Roube como um artista: 10 dicas sobre criatividade

Parte 4: Use suas mãos

4: USE

SUAS MÃOS.

“Não sabemos de onde nossas ideias vêm. O que sabemos é que

elas não vêm dos nossos laptops.”

– John Cleese

SAIA

DA FRENTE

DA TELA.

 

Minha cartunista favorita, Lynda Barry, tem esse ditado: “Em nossa era digital, não esqueça de usar suas digitais!” Suas mãos são os dispositivos digitais originais. Use-as.

 

Mesmo amando meu computador, acho que computadores roubaram o sentimento de que estamos verdadeiramente fazendo coisas. Ao invés disso, parece que estamos apenas batendo em teclas e clicando em botões de mouse. É por isso que o trabalho gerado pelo conhecimento parece tão abstrato. O artista Stanley Donwood, que fez a arte gráfica de todos os álbuns da banda Radiohead desde 1995, diz que computadores são alienantes porque colocam uma placa de vidro entre você e qualquer coisa que esteja acontecendo. “Você nunca pode tocar de verdade o que quer que faça, a não ser que imprima”, diz Donwood.

 

Observe pessoas usando o computador. Elas ficam tão paradas, tão imóveis. Não é preciso um estudo científico (e há vários deles) para dizer que sentar em frente a um computador o dia inteiro está matando você, e matando seu trabalho. Precisamos nos mover, para sentir que estamos fazendo algo com nossos corpos, não só com nossas cabeças.

 

Trabalho que vem só da mente não é nada bom. Observe um grande músico numa apresentação. Observe um grande líder numa palestra. Você entenderá o que quero dizer.

É preciso encontrar uma maneira de fazer com que nosso corpo seja parte do trabalho. Nossos nervos não são uma rua de mão única – nossos corpos podem dizer aos nossos cérebros tanto quanto nossos cérebros podem dizer aos nossos corpos. Sabe aquela frase, “pôr o corpo para trabalhar”? Isso é o que há de tão legal na criação: Se simplesmente começarmos a nos movimentar, se arranharmos um violão, ou embaralharmos anotações e recados numa mesa de reunião, ou começarmos a modelar barro, a ação dispara nosso cérebro e o leva a pensar.

“Eu tenho olhado tempo demais para os retângulos planos e

brilhantes das telas de computador. Torço para que nos deem mais

tempo para fazer coisas no mundo real... plantar uma planta,

passear com os cachorros, ler um livro de verdade, ir à ópera.” –

Edward Tufte

 

Quando eu participava de workshops de escrita criativa na faculdade, tudo que fazíamos tinha que estar em espaçamento duplo e em fonte Times New Roman. E o que eu produzia era simplesmente horrível. Escrever deixou de ser divertido para mim. O poeta Kay Ryan constata: “Antigamente, antes das disciplinas de escrita criativa, um workshop era um lugar, geralmente um porão, onde se serrava, martelava, perfurava ou esboçava alguma coisa.” O escritor Brian Kiteley gosta de manter seus workshops leais ao sentido original da palavra: “um cômodo iluminado, arejado, cheio de ferramentas e materiais brutos onde a maioria do trabalho é feito usando as mãos”.

 

Foi só quando comecei a trazer ferramentas analógicas de volta ao meu processo, que fazer coisas tornou-se divertido de novo e meu trabalho começou a melhorar. Para o meu primeiro livro, Newspaper Blackout, tentei fazer com que o processo empregasse minhas mãos o máximo possível. Cada poema naquele livro foi feito com um artigo de jornal e uma caneta marca-texto. O processo envolvia a maioria dos meus sentidos: a sensação do jornal impresso nas minhas mãos, a visão de palavras desaparecendo debaixo dos meus traçados, o leve chiado da ponta de feltro da caneta, o odor dos vapores da caneta – havia uma espécie de magia em tudo isso. Quando estava fazendo os poemas, não parecia um trabalho. Era como brincar.

O computador é muito bom para editar suas ideias, e é muito bom para deixá-las prontas para publicar e lançá-las ao mundo, mas não é muito bom para gerar ideias. Há várias oportunidades para pressionar a tecla delete. O computador estimula o perfeccionista perturbado em nós – começamos a editar ideias antes de tê-las. O cartunista Tom Gauld diz que fica longe do computador até ter feito a maior parte da elaboração para suas tiras, porque, assim que o computador entra em cena, “as coisas já se encontram no rumo inevitável da finalização. Enquanto no meu caderno de esboços as possibilidades são infinitas”.

 

Quando chegou a hora de organizar Newspaper Blackout, eu escaneei todos os poemas e os imprimi pequenos, cada um do tamanho de um quarto de uma folha de papel. Então os espalhei pelo meu escritório, rearranjei em pilhas e depois em um monte cuja ordem copiei de volta para o computador. Foi assim que o livro foi feito – primeiro mãos, depois computador, depois mãos e depois computador. Um tipo de loop analógico-digital.

É dessa maneira que tento fazer todo meu trabalho agora. Tenho duas mesas no meu escritório – uma é “analógica” e a outra é “digital”. A mesa analógica não tem nada além de marca-textos, canetas, lápis, papel, cartões e jornal. Nada eletrônico é permitido nela. Ali, grande parte do meu trabalho nasce, e a mesa fica coalhada de rastros físicos, pedaços e resíduos do meu processo. (Diferente de um disco rígido, papel não falha.) A mesa digital tem meu laptop, meu monitor, meu scanner e meu tablet de desenho. Ali edito e publico meu trabalho.

 

Experimente: se você tem o espaço necessário, arrume duas estações de trabalho, uma analógica e outra digital. Mantenha fora de sua estação analógica qualquer coisa eletrônica. Pegue um trocado, vá até a seção de material escolar da loja mais próxima e leve papel, canetas e bloquinhos adesivos. Quando voltar à sua estação analógica, finja que é a hora do ofício. Rabisque no papel, corte-o e cole os pedaços de volta. Fique de pé enquanto trabalha. Com tachinhas, prenda coisas nas paredes e procure por padrões. Espalhe coisas pelo seu espaço e se embrenhe nelas fazendo uma seleção.

 

Assim que começar a ter suas ideias, você poderá se mudar para a sua estação digital e usar o computador para ajudá-lo a executá-las e publicá-las. Quando começar a perder o pique, volte para a estação análógica e brinque.