Rumores da escrita, vestígios do passado: uma interpretação fonológica das vogais do português arcaico
Introdução
A proposta deste livro é oferecer ao leitor uma descrição fonológica das qualidades vocálicas vigentes na primeira fase (período
trovadoresco) do português arcaico1 (doravante, PA), com base na análise das rimas e da grafia das Cantigas de Santa Maria (de agora em diante, CSM), de Afonso X, o Sábio, rei de Leão e Castela, elaboradas na segunda metade do século XIII.
Por meio da análise das rimas de textos poéticos, é possível obter pistas satisfatórias sobre a realização fônica das vogais portuguesas, em um momento passado da língua, do qual não se têm registros orais, já que não havia tecnologia disponível para a gravação da fala. Para Mattos e Silva (2006, p.37), as cantigas medievais fornecem dados essenciais para o conhecimento da língua da época:
O fato de serem poemas de estrutura formal em versos rimados
os torna fundamentais, no que concerne a estudos de história
da língua, para o conhecimento de fatos fonéticos desse
período, como sejam, por exemplo, questões referentes aos
encontros entre vogais (hiatos/ditongos), ao timbre vocálico
(abertura/fechamento), vogais e ditongos nasais/orais.
A relevância da presente obra consiste no fato de não haver, ainda, um estudo detalhado e específico sobre as vogais do PA que tome como base as CSM. Há diversos trabalhos que fazem referência às vogais do período arcaico, mas a maioria deles é de natureza diacrônica, cujo objetivo principal é descrever a história das vogais portuguesas, de um modo geral, não se detendo muito em um momento particular da língua. Dessa forma, pode-se dizer que há muitos estudos sobre a história das vogais portuguesas, mas poucos trabalhos específicos sobre a ocorrência dessas vogais no período arcaico, que visem a uma descrição sincrônica de um momento passado da língua.
As gramáticas históricas do português, por exemplo, como o próprio nome indica, descrevem a história das vogais portuguesas, demonstrando as transformações por que passaram essas vogais ao longo da história da língua: desde o latim clássico até o momento atual do português. As alusões ao PA, quando aparecem nesses estudos, são bastante gerais e concisas, já que o objetivo deles não é apresentar uma descrição sincrônica de sucessivas épocas do português. Enquadram-se, nesses estudos, os tradicionais trabalhos de Williams (1975), Nunes (1960), Silva Neto (1952), Coutinho (1974), Bueno (1967), entre outros.
Entre esses estudiosos, destacam-se Nunes (op. cit.), Williams (1975) e Silva Neto (op. cit.), que fazem algumas considerações a respeito das vogais do PA, com base nas rimas da poesia medieval. Nunes (op. cit., p.53) aponta para o fato de que, no passado, alguns adjetivos do português grafados com -or final, como maior e melhor, eram pronunciados com um o fechado, já que rimavam, na poesia de então, com termos que possuíam, em suas sílabas tônicas, uma vogal média posterior fechada (como amor). Williams (op. cit., p.45) e Silva Neto (op. cit., p.413) afirmam que, no português antigo, palavras como eu, meu, teu, seu, deu, Deus e judeu eram pronunciadas com um e aberto, já que jamais aparecem rimando, nos primitivos cancioneiros, com a terceira pessoa do singular do pretérito perfeito dos verbos terminados em -er (como perdeu e temeu). Os autores, entretanto, apenas mencionam o fato, sem maiores discussões, uma vez que estavam mais preocupados em mostrar que, em algum momento do português, o timbre da vogal média desses termos correspondia à duração da vogal que herdaram do latim clássico, do que em descrever sua realização fônica no PA.
Há alguns (poucos) trabalhos que se dedicam especificamente ao período arcaico, como os conhecidos estudos de Mattos e Silva (2006) e Clarinda Maia (1997). Nenhum deles, no entanto, está particularmente relacionado aos sistemas vocálicos do PA, embora ambas as autoras façam referência às vogais da época. Além disso, as informações fornecidas por Maia (idem), referentes às qualidades vocálicas do PA, não são baseadas na análise de textos poéticos remanescentes daquele período da língua, já que a autora considera como corpus documentos notariais da época.
Conforme observado anteriormente, os textos poéticos, a partir de suas rimas, fornecem pistas muito mais seguras, no que diz respeito à realização fônica de vogais em um momento passado da língua, do que os textos em prosa. Pode-se dizer, portanto, que o presente livro, ao analisar as rimas de um corpus poético (as CSM), poderá trazer informações sobre as vogais do PA que não foram contempladas por Maia (idem), na observação dos textos em prosa não literária.
Especificamente sobre o sistema vocálico do PA, há o trabalho de Granucci (2001), que desenvolveu um estudo como o que se pretende desenvolver aqui. A autora, todavia, considerou como corpus as cantigas de amigo, contidas no Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa, a partir das quais obteve um quadro dos
sistemas vocálicos do PA.2
Consideramos que seria inviável atribuir qualidades vocálicas ao PA com base na observação de um único corpus remanescente daquele período. Os textos poéticos do período trovadoresco podem ser divididos em duas vertentes: uma profana, da qual fazem parte as cantigas de amor, as cantigas de amigo e as cantigas de escárnio e maldizer (cf. Spina, 1991; Tavani, 1993; Massini-Cagliari, 1999, 2007b), e outra religiosa, da qual fazem parte as 420 CSM, que louvam a Virgem e narram seus milagres. Como Granucci (2001) obteve um quadro dos sistemas vocálicos do PA por meio da análise de um corpus profano, que contempla apenas uma das vertentes da poesia trovadoresca (as cantigas de amigo), faz-se necessário observar a ocorrência dessas vogais nas cantigas religiosas, a fim de obter-se um quadro mais completo e seguro dos sistemas vocálicos do PA.
Além disso, estudos revelam que as CSM, em termos de léxico e de rima, são mais ricas do que as cantigas profanas. Leão (2007, p.152-3) chama atenção para a maior riqueza lexical das CSM em relação às cantigas profanas:
Do ponto de vista do léxico, as Cantigas apresentam uma
riqueza imensa (como também, embora em menor grau, as
cantigas de escárnio), pois não se limitam à tópica amorosa
como as cantigas de amigo e de amor. Ao contrário, elas nos
falam não só da vida religiosa, mas da vida em toda a sua
complexidade, constituindo talvez o mais rico documento para o
conhecimento da mentalidade, dos costumes, das doenças, das
profissões, da prostituição, do jogo, dos hábitos monásticos, de
todos os aspectos enfim do quotidiano medieval na Ibéria.
Massini-Cagliari (2005) e Costa (2006) mostram que, no léxico das CSM, há registro de termos proparoxítonos, diferentemente do que ocorre com as cantigas de amigo, em cujo léxico só podem ser identificadas palavras oxítonas e paroxítonas. Esse fato aponta, pois, para uma maior riqueza das cantigas medievais religiosas, em relação às cantigas profanas, no que diz respeito às pautas prosódicas de palavras do PA.
Do ponto de vista das rimas, as CSM também podem ser consideradas mais ricas do que as cantigas de amigo. As rimas das cantigas religiosas são todas perfeitas (soantes), diferentemente do que ocorre com as cantigas de amigo, cujas rimas podem ser perfeitas ou imperfeitas (toantes), de acordo com Granucci (2001). Segundo Goldstein (1985, p.44), nas rimas soantes, a partir da vogal tônica, todas as vogais e consoantes possuem a mesma qualidade, enquanto, nas rimas toantes, apenas as vogais tônicas são semelhantes (pinno/ amigo e ramo/amado, por exemplo, nas cantigas de amigo).
Dessa forma, pode-se dizer que as rimas presentes nas CSM contribuem muito mais para o estudo das qualidades vocálicas do PA do que as rimas das cantigas de amigo, por exemplo, uma vez que as rimas das cantigas religiosas, por serem todas perfeitas, permitemnos inferir que, a partir da vogal tônica, todas as vogais e consoantes dos termos que rimam entre si apresentam a mesma qualidade, em termos fonológicos, bastando conhecer a qualidade vocálica de apenas um desses termos, no período arcaico, para descobrir a qualidade vocálica dos demais termos do grupo rimante.
Nesse sentido, sendo as cantigas religiosas muito mais ricas em temática e formatos poéticos do que as cantigas profanas, nosso objetivo é desenvolver, com base na análise das CSM, um estudo complementar ao desenvolvido por Granucci (op. cit.), a fim de encontrar novas informações e confirmar ou não aquelas identificadas pela autora na observação das cantigas de amigo. Dessa forma, será possível obter uma descrição mais completa e segura dos sistemas vocálicos da língua falada, em Portugal e Galiza, na época dos trovadores, ao compararmos suas duas vertentes: a profana e a religiosa.
Neste livro, foi considerada a edição de Mettmann (1986a, 1986b, 1989) das CSM. São quatro os códices originais contendo as cantigas da coleção afonsina: o códice de Toledo (To), o códice rico de El Escorial (T), o códice de Florença (F) e o códice dos músicos de El Escorial (E). Também foram consultados os microfilmes dos quatro manuscritos originais, bem como as edições fac-similadas dos manuscritos de Toledo e do Escorial, quando persistiram algumas dúvidas, mesmo após consultar a edição de Mettmann (idem).
O estudo de um momento passado da língua pode trazer informações relevantes para a compreensão de muitos fenômenos recorrentes em seu estado atual. A esse respeito, Mattos e Silva (2006, p.48) declara:
a teoria da gramática do gerativismo atual começa a considerar
fatos pretéritos das línguas como argumentos significativos para
a construção de gramáticas possíveis para as línguas naturais;
a teoria da mudança da Sociolingüística considera que o
passado pode informar sobre as variações e mudanças em
curso no presente, da mesma forma que a análise de variação
e mudança no presente abre caminhos para uma melhor
interpretação de fatos do passado.
Pode-se dizer, portanto, que este livro, ao apresentar uma descrição fonológica das vogais do PA, também traz informações que poderão contribuir para o estudo dos sistemas vocálicos do português brasileiro atual (doravante, PB), na medida em que muitos dos processos identificados entre as vogais do período arcaico, principalmente no que diz respeito ao levantamento de vogal pretônica, por exemplo, podem ser identificados no momento atual da língua.
Este livro está estruturado em quatro capítulos. O primeiro está dedicado à delimitação temporal do PA, na história da língua, e à apresentação das principais características do corpus adotado. Nesse capítulo, foram abordadas questões sobre a estruturação, a autoria e a linguagem das CSM. Além disso, ele traz uma breve descrição de cada um dos manuscritos que contêm as cantigas da coleção afonsina.
O segundo capítulo traz o testemunho dos estudiosos a respeito dos sistemas vocálicos do português (arcaico e brasileiro), além de informações sobre a história das vogais portuguesas. Foram considerados, nesse capítulo, além dos estudos específicos sobre as vogais do PA e do PB atual, trabalhos relacionados à história da língua, como as gramáticas históricas e os manuais de filologia do português.
No terceiro capítulo, descrevem-se as metodologias de estudo adotadas. A metodologia empregada na interpretação das vogais tônicas e átonas finais do PA baseia-se no mapeamento de todas as vogais que aparecem em posição de rima, nas CSM, buscando, assim, identificar as qualidades fônicas dessas vogais naquele momento da língua. Para as vogais pretônicas, fez-se um estudo baseado na variação gráfica, com base nas informações contidas no glossário organizado por Walter Mettmann (1972), no qual estão registrados todos os termos, e suas variantes, presentes nas CSM.
No quarto capítulo, são apresentados e interpretados os dados obtidos por nós, com base no corpus considerado. Nesse capítulo, há informações sobre os sistemas vocálicos do PA em posição tônica, pretônica e postônica, por meio da análise das rimas e da grafia das CSM. Por fim, apresentamos as conclusões sobre as qualidades vocálicas do PA e sobre a eficácia da metodologia empregada neste estudo.
1 Optou-se pelo rótulo "português arcaico" em detrimento de "galego-português" porque nosso objetivo é estabelecer o percurso de possíveis mudanças fonológicas no português (e não no galego). É importante observar que, na fase trovadoresca, o galego e o português eram reconhecidos pelos falantes como sendo a mesma língua, embora houvesse, muito provavelmente, variações entre esses dois falares. Sobre isso, Melo (1967, p.114) afirma: "o que até o século XII era a mesma língua já são duas línguas diferentes no século XVI, dois co-dialetos, o português e o galego".
2 O trabalho de Granucci (2001), assim como este livro, está vinculado ao projeto "Fonologia do português: arcaico & brasileiro", registrado no Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq e coordenado pela professora Gladis Massini-Cagliari. Do projeto coletivo, participam alunos da graduação e da pós-graduação da Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (Unesp).