Santarenaida: poema eroi-comico

Francisco de Paula de Figueiredo · Capítulo 3 de 9

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Santarenaida: poema eroi-comico

Canto II.

Com um taõ importante rompimento

 

Revolvendo mil coizas na lembransa

 

Largos dias andou atrapalhado

 

Da infelice Semele o imberbe filho.

 

A pacifica inercia deleixada

 

Que em descanso puzera este Rei forte

 

O tinha desprovido. O sangue seco

 

Nas pasadas batalhas derramado Se via inda nas lansas nas espadas

 

Ja da negra ferruje carcomidas.

 

Tinhaõ teias de aranha os peitos d'aso,

 

Eraõ ninhos de rato os capasetes.

 

Mas vendo dos aprestos a manobra

 

De seus adversarios, ganha o fogo

 

Que pela longa pás perdido avia.

 

Prestes pasa depois a fazer gente;

 

O imperio se revolve, e os vinheos povos

 

Á vós de seu Senhor ás armas velaõ.

Dobraõ-se sentinelas; os avizos

 

Voando se despedem; e he precizo

 

Ter de acordo na asaõ os mais famozos

 

Insignes Generais em cada Reino.

 

Daqui, bom Santareno, de teus dias

 

Comesou a estreitarse a larga teia.

 

Este o principio foi, estas as cauzas

 

Da tua nunca asás xorada perda.

 

Avia em Portugal um Xefe experto Na sordida Coimbra acastelado:

 

Diziase Joze, mas poucas vezes,

 

Que o brado de seu nome mais notorio

 

Da terra lhe provinha aonde os lasos

 

De Himineu ternamente o tinhaõ prezo.

 

Contase que saindo n'outro tempo

 

Este novo Quixote aventureiro

 

Pelo mundo a ganhar glorioza fama

 

No serviso do Rei dos bravos vinhos,

 

E querendo a uma nova Dulcinea O governo entregar de seus morgados,

 

Ja que a Parca cruel lhe avia feito

 

A vês primeira o tálamo dezerto;

 

Axára em Santarem uma Matrona

 

So digna de um Eroi, so digna dele.

 

Na linhaje do sangue descendia

 

D'onrados Campioins, d'Erois de pinga.

 

Inda nos altos porticos pendentes

 

Conservavaõ-se os ramos de loireiro

 

Sem ter interrupsaõ por brazoins d'armas, Era ela bem talhada, o seu costado

 

Capás era da carga mais enorme.

 

Eraõ as suas faces dois prezuntos,

 

Seu garbo majestozo, o paso grave.

 

Tinha o traje mais simples, mais modesto

 

Das modestas matronas do seu tempo.

 

De baeta um jibaõ de longas abas

 

Lhe cobria a bojuda umanidade.

 

Dos grosos cotovelos lhe pendiaõ

 

Alarves punhos de groseira estopa.

Cingialhe em tres voltas ensebado

 

O carnudo caxaso um cordaõ d'oiro,

 

D'onde so nos Domingos pendurado

 

Se via um rocicler lonjevo, e vasto,

 

Que pela antiguidade que inculcava,

 

Nas ricas enxurradas do diluvio

 

Se asenta ser axado

in illo tempore

.

 

Namorouse o Varaõ, namorouse ela.

 

Uniraõse c'o vinculo sagrado,

E sendo sua Consorte Santarena

 

 

Quis taõbem Santareno apelidarse.

 

He pois precizo a este mandar ordems,

 

Baco perante si fás vir Cilenio,

 

E ufano asim lhe dis com rosto inteiro.

 

Eu tenho neste mundo um vasto imperio:

 

Meu nome em toda a parte, ou mais, ou menos

 

He venerado; mas na Luzitania

 

Tenho o pezo maior de minhas forsas.

Em Coimbra he o centro; ahi rezide

 

O Cabo principal de meus exercitos,

 

O insigne Santareno. Nestes termos

 

Desta guerra he forsozo darlhe parte.

 

Tu pois asim lhe dize: Que abalados

 

Do sopro da Discordia os Povos Áqueos

 

Nos tem guerra jurado, e alta vingansa:

 

Que cumpre rezistirlhes: boms soldados

 

Prezentar em campanha; e dar conserva

 

Ao uzo introduzido, á grata pose

De ser somente o vinho quem nas mezas

 

 

A sede satisfasa; porque he esta

 

A cauza principal de seus rancores.

 

Que eu dele a empreza fio; que entre os Luzos

 

Eu quero que ele só sustente a guerra.

 

Depois um giro faze, e aos meus Soldados

 

De toda a Luzitania que em Coimbra

 

Axarse devaõ logo intíma as ordems.

 

Dise, e partiu voando o mensajeiro, Até que as pandas azas encolhendo,

 

Das letras, e das lamas sobre a Terra

 

Os talares pouzou bordados d'oiro.

 

Era dia d'Entrudo, e nas baiúcas

 

O sujo canjirão vazando as pipas

 

Aos freguezes enxia os grandes copos.

 

Avia um confuzisimo barulho:

 

Ferviaõ da janela as laranjadas:

 

Surriadas, apupos, algazarras,

 

Os esguixos, os pós, o rabo-leva

Tudo em dezordem poim. Vendo Cilenio

 

 

Extravagancias tais pasmado fica.

 

Pensa naõ de Coimbra ver os montes,

 

Sim da fertil Beocia o graõ Citéron

 

Retumbando medonho em noite d'Orgias.

 

Entaõ do incomparavel Santareno

 

Na surtida taverna entre a balburda

 

Da fumoza vinhasa ardia o fogo.

 

Mais meia canadinha

de uma parte

Caído o beiso, e os carregados olhos

 

 

A custo abrindo, c'uma vos fanhoza

 

Pedia um dos da corja amotinada.

 

D'outra parte fazendo uma carranca

 

Sobre tres azeitonas apostava

 

Outro que tal que xuparia um frasco.

 

Qual aos murros andava; qual seis copos

 

Tendo ja feito em cacos, com nos'ama

 

Ateimava furiozo em naõ pagarlhos.

 

Daqui aos encontroins ums vinhaõ vindo

Afétando de serios; esbarravaõ

 

 

Comsigo nas esquinas dali outros.

 

Mas o Filho de Maia cautelozo

 

Opurtuna monsaõ de entrar espreita.

 

Em fim axa uma aberta, lestes rompe,

 

Dá sinal, tem lisensa, á sala sobe,

 

E d'ambos os Espozos poinse á face,

 

Declaralhes quem he, de quem mandado,

 

E da sua Embaixada o fim precizo.

Sem saber o que fasaõ, largo espaso

 

Ficárão um e outro embasbacados.

 

Ele indo com as mãos logo á cabesa

 

Cosávase, e na sordida poltrona

 

Aflito

stare loco nesciebat

:

 

Ela está feito, la melhor compunha

 

O seu recado. Finalmente o tempo

 

Ja fazia dar oras ás barrigas,

 

E devia jantarse. A Liberdade

Entaõ dezempesando as linguas rudes

 

 

A terreiro os tirou, e mais ouzados

 

Entrárão a seu modo a perguntarlhe

 

Alegres sobre Baco muitas coizas,

 

Muitas sobre Sileno. Dos guizados

 

Da meza o xeiro ja neste comenos

 

Consolava os narizes circumstantes.

 

Pedida a taõ grande ospede lisensa

 

Subito se arregasa o Santareno,

 

E rogando o onráse, á cabeseira

Da bem provida meza, instanciozo

 

 

Para um pouco comer fes asentalo.

 

Ja no vidro dos pratos retiniaõ

 

Resaltadas da carne as trinxadelas.

 

(Podiaõse na gula encarnisados

 

Ver os gordos Consortes dando aos buxos

 

Tasalhos de prezunto tremendisimos!)

 

Mastigando apresados resmungavaõ,

 

E do ospede em onra mil saudes Uma apos outra sem sesar faziaõ.

 

Mercurio da franqueza naõ pensada

 

O fausto aparatozo em tal albergue

 

Naõ podia admirar quanto era justo,

 

Porque alem das perguntas enfadonhas

 

A que cortês com présa respondia,

 

De um pouco reparar deixar naõ pôde

 

Nos vetustos paineis enfarruscados

 

Que adornavaõ em roda a estreita sala.

Em um deles se via inda no berso

 

Entregue a Ino o pequenino Baco

 

Tendo as Nimfas em torno, e juntamente

 

As Hiadas, e as Horas. Logo n'outro

 

Ja crescido plantava o bom bacelo,

 

Ja o campo baldio agricultava.

 

Viase mais n'um majestozo quadro

 

O severo rigor de seus castigos.

 

Estava de Licurgo o cazo infando;

 

Mas ja com negra côr, ja roto o pano.

Com tudo ao natural se devizava

 

Golpeando ele mesmo as pernas suas.

 

Aqui o filho de Echion Tebano

 

Pela sua familia enfurecida

 

Se via cruelmente espedasado.

 

Ali de Meduline o parricidio,

 

Mais abaixo Penthêo ás Furias dado.

 

Sobre tudo a fatal metamorfoze

 

Se admirava em leaõ fulvi-comado

 

Nos gigantes cevando ávida sanha.

Mas ja baixando o Sol, surgia a Noite.

 

Trata Mercurio de partirse prestes;

 

Dos gordos Santarenos se despede,

 

Que falando ambos juntos, em confuzo

 

So deixaõ perseber, que descansado

 

Seu Rei pode ficar, que em quanto aos brasos

 

O valor asistir, naõ aõde as Aguas

 

Como pensaõ, levar a sua avante.

 

E como ja nos cascos lhes fervia

 

Em violentos caxoins o ardente sumo

A cabesa fazendolhes pezada

 

 

Dar c'o a barba no peito, e sobre os olhos

 

Carregar importuno o grave sono,

 

Na mal mexida cama empanturrados

 

Ambos foraõ jazer como dois odres.

 

Dormirão toda a noite os boms Alarves

 

Rezupinos roncando a sono solto.

 

Eis lá sobre a manhan um se espreguisa,

 

E fazendo tres cruzes sobre a boca Enormemente aberta o outro acorda.

 

Saõ oras, dis o Eroi roufenhamente,

 

Trazeime eses calsoins, daime ca a vestia.

 

Fora c'o a noite! ha muitos tempos nunca

 

Dormi noite pior! Tudo eraõ pulgas,

 

Tudo sonhos, em fim tudo Diabos,

 

Até, por mais sentir, a Mosazinha

 

No quarto me deixou fexado o gato,

 

Que toda a santa noite andou miando.

 

Eu naõ persenti nada, dis Madama,

Pois foi tal a quebreira, tal o sono,

 

 

Que bem podiaõ arrombar as portas,

 

E sem que eu dése fé. Bem, pois que queres,

 

O marido replíca, se tais sonhos

 

Eu tive, que por mais que quis pôr olho

 

Logo eles me espertavaõ: eu te conto.

 

Sonhei que estava eu na nosa quinta

 

Debaixo da nogueira ao pé da fonte

 

Sobre a relva dormindo a minha sésta:

 

Eis senaõ quando d'uma vala surde

Correndo em torcicolos uma cobra,

 

 

E me entra pela boca: aqui um pulo

 

Dei eu, naõ persebeste? Eu naõ, dis ela.

 

Pois dei um grande pulo, e depois diso

 

Um pouco despertando, em sonolencia

 

Fui tornando a cair. E sonhei muitas

 

Outras grandes desgrasas que me esquesem.

 

Tornou ela a dizer: iso he verdade

 

Ás vezes taõbem tenho tantos sonhos,

 

Que me fazem doer bem a cabêsa.

Porem vaite vestindo, anda deprésa

 

Se queres almosar, que ja he tempo.

 

Tais réplicas, e tréplicas pasadas

 

Em fim a muito custo pos se fora,

 

E na larga cadeira escarranxado

 

Asim dezalojando, á Mulher dise.

 

Ora sabes mui bem, Consorte amada,

 

O onrado avizo que tivemos ontem.

 

O noso Imperador axase aflito

C'o a guerra declarada por Neptuno.

 

 

Eu sou um de seus xefes; e a minh'alma

 

Aspira a coizas grandes. Desta sorte

 

Na dansa estou metido: vou agora

 

As ordems expedir que saõ precizas,

 

Fazer gente com forsa: paciencia!

 

Nós para trabalhar nascemos todos.

 

Dáme cá qualquer coiza; um lombo bonda

 

Bastaõ dois pains, duas canadas bastaõ.

Fes-se bem como um Padre, e muito fresco

 

Saiu a averiguar os seus negocios.