a proliferação de hotéis fazenda, spas, pousadas, casas de segunda residência, e a manutenção e até mesmo o aumento da produção familiar, conforme constatou Seabra (2004), em que o estado do Rio de Janeiro apresenta participação expressiva na comercialização agrícola a partir da CEASA-RJ, especialmente as hortaliças, cuja produção tem aumentado nos últimos anos, como verificado na Região Serrana Fluminense. A proliferação dessas atividades possibilitou aos produtores familiares a inserção em atividades não agrícolas e consequentemente o aumento da renda familiar. Porém, esse processo ocorre nas áreas dos eixos de urbanização e próximo à RMRJ. Nas áreas mais distantes, os produtores familiares continuam na dependência da renda agrícola, enfrentando inúmeros problemas para a realização de suas atividades.
Nesse contexto, o espaço rural fluminense se transforma em decorrência da valorização de seus aspectos naturais e a manutenção da produção agrícola familiar se torna importante para a disseminação da imagem do espaço rural e natural vendido ao turista.
Isso posto, as evidências observadas no estado do Rio de Janeiro nos permitem indicar a exploração dos produtores familiares. Contudo, novas investigações e reflexões devem ser conduzidas para uma melhor reflexão acerca da agricultura familiar, das estratégias desenvolvidas pelos produtores rurais face ao intenso processo de urbanização, sua relação com a metrópole e as novas possibilidades com a indicação geográfica e venda em mercados locais.
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