Rumores da escrita, vestígios do passado: uma interpretação fonológica das vogais do português arcaico

4 O Sistema vocálico do português arcaico nas Cantigas de Santa Maria

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

4 O Sistema vocálico do português

arcaico nas Cantigas de Santa Maria

 

Neste capítulo, apresentamos aspectos relacionados às vogais tônicas, pretônicas e postônicas do PA, a fim de confirmar ou não os sistemas vocálicos que os estudiosos, mencionados no capítulo 2, apontaram para o PA.

 

Vogais tônicas

No capítulo 2, mostramos que os estudiosos apontam, para o PA, um sistema vocálico constituído de sete vogais, em posição acentuada, que pode ser representado da seguinte maneira:

(4.1)

/i/ /u/

/e/ /o/

/ε/ /ɔ/

/a/

Tendo em vista o que afirmaram os estudiosos sobre o sistema vocálico do PA, o que se pretende, neste capítulo, é verificar o que revelam os dados, coletados a partir da análise das CSM, a respeito do sistema vocálico em posição tônica do PA. Em outras palavras, o objetivo é verificar em que medida o corpus analisado confirma (ou não) a ocorrência de sete vogais tônicas no sistema vocálico do PA.

Primeiramente, é preciso identificar os grafemas utilizados, no corpus em questão, para representar os fonemas vocálicos do PA. Com base na observação das CSM, presentes nas edições organizadas por Mettmann (1986a, 1988, 1989), foram identificados os seguintes grafemas vocálicos em posição acentuada:

(4.2)

 

<a>

<e>

<i> e <y>

<o>

<u>

Conforme se pode observar, com exceção dos grafemas <i> e <y>, que representam, no corpus analisado, o fonema vocálico /i/, os grafemas identificados nas CSM (edição de Mettmann), para o PA, são exatamente os mesmos que se verificam para o PB atual.

O grafema <u> não apresenta grandes dificuldades de interpretação, uma vez que está representando um único fonema (/u/), se considerarmos, para o PA, o sistema vocálico anteriormente indicado, constituído de sete vogais em posição acentuada.

O mesmo pode-se dizer em relação ao grafema <a>, que estaria representando um único fonema (/a/). Contudo, como veremos mais adiante, alguns estudiosos (cf. Maia, 1997; Said Ali, 1964) consideram a possibilidade de haver, no PA, mais de uma realização fonética para a vogal /a/ (a aberto e a fechado), como ocorre no PE atual, em que há, por exemplo, duas realizações possíveis para a vogal baixa do sufixo -amos: uma para os verbos flexionados na primeira pessoa do plural do presente do indicativo, e outra para os verbos, também na primeira pessoa do plural, mas do pretérito perfeito do indicativo; ou, para citar um exemplo do PB atual, quando a vogal /a/ aparece em determinados contextos nasais. Mais adiante, veremos o que nos revelam os dados do PA, coletados das CSM, a respeito do grafema <a> e suas possíveis realizações fonéticas naquele momento da língua.

No que diz respeito às vogais médias, há, no PA, assim como no português atual, apenas dois grafemas para representar os quatro fonemas vocálicos referentes às vogais médias anteriores e posteriores: /e, ε, o, ɔ/, se considerarmos o quadro de sete vogais em posição acentuada que os estudiosos apontaram para o PA.

Pode-se dizer, então, que o que ocorre com os grafemas que representam as vogais médias do PA é exatamente o contrário do que ocorre com os grafemas que representam o fonema /i/, na medida em que há, para a vogal alta anterior (/i/), dois grafemas vocálicos representando um único fonema /i/, enquanto, para as vogais médias, há um único grafema vocálico representando dois fonemas: <e> representando /e/ e /ε/, entre as vogais médias anteriores, e <o> representando /o/ e /ɔ/, entre as vogais médias posteriores. A grafia do PA, assim como a do português atual, não revela, portanto, a diferença de timbre que se verifica entre suas vogais médias em posição tônica.

Se a grafia do PA nada pode revelar a respeito da diferença de timbre entre suas vogais médias em posição acentuada, o recurso a textos poéticos torna-se indispensável, uma vez que a rima de tais textos pode fornecer pistas satisfatórias sobre a ocorrência de vogais médias abertas (/ε, ɔ/) e fechadas (/e, o/), em posição acentuada, em um período remoto da língua, cujo único material disponível para a análise é de natureza escrita, já que não há registros orais da língua falada na época dos trovadores.

 

Vogais médias

Sobre a diferença de timbre entre as vogais médias do PA, Mattos e Silva (2006, p.51) declara:

Quanto à questão da diferença de timbre entre as vogais

médias anteriores e posteriores - /e/ : /ε/ , /o/ : /ɔ/ - neste caso,

estamos diante de uma oposição fonológica e não apenas

fonética. Mesmo a escrita não dando nenhuma pista gráfica, já

que os grafemas são apenas dois para os quatro fonemas, se

pode ter a certeza de que a oposição existia. [...] há rimas da

poesia medieval e, sobretudo, há a correspondência histórica

sistemática, a regra geral, do latim em relação ao português,

com exemplificações em qualquer das gramáticas históricas do

português, apesar das exceções.

Conforme observa a autora, as rimas da poesia medieval podem comprovar a ocorrência de vogais médias abertas e fechadas no sistema fonológico, em posição tônica, do PA. Dessa forma, com base nas rimas das CSM, pretendemos demonstrar que os dois grafemas <e> e <o> representam, na escrita do PA, quatro fonemas vocálicos - /e, ε, o, ɔ/ - referentes às vogais médias anteriores e posteriores do sistema vocálico em posição tônica do PA.

Conforme mencionado anteriormente, baseamo-nos em informações contidas em Betti (1997) e mapeamos, assim, todos os termos que apareciam em posição de rima nas 420 CSM. Em seguida, verificamos as possibilidades e impossibilidades de rima entre vogais representadas por uma mesma letra.

As rimas das CSM, como já observamos, são todas perfeitas, 1e isso significa que, a partir da vogal tônica, todas as vogais e consoantes dos termos que rimam entre si devem ser idênticas - caso contrário, não haveria possibilidade de rima entre esses termos. Dessa forma, ao analisarmos os grupos de termos rimantes entre si, poderemos afirmar, com toda certeza, que, a partir da vogal tônica, as vogais de todos os termos do grupo possuem as mesmas qualidades, ou seja, são idênticas. Da mesma forma, a impossibilidade de rima entre termos constituídos de uma mesma terminação revela a ocorrência de vogais com qualidades fonológicas diferentes, em cada uma das terminações, isto é, a ocorrência de grafemas idênticos representando fonemas distintos - exatamente a informação que pretendemos buscar no corpus analisado.

Nesse sentido, a impossibilidade de rima, nas CSM, entre os termos meu e morreu, por exemplo, indica a ocorrência de vogais médias com qualidades fonológicas distintas em cada um dos termos, embora ambos apresentem a mesma terminação -eu, isto é, embora ambos os fonemas sejam representados pelo mesmo grafema <e>. Partindo desse mesmo raciocínio, pode-se afirmar que a possibilidade de rima, no corpus estudado, entre os termos maior e amor, por exemplo, revela a ocorrência de fonemas idênticos em cada uma das terminações, ou seja, a terminação -or do termo maior possui, no PA, exatamente o mesmo fonema vocálico que compõe a terminação -or do termo amor - diferentemente, portanto, do que ocorre no PB atual, em que as terminações dos termos amor e maior são constituídas de fonemas vocálicos distintos: /o/ e /ɔ/, respectivamente.

 

Vogais médias anteriores

No que diz respeito à realização das vogais médias anteriores do PA, Maia (1997, p.339) declara o seguinte:

À semelhança do que acontece na actual grafia do português e

do galego, o grafema e dos antigos documentos galego-

portugueses podia representar, em sílaba tónica, tanto [ę] como

[e ]. O problema está em saber se a distribuição de [ę] e [e ] é a ˚ ˚

mesma que actualmente.2

No mapeamento das rimas das CSM, organizado por Betti (1997), foram identificadas, entre as rimas com vogal média anterior tônica, sete terminações, a saber -eu, -eo, -er, -era, -eran, -eron e -esse, que compunham termos que não rimavam entre si, nas cantigas medievais religiosas. Partindo dessas terminações, investigamos a ocorrência, no corpus analisado, de dois fonemas distintos (/e/ e /ε/), em posição acentuada, entre as vogais médias anteriores do PA.

No que diz respeito à terminação -eu, identificaram-se os seguintes grupos de palavras: um constituído de verbos da segunda conjugação, flexionados na terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo (por xemplo, morreu, prometeu, perdeu etc.), a que chamaremos de primeiro grupo; e outro, a que chamaremos de segundo grupo, constituído dos pronomes possessivos meu, teu e seu, do pronome pessoal eu, além de outros termos, tais como o substantivo judeu, e apenas um verbo flexionado na terceira pessoa

do singular do pretérito perfeito do indicativo, a forma 3 deu . Os termos presentes em cada grupo rimam entre si nas CSM, mas jamais aparecem rimando com os termos do outro grupo.

A seguir, apresentamos alguns trechos das cantigas medievais religiosas que exemplificam essas possibilidades e impossibilidades de rima no corpus analisado:

(4.3)

A dona mui bon marido perdeu,

e con pesar del per poucas morreu;

mas mal conorto dun fillo prendeu

que del avia, que a fez prennada.

Sempre seja beita e loada

Santa Maria, a noss' avogada.

(3ª estrofe da CSM 17)

(4.4)

Des que foron dentr', assi lles conteceu

que logo San Pedr' ant' o altar varreu,

e aos judeus tan tost' appareceu

omagen da Virgen pintada seer.

Non devemos por maravilla tẽer

d' a Madre do Vencedor sempre vencer.

(10 ª estrofe da CSM 27)

(4.5)

Esto dito, fogiu o judeu;

mai-los diabos, com' aprix eu,

cada un deles logo sinal deu

quando ouveron do om' a sair.

Razon an os diabos de fogir

ant' a Virgen que a Deus foi parir.

(9ª estrofe da CSM 109)

(4.6)

Que me livrou de sas mãos | u era en poder seu;

e porend', enquant' eu viva, | sempre no coraçon meu

a terrei pera servi-la, | e nunca me será greu

de ren que por ela faça, | ca mui ben enpregad' é.

O que diz que servir ome | aa Virgen ren non é,

aquest' é de mal recado | e ome de maa fe.

(11ª estrofe da CSM 311)

A impossibilidade de rima entre os termos do primeiro grupo com os termos do segundo grupo evidencia o fato de haver, na terminação -eu, um único grafema <e> representando dois fonemas vocálicos: /e/ e /ε/. Como no PB atual tanto os verbos flexionados na terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo quanto os pronomes eu, meu, teu, seu, assim como o termo judeu, apresentam, em suas sílabas tônicas, uma vogal média anterior fechada (/e/); a questão que se coloca é a de saber em qual dos grupos rimantes os termos apresentavam, no PA, uma vogal média anterior aberta (/ε/) em suas sílabas tônicas.

Se o estado atual da língua, nesse caso específico, não pode contribuir para a interpretação dos dados do PA, resta-nos recorrer à história da língua, verificando, com base na etimologia de alguns desses termos, o timbre vocálico que suas vogais médias deveriam apresentar, no PA, de acordo com sua origem no latim clássico.

De acordo com as gramáticas históricas e os manuais de filologia do português, a vogal média dos pronomes eu e meu é proveniente de uma vogal média anterior breve (ĕ) do latim clássico: ĕgo e mĕu. Conforme mencionado no capítulo 2, de acordo com as regras de substituição do sistema vocálico do latim clássico pelo sistema vocálico do português, em posição acentuada, todo ĕ latino teria originado, no PA, uma vogal média aberta (/ε/). Nesse sentido, pode-se dizer que os dados históricos levam-nos a acreditar que os pronomes eu e meu apresentavam, no período arcaico, uma vogal média aberta /ε/ em suas sílabas tônicas.

Essas informações ajudam-nos a resolver a questão anteriormente colocada a respeito do timbre vocálico dos termos que compõem os dois grupos identificados para a terminação -eu, a saber: um primeiro constituído de verbos no pretérito perfeito do indicativo, e um segundo de que fazem parte os pronomes eu e meu, entre outros termos. Tendo em vista a etimologia dos pronomes eu e meu, somos levados a acreditar que os termos do segundo grupo apresentavam, no PA, um fonema vocálico /ε/, diferente, pois, daquele que apresentam no PB atual e, por isso, jamais aparecem rimando, no corpus analisado, com os termos do segundo grupo, que apresentam tanto no PA quanto no PB atual uma vogal média fechada (/e/) em suas sílabas tônicas.

Dessa forma, como se pode observar, se identificamos o fonema vocálico presente em apenas dois dos termos do segundo grupo, nem precisamos analisar os demais termos desse grupo para afirmar, com toda certeza, que ocorre, em todos esses termos, a mesma vogal média, ou seja, o fonema vocálico /ε/, já que todos rimam entre si nas CSM.

Não seria necessário, portanto, consultar a etimologia do termo judeu para identificar o timbre que sua vogal média deveria apresentar no PA, já que as rimas das CSM evidenciam a ocorrência de uma vogal média aberta /ε/ na realização desse termo, naquele momento da língua. Entretanto, consultamos a etimologia do termo judeu a fim de obtermos uma última comprovação a respeito do timbre da vogal média presente nos termos do segundo grupo.

De acordo com as gramáticas históricas e os manuais de filologia do português, a vogal média do termo judeu é proveniente do ditongo ae do latim clássico. Conforme mencionado no capítulo 2, o ditongo ae do latim clássico originou, no português, a vogal média aberta /ε/, de acordo com o esquema de substituição das vogais latinas pelas portuguesas em posição acentuada. Dessa forma, não resta a menor dúvida de que os termos do segundo grupo apresentavam, no PA, um fonema vocálico, em posição tônica, diferente daquele que apresentam no PB atual, na medida em que a vogal média dos termos eu, meu, judeu - e de todos os outros termos que compõem o segundo grupo - era pronunciada, no PA, com um timbre vocálico aberto: /ε/.

Williams (1975, p.45), valendo-se também das rimas da poesia medieval, já havia considerado a possibilidade de a vogal média de palavras como eu, meu e judeu ser pronunciada com um timbre vocálico aberto (/ε/), em um momento passado do português, quando afirma, justamente a respeito dos termos eu, meu, judeu e deus, que: "Essas palavras rimam nos primitivos cancioneiros entre si, mas não com a terminação -eu da terceira pessoa do singular dos pretéritos fracos; é, por conseguinte, provável que o e não se tivesse ainda fechado pelo tempo".

Silva Neto (1952, p.413), valendo-se também das rimas de textos poéticos, é categórico ao afirmar que, de fato, a vogal média dessas palavras já foi pronunciada com timbre aberto no português:

Palavras como eu (< ĕgo), meu(<mĕu), teu (< *tĕu, por tŭu), seu(< *sĕu, por suu), deu (< *dédut, por dedit), Deus (< Dĕus), judeu (< judaeu) e outras, correspondentes a e aberto latino, soavam ainda abertas e, por essa razão, não podiam rimar com a 3ª pessoa do singular do pretérito perfeito dos verbos em er: perdeu, temeu.

Fica comprovado, portanto, que os termos do segundo grupo, referente à terminação -eu, apresentavam, no PA, um fonema vocálico diferente daquele que apresentam no PB atual, ou seja, apresentavam o fonema vocálico /ε/, em posição tônica: /ε/u, m/ε/u, s/ε/u, jud/ε/u etc., ao passo que os termos do primeiro grupo apresentavam, no PA, o mesmo fonema vocálico que apresentam no PB atual, isto é, o fonema vocálico /e/: morr/e/u, promet/e/u, perd/e/u etc. Nesse sentido, fica evidenciada não somente a ocorrência de dois fonemas vocálicos distintos entre as vogais médias do PA em posição acentuada, como também a mudança de timbre por que passaram as vogais médias de determinados termos

ao longo da história da língua. No Apêndice A, estão indicados os quadros que apresentam todos os termos identificados no corpus estudado que fazem parte de cada um dos grupos referentes à terminação -eu.

É importante observar que alguns dos termos do primeiro grupo, cujas vogais médias eram pronunciadas com um timbre vocálico aberto (/ε/) no PA, tais como meu, seu e judeu, aparecem também na forma plural (com terminação -eus), no corpus analisado, e rimam com os substantivos Deus, Galileus, Fariseus, entre outros, conforme mostram os exemplos a seguir:

(4.7)

Dizend' aquesto, a Emperadriz, muit' amiga de Deus,

vyu vir ha nave preto de si, chẽa de romeus,

de bõa gente, que non avia y mouros nen judeus.

Pois chegaron, rogou-lles muito chorando dos ollos seus,

dizendo: "Levade-me vosc', ay, amigos meus!"

E eles logo conssigo a foron coller.

Quenas coitas deste mundo ben quiser soffrer,

Santa Maria deve sempr'ante si põer.

(20ª estrofe da CSM 5)

(4.8)

Mas ante les disse: "Ide preegar

o meu Evangeo per cada logar,

e quantos creveren e se batiçar

quiseren de grado, logo serán meus.

Subiu ao ceo o Fillo de Deus

Por dar Parays' aos amigos seus.

Os que non creveren, perdudos serán;

mai-los outros os diabres ditarán

dos omẽes e lenguages falarán

mais que aqueles que albergan romeus,

Subiu ao ceo o Fillo de Deus

Por dar Parays' aos amigos seus.

Nen lles nuzirá se beveren poçon,

e guarrán de todo mal e de lijon

aos enfermos." E aqueste sermon

fez em Mont' Olivete ant' os ebreus.

Subiu ao ceo o Fillo de Deus

Por dar Parays' aos amigos seus.

Pois est' ouve dito, nas nuves subiu,

e a gent' aos ceos subi-lo viu,

que a voz dos angeos logo oyu

que lles diss' assi: "Varões Galileus,

Subiu ao ceo o Fillo de Deus

Por dar Parays' aos amigos seus.

Ena maneira que o veedes dacá

subir ao ceo, ben assi verrá

joyga-lo mund' e os mortos fará

resurgir, que non creen os fariseus."

Subiu ao ceo o Fillo de Deus

Por dar Parays' aos amigos seus.

(trecho da CSM 426)

A possibilidade de rima entre esses termos não só revela a ocorrência do fonema vocálico /ε/, na terminação -eus de todas essas palavras, como também aponta outros exemplos de palavras do português cujas vogais médias mudaram de timbre, ao longo da história da língua, tais como Deus (do latim dĕus), Galileus (do latim galilaeu), Fariseus (do latim pharisaeu). Esses termos rimam entre si, nas CSM, mas jamais aparecem rimando com o termo sandeus, cuja vogal média, segundo Parkinson (2000c), era pronunciada, no

PA, com timbre vocálico fechado (/e/). 4 O quadro que indica todas as rimas em -eus, presentes nas CSM, também está apresentado

no Apêndice A.

Para as demais terminações consideradas (-eo, -er, -era, -eran, -eron e -esse), torna-se mais simples a identificação dos fonemas vocálicos correspondentes ao grafema <e>, uma vez que há uma equivalência entre PA e PB atual no que diz respeito aos fonemas e grafemas vocálicos identificados em cada um dos termos analisados, construídos a partir das referidas terminações. Em outras palavras, ao contrário do que ocorreu com as palavras terminadas em -eu, os termos que compõem cada um dos grupos referentes às terminações -eo, -er, -era, -eran, -eron e -esse apresentavam, no PA, os mesmos fonemas vocálicos que apresentam no PB atual.

Assim, após identificar as possibilidades e impossibilidades de rima entre as palavras com uma mesma terminação, estabelendo, em seguida, dois grupos de termos rimantes entre si, não tivemos grandes dificuldades para descobrir qual fonema vocálico, /e/ ou /ε/, deveria ser atribuído a cada um dos grupos, bastando observar a ocorrência desses termos no PB atual para obter tal informação.

É importante observar que, ao formularmos hipóteses para o PA com base em dados do PB atual, consideramos as seguintes palavras de Maia (1997, p.304): "para interpretar correctamente os textos antigos no que se refere às relações entre grafemas e fonemas, pode constituir, em muitos casos, uma grande ajuda o conhecimento do estado fonológico moderno".

Partindo desse raciocínio, analisamos as vogais médias presentes em cada uma das terminações já referidas. Para terminação -eo, foram identificados dois pequenos grupos de termos rimantes entre si: um primeiro grupo constituído de verbos flexionados na terceira pessoa do singular do pretérito perfeito, tais como viveo, recebeo, respondeo etc., entre outros termos, e um segundo grupo constituído dos substantivos ceo (céu), veo (véu) e ebreo (ebreu), além da forma Aqué o. Os trechos das CSM apresentados a seguir exemplificam essas possibilidades e impossibilidades de rima no corpus estudado:

(4.9)

O estadal enviado, e a muleta viveo.

Quand' esto viu o meno, gran prazer en recebeo

e deu-ll' enton que comesse, e a muleta comeo,

loando todos a Virgen, a que Deus deu avantalla

A que faz o ome morto resorgir sen nulla falla,

ben pode fazer que viva outra morta animalla.

(trecho da CSM 178)

(4.10)

El a dona mais fremosa | d' outra ren viu e meteo

mentes enas sas feituras, | ca o demo o venceo;

e depois do Avangeo | ssa offerta ll' ofereo

a dona e en gẽ ollos | Ile foi a mão beijar.

Quen souber Santa Maria | ben de coraçon amar,

pero o tent' o diabo, | nunca o fará errar.

(3ª estrofe da CSM 206)

(4.11)

Assi guardou a Rea do Ceo

a ssa omagen, que nen sol o veo

tangeu o fogo, come o ebreo

guardou no forno con ssa vestidura.

Torto seria grand' e desmesura

de prender mal da Virgen ssa figura.

(4ª estrofe da CSM 39)

Considerando o estado atual da língua, em que a vogal média anterior, em posição tônica, de verbos flexionados na terceira pessoa do singular do pretérito perfeito do indicativo é pronunciada com um timbre vocálico fechado (/e/), ao passo que a vogal média anterior de monossílabos tônicos como véu e céu, por exemplo, é pronunciada com um timbre vocálico aberto (/ε/), atribuímos o fonema vocálico /e/ aos termos do primeiro grupo, e o fonema vocálico /ε/, aos termos do segundo grupo. Os quadros com todas as rimas em -eo identificadas no corpus analisado estão indicados

no Apêndice A.

No que diz respeito à terminação -er, identificaram-se os seguintes grupos de termos rimantes entre si: um constituído de verbos no infinitivo, tais como comer, vencer, querer, prometer, vender etc., além do substantivo prazer, e outro constituído de verbos também da segunda conjugação, mas flexionados na terceira pessoa do singular do futuro do subjuntivo, tais como disser, quiser, souber,

crever5 etc., ou, no caso do verbo querer, flexionado na terceira pessoa do singular do presente do indicativo (quer), além do substantivo moller (mulher). As rimas a seguir exemplificam algumas dessas possibilidades e impossibilidades de rima no corpus analisado:

(4.12)

De com' o jograr cantava | Santa Maria prazer

ouv', e fez-lle na viola | ha candea decer;

may-lo monge tesoureiro | foi-lla da mão toller,

dizend': "Encantador sodes, | e non vo-la leixaremos".

A Virgen Santa Maria

todos a loar devemos,

cantand' e con alegria,

quantos seu ben atendemos.

(4ª estrofe da CSM 8)

(4.13)

U Deus por Santa Maria este rogo foi fazer,

o frade que era morto foi-ss' en pees log' erger,

e contou ao convento como ss' ouver' a perder,

se non por Santa Maria, a que Deus lo deu en don.

Par Deus, muit' é gran razon

de poder Santa Maria mais de quantos Santos son.

(9ª estrofe da CSM 14)

(4.14)

Seu padre del era morto; mas ha pobre moller

sa madr' era que fiava a lãa mui volonter,

per que ss' ambos governavan; mas quen m'ascoitar quiser,

direi-ll' eu de com' a Virgen quis no meno mostrar.

Como pod' a Groriosa mui ben enfermos sãar,

assi aos que non saben pode todo saber dar.

(2ª estrofe da CSM 53)

(4.15)

E San Tomas lle disse: "Sennor, mui m' é mester,

por que creudo seja desto, se vos prouguer,

que algun sinal aja, que quando o disser

que eu amostrar possa." E ela lle lançou

Des quando Deus sa Madre aos çeos levou,

de nos levar consigo carreira nos mostrou.

(23ª estrofe da CSM 419)

Conforme se pode verificar, basta observar a realização desses termos, no PB atual, para afirmar que o primeiro grupo mencionado é constituído de termos que apresentam, no PA, como no PB atual, o fonema vocálico /e/ em posição tônica, enquanto os termos do segundo grupo apresentam o fonema vocálico /ε/ em suas sílabas

acentuadas. No Apêndice A, estão apresentados os quadros que indicam todos os termos, identificados no corpus analisado, que compõem cada um dos grupos abordados anteriormente para a terminação -er.

No que diz respeito à terminação -era, também foram identificados dois grupos distintos de termos rimantes entre si: o primeiro grupo é constituído de alguns poucos verbos da segunda conjugação flexionados na terceira pessoa do singular do pretérito mais que perfeito do indicativo, tais como prendera, prometera, vendera etc., enquanto o segundo grupo é constituído de outros verbos da segunda conjugação também flexionados na terceira pessoa do singular do pretérito mais que perfeito do indicativo, tais como dissera, trouxera, quisera etc., além da forma verbal era e do substantivo fera, bastante recorrente nas rimas. A seguir, estão apresentados alguns trechos das CSM que exemplificam essas possibilidades e impossibilidades de rima no corpus:

(4.16)

Pois que viu o cavaleiro que ssa font' assi perdera

por prazer da Groriosa, que lla aposto tollera,

deu a erdad' u estava a fonte ond' el vendera

a agu' àquele convento, onde pois foron viçosos.

Tanto son da Groriosa seus feitos mui piadosos,

que fill' aos que an muyto e dá aos menguadosos.

(8ª estrofe da CSM 48)

(4.17)

El nunca quisera

casar, mas mui fera-

mente garçon era;

poren lle fazia ssa luxuriosa

voontade que ouvera

sempr' e boliçosa,

Quena festa e o dia

da mui Groriosa

quiser guardar todavia,

seer-ll-á piadosa.

(3ª estrofe da CSM 195)

Levando-se em conta a ocorrência desses termos no PB atual, pode-se afirmar que os termos do primeiro grupo apresentavam no PA, assim como apresentam no PB atual, uma vogal média fechada /e/ em posição tônica, enquanto os termos do segundo grupo apresentam, tanto no PA quanto no PB atual, um fonema vocálico / ε/, ou seja, uma vogal média aberta em posição tônica. Estão

indicados, no Apêndice A, os quadros com todos os termos com terminação -era identificados nas rimas das CSM.

Para a terminação -eran, foram identificados dois pequenos grupos, ambos constituídos de verbos da segunda conjugação, flexionados na terceira pessoa do plural do pretérito mais que perfeito do indicativo: do primeiro grupo fazem parte apenas os termos encolleran e meteran, e do segundo grupo, as formas verbais poseran, fezeran, manteveran, jouveran, ouveran, trouxeran, preseran, vẽeran e fezeran, além do verbo ser, flexionado na terceira pessoa do plural do imperfeito do indicativo (eran), que aparece uma única vez em posição de rima, no corpus analisado. A seguir, estão indicados alguns exemplos dessas rimas nas CSM:

(4.18)

Que amba-las suas mãos assi s' encolleran,

que ben per cabo dos onbros todas se meteran,

e os calcannares ben en seu dereito

se meteron todos no corpo maltreito.

Da que Deus mamou o leite do seu peito,

non é maravilla de sãar contreito.

(2ª estrofe da CSM 77)

(4.19)

E per Morabe passaron / que ante passad' ouveran,

e sen que perdud' avian / todo quant' ali trouxeran,

atan gran medo da sina / e das cruzes y preseran,

que fogindo non avia /niun redẽa teuda.

Pero que seja a gente/ d'outra lei e descreuda,

as que a Virgen mais aman, / a esses ela ajuda.

(7ª estrofe da CSM 181)

Embora os verbos de ambos os grupos (exceto a forma verbal eran) apresentem, em sua composição, a mesma vogal temática -e e os mesmos morfemas flexionais (-ra, morfema modo-temporal, indicando pretérito mais que perfeito do indicativo, e -n, morfema número-pessoal, indicando terceira pessoa do plural), os verbos do primeiro grupo não podem rimar com os verbos do segundo grupo, porque a vogal temática, presente nos verbos do primeiro grupo, não apresenta a mesma qualidade, em termos fonológicos, da vogal temática presente nos verbos do segundo grupo, isto é, os verbos do primeiro grupo apresentam um fonema vocálico /e/ em posição tônica, enquanto os verbos do segundo grupo apresentam um fonema vocálico /ε/, em suas sílabas acentuadas, tanto no PA quanto no PB atual. Os quadros com todos os termos em -eran

presentes nas rimas das CSM estão indicados no Apêndice A.

Como se pode observar, os verbos do segundo grupo (poseran, fezeran, manteveran, jouveran, ouveran, trouxeran, preseran, vẽeran, fezeran, eran) correspondem à forma plural dos verbos terminados em -era, que faziam parte do segundo grupo referente a essa terminação, anteriormente mencionado neste capítulo. Com exceção das formas verbais era e eran, todos os demais verbos estão flexionados na terceira pessoa do singular (-era) e do plural (-eran) do pretérito maisque-perfeito do indicativo. No caso dos verbos na terceira pessoa do plural, é importante observar que, diferentemente do que acontece no PB atual, esses verbos não se confundem no PA, pelo menos na escrita, com os verbos do pretérito perfeito do indicativo, também flexionados na terceira pessoa do plural, uma vez que esses verbos são representados, no corpus estudado, por terminações diferentes: -eran, para os verbos da segunda conjugação flexionados na terceira pessoa do plural, no mais que perfeito do indicativo, e -eron, para os verbos da segunda conjugação flexionados na terceira pessoa do plural, no perfeito do

indicativo, conforme veremos a seguir.6

Com relação à terminação -eron, os dois grupos identificados, no corpus analisado, eram constituídos de verbos da segunda conjugação flexionados na terceira pessoa do plural do pretérito perfeito do indicativo. Embora ambos os grupos sejam constituídos de verbos com a mesma vogal temática -e, os verbos de um grupo não podem rimar com os verbos do outro grupo, uma vez que a vogal temática dos verbos do primeiro grupo não apresenta a mesma qualidade, em termos fonológicos, da vogal temática dos verbos do segundo grupo, embora ambas sejam representadas pelo mesmo grafema <e>. Comparemos, então, as formas verbais que compõem cada um dos grupos: o primeiro grupo é constituído de verbos como morreron, prenderon, perderon, entre outros, que apresentam, tanto no PA quanto no PB atual, um fonema vocálico /e/ em posição acentuada, ao passo que o segundo grupo é constituído de verbos como fezeron, quiseron, disseron etc., que apresentavam no PA, como apresentam no PB atual, um fonema vocálico /ε/ em posição tônica. Vejamos alguns exem plos dessas possibilidades e impossibilidades de rima nas CSM:

(4.20)

Porque jajũad' avian. Porend' os mouros venceron,

e correron depos eles e mataron e prenderon

todos con quantos lidaron, e chaga non receberon;

poren disseron: "Ai, Virgen, beita sejas, amen."

Maravillo-m' eu com' ousa a Virgen rogar per ren

aquele que as sas festas non guarda e en pouco ten.

(9ª estrofe da CSM 277)

(4.21)

Quand' est' ouveron dito, eno mar a poseron

u a feriss' as ondas, e assi lle disseron:

"A ti e nos deffende destes que non creveron

nen creen no teu Fillo, ca mester nos seria."

Pois aos seus que ama defende todavia,

dereit' é que defenda a ssi Santa Maria.

(9ª estrofe da CSM 264)

Os quadros com todos os termos que compõem as rimas em -eron,

nas CSM, estão apresentados no Apêndice A.

Por fim, temos os dois grupos constituídos de palavras terminadas em -esse: ambos os grupos são formados por verbos da segunda conjugação no imperfeito do subjuntivo. A vogal temática -e, presente nos verbos do primeiro grupo (perdesse, morresse, vivesse etc.), corresponde ao fonema vocálico /e/, tanto no PA quanto no PB atual, enquanto a vogal temática -e, presente nos verbos do segundo grupo (soubesse, quisesse, dissesse etc.), corresponde ao fonema vocálico /ε/. Além dos verbos, foram identificados o pronome demonstrativo esse, entre os termos do primeiro grupo, e o substantivo próprio Jesse, entre os termos do segundo grupo -ambos aparecem em uma única rima das CSM. Os exemplos a seguir demonstram algumas rimas em -esse no corpus analisado:

(4.22)

E de coraçon que a acorresse

lle rogou enton, como non perdesse

seu fill' en prijon, mais que llo rendesse.

E ssa demanda lle foi ben cabuda;

Santa Maria senpr' os seus ajuda

e os acorr' a gran coita sabuda.

(6ª estrofe da CSM 62)

(4.23)

Ca pero a gran beldade

dela fez que a quisesse

o novio de voontad

e e que lle muito prouguesse,

a Virgen de piadade

lle fez que o non fezesse.

E do leit' enton s'ergia

Quen leixar Santa Maria

por outra, fará folia.

(18ª estrofe da CSM 132)

Os quadros com todas as rimas em -esse, identificadas no corpus

analisado, também estão indicados no Apêndice A.

Enfim, tendo em vista os dados apresentados, que indicam as possibilidades e impossibilidades de rima, nas CSM, entre terminações idênticas, construídas a partir de um mesmo grafema <e>, pode-se concluir, a respeito das vogais médias anteriores do PA em posição tônica, que apresentavam, naquele momento da língua, uma distinção de timbre vocálico, na medida em que podiam ser abertas (/ε/) ou fechadas (/e/). Dessa forma, no que diz respeito às vogais médias anteriores do PA, o corpus aqui analisado confirma o sistema vocálico em posição acentuada apresentado pelos estudiosos no capítulo 2: um sistema fonológico em que ocorrem dois fonemas vocálicos, /e/ e /ε/, referentes às vogais médias anteriores - fonemas esses que são representados, tanto no PA quanto no PB atual, por um mesmo grafema <e>.

Com base no corpus analisado, também foi possível constatar que a vogal média anterior, presente em determinados termos do português, mudou de qualidade fonológica ao longo da história da língua, na medida em que foram identificados termos cuja vogal média anterior em posição tônica apresentava um timbre vocálico no PA diferente daquele que apresenta no PB atual. Alguns exemplos dessa mudança de timbre vocálico são os termos meu, seu, teu, eu, judeu, galileu, fariseu, Deus, entre outros. A vogal média anterior presente em todos esses termos era pronunciada, no PA, com um timbre vocálico aberto (/ε/), diferentemente, portanto, do que ocorre no PB atual, em que a vogal média anterior de todos esses termos é pronunciada com um timbre vocálico fechado (/e/).

Todos esses termos são apontados pelas gramáticas históricas e pelos manuais de filologia do português como casos que representam uma exceção à regra de substituição da vogal média breve (ĕ) ou do ditongo ae do latim clássico pela vogal média anterior aberta (/ε/) do português. De acordo com essas gramáticas históricas e esses manuais de filologia do português, esses casos de exceção podem ser explicados pelo processo de metafonia: o timbre vocálico da semivogal u, presente em todos esses termos, teria influenciado o timbre da vogal média anterior, tornando-a mais alta, ou seja, transformando uma vogal média-baixa (/ε/) em uma vogal média-alta (/e/).

Alguns desses estudos consideram a hipótese de a vogal média anterior desses termos apresentar, em um momento passado do português, um timbre vocálico diferente daquele que apresenta no PB atual. Este estudo vem confirmar que a vogal média anterior, presente em todos os termos arrolados, apresentava, no PA, um timbre vocálico diferente daquele que apresenta no PB atual. O presente estudo, portanto, mostra que, no PA, a regra de substituição das vogais do latim clássico pelas vogais médias anteriores do português fora respeitada - pelo menos no que diz respeito à vogal média dos termos anteriormente apontados - e que o processo de metafonia descrito pelos estudiosos teria atuado posteriormente, na história da língua portuguesa, modificando o timbre da vogal média desses termos e tornando-os, assim, uma exceção à regra de substituição fartamente descrita pelos filólogos da língua.

Além dos termos já mencionados, foram identificadas outras palavras, no corpus analisado, cuja vogal média anterior teria mudado de timbre ao longo da história da língua. A primeira dessas palavras é o substantivo enveja (inveja), proveniente do latim invĭdĭa (cf. Machado, 1952, p.1237), que aparece rimando, nas CSM, com verbos do tipo seja e deseja e com o substantivo igreja, cujas vogais tônicas apresentavam, no PA e no PB atual, um timbre fechado (/e/):

(4.24)

Ao demo non pro[u]gue | dest', e con grand' enveja

revolveu a pousada | o que maldito seja;

el que toda maldade | ama sempr' e deseja

fez o prazer em doo | tornar, Ca lle prazia.

Parade mentes ora

como Santa Maria

d' acorrer non demora

a quen por ela fia.

(7ª estrofe da CSM 241)

No Apêndice A, está indicado o quadro com todas as rimas em -eja presentes no corpus analisado. Com base nas rimas das CSM, pode-se constatar que, no PA, a vogal média anterior do termo enveja era pronunciada com um timbre vocálico fechado, respeitando

o esquema de substituição da vogal latina /ĭ/ pela vogal média-alta /e/ do português, não ocorrendo, naquele momento da língua, o seguinte fato citado por Nunes (1960, p.47): "vocábulos há, como [...] enveja [...], em que o ê se acha representado por é".

A ocorrência da vogal média /ε/, no termo inveja do PB atual, também poderia ser explicada pela influência da vogal átona final /a/, que teria aberto o timbre da vogal tônica, tornando-a um grau mais baixa, ou seja, transformando uma vogal média-alta /e/ em uma vogal média-baixa /ε/.

O presente estudo mostra que, no PA, esse processo de assimilação ao timbre da vogal átona pela vogal tônica, tradicionalmente chamado de metafonia, ainda não teria atuado sobre o termo inveja. Maia (1997), em seu rico estudo sobre o PA, valendo-se de uma extensa documentação em prosa não literária, discute a situação de termos como inveja, cuja vogal média da sílaba tônica é proveniente de um ĭ ou ē do latim clássico, mas que apresentam, no português atual, uma vogal média aberta /ε/, por influência da vogal átona final /a/. Maia (idem, p.343) levanta uma questão acerca da datação em que o processo de metafonia teria modificado o timbre da vogal média desses termos, na língua portuguesa:

Como é sabido, o português culto actual tem ę na sílaba tónica

de algumas dessas formas, em virtude da metafonia produzida

por -a que levou à abertura da vogal tónica. [...] Importante

será, pois, determinar a cronologia deste fenómeno metafónico.

Trata-se de um fenómeno relativamente recente na língua,

consumado apenas em época posterior ao século XVI. De

facto, a análise das grafias de João de Barros no que se refere

a formas deste tipo revela invariavelmente vogal fechada, não

aparecendo ainda nenhuma grafia indicadora de vogal aberta.

Sendo assim, parece não haver dúvida de que o grafema e de

formas deste tipo documentadas nos textos portugueses de

Entre-Douro-e-Minho analisados neste trabalho representa

[e˚].7

Conforme se pode observar, Maia (1997) constatou em seu material de estudo que, no PA, a vogal média de termos como enveja ainda era fechada (/e/). Considerando-se o fato de que essa autora analisa dados de escrita tabeliônica (em prosa), remanescente do PA, pode-se dizer que nosso estudo não apenas confirma essa afirmação de Maia (idem), como também reforça a constatação desta, na medida em que trazemos informações baseadas em textos poéticos cujas rimas fornecem pistas muito mais seguras em termos de realização fônica de vogais. A partir do timbre das vogais médias dos termos igreja, seja, deseja, entre outros, com os quais o substantivo enveja aparece rimando nas CSM, pode-se afirmar, com toda certeza, que, naquele momento da língua, século XIII, a vogal média anterior do termo enveja (inveja) era pronunciada com um timbre vocálico fechado (/e/), diferente, pois, daquele que apresenta no PB atual (/ε/).

Ainda com base nas rimas das CSM, foi possível verificar que também a vogal média do pronome demonstrativo essa e do substantivo promessa era pronunciada, no PA, com um timbre vocálico diferente daquele que apresenta no PB atual. Esses termos aparecem rimando, no corpus analisado, com os termos abadessa e condessa, conforme se pode observar a seguir:

(4.25)

[E di log' a essa]

que é abadessa,

que nunca condessa

sigo colleria

que mais proveitosa

lle seja, ca, mia promessa,

non é revoltosa.

Quena festa e o dia

da mui Groriosa

quiser guardar todavia,

seer-ll-á piadosa.

(12ª estrofe da CSM 195)

(4.26)

Sen tod' esto de linnage mui[t]' alt' era, e mellor

falava d'outra moller. E por aquesto a essa

fillou por ssa conpanneira e por ssa aguardador,

porque muito a preçava de sen, a abadessa;

e u quer que ya

ja mais aquela monja | nunca de ssi partia,

ante a metya

en todo-los seus feitos | cada que os fazia.

Do dem' a perfia

nona toll' outra cousa | come Santa Maria.

(2ª estrofe da CSM 285)

A respeito da pronúncia, no PA, do pronome demonstrativo essa, Maia (1997, p.346) declara: "a comprovar a pronúncia com [e ] no ˚ período e na região a que se referem os documentos estudados está o facto de a forma pronominal essa rimar várias vezes com abadessa nos cancioneiros trovadorescos". A autora, portanto, está se valendo das rimas da poesia medieval para dar sustentação às suas constatações, feitas com base em documentação em prosa, remanescente do PA. O quadro com todas as rimas em -essa

presentes nas CSM está indicado no Apêndice A.

Há, ainda, para serem consideradas, as vogais médias do pronome pessoal feminino ela e do pronome demonstrativo aquela, ambas provenientes de um ĭ do latim clássico: ĭlla (cf. Machado, 1952, p.825) e eccu ĭlla (cf. idem p.226), respectivamente. Conforme mencionado no capítulo 2, todo ĭ do latim clássico teria originado, no português, uma vogal média fechada /e/ em posição acentuada. Os pronomes ela e aquela, portanto, representariam uma exceção a essa regra de substituição, e a vogal média aberta /ε/ desses pronomes também seria justificada pela influência da vogal átona final /a/.

Continuar: parte 2 de 5