Santarenaida: poema eroi-comico

Francisco de Paula de Figueiredo · Capítulo 9 de 9

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Santarenaida: poema eroi-comico

Canto VIII.

Vai a ultimarse a empreza. Numen terno,

 

Que os influxos nos lúgubres cantares

 

Da Heliconia montanha aos Vates mandas,

 

Para oje acompanhar meu canto triste

 

A minha lira d'évano tempéra,

 

E nas cordas me ensaia os dedos broncos,

 

Q'a impreterivel ordem dos susésos;

 

Ja me fas o sinal de pôr aos olhos A lastimoza sena em que a Desgrasa

 

Deixou que á vergonhoza cobardia

 

Cedese o alto valor d'um peito nobre.

 

O estro se me afraca, o pulso treme...

 

Eu quizera esquivarme ao pezo enorme...

 

Ó Muzas ajudaime. Ja sentado

 

Sobre a relva do campo verdejante

 

Onde da romaria a jente estava

 

Noso Eroi dezabotoava impando

 

Os graúdos botoins da imensa vestia.

Ja mais em ano algum ele sentira

 

Em funsaõ semelhante entre folgares

 

Taõ grande desprazer dentro em si mesmo.

 

Ui lá! q'inda este burro naõ xegase!

 

Valhame Deus, forte tardansa he esta,

 

(Dizia ele lá comsigo mesmo)

 

Nem moso, nem dinheiro, nem garrafa;

 

Máo está o negocio... E asim rosnando.

 

Sentado cada vês mais se aflijia.

 

Levantase, o capote aos ombros puxa,

E gozando do fresco deleitozo,

 

 

Que o zefiro das azas sacodia

 

C'os olhos do concurso em torno gira.

 

A precavida Astucia, que d'um alto

 

Todos seus movimentos atalaia,

 

Entaõ em Môsa feita, de tal sorte

 

Que a sua em carne, e oso ser parese,

 

Sae d'entre o barulho, e contra o Amo

 

Os concertados pasos endireita.

Ora grasas a Deus! Pois inda'gora

 

He que tu la de vir oras axaste?

 

(Lhe dis ele agastado) Morto á sede

 

Ha mais de duas oras aqui posto

 

Sem xegar inda o vinho! Irra c'o a festa!

 

Por onde tems andado? Q'he do burro?

 

Como quem d'um perigo ilezo escapa,

 

Que fica longo tempo, em dezabafo

 

Do aflito corasaõ que á présa bate, Cansado respirando, e da garganta

 

A fala desprender livre naõ pode;

 

Asim depois de um pouco estar ant'ele

 

Descansando arquejante, e fadigada,

 

D'est'arte entre ipotéticos enfados

 

Zangada a Mosa apócrifa responde:

 

Ah Senhor! que me dis? Sabe os trabalhos

 

Q'ese burro nos deu? Olhe a empreitada

 

Melhor naõ pôde ser. Mais de oito vezes

 

Tem caído c'o a carga: eu e o Fernando

Temo-nos visto Gregos: os alforjes

 

 

Vem todos lameados; as casoilas,

 

E frejideiras todas se quebráraõ:

 

(Cada palavra destas piamente

 

Creio que era no Eroi uma facada

 

Segundo as cores mil que ao rosto dava)

 

Os molhos se verteraõ; finalmente

 

Caminhando adiante eu vim mais prestes

 

Somente por pensar que esta tardansa

 

Lhe daria cuidado. E naõ pequeno,

(Torna ele) esa está boa! Esta somente

 

 

A mim he que susede... Paciencia:

 

Que lhe avemos fazer? Eide matarme?

 

Naõ; matese o Diabo. Vai depresa,

 

Que eu tenho muita sede, e estou suado,

 

Buscar meia canada n'uma enfuza,

 

Que eu naõ poso esperar que o odre xegue.

 

E traze do melhor, anda deprésa.

 

A Astucia mais naõ quis ouvir; e dentro Do barulho sumindose contente,

 

O fatidico Vate que a aguardava

 

No aprazado lugar buscando encontra,

 

Mutuos parabems ambos se prestaõ,

 

E sem que dois minutos se esperdisem

 

Em agua o ávido Velho se transforma,

 

E na enfuza se mete. Corre, voa

 

A fatal Portadora. O Santareno

 

Tanto que a enfuza enxérga, ja sem tino

 

As guelas abriu voraginozas, E, sem fazer no gosto algum reparo,

 

Alambazado, e sofrego d'um trago

 

Em vês de vinho foi beber a morte.

 

Dominante entra Próteo. D'improvizo

 

As entranhas do Eroi rujindo estalaõ:

 

Com orrorozas vascas treme o corpo:

 

Os brasos se lhe estrixaõ; torce a boca;

 

Revirados os olhos se lhe vidraõ,

 

Os dedos fexa, estende as pernas, morre.

 

Ah barbaro traidor! Que gloria, ou fama

Defeito taõ atrós, de asaõ taõ crua

 

 

Pertendes alcansar? Sempre em meus versos,

 

Se versos os meus versos sempre forem,

 

Notado tems de ser de vil, de infame.

 

Morreu o Santareno. As longas azas

 

Batendo logo a xocalheira Fama

 

O boato espalhou por toda a parte.

 

Alvorósase o Povo, corre, inquire,

 

E cercaõlhe o cadaver. Escumava, Ainda quente o corpo; e a Morte pálida

 

Ja lhe tinha das faces desbotado

 

O vivo vermelhaõ. Ceos! que terrores,

 

Que frios sustos, que orrorozos pasmos

 

Esta morte naõ cauza á gente toda!

 

Eis uma tumba a multidaõ rompendo

 

Lá o condús em si levando fitos

 

Os tristes olhos da pasmada jente,

 

A funsão se desfás, tudo se abala;

 

E o jeral sentimento nos semblantes Dos calados Romeiros vem pintado.

 

Tal se tira lisaõ destes exemplos!

 

A caza a tumba xega: o povo a porta

 

Rodeia em turbilhoins: toda a familia

 

Frenética rebenta em pranto amargo.

 

Da caza que resoa sem maneira

 

Fere as aureas estrelas o alarido.

 

Ja mais aparesêra em nosos dias

 

De dezordems taõ funebre um teatro!

Mas na Espoza infeliz que alma ferida

 

Ja tinha desde muito, entaõ se acaba

 

De cravar o punhal sangui-sedento.

 

A fala se lhe toma, as cores perde,

 

Suspira, desfalese, em fim desmaia.

 

So a linda Sobrinha, linda mesmo

 

Como Deus a criou, largando as redeas

 

Da violenta paixaõ que sofreava,

 

Insana fere as boxexudas faces, Fórma gritos d'espanto, e as maõs fexando

 

Uma n'outra, indizivel xoradeira

 

Fas nestes termos pouco mais ou menos.

 

Ai Tio da minh'alma! Bem dizía

 

Bem diziamos nós que naõ saíse!

 

Que negra romaria nos foi esta!

 

E que áde ser de mim?... Oh Ceos, eu morro.

 

Ai de mim! Ja (quem tanto me queria)

 

Naõ me ouve aqui xorar mesmo ao pe dele!

 

Ja naõ fala, morreu... Forte desgrasa,

Senhor, forte desgrasa! Quem diria

 

 

Que n'um pouco de vinho fose a morte?

 

Mas ah! que a mim do sonho inda me lembra

 

Que ele os tempos atrás de noite teve!

 

Oh mal-aventurado, triste dia!

 

Nunca tu... E asim continuava

 

Abrindo, e com furor fexando as portas.

 

Em tanto a si tornando a Espoza Eroica

 

O amortalhado corpo apenas pôde Só ver, e abrasar, porque fexada

 

Quis dar á sua magua o dezafogo

 

Que a todos nos ensina a Natureza.

 

Naõ ouve caõ nem gato a quem deixase

 

De custar quatro lagrimas tal perda.

 

Todos, bom Santareno, te xoráraõ:

 

Nas mesmas sentidisimas adegas

 

Ainda oje se veem lagrimejando

 

Os bojudos toneis, as gordas cubas.

Mas que ternura em mim!... Ah! vinde, vinde

 

Minhas lagrimas ternas, que tributo

 

Melhor naõ pagareis á sua memoria.

 

Oh mal aja o primeiro, que das guerras

 

A praga fes cair no pobre mundo:

 

Nefanda praga dos mortais verdugo,

 

Donde veio a dezordem, donde os roubos,

 

Donde a desolasaõ, a mortandade.

 

Ditoza Pás, dos Ceos abitadora,

 

Serena filha da Ventura eterna, Que os mizeros umanos tanto alegras;

 

Se fora mais privado o teu imperio,

 

Se a execranda Discordia naõ ouzára

 

Entrar com maõ armada os teus limites,

 

Lansar neles o orror, destronizarte;

 

Ainda o meu Eroi de glorias xeio

 

Alegrára vivendo os nosos dias.

 

Mas naõ susede asim: est'alma nobre

 

Foi do sosego seu dezaposada

 

No melhor de seus anos: os trabalhos Mais as consumisoins, que de rezerva

 

Dispostos a atacalo andavaõ juntos,

 

Fizeraõ nele o tiro; e o bem-fazejo,

 

O braso liberal que no regaso

 

Da esfaimada Pobreza amplos tezoiros

 

Franquear costumava viu-se a ponto

 

De pegar da espada. Mas que forsa

 

Naõ era a de seu braso? Que grandeza

 

A de seu corasaõ robusto, e forte?

 

Ah! e que Átropos cega, e sem acordo Condene ao mesmo golpe o poltraõ baixo,

 

E o magnanimo Eroi, que a Patria onra!

 

Amigos deste Amigo, se inda o zelo

 

Vos aquese as asoins, eia xoremos,

 

Naõ sejamos ingratos, indolentes:

 

O luto se conhesa, banhe as faces

 

Um saudozo pranto. Quem mais facil

 

Satisfês algum dia, que este Amigo

 

As nosas precizoins? Quando caía

 

Das nuvems gêlo aspérrimo que o sangue

Nas veias encalhava, quando a negra

 

 

Mortal Melancolia o peito inerme

 

Cruel nos abafava, elle benigno

 

Naõ nos dava o remedio, apenas via

 

Junto á porta asomar nosos garotos?

 

A quem mais beneficios, mais louvores

 

Poderemos dever, telhas abaixo?

 

Ai de mim, que naõ poso, ó grande Amigo,

 

Xorar a tua perda incomparavel

 

Com pranto de ti digno! Oh s'eu podera

Gastar agora umor de Carpideira,

 

 

Noite, e dia regára o teu sepulcro.

 

Tu es digno de lagrimas eternas.

 

Eroi sempre invensivel, que fizeste

 

Notar teus aleivozos inimigos,

 

Se venserte quizeraõ, c'o a infame,

 

C'o a dezonroza marca de cobardes;

 

Varaõ constante, que arrostaste os lanses,

 

Qual aguia majestoza arrosta os ventos.

Arrepele os cabelos sibilantes,

 

Que a fronte negra esquálida lhe arreiaõ;

 

Raivoza a lingua morda, dê bramidos

 

Maiores que trovoins a magra Inveja;

 

Tu cantado serás: teu nome egregio

 

Na letárgica veia entre cardumes

 

De populares deslembrados nomes

 

Naufragio naõ fará: em pás descansa,

 

Seja-te leve a terra que te cobre,

 

De teus osos a pás nimguem perturbe.

Deixese ao Tempo revolver a roda:

 

Tems sempre de ser celebre no mundo,

 

Sem que a fama de Heitor te fasa sombra,

 

Sem á dita de Achiles ter inveja.

 

FIM.

 

Pascitur in vivis livor: post fata quiescit,

Cum sùus ex merito quemque tuetur

honos.

Ovid. Am. l. I. E. 15.

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