Santarenaida: poema eroi-comico

Francisco de Paula de Figueiredo · Capítulo 8 de 9

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Santarenaida: poema eroi-comico

Canto VII.

Entretanto em Coimbra amotinada

 

Era inda o pasmatorio inexplicavel

 

Por cauza do trovaõ medonho, e orrivel,

 

Que desde os fundamentos abalára

 

As altas cazas, e fizera aos sinos

 

Por si mesmos tocar nos campanarios.

 

Soava Saõ Jeronimo inda em partes,

 

E em outras Santa Barbara bemdita Com espantozos berros; e a vizinha

 

Á timida vizinha inda contava

 

Das viboras de fogo côr de enxofre,

 

Que tortuozas rápidas caíraõ.

 

Os dois obézos vultos, que sozinhos

 

Pelas sombras da noite caminhavaõ

 

Vinhaõ asustadisimos: em bica

 

Lhes corria o suor, e sem falarem

 

Só vinhaõ nas camandolas sebentas

 

Ave Marias mil, e Padre Nosos

Ums apôs outros engolindo a medo.

 

 

A caza em fim xegáraõ, e por terra

 

Depois de averem dado aos Ceos as grasas

 

Pelos ter dos perigos defendido,

 

Entaõ uma Sobrinha por miudo

 

As coizas lhes contou que se pasavaõ.

 

Diselhes, que depois que eles se foraõ

 

Ao seu divertimento, na Cidade

 

Em nenhuma outra coiza se falava

 

Senaõ no grande risco a que seu Tio

Tinha ficado exposto; que entre dentes

 

 

Naõ sei que se rosnava; pois que o Xefe

 

Inimigo tentava armar ocultas,

 

Fraudolentas traisoins; que era precizo

 

Cautela, e mais cautela: acrescentando

 

Que teve ums sonhos (de que Deos nos livre)

 

Mesmo áquele respeito asás funestos.

 

No que naõ creu o Eroi; porem Madama

 

C'o a noticia em extremo intimidada,

 

Asentando que ali avía agoiro,

Fês que viese a caza no outro dia

 

 

Uma ábil Franxinota a lerlhe a sina.

 

Asim foi: uma veio asás jocoza

 

De cabasa, e bordaõ, trincos nas repas

 

Formados em torcidos papelotes,

 

Pálidas maõs, agaloadas unhas,

 

Altas as saias com franjoins de lama,

 

Mursa nos ombros de ensebado coiro

 

Com redondas conxinhas matizada, E um de languidas ábas xapeo ruso

 

Com varios em redor Santiaguinhos

 

No alto da cabesa côr de estriga.

 

Era esta sagacisima, adestrada,

 

Mestra no ultimo ponto em Chiromancias.

 

Olhou, examinou, tomou medidas,

 

Mas viu mil cruzes na polpuda palma

 

Do magnanimo Eroi, mil entrelinhas

 

Cortando inteiras linhas, mil figuras,

 

Mil indicios em fim de agoiro aziago,

De caza em todos toma pose o susto:

 

 

Parese cada cara uma laranja.

 

Porem o Santareno que prezume

 

Ser em materias tais dezabuzado,

 

Que nunca em Bruxas creu, ou Lobizomes,

 

Deita estas coizas para trás das costas.

 

Trata de divertirse, e em mais naõ pensa.

 

Ai de quem da memoria o adagio varre Quem inimigos tem dormir naõ deve!

 

Xegada estava entaõ uma romajem

 

Dia de Pentecoste, onde Coimbra

 

Em pezo aos Olivais sair costuma.

 

He esta uma funsaõ das mais luzidas

 

Daqueles arrabaldes; ali entra

 

Tudo o bom, e bonito; ali se encontra

 

Todo o recreio de qualquer espece.

 

Veemse ali jocozisimas Comedias

 

No amplo teatro do arraial vistozo.

Veemse as Trajedias de orrorozo aspéto

 

A sena ensanguentarem. D'uma parte

 

Esgrimese com ansia a espada preta,

 

D'outra em jogo de páo soa a lambada.

 

Aqui n'umas mezinhas enfeitadas

 

Mosas de arromba, que os tafuis arrastaõ,

 

Vendem d'envolta c'o as xulises torpes

 

Sédiso doce de mil castas feito.

 

Ali nas asadeiras xia a carne:

 

Esta freje a sardinha, aquela os ovos,

Uma vende agua ardente, outra beijinhos.

 

 

A fresca como neve limonada

 

De resto ali se trata: ali triumfante,

 

Como em brilhante trono, sobre um carro

 

De cana, parra, e loiros enramado,

 

Adoradores mil em torno tendo,

 

Vêse a

sine-qua-non

excelsa Pinga.

 

E que peito de páo, que alma de palha Poderá insensivel n'um tal dia

 

Ao recreio negar entrada franca?

 

Um omem de bom senso, e que se préza

 

Ser da onra, e do respeito alumno serio

 

Ha neste dia de trancar insano

 

Em masmorra domestica o seu gosto?

 

Naõ era, o noso Eroi naõ era filho

 

De pai que tal fizese. Espoza cara,

 

Dis ele, he nesesario naõ perdermos

 

Os uzos, e costumes: he xegada

A minha romaria: resta veres

 

 

O que eide merendar; pois tu bem sabes

 

Que nisto da funsaõ consiste o todo.

 

Mas a crédula Espoza, a quem agoiros

 

Sempre grande impresaõ fizeraõ n'alma

 

Aflita com exceso asim lhe argúe:

 

Onde queres tu ir? Tu serás doido?

 

Credo! Apelo eu! Lenho da Crus Santa!

 

Naõ vês, alma de Deus, como danados

Andaõ teus inimigos de alcateia

 

 

A ver se te devoraõ? Tu naõ queres

 

Inda acabar de crer? Eu bem te avizo.

 

Se queres merendar, merenda em caza,

 

Deixa lá ir quem vai á romaria.

 

Bem viste a Franxinota o que te dise

 

Quando lendo te esteve a

buena dicha

.

 

Ai, temos conversado, a Deus Senhora;

Quero ir á romaria, tenho dito

 

(Replíca ele agastado) vá dar ordem

 

A um fardel em termos: ca por ora

 

As Aguas nunca me fizeraõ papo:

 

Naõ temo de nimguem, só de Deus temo.

 

Com efeito apromtouse uma merenda,

 

Que para outro qualquer fôra um banquete.

 

Era uma perna de vitela tenra

 

Com Anjelico molho temperada

 

Segundo os boms preseitos que arte ensina;

(Ele a tinha aprendido com boms Mestres)

 

 

De prezunto era um grande pratarrazio,

 

De porco quatro pés, seis orelheiras,

 

Uma lebre, um leitaõ, sete coelhos,

 

Ou láparos talvês; afóra o lombo

 

Que estivera ate'li de vinho d'alhos

 

Iaõ sinco ou seis pains de imensa mole;

 

Coroando por fim a obra toda

 

Xeia de vinho a pel'd'um bode d'ampla

 

Desmedida grandeza: odre admiravel,

Qual nunca em seus opíparos banquetes

 

 

Teve de Bromio o orelhudo Socio.

 

Mas vem a cada porco um S. Martinho.

 

Em fim he tempo, os duros Fados instaõ,

 

E Lachesis da roca por momentos

 

Vai tirar ao Eroi o ultimo fio.

 

Da partida se trata: a carga opíma

 

Da profuza merenda em dois alforjes

 

Um burro fas vergar: na maõ c'o as contas,

E c'o a borraxa á cinta, o Santareno

 

 

A maguada Espoza prende, e abrasa;

 

E entre doces coloquios até a noite

 

Seguro se despede. Mizerando

 

Que ignora que esta noite ao prazo dada

 

He por ordem dos Ceos a noite eterna!

 

Entaõ tres vezes que dirije os pasos

 

Da porta ao lumiar, tres vezes dentro

 

Se torna perturbado, inquieto, mudo.

 

Preságo o corasaõ dentro no peito

Agitado lhe bate: mil lembransas

 

 

De montaõ o atacaõ: anda, pára,

 

Nem sabe a decizaõ que tomar deva.

 

Mas se o que tem de ser, tem muita forsa,

 

Com eroico valor tanto imbecilho

 

Rompendo finalmente a estrada avansa.