Rumores da escrita, vestígios do passado: uma interpretação fonológica das vogais do português arcaico

Conclusão

 

 

Ao final da análise das rimas e da grafia das CSM, foi possível obter uma descrição fonológica dos sistemas vocálicos do PA em posição tônica, pretônica e átona final.

No que diz respeito às vogais tônicas do PA, identificamos, no corpus analisado, sete fonemas vocálicos: /a, ε, e, i, o, ɔ, u/. Com base na análise das rimas das CSM, foi possível identificar a distinção de timbre entre as vogais médias, em posição acentuada, do PA. Ao observarmos as possibilidades e impossibilidades de rima no corpus analisado, verificamos que havia, tanto para as vogais médias anteriores quanto para as vogais médias posteriores, a ocorrência de dois fonemas vocálicos sendo representados por um único grafema: <e>, representando /e/ e /ε/, entre as vogais médias anteriores; e <o>, representando /o/ e /ɔ/, entre as vogais médias posteriores.

Além disso, constatamos que a vogal média de alguns termos do PB atual em posição acentuada, tais como eu, meu, Deus, inveja, essa, gloriosa, formosa, jogo, fogo, entre outros exemplos, era pronunciada, no PA, com um timbre vocálico diferente do atual. Todos esses termos constituem casos que representam, no PB atual, uma exceção à regra de substituição das vogais do latim clássico pelas vogais médias do português. Este estudo provou que, no PA, essa regra de substituição, fartamente descrita pelas gramáticas históricas e pelos manuais de filologia do português, fora respeitada. Apenas em um período mais recente da língua portuguesa (posterior ao século XVI, muito provavelmente), houve uma mudança no timbre vocálico dessas palavras que as distanciou de suas formas etimológicas, não nos permitindo identificar, em suas vogais tônicas, um timbre vocálico correspondente à quantidade que possuíam em sua origem latina.

Dessa forma, pode-se dizer que este livro, além de trazer informações a respeito do timbre vocálico com que eram pronunciadas certas palavras, em um momento passado da língua, que não possui registros orais, também traz pistas importantes a respeito da datação do início do período de atuação de certos processos assimilatórios (tais como a metafonia), no contínuo temporal da língua. Este estudo vem afirmar, portanto, que, na segunda metade do século XIII, período em que foram escritas as CSM, o processo tradicionalmente chamado de metafonia ainda não havia atuado sobre a vogal média dos termos aqui analisados, e que, naquele momento da língua, a vogal tônica desses termos conservava o timbre correspondente a seu étimo latino.

No tangente às vogais pretônicas do PA, os dados por nós obtidos apontaram um sistema fonológico constituído de cinco vogais: /a, e, i, o, u/. Foram identificados, no corpus analisado, frequentes casos de variação entre <e> e <i> e entre <o> e <u>, em posição pretônica. Verificamos que os contextos fonético-fonológicos em que ocorreram essas variações gráficas, nas CSM, favorecem o levantamento de vogal pretônica em muitas variedades do PB atual. Esse fato levou-nos a interpretar as variações gráficas identificadas no corpus considerado como possíveis casos de variação fonética entre as vogais pretônicas do PA. Além disso, concluímos que muitos dos processos responsáveis pela elevação da vogal pretônica, no PB atual, como a harmonia vocálica, são bem antigos na língua; parecem atuar desde o século XIII.

Também foi possível verificar que alguns casos de levantamento de vogal pretônica, que se mostravam como variantes fonéticas (ao que tudo indica), no PA, foram incorporados pela fonologia e pela ortografia da língua, ao longo da história do português, em detrimento das variantes com vogal média etimológica, como em vigia, figura, fugir, bulir e destruir. As variações gráficas entre vogal média e vogal alta em posição pretônica, identificadas no corpus analisado, levaram-nos a constatar que, no PA, ocorriam as formas com vogal média etimológica (vegia, fegura, fogir, bolir e destroir), que variavam, muito provavelmente, com vigia, figura, fugir, bulir e destruir, na língua falada no século XIII, em razão do processo de harmonia vocálica.

Este estudo, portanto, além de trazer informações sobre a realização das vogais pretônicas, no PA, traz algumas reflexões sobre as relações que se podem estabelecer entre forma fonética, forma etimológica, forma ortográfica e forma de base, quando se analisa a ocorrência da vogal pretônica em um termo qualquer do português. Também mostra como é possível obter resultados satisfatórios a partir de uma relação entre dados diacrônicos e dados sincrônicos, bem como entre dados de escrita e dados de fala.

É importante ressaltar que, ao buscarmos, na grafia do PA, informações sobre a fala da época, não partimos da pressuposição de que os dados de escrita são mera transcrição da fala, uma vez que temos plena consciência de que esse não é o caso. Tendo em vista que as variações gráficas são recorrentes no corpus analisado, pelo fato de não haver, naquele momento da língua, um padrão ortográfico fixado, procuramos, nessas variações gráficas, "vazamentos" da fala do século XIII. Ao verificarmos que os contextos fonológicos que favoreciam a variação entre vogais pretônicas, nas CSM, eram os mesmos responsáveis pelo levantamento da vogal pretônica em muitas variedades do PB atual, constatamos que a variação gráfica aqui identificada não era gratuita, ao contrário, refletia características da realização fonética das vogais pretônicas no PA.

Pode-se dizer, portanto, que, ao estudarmos as vogais pretônicas do PA, conseguimos estabelecer uma relação entre grafemas e fonemas da língua, assim como entre variação gráfica e variação fonética, e, com base em uma metodologia adequada e uma reflexão fundamentada em contextos fonológicos, obtivemos informações relevantes sobre a realização fonética das vogais pretônicas do PA.

Quanto às vogais átonas finais do PA, os dados obtidos apontaram para um sistema vocálico constituído de três fonemas: /a, e, o/. Constatamos, pois, que, naquele momento da língua, já se verificava a neutralização entre /e/ e /i/, assim como entre /o/ e /u/, em posição átona final, que se verifica no PB atual.

Identificamos, no corpus analisado, alguns casos de variação gráfica entre <e> e <i> postônicos finais. Interpretamos essa variação gráfica como reflexo de possíveis variações fonéticas na realização da vogal /e/ em posição átona final, no PA.

Não foram identificados, nas CSM, casos de variação entre <o> e <u> átonos finais. Consideramos, no entanto, que o fato de não ter ocorrido variação gráfica entre as vogais posteriores em posição postônica final, no corpus analisado, não significa que não havia, no PA, variação fonética envolvendo as vogais [o] e [u] nessa posição do acento. Foram levantadas duas hipóteses para a ausência de variação entre <o> e <u>, em posição átona final, nas CSM: ou a variação não foi registrada por causas morfológicas, já que <o> está, geralmente, associado à marcação do gênero masculino, em português; ou a vogal alta <u> não foi registrada, em posição postônica final, porque naquele momento da língua (século XIII), ao contrário do que ocorre no PB atual, era mais comum a ocorrência de [o] nessa posição do que de [u].

Por fim, ao compararmos nossos resultados com aqueles obtidos por Granucci (2001), na observação das cantigas de amigo, verificamos que o presente estudo confirma os sistemas vocálicos do PA em posição tônica, pretônica e átona final, propostos pela autora, mas também traz novas informações sobre as qualidades vocálicas do PA. Dada a maior extensão e riqueza (lexical e rímica) das CSM, em relação às cantigas de amigo, alguns dados aqui identificados não foram contemplados por Granucci (idem) na análise das cantigas profanas. No caso de vogais médias que apresentavam, no PA, um timbre vocálico diferente daquele que apresentam no PB atual, Granucci (idem) identificou a mudança apenas nos adjetivos mayor (maior), peyor (pior) e melhor (melhor). A autora também não faz referência a variações gráficas entre as vogais pretônicas do PA.

Pode-se dizer, portanto, que este livro não apenas confirma as propostas de Granucci (2001) e de outras estudiosas que se debruçaram sobre os sistemas vocálicos do PA (Mattos e Silva, 2006; Maia, 1997; Ramos, 1985), mas também traz novas informações, sobretudo a respeito da realização das vogais médias em posição tônica, de determinados termos do PA, que passaram por mudanças, ao longo da história da língua, e sobre a variação entre as vogais pretônicas do português falado no século XIII.